Poemas neste tema
Morte e Luto
Juscelino Vieira Mendes
Ato de Dormir
O dormir: ante-sala da morte
Suas semelhanças são próximas
Como o são as pessoas em suas idiossincrasias
Há um pressentir de que não vem cedo,
mas chega de repente, sutil e mansa:
horizontal, olhos cerrados, paradoxal
Um passar sem conhecimento
Incólume de governos todos
Inerte, inconsciente, após momentos de faina impetuosa
Suas semelhanças vão ao porvir
Emergem de um impulso originário
Há descanso, ou cansaço após a noite; após o dormir...
Para viver é preciso morrer...
Para morrer é necessário viver...
Para descansar é necessário dormir bem
Há simetria, pois...
há concatenação:
no alternar do dia e da noite...
Suas semelhanças são próximas
Como o são as pessoas em suas idiossincrasias
Há um pressentir de que não vem cedo,
mas chega de repente, sutil e mansa:
horizontal, olhos cerrados, paradoxal
Um passar sem conhecimento
Incólume de governos todos
Inerte, inconsciente, após momentos de faina impetuosa
Suas semelhanças vão ao porvir
Emergem de um impulso originário
Há descanso, ou cansaço após a noite; após o dormir...
Para viver é preciso morrer...
Para morrer é necessário viver...
Para descansar é necessário dormir bem
Há simetria, pois...
há concatenação:
no alternar do dia e da noite...
1 215
Luís Amaro
Intermédio
Alguém que se ignora
Passeia a sua mágua
Lá pela noite fora.
Já sem saber se existe,
Entre silêncio e treva,
Nem alegre nem triste,
Alguém que a própria sorte
Enjeita, vai absorto
Num sonho que é a morte
E é vida — sendo morto.
(In Antologia de Poetas Alentejanos,
de Orlando Neves)
Passeia a sua mágua
Lá pela noite fora.
Já sem saber se existe,
Entre silêncio e treva,
Nem alegre nem triste,
Alguém que a própria sorte
Enjeita, vai absorto
Num sonho que é a morte
E é vida — sendo morto.
(In Antologia de Poetas Alentejanos,
de Orlando Neves)
999
Raimundo Braga Martins
O Tempo e o Homem
O Tempo e o Homem
Irrompe, no horizonte, a fraca luz da aurora,
o Sol volta a brilhar
surge um novo dia...
Quanta alegria!
Rompe a luz o denso véu da noite:
a treva se desfaz,
a vida se agita...
a alegria é infinita!
A Terra, em torno do Sol, se movimenta,
sem parar,
em rotação,
em translação!
E nós, também, estamos neste "gira, gira",
que a vida nos obriga
pra sobreviver,
pra não morrer!
É a luta do cotidiano: das horas, dos dias e dos anos
com o tempo caminhando,
intemeratos,
intimoratos!
O tempo passa... E, com ele, nós também passamos!
Ele não volta,
nós não voltamos...
Para a morte caminhamos
Irrompe, no horizonte, a fraca luz da aurora,
o Sol volta a brilhar
surge um novo dia...
Quanta alegria!
Rompe a luz o denso véu da noite:
a treva se desfaz,
a vida se agita...
a alegria é infinita!
A Terra, em torno do Sol, se movimenta,
sem parar,
em rotação,
em translação!
E nós, também, estamos neste "gira, gira",
que a vida nos obriga
pra sobreviver,
pra não morrer!
É a luta do cotidiano: das horas, dos dias e dos anos
com o tempo caminhando,
intemeratos,
intimoratos!
O tempo passa... E, com ele, nós também passamos!
Ele não volta,
nós não voltamos...
Para a morte caminhamos
818
Juscelino Vieira Mendes
Fim Natural
És o fim natural
Obrigatório
da pessoa humana.
Extingue-se-lhe
a personalidade,
a capacidade jurídica;
Transmite os seus direitos,
as suas obrigações
a seus sucessores
legais.
Estes seguram uma bandeira
que também um dia
será desfraldada
e novos sucessores virão,
porque és implacável...inexorável!
Não te importas com o tempo:
vivido
escolhido
sofrido.
És pura elegia...
Obrigatório
da pessoa humana.
