Poemas neste tema
Morte e Luto
João Maimona
Prostitutas Misérias entre Mar e Janelas
Prostitutas Misérias entre Mar e Janelas
no quadragésimo aniversário
da explosão de Hiroshima
1. Nascemos quase pelas horas quase
iluminadas pelas cortinas que
ocultam a ausência humana. E
falecemos entre as sombras da
presença humana. A palavra sentida
há de calar a dor. Devíamos ter dito
duas vezes a oração bordada - a
estreita oração que nos ensinou a
bíblia de pedra. Da palavra sentida
há de nascer o amor. As avenidas
cantam e dizem lagartos para
escurecer as noites que nos vêm da
madrugada. Na palavra sentida há de
crescer a flor. Os leões inventam
microfones que em duas línguas
dizem tudo em duas palavras para os
ouvidos de dois mundos que se
ajoelham em dois caminhos. Temos
de conhecer o mar. Temos de dançar
ao pé das janelas. E crepúsculo
estará na neve do crepúsculo que há
de vir congregado em pedras do
crepúsculo.
2. O velho continente acordou e
deixou de sonhar com as estátuas de
cinza. A América se levantou e se
contorce de recessão espacial nos
pastos que enchem os peitos do gado
com o qual havemos de alimentar os
silêncios da África. As Américas
colecionam lembranças da
escravatura. E África coleciona
lábios para beijar folhas e árvores
perdidas no deserto por habitar. Aqui
os dias caem no chão e ninguém os
quer contar. Mas de noite cantamos
os dias que se abrem. Estendidos no
chão. Espiados pela mão que para a
noite vai. A carne, a flor, o sal, o
sangue e a água se misturam para
soprar felicidade ao mar e às
janelas. Temos de conhecer o mar.
Temos de dançar ao pé das janelas.
E o crepúsculo estará na neve do
crepúsculo que há de vir congregado
em pedras de crepúsculo.
no quadragésimo aniversário
da explosão de Hiroshima
1. Nascemos quase pelas horas quase
iluminadas pelas cortinas que
ocultam a ausência humana. E
falecemos entre as sombras da
presença humana. A palavra sentida
há de calar a dor. Devíamos ter dito
duas vezes a oração bordada - a
estreita oração que nos ensinou a
bíblia de pedra. Da palavra sentida
há de nascer o amor. As avenidas
cantam e dizem lagartos para
escurecer as noites que nos vêm da
madrugada. Na palavra sentida há de
crescer a flor. Os leões inventam
microfones que em duas línguas
dizem tudo em duas palavras para os
ouvidos de dois mundos que se
ajoelham em dois caminhos. Temos
de conhecer o mar. Temos de dançar
ao pé das janelas. E crepúsculo
estará na neve do crepúsculo que há
de vir congregado em pedras do
crepúsculo.
2. O velho continente acordou e
deixou de sonhar com as estátuas de
cinza. A América se levantou e se
contorce de recessão espacial nos
pastos que enchem os peitos do gado
com o qual havemos de alimentar os
silêncios da África. As Américas
colecionam lembranças da
escravatura. E África coleciona
lábios para beijar folhas e árvores
perdidas no deserto por habitar. Aqui
os dias caem no chão e ninguém os
quer contar. Mas de noite cantamos
os dias que se abrem. Estendidos no
chão. Espiados pela mão que para a
noite vai. A carne, a flor, o sal, o
sangue e a água se misturam para
soprar felicidade ao mar e às
janelas. Temos de conhecer o mar.
Temos de dançar ao pé das janelas.
E o crepúsculo estará na neve do
crepúsculo que há de vir congregado
em pedras de crepúsculo.
1 097
José Hélder de Souza
Crepúsculo Plangente
...quando o sol da já declina...
Guerra Junqueira
Crepúsculo flamejante - nesta hora a minha avó Carmelina (há quanto tempo?)
entrava na nave escura da igreja matriz de Massapê. norte cearense, para rezar
ouvindo a "Ave Maria", de Charles Gounod, tocada, num harmônio, por sua
filha Enoi, cega e muda de nascença - neste crepúsculo de agora, não menos
rutilante, o sol meteu um raio através da vidraça e iluminou de face, duas pedras
postas ao pé da estante, bem junto da bengala avoenga, seixos rolados ornando
recanto desta sala sombria cheia de coisas e de recordações, como a da avó.
Uma das pedras, em forma de uma bola ovalada do tamanho de uma mão, veio
do rio Corumbá, Pirinópolis, apanhada depois da festa de ano novo de 1983,
a data deveria estar inscrita numa de suas rotundas faces, como lápide dos dias
idos a vagar soltos na memória esgarçada, sem registro lapidar.
A outra, menor, também branca e arredondada, mas chata, sem
qualquer grafia em suas faces, veio de longe, da praia do Camocim,
ali o rio Coreaú derramando suas poucas águas no Atlântico, no Ceará,
onde chorei meus primeiros desencantos, aos 10 anos.
Mas esta pedrinha a apanhei depois, bem depois, desiludido, quando lá fui,
Já velho, procurar ( não encontrei) os dias de eu menino. As duas pedras,
brancas como o leito dos rios que já foram, rememoram as idades, o sol
insiste em luz sobre suas faces mortas não inscritas, mas cheias de visões.
Enquanto há luz crepuscular e recordativa, a visão sobe e ilumina, na mesma
estante, alto do chão, um barco que nunca navegou: tem dois palmos, convés
baixo, imita rebocador: na coberta superior dá proa carrega, como únicos marujos,
dois copinhos; na meia nau, uma achatada garrafa de cristal, continente translúcido
de avinhados sonhos, lembrança de velhos dias e amoráveis encontros com meu pai
Raymundo Olavo que já se foi sem dizer adeus mas deixou a saudade feito barco
em miniatura navegando em minha estante me enchendo de etílicos sonhos, com
dois copos para mim mesmo que vivo e libo solitário.
Os raios do sol ainda me iludem e varam a vidraça mostrando uma coruja feia,
esculpida num tronco, e pousada em ilusórios livros também de madeira. Pássaro
de inaudita face, grandes asas fechadas sobre o tronco curto, sem vôo algum, veio
de longe. Seus cornos e seus olhos apagados são de depois dos amores praianos
da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, aí como dói ser antigo, vive-se olhando
para si mesmo a - fealdade da coruja - perdidos os encantos juvenis.
Atrás da coruja, em elegante moldura, o sol, que ainda insiste em iluminar esta
pequena sala em que abrigo meus desencantos, velhos e novos, mostra um antigo
retrato de dois jovens sob a chuva caminhando, metidos em capas de "shantung",
na Avenida Barão do Rio Branco, no Rio de Janeiro: eu mesmo quando ainda
freqüentava as alegres casas da rua Alice, metido num fato de casimira preta
riscado de listas brancas que a capa de todo não escondia, fumando o cigarro da
ilusão; e ao lado, meu inesquecível amigo Bolívar (Bolivár, como se dizia) Costa,
natural de Ubajara da Serra Grande, Ceará, mas o único cosmopolita que já vira,
capaz de dissertar sobre Arist6teles ou Platão e dizer quantas faces tem o universo,
curvo ou plano, medieval ou eisensteiniano e, por entre sabença, o gosto pela arte
literária, a recitar António Nobre, o "Auto das Ânsias": "Desde o Ódio ao Tédio.
Moléstias dAlma para as quais não há remédio". Igual só ao meu nojo de agora,
neste crepúsculo... Morreu, o Bolivár, quando não devia. deixando-me a imagem
de minha inovidável mocidade, o retrato na parede, perto da estante e da coruja,
mostrando minha antigüidade e a sua irreparável ausência.
