Poemas neste tema
Memórias e Lembranças
Renato Rezende
Mercado de Frutas
Quando saí de casa hoje
a rua estava em silêncio
como se a vida geral se tivesse cansado
de tanta história
e se deixasse levar sem grandes vontades.
Lento, na calçada ao lado
passava um negro
quebrando o silêncio com uma doce toada.
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
E carregava umas vassouras imensas
que pareciam mesmo coisas antigas
do tempo dos escravos.
Parecia um Rio de Janeiro de outrora.
Era um momento raro,
o presente permitia
a vitória do passado.
Com especial cuidado
desci a rua
em direção à feira
do Largo do Machado.
Longe, fugia a voz do negro
como se acaba um longo beijo:
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
Com renovado cuidado
escolhi as frutas
que me sustentarão neste dia.
A cidade eterna e efêmera
navega em si mesma;
comigo em seu seio.
Rio de Janeiro, 7 de abril 1997
a rua estava em silêncio
como se a vida geral se tivesse cansado
de tanta história
e se deixasse levar sem grandes vontades.
Lento, na calçada ao lado
passava um negro
quebrando o silêncio com uma doce toada.
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
E carregava umas vassouras imensas
que pareciam mesmo coisas antigas
do tempo dos escravos.
Parecia um Rio de Janeiro de outrora.
Era um momento raro,
o presente permitia
a vitória do passado.
Com especial cuidado
desci a rua
em direção à feira
do Largo do Machado.
Longe, fugia a voz do negro
como se acaba um longo beijo:
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
Com renovado cuidado
escolhi as frutas
que me sustentarão neste dia.
A cidade eterna e efêmera
navega em si mesma;
comigo em seu seio.
Rio de Janeiro, 7 de abril 1997
972
Renato Rezende
Cría Cuervos
Pensando em rever
Cría Cuervos, pela quarta vez,
mas pela primeira vez em dez anos,
meu coração se aperta -- e me emociono.
Não por antever a beleza do filme, ou como Saura
captura a tragédia da infância em suas cenas,
mas pelo jovem que um dia eu fui
e que deve ter morrido
numa sala de cinema.
Nova York, fevereiro 1996
Cría Cuervos, pela quarta vez,
mas pela primeira vez em dez anos,
meu coração se aperta -- e me emociono.
Não por antever a beleza do filme, ou como Saura
captura a tragédia da infância em suas cenas,
mas pelo jovem que um dia eu fui
e que deve ter morrido
numa sala de cinema.
Nova York, fevereiro 1996
1 039
Renato Rezende
A Idade de Cristo
I.
Sim, sim, sim, é o homem
que pertence à terra,
e não o contrário.
Esta casa de fazenda, por exemplo.
Seu sólido casarão de barro
pintado de branco e azul;
o terreiro de café;
a antiga senzala caindo;
é apenas nosso destino comum,
o nosso cenário.
Aqui há gerações jogamos o baralho
intricado de nossas vidas.
Aqui o teatro
aparente entre senhores e vassalos.
Junqueiras, Arrudas, Rezendes,
Prados, Azevedos.
Somos proprietários,
caseiros e camponeses.
Aqui onde hoje estão estas sombras
os jogos inocentes da infância,
as horas honestas do trabalho,
as noites de intriga,
os roubos, os atos ambíguos
jamais explicados ou compreendidos,
as palavras ditas e as não ditas,
os desejos da carne,
os encontros secretos de madrugada
sob o céu aberto
debaixo
das estrelas que caíam,
ou dentro das alcovas frias.
O casarão apreende o passado
em suas paredes, a fazenda em sua terra
e nos serve de volta no sabor do café diário.
II.
Caminho até o curral.
Dou bom-dia às vacas.
Volto para casa, o casarão
está vazio,
está vazia a colônia.
São 7 hrs. da manhã
o vento varre o terreirão
o sol nasce
atrás da serra
sento-me na sala e escrevo.
Hoje, domingo de Páscoa
bem cedo
sento-me no sofá, no centro
da sala,
no centro da casa,
e escrevo.
Volto ao curral
converso com as vacas,
desejo-lhes
feliz Páscoa.
Atravesso o terreiro
estou no pomar
varrido pelo vento
("Noite de vento
noite dos mortos")
pelo tempo e seus fantasmas.
Memória. Aqui é o caminho
do caçador de esmeraldas.
Velhas mangueiras, jabuticabas
cheias de barba de bode
abacates como corações verdes
de pedra pendurados nas árvores.
Pulo a cerca, estou no pasto.
Ossos
de outras gerações de vacas.
Garças, siriemas, possíveis cobras.
O campo aberto, o espaço
a distância
o vale seco
mais parece a India
mais parece a Africa
de um tempo remoto
que é meu e eu desconheço.
Contrariando a mim mesmo
de pijamas
cabelo ao vento
caminho até o café:
esta manhã eu me experimento.
