Poemas neste tema
Destino e Superação
Ruy Belo
Para a dedicação de um homem
Terrível é o homem em quem o senhor
desmaiou o olhar furtivo das searas
ou reclinou a cabeça
ou aquele disposto a virar decisivamente a esquina
Não há conspiração de folhas que recolha
a sua despedida. Nem ombro para o seu ombro
quando caminha pela tarde acima
A morte é a grande palavra para esse homem
não há outra que o diga a ele próprio
É terrível ter o destino
da onda anónima morta na praia
desmaiou o olhar furtivo das searas
ou reclinou a cabeça
ou aquele disposto a virar decisivamente a esquina
Não há conspiração de folhas que recolha
a sua despedida. Nem ombro para o seu ombro
quando caminha pela tarde acima
A morte é a grande palavra para esse homem
não há outra que o diga a ele próprio
É terrível ter o destino
da onda anónima morta na praia
11 134
8
Carlos Drummond de Andrade
Consolo Na Praia
Vamos, não chores. . .
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te — de vez — nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te — de vez — nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.
5 487
7
Sophia de Mello Breyner Andresen
Deus Escreve Direito
Deus escreve direito por linhas tortas
E a vida não vive em linha recta
Em cada célula do homem estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desde o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é teu sol tua luz teu alimento
E a vida não vive em linha recta
Em cada célula do homem estão inscritas
A cor dos olhos e a argúcia do olhar
O desenho dos ossos e o contorno da boca
Por isso te olhas ao espelho:
E no espelho te buscas para te reconhecer
Porém em cada célula desde o início
Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade
Pois foste criado e tens de ser real
Por isso não percas nunca teu fervor mais austero
Tua exigência de ti e por entre
Espelhos deformantes e desastres e desvios
Nem um momento só podes perder
A linha musical do encantamento
Que é teu sol tua luz teu alimento
6 376
7
David Mourão-Ferreira
Inscrições Sobre as Ondas
Mal fora iniciada a secreta viagem
um deus me segredou que eu não iria só.
Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que deus me segredou.
um deus me segredou que eu não iria só.
Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que deus me segredou.
5 361
7
Fernando Pessoa
EROS E PSIQUE
EROS E PSIQUE
... E assim vedes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.
Do ritual do Grau de Mestre do Átrio na Ordem Templária de Portugal
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino –
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
(Presença, nº 41-42, Maio de 1934)
... E assim vedes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.
Do ritual do Grau de Mestre do Átrio na Ordem Templária de Portugal
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino –
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
(Presença, nº 41-42, Maio de 1934)
6 762
7
Florbela Espanca
Em Busca do Amor
O meu Destino disse-me a chorar:
“Pela estrada da Vida vai andando;
E, aos que vires passar, interrogando
Acerca do Amor que hás de encontrar”.
Fui pela estrada a rir e a cantar,
As contas do meu sonho desfiando...
E noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui sempre caminhando e perguntando...
Mesmo a um velho eu perguntei: “Velhinho,
Viste o Amor acaso em teu caminho?”
E o velho estremeceu... olhou... e riu...
Agora pela estrada, já cansados
Voltam todos pra trás, desanimados...
E eu paro a murmurar: “Ninguém o viu!...”
“Pela estrada da Vida vai andando;
E, aos que vires passar, interrogando
Acerca do Amor que hás de encontrar”.
Fui pela estrada a rir e a cantar,
As contas do meu sonho desfiando...
E noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui sempre caminhando e perguntando...
Mesmo a um velho eu perguntei: “Velhinho,
Viste o Amor acaso em teu caminho?”
E o velho estremeceu... olhou... e riu...
Agora pela estrada, já cansados
Voltam todos pra trás, desanimados...
E eu paro a murmurar: “Ninguém o viu!...”
5 622
6
Luís de Camões
Erros meus, má fortuna, amor ardente
Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava o amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das cousas que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.
Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa [a] que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.
De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse que fartasse
este meu duro génio de vinganças!
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava o amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das cousas que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.
Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa [a] que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.
De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse que fartasse
este meu duro génio de vinganças!
8 302
6
Almeida Garrett
Seus Olhos
Seus olhos --- se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou ---
Não tinham luz de brilhar.
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.
Divino, eterno! --- e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, num só momento que a vi,
Queimar toda alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.
O que os meus olhos cegou ---
Não tinham luz de brilhar.
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.
Divino, eterno! --- e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, num só momento que a vi,
Queimar toda alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.
8 024
6
Natália Correia
Andar?! Não me custa nada!
Andar?! Não me custa nada!...
Mas estes passos que dou
Vão alongando uma estrada
Que nem sequer começou.
Andar na noite?!Que importa?...
Não tenho medo da noite
Nem medo de me cansar:
Mas na estrada em que vou,
Passo sempre à mesma porta...
E começo a acreditar
No mau feitiço da estrada:
Que se ela não começou
Também não foi acabada!
Só sei que,neste destino,
Vou atrás do que não sei...
E já me sinto cansada
Dos passos que nunca dei.
de Rio de Nuvens (1947)
Mas estes passos que dou
Vão alongando uma estrada
Que nem sequer começou.
Andar na noite?!Que importa?...
Não tenho medo da noite
Nem medo de me cansar:
Mas na estrada em que vou,
Passo sempre à mesma porta...
E começo a acreditar
No mau feitiço da estrada:
Que se ela não começou
Também não foi acabada!
Só sei que,neste destino,
Vou atrás do que não sei...
E já me sinto cansada
Dos passos que nunca dei.
de Rio de Nuvens (1947)
6 086
6
João Apolinário
Primavera nos dentes
Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste
Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste
Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera
4 802
5
D. Pedro II
Ingratos
Não maldigo o rigor da iníqua sorte,
Por mais atroz que fosse e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade,
Quando a dous passos só estou da morte.
Do jogo das paixões minha alma forte
Conhece bem a estulta variedade,
Que hoje nos dá contínua f'licidade
E amanhã nem — um bem que nos conforte.
Mas a dor que excrucia e que maltrata,
A dor cruel que o ânimo deplora,
Que fere o coração e pronto mata,
É ver na mão cuspir a extrema hora
A mesma boca aduladora e ingrata,
Que tantos beijos nela pôs — outrora.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Produções Apócrifas: Sonetos do Exílio
Por mais atroz que fosse e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade,
Quando a dous passos só estou da morte.
Do jogo das paixões minha alma forte
Conhece bem a estulta variedade,
Que hoje nos dá contínua f'licidade
E amanhã nem — um bem que nos conforte.
Mas a dor que excrucia e que maltrata,
A dor cruel que o ânimo deplora,
Que fere o coração e pronto mata,
É ver na mão cuspir a extrema hora
A mesma boca aduladora e ingrata,
Que tantos beijos nela pôs — outrora.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Produções Apócrifas: Sonetos do Exílio
4 576
5
Manuel Bandeira
Epígrafe
Sou bem-nascido. Menino,
Fui, como os demais, feliz.
Depois, veio o mau destino
E fez de mim o que quis.
Veio o mau gênio da vida,
Rompeu em meu coração,
Levou tudo de vencida,
Rugiu como um furacão,
Turbou, partiu, abateu,
Queimou sem razão nem dó —
Ah, que dor!
Magoado e só,
— Só! — meu coração ardeu:
Ardeu em gritos dementes
Na sua paixão sombria...
E dessas horas ardentes
Ficou esta cinza fria.
— Esta pouca cinza fria...
1917
Fui, como os demais, feliz.
Depois, veio o mau destino
E fez de mim o que quis.
Veio o mau gênio da vida,
Rompeu em meu coração,
Levou tudo de vencida,
Rugiu como um furacão,
Turbou, partiu, abateu,
Queimou sem razão nem dó —
Ah, que dor!
Magoado e só,
— Só! — meu coração ardeu:
Ardeu em gritos dementes
Na sua paixão sombria...
E dessas horas ardentes
Ficou esta cinza fria.
— Esta pouca cinza fria...
1917
15 214
5
Flora Figueiredo
Lição de casa
Você tampa a panela,
dobra o avental,
deixa a lágrima secar no arame do varal.
Fecha a agenda,
adia o problema,
atrasa a encomenda,
guarda insucessos no fundo da gaveta.
A idéia é tirar a tarja preta
e pôr o dedo onde se tem medo.
Você vai perceber
que a gente é que faz o monstro crescer.
Em seguida superar o obstáculo,
pois pode-se estar perdendo
um espetáculo acontecendo do outro lado.
Atravessar o escuro
até conseguir tatear o muro,
que é o limite da claridade.
Se tiver capacidade para conquistá-la,
tente retê-la o mais que puder.
Há que ter habilidade, sem esquecer
que a luz é mulher.
Do inferno assim desmascarado,
é hora de voltar.
Não importa se é caminho complicado,
se a curva é reta,
ou se a reta entorta.
Você buscou seu brilho, voltou completa;
jogou a tranca fora, abriu a porta.
dobra o avental,
deixa a lágrima secar no arame do varal.
Fecha a agenda,
adia o problema,
atrasa a encomenda,
guarda insucessos no fundo da gaveta.
A idéia é tirar a tarja preta
e pôr o dedo onde se tem medo.
Você vai perceber
que a gente é que faz o monstro crescer.
Em seguida superar o obstáculo,
pois pode-se estar perdendo
um espetáculo acontecendo do outro lado.
Atravessar o escuro
até conseguir tatear o muro,
que é o limite da claridade.
Se tiver capacidade para conquistá-la,
tente retê-la o mais que puder.
Há que ter habilidade, sem esquecer
que a luz é mulher.
Do inferno assim desmascarado,
é hora de voltar.
Não importa se é caminho complicado,
se a curva é reta,
ou se a reta entorta.
Você buscou seu brilho, voltou completa;
jogou a tranca fora, abriu a porta.
1 845
5
Fernando Pessoa
Encostei-me para trás
Encostei-me
para trás na cadeira de convés e fechei os olhos,
E o meu destino apareceu-me na alma como um precipício.
A minha vida passada misturou-se com a futura,
E houve no meio um ruído do salão de fumo,
Onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez.
Ah,
balouçado
Na sensação das ondas,
Ah, embalado
Na idéia tão confortável de hoje ainda não
ser amanhã,
De pelo menos neste momento não ter responsabilidades nenhumas,
De não ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali,
Em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse.
Ah,
afundado
Num torpor da imaginação, sem dúvida um pouco sono,
Irrequieto tão sossegadamente,
Tão análogo de repente à criança que fui
outrora
Quando brincava na quinta e não sabia álgebra,
Nem as outras álgebras com x e ys de sentimento.
Ah,
todo eu anseio
Por esse momento sem importância nenhuma
Na minha vida,
Ah, todo eu anseio por esse momento, como por outros análogos
---
Aqueles momentos em que não tive importância nenhuma,
Aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência sem
inteligência para o compreender
E havia luar e mar e a solidão, ó Álvaro.
para trás na cadeira de convés e fechei os olhos,
E o meu destino apareceu-me na alma como um precipício.
A minha vida passada misturou-se com a futura,
E houve no meio um ruído do salão de fumo,
Onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez.
Ah,
balouçado
Na sensação das ondas,
Ah, embalado
Na idéia tão confortável de hoje ainda não
ser amanhã,
De pelo menos neste momento não ter responsabilidades nenhumas,
De não ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali,
Em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse.
Ah,
afundado
Num torpor da imaginação, sem dúvida um pouco sono,
Irrequieto tão sossegadamente,
Tão análogo de repente à criança que fui
outrora
Quando brincava na quinta e não sabia álgebra,
Nem as outras álgebras com x e ys de sentimento.
