Poemas neste tema
Política e Poder
Pedro Tierra
Os Novos Materiais
Se Deus
está morto
e o Papa tenta, em vão, ressuscitá-lo
com os poderes do Novo Catecismo ...
Se Fukuyama,
que nunca se cobriu de nee
e não sabe os labirintos do Tempo - como o monte Fuji -
decretou o fim da História
e a História aparentemente se resigna ...
Se foi abolida a luta de classes,
embora os cidadãos comuns,
em defesa dos seus muros,
matem mais pobres e negros
que o crime organizado ...
Se no coração dos Andes
povos se curvam, colhem a folha
mascam,
vencem o sorache
e produzem a coca
como condição para seguir vivendo ...
Se é rigorosamente normal
assassinar crianças
que escaparam do frio,
da fome, da cola de sapateiro,
nas Candelárias do meu país ...
Se ruíram todas as utopias
e a ferocidade reduziu
a geografia dos homens
ao exato limite da pele ..
Se a AIDS converteu o gozo essencial
numa condenação
e o sêmen, o sangue
- os rios da vida -
no veneno indecifrável
da morte ...
está morto
e o Papa tenta, em vão, ressuscitá-lo
com os poderes do Novo Catecismo ...
Se Fukuyama,
que nunca se cobriu de nee
e não sabe os labirintos do Tempo - como o monte Fuji -
decretou o fim da História
e a História aparentemente se resigna ...
Se foi abolida a luta de classes,
embora os cidadãos comuns,
em defesa dos seus muros,
matem mais pobres e negros
que o crime organizado ...
Se no coração dos Andes
povos se curvam, colhem a folha
mascam,
vencem o sorache
e produzem a coca
como condição para seguir vivendo ...
Se é rigorosamente normal
assassinar crianças
que escaparam do frio,
da fome, da cola de sapateiro,
nas Candelárias do meu país ...
Se ruíram todas as utopias
e a ferocidade reduziu
a geografia dos homens
ao exato limite da pele ..
Se a AIDS converteu o gozo essencial
numa condenação
e o sêmen, o sangue
- os rios da vida -
no veneno indecifrável
da morte ...
1 338
1
Pedro Tierra
Ressurreição
1.
Ñancauazu
já não te aguarda.
Vallegrande já não te guarda.
Bolívia já não te guarda
em seu coração de estanho.
Você desceu dos Andes.
Não se subjuga o corpo estendido dos ventos
Che.
A luz recorta o rosto inclinado sobre mapas ou livros,
os cabelos, a boina, a estrela de cinco pontas.
A fumaça do charuto dissolve
todos os contornos e te semeia num campo arado
para além da região maíscula dos mitos:
Che
Os rios do continente percorrem tuas veias
e as minhas, a caminho de Santa Clara.
Que el Gran Caimán te recolha,
em nome de todos nós.
Os rios do continente visitam os olhos
da terceira geração tocada
pela tirania de tua luz:
Che.
Tuas mãos deixaram o fuzil
e a palavra.
Há o tempo dos fuzis
e o tempo da palavra.
A palavra se faz verso,
aço
e ternura.
Por isso a palavra vaza o tempo,
sempre visitará a boca dos insubmissos.
Neste tempo de desertos, Che,
cabe aos poetas a temerária
tarefa das ressurreições.
2.
Antes que
a madrugada
limpasse o carvão da sombra
e da morte,
e o tempo deitasse
sem pressa,
trinta anos contados, suas vagas de luz
sobre os destroços da vida,
fiz, pela palavra, um exército impossível
fluir do coração da terra.
Uma torrente inumerável de abelhas,
operárias do mel e da ternura,
a recobrir o dorso das serras,
o tronco das árvores,
a pedra dos abismos,
a merda abundante dos animais,
flores, brejos, veredas,
a larga vastidão dos gerais,
o campo de espadas verdes do chapadão,
até mergulhar a última rama
no caldo cor de ferrugem
e se fazer o sertão
viveiro voraz dos insetos,
caldeira escura fervendo
lamento, dor e memória.
3.
Poro a
poro,
gota a gota,
como a noite,
tempo a tempo
destila a luz das estrelas
e a chuva amamenta
as bocas exaustas da terra,
como o angico goteja
o ouro de sua resina,
as abelhas untadas
na ciência de todos os sucos
vão rejuntando
o corpo do Comandante
Ernesto Guevara:
memória dispersa do povo.