Extingue-se-lhe
a personalidade,
a capacidade jurídica;
Transmite os seus direitos,
as suas obrigações
a seus sucessores
legais.
Estes seguram uma bandeira
que também um dia
será desfraldada
e novos sucessores virão,
porque és implacável...inexorável!
Não te importas com o tempo:
vivido
escolhido
sofrido.
És pura elegia...
954
Juscelino Vieira Mendes
Morreu Sem Constrangimento
(Tragédia em três atos)
"Eu pensei que ciúme era uma idéia. Não é. É uma dor.
Mas eu não me senti, como eles se sentem, num melodrama
da Broadway. Eu não queria matar ninguém. Eu só queria morrer."
Floyd Dell
Houve quem dissesse
que matou e morreu
por amor, como se se pudesse
matar e morrer, aniquilando o eu
Ódio o tornou cego
Impulso do Id é o que restou
Não aceitou o controle do ego
Matou - Não amou!...
Estreitamento da consciência
sobrou apenas sentimento
Agiu sem Providência
e viveu tão pouco tempo
Martirizou-se; tornou-se pura violência
em tórrida manhã de dezembro:
Matou, Morreu, Morremos - Sem Constrangimento...
11 de dezembro de 1995
NOTA:
Morte prematura
No dia 11 de dezembro, Christian Hartmann, 21, matou com seis tiros a ex-namorada Renata Cristina Francisco Alves, 20, e feriu gravemente Winston Goldoni, 23, com quem Renata estava namorando. Depois, se matou com um tiro na boca. Tudo numa sala de computadores da Escola Politécnica da USP. Eles cursavam engenharia macatrônica. Christian e Renata tiveram um relacionamento em 94, e ele já a havia ameaçado de morte.
Folha de São Paulo, página 18, 11/12/95.
"Eu pensei que ciúme era uma idéia. Não é. É uma dor.
Mas eu não me senti, como eles se sentem, num melodrama
da Broadway. Eu não queria matar ninguém. Eu só queria morrer."
Floyd Dell
Houve quem dissesse
que matou e morreu
por amor, como se se pudesse
matar e morrer, aniquilando o eu
Ódio o tornou cego
Impulso do Id é o que restou
Não aceitou o controle do ego
Matou - Não amou!...
Estreitamento da consciência
sobrou apenas sentimento
Agiu sem Providência
e viveu tão pouco tempo
Martirizou-se; tornou-se pura violência
em tórrida manhã de dezembro:
Matou, Morreu, Morremos - Sem Constrangimento...
11 de dezembro de 1995
NOTA:
Morte prematura
No dia 11 de dezembro, Christian Hartmann, 21, matou com seis tiros a ex-namorada Renata Cristina Francisco Alves, 20, e feriu gravemente Winston Goldoni, 23, com quem Renata estava namorando. Depois, se matou com um tiro na boca. Tudo numa sala de computadores da Escola Politécnica da USP. Eles cursavam engenharia macatrônica. Christian e Renata tiveram um relacionamento em 94, e ele já a havia ameaçado de morte.
Folha de São Paulo, página 18, 11/12/95.
3 278
Daniel Faria
Deve ser o último tempo
Deve ser o último tempo
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Deve ser o último degrau na escada de Jacob
E último sonho nele
Deve ser-lhe a última dor no quadril.
Deve ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Deve ser a véspera. Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Deve ser o último degrau na escada de Jacob
E último sonho nele
Deve ser-lhe a última dor no quadril.
Deve ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Deve ser a véspera. Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
1 996
Amélia Rodrigues
Lembranças
Queria morrer
Em seus braços
Com o seu suor escorrendo
Pelo meu corpo...
Queria morrer
Ao seu lado
Com a sua vida animando
Os meus últimos suspiros...
Queria morrer
Amando
Pois assim não viveria
À espera da sua volta,
Sonhando com com o seu amor!
Queria morrer
Com a lembrança
Para não buscá-lo jamais!
Queria morrer
Enrodilhada
Em suas pernas,
Em seus braços,
E então não sofreria mais
Essa falta
Que você me faz.
Queria morrer
Feliz
E abandonar essa vida vazia...
Queria morrer
Assim
Já que não posso viver
Com você!
Em seus braços
Com o seu suor escorrendo
Pelo meu corpo...
Queria morrer
Ao seu lado
Com a sua vida animando
Os meus últimos suspiros...
