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Mãe e Maternidade

Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 3

Uma mulher está sentada junto à sua janela.
Por detrás fica a casa.
Ainda hoje não entendo isso.
Porque venho através dos corredores, eu, o mensageiro ardente e desordenado, e caio naquele espaço de silêncio, e quando digo mãe, ela volta-se e sorri do fundo de uma terrível sabedoria.
Os olhos são límpidos e de uma beleza dolorosa.
Sim, sim, diz a mulher, e sorri sempre.
Agora a memória é a minha tarefa, e tantos anos de trabalho assíduo não me levam a grande coisa.
Sou um homem de pouca qualidade.
Lento.
A cabeça da mãe, essa, é tremendamente alta, no meio da luz.
Não compreendo.
Mas vejo que há distâncias, e a distância é uma dor.
A maturidade, uma dor: apenas isso.
A grande maravilha é a tal cabeça muito alta que a luz ataca por todos os lados.
Na casa é tudo assim, e eu sou a única criatura que possui uma velocidade cega.
Uma criança voraz batendo contra o implacável fulgor de todas as coisas.
E então não tenho o amor das palavras e significações, e quando chego as pessoas sorriem e são pacientes comigo.
Param, andam devagar: o seu ritmo é inacessível.
Eu desejaria saber alguma coisa mais acerca dos ritmos.
Talvez quisesse, digo.
Hoje, o meu ofício tornou-se a lentidão, e o meu ritmo é escrever sobre a veloz cegueira de um ano mais antigo.
Eu tinha oito anos, parece-me que é bom dizer isto, e a casa ficava por detrás da mãe, e agora acho que me vou pôr a falar da casa.
A qual parece uma grande esponja.
Atravessam-na múltiplos, longos e estreitos corredores, lançados em todos os sentidos.
É por aí que eu corro, gritando as palavras bárbaras.
Não, não é a infância.
Refiro-me às musas inquietantes, e a mãe, como o carneiro de fogo, a tremenda força animal, arrasta tudo atrás de si.
A mulher sentada — essa bela criatura destruída — ela, imaginem, o carneiro de fogo.
E é.
A casa que tem pregada às costas é o meu amargo, exaltante e inútil prodígio.
Não tenciono ser demasiado claro a respeito de coisa alguma.
Falo da casa.
Trata-se de uma grande casa.
O que há mais são corredores e escadas, e vastos quartos onde irrompe a luz abrupta.
Tenho uma teoria acerca desta casa.
Falsa, sim.
Mas está certa com o espírito de tudo, quero dizer: com as regras da memória.
A minha teoria é que os quartos esmagam os corredores.
Segundo as leis da memória, eles desenvolvem-se como seres vivos, e os corredores e escadas são apenas consentidos acessos, um pouco ambíguos, à inacessível alma dos quartos.
Porque os quartos são adultos.
Caminho pelos corredores e escadas e procuro atingir a mãe que sorri na sua violenta mas imóvel força, e a avó completamente enigmática, e as irmãs e primas que, vou dizê-lo, são assim como cercadas de uma atmosfera de irrespirável beleza.
Amo-as em pânico.
Este amor oblíquo, vejam, não o escrevo com qualquer tergiversão lírica.
Os meus oito anos são monstruosos, mesmo com a distância dita transfiguração, ou dor, se quiserem, ou talento.
Qualquer desses erros é cuidadosamente implacável, porque escrevo.
Escrever não é uma simples volúpia, ou uma responsabilidade moral.
Deve ser um acto de cruel religiosidade, uma espécie de inteligentíssima expiação do crime obscuro de não ter morrido.
E quando se escreve sobre o que eu amaria chamar de temas centrais, há que saber cometer bem os bons erros.
Falo de musas, e a casa — segundo o que penso — é uma esponja.
Ando pelos corredores como para ter acesso à dor incompreensível.
A casa desenvolve-se a partir do quarto grande, o da frente, voltado para o mar, e de onde quase nunca sai a mãe.