O sol e seus persistentes raios vão subindo - quanto mais sobem mais vai se
indo para o poente o astro - e vejo um pássaro pousado sobre dicionários. Pequeno,
feito não sei de que matéria, veio da China, bico amarelo, cocuruto erguido em crista,
rabo longo, fecha as asas sobre altaneiro corpo, nunca voou desde que o comprei em
Manaus, quando lá fui com minha amada Neide, faz anos, ver como correm os rios e
como voam os pássaros, não este pousado em minhas ilusões. Não sei que música
tocando na eletrola, me diz: - Passarinhos são assim mesmo, só os vemos quando
pousados, se voam nunca mais os veremos, sonhos perdidos.
Perto do memorável passarinho quietíssimo, umas rubras rosas de plástico -
puros enganos - postas em esgalgados jarros, dois, de pedra sabão: tudo, sob os
últimos raios do sol, tediosas evocações - a avó encantadora da infância, o
sortilégio das pedras, dos rios, o barco navegando em seco nas recordações
paternas, a soturna coruja e o fascínio do pássaro imóvel, os rapazes do
retrato na parede, as rosas vermelhas dos sonhos, tudo se foi, tudo se vai,
o sol morrendo, eu vendo, pela janela, seu descair no horizonte fugidio e,
no escuro de agora, as incertezas de outro amanhecer, trevas, talvez, para
sempre ...
Brasília, ao crepúsculo do dia 21 de fevereiro de 1996.
Guerra Junqueira
Crepúsculo flamejante - nesta hora a minha avó Carmelina (há quanto tempo?)
entrava na nave escura da igreja matriz de Massapê. norte cearense, para rezar
ouvindo a "Ave Maria", de Charles Gounod, tocada, num harmônio, por sua
filha Enoi, cega e muda de nascença - neste crepúsculo de agora, não menos
rutilante, o sol meteu um raio através da vidraça e iluminou de face, duas pedras
postas ao pé da estante, bem junto da bengala avoenga, seixos rolados ornando
recanto desta sala sombria cheia de coisas e de recordações, como a da avó.
Uma das pedras, em forma de uma bola ovalada do tamanho de uma mão, veio
do rio Corumbá, Pirinópolis, apanhada depois da festa de ano novo de 1983,
a data deveria estar inscrita numa de suas rotundas faces, como lápide dos dias
idos a vagar soltos na memória esgarçada, sem registro lapidar.
A outra, menor, também branca e arredondada, mas chata, sem
qualquer grafia em suas faces, veio de longe, da praia do Camocim,
ali o rio Coreaú derramando suas poucas águas no Atlântico, no Ceará,
onde chorei meus primeiros desencantos, aos 10 anos.
Mas esta pedrinha a apanhei depois, bem depois, desiludido, quando lá fui,
Já velho, procurar ( não encontrei) os dias de eu menino. As duas pedras,
brancas como o leito dos rios que já foram, rememoram as idades, o sol
insiste em luz sobre suas faces mortas não inscritas, mas cheias de visões.
Enquanto há luz crepuscular e recordativa, a visão sobe e ilumina, na mesma
estante, alto do chão, um barco que nunca navegou: tem dois palmos, convés
baixo, imita rebocador: na coberta superior dá proa carrega, como únicos marujos,
dois copinhos; na meia nau, uma achatada garrafa de cristal, continente translúcido
de avinhados sonhos, lembrança de velhos dias e amoráveis encontros com meu pai
Raymundo Olavo que já se foi sem dizer adeus mas deixou a saudade feito barco
em miniatura navegando em minha estante me enchendo de etílicos sonhos, com
dois copos para mim mesmo que vivo e libo solitário.
Os raios do sol ainda me iludem e varam a vidraça mostrando uma coruja feia,
esculpida num tronco, e pousada em ilusórios livros também de madeira. Pássaro
de inaudita face, grandes asas fechadas sobre o tronco curto, sem vôo algum, veio
de longe. Seus cornos e seus olhos apagados são de depois dos amores praianos
da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, aí como dói ser antigo, vive-se olhando
para si mesmo a - fealdade da coruja - perdidos os encantos juvenis.
Atrás da coruja, em elegante moldura, o sol, que ainda insiste em iluminar esta
pequena sala em que abrigo meus desencantos, velhos e novos, mostra um antigo
retrato de dois jovens sob a chuva caminhando, metidos em capas de "shantung",
na Avenida Barão do Rio Branco, no Rio de Janeiro: eu mesmo quando ainda
freqüentava as alegres casas da rua Alice, metido num fato de casimira preta
riscado de listas brancas que a capa de todo não escondia, fumando o cigarro da
ilusão; e ao lado, meu inesquecível amigo Bolívar (Bolivár, como se dizia) Costa,
natural de Ubajara da Serra Grande, Ceará, mas o único cosmopolita que já vira,
capaz de dissertar sobre Arist6teles ou Platão e dizer quantas faces tem o universo,
curvo ou plano, medieval ou eisensteiniano e, por entre sabença, o gosto pela arte
literária, a recitar António Nobre, o "Auto das Ânsias": "Desde o Ódio ao Tédio.
Moléstias dAlma para as quais não há remédio". Igual só ao meu nojo de agora,
neste crepúsculo... Morreu, o Bolivár, quando não devia. deixando-me a imagem
de minha inovidável mocidade, o retrato na parede, perto da estante e da coruja,
mostrando minha antigüidade e a sua irreparável ausência.
O sol e seus persistentes raios vão subindo - quanto mais sobem mais vai se
indo para o poente o astro - e vejo um pássaro pousado sobre dicionários. Pequeno,
feito não sei de que matéria, veio da China, bico amarelo, cocuruto erguido em crista,
rabo longo, fecha as asas sobre altaneiro corpo, nunca voou desde que o comprei em
Manaus, quando lá fui com minha amada Neide, faz anos, ver como correm os rios e
como voam os pássaros, não este pousado em minhas ilusões. Não sei que música
tocando na eletrola, me diz: - Passarinhos são assim mesmo, só os vemos quando
pousados, se voam nunca mais os veremos, sonhos perdidos.
Perto do memorável passarinho quietíssimo, umas rubras rosas de plástico -
puros enganos - postas em esgalgados jarros, dois, de pedra sabão: tudo, sob os
últimos raios do sol, tediosas evocações - a avó encantadora da infância, o
sortilégio das pedras, dos rios, o barco navegando em seco nas recordações
paternas, a soturna coruja e o fascínio do pássaro imóvel, os rapazes do
retrato na parede, as rosas vermelhas dos sonhos, tudo se foi, tudo se vai,
o sol morrendo, eu vendo, pela janela, seu descair no horizonte fugidio e,
no escuro de agora, as incertezas de outro amanhecer, trevas, talvez, para
sempre ...
Brasília, ao crepúsculo do dia 21 de fevereiro de 1996.
1 087
Gilson Nascimento
Rosa imortal
Minha mãe, pálida e fria
Mudez no gesto, na fala
Minha mãe que já não reza
Minha mãe de olhar apagado
De mãos álgida, inúteis
Não acenam.
Não abençoam.
Riso sem cor – desbotado
Palavra inerte – não soa
Lábios murchos – não se abrem
Flores que o vento da morte
Despetalando, esboroa
Mãe partindo às horas mortas
Do porto alvo da aurora
Nos braços da madrugada
Sem despedida, sem laivo
De beijo, de abraço ou riso.
Mãe – flor que não emurchece
Não cresta, não perde o brilh
Rosa orvalhada de prece
No jardim da alma do filho.