Aqui estão eles: 30 mil pés
exigidos da terra
entre frestas de pedra.
Este é o nosso sustento,
este nosso exíguo alimento.
Destas alturas tudo vejo.
Sobem a estrada dois negros descalços
munidos de espingardas.
São lentos, mas sobem rápido.
Vão caçar na mata.
Penso em esconder-me,
mas já é tarde.
Passam por mim e desejo-lhes bom-dia,
e foi mais fácil desejá-lo às vacas.
Me sinto distante e isolado
destes outros seres, iguais a mim
e meus irmãos chamados.
Hoje, domingo de Páscoa, o Cristo
renascerá entre nós, ou melhor, em cada um de nós
como um sol solitário.
Volto para casa.
Fecho a porta, o vento
varre o terreiro
nesta manhã iluminada.
Estou só, mas me sinto preso
doce, tenuamente preso
(como um inseto
numa teia de aranha)
ao meu nome, meus fantasmas, meu feudo.
III.
Muitos lares cresceram
durante estes anos todos
na orla da fazenda.
A terra abafada
onde antes era mata
e depois pasto para vacas.
Casas simples, muita gente
onde numa tarde de outrora
eu e uma filha da colônia
nos deitamos em segredo.
É natural que tudo se transforme.
O amor se renova
em novos cénarios.
Nem um pouco desejo
o corpo da menina agora.
Nem sei se está viva ou morta.
No entanto, havia naqueles dias
na luz daqueles dias, ou no ar
a própria essência
da minha infância, da adolescência
que tinha uma vida inteira pela frente
mas não sabia.
Hoje se desenrola sem sentido
uma vida que não parece minha.
Em nada me reconheço
e em vão me busco na fazenda.
Sinto-me fora
de mim mesmo, fora de centro
ou escondido dentro:
vivendo um exílio às avessas.
Tenho 33 anos.
A idade de Cristo.
Sei apenas
que não ressucito, e já é tarde
para morrer jovem e bonito.
Atibaia, Semana Santa 1997
Sim, sim, sim, é o homem
que pertence à terra,
e não o contrário.
Esta casa de fazenda, por exemplo.
Seu sólido casarão de barro
pintado de branco e azul;
o terreiro de café;
a antiga senzala caindo;
é apenas nosso destino comum,
o nosso cenário.
Aqui há gerações jogamos o baralho
intricado de nossas vidas.
Aqui o teatro
aparente entre senhores e vassalos.
Junqueiras, Arrudas, Rezendes,
Prados, Azevedos.
Somos proprietários,
caseiros e camponeses.
Aqui onde hoje estão estas sombras
os jogos inocentes da infância,
as horas honestas do trabalho,
as noites de intriga,
os roubos, os atos ambíguos
jamais explicados ou compreendidos,
as palavras ditas e as não ditas,
os desejos da carne,
os encontros secretos de madrugada
sob o céu aberto
debaixo
das estrelas que caíam,
ou dentro das alcovas frias.
O casarão apreende o passado
em suas paredes, a fazenda em sua terra
e nos serve de volta no sabor do café diário.
II.
Caminho até o curral.
Dou bom-dia às vacas.
Volto para casa, o casarão
está vazio,
está vazia a colônia.
São 7 hrs. da manhã
o vento varre o terreirão
o sol nasce
atrás da serra
sento-me na sala e escrevo.
Hoje, domingo de Páscoa
bem cedo
sento-me no sofá, no centro
da sala,
no centro da casa,
e escrevo.
Volto ao curral
converso com as vacas,
desejo-lhes
feliz Páscoa.
Atravesso o terreiro
estou no pomar
varrido pelo vento
("Noite de vento
noite dos mortos")
pelo tempo e seus fantasmas.
Memória. Aqui é o caminho
do caçador de esmeraldas.
Velhas mangueiras, jabuticabas
cheias de barba de bode
abacates como corações verdes
de pedra pendurados nas árvores.
Pulo a cerca, estou no pasto.
Ossos
de outras gerações de vacas.
Garças, siriemas, possíveis cobras.
O campo aberto, o espaço
a distância
o vale seco
mais parece a India
mais parece a Africa
de um tempo remoto
que é meu e eu desconheço.
Contrariando a mim mesmo
de pijamas
cabelo ao vento
caminho até o café:
esta manhã eu me experimento.
Aqui estão eles: 30 mil pés
exigidos da terra
entre frestas de pedra.
Este é o nosso sustento,
este nosso exíguo alimento.
Destas alturas tudo vejo.
Sobem a estrada dois negros descalços
munidos de espingardas.
São lentos, mas sobem rápido.
Vão caçar na mata.
Penso em esconder-me,
mas já é tarde.
Passam por mim e desejo-lhes bom-dia,
e foi mais fácil desejá-lo às vacas.