A força concentra-se ali e é por um impulso secreto que os outros quartos se desdobram, empurrando-se uns aos outros e abrindo altas portas estreitas para os corredores esmagados.
Há muitas escadas que exprimem um atento esforço para tudo ligar, na linguagem exterior da utilidade.
Porque, afinal, tudo é unido através daquele coração nuclear.
O quarto da mãe.
E então foi-me dado o labirinto e a minha tarefa é dura e fascinante.
Encontrar chaves, decifrar enigmas, descobrir pistas.
Porque estas mulheres que me amam, e que eu amo num segredo doloroso, não me ajudam.
O seu auxílio executa-se em planos inextricáveis.
Ensinam-me os nomes, narram as fábulas e apresentam-me a tradição.
Em certo sentido, conheço tudo.
Mas sou um sôfrego: tenho o talento do amor.
Desejo tocar os vestidos das mulheres, vê-las pentear-se, saber as mínimas razões dos seus movimentos, e o que é aquilo, aquilo — o silêncio delas, a pausa e a luz fixa dos olhos.
A mãe está a essa janela.
Eu cresço, durmo só.
Ouço de noite os ruídos da casa contra o fundo do mar.
Nada é simples, mas todos dizem que eu cresço, e sinto-me crescer.
Não sei o que vou fazer do meu crescimento, senão que agora é mais difícil fazer qualquer coisa, pois as irmãs também crescem e de um modo fulminante.
Porque sinto que se retiram e não posso segui-las.
Muitas vezes mandam-me embora, e os seus vestidos tornam-se de repente deslumbrantes.
Passo os dias a procurá-las pela casa.
Vejo-as, ora uma ora outra, no alto das escadas, e desaparecem.
Minhas primas voltam das aulas e riem loucamente, a cabeça para trás, e depois ficam muito sérias.
A avó diz: raparigas, raparigas.
E então, uma noite, estou sentado no chão, num dos corredores, com as costas junto à parede.
No quarto ao fundo do corredor, por cuja porta aberta sai a luz quente e o murmúrio curvo das vozes, as mulheres trabalham.
Eu ouço.
Das sombras, da luz, das vozes — sobretudo daquele calor como que distante — nasce uma súbita razão.
Em mim, uma alegria tão forte que se torna necessário fazer qualquer coisa.
Tiro do bolso o meu pequeno canivete e, no braço nu, traço um golpe fundo.
Vejo o sangue correr, o meu sangue.
Desliza pela carne, pinga para o soalho.
E as vozes continuam, mornas e ricas, e a luz e as sombras no corredor são as mesmas.
Distingo até o ruído leve de alguns movimentos das mulheres, e o seu riso abafado.
Levanto-me devagar, atravessado de alto a baixo por essa incoerente alegria que, parece, não deverá nunca mais extinguir-se.
Não tiro os olhos do sangue, mais abundante agora.
Sei que é o meu sangue.
Meu.
De pé, fico encostado à parede.
E depois ponho-me a rodar sobre mim mesmo, ao longo do corredor.
Deixo na cal marcas de sangue.
Sinto na cara, a cada volta, a frescura da parede.
É uma lenta marcha que cumpro ritualmente, às vezes beijando a parede, premindo contra ela o braço rasgado.
O sangue corre.
Devo estar bêbedo.
As vozes parecem agora mais altas, a luz mais intensa, e a minha alegria torna-se inseparável de uma confusa e decisiva dor.
Uma dor conquistada com inspiração e sacrifício.
Depois é o meu espectáculo.
E o monstro aparece em cena.
Em frente da porta, vejo as mulheres dobradas sobre os bordados.
A mãe lê.
Num canto, à mesa, as primas estudam.
Levanta-se uma cabeça.
Um grito, o começo do triunfo.
Estou ali, diante de todas as mulheres que me amam, e sangro por mim e por elas, e para elas.
Estou coberto de sangue.
É a glória.
1 067
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 5

Estou no fundo da casa, no abismo possível dos oito anos.
A glória sangrenta é uma lembrança.