Ah,
todo eu anseio
Por esse momento sem importância nenhuma
Na minha vida,
Ah, todo eu anseio por esse momento, como por outros análogos
---
Aqueles momentos em que não tive importância nenhuma,
Aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência sem
inteligência para o compreender
E havia luar e mar e a solidão, ó Álvaro.
3 591
5
Fernando Pessoa
Quarto: ANTEMANHÃ
O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar,
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou, imundo e grosso,
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»
Na noite de breu ergueu-se a voar,
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou, imundo e grosso,
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»
5 919
5
Albano Dias Martins
Ainda te falta dizer isto
Ainda te falta
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito.
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito.
1 747
4
Bocage
Vós, Crédulos Mortais, Alucinados
Vós, crédulos mortais, alucinados
de sonhos, de quimeras, de aparências
colheis por uso erradas consequências
dos acontecimentos desastrados.
Se à perdição correis precipitados
por cegas, por fogosas, impaciências,
indo a cair, gritais que são violências
de inexoráveis céus, de negros fados.
Se um celeste poder tirano e duro
às vezes extorquisse as liberdades,
que prestava, ó Razão, teu lume puro?
Não forçam corações as divindades,
fado amigo não há nem fado escuro:
fados são as paixões, são as vontades.
de sonhos, de quimeras, de aparências
colheis por uso erradas consequências
dos acontecimentos desastrados.
Se à perdição correis precipitados
por cegas, por fogosas, impaciências,
indo a cair, gritais que são violências
de inexoráveis céus, de negros fados.
Se um celeste poder tirano e duro
às vezes extorquisse as liberdades,
que prestava, ó Razão, teu lume puro?
Não forçam corações as divindades,
fado amigo não há nem fado escuro:
fados são as paixões, são as vontades.
2 631
5
Wisława Szymborska
Amor à primeira vista
Ambos estão convencidos
que os uniu uma paixão súbita.
É bela esta certeza,
mas a incerteza é mais bela ainda.
Julgam que por não se terem encontrado antes,
nada entre eles nunca ainda se passara.
E que diriam as ruas, as escadas, os corredores
onde se podem há muito ter cruzado?
Gostaria de lhes perguntar
se não se lembram —
talvez nas portas giratórias,
um dia, face a face?
algum “desculpe” num grande aperto de gente?
uma voz de que “é engano” ao telefone?
— mas sei o que respondem.
Não, não se lembram.
Muito os admiraria
saber que desde há muito
se divertia com eles o acaso.
Ainda não completamente preparado
para se transformar em destino para eles,
aproximou-os e afastou-os,
barrou-lhes o caminho
e, abafando as gargalhadas,
lá seguiu saltando ao lado deles.
Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.
Haverá talvez três anos
ou terça-feira passada,
certa folhinha esvoaçante
de um braço a outro braço.
Algo que se perdeu e encontrou?
Quem sabe se já uma bola
nos silvados da infância?
Punhos de poeta e campainhas
onde a seu tempo o toque
de uma mão tocou o outro toque.
As malas lado a lado no depósito.
Talvez acaso até um mesmo sonho
que logo o acordar desvaneceu.
Porque cada início
é só continuação,
e o livro das ocorrências
está sempre aberto ao meio.
tradução de Júlio Sousa Gomes
11 866
4
Gonçalves de Magalhães
Napoleão em Waterloo
Tout na manqué que quand tout avait
réussi.
Napoleão em S. Helena (memorial).
Eis aqui o lugar onde eclipsou-se
O Meteoro fatal às régias frontes!
E nessa hora em que a glória se obumbrava,
Além o Sol em trevas se envolvia!
Rubro estava o horizonte, e a terra rubra!
Dous astros ao ocaso caminhavam;
Tocado ao seu zenite haviam ambos;
Ambos iguais no brilho; ambos na queda
Tão grandes como em horas de triunfo!
Waterloo! ... Waterloo! ... Lição sublime
Este nome revela à Humanidade!
Um Oceano de pó, de fogo, e fumo
Aqui varreu o exército invencível,
Como a explosão outrora do Vesúvio
Até seus tetos inundou Pompéia.
O pastor que apascenta seu rebanho;
O corvo que sangüíneo pasto busca,
Sobre o leão de granito esvoaçando;
O eco da floresta, e o peregrino
Que indagador visita estes lugares:
Waterloo! ... Waterloo! ... dizendo, passam.
Aqui morreram de Marengo os bravos!
Entretanto esse Herói de mil batalhas,
Que o destino dos Reis nas mãos continha;
Esse Herói, que coa ponta de seu gládio
No mapa das Nações traçava as raias,
Entre seus Marechais, ordens ditava!
O hálito inflamado de seu peito
Sufocava as falanges inimigas,
E a coragem nas suas acendia.
Sim, aqui stava o Gênio das vitórias,
Medindo o campo com seus olhos de águia!
O infernal retintim do embate de armas,
Os trovões dos canhões que ribombavam,
O sibilo das balas que gemiam.
O horror, a confusão, gritos, suspiros,
Eram como uma orquestra a seus ouvidos!
Nada o turbava! — Abóbadas de balas,
Pelo inimigo aos centos disparadas,
A seus pés se curvavam respeitosas,
Quais submissos leões; e nem ousando
Tocá-lo, ao seu ginete os pés lambiam.
Oh! por que não venceu? — Fácil lhe fora!
Foi destino, ou traição? — Águia sublime
Que devassava o céu com vôo altivo
Desde as margens do Sena até ao Nilo!
Assombrando as Nações coas largas asas,
Por que se nivelou aqui cos homens?
Oh! por que não venceu? — O Anjo da glória
O hino da vitória ouviu três vezes;
E três vezes bradou: — É cedo ainda!
A espada lhe gemia na bainha,
E inquieto relinchava o audaz ginete,
Que soía escutar o horror da guerra,
E o fumo respirar de mil bombardas.
Na pugna os esquadrões se encarniçavam;
Roncavam pelos ares os pelouros;
Mil vermelhos fuzis se emaranhavam;
Encruzadas espadas, e as baionetas,
E as lanças faiscavam retinindo,
Ele só impassível como a rocha,
Ou de ferro fundido estátua eqüestre,
Que invisível poder mágico anima,
Via seus batalhões cair feridos,
Como muros de bronze, por cem raios;
E no céu seu destino decifrava.
Pela última vez coa espada em punho,
Rutilante na pugna se arremessa;
Seu braço é tempestade, a espada é raio!...
Mas invencível mão lhe toca o peito!
É a mão do Senhor! barreira ingente;
Basta, guerreiro, Tua glória é minha;
Tua força em mim stá. Tens completado
Tua augusta missão. — És homem; — pára.
Eram poucos, é certo; mas que importa?
Que importa que Grouchy, surdo às trombetas,
Surdo aos trovões da guerra que bradavam:
Grouchy, Grouchy, a nós, eia, ligeiro;
O teu Imperador aqui te aguarda.
Ah! não deixes teus bravos companheiros
Contra a enchente lutar, que mal vencida
Uma após outra em turbilhões se eleva,
Como vagas do Oceano encapelado,
Que furibundas se alçam, lutam, batem
Contra o penedo, e como em pó recuam,
E de novo no pleito se arremessam.
Eram poucos, é certo; e contra os poucos
Armadas as Nações aqui pugnavam!
Mas esses poucos vencedores foram
Em Iena, em Montmirail, em Austerlitz.
Ante eles o Tabor, e os Alpes curvos
Viram passar as águias vencedoras!
E o Reno, e o Manzanar, e o Adige, e o Eufrates
Embalde à sua marcha se opuseram.
Eram os poucos que jamais vencidos
Os dias seus contavam por batalhas,
E de cãs se cobriram nos combates;
O sol do Egito ardente assoberbaram,
A peste em jafa, a sede nos desertos,
A fome, e os gelos dos Moscóvios campos;
Poucos que se não rendem; — mas que morrem!
Oh! que para vencer bastantes eram!
A terra em vão contra eles pleiteara,
Se Deus, que os via, não dissesse: Basta.
Dia fatal, de opróbrio aos vencedores!
Vergonha eterna à geração que insulta
O Leão que magnânimo se entrega.
Ei-lo sentado em cima do rochedo,
Ouvindo o eco fúnebre das ondas,
Que murmuram seu cântico de morte:
Braços cruzados sobre o largo peito,
Qual náufrago escapado da tormenta,
Que as vagas sobre o escolho rejeitaram;
Ou qual marmórea estátua sobre um túmulo.
Que grande idéia ocupa, e turbilhona
Naquela alma tão grande como o mundo?
Ele vê esses Reis, que levantara
Da linha de seus bravos, o traírem.
Ao longe mil pigmeus rivais divisa,
Que mutilam sua obra gigantesca;
Como do Macedônio outrora o Império
Entre si repartiram vis escravos.
Então um riso de ira, e de despeito
Lhe salpica o semblante de piedade.
O grito ainda inocente de seu filho
Soa em seu coração, e de seus olhos
A lágrima primeira se desliza.
E de tantas coroas que ajuntara
Para dotar seu filho, só lhe resta
Esse Nome, que o mundo inteiro sabe!
Ah! tudo ele perdeu! a esposa, o filho,
A pátria, o mundo, e seus fiéis soldados.
Mas firme era sua alma como o mármor,
Onde o raio batia, e recuava!
Jamais, jamais mortal subiu tão alto!
Ele foi o primeiro sobre a terra.
Só, ele brilha sobranceiro a tudo,
Como sobre a coluna de Vendôme
Sua estátua de bronze ao céu se eleva.
Acima dele Deus, — Deus tão-somente!
Da Liberdade foi o mensageiro.
Sua espada, cometa dos tiranos,
Foi o sol, que guiou a Humanidade.
Nós um bem lhe devemos, que gozamos;
E a geração futura agradecida:
NAPOLEÃO, dirá, cheia de assombro.
réussi.
Napoleão em S. Helena (memorial).
Eis aqui o lugar onde eclipsou-se
O Meteoro fatal às régias frontes!
E nessa hora em que a glória se obumbrava,
Além o Sol em trevas se envolvia!
Rubro estava o horizonte, e a terra rubra!
Dous astros ao ocaso caminhavam;
Tocado ao seu zenite haviam ambos;
Ambos iguais no brilho; ambos na queda
Tão grandes como em horas de triunfo!
Waterloo! ... Waterloo! ... Lição sublime
Este nome revela à Humanidade!
Um Oceano de pó, de fogo, e fumo
Aqui varreu o exército invencível,
Como a explosão outrora do Vesúvio
Até seus tetos inundou Pompéia.
O pastor que apascenta seu rebanho;
O corvo que sangüíneo pasto busca,
Sobre o leão de granito esvoaçando;
O eco da floresta, e o peregrino
Que indagador visita estes lugares:
Waterloo! ... Waterloo! ... dizendo, passam.
Aqui morreram de Marengo os bravos!
Entretanto esse Herói de mil batalhas,
Que o destino dos Reis nas mãos continha;
Esse Herói, que coa ponta de seu gládio
No mapa das Nações traçava as raias,
Entre seus Marechais, ordens ditava!
O hálito inflamado de seu peito
Sufocava as falanges inimigas,
E a coragem nas suas acendia.
Sim, aqui stava o Gênio das vitórias,
Medindo o campo com seus olhos de águia!
O infernal retintim do embate de armas,
Os trovões dos canhões que ribombavam,
O sibilo das balas que gemiam.