Me sinto distante e isolado
destes outros seres, iguais a mim
e meus irmãos chamados.
Hoje, domingo de Páscoa, o Cristo
renascerá entre nós, ou melhor, em cada um de nós
como um sol solitário.
Volto para casa.
Fecho a porta, o vento
varre o terreiro
nesta manhã iluminada.
Estou só, mas me sinto preso
doce, tenuamente preso
(como um inseto
numa teia de aranha)
ao meu nome, meus fantasmas, meu feudo.
III.
Muitos lares cresceram
durante estes anos todos
na orla da fazenda.
A terra abafada
onde antes era mata
e depois pasto para vacas.
Casas simples, muita gente
onde numa tarde de outrora
eu e uma filha da colônia
nos deitamos em segredo.
É natural que tudo se transforme.
O amor se renova
em novos cénarios.
Nem um pouco desejo
o corpo da menina agora.
Nem sei se está viva ou morta.
No entanto, havia naqueles dias
na luz daqueles dias, ou no ar
a própria essência
da minha infância, da adolescência
que tinha uma vida inteira pela frente
mas não sabia.
Hoje se desenrola sem sentido
uma vida que não parece minha.
Em nada me reconheço
e em vão me busco na fazenda.
Sinto-me fora
de mim mesmo, fora de centro
ou escondido dentro:
vivendo um exílio às avessas.
Tenho 33 anos.
A idade de Cristo.
Sei apenas
que não ressucito, e já é tarde
para morrer jovem e bonito.
Atibaia, Semana Santa 1997
1 226
Renato Rezende
As Horas de Amor
O Marajá Akbar
escreve em sua biografia
que durante sua vida inteira
só sentiu amor verdadeiro
por três minutos e meio.
Akbar, o rei, o imperador
não apenas de uma província
mas de um país inteiro.
Quanto tempo de amor
eu tenho vivido na minha vida?
Nova York, 28 de junho 1995
escreve em sua biografia
que durante sua vida inteira
só sentiu amor verdadeiro
por três minutos e meio.
Akbar, o rei, o imperador
não apenas de uma província
mas de um país inteiro.
Quanto tempo de amor
eu tenho vivido na minha vida?
Nova York, 28 de junho 1995
1 009
Renato Rezende
Águas de Março
Amanhece chovendo
no meu apartamento
em Laranjeiras.
Tudo está mais lento.
Até mesmo o morro de pedra, sob a água,
o mirante de Dona Marta
fica mais doce, doce molhado, doce aço.
Chega até minha cama de solteiro
o cheiro suave da chuva,
e do vento:
o casamento
entre todos os elementos do universo.
Trégua
na luta geral da vida.
A cortina d'água na janela
se transforma numa tela
onde se projeta meu exílio
(esta vida nesta terra).
Memória.
A chuva molha
antigas companheiras
de cama em manhãs cinzentas como esta.
As férias na fazenda,
a infância
e o que ela teve de assombrosa e santa.
As tardes solitárias
na Espanha, na Itália, na França.
Ah, a Europa
de poliglotas cópulas.
(Toda chuva
a continuação da última).
Talvez em algumas dessas horas
eu tenha sido pleno.
Talvez em alguns desses momentos
de silêncio
eu tenha sido inteiro.
Chove. A água
silencia o tempo
e une a pedra à alma.
Rio de Janeiro, 17 de março 1997
no meu apartamento
em Laranjeiras.
Tudo está mais lento.
Até mesmo o morro de pedra, sob a água,
o mirante de Dona Marta
fica mais doce, doce molhado, doce aço.
Chega até minha cama de solteiro
o cheiro suave da chuva,
e do vento:
o casamento
entre todos os elementos do universo.
Trégua
na luta geral da vida.
A cortina d'água na janela
se transforma numa tela
onde se projeta meu exílio
(esta vida nesta terra).
Memória.
A chuva molha
antigas companheiras
de cama em manhãs cinzentas como esta.
As férias na fazenda,
a infância
e o que ela teve de assombrosa e santa.
As tardes solitárias
na Espanha, na Itália, na França.
Ah, a Europa
de poliglotas cópulas.
(Toda chuva
a continuação da última).
Talvez em algumas dessas horas
eu tenha sido pleno.
Talvez em alguns desses momentos
de silêncio
eu tenha sido inteiro.
Chove. A água
silencia o tempo
e une a pedra à alma.
Rio de Janeiro, 17 de março 1997
978
Renato Rezende
O Ouro Egípcio
O que me impressiona não são os peitorais
e outros antigos artefatos egípcios, de ouro
que hoje sobrevivem em museus.
O que me impressiona é o que não sobreviveu.
O tesouro perdido da civilização conquistada
por mãos anônimas e privadas, pelo ir e vir do deserto,
pelo tempo que cria gerações e as esmaga.
Nova York, dezembro 1995
e outros antigos artefatos egípcios, de ouro
que hoje sobrevivem em museus.