Da minha doença horizontal — súbita e esmagadora — pressinto a glória como uma coisa pequena.
Como se um indefinido grão de ciência tivesse um preço monstruoso: uma espécie de morte e um difícil renascimento, entre penumbras.
E o que se perdia — que perdera eu? — seria talvez tão precioso pelo menos como aquilo que se ganhava.
(Não reconhecia também o que ganhara.)
Aparecera em mim uma nova fragilidade, e o meu corpo crescera no seu conhecimento, o amor crescera e a confusão.
Contudo, eu havia decifrado um enigma.
Não sabia qual.
O mundo, entretanto, compreendera alguma coisa a meu respeito.
Os outros viam que eu crescera até ficar como que às portas da loucura.
E então as mulheres vinham observar o enfermo, com algum espanto, uma curiosidade cúmplice, talvez mesmo com certa gratidão.
Traziam as coisas femininas: as mãos, os vestidos, os cheiros, os longos cabelos, os olhos cheios de pensamento, e as maçãs, os bolos, a nenhuma referência verbal à minha glória.
Eu percebia, percebo isso.
Descubro também que sou pobre.
Que os homens não possuem outra arma além de um comovido e estéril entendimento.
Terei talvez de morrer gloriosamente um milhão de vezes, e ressuscitar sempre, com uma acrescentada ciência estéril.
A mãe chega e olha para mim.
Devorado pela febre, descubro a máxima lentidão das suas mãos e a máxima profundidade dos olhos.
Beija-me.
É como se ela tivesse também inteiramente descoberto quem eu sou.
Beija-me como se, de certa maneira, eu estivesse morto, para ressuscitar noutro sítio, noutra linguagem.
A avó, essa, tem uma idade verdadeiramente espantosa, porque me traz maçãs.
Põe-nas na mesa de cabeceira e diz: amanhã estás melhor.
Tremo.
Alegria, terror, gratidão, admiração.
As mãos e a cara dela são muito velhas — inesgotáveis.
Ajeita a roupa da cama e não sorri.
Não precisa sorrir.
A sua força é para além disso.
Uma força de presença, apenas.
É uma presença total, um bloco de idade.
Mas as irmãs e as primas sabem menos, por isso posso tocar mais facilmente nelas o pequeno milagre da minha nova sabedoria.
Vejo nelas um vestígio de culpa e reconhecimento.
Põem vestidos claros, beijam-me muito, contam tudo o que lhes aconteceu durante o dia.
Parece que desejariam dizer: não temos qualquer segredo para ti, queremos que te levantes e venhas connosco para todos os lugares.
Sabemos, no entanto, elas e eu, que nada mais temos do que amor para nos darmos.
Nunca possuiremos o mesmo conhecimento, o mesmo crescimento.
Eu deverei aprender devagar e penosamente o ritmo da feminilidade, aquele lugar onde elas têm vestidos claros e riem, ou onde de súbito ficam silenciosas e são lentas, como se receassem quebrar algo que trouxessem dentro de si.
Descobrirão logo o sentido da minha espectacular emoção, e ficarão gratas.
Depois vão-se todas embora, e eu permaneço com as minhas trevas onde o corpo está a crescer tanto que poderei rebentar de dor.
A minha luta é para fixar a pequena luz que germina no escuro.
Preciso curar-me de um conhecimento tão recente e tão vivo.
Curar-me da sua intensidade, da sua surpresa.
Só então me será possível sair do quarto, andar pela casa, aproximar-me das mulheres sem terror — e falar-lhes.
Contudo, nunca lhes poderei dizer o que conheço.
Mas ser-me-á concedida a alegria.
Voltarei a ter o meu próprio corpo.
A ferida do braço cicatriza.
Os dias são brancos e extensos.
Durmo e acordo, e há sempre luz e tempo.
Quando as sombras chegam, ouço vozes que cantam.
Percebo que existe algures uma grande simplicidade a que não poderei chegar nem cedo nem tarde demais.
Tenho oito anos, uma primeira glória violenta, a primeira morte e um modo novo de avaliar-me.