Queria morrer
Amando
Pois assim não viveria
À espera da sua volta,
Sonhando com com o seu amor!
Queria morrer
Com a lembrança
Para não buscá-lo jamais!
Queria morrer
Enrodilhada
Em suas pernas,
Em seus braços,
E então não sofreria mais
Essa falta
Que você me faz.
Queria morrer
Feliz
E abandonar essa vida vazia...
Queria morrer
Assim
Já que não posso viver
Com você!
1 840
Daniel Faria
O meu projecto de morrer
O meu projecto de morrer é o meu ofício
Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 198
Aloísio Miguel Marques
Sem Nome
A vida que a gente vive é um quadro que se pinta.
Depois da morte, passado o traumatismo
dos primeiros dias, daqueles que se foram,
largam-se os quadros, as longas galerias.
Quando nasci, recebi de Deus, Nosso Senhor,
material para pintar meu quadro.
Não quero julgar de inclemência
mas, por um descuido da Providência,
na palheta de tintas que me deu faltava o verde,
o verde da esperança.
Depois da morte, passado o traumatismo
dos primeiros dias, daqueles que se foram,
largam-se os quadros, as longas galerias.
Quando nasci, recebi de Deus, Nosso Senhor,
material para pintar meu quadro.
Não quero julgar de inclemência
mas, por um descuido da Providência,
na palheta de tintas que me deu faltava o verde,
o verde da esperança.
673
Carlos de Oliveira
Desço
pelo cascalho interno da terra,
onde o esqueleto da vida
se petrifica protestando.
Como um rio ao contrário,de águas povoadas
por alucinações mortas boiando levadas
para a alma da terra,
procuro os úberes do fogo.
de Descida Aos Infernos
onde o esqueleto da vida
se petrifica protestando.
Como um rio ao contrário,de águas povoadas
por alucinações mortas boiando levadas
para a alma da terra,
procuro os úberes do fogo.
de Descida Aos Infernos
2 370
Albano Dias Martins
Enquanto
o amor,enquanto a morte
Enquanto aguardas
e as urnas vazias
recolhem a poeira do verão.
Enquanto,
já submissos, os touros
do sol a soturnos
desígnios entregam
seu furor.
Enquanto,
sob a casa, agora
as térmitas repousam, momentanea
mente reverdecem
meus eucaliptos de água
e ouro.
Enquanto
o amor.
Enquanto
a morte.
Enquanto.
in:Os
Remos Escaldantes(1983)
Enquanto aguardas
e as urnas vazias
recolhem a poeira do verão.
Enquanto,
já submissos, os touros
do sol a soturnos
desígnios entregam
seu furor.
Enquanto,
sob a casa, agora
as térmitas repousam, momentanea
mente reverdecem
meus eucaliptos de água
e ouro.
Enquanto
o amor.
Enquanto
a morte.
Enquanto.
in:Os
Remos Escaldantes(1983)
1 158
António Gancho
Tu és mortal meu Deus
Noite, vem noite
sobre mim sobre nós
dá o repouso absoluto de tudo
traz peixes e abismos para nos abismar
mostra o sono traz a morte
e vem noite por detrás de nós e sobre nós
e escreve com o teu negro
a morte que há em nós.
Livra-nos e perdoa-nos tudo
redime-nos os pecados
e enforca os nossos rostos em teu nome
sobre mim sobre nós
dá o repouso absoluto de tudo
traz peixes e abismos para nos abismar
mostra o sono traz a morte
e vem noite por detrás de nós e sobre nós
e escreve com o teu negro
a morte que há em nós.
Livra-nos e perdoa-nos tudo
redime-nos os pecados
e enforca os nossos rostos em teu nome
1 554
António Gancho
Tu és mortal
Tu és mortal meu filho
isto que um dia a morte te virá buscar
e tu não mais serás que um grão de milho
para a morte debicar
Tu és mortal meu anjo
tu és mortal meu amor
isto que um dia a morte
virá de banjo
insinuar-se-te senhor
É-se mortal meu Deus
tu és mortal meu Deus
isto que um dia a morte há-de descer
ao comprimento dos céus
isto que um dia a morte te virá buscar
e tu não mais serás que um grão de milho
para a morte debicar
Tu és mortal meu anjo
tu és mortal meu amor
isto que um dia a morte
virá de banjo
insinuar-se-te senhor
É-se mortal meu Deus
tu és mortal meu Deus
isto que um dia a morte há-de descer
ao comprimento dos céus
1 452
Albano Dias Martins
Concitas para
os ritos
da noite a pinça
verde dos lacraus.