No canto mais fresco,
na grota mais funda,
no cerne da noite
de nãncauazú remontam:
os pés:
calejados pés
do sempre retirante,
alicerces do mundo,
passo do povo em marcha.
As mãos:
arado da terra e do tempo
pátria primeira do pão de todos.
Os braços:
força contida do povo,
fúria de vulcões acorrentados,
mastros erguidos na tormenta.
O sangue:
mar vermelho derramado,
vento de furacão,
matéria do Tempo Novo.
O sonho:
vôo de pássaros iguais
- tão diferentes em sua pluma -
água viva, libertada,
canto dos cantos gerais.
E a voz,
corda a corda resgatada
dos socavões do silêncio,
como os galos condenados
resgatam da escuridão
sementes de alvorada,
recompõe-se obstinada,
em trovão subterrâneo,
anúncio de tempestades.
4.
Quando
o Tempo regressar dos seus labirintos
para inquirir a pedra dos séculos
- armado com a artilharia dos relâmpagos -,
este século de cinza e rebeldia
oferecerá a face fugidia deste homem
que escapa aos desígnios do mercado
e sempre recusará o altar dos deuses.
Ernesto Che Guevara: apenas um homem,
talhado em ternura e valentia.
Comandante, companheiro,
que meu verso possa te devolver ao Continente:
dou por terminada a temerária tarefa da ressurreição.
Brasília,
outubro/97
Ñancauazu
já não te aguarda.
Vallegrande já não te guarda.
Bolívia já não te guarda
em seu coração de estanho.
Você desceu dos Andes.
Não se subjuga o corpo estendido dos ventos
Che.
A luz recorta o rosto inclinado sobre mapas ou livros,
os cabelos, a boina, a estrela de cinco pontas.
A fumaça do charuto dissolve
todos os contornos e te semeia num campo arado
para além da região maíscula dos mitos:
Che
Os rios do continente percorrem tuas veias
e as minhas, a caminho de Santa Clara.
Que el Gran Caimán te recolha,
em nome de todos nós.
Os rios do continente visitam os olhos
da terceira geração tocada
pela tirania de tua luz:
Che.
Tuas mãos deixaram o fuzil
e a palavra.
Há o tempo dos fuzis
e o tempo da palavra.
A palavra se faz verso,
aço
e ternura.
Por isso a palavra vaza o tempo,
sempre visitará a boca dos insubmissos.
Neste tempo de desertos, Che,
cabe aos poetas a temerária
tarefa das ressurreições.
2.
Antes que
a madrugada
limpasse o carvão da sombra
e da morte,
e o tempo deitasse
sem pressa,
trinta anos contados, suas vagas de luz
sobre os destroços da vida,
fiz, pela palavra, um exército impossível
fluir do coração da terra.
Uma torrente inumerável de abelhas,
operárias do mel e da ternura,
a recobrir o dorso das serras,
o tronco das árvores,
a pedra dos abismos,
a merda abundante dos animais,
flores, brejos, veredas,
a larga vastidão dos gerais,
o campo de espadas verdes do chapadão,
até mergulhar a última rama
no caldo cor de ferrugem
e se fazer o sertão
viveiro voraz dos insetos,
caldeira escura fervendo
lamento, dor e memória.
3.
Poro a
poro,
gota a gota,
como a noite,
tempo a tempo
destila a luz das estrelas
e a chuva amamenta
as bocas exaustas da terra,
como o angico goteja
o ouro de sua resina,
as abelhas untadas
na ciência de todos os sucos
vão rejuntando
o corpo do Comandante
Ernesto Guevara:
memória dispersa do povo.
No canto mais fresco,
na grota mais funda,
no cerne da noite
de nãncauazú remontam:
os pés:
calejados pés
do sempre retirante,
alicerces do mundo,
passo do povo em marcha.
As mãos:
arado da terra e do tempo
pátria primeira do pão de todos.
Os braços:
força contida do povo,
fúria de vulcões acorrentados,
mastros erguidos na tormenta.
O sangue:
mar vermelho derramado,
vento de furacão,
matéria do Tempo Novo.
O sonho:
vôo de pássaros iguais
- tão diferentes em sua pluma -
água viva, libertada,
canto dos cantos gerais.