Brutalmente, aparece a grande certeza de que estou vivo.
É impossível continuar doente.
Os dias andam depressa agora, já não apalpo o subtil tecido de que são compostos.
Quero fazer coisas.
Levantar-me da cama, ver, mover-me.
Devo afirmar que o mundo é o meu espaço e o tempo não poderá existir sem mim.
As mulheres já sabem.
A avó deixou de me trazer maçãs, e prepara-me a roupa.
A mãe anda como que atarefada noutra esfera.
Julgo que enche frascos de compota.
Há nas irmãs e nas primas um leve receio de que eu tenha crescido demasiado e comece a partir, pela casa fora, tudo o que apanhar à mão.
Esta esplêndida violência do meu ser atemoriza-as um pouco e, embora sorriam gentilmente, sei que acabo de alcançar um perigoso prestígio.
Elas nunca terão a minha violência.
Isso torna-me monstruosamente feliz.
Apenas a minha próxima morte as libertará, até que eu de novo renasça, para então as atemorizar de novo.
Um dia, porém, elas serão como a mãe, e estarão fora do meu alcance, porque nessa altura devem conhecer a minha essencial esterilidade.
E, mais tarde ainda, serão como a avó, terão toda a inteligência, e pelo seu espírito não passará a mais ligeira dúvida: saberão tudo o que haverá para fazer.
Estarei reduzido à completa masculinidade.
Mas muitos anos terão de passar até ao momento dessa desesperada tarefa.
A glória e o conhecimento só agora principiaram, nem eu sei ainda ao que me conduzirão.
Gozo o poder violento deste instante, não me volto para trás nem para a frente.
Deixo as roupas moles da cama, o círculo sensível e intuitivo das mulheres, o silêncio — e abandono o quarto, estonteado pela debilidade da doença e pela força da cura.
Cresceste, diz a avó.
Sorri agora, sabendo o que é e o que será tudo isso.
Cresci, penso, cresci durante a minha doença.
As irmãs olham-me com pudor e curiosidade e as primas tocam-me de passagem no ombro.
Parece que estou com os braços e as pernas muito grandes para o resto do corpo.
Há qualquer coisa em mim de desproporcionado, talvez um pouco repelente, mas também comovedor.
Temível, do mesmo modo.
Riem timidamente do meu aspecto.
Ah, sim.
Gostariam de entregar-se a uma veemente e feliz troça, mas a minha desproporção é inquietante.
Os braços e as pernas.
Sem dúvida: desenvolveram-se demais.
Mas trata-se apenas de um sinal grosseiro de outra coisa que ganhou novo espaço.
A vida cresceu, a diferença cresceu entre mim e elas.
Eu sei coisas.
Eu tenho forças.
Outro país, não o delas, está a florescer em braços e pernas, em obscuro poder.
Dá vontade de rir.
E devido à insólita transformação no fundo da doença, aos oito anos, os anos delas vão-se pôr também a crescer, sabe-se lá como, com que poder e sinais.
Mas não penso nisso, nada sei.
Não me importam os seus risos e frases, nem a minha doença acabada, nem sequer o que diz a avó.
Estou interessado nos meus braços e pernas e no modo como aplicá-los ao vasto lugar onde se encontram e ao tempo atravessado pelo calor de junho.
Vejo que os posso colocar bastante bem em cada momento, no espaço todo.
Não há desproporção.
Os dias absorvem a minha desproporção.
Quando vou para a praia, movo-me melhor na água e corro sofregamente pela areia.
Por enquanto, durante toda esta ocupação de aplicar o meu novo tamanho, o corpo, o meu coração posterior à glória, à morte e ao renascimento, por enquanto sim, sei que desprezo um pouco as mulheres.
É preciso ser a avó para entender isso.
1 083
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 11

O cadáver foi trazido para o rés-do-chão através dos corredores sufocados na penumbra.
Era a mãe agora irreconhecível.
Entrava, horizontal, nos braços e ombros dos homens.
Saía e entrava pelas portas, e atravessava os patamares, e recuava para o quintal.