Mudez no gesto, na fala
Minha mãe que já não reza
Minha mãe de olhar apagado
De mãos álgida, inúteis
Não acenam.
Não abençoam.
Riso sem cor – desbotado
Palavra inerte – não soa
Lábios murchos – não se abrem
Flores que o vento da morte
Despetalando, esboroa
Mãe partindo às horas mortas
Do porto alvo da aurora
Nos braços da madrugada
Sem despedida, sem laivo
De beijo, de abraço ou riso.
Mãe – flor que não emurchece
Não cresta, não perde o brilh
Rosa orvalhada de prece
No jardim da alma do filho.
760
José Afonso
Trovas antigas
O que mais me prende à vida
Não é amor de ninguém.
É que a morte de esquecida
Deixa o mal e leva o bem.
Olha a triste viuvinha
que anda na roca a fiar
É bem feito, é bem feito
que não tem com quem casar
Quem se vai casar ao longe
Ao perto tendo com quem
Alva flor da laranjeira
Não a dará a ninguém
No cimo daquela serra
Está um lenço de mil cores
Está dizendo Viva, Viva
Morra quem não tem amores
Não é amor de ninguém.
É que a morte de esquecida
Deixa o mal e leva o bem.
Olha a triste viuvinha
que anda na roca a fiar
É bem feito, é bem feito
que não tem com quem casar
Quem se vai casar ao longe
Ao perto tendo com quem
Alva flor da laranjeira
Não a dará a ninguém
No cimo daquela serra
Está um lenço de mil cores
Está dizendo Viva, Viva
Morra quem não tem amores
1 928
José Afonso
Os bravos
Eu fui à terra do bravo
Bravo meu bem
Para ver se embravecia
Cada vez fiquei mais manso
Bravo meu bem
Para a tua companhia
Eu fui à terra do bravo
Bravo meu bem
Com o meu vestido vermelho
O que eu vi de lá mais bravo
Bravo meu bem
Foi um mansinho coelho
As ondas do mar são brancas
Bravo meu bem
E no meio amarelas
Coitadinho de quem nasce
Bravo meu bem
Pra morrer no meio delas
Bravo meu bem
Para ver se embravecia
Cada vez fiquei mais manso
Bravo meu bem
Para a tua companhia
Eu fui à terra do bravo
Bravo meu bem
Com o meu vestido vermelho
O que eu vi de lá mais bravo
Bravo meu bem
Foi um mansinho coelho
As ondas do mar são brancas
Bravo meu bem
E no meio amarelas
Coitadinho de quem nasce
Bravo meu bem
Pra morrer no meio delas
3 026
Giselda Medeiros
Antigênesis
E disse o homem:
"Faça-se a minha vontade!"
E poluiu as águas dos rios
e pôs veneno no caule das árvores
e pôs espelhos negros no fundo da alma
e pôs travancas no peito com chaves
e pôs muralhas no olhar das crianças
e pôs cimento no ventre da abelha
e pôs espadas na toca do amor
e pôs cortinas no altar da esperança
e pôs barragem na ilha da fé.
Depois de tudo isso
descansou nos braços da Morte.
"Faça-se a minha vontade!"
E poluiu as águas dos rios
e pôs veneno no caule das árvores
e pôs espelhos negros no fundo da alma
e pôs travancas no peito com chaves
e pôs muralhas no olhar das crianças
e pôs cimento no ventre da abelha
e pôs espadas na toca do amor
e pôs cortinas no altar da esperança
e pôs barragem na ilha da fé.
Depois de tudo isso
descansou nos braços da Morte.
1 210
Gilka Machado
Chuva de Cinzas
Chuva de Cinzas
Chuva de cinzas...Cai a tarde lá por fora
na estática mudez da Terra triste e viúva;
e, da tarde ao cair, sinto, minha alma, agora,
embuça-se na cisma e no torpor se enluva.
Hora crepuscular, hora de névoas, hora
em que de bem ignoto o humano ser enviúva;
e, enquanto em cinza todo o espaço se colora,
o tédio, em nós, é como uma cinérea chuva.
Hora crepuscular - concepção e agonia,
hora em que tudo sente uma incerteza imensa,
sem saber se desponta ou se fenece o dia;
hora em que a alma, a pensar na inconstância da sorte,
fica dentro de nós oscilando, suspensa
entre o ser e o não ser, entre a existência e a morte.
(Velha Poesia, Ed.Baptista de Souza, Rio, 18965, pag.15)
Chuva de cinzas...Cai a tarde lá por fora
na estática mudez da Terra triste e viúva;
e, da tarde ao cair, sinto, minha alma, agora,
embuça-se na cisma e no torpor se enluva.
Hora crepuscular, hora de névoas, hora
em que de bem ignoto o humano ser enviúva;
e, enquanto em cinza todo o espaço se colora,
o tédio, em nós, é como uma cinérea chuva.
Hora crepuscular - concepção e agonia,
hora em que tudo sente uma incerteza imensa,
sem saber se desponta ou se fenece o dia;
hora em que a alma, a pensar na inconstância da sorte,
fica dentro de nós oscilando, suspensa
entre o ser e o não ser, entre a existência e a morte.
(Velha Poesia, Ed.Baptista de Souza, Rio, 18965, pag.15)
2 424
Carlos Figueiredo
Flores de Paraguay
Begonias
Y, en Paraguay,
Crisantemos.
No Brasil, o mato.
Plateños
lírios
en tumbas
porteñas.
Y, en Paraguay,
Crisantemos.
No Brasil, o mato.
Plateños
lírios
en tumbas
porteñas.
822
Carlos Figueiredo
Réquiem para Alfonso Dellelis
O sentido é simples. Querer dizer como era do teu olhar a
música, é dizer isso.
Na hora em que uns trabalhadores enterravam teu cadáver
era, tua, essa, a música que se ouvia.
Eles nos olhavam com olhar igual ao teu quando olhavas,
embora a quase todos isso passasse desapercebido.
No momento em que o caixão começou a descer, dentro da cova,
muitas pessoas choravam. Pensou-se até em um padre. Imagine!
De dentro do buraco, o coveiro, em um mirar ausente
de qualquer reverência - há um corpo a enterrar, eis tudo -
é que olha com expressão igual ao teu olhar quando
miravas.
Estavas era morto. Era isso que o teu olhar no dele nos
dizia.
E então, inexplicavelmente, pareceu que o instante
foi varado de luz, e que ali, afirmando apenas
que estavas morto e que isso era isso, enfim triunfavas.
Nota do Poema Réquiem para Alfonso Delellis
Líder (ou como ele dizia, "lide") sindical.Presidente do
Sindicato dos Metalúrgicos de S. Paulo, foi preso em
janeiro de 1964 distribuindo panfletos socialistas,
num quartel do exército. Por interferência direta
do Presidente João Goulart, foi solto em
fevereiro. Assim que saiu, procurou Luiz Carlos
Prestes, Presidente do Partido Comunista, ao qual
estava filiado, e lhe relatou o que vira, na prisão: Os
militares preparavam um golpe. E Prestes:"Isso é
impossível.O exército brasileiro é popular e
democrata". "Como? Por quê?",ele quis saber. "Eu sou
oficial do Exército Brasileiro.Eu sou popular e sou
democrata", declarou o Cavaleiro da Esperança.
Antes que findasse o mes de março, Dellelis embarcou em
um navio para ir exilar-se na URSS.
Voltou ao Brasil antes da anistia e começou tudo de
novo, clandestinamente. Sua existência foi toda
consumida nessa luta.
música, é dizer isso.