E a voz,
corda a corda resgatada
dos socavões do silêncio,
como os galos condenados
resgatam da escuridão
sementes de alvorada,
recompõe-se obstinada,
em trovão subterrâneo,
anúncio de tempestades.
4.
Quando
o Tempo regressar dos seus labirintos
para inquirir a pedra dos séculos
- armado com a artilharia dos relâmpagos -,
este século de cinza e rebeldia
oferecerá a face fugidia deste homem
que escapa aos desígnios do mercado
e sempre recusará o altar dos deuses.
Ernesto Che Guevara: apenas um homem,
talhado em ternura e valentia.
Comandante, companheiro,
que meu verso possa te devolver ao Continente:
dou por terminada a temerária tarefa da ressurreição.
Brasília,
outubro/97
1 920
1
Pedro Tierra
A Pedagogia dos Aços
Candelária,
Carandirú,
Corumbiara,
Eldorado dos Carajas ...
A pedagogia do aços
golpeia no corpo
essa atroz geografia ...
Há cem anos
Canudos,
Contestado
Caldeirão ...
A pedagogia dos aços
golpeia no corpo
essa atroz geografia ...
Há uma nação de homens
excluídos da nação.
Há uma nação de homens
excluídos da vida.
Há uma nação de homens
calados,
excluídos de toda palavra.
Há uma nação de homens
combatendo depois das cercas.
Há uma nação de homens
sem rosto,
soterrado na lama,
sem nome
soterrado pelo silêncio.
Eles rondam o arame
das cercas
alumiados pela fogueira
dos acampamentos.
Eles rondam o muro das leis
e ataram no peito
uma bomba que pulsa:
o sonho da terra livre.
O sonho vale uma vida?
Não sei. Mas aprendi
da escassa vida que gastei:
a morte não sonha.
A vida vale tão pouco
do lado de fora da cerca ...
A terra vale um sonho?
A terra vale infinitas
reservas de crueldade,
do lado de dentro da cerca.
Hoje, o silêncio
pesa como os olhos de uma criança
depois da fuzilaria.
Candelária,
Carandirú,
Corumbiara,
Eldorado dos Carajás não cabem
na frágil vasilha das palavras ..
Se calarmos,
as pedras gritarão ...
Brasília,
25/04/96
Carandirú,
Corumbiara,
Eldorado dos Carajas ...
A pedagogia do aços
golpeia no corpo
essa atroz geografia ...
Há cem anos
Canudos,
Contestado
Caldeirão ...
A pedagogia dos aços
golpeia no corpo
essa atroz geografia ...
Há uma nação de homens
excluídos da nação.
Há uma nação de homens
excluídos da vida.
Há uma nação de homens
calados,
excluídos de toda palavra.
Há uma nação de homens
combatendo depois das cercas.
Há uma nação de homens
sem rosto,
soterrado na lama,
sem nome
soterrado pelo silêncio.
Eles rondam o arame
das cercas
alumiados pela fogueira
dos acampamentos.
Eles rondam o muro das leis
e ataram no peito
uma bomba que pulsa:
o sonho da terra livre.
O sonho vale uma vida?
Não sei. Mas aprendi
da escassa vida que gastei:
a morte não sonha.
A vida vale tão pouco
do lado de fora da cerca ...
A terra vale um sonho?
A terra vale infinitas
reservas de crueldade,
do lado de dentro da cerca.
Hoje, o silêncio
pesa como os olhos de uma criança
depois da fuzilaria.
Candelária,
Carandirú,
Corumbiara,
Eldorado dos Carajás não cabem
na frágil vasilha das palavras ..
Se calarmos,
as pedras gritarão ...
Brasília,
25/04/96
8 648
1
R. Petit
Papagaios de Papel
Quando eu era pequeno, venturoso,
Meus lindos papagaios empinando,
Dizia: — Não há nada mais pomposo
Que um papagaio de papel voando.
Cresci!...
Hoje, tristonho, pesaroso
Esses brinquedos de papel, olhando,
Logo descubro o vulto carunchoso
Dos que sobem a tudo se apegando.
Tipos que sobem de alma feita em trapos,
Mostrando ao mundo, despreocupados,
Uma cauda nojenta de farrapos...
Tipos de nulidade tão cruel!
Que só sabem subir encabrestados
Como esses papagaios de papel.
Meus lindos papagaios empinando,
Dizia: — Não há nada mais pomposo
Que um papagaio de papel voando.
Cresci!...