O que me impressiona é o que não sobreviveu.
O tesouro perdido da civilização conquistada
por mãos anônimas e privadas, pelo ir e vir do deserto,
pelo tempo que cria gerações e as esmaga.
Nova York, dezembro 1995
937
Renato Rezende
Sombras
Comprei uma biografia de Joan Miró
com algumas fotografias velhas, uma delas
mostra o pintor-poeta no fundo de um bar
bebendo, admirando La Chunga dançar. A foto
é escura e os dois parecem mortos.
É difícil acreditar que isso realmente aconteceu, a sombra
de toda história mais parece um sonho.
Nova York, 29 de maio 1995
com algumas fotografias velhas, uma delas
mostra o pintor-poeta no fundo de um bar
bebendo, admirando La Chunga dançar. A foto
é escura e os dois parecem mortos.
É difícil acreditar que isso realmente aconteceu, a sombra
de toda história mais parece um sonho.
Nova York, 29 de maio 1995
935
Renato Rezende
As Veias
O mesmo sangue que corre em minhas veias
já correram em minhas veias
em muitos outros corpos, disso tenho certeza.
Já chamei de minhas muitas veias, muitos corpos
em infindáveis línguas passadas, já mortas.
Já vivi muitas, muitas vidas... in short:
não há diferença entre um ser humano e o próximo.
Nova York, 2 de março 1996
já correram em minhas veias
em muitos outros corpos, disso tenho certeza.
Já chamei de minhas muitas veias, muitos corpos
em infindáveis línguas passadas, já mortas.
Já vivi muitas, muitas vidas... in short:
não há diferença entre um ser humano e o próximo.
Nova York, 2 de março 1996
1 072
Renato Rezende
Paraíso Perdido (Ou Pré-Poema)
Nenhum de nós jamais pensaria
em partir, em despegar-se deste corpo
que nos une e nos consome. Mas todas as noites agora
acordo com a dor de ir embora.
Não mais os aromas,
a côr, o brilho
das partículas do paraíso?
Nenhum de nós, desprovidos de suas asas
gostaria de encostar na terra, decaído.
No entanto, já me acena o mundo
com seu jogo de luz e trevas.
Mas, e o amor, o verdadeiro
Amor que sustenta tudo, que me permite
estar ainda erguido sobre esta nuvem?
Desço, em desespero, com o peso do corpo
à terra da impermanência
para nela destruir o que em mim não é eterno
como o fogo se apaga com fogo
como o ferro se forja no ferro?
Pensei que já não mais desceria.
Pensei que ficaria nesta esfera
até me unir em definitivo
no mais alto círculo divino.
Mas é o meu próprio desejo
que me leva de volta ao solo,
e de novo me descubro
homem.
Pensei que aqui ficaria até a memória
de tudo que vivi antes na terra
desaparecesse da minha memória.
Mas já sinto a própria memória
com sua sede de aranha e infância
arrombar todas as portas.
Que não seja longo, ó anjos, este passeio.
Mas, ao tocar os pés no chão
já começo a andar, e em cada passo mais me esqueço.
em partir, em despegar-se deste corpo
que nos une e nos consome. Mas todas as noites agora
acordo com a dor de ir embora.
Não mais os aromas,
a côr, o brilho
das partículas do paraíso?
Nenhum de nós, desprovidos de suas asas
gostaria de encostar na terra, decaído.
No entanto, já me acena o mundo
com seu jogo de luz e trevas.
Mas, e o amor, o verdadeiro
Amor que sustenta tudo, que me permite
estar ainda erguido sobre esta nuvem?
Desço, em desespero, com o peso do corpo
à terra da impermanência
para nela destruir o que em mim não é eterno
como o fogo se apaga com fogo
como o ferro se forja no ferro?
Pensei que já não mais desceria.
Pensei que ficaria nesta esfera
até me unir em definitivo
no mais alto círculo divino.
Mas é o meu próprio desejo
que me leva de volta ao solo,
e de novo me descubro
homem.
Pensei que aqui ficaria até a memória
de tudo que vivi antes na terra
desaparecesse da minha memória.
Mas já sinto a própria memória
com sua sede de aranha e infância
arrombar todas as portas.
Que não seja longo, ó anjos, este passeio.
Mas, ao tocar os pés no chão
já começo a andar, e em cada passo mais me esqueço.
943
Renato Rezende
Bacia
Banho de bacia
de metal esmaltado azul
claro como o dia
que quase-acaba,
como a asa
de uma borboleta pousada
na fruta.
de metal esmaltado azul
claro como o dia
que quase-acaba,
como a asa
de uma borboleta pousada
na fruta.
1 152
Renato Rezende
Aleijadinho
O tempo passa pelo mundo
e nós somos os ponteiros.
Aqui estou eu outra vez,
depois de muitos anos,
em Congonhas do Campo.