A aragem que passava sobre os ramos das acácias bateu nos cabelos mortos e o sol desenhou as folhas das árvores no rosto morto.
Depois os homens conseguiram meter o caixão naquele quarto.
Ora o caixão estava sobre uma sábia montagem de caixotes soberbamente ocultos por um pano de veludo negro — rico e pesado.
A mãe tinha um vestido preto, do qual explodia o rosto extraordinariamente limpo.
A mãe não era bela.
Ou antes: era muito bela se, vista em certos momentos capitais, daí partisse para uma sua integridade e permanência futuras.
Porque a mãe era evidentemente bela e grande.
E não é difícil encontrar exemplos.
Ela estava junto da janela, e a mão esquerda acariciava o lóbulo da orelha esquerda.
A cabeça inclinada para o lado esquerdo, auxiliando a mão e a orelha — o gesto.
O vento batia nos cabelos.
Tudo vinha pela esquerda — a luz, o vento e o rumor do dia — enquanto o braço direito caía fora da cadeira, dando volume, peso e densidade ao lado direito.
Como uma réplica.
Ora a mãe era bela e tinha-se posto a crescer.
Crescera até demais, depois da ausência no seu quarto de doente e da viagem morta pelos corredores e escadas.
Enchia agora o quarto.
O cabelo docemente desarrumado fazia voar a cabeça.
Levantava voo subtilmente, com o cabelo desordenado.
Os braços indistintos e negros corriam pelo vestido abaixo.
As mãos eram demasiado brancas.
Um pouco gordas?
Muito bem.
Havia círios enormes nos quatro cantos do catafalco e flores brancas espalhadas à volta daquela mãe morta.
Era uma câmara ardente.
Exactamente a câmara ardente daquela mãe que apodreceria, começando devagar a cheirar mal.
Bem.
Eu andava por ali.
Experimentava olhar para a morte da mãe de todos os lados possíveis.
Primeiro, colocava-me junto aos pés, entre os dois círios cujas chamas se dobravam no vento que vinha da porta aberta.
Os pés da mãe avançavam contra o meu peito, por altura quase dos ombros.
Via aquele território negro que as chamas vergadas e ondulantes faziam palpitar.
Ao fundo desse território que ondulava, cheio de cristas e crateras sombrias, estavam as neves mortas do rosto, e depois os cabelos.
E então eu ia para um dos lados do caixão, e o corpo da mãe atravessava o quarto.
Corria, partindo da cabeça, terrivelmente morto.
E era engolido pela áspera luz que irrompia aos pés, onde a porta rasgava um precipício.
Mudava de posição, e a cabeça ficava tão perto de mim que poderia tocá-la com as minhas mãos de criança inábil.
A cara descia pela testa e passava pelos olhos que, debaixo das pálpebras, não se sabia para onde olhariam.
E o nariz ocultava a boca.
E tudo o mais desaparecia branca e abruptamente no seio negro.
Experimentava outros ângulos, de onde era um ombro que crescia, ou o peito, ou era a cabeça despenhando-se sobre mim, ou então era uma perna negra.
Às vezes as flores, os círios, às vezes os cabelos, ou as mãos dobradas, ou o rosto desconhecido, ou às vezes o rosto momentaneamente muito conhecido.
Que sorria e se deslocava, vivo.
O corpo de uma pessoa estranha, invadindo a casa.
Entravam e saíam pessoas, e eu andava por ali, apropriando-me da morte, talvez a fim de ficar com ela para sempre.
A sala esvaziava-se, e as chamas dos círios curvavam e endireitavam-se — e nenhum, nenhum ruído no meio das sombras móveis.
Mãe, disse eu, e nada mudou, e eu era o filho.
Odiava uma coisa indefinida que, num certo futuro, seria uma como que abstracta injustiça.
E que seria depois o desencontro das pessoas, e a permanência delas dentro do desencontro.
Agora, por mais vezes que murmurasse: mãe — nada mais acontecia, e o sol branco rolava pelo quintal, e havia o ruído subtil das folhas das acácias sob o vento, e a corrida fulminante das lagartixas.