Hoje, tristonho, pesaroso
Esses brinquedos de papel, olhando,
Logo descubro o vulto carunchoso
Dos que sobem a tudo se apegando.
Tipos que sobem de alma feita em trapos,
Mostrando ao mundo, despreocupados,
Uma cauda nojenta de farrapos...
Tipos de nulidade tão cruel!
Que só sabem subir encabrestados
Como esses papagaios de papel.
1 224
1
Bocage
Não lamentes, oh Nize, o teu estado
Não lamentes, oh Nize, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:
Dido foi puta, e puta dum soldado;
Cleópatra por puta alcança a croa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado:
Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:
Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques, pois, oh Nize, duvidosa
Que isso de virgo e honra é tudo peta.
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:
Dido foi puta, e puta dum soldado;
Cleópatra por puta alcança a croa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado:
Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:
Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques, pois, oh Nize, duvidosa
Que isso de virgo e honra é tudo peta.
3 414
1
Vitor Casimiro
Senão
Se não vivesse de porre
Viveria de salário, aluguel
E crediário para pagar
De Graça?
Tudo que puder respirar.
Filho doente
Mulher reclamando
Sogra por perto
Cunhado sem emprego
Sossego? Nem em mesa de bar.
Barraco Apertado
Goteira pingando
Grama por cortar
Carro na oficina
Piscina? Nem pensar.
Se não vivesse de porre
Viveria exatamente
Como quem morre:
Com medo da policia, do ladrão
E de quem fosse me governar.
Viveria de salário, aluguel
E crediário para pagar
De Graça?
Tudo que puder respirar.
Filho doente
Mulher reclamando
Sogra por perto
Cunhado sem emprego
Sossego? Nem em mesa de bar.
Barraco Apertado
Goteira pingando
Grama por cortar
Carro na oficina
Piscina? Nem pensar.
Se não vivesse de porre
Viveria exatamente
Como quem morre:
Com medo da policia, do ladrão
E de quem fosse me governar.
875
1
Sérgio de Castro Pinto
1979: Ano I da Criança Brasileira
criança que pratica esporte
respeita as regras do jogo
criança que pratica esporte
respeita as regras do logro
criança que pratica esporte
respeita as regras do ogro
criança que pratica esporte
respeita as regras do lobo
criança que pratica esporte
respeita as regras da globo
respeita as regras do jogo
criança que pratica esporte
respeita as regras do logro
criança que pratica esporte
respeita as regras do ogro
criança que pratica esporte
respeita as regras do lobo
criança que pratica esporte
respeita as regras da globo
1 476
1
Valéria Lamego
A musa contra o ditador
A musa contra o ditador
Nos autoritários anos 30, a poeta lutou na imprensa pela democracia
e contra o ensino religioso
especial para a Folha
"Cecília, és tão forte e tão frágil.
Como a onda ao termo da luta. Mas a onda é água que afoga:
Tu, não, és enxuta." Manuel Bandeira (em "Improviso", no
livro Belo Belo) Cecília Meireles na década de 30 rompeu
com todos os tabus de uma sociedade ao defender uma política menos
casuísta e uma educação moderna.
Por meio de seus artigos sobre política, educação
e cultura, Cecília nos oferece uma outra face daquela que foi considerada
a musa diáfana, fluida e etérea da literatura brasileira.
Sinônimo de ilha e isolamento (para Sérgio Milliet), a escritora
cuja poesia não estava "inserida no drama coletivo de sua geração"
(para o crítico Mário da Silva Brito), em sua trajetória
intelectual a Cecília Meireles que deixou suas marcas foi uma defensora
da idéia universal de democracia, num período em que a incoerência
e as paixões pelo autoritarismo arrastaram jovens intelectuais.
Coleção de inimigos
A estréia de Cecília Meireles na redação de
um jornal se dá em 30, década marcada pela transição
de duas grandes guerras e, no Brasil, pela revolução de outubro.
Na imprensa pipocavam jornais de adesão ao novo regime. Assim surgiu
o "Diário de Notícias", em junho de 1930.
Mais do que um simples matutino, o jornal de Orlando Dantas e Nóbrega
da Cunha trazia uma seção diária dedicada à
educação e à política, a "Página de
Educação", cuja diretora era então a jovem poeta.