Na hora em que uns trabalhadores enterravam teu cadáver
era, tua, essa, a música que se ouvia.
Eles nos olhavam com olhar igual ao teu quando olhavas,
embora a quase todos isso passasse desapercebido.
No momento em que o caixão começou a descer, dentro da cova,
muitas pessoas choravam. Pensou-se até em um padre. Imagine!
De dentro do buraco, o coveiro, em um mirar ausente
de qualquer reverência - há um corpo a enterrar, eis tudo -
é que olha com expressão igual ao teu olhar quando
miravas.
Estavas era morto. Era isso que o teu olhar no dele nos
dizia.
E então, inexplicavelmente, pareceu que o instante
foi varado de luz, e que ali, afirmando apenas
que estavas morto e que isso era isso, enfim triunfavas.
Nota do Poema Réquiem para Alfonso Delellis
Líder (ou como ele dizia, "lide") sindical.Presidente do
Sindicato dos Metalúrgicos de S. Paulo, foi preso em
janeiro de 1964 distribuindo panfletos socialistas,
num quartel do exército. Por interferência direta
do Presidente João Goulart, foi solto em
fevereiro. Assim que saiu, procurou Luiz Carlos
Prestes, Presidente do Partido Comunista, ao qual
estava filiado, e lhe relatou o que vira, na prisão: Os
militares preparavam um golpe. E Prestes:"Isso é
impossível.O exército brasileiro é popular e
democrata". "Como? Por quê?",ele quis saber. "Eu sou
oficial do Exército Brasileiro.Eu sou popular e sou
democrata", declarou o Cavaleiro da Esperança.
Antes que findasse o mes de março, Dellelis embarcou em
um navio para ir exilar-se na URSS.
Voltou ao Brasil antes da anistia e começou tudo de
novo, clandestinamente. Sua existência foi toda
consumida nessa luta.
876
Carlos Figueiredo
Eu, da Morte, quase não morro
Eu, da Morte, quase não morro.
Morro mais de mim que morro dela.
E em cada encruzilhada que me tem acontecido
eu me tenho visto
escolher caminho sempre aquele que a ela
torna mais fácil o mister que tem comigo.
Morro mais de mim que morro dela.
E em cada encruzilhada que me tem acontecido
eu me tenho visto
escolher caminho sempre aquele que a ela
torna mais fácil o mister que tem comigo.
1 206
Carlos Felipe Moisés
Devolução
A noite veio, dispersou meu corpo,
e os ventos me passearam pelo campo.
Ah minha carne misturada à terra,
meus ossos desmanchando-se no frio
secular dos rios que me despejam
envolto em musgo e lama contra as pedras.
Meus olhos desmoronam-se no verde
e a paisagem traspassa-me as retinas.
Meus dedos carcomidos se desfazem
pelos vãos das folhas, de volta ao pó.
De minha boca inútil nascem rosas
brancas, Eu chovo, eu vicejo, eu me planto,
e um dia eu vou brotar por entre as pedras
frias, mais puro, transformado em verde.
e os ventos me passearam pelo campo.
Ah minha carne misturada à terra,
meus ossos desmanchando-se no frio
secular dos rios que me despejam
envolto em musgo e lama contra as pedras.
Meus olhos desmoronam-se no verde
e a paisagem traspassa-me as retinas.
Meus dedos carcomidos se desfazem
pelos vãos das folhas, de volta ao pó.
De minha boca inútil nascem rosas
brancas, Eu chovo, eu vicejo, eu me planto,
e um dia eu vou brotar por entre as pedras
frias, mais puro, transformado em verde.
1 072
Gilson Nascimento
Morte ao amanhecer
Na quieta e calada madrugada
Morrem as vozes, nascem os sussurros
Há um respirar, é tardo, é ofegante
Sopro débil de vida que se apaga
Junto ao leito a família reunida
Partilha a mágoa que enluta corações
Ninguém se comunica por palavras
Olhar e gesto casam no silêncio
Um pássaro se alegra, o dia nasce
E o claro sol que lhe assoma à face
Penetra, vivo, o quarto do doente
E o astro sua lida iniciando
Derrama luz no olhar do moribundo
O ocaso de uma vida alumiando
Morrem as vozes, nascem os sussurros
Há um respirar, é tardo, é ofegante
Sopro débil de vida que se apaga
Junto ao leito a família reunida
Partilha a mágoa que enluta corações
Ninguém se comunica por palavras
Olhar e gesto casam no silêncio
Um pássaro se alegra, o dia nasce
E o claro sol que lhe assoma à face
Penetra, vivo, o quarto do doente
E o astro sua lida iniciando
Derrama luz no olhar do moribundo
O ocaso de uma vida alumiando
919
Angélica Torres Lima
Dias contados
O poema da morte
é apenas um trovão
assustando a vida:
olhos se arregalando
estampidos nos ouvidos.
Melhor, talvez, chamar o medo
de expectativa
já que nessa estrada
não há outro desvio.
Dias contados.
Descontados os feriados
e dias profanos,
resta-me o dom de fabricar
o meu destino,
refazendo os planos
perdoando os erros
e os danos,
dando remo e rumo
às mãos
e ao pleno.
Contados os dias
em letras,
os números letais
se abrem
ao infinito.
Disfarço
a farsa, pondo fé
e desfaço, acho,
o carma da morte
no imposto da vida.
é apenas um trovão
assustando a vida:
olhos se arregalando
estampidos nos ouvidos.
Melhor, talvez, chamar o medo
de expectativa
já que nessa estrada
não há outro desvio.
Dias contados.
Descontados os feriados
e dias profanos,
resta-me o dom de fabricar
o meu destino,
refazendo os planos
perdoando os erros
e os danos,
dando remo e rumo
às mãos
e ao pleno.
Contados os dias
em letras,
os números letais
se abrem
ao infinito.
Disfarço
a farsa, pondo fé
e desfaço, acho,
o carma da morte
no imposto da vida.
823
Alexandre S. Santos
Hora Tardia
Não falta a cadência dos sentidos ignotos
perscrutando as incontáveis horas mortas
sobre o véu insondável do tempo esquecido.
Não resta a peripécia da mente excitada
gozando a possível resposta à esfinge famigerada.
Não importam os piscares vítreos dissimulando
os afagos, dando corda às batidas no peito.
Não há traços da saliva que silenciara
os poemas, mortos antes do parto.
Não mais o sentido dos corpos,
a ilusão do desejo incontido,
das mortes pequenas.
Não!
Findou a vida e transpus
o portal da morte, perguntando:
por que não aprendi a amar?
perscrutando as incontáveis horas mortas
sobre o véu insondável do tempo esquecido.
Não resta a peripécia da mente excitada
gozando a possível resposta à esfinge famigerada.
Não importam os piscares vítreos dissimulando
os afagos, dando corda às batidas no peito.
Não há traços da saliva que silenciara
os poemas, mortos antes do parto.
Não mais o sentido dos corpos,
a ilusão do desejo incontido,
das mortes pequenas.
Não!
Findou a vida e transpus
o portal da morte, perguntando:
por que não aprendi a amar?
1 000
Alcides Villaça
O aceno definitivo de Drummond
Farewell surge (e por que só agora?) como o aceno definitivo que nos faz Drummond, caminhante desencantado, antes de desaparecer atrás da última ladeira. O poeta sempre estimou figurar-se numa estrada, numa rua, num caminho, como um gauche paralisado pela pedra-enigma, ou disfarçado num mítico e desengonçado elefante de fabricação própria, ou como o filho que um pai virgiliano conduz pelo reino dos mortos, ou como o divagante desistido das ofertas miraculosas da máquina do mundo.