Os profetas
continuam olhando para o horizonte
verde mar, azul de Minas
sem sentirem nada,
maiores que a vida, calados,
absortos em si mesmos.
Nova York, julho 1996
e nós somos os ponteiros.
Aqui estou eu outra vez,
depois de muitos anos,
em Congonhas do Campo.
Os profetas
continuam olhando para o horizonte
verde mar, azul de Minas
sem sentirem nada,
maiores que a vida, calados,
absortos em si mesmos.
Nova York, julho 1996
955
Renato Rezende
Poemas
Sou ainda muito moço,
mas quando me lembro
dos tantos momentos que já vivi na minha vida
sinto que todo o passado tem sido um sonho
desaparecendo,
e quero mesmo que desapareça
e somente sobre a essência,
o supra-sumo
como cápsulas de amor preservadas em poemas.
Nova York, 23 de julho 1995
mas quando me lembro
dos tantos momentos que já vivi na minha vida
sinto que todo o passado tem sido um sonho
desaparecendo,
e quero mesmo que desapareça
e somente sobre a essência,
o supra-sumo
como cápsulas de amor preservadas em poemas.
Nova York, 23 de julho 1995
1 099
Renato Rezende
Andaluza
A janela de serviço do pequeno apartamento
de Granada, onde morava com minha família
(eu, meu marido, três filhos, a empregada)
era também pequena, mas dava
para a rua ensolarada: as copas das árvores
das alamedas de Granada, e a vida, que passava
(sempre!) longe e iluminada.
Nova York, setembro 1995
de Granada, onde morava com minha família
(eu, meu marido, três filhos, a empregada)
era também pequena, mas dava
para a rua ensolarada: as copas das árvores
das alamedas de Granada, e a vida, que passava
(sempre!) longe e iluminada.
Nova York, setembro 1995
709
Luci Collin
NAQUELE MAIO
as certezas chegavam oficialmente pelo correio
você guardara as máscaras numa maleta
e a maleta num baú antigo
e o baú fora enterrado a metros e metros
ou jogado no fundo do fundo do oceano índico
junto com as chaves
com os segredos do cofre
com o zoológico de cristal
Isto não se sabe
E eu seguira regando os gerânios
as prímulas e os telegramas vindos de longe
afofando a forragem no cocho
desenterrando ossuários
ocupada não fora ao baile
cuidara dos detalhes da brotação
cerzira albores e antefaces
Isto se sabe
você guardara as máscaras numa maleta
e a maleta num baú antigo
e o baú fora enterrado a metros e metros
ou jogado no fundo do fundo do oceano índico
junto com as chaves
com os segredos do cofre
com o zoológico de cristal
Isto não se sabe
E eu seguira regando os gerânios
as prímulas e os telegramas vindos de longe
afofando a forragem no cocho
desenterrando ossuários
ocupada não fora ao baile
cuidara dos detalhes da brotação
cerzira albores e antefaces
Isto se sabe
683
Renato Rezende
Os Dias
Sobre a estante de madeira
um lenço bordado por um antepassado;
sobre esse delicado trabalho
um copo de plástico:
vaso
para flores amarelas
como astros no espaço.
Assim --
passam os dias.
Boston, setembro 1990
um lenço bordado por um antepassado;
sobre esse delicado trabalho
um copo de plástico:
vaso
para flores amarelas
como astros no espaço.
Assim --
passam os dias.
Boston, setembro 1990
1 109
Marília Garcia
estereofonia
ESTEREOFONIA
nunca falei tão sério, disse e olhei
para cima: seu rosto no meio das gotas,
o guarda-chuva preto como uma moldura redonda
e você parado, cantando, virado para o vidro
do carro, sem ouvir mais nada
só a voz
a voz cantando no meio da chuva
e o eco no vidro do carro.
essa poderia ser a descrição
completa, mas o caminho mais rápido,
de um ponto a outro, ele respondeu,
eu podia ter ido embora na hora
os cílios partidos e aquela voz
cantando - mas o caminho mais rápido,
ele diz, e eu olho pra cima de novo
e lembro da cor malva
e dele dizendo que é quase
malva, tem um pingo que torna tudo
malva, mas a única cor que lembro
era o nublado daquele dia
a única cor era o
chumbo daquela vez:
eu olhei pra cima e você ia embora
pelas escadas. no último degrau
não se vira mais.
- esse poema contém 12 passos, ele diz,
e eu saio contando a distância
enquanto caminho dizendo o poema de cor,
mas daquele dia só me lembro
da cor de chumbo e a voz
em eco no vidro do carro.
olho para cima outra vez
e vejo sempre o mesmo
guarda-chuva preto, moldura para
descongelar cada um dos degraus,
para descongelar a ordem
do verso seguinte:
panorâmica, golpe e caixa-preta.
você vai sempre pelo som?