Jornalista liberal, partidária incansável das liberdades
individuais, em seus 960 artigos publicados na "Página", entre junho
de 1930 e janeiro de 1933, lutou pela instauração de uma
república democrática, bem diferente daquela regida pelo
populismo autoritário do regime que se descortinava após
a revolução.
Crítica ferrenha das atitudes de Vargas, a quem se referia como
"Sr. ditador", Cecília realizava em sua "Página" uma espécie
de jornalismo "enragé". Ao sustentar uma idéia de nação
menos ufanista, colecionou inimigos e desafetos de suas convicções
sobre liberdade, dentre eles o ministro da Educação Francisco
Campos e o crítico católico Alceu de Amoroso Lima, que anos
depois em seu livro de memórias, "Companheiros de Viagem", de 1971,
reconheceu na poeta "uma grande figura feminina do modernismo".
A truculência ideológica do período nos encarrega de
mostrar, no entanto, que as perseguições por motivos ideológicos,
políticos e, por que não, estéticos, acompanharam
a estreante Cecília ao longo dos anos 30. E parecem acompanhá-la
até os dias de hoje, devido a leitura equivocada que se faz de sua
obra e de um desconhecimento total sobre sua passagem pela política
nos anos seguintes à Revolução de 30 e, mais tarde,
durante o período do Estado Novo.
Partidária dos princípios da Escola Nova, a escola moderna
do filósofo norte-americano John Dewey, junto com Anísio
Teixeira, Fernando de Azevedo e Lourenço Filho, Cecília assistiu
à ascensão de um estado autoritário e de uma Igreja
Católica que tentava recuperar seu poder após 40 anos de
uma república laica, com ares positivistas.
A Revolução de 30 traz para a Igreja Católica a possibilidade
de reaver o poder _embora sua popularidade fosse incontestável.
Em 1931, por exemplo, Nossa Senhora Aparecida é consagrada padroeira
do Brasil em grande festejo popular. E em 12 de outubro, também
de 1931, a título de comemoração de um ano de revolução,
é inaugurada, no Rio de Janeiro, Distrito Federal, a imagem mor
da fidelidade católica de um regime: o Cristo Redentor.
O ataque ao ministro
A inclusão do ensino religioso nas escolas públicas, em 1931,
por um decreto de Vargas, despertou a poeta e seus companheiros para a
verdadeira face da Revolução de 30. Um movimento, diga-se
de passagem, totalmente apoiado pelo grupo em seus primórdios.
Na batalha contra o decreto do ensino religioso, Francisco Campos foi figura
central das críticas da poeta.
"Os senhores viram o caso do sr. Francisco Campos", escreve no artigo "A
Hora do Espetáculo", "veio precedido de uma fama extraordinária
de menino prodígio. A cada passo era citada a reforma de ensino
mineira, que nós sempre aplaudimos com restrições,
como a obra glorificada do sábio de Indaiá. A reforma já
trazia no seu bojo agourento, o fantasma do clericalismo. Que foi que fez
como ministro da Educação? Anunciou uma reforma que apareceu
aos pedaços, confusa, como arrancada a ferros do seu cérebro
reputado genial. Todos os jornais protestaram, protestaram os interessados,
um por um, e o ministro ficou indo e vindo entre o Rio e Minas, como se
não tivesse a responsabilidade formidável do cargo que lhe
deram e com o qual, infelizmente, não se contentou. E ainda arranjou
o decreto sobre o ensino religioso, como a última e desgraçada
manobra para se inutilizar como ministro da Educação...".
A laicidade da escola, bem como a co-educação dos sexos e
a manutenção de uma escola pública livre dos arbítrios
da família e da igreja eram as principais bandeiras de Cecília
na "Página". Princípios esses encarados com verdadeira ojeriza
pelo porta-voz da Igreja Católica, o crítico Alceu Amoroso
Lima. No artigo "Absolutismo Pedagógico", de março de 1932,
sobre o Manifesto da Educação lançado pelo grupo da
Escola Nova, Alceu afirma: "Cinco são os meios que recomenda a nossa
NEP (1) para a obtenção dos seus dois filhos _o biologismo
e o estadismo pedagógicos: ruptura do quadro familiar, laicidade,
gratuidade, obrigatoriedade e co-educação".