Este belo livro não pretende o tour de force expressivo dessa trajetória, nem traz a revelação essencial poupada para a hora extrema. Já nos anos 60, com a melancolia da maturidade e os primeiros desprendimentos da velhice, o poeta firmara certa indisposição para prosseguir na luta com as palavras. O último poema de Lição de Coisas (1962) _livro marcado pela revisitação dos temas e por algum experimentalismo formal_ fechava-se com este terceto, no qual Drummond se dirigia à sempre esquiva Forma de todas as formas, para assim resignar-se: E não encontrar-te é nenhum desgosto/ pois abarrotas o largo armazém do factível/ onde a realidade é maior do que a realidade (F).
De fato: no livro seguinte (Boitempo & A Falta Que Ama, 1968) e nos demais, Drummond já não se empenharia em debater-se nas contradições mais fundas do sujeito ou em tensionar ao máximo a linguagem; passou a alargar generosa e detalhadamente os quadros das antigas percepções de menino e adolescente e a tratar do amor, das pessoas e das circunstâncias com o descompromisso de quem mais avalia a cena do que quem nela atua.
Adeus discreto Farewell poderia lembrar de imediato a família dos Boitempo, mas agora todo memorialismo surge no registro grave de quem se dispõe à despedida definitiva, soturna e sem tragédia _como convém ao poeta de Claro Enigma, que ora reafirma, de modo irrecorrível, o postulado schopenhaueriano da unificação universal do sofrimento. Não, Farewell não tem nem terá buscado ter, como conjunto, a pegada dos grandes livros dos anos 40 e 50, quando o poeta nos desvelava, em cadências, imagens e reflexões de beleza inexcedida, os custos da hesitação individual entre buscar objetivamente pertencer ao mundo intimamente condenado ou deixar-se engolfar em treva própria, refratária à mundanidade _na atração alternada pelo mito íntimo e pela história, pelo lirismo e pelo argumento, pela metáfora e pelo conceito.
Mas a luz definitivamente crepuscular que este livro faz incidir sobre todos os momentos anteriores oferece-lhes uma nova perspectiva de interpretação, tanto quanto podem ser eles essenciais a quem busque interpretá-los. O sentido deste adeus é discreta mas cerimoniosamente remetido à significação integral da caminhada; é a face última, que encerra uma sucessão de personae figuradas pelo caminho: o menino furtivo e imaginoso do sobradão e dos campos de Itabira, o adolescente rebelde dos internatos, o boêmio gauche e modernista da conservadora Belo Horizonte, o burocrata federal fabricante de símbolos sociais insustentáveis, o amargo e introspectivo Orfeu na nova ordem mundial, fria e cinicamente pacificada, o memorialista-cronista que volta a ser menino no direito conquistado da velhice.
Em Farewell, o caminhante ao fim da linha carrega como relíquias algumas imagens obsessivas: as da múltipla Greta Garbo amada na tela, das pinturas dos grandes mestres, da senhorial e vasta casa paterna, das velhas e manipuladas fotografias, da aparição fantasmática da amada _o tesouro fragmentário que foi possível acumular em estoque que ora ao Nada se oferece: Quero a última ração do vácuo,/ a última danação, parágrafo penúltimo/ do estado _menos que isso_ de não ser. Despedindo-se, Drummond aciona seu materialismo derradeiro (até onde um grande poeta possa ser materialista) com a consciência de quem, havendo-se inaugurado como um gauche, sabe enfim que a melhor máscara tem pouca serventia diante da morte.
O leitor de Farewell transitará por poemas de valor desigual, mas haverá de se deter em muitos, como Unidade, A Casa do Tempo Perdido, A Ilusão do Migrante, Aparição Amorosa, Arte em Exposição, Bordão, Imagem, Terra, Memória, Invocação Irada, O Peso de Uma Casa _e em quantos mais recupere, pela linguagem lírica, a beleza construída e comungável. Linguagem lírica: esse discurso poético que pode revelar ao próprio criador uma imagem sua, logo reconhecida como a imagem de muitos.
O discurso poético de Drummond pautou-se quase sempre, e aqui também, por uma falsa antieconomia sintática, na qual os supostos acessórios tornam-se pontos decisivos para a cadeia substantiva das imagens.
A obsessão em voga pela síntese extrema, pelo mínimo de palavras, pela usura de nomes (curiosamente agenciada por quem prega as vantagens do consumo supérfluo), ignora que a relação de síntese poética que conta se dá entre as palavras materialmente apresentadas e o alcance da significação que irradiam.Por vezes, a verdade construída no plano artístico rende-se a outra, que nenhum homem pode construir.
A força particular de Farewell está em transcender, aqui e ali, o trunfo puramente estético do criador mais potente, para instalar-se no plano limiar da morte, de onde ilumina o já-perfeito. E o que ilumina? Alguns topoi da poesia drummondiana recebem, neste livro, a última demão de luz, antes da sombra final. O leitor reconhecerá essas derradeiras atualizações: a figura inaugural do gauche culmina na de O Malvindo; as origens familiares e provinciais reinterpretam-se em A Ilusão do Migrante, Imagem, Terra, Memória e O Peso de Uma Casa; todos os cabarés mineiros vingam-se da hipocrisia oficial em Cabaré Palácio; a condição de poeta-funcionário (magistralmente avaliada na crônica A Rotina e a Quimera, de Passeios na Ilha) sintetiza-se em Escravo em Papelópolis; a pequenez do indivíduo diante do mundo grande torna-se cósmica em Noite de Outubro; a especulação das palavras está em Verbos... E que mais? O fundamental: a revisitação e o adeus às instâncias maiores, o Amor e a Morte.
Qualquer impasse romântico desses dois temas fundadores está decididamente afastado por um Drummond que deseja Não mais o sonho, mas o sono limpo/ de todo excremento romântico.
Mas entre o desejar e o alcançar essa duvidosa paz sem nome, há que passar o poeta pela degradação da carne _o tema mais forte do livro. Aquele a quem já deprimia a ameaça das dentaduras duplas, na casa dos 50, vê agora o corpo descumprir os velhos pactos do desejo e arruinar-se na exalação da velhice, na envilecida carne sem defesa.
Ainda aqui, no entanto, a oscilação de base entre o idealismo e o realismo, marca de brasa dessa poesia, deixa um vestígio pungente: a ruína do corpo ainda está habitada, e de dentro sai a voz para o alto: Ó minhalma, dá o salto mortal e desaparece na bruma, sem pesar!/ Sem pesar de ter existido e não ter saboreado o inexistível./ Quem sabe um dia o alcançarás, alma conclusa?.
Vestígio apenas resistente, é certo; somam-se mais intensamente os momentos da plena escatologia, nos quais a ironia acusa seu poder de autoflagelação (aquela ferida que inflijo/ a cada hora, algoz/ do inocente que não sou?), o chamar pelo outro faz-se inócuo (Resposta nenhuma./ A casa do tempo perdido está coberta de hera/ pela metade; a outra metade são cinzas) e as experiências repetidas reciclam o mesmo absurdo (Como (...) suportar a semelhança das coisas ásperas/ de amanhã com as coisas ásperas de hoje?). A unidade do mundo enfim se confirma nessa fatalidade de existir que une flores, pedras e animais; entre estes, não nos consola sequer o privilégio de sofrer.