- que som?
nunca falei tão sério, disse e olhei
para cima: seu rosto no meio das gotas,
o guarda-chuva preto como uma moldura redonda
e você parado, cantando, virado para o vidro
do carro, sem ouvir mais nada
só a voz
a voz cantando no meio da chuva
e o eco no vidro do carro.
essa poderia ser a descrição
completa, mas o caminho mais rápido,
de um ponto a outro, ele respondeu,
eu podia ter ido embora na hora
os cílios partidos e aquela voz
cantando - mas o caminho mais rápido,
ele diz, e eu olho pra cima de novo
e lembro da cor malva
e dele dizendo que é quase
malva, tem um pingo que torna tudo
malva, mas a única cor que lembro
era o nublado daquele dia
a única cor era o
chumbo daquela vez:
eu olhei pra cima e você ia embora
pelas escadas. no último degrau
não se vira mais.
- esse poema contém 12 passos, ele diz,
e eu saio contando a distância
enquanto caminho dizendo o poema de cor,
mas daquele dia só me lembro
da cor de chumbo e a voz
em eco no vidro do carro.
olho para cima outra vez
e vejo sempre o mesmo
guarda-chuva preto, moldura para
descongelar cada um dos degraus,
para descongelar a ordem
do verso seguinte:
panorâmica, golpe e caixa-preta.
você vai sempre pelo som?
- que som?
637
Luci Collin
DE SOMBREAÇÃO
quando eu vivia na casa da rua anis
os cômodos e os exemplos eram imensos
calor abatumado na água-furtada
os insetos tergiversavam
e as rãs e os sorrisos eram de cristal holoédrico
uma mão regia os contratempos
os cometas eram inexplicáveis
as uvas de cera eram jacobinas
o amuo era sustado com água vegetomineral
elogio à lerdeza e à pantofagia
baralhando as notícias do jornal
um quelônio às vezes emergia da horta
para surpresa dos anões estáticos
para desespero da tia-avó manquitola
para a emoção do mamoneiro
quando viviam todos na casa e ainda eu
os genuflexórios levavam a alturas máximas
e eram temíveis as quedas e as vertigens súbitas
e eram temíveis as asas enferrujadas
e eram temíveis os olhos búricos
os sapatos haviam conhecido todas as ruas
as sacolas haviam carregado curiosos pesos
os compassos haviam desenhado todos os círculos
os ombros haviam acumulado elegias
eu dançava para que as acácias brotassem
eu dançava para que o doce desse ponto
eu dançava para que os vértices coincidissem
eu dançava pela alma dos afogados
me impressionavam as hagiografias
me impressionavam as vidas das criadas
a prataria escurecendo me impressionava
as joias na caixa me impressionavam muito
os dentes podres
a tabuada era um tratado de versificação
os espelhos tinham valsas embutidas
o tule sinonimizava voto e desejo
os desvãos do corpo eram grandezas incertas
e grudada nos rostos e colada às mãos e à pele
e às vozes mais delicadas mais desaplaudidas
ia insistia afincava
a aula magna do tempo
os cômodos e os exemplos eram imensos
calor abatumado na água-furtada
os insetos tergiversavam
e as rãs e os sorrisos eram de cristal holoédrico
uma mão regia os contratempos
os cometas eram inexplicáveis
as uvas de cera eram jacobinas
o amuo era sustado com água vegetomineral
elogio à lerdeza e à pantofagia
baralhando as notícias do jornal
um quelônio às vezes emergia da horta
para surpresa dos anões estáticos
para desespero da tia-avó manquitola
para a emoção do mamoneiro
quando viviam todos na casa e ainda eu
os genuflexórios levavam a alturas máximas
e eram temíveis as quedas e as vertigens súbitas
e eram temíveis as asas enferrujadas
e eram temíveis os olhos búricos
os sapatos haviam conhecido todas as ruas
as sacolas haviam carregado curiosos pesos
os compassos haviam desenhado todos os círculos
os ombros haviam acumulado elegias
eu dançava para que as acácias brotassem
eu dançava para que o doce desse ponto
eu dançava para que os vértices coincidissem
eu dançava pela alma dos afogados
me impressionavam as hagiografias
me impressionavam as vidas das criadas
a prataria escurecendo me impressionava
as joias na caixa me impressionavam muito
os dentes podres
a tabuada era um tratado de versificação
os espelhos tinham valsas embutidas
o tule sinonimizava voto e desejo
os desvãos do corpo eram grandezas incertas
e grudada nos rostos e colada às mãos e à pele
e às vozes mais delicadas mais desaplaudidas
ia insistia afincava
a aula magna do tempo
704
Renato Rezende
Depois do Banquete
Sobre a mesa fica
o que sobrou da efêmera alegria:
uma garrafa de vinho quase vazia
alguns vestígios de comida já não apetecível
e o último pedaço de pão,
esquecido:
cotovelo de anjo.