A campanha de Meireles, na imprensa, não se limitava a defender
o programa liberal da Escola Nova. Seguida por um desejo irrefreável
de combate aos medalhões e à politicagem reinante, Cecília,
sem dúvida, se fazia ouvir no Palácio do Catete. "O sr. Francisco
Campos", dizia ela, "parece que resolveu dar cada dia prova mais convincente
de que não entende mesmo nada, absolutamente, de pedagogia. Que
a sua pedagogia é uma pedagogia de ministro, isto é, politicagem...".
Qualquer atitude sectária valia para a poeta-jornalista um artigo
reflexivo. E assim o fez quando Manuel Bandeira, convidado a participar
do júri do Salão de Belas-Artes de 1931, recebeu severas
críticas dos pintores acadêmicos. "Há uma coisa que
parece ter desagradado: a inclusão de um poeta numa comissão
de belas-artes. Talvez, se fosse um poeta parnasiano, acadêmico,
cheio de lugares-comuns e de preocupações pronominais, o
descontentamento fosse menor. Trata-se, porém, de Manuel Bandeira."
Cansada da política
A "Página de Educação" encerra para Cecília
em janeiro de 1933, quando um cansaço tremendo com as manobras políticas
do governo e o estado da educação no Rio de Janeiro a tomam
por completo. A poeta chega mesmo a manifestar em sua correspondência
o "horror" que lhe causava o jornalismo em sua vida.
Entretanto, logo após sua despedida da "Página de Educação",
Cecília Meireles volta aos jornais. Desta vez para o carioca "A
Nação", no qual foi contratada com um senão: poderia
escrever sobre tudo, menos sobre política!
Durante toda a sua vida a poeta se dedica ao jornalismo. Na década
de 40 escreve para "A Manhã" uma coluna semanal s
Nos autoritários anos 30, a poeta lutou na imprensa pela democracia
e contra o ensino religioso
especial para a Folha
"Cecília, és tão forte e tão frágil.
Como a onda ao termo da luta. Mas a onda é água que afoga:
Tu, não, és enxuta." Manuel Bandeira (em "Improviso", no
livro Belo Belo) Cecília Meireles na década de 30 rompeu
com todos os tabus de uma sociedade ao defender uma política menos
casuísta e uma educação moderna.
Por meio de seus artigos sobre política, educação
e cultura, Cecília nos oferece uma outra face daquela que foi considerada
a musa diáfana, fluida e etérea da literatura brasileira.
Sinônimo de ilha e isolamento (para Sérgio Milliet), a escritora
cuja poesia não estava "inserida no drama coletivo de sua geração"
(para o crítico Mário da Silva Brito), em sua trajetória
intelectual a Cecília Meireles que deixou suas marcas foi uma defensora
da idéia universal de democracia, num período em que a incoerência
e as paixões pelo autoritarismo arrastaram jovens intelectuais.
Coleção de inimigos
A estréia de Cecília Meireles na redação de
um jornal se dá em 30, década marcada pela transição
de duas grandes guerras e, no Brasil, pela revolução de outubro.
Na imprensa pipocavam jornais de adesão ao novo regime. Assim surgiu
o "Diário de Notícias", em junho de 1930.
Mais do que um simples matutino, o jornal de Orlando Dantas e Nóbrega
da Cunha trazia uma seção diária dedicada à
educação e à política, a "Página de
Educação", cuja diretora era então a jovem poeta.
Jornalista liberal, partidária incansável das liberdades
individuais, em seus 960 artigos publicados na "Página", entre junho
de 1930 e janeiro de 1933, lutou pela instauração de uma
república democrática, bem diferente daquela regida pelo
populismo autoritário do regime que se descortinava após
a revolução.
Crítica ferrenha das atitudes de Vargas, a quem se referia como
"Sr. ditador", Cecília realizava em sua "Página" uma espécie
de jornalismo "enragé". Ao sustentar uma idéia de nação
menos ufanista, colecionou inimigos e desafetos de suas convicções
sobre liberdade, dentre eles o ministro da Educação Francisco
Campos e o crítico católico Alceu de Amoroso Lima, que anos
depois em seu livro de memórias, "Companheiros de Viagem", de 1971,
reconheceu na poeta "uma grande figura feminina do modernismo".
A truculência ideológica do período nos encarrega de
mostrar, no entanto, que as perseguições por motivos ideológicos,
políticos e, por que não, estéticos, acompanharam
a estreante Cecília ao longo dos anos 30. E parecem acompanhá-la
até os dias de hoje, devido a leitura equivocada que se faz de sua
obra e de um desconhecimento total sobre sua passagem pela política
nos anos seguintes à Revolução de 30 e, mais tarde,
durante o período do Estado Novo.