De há muito
sabes que não há
para o sono outro vício,
outra rasura para a morte.
in:Os Patamares
da Memória(1989)
da noite a pinça
verde dos lacraus.
De há muito
sabes que não há
para o sono outro vício,
outra rasura para a morte.
in:Os Patamares
da Memória(1989)
1 142
António Maria Lisboa
Conjugação
A construção dos poemas é uma vela aberta ao meio e coberta de bolor
é a suspensão momentânea dum arrepio num dente fino
Como Uma Agulha
A construção dos poemas
A CONS
TRU
ÇÃO DOS
POEMAS
é como matar muitas pulgas com unhas de oiro azul
é como amar formigas brancas obsessivamente junto ao peito
olhar uma paisagem em frente e ver um abismo
ver o abismo e sentir uma pedrada nas costas
sentir a pedrada e imaginar-se sem pensar de repente
NUM TÚMULO EXAUSTIVO.
é a suspensão momentânea dum arrepio num dente fino
Como Uma Agulha
A construção dos poemas
A CONS
TRU
ÇÃO DOS
POEMAS
é como matar muitas pulgas com unhas de oiro azul
é como amar formigas brancas obsessivamente junto ao peito
olhar uma paisagem em frente e ver um abismo
ver o abismo e sentir uma pedrada nas costas
sentir a pedrada e imaginar-se sem pensar de repente
NUM TÚMULO EXAUSTIVO.
1 998
Carlos Nogueira Fino
um grito de raiva por timor lorosae
depois de tudo isto é obrigatório que existas
deus
para que sejas tu a julgar os assassinos que vão ficar impunes
envelhecendo anonimamente por toda a indonésia
até cairem podres
e os que dão ao diabo o benefício da dúvida
e tempo adicional à morte
para que o silêncio desça imperturbável sobre os mártires
e os rios de sangue se evaporem
porque os mandantes
esses já os consome apesar da tua contumaz ausência
terem compreendido que não são humanos
e lhes queima as entranhas o veneno de não ter futuro
deus
para que sejas tu a julgar os assassinos que vão ficar impunes
envelhecendo anonimamente por toda a indonésia
até cairem podres
e os que dão ao diabo o benefício da dúvida
e tempo adicional à morte
para que o silêncio desça imperturbável sobre os mártires
e os rios de sangue se evaporem
porque os mandantes
esses já os consome apesar da tua contumaz ausência
terem compreendido que não são humanos
e lhes queima as entranhas o veneno de não ter futuro
921
Leonel Neves
LEMBRANÇA DA SEGUNDA GRANDE GUERRA
Uma manhã chegou a guerra. Do Japão.
Veio e aqui ficou talvez dois ou três anos.
De japoneses havia uma divisão;
julgo que só trezentos, dos australianos.
Como eram poucos, eram bons. Os outros, não:
mataram-me vizinhos, o meu pai, dois manos.
O meu homem fugiu e ajudou no Subão
dois loiros a afogar cem dos mais desumanos.
Naquela noite, entrou-me em casa uma baioneta.
Um soldado amarelo e súbito agarrou-me
- eu estava sozinha - e deitou-me depressa.
Deixei-o possuir-me, silenciosa e quieta;
e, quando adormeceu, sem perguntar-me o nome,
peguei numa catana e cortei-lhe a cabeça.
Veio e aqui ficou talvez dois ou três anos.
De japoneses havia uma divisão;
julgo que só trezentos, dos australianos.
Como eram poucos, eram bons. Os outros, não:
mataram-me vizinhos, o meu pai, dois manos.
O meu homem fugiu e ajudou no Subão
dois loiros a afogar cem dos mais desumanos.
Naquela noite, entrou-me em casa uma baioneta.
Um soldado amarelo e súbito agarrou-me
- eu estava sozinha - e deitou-me depressa.
Deixei-o possuir-me, silenciosa e quieta;
e, quando adormeceu, sem perguntar-me o nome,
peguei numa catana e cortei-lhe a cabeça.