O sentimento amoroso dividiu-se, na formação do homem e na obra do poeta Drummond, entre a plenitude gozosa do prazer natural e o desejo do sublime, que aporta na melancolia. Referências um para o outro, o corpo que experimenta e o espírito que investiga contracenam duramente em toda a poesia drummondiana. Em Farewell, o drama ainda se reence
Este belo livro não pretende o tour de force expressivo dessa trajetória, nem traz a revelação essencial poupada para a hora extrema. Já nos anos 60, com a melancolia da maturidade e os primeiros desprendimentos da velhice, o poeta firmara certa indisposição para prosseguir na luta com as palavras. O último poema de Lição de Coisas (1962) _livro marcado pela revisitação dos temas e por algum experimentalismo formal_ fechava-se com este terceto, no qual Drummond se dirigia à sempre esquiva Forma de todas as formas, para assim resignar-se: E não encontrar-te é nenhum desgosto/ pois abarrotas o largo armazém do factível/ onde a realidade é maior do que a realidade (F).
De fato: no livro seguinte (Boitempo & A Falta Que Ama, 1968) e nos demais, Drummond já não se empenharia em debater-se nas contradições mais fundas do sujeito ou em tensionar ao máximo a linguagem; passou a alargar generosa e detalhadamente os quadros das antigas percepções de menino e adolescente e a tratar do amor, das pessoas e das circunstâncias com o descompromisso de quem mais avalia a cena do que quem nela atua.
Adeus discreto Farewell poderia lembrar de imediato a família dos Boitempo, mas agora todo memorialismo surge no registro grave de quem se dispõe à despedida definitiva, soturna e sem tragédia _como convém ao poeta de Claro Enigma, que ora reafirma, de modo irrecorrível, o postulado schopenhaueriano da unificação universal do sofrimento. Não, Farewell não tem nem terá buscado ter, como conjunto, a pegada dos grandes livros dos anos 40 e 50, quando o poeta nos desvelava, em cadências, imagens e reflexões de beleza inexcedida, os custos da hesitação individual entre buscar objetivamente pertencer ao mundo intimamente condenado ou deixar-se engolfar em treva própria, refratária à mundanidade _na atração alternada pelo mito íntimo e pela história, pelo lirismo e pelo argumento, pela metáfora e pelo conceito.
Mas a luz definitivamente crepuscular que este livro faz incidir sobre todos os momentos anteriores oferece-lhes uma nova perspectiva de interpretação, tanto quanto podem ser eles essenciais a quem busque interpretá-los. O sentido deste adeus é discreta mas cerimoniosamente remetido à significação integral da caminhada; é a face última, que encerra uma sucessão de personae figuradas pelo caminho: o menino furtivo e imaginoso do sobradão e dos campos de Itabira, o adolescente rebelde dos internatos, o boêmio gauche e modernista da conservadora Belo Horizonte, o burocrata federal fabricante de símbolos sociais insustentáveis, o amargo e introspectivo Orfeu na nova ordem mundial, fria e cinicamente pacificada, o memorialista-cronista que volta a ser menino no direito conquistado da velhice.
Em Farewell, o caminhante ao fim da linha carrega como relíquias algumas imagens obsessivas: as da múltipla Greta Garbo amada na tela, das pinturas dos grandes mestres, da senhorial e vasta casa paterna, das velhas e manipuladas fotografias, da aparição fantasmática da amada _o tesouro fragmentário que foi possível acumular em estoque que ora ao Nada se oferece: Quero a última ração do vácuo,/ a última danação, parágrafo penúltimo/ do estado _menos que isso_ de não ser. Despedindo-se, Drummond aciona seu materialismo derradeiro (até onde um grande poeta possa ser materialista) com a consciência de quem, havendo-se inaugurado como um gauche, sabe enfim que a melhor máscara tem pouca serventia diante da morte.
O leitor de Farewell transitará por poemas de valor desigual, mas haverá de se deter em muitos, como Unidade, A Casa do Tempo Perdido, A Ilusão do Migrante, Aparição Amorosa, Arte em Exposição, Bordão, Imagem, Terra, Memória, Invocação Irada, O Peso de Uma Casa _e em quantos mais recupere, pela linguagem lírica, a beleza construída e comungável. Linguagem lírica: esse discurso poético que pode revelar ao próprio criador uma imagem sua, logo reconhecida como a imagem de muitos.
O discurso poético de Drummond pautou-se quase sempre, e aqui também, por uma falsa antieconomia sintática, na qual os supostos acessórios tornam-se pontos decisivos para a cadeia substantiva das imagens.
A obsessão em voga pela síntese extrema, pelo mínimo de palavras, pela usura de nomes (curiosamente agenciada por quem prega as vantagens do consumo supérfluo), ignora que a relação de síntese poética que conta se dá entre as palavras materialmente apresentadas e o alcance da significação que irradiam.Por vezes, a verdade construída no plano artístico rende-se a outra, que nenhum homem pode construir.
A força particular de Farewell está em transcender, aqui e ali, o trunfo puramente estético do criador mais potente, para instalar-se no plano limiar da morte, de onde ilumina o já-perfeito. E o que ilumina? Alguns topoi da poesia drummondiana recebem, neste livro, a última demão de luz, antes da sombra final. O leitor reconhecerá essas derradeiras atualizações: a figura inaugural do gauche culmina na de O Malvindo; as origens familiares e provinciais reinterpretam-se em A Ilusão do Migrante, Imagem, Terra, Memória e O Peso de Uma Casa; todos os cabarés mineiros vingam-se da hipocrisia oficial em Cabaré Palácio; a condição de poeta-funcionário (magistralmente avaliada na crônica A Rotina e a Quimera, de Passeios na Ilha) sintetiza-se em Escravo em Papelópolis; a pequenez do indivíduo diante do mundo grande torna-se cósmica em Noite de Outubro; a especulação das palavras está em Verbos... E que mais? O fundamental: a revisitação e o adeus às instâncias maiores, o Amor e a Morte.
Qualquer impasse romântico desses dois temas fundadores está decididamente afastado por um Drummond que deseja Não mais o sonho, mas o sono limpo/ de todo excremento romântico.
Mas entre o desejar e o alcançar essa duvidosa paz sem nome, há que passar o poeta pela degradação da carne _o tema mais forte do livro. Aquele a quem já deprimia a ameaça das dentaduras duplas, na casa dos 50, vê agora o corpo descumprir os velhos pactos do desejo e arruinar-se na exalação da velhice, na envilecida carne sem defesa.
Ainda aqui, no entanto, a oscilação de base entre o idealismo e o realismo, marca de brasa dessa poesia, deixa um vestígio pungente: a ruína do corpo ainda está habitada, e de dentro sai a voz para o alto: Ó minhalma, dá o salto mortal e desaparece na bruma, sem pesar!/ Sem pesar de ter existido e não ter saboreado o inexistível./ Quem sabe um dia o alcançarás, alma conclusa?.
Vestígio apenas resistente, é certo; somam-se mais intensamente os momentos da plena escatologia, nos quais a ironia acusa seu poder de autoflagelação (aquela ferida que inflijo/ a cada hora, algoz/ do inocente que não sou?), o chamar pelo outro faz-se inócuo (Resposta nenhuma./ A casa do tempo perdido está coberta de hera/ pela metade; a outra metade são cinzas) e as experiências repetidas reciclam o mesmo absurdo (Como (...) suportar a semelhança das coisas ásperas/ de amanhã com as coisas ásperas de hoje?). A unidade do mundo enfim se confirma nessa fatalidade de existir que une flores, pedras e animais; entre estes, não nos consola sequer o privilégio de sofrer.