Partidária dos princípios da Escola Nova, a escola moderna
do filósofo norte-americano John Dewey, junto com Anísio
Teixeira, Fernando de Azevedo e Lourenço Filho, Cecília assistiu
à ascensão de um estado autoritário e de uma Igreja
Católica que tentava recuperar seu poder após 40 anos de
uma república laica, com ares positivistas.
A Revolução de 30 traz para a Igreja Católica a possibilidade
de reaver o poder _embora sua popularidade fosse incontestável.
Em 1931, por exemplo, Nossa Senhora Aparecida é consagrada padroeira
do Brasil em grande festejo popular. E em 12 de outubro, também
de 1931, a título de comemoração de um ano de revolução,
é inaugurada, no Rio de Janeiro, Distrito Federal, a imagem mor
da fidelidade católica de um regime: o Cristo Redentor.
O ataque ao ministro
A inclusão do ensino religioso nas escolas públicas, em 1931,
por um decreto de Vargas, despertou a poeta e seus companheiros para a
verdadeira face da Revolução de 30. Um movimento, diga-se
de passagem, totalmente apoiado pelo grupo em seus primórdios.
Na batalha contra o decreto do ensino religioso, Francisco Campos foi figura
central das críticas da poeta.
"Os senhores viram o caso do sr. Francisco Campos", escreve no artigo "A
Hora do Espetáculo", "veio precedido de uma fama extraordinária
de menino prodígio. A cada passo era citada a reforma de ensino
mineira, que nós sempre aplaudimos com restrições,
como a obra glorificada do sábio de Indaiá. A reforma já
trazia no seu bojo agourento, o fantasma do clericalismo. Que foi que fez
como ministro da Educação? Anunciou uma reforma que apareceu
aos pedaços, confusa, como arrancada a ferros do seu cérebro
reputado genial. Todos os jornais protestaram, protestaram os interessados,
um por um, e o ministro ficou indo e vindo entre o Rio e Minas, como se
não tivesse a responsabilidade formidável do cargo que lhe
deram e com o qual, infelizmente, não se contentou. E ainda arranjou
o decreto sobre o ensino religioso, como a última e desgraçada
manobra para se inutilizar como ministro da Educação...".
A laicidade da escola, bem como a co-educação dos sexos e
a manutenção de uma escola pública livre dos arbítrios
da família e da igreja eram as principais bandeiras de Cecília
na "Página". Princípios esses encarados com verdadeira ojeriza
pelo porta-voz da Igreja Católica, o crítico Alceu Amoroso
Lima. No artigo "Absolutismo Pedagógico", de março de 1932,
sobre o Manifesto da Educação lançado pelo grupo da
Escola Nova, Alceu afirma: "Cinco são os meios que recomenda a nossa
NEP (1) para a obtenção dos seus dois filhos _o biologismo
e o estadismo pedagógicos: ruptura do quadro familiar, laicidade,
gratuidade, obrigatoriedade e co-educação".
A campanha de Meireles, na imprensa, não se limitava a defender
o programa liberal da Escola Nova. Seguida por um desejo irrefreável
de combate aos medalhões e à politicagem reinante, Cecília,
sem dúvida, se fazia ouvir no Palácio do Catete. "O sr. Francisco
Campos", dizia ela, "parece que resolveu dar cada dia prova mais convincente
de que não entende mesmo nada, absolutamente, de pedagogia. Que
a sua pedagogia é uma pedagogia de ministro, isto é, politicagem...".
Qualquer atitude sectária valia para a poeta-jornalista um artigo
reflexivo. E assim o fez quando Manuel Bandeira, convidado a participar
do júri do Salão de Belas-Artes de 1931, recebeu severas
críticas dos pintores acadêmicos. "Há uma coisa que
parece ter desagradado: a inclusão de um poeta numa comissão
de belas-artes. Talvez, se fosse um poeta parnasiano, acadêmico,
cheio de lugares-comuns e de preocupações pronominais, o
descontentamento fosse menor. Trata-se, porém, de Manuel Bandeira."
Cansada da política
A "Página de Educação" encerra para Cecília
em janeiro de 1933, quando um cansaço tremendo com as manobras políticas
do governo e o estado da educação no Rio de Janeiro a tomam
por completo. A poeta chega mesmo a manifestar em sua correspondência
o "horror" que lhe causava o jornalismo em sua vida.