O meu dia talvez estivesse assegurando pela tradição de todos os dias.
O dia lúdico, com o qual todo o meu ser comunicava, a presença da luz, das nuvens e do vento, e de todas as coisas indestrutíveis do mundo.
Então saí do quarto e avancei pelos corredores cheios de cotovelos e atravessei portas e salas.
Lá fora, o sol e as árvores, mas o tempo terrífico já começara, e eu não sabia.
O mar batia nas rochas, era o que eu ouvia, e havia no ar o cheiro à água salgada.
Ouvia o mar que sempre tinha ouvido, e aspirava os mesmos cheiros, e às vezes, no meio de tudo, chegavam-me vozes perdidas.
Pregões, conversas na rua, risos e o barulho de um motor.
Mas a maneira como via a luz e ouvia as vozes era uma última maneira.
As coisas, as imagens, os seres existiam no ar atravessado pelo vento e pela luz — e era tudo uma última maneira.
E começava a memória, intensa mas purificada.
Voltava sobre os meus próprios passos.
Fiquei parado um momento sob o vento e o sol, no meio da tradição dos meus dias.
Fixo na móvel atmosfera de rumores marítimos, barulhos de motores, vento e vozes e risos.
E já sabia tudo.
Era terrível.
Dirigi-me então para as mesmas portas e corredores.
A câmara ardente estava vazia.
E assim como que seco, comprimido pela súbita pressão de um novo saber, eu olhava para tudo, e compreendia.
Um ser desaparecera, deixando pegadas na terra viva.
Eu mesmo desaparecera.
O irrevogável corpo da mãe sentava-se e levantava-se das cadeiras, debruçava-se às janelas.
Enchia a casa com o seu movimento e a sua força silenciosa.
Tinha um olhar, uma voz, um sorriso ardente e uma inteligência.
O tempo tomara isso ao seu cuidado, daquele modo implacável com que trata essas coisas.
Ali continuaria ela a existência truncada, repetindo-se, acabando a meio, voltando ao princípio.
Mas tudo estava morto, e mais pesado, porque estava morto.
Quanto ao corpo, era uma casca rachada.
Levaram-no.
Atravessava agora a cidade de linhas severamente puras, por entre plátanos e casas brancas.
Os automóveis tocavam os claxons, as crianças gritavam de incompreensível alegria, as montras expunham os belos objectos quotidianos e os cães passavam de um lado para o outro das ruas, rápidos, perseguindo a confusa teoria dos cheiros.
O céu era o mais admirável céu de havia muitos anos.
É possível que alguém cantasse dentro das casas.
E isto era extraordinário.
Sim, sim, cantavam.
Quanto ao corpo, levaram-no.
E o catafalco transformara-se num amontoado de caixotes, cujo primitivo equilíbrio se perdera.
A sua repentina inutilidade escapava a todos os estilos humanos.
Havia outra lei.
Era um espaço de terrível beleza.
Um dos círios caíra no chão, e havia flores esmagadas, e os castiçais tinham sido encostados à parede.
Cheirava a cera queimada.
E existia outro cheiro, subtil, ou somente adivinhado.
Talvez não existisse, talvez não.
Mas infiltrava-se como uma delgadíssima agulha através da substância dos outros cheiros.
Um cheiro a cadáver.
As vidraças das janelas eram de um verde de água profunda.
A luz do dia tornava-se verde, podre.
As minhas mãos, atacadas pela luz fria, pareciam corrompidas por uma doença desconhecida e ignóbil.
Eu estava parado no meio dessa luz, cheio de terror.
E era tempo de subir ao andar de cima.
Porque este quarto deveria afundar-se pela terra dentro.
O primeiro andar desenvolvia-se a partir de um grande quarto assente nos rochedos, sobre o mar.
A luz e o cheiro das águas e o vento batiam nesse quarto, e davam-lhe a força de iniciar a casa.
O andar desenvolvia-se em quartos poderosos cuja vitalidade mal permitia a existência dos corredores.