O sentimento amoroso dividiu-se, na formação do homem e na obra do poeta Drummond, entre a plenitude gozosa do prazer natural e o desejo do sublime, que aporta na melancolia. Referências um para o outro, o corpo que experimenta e o espírito que investiga contracenam duramente em toda a poesia drummondiana. Em Farewell, o drama ainda se reence
1 560
Antônio Augusto de Mendonça
Saudade no sepulcro
Sobre um sepulcro isolado
Roxa saudade vi eu;
Solitária vicejava
No chão frio em que nasceu;
Nunca saudade tão triste
Em sonhos me apareceu ...
Nunca!...
Senti então pelo rosto
Turva lágrima sentida
Deslizar.
Foi à hora do sol-posto.
Hora de muito cismar!
Quando o arcanjo da poesia
Harmoniza o céu com a terra
Na mesma melancolia...
Na mesma doce tristeza,
Que, às vezes, nos faz chorar,
E chorar a natureza
Ao lento morrer do dia!
Cheguei... beijei a saudade,
Que, assim, tão erma encontrei;
Com ela simpatizei;
Porque — da minha orfandade
Neste deserto profundo,
Pobre enjeitado do mundo,
Só com saudades me achei!
Estranha, viva agonia
Ressumbrava-lhe na cor;
Na muda expressão dizia
Tantas penas, tanta dor,
Que só no reino da morte
Duma lágrima podia
Ter nascido aquela flor...
A saudade!...
Emblema de muito amor!...
Poeta às dores afeito,
Tentei debalde arrancá-la,
Para no fundo do peito,
Como um tesouro, plantá-la.
Debalde! ... porque a infeliz
Tinha encravada, segura
No fundo da sepultura
A desgraçada raiz!
Ah! quem soubera o destino
Daquela flor merencória!
Quem a sua ignota história
Porventura escutará?
Quem?... se a flor misteriosa,
No seu recinto funéreo,
Muda, como o cemitério,
Para todos sempre está?
Quem sabe! ... talvez que à triste,
Que no sepulcro descansa,
Dentre as sombras do futuro
Lhe sorria uma esperança
Talvez!...
Quem adivinha se a brisa,
Que docemente a embalança,
Não lhe vai de amor falar?
Se o sol... se o sol ao deixá-la,
Não lhe deixa em despedida
Num raio um germe de vida,
Saudoso de a não levar?
Se ardente, extremoso afeto,
Se estremecida paixão
Que já no peito não cabe,
Por indizível feitiço,
Não lhe dá alento e viço
Com o sangue do coração?
Quem sabe!...
............................................
Sei que a mísera saudade,
Quando no feio horizonte
Feia surge a tempestade;
E da cúpula do céu
Nem sol, nem tímida estrela,
Através do espesso véu,
Despede um raio de luz;
Sei que a mísera saudade,
Porque o vento a não desfolhe,
Nem as pétalas lhe açoite,
Encosta-se — ou dia ou noite —
Nos braços de sua cruz.
Roxa saudade vi eu;
Solitária vicejava
No chão frio em que nasceu;
Nunca saudade tão triste
Em sonhos me apareceu ...
Nunca!...
Senti então pelo rosto
Turva lágrima sentida
Deslizar.
Foi à hora do sol-posto.
Hora de muito cismar!
Quando o arcanjo da poesia
Harmoniza o céu com a terra
Na mesma melancolia...
Na mesma doce tristeza,
Que, às vezes, nos faz chorar,
E chorar a natureza
Ao lento morrer do dia!
Cheguei... beijei a saudade,
Que, assim, tão erma encontrei;
Com ela simpatizei;
Porque — da minha orfandade
Neste deserto profundo,
Pobre enjeitado do mundo,
Só com saudades me achei!
Estranha, viva agonia
Ressumbrava-lhe na cor;
Na muda expressão dizia
Tantas penas, tanta dor,
Que só no reino da morte
Duma lágrima podia
Ter nascido aquela flor...
A saudade!...
Emblema de muito amor!...
Poeta às dores afeito,
Tentei debalde arrancá-la,
Para no fundo do peito,
Como um tesouro, plantá-la.
Debalde! ... porque a infeliz
Tinha encravada, segura
No fundo da sepultura
A desgraçada raiz!
Ah! quem soubera o destino
Daquela flor merencória!
Quem a sua ignota história
Porventura escutará?
Quem?... se a flor misteriosa,
No seu recinto funéreo,
Muda, como o cemitério,
Para todos sempre está?
Quem sabe! ... talvez que à triste,
Que no sepulcro descansa,
Dentre as sombras do futuro
Lhe sorria uma esperança
Talvez!...
Quem adivinha se a brisa,
Que docemente a embalança,
Não lhe vai de amor falar?
Se o sol... se o sol ao deixá-la,
Não lhe deixa em despedida
Num raio um germe de vida,
Saudoso de a não levar?
Se ardente, extremoso afeto,
Se estremecida paixão
Que já no peito não cabe,
Por indizível feitiço,
Não lhe dá alento e viço
Com o sangue do coração?
Quem sabe!...
............................................
Sei que a mísera saudade,
Quando no feio horizonte
Feia surge a tempestade;
E da cúpula do céu
Nem sol, nem tímida estrela,
Através do espesso véu,
Despede um raio de luz;
Sei que a mísera saudade,
Porque o vento a não desfolhe,
Nem as pétalas lhe açoite,
Encosta-se — ou dia ou noite —
Nos braços de sua cruz.
871
Aldir Blanc
Angústia de Influência
A mulher e o toureiro
têm em comum o cheiro
de sangue no esmero da roupa
têm em comum a graça
com que transpassam
a besta com a capa e a espada
têm em comum o estro
poético do gesto antes da
morte, os olhos de martírio
o homem-fera
babuja a bainha da Valquíria
quando
o infinito
lavra no lacre
seu sinete:
a besta expira, atônita
diante da verônica
de Manolete
têm em comum o cheiro
de sangue no esmero da roupa
têm em comum a graça
com que transpassam
a besta com a capa e a espada
têm em comum o estro
poético do gesto antes da
morte, os olhos de martírio
o homem-fera
babuja a bainha da Valquíria
quando
o infinito
lavra no lacre
seu sinete:
a besta expira, atônita
diante da verônica
de Manolete
1 326
Assis Garrido
A Frase que Matou o Operário
"Não precisamos mais do seu serviço",
Disseram-lhe os patrões, há dois meses e pouco.
E ele se foi, sob o calor abafadiço
Daquela tarde, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço".
"Não precisamos mais do seu serviço..."
De tantos anos de trabalho era esse o troco
Que recebia. Em vez de lucro, apenas isso...
E ele consigo murmurava como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
Tornou-se bruto e respondia, a praga e a soco,
Aos filhos e à mulher, famintos no cortiço.
E após, chorava murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
E ele saía a ver emprego, triste e mouco,
Nada! Nenhum!... E cabisbaixo, o olhar mortiço,
Ele voltava, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
E cada vez sentia mais o cérebro oco.
Enforcou-se. Morreu. "Foi o diabo ou feitiço..."
E ele morreu murmurando, como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
Disseram-lhe os patrões, há dois meses e pouco.
E ele se foi, sob o calor abafadiço
Daquela tarde, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço".
"Não precisamos mais do seu serviço..."
De tantos anos de trabalho era esse o troco
Que recebia. Em vez de lucro, apenas isso...
E ele consigo murmurava como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
Tornou-se bruto e respondia, a praga e a soco,
Aos filhos e à mulher, famintos no cortiço.
E após, chorava murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
E ele saía a ver emprego, triste e mouco,
Nada! Nenhum!... E cabisbaixo, o olhar mortiço,
Ele voltava, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
E cada vez sentia mais o cérebro oco.
