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Poemas neste tema

Esperança e Otimismo

Edmir Domingues

Edmir Domingues

Os esquecidos azuis de cobalto

No horizonte de sono das palavras
os sete monges magros pontificam.
E a voz das pregações que sempre cantam
não sabe compreensão nem ressonância,
se nas terras de inverno e areia morta
os que guardam de ouvidos não residem.
Porém silêncio, em dobras incontáveis,
onde repousam árvores de pedra
de longos braços nus dependurados
sobre o solo de pedra em que se ergueram.
Cujas sementes sete magos vesgos
fabricaram na sombra dos escombros
e as entregaram presto aos ventos loucos
que em danças de loucura as sacudiram
nas planícies de pedra e de silêncio.

É pois perdido o canto de ternura
que havíamos composto, (no intervalo
dessas horas de sangue e sacrifício),
que o uníssono das vozes cantaria
quando os nobres cansados da nobreza
sentindo-se descalços se sorrissem.

Pois os pastores bêbedos e os magos
tão bêbedos também quanto os pastores,
uns contra os outros lutam nas esquinas
e engendram cogumelos, do cobalto
que a nós nos pertencia, e era guardado
para fazer o azul quanto alimenta.
E cortam nossa voz que sabem fraca
se guardam ferro e fogo e nós só temos
um canteiro de rosas desmanchadas,
a noite e os seus mastins de pelo negro.

Mas eis que a noite já não nos pertence.
A noite, que era nossa, se ressente
da invasão das risadas dos estranhos
que vestem roupa preta e andam de noite
sem que o amor da poesia os leve à sombra.
Mas que buscam no escuro a integração
dos seus corpos vazios nesse escuro
quando a luz os ofusca e os entontece
e esses não são de bem que os incomodem.

Não nos importam nossas cinco chagas
se os espinhos da rosa que as fizeram
nas nossas frágeis mãos foram perfume.
Mas dói-nos quando o mal que nos atinja
não traga o seu perfume entre o cinzento.
Pois outrora era o amor, e de cobalto
se preparava azul, enquanto agora
são feitos cogumelos de cobalto
e as tintas do cinzento se difundem.

Daí o desamor que nos atinge
a nós que só de amor temos vivido,
o horrível desespero que nos ronda
a pouquíssima chama que nos mostra
que deve haver num ponto além do espaço
a ilha de esperança que buscamos.

Nessa ilha de ternura, quando a achemos,
a laranjeira exista e frutifique,
que em torno todos nós semearemos
os azuis de cobalto que tivermos.
Que em país de laranjas e outros pomos
poremos nosso reino incipiente,
e às bordas do seu mar descansaremos
deitados sobre a face do impossível.
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Edmir Domingues

Edmir Domingues

Fala às flores e aos ventos

Flor de cristal, nascida para o assombro
e a cinza da planície onde moramos,
desfalecida ou morta sobre a argila,
terna e frágil, no entanto abandonada.
Sem o vento, esse vento do planalto,
que já não desce aos quadros do cimento
trazendo o cheiro humilde dos seus bichos
para as nossas narinas de granito.

Nas planícies do espanto os nossos passos
não nos parecem já dos passos nossos,
se as esferas do mundo estão trocadas
e as cartas de roteiro indecifráveis.
O perfume da vida se transmuda
no estímulo de noite que atravessa
a solidão dos paços, onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.

Ó ventos que sabeis das inquietudes
que velas são, nas mãos dos tresnoitados,
impulsos para a fuga, residentes
nas fronteiras de sono da loucura.
Nas vossas mãos, ó vento, a rude oferta
do que somos, do que de nós vos fica,
o corpo enfraquecido, o resto atento
ao clamor que nos rompe as coronárias.

Junto a adarga e florim serão deixados
os versos, por palavras, que não dizem,
de vez que se dissessem toda a vida
estaria de muito transformada.
E então, por esses campos de vermelho
repousaria o azul que nos descansa,
e nos olhos dos homens se leria
a humildade que há no olhar dos bichos.

Se a humildade dos bichos, a humildade
que nos falta, sobeja no planalto,
e os confins da distância nos prometem
se faça de matéria o que promessa,
guardada em nosso olhar a luz da infância
seja a esperança então de que retorne
quando o alento que resta nos transporte
aos caminhos da serra e da vertigem.

Iremos ao planalto, onde não subam
as aves de metal desta planície,
que o peso dos seus ovos assassinos
as deterá na terra onde nasceram.
0 planalto e seus homens e seus bichos
e suas águas leves e seus pássaros,
não nos esperarão quando subirmos
e nos darão surpresa á nossa vinda.

