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Poemas neste tema

Literatura e Palavras

Walmir Ayala

Walmir Ayala

Pranto por Federico García

Disseram que a noite se alarmava
entre dois caules de aura
quando abateram o cristal profundo
da tua cara;
disseram que despertava o dia
Federico García.

Mas em tua carne anoitecia
uma urna letal de azufre,
e em teus cabelos despetalava
a fina flor de Andaluzia.

Disseram que o cão do horizonte
gemeu dolorosamente,
Federico,
E se ergueram lençóis de espinhos
à tua frente,
para amortalhar teu corpo
e sanar tua nostalgia,
para amansar tua boca
Federico García!

Tua boca que mais cantava
do que a morte jamais pensara,
tua boca como a bandeira
nos campos da tua cara,
campos de cravos e amêndoas,
de olivais e litanias,
onde os gitanos se abraçam
Federico García.
E teu canto, como uma pedra
fundia a fúria assassina,
e mais amargor havia
naquelas mãos delatoras,
do que na tua agonia,
ai, Federico García.

Teu canto quebrava espadas
nos ares de Andaluzia,
e as mães choravam os filhos
de Espanha, que em ti morriam;
mas morria mais que tudo
teu corpo de sol e azeite,
e eram em seios eternos
que então bebias teu leite!
Ai, Federico García!

E tudo eram rumos antigos
no espanto do teu sacrifício,
aqui estamos deplorados
neste doloroso vício
de viver, que era o teu gáudio;
aqui estamos com teu sangue,
com tua melancolia,
com tua guitarra heróica,
com teus touros de alegria,
e a paixão da liberdade.
Ai, FEDERICO GARCÍA!


Publicado no livro Poemas da Paixão (1967). Poema integrante da série Sangue na Boca.

In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.348-35
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Moacyr Felix

Moacyr Felix

Eu Sou Daqui: 1970 a 1980

A Wilson Fadul, Waldo César e Luís Eduardo
Vanderlei, companheiros nas lutas pelo socialismo e
liberdade na Paz e Terra e na revista de mesmo nome


(...)

No Brasil o poema deve nascer como se fosse a própria vida
do coração que arranco como um peixe trêmulo nas horas
da liberdade a desmoronar-se devagarinho em cada rosto;
da melancolia a encolher-se na profundidade dos botecos;
das ruas que os ventos movem numa antiga cantilena de escravos;
da pobreza a dependurar-se no corpo grande da existência;
da revolução a servir de vinho para os que se constroem de pé.

No Brasil a palavra de cristal exila o tempo
da sombra quente do poema; usá-la tão-somente
para entoar brisas entre as roxas bundas do Saber
ou para dialogar com um Deus qualquer no espaço
sem sujeira e sem erros, sem manhãs estilhaçadas
no salário menor que as mãos,
é nos desfazermos da verdade que nos firma em homem
da cor do agora, homem comum, simples homem que escreve.
Em meu país, o poeta não usa a braçadeira dos patrões
e com mão insubmissa testemunha
os movimentos do Homem no tempo que sangra
entre a esperança e a história
de cada indivíduo e cada povo.
Em meu país a poesia manda os metafísicos à merda.
e é abrigo provisório das coisas e da vida que são provisórias.
E também às vezes é o definitivo lar
do desespero que se destina a servir a uma esperança
e sub-roga o suicídio pelos atos de criar.

Sem qualquer pretensão de eternidade
como o olhar do pivete a vigiar o carro
que passa, o poema brasileiro não nasce
alimentado pelo indefinível.
E nenhuma vaga saudade do Ser o impele
aqui e agora neste quando
em que se move
para existir, simplesmente existir
como é devido ao homem, a cada homem.

(...)

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Publicado no livro Em Nome da Vida (1981).

In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.178-17
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