Salamanca, julho 1988
o que sobrou da efêmera alegria:
uma garrafa de vinho quase vazia
alguns vestígios de comida já não apetecível
e o último pedaço de pão,
esquecido:
cotovelo de anjo.
Salamanca, julho 1988
933
Luci Collin
declaração
que disparate tentar falar de amor
num poema______neste poema
não se conserva do outono
o adágio do pássaro
não se leva para além da memória
o delírio que a boca conheceu da fruta
sem nada saber de você
as cartas voltaram
os búzios se confundiram
a noite é pura orfandade
eu atravessei uma rua além do infinito
e eram areias e cansaço
e o tempo passa devagar tirando lascas da gente
e a chuva corta
e o tempo passa devagar
e escorrem as lembranças boas
que eu queria colar num álbum
escorrem numa lentidão de quase insanidade
sem nada saber de você
sei que quando se esfarelar
a última flor dessas que eu seguro
desapareci
num poema______neste poema
não se conserva do outono
o adágio do pássaro
não se leva para além da memória
o delírio que a boca conheceu da fruta
sem nada saber de você
as cartas voltaram
os búzios se confundiram
a noite é pura orfandade
eu atravessei uma rua além do infinito
e eram areias e cansaço
e o tempo passa devagar tirando lascas da gente
e a chuva corta
e o tempo passa devagar
e escorrem as lembranças boas
que eu queria colar num álbum
escorrem numa lentidão de quase insanidade
sem nada saber de você
sei que quando se esfarelar
a última flor dessas que eu seguro
desapareci
693
Paulo Henriques Britto
PÓS
Antes era mais fácil — sim, porque era
mais difícil, havia mais em jogo,
e o tempo todo se jogava à vera.
Precisamente: mais difícil, logo
mais fácil. Porque sempre se sabia
de que lado se estava — havia lados,
então. E a certeza de que algum dia
tudo teria um significado.
E nós seríamos os responsáveis
por dar nomes aos bois. Havia bois
a nomear, então. Coisas palpáveis.
Tudo teria solução depois.
Chegou o tempo de depois? Digamos
que sim. E no entanto os nomes dados
não foram, nem um só, os que sonhamos.
Talvez porque sonhássemos errado,
talvez porque, enquanto alguns se davam
ao luxo de sonhar, outros, insones,
imunes, implacáveis, se entregavam
à tarefa prosaica de dar nomes
sem antes os sonhar. E, dia feito,
agora tudo é fácil. E por isso
difícil. Não, a coisa não tem jeito.
Nem nunca teve, aliás. Desde o início.
mais difícil, havia mais em jogo,
e o tempo todo se jogava à vera.
Precisamente: mais difícil, logo
mais fácil. Porque sempre se sabia
de que lado se estava — havia lados,
então. E a certeza de que algum dia
tudo teria um significado.
E nós seríamos os responsáveis
por dar nomes aos bois. Havia bois
a nomear, então. Coisas palpáveis.
Tudo teria solução depois.
Chegou o tempo de depois? Digamos
que sim. E no entanto os nomes dados
não foram, nem um só, os que sonhamos.
Talvez porque sonhássemos errado,
talvez porque, enquanto alguns se davam
ao luxo de sonhar, outros, insones,
imunes, implacáveis, se entregavam
à tarefa prosaica de dar nomes
sem antes os sonhar. E, dia feito,
agora tudo é fácil. E por isso
difícil. Não, a coisa não tem jeito.
Nem nunca teve, aliás. Desde o início.
670
Ricardo Aleixo
UMA ALEGRIA
jamais minas gerais
vibrou dentro de mim
o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor
transatlântico negro
como naquele breve maio
ensolarado de alegrias
quando eu deambulava
pelos becos e ladeiras
de Coimbra e descobri
em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas
áfricas utópicas
ali em meio aos portugais
vibrou dentro de mim
o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor
transatlântico negro
como naquele breve maio
ensolarado de alegrias
quando eu deambulava
pelos becos e ladeiras
de Coimbra e descobri
em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas
áfricas utópicas
ali em meio aos portugais
665
Ricardo Aleixo
ÁLBUM DE FAMÍLIA
Meu pai viu Casablanca três vezes (duas
no cinema e uma na TV). Meu avô
trabalhou na boca da mina. Meu bisavô
foi, no mínimo, escravo de confiança.
no cinema e uma na TV). Meu avô
trabalhou na boca da mina. Meu bisavô
foi, no mínimo, escravo de confiança.