Os corredores moviam-se subtilmente por entre as possantes massas dos quartos, e eram escuros, e encolhiam-se ao pé das portas grossas.
Avançavam até ao quarto dos livros, branco e simples.
Eu andava pela casa, e havia os móveis, roupas, objectos e cheiros.
E outra coisa indefinível: a energia, ou o espírito, ou o génio da casa.
Um dínamo subjacente.
As cortinas estremeciam.
Minhas irmãs riam no meio das cadeiras, nas escadas, por toda a parte.
A mãe lia, mexia nos objectos.
Tudo estava ligado.
Minhas primas encostavam-se aos móveis, e também riam, com as grandes e pesadas cabeleiras tombadas para trás.
A luz acumulava-se nas suas gargantas, e era dolorosamente belo.
Que é que estão a fazer?
Nós, nós? que fazemos? ah, rimos — ora aí está: rimos.
Raparigas, raparigas.
Sim, rimos.
E riam.
Eu compreendia tudo, e despira a roupa para meter-me nu na terra mole, e comera terra, e andara à roda até cair para o lado.
As pessoas calaram-se.
Primeiro foram tirados os reposteiros e as cortinas, depois desapareceram alguns móveis.
Eu passava de um quarto para outro.
O quarto da frente ficou aberto durante muitos dias.
O sol queimava as paredes.
Espalmei a mão contra a parede.
Era uma mão alheia, cruelmente viva.
Tinha uma forma ardente e parecia feita de madeira nova, embebida profundamente de seiva.
Afastei-a da parede, e as eminências da palma e os dedos haviam ficado bem marcados, e cercavam o pó intacto que passava a representar a concha da mão.
Resposta fantástica de uma pequena mão viva.
Uma coisa quente destinada a um qualquer futuro.
Os quartos ficavam cada vez mais vazios.
Os meus pés desenhavam pistas múltiplas que se corrigiam sobre incompletas pistas anteriores.
Destruíam-se, e fechavam-se em círculos.
A luz vinha pelas janelas abertas, e os quartos eram dolorosamente grandes, e eu compreendia tudo.
(Ouço o meu nome como se viesse de uma região sombria, e através dele escorresse alguma coisa fugidia e densa — mercúrio.
Abro os olhos e vejo a vidraça fria e viva de uma janela sem cortinas, a parede erguida de um quarto, uma velha mala aberta no chão.
Estou numa cidade qualquer, num quarto de hotel.
Ninguém me chamou, não há ninguém.
Que vozes são estas, vozes inexistentes que me chamam?
Que mundo perdido, mas insistente, fabrica vozes para me surpreender, em quartos de pensões, no meio de uma outra busca, outra viagem?
Eu sou um movimento.
Surjo do abismo.
Inclino para o guarda-fatos a minha cara, o espelho põe-me diante de um novo objecto de ciência.
É uma cara espantosa, de louco, uma cabeça primitiva de pássaro inclinado para o seu próprio canto, o seu silêncio.
Uma cabeça queimada.)
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Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 14

Não se sabe bem então como é.
Como ciência rudimentar existe o terror, máquina apocalíptica do pressentimento.
Este saber desordenado instala-se no sonho, é aí que trepida um velho motor furioso.
É o coração, imagine-se — um órgão de profecia.
As altas coisas anunciadas vão à procura de personagens, e então aparecem o Pai e a Mãe: rostos demoníacos.
Conseguiram desprender-se da idade, da podridão, do crime de se haver amado a sua morte.
São figuras para todas as traições.
É terrível ser o filho, isto sabe-se — é a maligna sabedoria, enquanto pode não ser esquecida.
Com os labirintos dá-se isto: há que percorrê-los.
Então os pais agarram na infidelidade, cada um pelo seu lado, devorando-a.
Sabe-se, entretanto, que a infidelidade não pode ser de duas pessoas, porque tem de haver sempre traidor e traído.
É uma regra — foi banida a verdade dupla.
O papel monumental pertence à mulher — é sempre assim, sempre.
