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Poemas neste tema

Noite e Lua

Marigê Quirino Marchini

Marigê Quirino Marchini

República Celeste da Poesia

Aquática e translúcida Veneza,
arquétipo insulano, passional,
do Adriático a núbil Dogaresa,
lunissolar pintura do irreal,

em ti me construindo astral poema
de celestial cidade em tua finura,
por ele te habitar, Amor me emblema
com centelhas de íntima ternura,

põe em Veneza e em mim a geometria
de uns altos picos, recendendo a lume,
loura noite que náutica alumia,

por águas de salinas violetas
fosforece dos sonhos o cardume,
fixa a cidade, giram-me os planetas.

- III -

Água e eu, este dom, dádiva inteira
como Veneza, tu, Domus antiga,
se rodeamos, sonho, a cumeeira
silvestre nos perfuma a lua cheia.

O luar de Vivaldi, mensageiro,
atravessando o céu em suas estrelas
e o seu caminho é o mesmo que o de Amor,
angelical paixão é a lua cheia.

O luar de Vivaldi e cancioneiros
damore é demorado o seu perfume,
silvestre é o deslizar dos gondoleiros,

silvestre a doação, que faço inteira,
como Laguna e Golfo e doce lume,
à angelical paixão da lua cheia.

- VI -

Em arquipélago, amoráveis ilhas,
raia Veneza em água, alacridade,
cortam seus pulsos, lendas, maravilhas
de um latejar de sol e mocidade.

De palavras celeste viração
agita lentamente os seus canais,
e tudo flui em ondas e canção,
perpassa em flauta o vento seus murais.

Enquanto um celestial texto eu vou lendo,
reflexos nágua e lírica poesia,
já vai Amor em brasa me escrevendo

e mais já fere Amor em seus enganos,
com sua perfídia, fogo e maresia,
do que a gentil cidade em desenganos.

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Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

O Portão

O portão fica aberto o dia inteiro
mas à noite eu mesmo vou fechá-lo.
Não espero nenhum visitante noturno
a não ser o ladrão que salta o muro dos sonhos.
A noite é tão silenciosa que me faz escutar
o nascimento dos mananciais nas florestas.
Minha cama branca como a via-láctea
é breve para mim na noite negra.
Ocupo todo o espaço da mundo. Minha mão
desatenta
derruba uma estrela e enxota um morcego.
O bater de meu coração intriga as corujas
que, nos ramos dos cedros, ruminam o enigma
do dia e da noite paridos pelas águas.
No meu sonho de pedra fico imóvel e viajo.
Sou o vento que apalpa as alcachofras
e enferruja os arreios pendurados no estábulo.
Sou a formiga que, guiada pelas constelações,
respira os perfumes da terra e do oceano.
Um homem que sonha é tudo o que não é:
o mar que os navios avariaram,
o silvo negro do trem entre fogueiras,
a mancha que escurece o tambor de querosene.
Se antes de dormir fecho o meu portão
no sonho ele se abre. E quem não veio de dia
pisando as folhas secas dos eucaliptos
vem de noite e conhece o caminho, igual aos mortos
que todavia jamais vieram, mas sabem onde estou
— coberto por uma mortalha, como todos os que
sonham
e se agitam na escuridão, e gritam as palavras
que fugiram do dicionário e foram respirar o ar da
noite que cheira a jasmim
e ao doce esterco fermentado.
os visitantes indesejáveis atravessam as portas
trancadas
e as persianas que filtram a passagem da brisa
e me rodeiam.
Ó mistério do mundo, nenhum cadeado fecha o
portão da noite.
Foi em vão que ao anoitecer pensei em dormir
sozinho
protegido pelo arame farpado que cerca as minhas
terras
e pelos meus cães que sonham de olhos abertos.
À noite, uma simples aragem destrói os muros dos
homens.
Embora o meu portão vá amanhecer fechado
sei que alguém o abriu, no silêncio da noite,
e assistiu no escuro ao meu sono inquieto.

The Gate Poema em Inglês

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