O horror, a confusão, gritos, suspiros,
Eram como uma orquestra a seus ouvidos!
Nada o turbava! — Abóbadas de balas,
Pelo inimigo aos centos disparadas,
A seus pés se curvavam respeitosas,
Quais submissos leões; e nem ousando
Tocá-lo, ao seu ginete os pés lambiam.
Oh! por que não venceu? — Fácil lhe fora!
Foi destino, ou traição? — Águia sublime
Que devassava o céu com vôo altivo
Desde as margens do Sena até ao Nilo!
Assombrando as Nações coas largas asas,
Por que se nivelou aqui cos homens?
Oh! por que não venceu? — O Anjo da glória
O hino da vitória ouviu três vezes;
E três vezes bradou: — É cedo ainda!
A espada lhe gemia na bainha,
E inquieto relinchava o audaz ginete,
Que soía escutar o horror da guerra,
E o fumo respirar de mil bombardas.
Na pugna os esquadrões se encarniçavam;
Roncavam pelos ares os pelouros;
Mil vermelhos fuzis se emaranhavam;
Encruzadas espadas, e as baionetas,
E as lanças faiscavam retinindo,
Ele só impassível como a rocha,
Ou de ferro fundido estátua eqüestre,
Que invisível poder mágico anima,
Via seus batalhões cair feridos,
Como muros de bronze, por cem raios;
E no céu seu destino decifrava.
Pela última vez coa espada em punho,
Rutilante na pugna se arremessa;
Seu braço é tempestade, a espada é raio!...
Mas invencível mão lhe toca o peito!
É a mão do Senhor! barreira ingente;
Basta, guerreiro, Tua glória é minha;
Tua força em mim stá. Tens completado
Tua augusta missão. — És homem; — pára.
Eram poucos, é certo; mas que importa?
Que importa que Grouchy, surdo às trombetas,
Surdo aos trovões da guerra que bradavam:
Grouchy, Grouchy, a nós, eia, ligeiro;
O teu Imperador aqui te aguarda.
Ah! não deixes teus bravos companheiros
Contra a enchente lutar, que mal vencida
Uma após outra em turbilhões se eleva,
Como vagas do Oceano encapelado,
Que furibundas se alçam, lutam, batem
Contra o penedo, e como em pó recuam,
E de novo no pleito se arremessam.
Eram poucos, é certo; e contra os poucos
Armadas as Nações aqui pugnavam!
Mas esses poucos vencedores foram
Em Iena, em Montmirail, em Austerlitz.
Ante eles o Tabor, e os Alpes curvos
Viram passar as águias vencedoras!
E o Reno, e o Manzanar, e o Adige, e o Eufrates
Embalde à sua marcha se opuseram.
Eram os poucos que jamais vencidos
Os dias seus contavam por batalhas,
E de cãs se cobriram nos combates;
O sol do Egito ardente assoberbaram,
A peste em jafa, a sede nos desertos,
A fome, e os gelos dos Moscóvios campos;
Poucos que se não rendem; — mas que morrem!
Oh! que para vencer bastantes eram!
A terra em vão contra eles pleiteara,
Se Deus, que os via, não dissesse: Basta.
Dia fatal, de opróbrio aos vencedores!
Vergonha eterna à geração que insulta
O Leão que magnânimo se entrega.
Ei-lo sentado em cima do rochedo,
Ouvindo o eco fúnebre das ondas,
Que murmuram seu cântico de morte:
Braços cruzados sobre o largo peito,
Qual náufrago escapado da tormenta,
Que as vagas sobre o escolho rejeitaram;
Ou qual marmórea estátua sobre um túmulo.
Que grande idéia ocupa, e turbilhona
Naquela alma tão grande como o mundo?
Ele vê esses Reis, que levantara
Da linha de seus bravos, o traírem.
Ao longe mil pigmeus rivais divisa,
Que mutilam sua obra gigantesca;
Como do Macedônio outrora o Império
Entre si repartiram vis escravos.
Então um riso de ira, e de despeito
Lhe salpica o semblante de piedade.
O grito ainda inocente de seu filho
Soa em seu coração, e de seus olhos
A lágrima primeira se desliza.
E de tantas coroas que ajuntara
Para dotar seu filho, só lhe resta
Esse Nome, que o mundo inteiro sabe!
Ah! tudo ele perdeu! a esposa, o filho,
A pátria, o mundo, e seus fiéis soldados.
Mas firme era sua alma como o mármor,
Onde o raio batia, e recuava!
Jamais, jamais mortal subiu tão alto!
Ele foi o primeiro sobre a terra.
Só, ele brilha sobranceiro a tudo,
Como sobre a coluna de Vendôme
Sua estátua de bronze ao céu se eleva.
Acima dele Deus, — Deus tão-somente!
Da Liberdade foi o mensageiro.
Sua espada, cometa dos tiranos,
Foi o sol, que guiou a Humanidade.
Nós um bem lhe devemos, que gozamos;
E a geração futura agradecida:
NAPOLEÃO, dirá, cheia de assombro.
9 180
4
José Albano
Soneto
Poeta fui e do áspero destino
Senti bem cedo a mão pesada e dura.
Conheci mais tristeza que ventura
E sempre andei errante e peregrino.
Vivi sujeito ao doce desatino
Que tanto engana, mas. tão pouco dura;
E ainda choro o rigor da sorte escura,
Se nas dores passadas imagino.
Porém, como me agora vejo isento
Dos sonhos que sonhava noite e dia,
E só com saudades me atormento;
Entendo que não tive outra alegria
Nem nunca outro qualquer contentamento
Senão de ter cantado o que sofria.
Senti bem cedo a mão pesada e dura.
Conheci mais tristeza que ventura
E sempre andei errante e peregrino.
Vivi sujeito ao doce desatino
Que tanto engana, mas. tão pouco dura;
E ainda choro o rigor da sorte escura,
Se nas dores passadas imagino.
Porém, como me agora vejo isento
Dos sonhos que sonhava noite e dia,
E só com saudades me atormento;
Entendo que não tive outra alegria
Nem nunca outro qualquer contentamento
Senão de ter cantado o que sofria.
1 916
4
David Mourão-Ferreira
A secreta viagem
No barco sem ninguém ,anónimo e vazio,
ficámos nós os dois ,parados ,de mão dada ...
Como podem só os dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!
Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais,e de maneira,à proa...
Que figuras de lenda!Olhos vagos,perdidos...
Por entre nossas mâos , o verde mar se escoa...
Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos,sem ver,a longínqua miragem...
Aonde iremos ter?- Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!
Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa ,passa...alheio aos meus sentidos.
-Desfeitos num rochedo ou salvos na ensseada,
a eternidade é nossa ,em madeira esculpidos!
ficámos nós os dois ,parados ,de mão dada ...
Como podem só os dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!
Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais,e de maneira,à proa...
Que figuras de lenda!Olhos vagos,perdidos...
Por entre nossas mâos , o verde mar se escoa...
Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos,sem ver,a longínqua miragem...
Aonde iremos ter?- Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!
Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa ,passa...alheio aos meus sentidos.
-Desfeitos num rochedo ou salvos na ensseada,
a eternidade é nossa ,em madeira esculpidos!
4 128
4
Luís de Camões
Nunca em amor danou o atrevimento
Nunca em amor danou o atrevimento;
Favorece a Fortuna a ousadia;
Porque sempre a encolhida cobardia
De pedra serve ao livre pensamento.
Quem se eleva ao sublime Firmamento,
A Estrela nele encontra que lhe é guia;
Que o bem que encerra em si a fantasia,
São u~as ilusões que leva o vento.
Abrir-se devem passos à ventura;
Sem si próprio ninguém será ditoso;
Os princípios somente a Sorte os move.
Atrever-se é valor e não loucura;
Perderá por cobarde o venturoso
Que vos vê, se os temores não remove.
Favorece a Fortuna a ousadia;
Porque sempre a encolhida cobardia
De pedra serve ao livre pensamento.
Quem se eleva ao sublime Firmamento,
A Estrela nele encontra que lhe é guia;
Que o bem que encerra em si a fantasia,
São u~as ilusões que leva o vento.
Abrir-se devem passos à ventura;
Sem si próprio ninguém será ditoso;
Os princípios somente a Sorte os move.
Atrever-se é valor e não loucura;
Perderá por cobarde o venturoso
Que vos vê, se os temores não remove.
5 616
4
Luís de Camões
Em prisões baixas fui um tempo atado
Em prisões baixas fui um tempo atado,
vergonhoso castigo de meus erros;
inda agora arrojando levo os ferros
que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado.
Sacrifiquei a vida a meu cuidado,
que Amor não quer cordeiros, nem bezerros;
vi mágoas, vi misérias, vi desterros:
parece-me questava assi ordenado.
Contentei-me com pouco, conhecendo
que era o contentamento vergonhoso,
só por ver que cousa era viver ledo.
Mas minha estrela, que eu jágora entendo,
a Morte cega, e o Caso duvidoso,
me fizeram de gostos haver medo.
vergonhoso castigo de meus erros;
inda agora arrojando levo os ferros
que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado.
Sacrifiquei a vida a meu cuidado,
que Amor não quer cordeiros, nem bezerros;
vi mágoas, vi misérias, vi desterros:
parece-me questava assi ordenado.
Contentei-me com pouco, conhecendo
que era o contentamento vergonhoso,
só por ver que cousa era viver ledo.
Mas minha estrela, que eu jágora entendo,
a Morte cega, e o Caso duvidoso,
me fizeram de gostos haver medo.
11 204
4
Gonçalo Anes Bandarra
Trovas Inéditas do Bandarra
Trovas
Inedìtas de Bandarra
Natural da Villa de Francoza.
* * * * *
Que exestião em poder de Pacheco Comtemporaneo de Bandarra e que
se lhe achàrão depois de sua morte.
* * * * *
Londres.
MDCCCXV.
Introduçaõ.
Com grande satisfação recebérão, todos os Portuguezes, assas Cinceros,
e prudentes, as trovas de Gonçallo Annes Bandarra, impressas em Barcellona
em 1809 sobre a edìção de Nantes de 1644. Juntandose, a esta edição
outras, trovas que nunca se tinhão impreço pella defficuldade que havia
de se naõ acharem.
Ficando porem ainda o ardente dezejo em muitas pessoas de verem
impresso o resto (de que havia notìcia de sua existencia) de todas as
trovas de Bandarra; porquè como este hia profetizando, em diverços tempos
durante a sua vida; igualmente por este motivo, apareciao em diverços
tempos, e lugares, e em poder de algumas pessoas, como se vio (por exemplo)
na edição de Nantes de 1644 naõ se ímpremírão senão, aquellas trovas, por
que não aparecerão as que se impremirão, em Barcelona em 1809 (que fazem a
2ª e 3ª parte desta obra) as quaes são, as que se achárão em poder do
Cardeal Nuno da Cunha, e as que tinha o Comissário do Santo officio
Domingos Furtado de Mendonça: e agora depois que se fez a edição acima
ditta de 1809, se acharão na livraria do Ex^mo Sñr........ (omito o seo
nome por motivos particulares) em manuscrito muito antigo! todas as
profecias de Bandarra, não só as que se achão jà impressas, nas duas
ediçoens que jà dicemos, mas tãobem as trovas de que havia noticia, que
tinhão ficàdo em poder de Pacheco, amigo, e comtemporaneo de Bandarra, que
mereceo a este tanto conceito, que foi digno de responder aquelle às
perguntas que lhe fazia, cujas respostas que Bandarra fez a Pacheco são as
que se achão na edição de Barcelona de 1809 desde paginas 60, até, 66, e
como esta obra estava imcompleta, e pella sua natureza merece muita
reflexão a todas as pessoas discretas e assas prudentes; a rogos destes
pois hé que me determinei a mandar impremir, as trovas que o dito Pacheco
tinha em seo poder, ficando desta sorte completa a edição desta obra toda,
de que hà noticia que Bandarra profetizou, assim como tãobem, completos os
ardentes dezejos de todos os Portuguezes Fieis, Cinceros, e Honrados, como
eu que me prézo de ser hum.--
Leal Portuguez.