438
Bocage
Ó tu, consolador dos malfadados
Ó tu, consolador dos malfadados,
Ó tu, benigno dom da mão divina,
Das mágoas saborosa medicina,
Tranquilo esquecimento dos cuidados:
Aos olhos meus, de prantear cansados,
Cansados de velar, teu voo inclina;
E vós, sonhos damor, trazei-me Alcina,
Dai-me a doce visão de seus agrados:
Filha das trevas, frouxa sonolência,
Dos gostos entre o férvido transporte
Quanto me foi suave a tua ausência!
Ah!, findou para mim tão leda sorte;
Agora é só feliz minha existência
No mudo estado, que arremeda a morte.
Ó tu, benigno dom da mão divina,
Das mágoas saborosa medicina,
Tranquilo esquecimento dos cuidados:
Aos olhos meus, de prantear cansados,
Cansados de velar, teu voo inclina;
E vós, sonhos damor, trazei-me Alcina,
Dai-me a doce visão de seus agrados:
Filha das trevas, frouxa sonolência,
Dos gostos entre o férvido transporte
Quanto me foi suave a tua ausência!
Ah!, findou para mim tão leda sorte;
Agora é só feliz minha existência
No mudo estado, que arremeda a morte.
1 553
Albano Dias Martins
Poema para
habitar
A casa desabitada que nós somos
pede que a venham habitar,
que lhe abram as portas e as janelas
e deixem passear o vento pelos corredores.
Que lhe limpem
os vidros da alma
e ponham a flutuar as cortinas do sangue
– até que uma aurora simples nos visite
com o seu corpo de sol desgrenhado e quente.
Até
que uma flor de incêndio rompa
o solo das lágrimas carbonizadas e férteis.
Até que as palavras de pedra que arrancamos da língua
sejam aproveitadas para apedrejarmos a morte.
A casa desabitada que nós somos
pede que a venham habitar,
que lhe abram as portas e as janelas
e deixem passear o vento pelos corredores.
Que lhe limpem
os vidros da alma
e ponham a flutuar as cortinas do sangue
– até que uma aurora simples nos visite
com o seu corpo de sol desgrenhado e quente.
Até
que uma flor de incêndio rompa
o solo das lágrimas carbonizadas e férteis.
Até que as palavras de pedra que arrancamos da língua
sejam aproveitadas para apedrejarmos a morte.
1 845
Leonel Neves
UM ROMANCE DE REGRESSO
Vindo do Mundo Perdido,
Mau-Máli foi à Missão,
por acaso ou a pedido
ensinar sua lição,
fazer o que em qualquer parte
faria como artesão:
trabalhar na sua arte
de bonecos de latão.
Depois, ou por ter gostado
desta ou daquela oração,
ou por ter-se enamorado
de algum Cristo de latão,
fosse lá pelo que fosse,
Mau-Máli fez-se cristão,
dentro e fora baptizou-se,
Mau-Máli virou João.
E, como João, guardou
dentro do seu coração
não palavras que escutou
mas toda a sua intenção.
Pecados mortais e tudo
ouviu com muita atenção...
mas, guerreiro sobretudo,
que lá matar, isso não!
Tendo assim acontecido,
dada e tomada a lição,
voltou ao Mundo Perdido,
não Mau-Máli, mas João.
E a mulher barlaqueada
com Mau-Máli artesão
já com outro tinha aramada
sua esteira de traição.
Um timor que assim se engana
sabe a sua obrigação,
a que só uma catana
pode dar satisfação.
Uma adúltera confessa
merece tanto perdão
como o outro: sem cabeça,
o seu crime pagarão.
Mas o que Mau-Máli sabe,
o que manda a tradição,
é coisa que já não cabe
na cabeça de João.
Poderia esquecer tudo,
Cristo, baptismo, oração,
mas lembra-se sobretudo
que lá matar, isso não!
Ora já foi cumprido
o seu tempo na Missão,
já só no Mundo Perdido
há bonecos de latão,
não há lugar onde ponha
sua vida de artesão.
Sem lavar sua vergonha
como há-de viver João?
Por isso decapitou-se
com um só golpe de mão.
Mas... João suicidou-se?
- Mau-Máli matou João!