Possui a grandeza do destino, ela — é a terra, a sua cegueira superior, a clarividência.
E quando trai, com o corpo curvo e receptivo como a terra, é-lhe concedido o direito da mentira redonda — ela é a terra.
O pai parece ter morrido, sepultado nos terrenos da angústia — símbolo arcaico, metáfora pulverizada pela tremenda força compressora da terra — a dúplice, a ambígua, a feminina, a pactuante e protectora do filho atormentado pela embriaguez dos crimes.
E a mulher escreve no pergaminho: minha é a inocência.
E o filho recebe o legado — deita-se para dormir com ele, encosta-o ao coração, essa palavra de inocência que circula na circulação do sangue dele, o filho adormecido.
As justiças elegeram os pelotões de execução que esperam fora das câmaras, no pátio, em frente do muro onde se encostará o condenado, para receber no coração negro a bala libertadora.
Bastará talvez que o filho desenrole a palavra escrita pela mulher: inocência.
Nunca o fará, e chora pela última vez, enche o último instante com o valor duplo da inocência — palavra onde se juntaram mãe e filho, os amantes no crime.
A mãe é aquela face do enigma, no centro do labirinto, face da catástrofe, luz horrível que se recolhe como um ramo de flores venenosas.
Resta ao filho caminhar lentamente com a sua festa negra: o segredo que se não revela, o amor maldito, incesto, canto da sua glória tenebrosa.
E quando todos se meteram pelos anos dentro, caíram de podres, desapareceram, e os lugares foram esquecidos, e os tempos, e os antigos modos de trair e mentir e criar um enigma — então fica o filho, o órfão, com a verdadeira morte instalada no seu coração de homem, para com essa morte poder gritar:
Eu sou o crime, levanto-me com o meu crime, e então sou inocente, e atravesso o mundo para instaurar os novos lugares, o silêncio e as palavras sem culpa.
1 074
Matilde Campilho

Matilde Campilho

Ascendente Escorpião

Na noite em que Billy Ray nasceu
(rua 28, cruzamento com a 7, Nova Iorque)
não havia ninguém dedicado à contemplação dos gerânios
Havia, isso sim, o som do mundo que caía
como estalactites múltiplas
sobre as cercanias do hospital
Automóveis, alguns a 90 km/hora, outros a 30 km/hora
Bombeiros correndo para salvar o cachorro
preso na escotilha do bote atracado no Hudson
O imigrante rendendo o caixa na loja de conveniência
para roubar alguns dólares e chicletes
Aquele casal na esquina à direita, os dois chorando,
terminando com razão o arrastado namoro de cinco anos
Rosa Burns entrando em casa sem pressa nenhuma,
lançando investidas à fechadura com a chave muito mais velha
que seu rosto — tremendo, tremendo, quase desistindo
desse negócio de viver e atirar no alvo
Havia o camião varrendo todos os pedaços de lixo da rua
Havia o ruído das fichas de póquer sendo lançadas
sobre a mesa verde-gasto entre dedos e fumaça
Alguém gritando, na explosão da minúscula morte
Alguém cantando a canção sul-americana
Alguém afagando o pescoço do pombo sem dono
Alguém jogando a bola de ténis contra a parede do quarto,
repetidamente, repetidamente, repetidamente
Havia o rádio no on tocando algum barulhinho em onda média
Havia uma bruxa cozinhando azevinho & cobre na panela
do apartamento de paredes queimadas
Na noite do nascimento de Billy Ray
ao mesmo tempo que ele escutava o som gelatinoso
da placenta de onde era arrancado
e depois o som da passagem pelo canal uterino de sua mãe
e depois o som do primeiro toque em sua cabeça
e depois o som de seu próprio grito
o grito que inaugura a festa
O mundo se reunia inteiro
entre a rua 28 e a rua 7
o aleluia da existência ocidental:
centenas de homens vergados
fazendo vénia à metafísica suficiente
que existe nos corredores do mundo
e se extrapola
até ao infinito lunar
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