Quarta parte das Trovas de Bandarra.
1.
Os tempos com crueldade
Começar-se hão a mover,
Se me não engana a verdade
Ali perderão seo ser
No meio de certa idade.
2.
Virà gozando de paz
Aquelle pastor valente,
Hum lobo que guerra faz
Moverà toda a gente
Com huma limgua sagaz.
3.
Logo nas mãos o pastor
Seu cajado tomarà,
Sem mostrar nenhum temor
Contra os lobos que achará
Revestidos de rigor.
4.
Nelles farà tal destroço
Que serà couza de espanto,
Como bravo Touro em cosso
Logo perde tudo quanto
Tinha como pastor moço.
5.
Jà vejo que se desterra
Este pastor sem ventura,
Da patria rebanho, e terra
A huma larga Sepultura
De huma frondoza serra.
6.
O manço gàdo que em páz
Pella ribeira regia,
Jà desgovernàdo traz
Triste sò sem companhia,
Que hum mào concelho faz.
7.
E logo outro pastor
Do pouco gado que achár,
Serà absoluto Senhor,
E serà em quanto durar
A fortuna, e seo rigor.
8.
Serà pastor estrangeiro
O que reja o manço gado
Que taõ bravo foi primeiro
Mas ai que falta o malhado
Que era o principal Carneiro.
9.
De pois que por tempo largo
Este pastor governar
A este rebanho amargo,
Outra vez hà de tornar
A ter o que tinha o cargo.
10.
Haverà novos sinaes
Da parte deste pastor,
Thé os mesmos anímaes
Por seu natural Senhor
Darão suspiros, e ais.
11.
Tornarà a quebràda linha
No Cábo de serta idade,
A encher-se como pinha,
E descubrirà a verdade
Do que encuberto tinha.
12.
Sem pena que damno faça
Tornarà pella ribeira
Pastar o gado na praça,
Por ultima, e derradeira
Dos fados Supréma traça.
13.
Tornarei a recolher
Esta ovelha perdida
A patria que lhe deu ser,
E porei por ella a vida
Sem nunca desfalecer.
14.
Entaõ não me mudarei
Pois conheceis que sou vosso,
Minha ovelha estimarei
Pois de outro modo naõ posso
Alma, e vida lhe darei.
15.
Haverà em triste Cidade
Grande fome peste, e guerra,
Que a Escritura a não erra
Que em tudo falla verdade,
16.
De longas terras virão
Dois Leoens mui asanhádos
Hum de Cruz, e outro não
Vingarão males paçados.
17.
Serão à força da espada
Destruidas mil provincias,
Na Luzitania assollada
Terão fim roubos, e malicias.
18.
Na era de quarenta, é hum
De Janeiro por diante,
Darà fio ao seo montante
Aparelhece cada hum.
19.
O nosso Christianismo
Nossa grande Obrigação,
Não temos mais de Christão,
Do que o nome do Baptismo.
20.
Fazemos dos dias noites
Vivendo como agrestes,
Haverà castigo, e açoutes
Cada qual se faça prestes.
21.
Espantozos movimentos
Havemos cedo dever,
E antes de muitos tempos
Ha de isto de acontecer.
22.
Não haverà em Hespanha
Lugar preveligiado,
Tudo serà assollado
Dessa gente de Alemanha.
23.
Todos os lugares planos
Por terra serão prostrados,
Muitos males, muitos damnos
Haverà pellos peceádos.
24.
As Serras se habitarão
E os Oiteiros mais altos,
Muitas Gentes sahirão
Outros andarão em Saltos.
25.
Andarão como pasmados
Chorando pellos caminhos,
De suas terras lançados
De parentes, e vesinhos.
26.
Então não haverà amigos
Nem pay que por filho seja,
O mais seguro abrigo
Serà acolherse à Igreja.
27.
Nesses tempos os meninos
Ainda que innocentes,
Terão tãobem accidentes
Muito fora dos Caminhos.
28.
Haverà peregrinaçoens
Mortes sem conto de dura,
Males fogos devisoens
Só Deos lhe póde dar cura.
29.
Ha de ser Rey quem fôr
Que em Deos está o saber
O bom, o São, o melhor
Só elle o há de escolher.
30.
Por particular enteresse
Tem chegado o mundo a tanto,
Triste do que lhe parece
Que háde bastar falçomanto.
31.
Os póvos hão de alintar
As culpas dos seos Monarchas,
Que sem nenhum estudar
São Letràdos, e Patriarchas.
32.
Nos Ceos haverà sinaes
Na Terra não faltarão,
Tormentos pennas, e ais
Que aos Ceos penetrarão.
33.
E depois do Leão morto
Não sem falta de mistério,
Aportarà neste porto
Outro com maior Império.
34.
Entrarà com companheiro
Na terra dos Luzitannos,
Cada qual bom Cavalleiro
Destruirão os Arriannos.
35.
Tempos traz tempos virão
Que os Grandes serão baixàdos
Os pequennos exaltádos
Povo, e Rey governarão.
36.
E depois de tantos males
Fomes, pestes devisoens,
Cheios os montes, e Valles
De tristes peregrinaçõens.
37.
Tornarà o Redemptor
A olhar por seo rebanho,
E tello ha com muito amanho
Como bom Rey e Senhor.
38.
Escaparà pouca gente
De tão perigoza dança,
Virà tempo de bonança
Quem viver serà contente.
39.
Vejo vir grandes baleias
Pella costa de Biscaya
Gaia gaia da vezinha praya
Que lhe tingem as areias.
40.
Eis là contra a Norúega
Raios, Cavallos, Golfinhos,
Com que preça que navega
Tanta Cópia de Marinhos.
41.
Vejo milhoens de Relampagos
Trovoens que rompem os ceos
Nuvems de mui grandes véos
Coriscos grandes expantos.
42.
Que mancebo tão formozo
Dà Luz a todo o Emisfério,
Rosto mui digno de Império
Forte, fero, e graciozo.
43.
Iá por força toma a Seora
Cercàdo de Leoens bravos,
Oh que unhas dentes quebrádos
Teme, e treme toda a terra.
44.
Mil rapozas vão dìante
Buscando grutas, e côvàs,
A Lebres, Coelhos dão novas
Que fujão de tal semblante.
45.
Descançame a vista vendo
Hirse o tempo já chegando,
E estarse a Alma alegrando
Com o que vejo, e entendo.
46.
Venha embora o Leão forte
De tantos accompanhádo,
Que affirmão, e tem jurado
Que em que lhe custe a morte
O hão de ver coroado.
47.
Que grandes arribaçoens
São Atums, ou são Sardinhos,
Maiores são que Barquinhas
São Náos, boms Galioens.
48.
Parece que seo caminho
Hé direito a Portugal
Ai se eu mal não advinho
Não vão carregar de Sal.
49.
Que rostos, corpos, e armas,
Quanto fogo, e quanto asso,
No rosto gente do Passo
E Soldados nas Bisarmas.
50.
Ora quero-lhe dizer
Esta cà occupàda a Terra,
Mas poderão responder
Se hé gente de paz, ou guerra.
51.
Hé gente que em si encerra
E aquillo que diz não faz,
Diz guerra, ordena páz
Pergoa paz, e faz guerra.
52.
O Seo Rey quer ser Monarcha
E toda a Terra pertende,
Tudo abrange, e tudo abarca
E do díreito não pende.
53.
Vinde cà Rey Soberanno
Quero vos dezenganar,
Lembro-vos que sois humanno
E que tudo hade acabar.
54.
E que na postreira hora
Quando o mal jà estìver feito,
E não possa ser desfeito
Treme olma, e em vão chora.
55.
Lembre vos o que aconteceo
A Tholedo com o pay
Que já cada hum là vay
E não sei qual pa o ceo.
56.
Quereis vòs a Portugal
Sendo elle nome macho
Ajuda mal por que lhe acho
Muita fémea, e pouco Sal.
57.
Se quizerdes por direito
Deixarse há elle torcer,
Mas forçado hé máo geito
Para se deixar vencer.
58.
Vejo vosso damno perto
Hireis perdendo o reynádo
E tão bem tende por certo
Morrerdes desconsolado
59.
Luzitanna hé chamáda
A Dama que dezejaés,
Ella hé dantes despozada
Perseguilla hé por demais
60.
Ainda que em caza tem
De Ulices tantos povos,
Hir-se hão como os porcos
Ante o Leão que vem.
61.
Esta profecìa hè bella
Mui certa e verdadeira,
Quem tiver boa terceira
Gozarà a Sabia Donzella.
Fim da quarta parte.
Quinta parte das Trovas de Bandarra.
1.
Quando de noite me ponho
A dormir sem me benzer,
Tudo o que háde açuceder
Se me representa em Sonho.
2.
Sempre mandei escrever
Aquillo que me lembrou,
Porque a memoria a postou
De tudo se esquecer.
3.
Nas Trovas que tinha feito
Muito hà que conciderar,
Como o seo tempo chegar
Se vera o meo conceito.
4.
Sempre por thezoiras faço
As minhas contas mui certas,
Portas que hão de estar abertas
Não são boas para o paço.
5.
Eu naõ sou Profeta inteiro
E menos na minha terra,
Mas vejo vir pella Serra
Atraz de hum Lobo hum Cordeiro.
6.
O Sol pello meio dia
Faz o effeito de Geada,
Vejo partir huma armada
Carregáda de agua fria.
7.
Huma grande tempestade
Com o céo muiclaro, e Serenno,
Farà hum hommem moreno
Com rezão mas sem piedade.
8.
A minha trepeça tem
Trez péz mui bem seguros,
Vejo fabricar hums muros
Mas eu naõ sei para quem.
9.
Quem muitos annos durar
Hade ver couzas indignas.
Tocar-se haõ muitas bozinas
Por hommems peixes do már.
10.
Todo o mundo grita, e berra
Cada qual no seo officio,
Pois antes que hum beneficio,
Querem, peste, fome, e guerra.
11.
Quando furo com a Suvella
Coiro groço, e Macio,
Vejo prender no Rocio
Quaze toda a parentella.
12.
Eu tenho medo da morte
Como couza superior,
O Presbitero maior
Naõ háde tornar à Corte.
13.
Annos hãode vir à terra
Em que por nossos peccados,
Nas cazas fiquem os gados
As gentes vivaõ na Serra.
14.
Sempre como os meos feijoens
Quando vem bem temperados,
Vejo no templo os Copados
No Cural os Cappellaens.
15.
Sou Sapateiro, mas Nobre
Com mui pouco Cabedal,
E tu triste Portugal
Quando mais rico, mais pobre.
16.
O (A) que ponho às avessas
Com a perna atraz levantáda,
Hàde ter a mão armàda
Para degollar Cabeças.
17.
Quando a terra dos Falcoens
Certa erva produzir,
Creio se hàde conceguir
O deitar fóra as Lezoens.
18.