Mau-Máli foi à Missão,
por acaso ou a pedido
ensinar sua lição,
fazer o que em qualquer parte
faria como artesão:
trabalhar na sua arte
de bonecos de latão.
Depois, ou por ter gostado
desta ou daquela oração,
ou por ter-se enamorado
de algum Cristo de latão,
fosse lá pelo que fosse,
Mau-Máli fez-se cristão,
dentro e fora baptizou-se,
Mau-Máli virou João.
E, como João, guardou
dentro do seu coração
não palavras que escutou
mas toda a sua intenção.
Pecados mortais e tudo
ouviu com muita atenção...
mas, guerreiro sobretudo,
que lá matar, isso não!
Tendo assim acontecido,
dada e tomada a lição,
voltou ao Mundo Perdido,
não Mau-Máli, mas João.
E a mulher barlaqueada
com Mau-Máli artesão
já com outro tinha aramada
sua esteira de traição.
Um timor que assim se engana
sabe a sua obrigação,
a que só uma catana
pode dar satisfação.
Uma adúltera confessa
merece tanto perdão
como o outro: sem cabeça,
o seu crime pagarão.
Mas o que Mau-Máli sabe,
o que manda a tradição,
é coisa que já não cabe
na cabeça de João.
Poderia esquecer tudo,
Cristo, baptismo, oração,
mas lembra-se sobretudo
que lá matar, isso não!
Ora já foi cumprido
o seu tempo na Missão,
já só no Mundo Perdido
há bonecos de latão,
não há lugar onde ponha
sua vida de artesão.
Sem lavar sua vergonha
como há-de viver João?
Por isso decapitou-se
com um só golpe de mão.
Mas... João suicidou-se?
- Mau-Máli matou João!
544
Geraldo Falcão
Sede
Boca invisível
na flor da boca,
lábios rachados
de sol e sal,
de folha e palha.
Língua de brasa
queima a garganta;
voz abafada,
som que farfalha.
As cimitarras
voam ao vento,
cortam papéis
(brancas mortalhas).
Ossos ressecos
feitos de pó,
baixos-relevos
no chão gretado.
Rente à corrente
de águas que fervem
alço o meu corpo
círio fanado,
chama indecisa
que arde tão só.
na flor da boca,
lábios rachados
de sol e sal,
de folha e palha.
Língua de brasa
queima a garganta;
voz abafada,
som que farfalha.
As cimitarras
voam ao vento,
cortam papéis
(brancas mortalhas).
Ossos ressecos
feitos de pó,
baixos-relevos
no chão gretado.
Rente à corrente
de águas que fervem
alço o meu corpo
círio fanado,
chama indecisa
que arde tão só.
1 003
Carlos Nogueira Fino
mesmo que o silêncio
mesmo que o silêncio seja este zumbido
que suporta o ruído das páginas
já muito antes no coração as folhas
tombavam na corrente sem dizerem nada
e sobre a sua morte aconteciam as árvores
futuras
vendo-as cair os pássaros aprendiam
o voo
antes das asas
que suporta o ruído das páginas
já muito antes no coração as folhas
tombavam na corrente sem dizerem nada
e sobre a sua morte aconteciam as árvores
futuras
vendo-as cair os pássaros aprendiam
o voo
antes das asas
845
Albano Dias Martins
Espaço
disponível
Deito-me no
teu corpo
como se fosses
a minha última cama
no meu quarto de hóspede dos dias.
Deito-me e
velo
a criança lúcida
que dorme reclinada
na orla marítima do silêncio.
Ali onde o
tempo
se anula e renova
na substância palpável
dum gesto ou dum olhar
colhidos sobre a água
construo a minha casa,
habito o espaço inteiro
disponível para a vida,
necessário para a morte.
in:Em Tempo
e Memória(1974)
Deito-me no
teu corpo
como se fosses
a minha última cama
no meu quarto de hóspede dos dias.
Deito-me e
velo
a criança lúcida
que dorme reclinada
na orla marítima do silêncio.
Ali onde o
tempo
se anula e renova
na substância palpável
dum gesto ou dum olhar
colhidos sobre a água
construo a minha casa,
habito o espaço inteiro
disponível para a vida,
necessário para a morte.
in:Em Tempo
e Memória(1974)
1 218