747
Marco Lucchesi
Como dizer Villaça
Como dizer Villaça
os medos
que devastavam teu coração?
o mosteiro errante
ao qual pertencias
e para o qual não sabias voltar
monge sem mosteiro
saltimbanco de um
circo místico
o perene abandono
de deus
e dos homens
sob cuja
sombra inquieto
te guardavas
esse crepúsculo de amores
não vividos
e tua anfíbia
condição de céu
e terra pecado
e salvação
essa memória
impenitente
era teu inefável luminoso labirinto
a luz
de que surgiam
os mortos
para tomar café
todas as tardes
na praia do flamengo
teu coração
feroz
e compassivo
e os mortos devastados
redivivos pelo deus cruel
e solitário da memória
das sentenças
de Abelardo aos livros
de Gilberto Amado
das cartas de Alceu
aos poemas
de Drummond
um deus que não sabia
nada de si mesmo
preso às teias de um fatal esquecimento
a tirania sagrada
que impuseste para esconder
as formas frágeis de teu rosto
tuas palavras tendiam
ao silêncio transformadas
de há muito em estrelas
e um anjo precisaria
arrancá-las de teus olhos
antes que se dissolvessem
na luz
das coisas
fundas que alcançavas
mas ele não veio
e te salvaste apenas
das atrocidades do mundo
não do abismo
de tua vasta
mortal delicada inocência
os medos
que devastavam teu coração?
o mosteiro errante
ao qual pertencias
e para o qual não sabias voltar
monge sem mosteiro
saltimbanco de um
circo místico
o perene abandono
de deus
e dos homens
sob cuja
sombra inquieto
te guardavas
esse crepúsculo de amores
não vividos
e tua anfíbia
condição de céu
e terra pecado
e salvação
essa memória
impenitente
era teu inefável luminoso labirinto
a luz
de que surgiam
os mortos
para tomar café
todas as tardes
na praia do flamengo
teu coração
feroz
e compassivo
e os mortos devastados
redivivos pelo deus cruel
e solitário da memória
das sentenças
de Abelardo aos livros
de Gilberto Amado
das cartas de Alceu
aos poemas
de Drummond
um deus que não sabia
nada de si mesmo
preso às teias de um fatal esquecimento
a tirania sagrada
que impuseste para esconder
as formas frágeis de teu rosto
tuas palavras tendiam
ao silêncio transformadas
de há muito em estrelas
e um anjo precisaria
arrancá-las de teus olhos
antes que se dissolvessem
na luz
das coisas
fundas que alcançavas
mas ele não veio
e te salvaste apenas
das atrocidades do mundo
não do abismo
de tua vasta
mortal delicada inocência
724
Horácio Costa
Aniversários
Vinte Anos Depois é um romance de Alexandre Dumas
duas décadas não são nada
é a média de vida do homem primitivo do escravo romano
é a idade de um cão muito muito velho
é a média de glória de um artista maior
o tempo sem celulite de uma cortesã
o lapso de procriação depois do casamento
quatro ou cinco mandatos políticos o auge de um Império
vinte anos levou a Constantino reformar Bizâncio
vinte anos fizeram a fortuna de Frick Morgan e Du Pont
vinte anos entre a apresentação no Templo e a crucificação
vinte anos é a matéria dos memorialistas
vinte anos e o povo se cansa da Revolução
vinte anos depois Odette está casada e Marcel morto
a roda o computador pessoal a moda das perucas brancas se
popularizam em não mais de vinte anos
Quéfren e Miquerinos construíram suas pirâmides em vinte
curtos anos
vinte anos depois o cadáver está frio olvidadíssimo
vinte anos de exercício e o êxtase desce ao asceta
nada nada são duas décadas vinte vezes nada
a ponte nova entre aqui e ali está congestionada hoje
a então chamada ponte do futuro já não serve mais
agora quando estás nela também estás aqui
tinhas o cabelo solto tinhas a rédea solta
soltas tinhas as palavras
há vinte anos
entre aqui e ali
duas décadas não são nada
é a média de vida do homem primitivo do escravo romano
é a idade de um cão muito muito velho
é a média de glória de um artista maior
o tempo sem celulite de uma cortesã
o lapso de procriação depois do casamento
quatro ou cinco mandatos políticos o auge de um Império
vinte anos levou a Constantino reformar Bizâncio
vinte anos fizeram a fortuna de Frick Morgan e Du Pont
vinte anos entre a apresentação no Templo e a crucificação
vinte anos é a matéria dos memorialistas
vinte anos e o povo se cansa da Revolução
vinte anos depois Odette está casada e Marcel morto
a roda o computador pessoal a moda das perucas brancas se
popularizam em não mais de vinte anos
Quéfren e Miquerinos construíram suas pirâmides em vinte
curtos anos
vinte anos depois o cadáver está frio olvidadíssimo
vinte anos de exercício e o êxtase desce ao asceta
nada nada são duas décadas vinte vezes nada
a ponte nova entre aqui e ali está congestionada hoje
a então chamada ponte do futuro já não serve mais
agora quando estás nela também estás aqui
tinhas o cabelo solto tinhas a rédea solta
soltas tinhas as palavras
há vinte anos
entre aqui e ali
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