De hum brazeiro mui acezo
Damdolhe o vento ligeiro,
Se hàde formar hum pinheiro
Sem ter medida, nem pezo.
19.
O Carro que vai chiando
Por hir muito carregàdo,
Sim mostra o jugo pezado
Mas naõ tira pezo andando.
20.
A Hortela na Panella
Dizem que lhe dà bom gosto,
Essa mulher de bom rosto
Naõ ouço rusnar bem della.
21.
Hespanha muito medroza
A Europa muito enfadada,
Huma mulher de almofada
Sabe como huma rapoza.
22.
As linhas com que cozia
Jà naõ como as de agora,
Temo que se deite fóra
Quem Souber a Ave Maria.
23.
Na era que eu tenho ditto
Nas Thezoiras levantadas,
Se haõde ver muitas jornàdas
Á custa do Saõ Benito.
24.
Naõ pode haver couza boa
Aonde Habita o mal Francez,
Temo o polho Portuguez
Em poder de huma Leoa.
25.
Quando o Leaõ Hispanhol
Vier quase a Portugal,
Háde ser o nosso mal
Querer luzir como o Sol.
26.
Quando a neve como braza
Todas as plantas queimar,
Dous quintos se haõ de ajuntar
Sem haver jogo na caza.
27.
Em hum lugar mais ameno
Cercados de mares groços,
Vive por peccados nossos
Quem se sustenta com feno.
28.
Sempre vem de monte, a monte
As agoas das enxorradas,
E vejo testas coroadas
Sentadas sobre huma ponte.
29.
Quando tiverem por certo
Perdida toda a esperança,
Portugal terá bonança
Na vinda do Encuberto.
30.
Vejo vir pello mar largo
Como quem vem para dentro,
Hum hommem buscar seo centro
Depois de hum grande lethargo.
31.
Quando me matar S. Jorge
E Marcos me reçuscitar,
Saõ Joaõ me exaltar
Faça todo o mundo alforge.
32.
Os pez da minha trepéça
Conta trez vezes areio,
Ajuntalhe dous, e meio
Dizelhe que apareça.
33.
Naõ podeis fazer queixume
De deixar o vosso lár,
Que se do norte ventar
Do Sul vos virà o lume.
34.
Vejo a grifa parideira
Juntada com huma Serpente,
E vejo que muita gente
Tem disto grande canceira.
35.
Vejo o Leão, e a Serpente
Atraz da gente goleima,
Grita o gallo que ateima
Com o Lobo que tem diante.
36.
Já vejo grande mofina
No porqueiro de Sequem,
Que o gado todo está bem
Com o Ovilheiro de Dina.
37.
Vejo a Lua ensanguentada
Pella virtude do Encuberto,
Se està longe, ou se perto
Assim o diz a toada.
38.
Là vem por sima do már
Hum Cavallo de madeira,
Que farà n'huma poeira
O porco que hàde grunhar.
39.
Vijo pedras ajuntar
Là muito perto da Lua
Vejo subir de huma, e huma
E nellas o Sol entrar.
40.
Vejo pello meo Telhado
No Ceo grande resplendor,
Se hé alegria, ou temer
Esdras o tem declarádo.
41.
Vejo o Almocreve tomar
As Alamanhas antigas,
Vejo nascer das ortigas
A remente là do mar
42.
Là donde o Sol vem nascendo
Hum Dragaõ vejo vir vindo,
A seo Cabo vem correndo
Mais bichos que o vem seguindo.
43.
O primeiro depois do quinto
Filho d'Aguia levantada,
Hade estender sua Espàda
Sobre a Galia faminto.
44.
Vejo sahir as Gaivotas
De dentro do nosso Tejo,
Taõbem parece que vejo
As duas por ellas rotas.
45.
Sonho que rebentaõ fontes
Da terra da Promiçaõ,
E que os Gallos de Siaõ
Vaõ fugindo até os montes.
46.
Naõ canta o Gallo com penna
As aguias charão mofina,
A serpente encrespa a clina
Porque Deos assim o ordenna.
47.
Faremos dos dias noites
Vivendo como agrestes,
Haverà castigo, e açoutes
Cada hum se faça prestes.
Fim da quinta parte.
Sexta parte das Trovas de Bandarra.
1.
Sonhei que via hum fumo,
Com grande força sahir,
E deixando de Subir,
Hum altar vi no escuro:
Formava taõ forte muro.
Que estava o Altar cuberto;
Vi a hostia naõ mui perto,
Do tal Altar arredada:
Huma cára sublimáda,
Em ella vi por mais certo.
2.
Pareceme que crescia,
Quem assim o figurava:
Taõbem sonhei me pegava,
Quem mulher me parecia:
E que com voz me dezia,
Anda ver a terra nova,
Pella maõ levou-me à cova,
Levava bello vestido,
Aí nuvems eu fui subido,
Onde vi a gente toda.
3.
Negra, e amolatáda,
Logo à terra baldeando,
A respiraçaõ faltando
Eu daqui já naõ quis nada,
Para a terra de pancada
Me trouxe a tal mulher,
Athé alcancei dizer
Vou segunda vez à terra,
Logo vinha resta era
E tornava a aparecer.
4.
Parecia a meo ver
Nova Igreja figurada,
Por hereges desterráda,
Na quella terra a tremer,
Quem Herege quizer ser
Ficarà negro, ou molato,
E terà todo o máo trato
Por fugir da boa Ley,
No Inferno sua grey
Para tràz darà o Salto.
5.
Taõbem sonhei que a nuvem
Cobria a gram redondeza,
Mui medonha, e espeça
Taõbem raios que destroem,
A quem a falça Ley tem,
E depois vi aclarar
Com hum claraõ singular,
Em dia de huma Senhora
Em fe seguinte boa hora
Seu nascimento sempár.
6.
Em sonhos vi grande armáda
E a Lua, em rosso Tejo,
Ficandolhe o Sol por baixo
De huma Torre armáda,
Moiros tiveraõ entráda
Pella terra de christaõs,
Na Igreja vi estes máos
Hum exercito Francez,
Taõbem entrou desta vez
Accompanhádo dos Máos.
7.
Pella terra veio entrando
Athé se perder de vista,
Com grande préça, e cobiça
Toda a vinhaõ derrotando,
Taõbem os Moiros chegando
Com grande astucia, e préça,
Vinhaõ buscando a Cabeça
A numa Cidade Real
Pouco cuida Portugal,
Em o mal que lhe aconteça.
8.
Parece que estou ouvindo
Nesse mar a gran tormenta
Antes que chegue os Setenta,
Caxas, Ballas, barberinhos
Entaõ hé que virà vindo
O Grande pastor Geral,
Acudir a taõ graõ mal,
Dando às Ovelhas sustento
E taõbem o Sacramento
Viva o nosso Portugal.
9.
Poucos tempos paçaraõ
Segundo as Profecias,
Em os Sinaes destes dias
Outros que cedo viraõ
Huma Gran tribulaçaõ,
Mas ao depois verà
A volta que tudo dà,
Chegando logo a vencer
No mundo todo o poder
Na Igreja ficarà.
10.
Em todas reste tuida
Com maior veneraçaõ,
Só nella tem o Christaõ,
Gloria na eterna vida
Mas ai que a vejo cahida
Que primeiro vem chegando
Os boms largando o mundo,
Outros morrendo à preça
Outros perdem a Cabeça,
Muitos disso vão folgando.
11.
Tanto Sangue pello campo
E tanto morrer na rua,
Tantos deixaõ vida sua
Por guardar o nome Santo,
Nem da mulher o manto
Terà respeito ou favor,
Jà nenhum lhe tem amor
A essa profanna vaidade,
Quando virem a Cidade
Posta no maior horror.
12.
Jà de França serà farto
Quem à França quiz andar
Nunca mais andem trajar,
Tomàra naõ ter o fato:
Paga o povo por ingrato
O desprezo que tem feito,
Da Patria do minho aceito
Dando rédias ao profanno
Teraõ o seo desenganno,
Com o Vestir mais perfeito.
13.
Com Sangue, Boubo, e Deshonra
Com mortes, e Vitupérios,
Fomes doenças, e Guerras,
Querendo acabar a terra
Com mui grande alarido,
Todos ficaraõ com sentido
Com o mal naõ esperado
Serà prezo o Diabo
Porque entaõ tudo hé acabádo
E o morto serà vivo.
14.
Era taõbem logo chega
Que a todos de asento,
Serà fim este tormento,
Quem com bonança navéga
Entaõ armáda mais féra,
Livranos do Inemigo,
Com bom valor, e abrigo
O Beato Saõ Joaõ
Em seo dia nos dà a maõ,
E o Incoberto vivo.
15.
Quem destruir os do Norte
E os Moiros deitar fora,
Matandolhe a gente toda
Em Cacilhas forà côrte
Lá vereis o estandarte
Com as quinas aconado
E emtaõ vereis mostràdo
Em sima o bom Jezus,
E taõbem a Santa Cruz
Para vencer o Diabo.
16.
Veremos o mar vermelho
Sem hir a Jerusalem,
A qui veraõ os que tem
Tomádo o meo concelho,
Em si proprio o espelho,
Muito Sangue em si correndo
Mas quem fôr obedecendo,
Passarà sobre o mar
Sem que precize nadar,
Verà o maior portento.
17.
Em Cassilhas a Bandeira
Com estandarte Real,
Logo Hereges por seo mal,
A morte tem de Carreira
Terà este na Simeira
Hum Christo crucificádo,
Verà o povo malvado
O quaõ cego tem vivido,
Em terem perceguido
E a muitos marterizádo.
18.
O Moiro, Turco, Francez
Naõ poderaõ fugir todos,
Porque muitos seraõ mortos
As maõs do bom portuguez,
Là levarão desta vez
Novas aos seus que contar,
Quando virem em Portugal
O Encuberto declarado,
Castigando todo o estrago
Que elles vieraõ cauzar.
19.
Nenhum remedio lhe sinto
O Naõ vireá melhor fôra,
Venha sem em boa hora
Quem ao lobo faminto,
Lhe ponha em sangue tinto
Por essas ruàs no chaõ,
Bandeiras em confucaõ
Flores, Barretes, e Capas
Deste bom Rey nada escapa,
Viva o Graõ Sebastaõ.
20.
Sonhei que via vencer
As quatro partes do mundo,
E que Portugal a tudo
Hia dando que fazer,
E taõbem fazendo e ver
O Evangelho, e a Cruz
Ao povo falto de luz,
Sacramento eterno dia
Taobem a Virgem Maria
Todos com o bom Jezus.
21.
Sonhei que o Sacramento
Em todo o mundo em redondo,
Já das almas serà dono
Isto maior portento,
Taõbem graõ contentamento,
Em ver os Reys me cauzou
Que na geraçaõ dotou,
Lá de Affonço o primeiro
Thé trinta o derradeiro,
Onde o primeiro acabou.
22.
Por humgrande oppozitor
Depois da linha acabada,
Este farà derrotada,
A Igreja com horror,
Á besta mete pavor
Em trez, e meio de dura
Tanta gente à Sepultura,
O Martir gloríozo
Por fugir do tenebrozo,
A seguir a Virgem pura.
23.
Por mil, e duzentos annos
A Igreja reinarà,
Jà todo o Christaõ serà
Vivendo como irmaõs,
Nem trapaças nem enganos
Debaixo de huma cabeça,
No seo Império, e pastor,
Por Sebastiaõ Senhor
A quem tudo obedeça
Com Zelo, e grande amor.
24.