Enforcou-se. Morreu. "Foi o diabo ou feitiço..."
E ele morreu murmurando, como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
1 146
Natália Correia
Véspera do Prodígio
Além do
sol, além do Sete-Estrelo
Uma última Tule me subentende.
O caminho pra mim não sei. Sabe-lo
Será ciência que a morrer se aprende?
Passo ou sou? Deuses, quem quebra o selo?
Quando entro em mim outrem me surpreende
Que um génio zombador tem por modelo.
Onde o esquivo lar desse duende?
Seja quem for o eu que em mim recluso
Alheio fado cumpre, é vácuo o uso
Que do Dom de pensar em vão fazemos.
Melhor é ir. Atravessar o muro,
Seguir na barca que passa o golfo escuro
E ao Grande Enigma abandonar os remos.
sol, além do Sete-Estrelo
Uma última Tule me subentende.
O caminho pra mim não sei. Sabe-lo
Será ciência que a morrer se aprende?
Passo ou sou? Deuses, quem quebra o selo?
Quando entro em mim outrem me surpreende
Que um génio zombador tem por modelo.
Onde o esquivo lar desse duende?
Seja quem for o eu que em mim recluso
Alheio fado cumpre, é vácuo o uso
Que do Dom de pensar em vão fazemos.
Melhor é ir. Atravessar o muro,
Seguir na barca que passa o golfo escuro
E ao Grande Enigma abandonar os remos.
1 976
Vittoria Colonna
QUANDO I GRAN LUME
Quando o grão lume surge lá no oriente,
que o negro manto desta noite afasta,
e sobre a terra o gelo se desgasta,
já dissolvido no seu raio ardente,
a antiga dor, que o sono gentilmente
me adormentara, acorda mais desgasta:
que quando aos outros o prazer se gasta
é que revive o meu mais docemente.
Assim me força uma inimiga sorte
às trevas procurar, fugir da luz,
odiar a vida e desejar a morte.
Que a um outro olhar scurece, ao meu reluz:
se fecho os olhos, abrem-se-me as portas
à dor profunda que a meu sol conduz.
que o negro manto desta noite afasta,
e sobre a terra o gelo se desgasta,
já dissolvido no seu raio ardente,
a antiga dor, que o sono gentilmente
me adormentara, acorda mais desgasta:
que quando aos outros o prazer se gasta
é que revive o meu mais docemente.
Assim me força uma inimiga sorte
às trevas procurar, fugir da luz,
odiar a vida e desejar a morte.
Que a um outro olhar scurece, ao meu reluz:
se fecho os olhos, abrem-se-me as portas
à dor profunda que a meu sol conduz.
1 585
Renier Dias Pereira
Silêncio Provocador
Silêncio Provocador
Essas são as caras, as faces deslumbrantesde um mistério patrão, dono de tudo e todos.o momento lhe pertence a vida lhe é eterna.
catástrofe, luz, destino, alegria, dor. esperamosde todas as formas um fato que nos leve a uma viagem onde nem se quer herdamos o final.
apenas imagens. a vida se esquece.o mundo te esquece.a loucura perde o valor. o domador ganha espaço.só nos resta esperar a tacada derradeira.
07.03.96
Essas são as caras, as faces deslumbrantesde um mistério patrão, dono de tudo e todos.o momento lhe pertence a vida lhe é eterna.
catástrofe, luz, destino, alegria, dor. esperamosde todas as formas um fato que nos leve a uma viagem onde nem se quer herdamos o final.
apenas imagens. a vida se esquece.o mundo te esquece.a loucura perde o valor. o domador ganha espaço.só nos resta esperar a tacada derradeira.
07.03.96
955
Wallace Stevens
O REI DO SORVETE
Chame o enrolador de grandes charutos,
Aquele dobrado, e diga-lhe que bata
Os coalhos concupiscentes nas xícaras da cozinha.
Que as gurias zaranzem nos vestidos
Habituais, e os rapazes tragam flores
Em cartuchos de jornais do mês passados.
Que ser seja o final de parecer.
Só há um rei e esse é o rei do sorvete.
Tire da cômoda de pinho,
Que já perdeu três puxadores de vidro, aquele lençol
Que ela bordou um dia com caudas de pavão
E estenda-o de modo a cobrir-lhe o rosto.
Se um pé unhudo sair para fora, é
Para mostrar como ela está fria, como está muda.
Que a lâmpada afixe o seu filete.
Só há um rei e este é o rei do sorvete.
(Tradução
de Décio Pignatari)
Aquele dobrado, e diga-lhe que bata
Os coalhos concupiscentes nas xícaras da cozinha.
Que as gurias zaranzem nos vestidos
Habituais, e os rapazes tragam flores
Em cartuchos de jornais do mês passados.
Que ser seja o final de parecer.
Só há um rei e esse é o rei do sorvete.
Tire da cômoda de pinho,
Que já perdeu três puxadores de vidro, aquele lençol
Que ela bordou um dia com caudas de pavão
E estenda-o de modo a cobrir-lhe o rosto.
Se um pé unhudo sair para fora, é
Para mostrar como ela está fria, como está muda.
Que a lâmpada afixe o seu filete.
Só há um rei e este é o rei do sorvete.
(Tradução
de Décio Pignatari)
2 041
Renier Dias Pereira
Help!
Help!
-8 DE DEZEMBRO DE 1980-
Abra os seus olhos
para você mesmo e
verá que o sonho não acabou
continua resistente a todo tempo
O homem livre como um pássaro
que se esqueceu de lembrar que esquece
a poesia é apunhalada pelas costas
mas continua resistente a toda realidade
Viver com cada olhar oculto
ela é a mulher perfeita
está dentro de mim
e continua resistente as divisões
Parou de fazer poesia para
pertencer a ela. noite de
dias difíceis. ontem haverá
paz nesse mundo desfalque.
-8 DE DEZEMBRO DE 1980-
Abra os seus olhos
para você mesmo e
verá que o sonho não acabou
continua resistente a todo tempo
O homem livre como um pássaro
que se esqueceu de lembrar que esquece
a poesia é apunhalada pelas costas
mas continua resistente a toda realidade
Viver com cada olhar oculto
ela é a mulher perfeita
está dentro de mim
e continua resistente as divisões
Parou de fazer poesia para
pertencer a ela. noite de
dias difíceis. ontem haverá
paz nesse mundo desfalque.
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Raimundo Bento Sotero
Separação
Dá-me cedo, Senhor, humilde assento
Ao lado da que foi tão de repente,
Pois desde o dia em que se fez ausente
Que vivo entre um soluço e um Lamento.
Oh! Como dói, meu Deus, o sentimento
De perder quem a vida não consente
Que nem um só instante saia à mente,
Pois se eterniza cá no sofrimento!
Vou assim, por sol quente e noite fria,
Arrastando meu fardo de agonia
Como um doente já de "Sentinela".
Leva-me, Pai, também à tua presença.
A Morte para mim é recompensa:
Melhor morrer a viver longe Dela!
Ao lado da que foi tão de repente,
Pois desde o dia em que se fez ausente
Que vivo entre um soluço e um Lamento.
Oh! Como dói, meu Deus, o sentimento
De perder quem a vida não consente
Que nem um só instante saia à mente,
Pois se eterniza cá no sofrimento!
Vou assim, por sol quente e noite fria,
Arrastando meu fardo de agonia
Como um doente já de "Sentinela".
Leva-me, Pai, também à tua presença.
A Morte para mim é recompensa:
Melhor morrer a viver longe Dela!
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