Às mulheres seremos pouco estranhos,
pois dançarão conosco, os braços dados,
toda a dança de paz que nós soubermos,
quando virem, que nós lhes mostraremos,
as nossas mãos de lágrima e silêncio.

Rosa de fogo, os risos do planalto
serão os risos nossos muito breve
e a nossa voz de sono e de tortura
será feita de nova consistência.

Pois nós, os homens novos, na altitude
dos novos pensamentos que teremos,
seremos do planalto devolvidos
aos caminhos de luz que nos esperam.

Ao perfume da vida, aos planos onde
o azul que foi plantado frutifica,
à solidão dos paços onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
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Martha Medeiros

Martha Medeiros

Perguntas

Quantas vezes você andava na rua e sentiu um perfume e lembrou de alguém que gosta muito?
Quantas vezes você olhou para uma paisagem em uma foto, e não se imaginou lá com alguém... 
Quantas vezes você estava do lado de alguém, e sua cabeça não estava ali? 
Alguma vez você já se arrependeu de algo que falou dois segundos depois de ter falado? 
Você deve ter visto que aquele filme, que vocês dois viram juntos no cinema, vai passar na TV... 
E você gelou porque o bom daquele momento já passou... 
E aquela música que você não gosta de ouvir porque lembra algo ou alguém que você quer esquecer mas não consegue? 
Não teve aquele dia em que tudo deu errado, mas que no finzinho aconteceu algo maravilhoso? 
E aquele dia em que tudo deu certo, exceto pelo final que estragou tudo? 
Você já chorou por que lembrou de alguém que amava e não pôde dizer isso para essa pessoa? 
Você já reencontrou um grande amor do passado e viu que ele mudou? 
Para essas perguntas existem muitas respostas... 
Mas o importante sobre elas não é a resposta em si... 
Mas sim o sentimento... 
Todos nós amamos, erramos ou julgamos mal... 
Todos nós já fizemos uma coisa quando o coração mandava fazer outra... 
Então, qual a moral disso tudo? 
Nem tudo sai como planejamos portanto, uma coisa é certa... 
Não continue pensando em suas fraquezas e erros, faça tudo que puder para ser feliz hoje! 
Não deite com mágoas no coração. 
Não durma sem ao menos fazer uma pessoa feliz! 
E comece com você mesmo!
1 342
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A PARTIDA [c]

A PARTIDA

E eu o complexo, eu o numeroso,
Eu a saturnália de todas as possibilidades,
Eu o quebrar do dique de todas as personalizações,
Eu o excessivo, eu o sucessivo, eu o (...)
Eu o prolixo até de continências e paragens,
Eu que tenho vivido através do meu sangue e dos meus nervos
Todas as sensibilidades correspondentes a rodas as metafísicas
Que tenho desembarcado em todos os portos da alma,
Passado em aeroplano sobre todas as terras do espírito,
Eu o explorador de todos os sertões do raciocínio,
O (...)
O criador de Weltanschauungen,
Pródigo semeador pela minha própria indiferença
De correntes de moderno todas diferentes
Todas no momento em que são concebidas verdades
Todas pessoas diferentes, todas eu-próprio apenas —
Eu morrerei assim? Não: o universo é grande
E tem possibilidade de coisas infinitas acontecerem.
Não: tudo é melhor e maior que nós o pensamos
E a morte revelará coisas absolutamente inéditas...
Deus será mais contente.
Salve, ó novas coisas, a acontecer-me quando eu morrer,
Nova mobilidade do universo a despontar no meu horizonte
Quando definitivamente
Como um vapor largando do cais para longa viagem,
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, de Crença limpa no Ultramar,
Eia — por aí fora, por esses mares internado,
À busca do meu futuro — nas terras, lagos e rios
Que ligam a redondeza da terra — todo o Universo —
Que oscila à vista. Eia por aí fora...
Ave atque vale, ó prodigioso Universo...