Este Rey de Deos guardado
Para limpeza do mundo,
De tal sorte porà tudo
Que deos seja venerado,
Em Portugal exaltàdo
De pequeno graõ Senhor,
Os mais todos com Pavor
Logo o haõde coroar,
Por Imperador sempár
Ao depois do Creador.
25.
Sonhei que via descer
Hum Anjo em huma nuvem
Mostrando que jà destroe
Quem Herege quizer ser,
Daqui vem a entender
Pella voz que lhe ouvi
E com furor disse assim,
"Morra o Blasfemador
"De Ley do bom Redemptor,
"O Prencipio desde aqui.
26.
Taõbem a Lua correndo
Sonhei que a via vir
Por trez vezes a cahir,
E Portugal perecendo
A isto o que eu entendo
Que figura muito moiro,
Vindo a buscar o oiro,
E mais riqueza notoria
Fazendo perder a gloria,
A quem delle fez thezoiro.
27.
Quantos destes vaõ roubando
Aì quando virem chegar,
Muitas Náos em este mar
E gente em terra botando
Entaõ ouviraõ o bando,
Mata, fere, e degolla,
Ficando a gente tolla
Tao tolla, como pasmàda
E a terra derrotáda
Perceguida a toda a hora.
28.
Morem, e ficaõ Catholicos,
Hums morrem, outros pelejaõ
Outros depreça despejaõ,
O melhor que guardaõ vivos,
Jà fallaõ Leaes amigos
A imgratidaõ sobeja,
E algums comgrande inveja,
Sò cuidaõ em bem furtar,
Nenhum yuer a tuvar
O Mal que tanto sobeja.
29.
Nenhum vemidio se sente
Sem ter meio de Apellar
Nem na terra, nem no Mar,
Vendo prêza maior gente
O mais alto delinquente,
Naõ ficarà sem castigo
Quem muito prende taobem
Serà prezo, e cativo,
Pezarlhe há de ser vivo
Estando só sem nímguem.
30.
Nas armas pèga a mulher
Taõbem entra em Corcelho,
Entao acode o bom Valho
Sebastiaõ hàde ser,
E tudo em seo poder
Ficarà com graõ limpeza
Ou Magestade, Alteza
Bem livras do Cativeiro
Lobo se torna, em Cordeiro
Em paga da tal Fineza.
31.
Contra graõ Senhor se ergue
Com furia, Asturia, e Manha,
Esparta, forte, Companha,
De seo maior mal lhe serve,
Taõbem quem ajuda perde
Honra, fazenda, e Vida,
Depois de no mar vencida
E na terra maio é risco,
Sepultádo no abismo
De todo serà perdida.
32.
Perde Braga, vence o Porto
E todas seraõ entràdas,
Em o fogo das pancadas
Em Bahia grar dectroço,
De Lagos fica bem pouco
Lisboa já hé Senhora,
De cativa deffençora
Da Ley que haõde guardar,
Os que se querem salvar
E morrer em boa hora.
33.
Viva o grande Portugal
Todos saltaõ de contentes,
Mulheres com seos parentes
Ficaõ livres do graõ mal,
Veja agora cada qual
De que sorte poem a vida,
No levantar da cahida
Tem o vemido na maõ,
Quem cuidar em bom Christaõ
Sua alma serà subida.
34.
E todo o mundo sugeito
A esta naçaõ portugueza,
Por aquella grande Alteza
Que Christo tem em seo peito,
Por lhe ser o mais aceito
Na Fé, Constancia, e Valor,
Peregrimo, e Senhor
Gram trabalhos padecendo,
Em fortaleza padecendo
Em o mundo grão valor.
35.
Em humildade, e esperança
A maior que jà se vio,
Com caridade subio
Ao lugar que logo alcança,
Justiça com temperança
Na prudencia o primeiro,
No castigo o derradeiro
Esperando a Sugeiçaõ,
Logo chega o pagaõ
A ser Christaõ verdadeiro.
36.
Portugal fica mais nobre
Em todo elle o poder,
E taõbem se háde ver
Ficar rico, o que foi pobre,
Aquelle a quem a fé cobre
Firme na Santa Igreja,
Todos lhe teraõ inveja,
Quando virem Portuguezes
Vencendo Turcos, Francezes,
E Moiros, em graõ Peleja.
37.
Dois descendentes que traz
De grande Valor, e Brio,
O Mais velho em Senhoria
Porá a guerra, em Paz,
Veraõ todos o que faz
De boms na Santa Igreja,
A força lhe tem inveja
A Fortuna, e augmento,
Farà pàrto o Sacramento
Onde toda Christaõ seja.
38.
O Pastor mór cedo falta
Seo descendente reinando,
E grande castigo dando
Aos vezinhos de Malta,
Quando Veneza se exalta
De França hé Malográda,
Cauzarà nesta pancáda
Entre os seos naturaes,
Seraõ os castigos taes
Que toda seja arrazáda.
Fim da Sexta Parte.
Inedìtas de Bandarra
Natural da Villa de Francoza.
* * * * *
Que exestião em poder de Pacheco Comtemporaneo de Bandarra e que
se lhe achàrão depois de sua morte.
* * * * *
Londres.
MDCCCXV.
Introduçaõ.
Com grande satisfação recebérão, todos os Portuguezes, assas Cinceros,
e prudentes, as trovas de Gonçallo Annes Bandarra, impressas em Barcellona
em 1809 sobre a edìção de Nantes de 1644. Juntandose, a esta edição
outras, trovas que nunca se tinhão impreço pella defficuldade que havia
de se naõ acharem.
Ficando porem ainda o ardente dezejo em muitas pessoas de verem
impresso o resto (de que havia notìcia de sua existencia) de todas as
trovas de Bandarra; porquè como este hia profetizando, em diverços tempos
durante a sua vida; igualmente por este motivo, apareciao em diverços
tempos, e lugares, e em poder de algumas pessoas, como se vio (por exemplo)
na edição de Nantes de 1644 naõ se ímpremírão senão, aquellas trovas, por
que não aparecerão as que se impremirão, em Barcelona em 1809 (que fazem a
2ª e 3ª parte desta obra) as quaes são, as que se achárão em poder do
Cardeal Nuno da Cunha, e as que tinha o Comissário do Santo officio
Domingos Furtado de Mendonça: e agora depois que se fez a edição acima
ditta de 1809, se acharão na livraria do Ex^mo Sñr........ (omito o seo
nome por motivos particulares) em manuscrito muito antigo! todas as
profecias de Bandarra, não só as que se achão jà impressas, nas duas
ediçoens que jà dicemos, mas tãobem as trovas de que havia noticia, que
tinhão ficàdo em poder de Pacheco, amigo, e comtemporaneo de Bandarra, que
mereceo a este tanto conceito, que foi digno de responder aquelle às
perguntas que lhe fazia, cujas respostas que Bandarra fez a Pacheco são as
que se achão na edição de Barcelona de 1809 desde paginas 60, até, 66, e
como esta obra estava imcompleta, e pella sua natureza merece muita
reflexão a todas as pessoas discretas e assas prudentes; a rogos destes
pois hé que me determinei a mandar impremir, as trovas que o dito Pacheco
tinha em seo poder, ficando desta sorte completa a edição desta obra toda,
de que hà noticia que Bandarra profetizou, assim como tãobem, completos os
ardentes dezejos de todos os Portuguezes Fieis, Cinceros, e Honrados, como
eu que me prézo de ser hum.--
Leal Portuguez.
Quarta parte das Trovas de Bandarra.
1.
Os tempos com crueldade
Começar-se hão a mover,
Se me não engana a verdade
Ali perderão seo ser
No meio de certa idade.
2.
Virà gozando de paz
Aquelle pastor valente,
Hum lobo que guerra faz
Moverà toda a gente
Com huma limgua sagaz.
3.
Logo nas mãos o pastor
Seu cajado tomarà,
Sem mostrar nenhum temor
Contra os lobos que achará
Revestidos de rigor.
4.
Nelles farà tal destroço
Que serà couza de espanto,
Como bravo Touro em cosso
Logo perde tudo quanto
Tinha como pastor moço.
5.
Jà vejo que se desterra
Este pastor sem ventura,
Da patria rebanho, e terra
A huma larga Sepultura
De huma frondoza serra.
6.
O manço gàdo que em páz
Pella ribeira regia,
Jà desgovernàdo traz
Triste sò sem companhia,
Que hum mào concelho faz.
7.
E logo outro pastor
Do pouco gado que achár,
Serà absoluto Senhor,
E serà em quanto durar
A fortuna, e seo rigor.
8.
Serà pastor estrangeiro
O que reja o manço gado
Que taõ bravo foi primeiro
Mas ai que falta o malhado
Que era o principal Carneiro.
9.
De pois que por tempo largo
Este pastor governar
A este rebanho amargo,
Outra vez hà de tornar
A ter o que tinha o cargo.
10.
Haverà novos sinaes
Da parte deste pastor,
Thé os mesmos anímaes
Por seu natural Senhor
Darão suspiros, e ais.
11.
Tornarà a quebràda linha
No Cábo de serta idade,
A encher-se como pinha,
E descubrirà a verdade
Do que encuberto tinha.
12.
Sem pena que damno faça
Tornarà pella ribeira
Pastar o gado na praça,
Por ultima, e derradeira
Dos fados Supréma traça.
13.
Tornarei a recolher
Esta ovelha perdida
A patria que lhe deu ser,
E porei por ella a vida
Sem nunca desfalecer.
14.
Entaõ não me mudarei
Pois conheceis que sou vosso,
Minha ovelha estimarei
Pois de outro modo naõ posso
Alma, e vida lhe darei.
15.
Haverà em triste Cidade
Grande fome peste, e guerra,
Que a Escritura a não erra
Que em tudo falla verdade,
16.
De longas terras virão
Dois Leoens mui asanhádos
Hum de Cruz, e outro não
Vingarão males paçados.
17.
Serão à força da espada
Destruidas mil provincias,
Na Luzitania assollada
Terão fim roubos, e malicias.
18.
Na era de quarenta, é hum
De Janeiro por diante,
Darà fio ao seo montante
Aparelhece cada hum.
19.
O nosso Christianismo
Nossa grande Obrigação,
Não temos mais de Christão,
Do que o nome do Baptismo.
20.
Fazemos dos dias noites
Vivendo como agrestes,
Haverà castigo, e açoutes
Cada qual se faça prestes.
21.
Espantozos movimentos
Havemos cedo dever,
E antes de muitos tempos
Ha de isto de acontecer.
22.
Não haverà em Hespanha
Lugar preveligiado,
Tudo serà assollado
Dessa gente de Alemanha.
23.
Todos os lugares planos
Por terra serão prostrados,
Muitos males, muitos damnos
Haverà pellos peceádos.
24.
As Serras se habitarão
E os Oiteiros mais altos,
Muitas Gentes sahirão
Outros andarão em Saltos.
25.
Andarão como pasmados
Chorando pellos caminhos,
De suas terras lançados
De parentes, e vesinhos.
26.
Então não haverà amigos
Nem pay que por filho seja,
O mais seguro abrigo
Serà acolherse à Igreja.
27.
Nesses tempos os meninos
Ainda que innocentes,
Terão tãobem accidentes
Muito fora dos Caminhos.
28.
Haverà peregrinaçoens
Mortes sem conto de dura,
Males fogos devisoens
Só Deos lhe póde dar cura.
29.
Ha de ser Rey quem fôr
Que em Deos está o saber
O bom, o São, o melhor
Só elle o há de escolher.
30.
Por particular enteresse
Tem chegado o mundo a tanto,
Triste do que lhe parece
Que háde bastar falçomanto.
31.
Os póvos hão de alintar
As culpas dos seos Monarchas,
Que sem nenhum estudar
São Letràdos, e Patriarchas.
32.
Nos Ceos haverà sinaes
Na Terra não faltarão,
Tormentos pennas, e ais
Que aos Ceos penetrarão.
33.
E depois do Leão morto
Não sem falta de mistério,
Aportarà neste porto
Outro com maior Império.
34.
Entrarà com companheiro
Na terra dos Luzitannos,
Cada qual bom Cavalleiro
Destruirão os Arriannos.
35.
Tempos traz tempos virão
Que os Grandes serão baixàdos
Os pequennos exaltádos
Povo, e Rey governarão.
36.
E depois de tantos males
Fomes, pestes devisoens,
Cheios os montes, e Valles
De tristes peregrinaçõens.
37.
Tornarà o Redemptor
A olhar por seo rebanho,
E tello ha com muito amanho
Como bom Rey e Senhor.
38.
Escaparà pouca gente
De tão perigoza dança,
Virà tempo de bonança
Quem viver serà contente.
39.
Vejo vir grandes baleias
Pella costa de Biscaya
Gaia gaia da vezinha praya
Que lhe tingem as areias.
40.
Eis là contra a Norúega
Raios, Cavallos, Golfinhos,
Com que preça que navega
Tanta Cópia de Marinhos.
41.
Vejo milhoens de Relampagos
Trovoens que rompem os ceos
Nuvems de mui grandes véos
Coriscos grandes expantos.
42.
Que mancebo tão formozo
Dà Luz a todo o Emisfério,
Rosto mui digno de Império
Forte, fero, e graciozo.
43.
Iá por força toma a Seora
Cercàdo de Leoens bravos,
Oh que unhas dentes quebrádos
Teme, e treme toda a terra.
44.
Mil rapozas vão dìante
Buscando grutas, e côvàs,
A Lebres, Coelhos dão novas
Que fujão de tal semblante.
45.
Descançame a vista vendo
Hirse o tempo já chegando,
E estarse a Alma alegrando
Com o que vejo, e entendo.
46.
Venha embora o Leão forte
De tantos accompanhádo,
Que affirmão, e tem jurado
Que em que lhe custe a morte
O hão de ver coroado.
47.
Que grandes arribaçoens
São Atums, ou são Sardinhos,
Maiores são que Barquinhas
São Náos, boms Galioens.
48.
Parece que seo caminho
Hé direito a Portugal
Ai se eu mal não advinho
Não vão carregar de Sal.
49.
Que rostos, corpos, e armas,
Quanto fogo, e quanto asso,
No rosto gente do Passo
E Soldados nas Bisarmas.
50.
Ora quero-lhe dizer
Esta cà occupàda a Terra,
Mas poderão responder
Se hé gente de paz, ou guerra.
51.
Hé gente que em si encerra
E aquillo que diz não faz,
Diz guerra, ordena páz
Pergoa paz, e faz guerra.
52.
O Seo Rey quer ser Monarcha
E toda a Terra pertende,
Tudo abrange, e tudo abarca
E do díreito não pende.
53.
Vinde cà Rey Soberanno
Quero vos dezenganar,
Lembro-vos que sois humanno
E que tudo hade acabar.
54.
E que na postreira hora
Quando o mal jà estìver feito,
E não possa ser desfeito
Treme olma, e em vão chora.
55.
Lembre vos o que aconteceo
A Tholedo com o pay
Que já cada hum là vay
E não sei qual pa o ceo.
56.
Quereis vòs a Portugal
Sendo elle nome macho
Ajuda mal por que lhe acho
Muita fémea, e pouco Sal.
57.
Se quizerdes por direito
Deixarse há elle torcer,
Mas forçado hé máo geito
Para se deixar vencer.
58.
Vejo vosso damno perto
Hireis perdendo o reynádo
E tão bem tende por certo
Morrerdes desconsolado
59.
Luzitanna hé chamáda
A Dama que dezejaés,
Ella hé dantes despozada
Perseguilla hé por demais
60.
Ainda que em caza tem
De Ulices tantos povos,
Hir-se hão como os porcos
Ante o Leão que vem.
61.
Esta profecìa hè bella
Mui certa e verdadeira,
Quem tiver boa terceira
Gozarà a Sabia Donzella.
Fim da quarta parte.
Quinta parte das Trovas de Bandarra.
1.
Quando de noite me ponho
A dormir sem me benzer,
Tudo o que háde açuceder
Se me representa em Sonho.
2.
Sempre mandei escrever
Aquillo que me lembrou,
Porque a memoria a postou
De tudo se esquecer.
3.
Nas Trovas que tinha feito
Muito hà que conciderar,
Como o seo tempo chegar
Se vera o meo conceito.
4.
Sempre por thezoiras faço
As minhas contas mui certas,
Portas que hão de estar abertas
Não são boas para o paço.
5.
Eu naõ sou Profeta inteiro
E menos na minha terra,
Mas vejo vir pella Serra
Atraz de hum Lobo hum Cordeiro.
6.
O Sol pello meio dia
Faz o effeito de Geada,
Vejo partir huma armada
Carregáda de agua fria.
7.
Huma grande tempestade
Com o céo muiclaro, e Serenno,
Farà hum hommem moreno
Com rezão mas sem piedade.
8.
A minha trepeça tem
Trez péz mui bem seguros,
Vejo fabricar hums muros
Mas eu naõ sei para quem.
9.
Quem muitos annos durar
Hade ver couzas indignas.
Tocar-se haõ muitas bozinas
Por hommems peixes do már.
10.
Todo o mundo grita, e berra
Cada qual no seo officio,
Pois antes que hum beneficio,
Querem, peste, fome, e guerra.
11.
Quando furo com a Suvella
Coiro groço, e Macio,
Vejo prender no Rocio
Quaze toda a parentella.
12.
Eu tenho medo da morte
Como couza superior,
O Presbitero maior
Naõ háde tornar à Corte.
13.
Annos hãode vir à terra
Em que por nossos peccados,
Nas cazas fiquem os gados
As gentes vivaõ na Serra.
14.
Sempre como os meos feijoens
Quando vem bem temperados,
Vejo no templo os Copados
No Cural os Cappellaens.
15.
Sou Sapateiro, mas Nobre
Com mui pouco Cabedal,
E tu triste Portugal
Quando mais rico, mais pobre.
16.
O (A) que ponho às avessas
Com a perna atraz levantáda,
Hàde ter a mão armàda
Para degollar Cabeças.
17.
Quando a terra dos Falcoens
Certa erva produzir,
Creio se hàde conceguir
O deitar fóra as Lezoens.
18.
De hum brazeiro mui acezo
Damdolhe o vento ligeiro,
Se hàde formar hum pinheiro
Sem ter medida, nem pezo.
19.
O Carro que vai chiando
Por hir muito carregàdo,
Sim mostra o jugo pezado
Mas naõ tira pezo andando.
20.
A Hortela na Panella
Dizem que lhe dà bom gosto,
Essa mulher de bom rosto
Naõ ouço rusnar bem della.
21.
Hespanha muito medroza
A Europa muito enfadada,
Huma mulher de almofada
Sabe como huma rapoza.
22.
As linhas com que cozia
Jà naõ como as de agora,
Temo que se deite fóra
Quem Souber a Ave Maria.
23.
Na era que eu tenho ditto
Nas Thezoiras levantadas,
Se haõde ver muitas jornàdas
Á custa do Saõ Benito.
24.
Naõ pode haver couza boa
Aonde Habita o mal Francez,
Temo o polho Portuguez
Em poder de huma Leoa.
25.
Quando o Leaõ Hispanhol
Vier quase a Portugal,
Háde ser o nosso mal
Querer luzir como o Sol.
26.
Quando a neve como braza
Todas as plantas queimar,
Dous quintos se haõ de ajuntar
Sem haver jogo na caza.
27.
Em hum lugar mais ameno
Cercados de mares groços,
Vive por peccados nossos
Quem se sustenta com feno.
28.
Sempre vem de monte, a monte
As agoas das enxorradas,
E vejo testas coroadas
Sentadas sobre huma ponte.
29.
Quando tiverem por certo
Perdida toda a esperança,
Portugal terá bonança
Na vinda do Encuberto.
30.
Vejo vir pello mar largo
Como quem vem para dentro,
Hum hommem buscar seo centro
Depois de hum grande lethargo.
31.
Quando me matar S. Jorge
E Marcos me reçuscitar,
Saõ Joaõ me exaltar
Faça todo o mundo alforge.
32.
Os pez da minha trepéça
Conta trez vezes areio,
Ajuntalhe dous, e meio
Dizelhe que apareça.
33.
Naõ podeis fazer queixume
De deixar o vosso lár,
Que se do norte ventar
Do Sul vos virà o lume.
34.
Vejo a grifa parideira
Juntada com huma Serpente,
E vejo que muita gente
Tem disto grande canceira.
35.
Vejo o Leão, e a Serpente
Atraz da gente goleima,
Grita o gallo que ateima
Com o Lobo que tem diante.
36.
Já vejo grande mofina
No porqueiro de Sequem,
Que o gado todo está bem
Com o Ovilheiro de Dina.
37.
Vejo a Lua ensanguentada
Pella virtude do Encuberto,
Se està longe, ou se perto
Assim o diz a toada.
38.
Là vem por sima do már
Hum Cavallo de madeira,
Que farà n'huma poeira
O porco que hàde grunhar.
39.
Vijo pedras ajuntar
Là muito perto da Lua
Vejo subir de huma, e huma
E nellas o Sol entrar.
40.
Vejo pello meo Telhado
No Ceo grande resplendor,
Se hé alegria, ou temer
Esdras o tem declarádo.
41.
Vejo o Almocreve tomar
As Alamanhas antigas,
Vejo nascer das ortigas
A remente là do mar
42.
Là donde o Sol vem nascendo
Hum Dragaõ vejo vir vindo,
A seo Cabo vem correndo
Mais bichos que o vem seguindo.
43.
O primeiro depois do quinto
Filho d'Aguia levantada,
Hade estender sua Espàda
Sobre a Galia faminto.
44.
Vejo sahir as Gaivotas
De dentro do nosso Tejo,
Taõbem parece que vejo
As duas por ellas rotas.
45.
Sonho que rebentaõ fontes
Da terra da Promiçaõ,
E que os Gallos de Siaõ
Vaõ fugindo até os montes.
46.
Naõ canta o Gallo com penna
As aguias charão mofina,
A serpente encrespa a clina
Porque Deos assim o ordenna.
47.
Faremos dos dias noites
Vivendo como agrestes,
Haverà castigo, e açoutes
Cada hum se faça prestes.
Fim da quinta parte.
Sexta parte das Trovas de Bandarra.
1.
Sonhei que via hum fumo,
Com grande força sahir,
E deixando de Subir,
Hum altar vi no escuro:
Formava taõ forte muro.
Que estava o Altar cuberto;
Vi a hostia naõ mui perto,
Do tal Altar arredada:
Huma cára sublimáda,
Em ella vi por mais certo.
2.
Pareceme que crescia,
Quem assim o figurava:
Taõbem sonhei me pegava,
Quem mulher me parecia:
E que com voz me dezia,
Anda ver a terra nova,
Pella maõ levou-me à cova,
Levava bello vestido,
Aí nuvems eu fui subido,
Onde vi a gente toda.
3.