Haverá primeiro
Uma grande aceleração das sensações, um (...)
Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência,
(...)
(E até à aterissage final do meu aero (...) )
Uma grande conglobação das sensações incontíguas,
Veloz silvo voraz do espaço entre a alma e Deus
Do meu (...)
Os meus estados de alma, de sucessivos, tornar-se-ão simultâneos,
Toda a minha individualidade se amarrotará num só ponto,
E quando, prestes a partir,
Tudo quanto vivo, e o que viverei para além do mundo,
Será fundido num só conjunto homogéneo e incandescente
E com um tal aumentar do ruído dos motores
Que se torna um ruído já não férreo, mas apenas abstracto,
Irei num silvo de sonho de velocidade pelo Incógnito fora
Deixando prados, paisagens, vilas dos dois lados
E cada vez mais no confim, nos longes do cognoscível,
Sulco de movimento no estaleiro das coisas,
Nova espécie de eternidade dinâmica ondeando através da eternidade estática —
s-s-s-ss-sss
z-z-z-z-z-z automóvel divino
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

40 - ELEVATION

Before light was, light's bright idea lit
        God's thought of it,
And, because through God's thought light's thought did pass,
        Light ever was,
And from beyond eternity became
        The living flame
That trembles into life and reddens with
        Our life's soul‑width.

Before light was, when yet the night was queen
        O'er what had been,
In God's realized prescience it could be
        Light from eternity,
For no time enters into God's thoughts or
        Their spaceless Hour.

Take thou therefore, my Song, from light the mood
        Of being, and brood,
Like the Dove unbegot, over the abyss
        Of consciousness,
Taking as thy true part that thought of God
        Whence light issued.

Let my words burst into that divine flame
        That lights its name
Of each thing from within with ultimate meaning.
        Though earth be screening
With fixed appearance the Sun in each Thing,
        Bear, on thy wing
High‑lifted, rays from the unrisen Sun
        Whence life is spun.

Soar out, my Song, out of despair and night
        And catch that light
Ere it appear, from neath the horizon
        Of action,
Borne out of dreams by intuition bright
        Of endless light.

Though none believe nor any understand,
        Yet feel thee fanned
With those breeze‑breaths that come up with the morn
        From the Unborn.
Soar like a lark into the coming day
        And bear thy way
Into the possibility of noon
        Hid in the dawn.

No matter that none know what thy words speak.
        A day shall break
Out of eternity as each day bright
        Out of each night.
Thy wings shall touch the slanting light of dawn
        And, upwards drawn
By being light‑struck, shall to light be near
        When light's yet far.

Hope is thy ready and high‑soaring flight
        Out of the night,
Joy is thy touching of the first high rays
        That day betrays,
Life is the course thy flight sequesters from
        Earth and its nightly doom,
And these three things are one in thy belief
        That pain is brief.

II

Thou, unseeen Bird, essence of spiritual light,
        That yet art bright
With the epitome of the outer shine,
        Thou that art mine
And yet not mine but general to the earth,
        Wings of rebirth,
Whose song, though in me heard, participates
        Of all that all elates,
Thou point of meeting of me with the wings
        Hidden in all things,
Thou breath, thou vapour, seen and not seen, of
        Some abstract love,
Thou exhalation of the prisoned flight
        Of all things' weight,
Thou that in me art fear, mad splendour, all
        To ache and enthral,

Attract me, take me, o pure flight, and rise
        With me in thine eyes,
Lost, cast, unpetalled and divine, up to
        What thou dost woo!

O Spirit‑Lark that wakest ere the morn
        And art reborn
At each recoming of the sun, and art
        The wiser part
Of all that message is to our low eyes
        Of what shall rise!
Life‑weightless Bird that no meads can attract,
        But that must act
Its fate in air, above our marshes sad
        And meads low‑laid,
In free heights communing with the Great Horn
        As yet unborn!
O sterile Bird that hast no nest nor home
        But what shall come,
That hast no song save in the heights above
        Nests, homes and love,
Nor any thought save for the coming day,
        Though far away
It seem to those who measure yet thy flight
        But by its height
And not by its intention, that is carried
        From life and married
To those diviner hours that winged things
        Find with their wings!
O Bird of ruthless song and untold wishes,
        Whose high flight reaches
Heights not of earth, but of pure air, encumbered
        With no joys weighed and numbered!
Take all my heart in thy purpose of going
        And make the flowing
Down to earth of my song be like thy song,
        Something strange, strong
With distance, eerily half‑perishing
        From farness! Sing,
And let my heart be what thou meanst with singings
        My life with winging.
My hopes and fears with th’tone wherewith thy note
        To me doth float
And the great purpose hidden in my fate
        With thy mere height!

My heart shall thus be happy even if pained,
        Free even if strained
To keep that height of joy whence tremble down
        Thy songs to our own.
My soul may thus be happy, full and free.
        Oh, happily
Raise me from me and lift my life unto
        That thou dost woo -
The light, the sky, the distance and the morn,
        Till I be unborn
Again to pure dispersion in the seas
        Of the high breeze
That speaks to thee, ere light be born, of light,
        Till the delight
Of without being being shall make me
        Song and sky be!
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