Negra, e amolatáda,
Logo à terra baldeando,
A respiraçaõ faltando
Eu daqui já naõ quis nada,
Para a terra de pancada
Me trouxe a tal mulher,
Athé alcancei dizer
Vou segunda vez à terra,
Logo vinha resta era
E tornava a aparecer.
4.
Parecia a meo ver
Nova Igreja figurada,
Por hereges desterráda,
Na quella terra a tremer,
Quem Herege quizer ser
Ficarà negro, ou molato,
E terà todo o máo trato
Por fugir da boa Ley,
No Inferno sua grey
Para tràz darà o Salto.
5.
Taõbem sonhei que a nuvem
Cobria a gram redondeza,
Mui medonha, e espeça
Taõbem raios que destroem,
A quem a falça Ley tem,
E depois vi aclarar
Com hum claraõ singular,
Em dia de huma Senhora
Em fe seguinte boa hora
Seu nascimento sempár.
6.
Em sonhos vi grande armáda
E a Lua, em rosso Tejo,
Ficandolhe o Sol por baixo
De huma Torre armáda,
Moiros tiveraõ entráda
Pella terra de christaõs,
Na Igreja vi estes máos
Hum exercito Francez,
Taõbem entrou desta vez
Accompanhádo dos Máos.
7.
Pella terra veio entrando
Athé se perder de vista,
Com grande préça, e cobiça
Toda a vinhaõ derrotando,
Taõbem os Moiros chegando
Com grande astucia, e préça,
Vinhaõ buscando a Cabeça
A numa Cidade Real
Pouco cuida Portugal,
Em o mal que lhe aconteça.
8.
Parece que estou ouvindo
Nesse mar a gran tormenta
Antes que chegue os Setenta,
Caxas, Ballas, barberinhos
Entaõ hé que virà vindo
O Grande pastor Geral,
Acudir a taõ graõ mal,
Dando às Ovelhas sustento
E taõbem o Sacramento
Viva o nosso Portugal.
9.
Poucos tempos paçaraõ
Segundo as Profecias,
Em os Sinaes destes dias
Outros que cedo viraõ
Huma Gran tribulaçaõ,
Mas ao depois verà
A volta que tudo dà,
Chegando logo a vencer
No mundo todo o poder
Na Igreja ficarà.
10.
Em todas reste tuida
Com maior veneraçaõ,
Só nella tem o Christaõ,
Gloria na eterna vida
Mas ai que a vejo cahida
Que primeiro vem chegando
Os boms largando o mundo,
Outros morrendo à preça
Outros perdem a Cabeça,
Muitos disso vão folgando.
11.
Tanto Sangue pello campo
E tanto morrer na rua,
Tantos deixaõ vida sua
Por guardar o nome Santo,
Nem da mulher o manto
Terà respeito ou favor,
Jà nenhum lhe tem amor
A essa profanna vaidade,
Quando virem a Cidade
Posta no maior horror.
12.
Jà de França serà farto
Quem à França quiz andar
Nunca mais andem trajar,
Tomàra naõ ter o fato:
Paga o povo por ingrato
O desprezo que tem feito,
Da Patria do minho aceito
Dando rédias ao profanno
Teraõ o seo desenganno,
Com o Vestir mais perfeito.
13.
Com Sangue, Boubo, e Deshonra
Com mortes, e Vitupérios,
Fomes doenças, e Guerras,
Querendo acabar a terra
Com mui grande alarido,
Todos ficaraõ com sentido
Com o mal naõ esperado
Serà prezo o Diabo
Porque entaõ tudo hé acabádo
E o morto serà vivo.
14.
Era taõbem logo chega
Que a todos de asento,
Serà fim este tormento,
Quem com bonança navéga
Entaõ armáda mais féra,
Livranos do Inemigo,
Com bom valor, e abrigo
O Beato Saõ Joaõ
Em seo dia nos dà a maõ,
E o Incoberto vivo.
15.
Quem destruir os do Norte
E os Moiros deitar fora,
Matandolhe a gente toda
Em Cacilhas forà côrte
Lá vereis o estandarte
Com as quinas aconado
E emtaõ vereis mostràdo
Em sima o bom Jezus,
E taõbem a Santa Cruz
Para vencer o Diabo.
16.
Veremos o mar vermelho
Sem hir a Jerusalem,
A qui veraõ os que tem
Tomádo o meo concelho,
Em si proprio o espelho,
Muito Sangue em si correndo
Mas quem fôr obedecendo,
Passarà sobre o mar
Sem que precize nadar,
Verà o maior portento.
17.
Em Cassilhas a Bandeira
Com estandarte Real,
Logo Hereges por seo mal,
A morte tem de Carreira
Terà este na Simeira
Hum Christo crucificádo,
Verà o povo malvado
O quaõ cego tem vivido,
Em terem perceguido
E a muitos marterizádo.
18.
O Moiro, Turco, Francez
Naõ poderaõ fugir todos,
Porque muitos seraõ mortos
As maõs do bom portuguez,
Là levarão desta vez
Novas aos seus que contar,
Quando virem em Portugal
O Encuberto declarado,
Castigando todo o estrago
Que elles vieraõ cauzar.
19.
Nenhum remedio lhe sinto
O Naõ vireá melhor fôra,
Venha sem em boa hora
Quem ao lobo faminto,
Lhe ponha em sangue tinto
Por essas ruàs no chaõ,
Bandeiras em confucaõ
Flores, Barretes, e Capas
Deste bom Rey nada escapa,
Viva o Graõ Sebastaõ.
20.
Sonhei que via vencer
As quatro partes do mundo,
E que Portugal a tudo
Hia dando que fazer,
E taõbem fazendo e ver
O Evangelho, e a Cruz
Ao povo falto de luz,
Sacramento eterno dia
Taobem a Virgem Maria
Todos com o bom Jezus.
21.
Sonhei que o Sacramento
Em todo o mundo em redondo,
Já das almas serà dono
Isto maior portento,
Taõbem graõ contentamento,
Em ver os Reys me cauzou
Que na geraçaõ dotou,
Lá de Affonço o primeiro
Thé trinta o derradeiro,
Onde o primeiro acabou.
22.
Por humgrande oppozitor
Depois da linha acabada,
Este farà derrotada,
A Igreja com horror,
Á besta mete pavor
Em trez, e meio de dura
Tanta gente à Sepultura,
O Martir gloríozo
Por fugir do tenebrozo,
A seguir a Virgem pura.
23.
Por mil, e duzentos annos
A Igreja reinarà,
Jà todo o Christaõ serà
Vivendo como irmaõs,
Nem trapaças nem enganos
Debaixo de huma cabeça,
No seo Império, e pastor,
Por Sebastiaõ Senhor
A quem tudo obedeça
Com Zelo, e grande amor.
24.
Este Rey de Deos guardado
Para limpeza do mundo,
De tal sorte porà tudo
Que deos seja venerado,
Em Portugal exaltàdo
De pequeno graõ Senhor,
Os mais todos com Pavor
Logo o haõde coroar,
Por Imperador sempár
Ao depois do Creador.
25.
Sonhei que via descer
Hum Anjo em huma nuvem
Mostrando que jà destroe
Quem Herege quizer ser,
Daqui vem a entender
Pella voz que lhe ouvi
E com furor disse assim,
"Morra o Blasfemador
"De Ley do bom Redemptor,
"O Prencipio desde aqui.
26.
Taõbem a Lua correndo
Sonhei que a via vir
Por trez vezes a cahir,
E Portugal perecendo
A isto o que eu entendo
Que figura muito moiro,
Vindo a buscar o oiro,
E mais riqueza notoria
Fazendo perder a gloria,
A quem delle fez thezoiro.
27.
Quantos destes vaõ roubando
Aì quando virem chegar,
Muitas Náos em este mar
E gente em terra botando
Entaõ ouviraõ o bando,
Mata, fere, e degolla,
Ficando a gente tolla
Tao tolla, como pasmàda
E a terra derrotáda
Perceguida a toda a hora.
28.
Morem, e ficaõ Catholicos,
Hums morrem, outros pelejaõ
Outros depreça despejaõ,
O melhor que guardaõ vivos,
Jà fallaõ Leaes amigos
A imgratidaõ sobeja,
E algums comgrande inveja,
Sò cuidaõ em bem furtar,
Nenhum yuer a tuvar
O Mal que tanto sobeja.
29.
Nenhum vemidio se sente
Sem ter meio de Apellar
Nem na terra, nem no Mar,
Vendo prêza maior gente
O mais alto delinquente,
Naõ ficarà sem castigo
Quem muito prende taobem
Serà prezo, e cativo,
Pezarlhe há de ser vivo
Estando só sem nímguem.
30.
Nas armas pèga a mulher
Taõbem entra em Corcelho,
Entao acode o bom Valho
Sebastiaõ hàde ser,
E tudo em seo poder
Ficarà com graõ limpeza
Ou Magestade, Alteza
Bem livras do Cativeiro
Lobo se torna, em Cordeiro
Em paga da tal Fineza.
31.
Contra graõ Senhor se ergue
Com furia, Asturia, e Manha,
Esparta, forte, Companha,
De seo maior mal lhe serve,
Taõbem quem ajuda perde
Honra, fazenda, e Vida,
Depois de no mar vencida
E na terra maio é risco,
Sepultádo no abismo
De todo serà perdida.
32.
Perde Braga, vence o Porto
E todas seraõ entràdas,
Em o fogo das pancadas
Em Bahia grar dectroço,
De Lagos fica bem pouco
Lisboa já hé Senhora,
De cativa deffençora
Da Ley que haõde guardar,
Os que se querem salvar
E morrer em boa hora.
33.
Viva o grande Portugal
Todos saltaõ de contentes,
Mulheres com seos parentes
Ficaõ livres do graõ mal,
Veja agora cada qual
De que sorte poem a vida,
No levantar da cahida
Tem o vemido na maõ,
Quem cuidar em bom Christaõ
Sua alma serà subida.
34.
E todo o mundo sugeito
A esta naçaõ portugueza,
Por aquella grande Alteza
Que Christo tem em seo peito,
Por lhe ser o mais aceito
Na Fé, Constancia, e Valor,
Peregrimo, e Senhor
Gram trabalhos padecendo,
Em fortaleza padecendo
Em o mundo grão valor.
35.
Em humildade, e esperança
A maior que jà se vio,
Com caridade subio
Ao lugar que logo alcança,
Justiça com temperança
Na prudencia o primeiro,
No castigo o derradeiro
Esperando a Sugeiçaõ,
Logo chega o pagaõ
A ser Christaõ verdadeiro.
36.
Portugal fica mais nobre
Em todo elle o poder,
E taõbem se háde ver
Ficar rico, o que foi pobre,
Aquelle a quem a fé cobre
Firme na Santa Igreja,
Todos lhe teraõ inveja,
Quando virem Portuguezes
Vencendo Turcos, Francezes,
E Moiros, em graõ Peleja.
37.
Dois descendentes que traz
De grande Valor, e Brio,
O Mais velho em Senhoria
Porá a guerra, em Paz,
Veraõ todos o que faz
De boms na Santa Igreja,
A força lhe tem inveja
A Fortuna, e augmento,
Farà pàrto o Sacramento
Onde toda Christaõ seja.
38.
O Pastor mór cedo falta
Seo descendente reinando,
E grande castigo dando
Aos vezinhos de Malta,
Quando Veneza se exalta
De França hé Malográda,
Cauzarà nesta pancáda
Entre os seos naturaes,
Seraõ os castigos taes
Que toda seja arrazáda.
Fim da Sexta Parte.
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