Entretanto, logo após sua despedida da "Página de Educação",
Cecília Meireles volta aos jornais. Desta vez para o carioca "A
Nação", no qual foi contratada com um senão: poderia
escrever sobre tudo, menos sobre política!
Durante toda a sua vida a poeta se dedica ao jornalismo. Na década
de 40 escreve para "A Manhã" uma coluna semanal s
769
1
Pedro de Alcântara
Soneto
Não maldigo o rigor da iníqua sorte,
Por mais atroz que seja e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade
Quando a dois passos só estou da morte!
Do pego das paixões minha alma forte
Conhece a fundo a triste realidade,
Pois se agora nos dá felicidade
Amanhã tira o bem, que nos conforte.
Mas a dor que excrucia, a que maltrata,
A dor cruel que o ânimo deplora
Que fere o coração e quase o mata,
É ver da mão fugir à extrema hora
A mesma boca lisonjeira e ingrata
Que tantos beijos nela pôs outrora!
Por mais atroz que seja e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade
Quando a dois passos só estou da morte!
Do pego das paixões minha alma forte
Conhece a fundo a triste realidade,
Pois se agora nos dá felicidade
Amanhã tira o bem, que nos conforte.
Mas a dor que excrucia, a que maltrata,
A dor cruel que o ânimo deplora
Que fere o coração e quase o mata,
É ver da mão fugir à extrema hora
A mesma boca lisonjeira e ingrata
Que tantos beijos nela pôs outrora!
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1
Joaquim Namorado
Caridade
As senhoras da sociedade
deram um baile a rigor
para vestir a pobreza
e a pobreza horas a fio
cortou, coseu, enfeitou
os vestidos deslumbrantes
que a caridade exibiu.
Depois das contas bem feitas
bem tiradas as despesas
arranjou um namorado
a mais nova das Fonsecas;
esteve bem a viscondessa,
veio o nome e o retrato
da comissão nos jornais,
e o Doutor, o Menezes,
o senhor desembargador,
estiveram muito engraçados,
dançaram o tiro-liro
já meio-tombados...
Parece que ainda sobrou
algum dinheiro para chita
para vestir a pobreza
numa festa comovente
com discursos de homenagem
e uma missa...
a que assistiu toda a gente.
deram um baile a rigor
para vestir a pobreza
e a pobreza horas a fio
cortou, coseu, enfeitou
os vestidos deslumbrantes
que a caridade exibiu.
Depois das contas bem feitas
bem tiradas as despesas
arranjou um namorado
a mais nova das Fonsecas;
esteve bem a viscondessa,
veio o nome e o retrato
da comissão nos jornais,
e o Doutor, o Menezes,
o senhor desembargador,
estiveram muito engraçados,
dançaram o tiro-liro
já meio-tombados...
Parece que ainda sobrou
algum dinheiro para chita
para vestir a pobreza
numa festa comovente
com discursos de homenagem
e uma missa...
a que assistiu toda a gente.
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1
Natália Correia
Comunicação
Como um poente congestionado
De vagalumes irreais
É o sete-estrelo desenfreado
Rosa de chamas descomunais
Saltam-lhe os pulsos como foguetes
As mãos são Vestas embriagadas
Parando as cenas dos banquetes
Em saturnais carbonizadas
Incham-lhe os seios como mechas
De Salomé desintegrada
Por quem cem líricos lamechas
Ficam ardendo sem dar por nada
Uma manada de trovões
Leva a cidade nos seus cornos
Assam marquesas nos salões
Como perus dentro dos fornos
Os rechonchudos anjos das casas
Expiam crimes ancestrais
Mamando restos de leite em brasa
Nos esqueletos maternais
As salamandras uterinas
Queimam devassos nas suas camas
Com quem celebram fesceninas
E derradeiras núpcias de chamas
Os acadêmicos no espeto
Fazem um esforço de memória
Para manterem o esqueleto
Em ademanes de oratória
Em catedrais de mil archotes
Numa luxúria de extrema-unção
Um frenesi de sacerdotes
Tem um orgasmo de Inquisição
As labaredas quais proxenetas
Dos cidadãos mais importantes
Levam incêndios de meias pretas
A mercadores de diamantes
Logo que estoura algum ministro
E a sua alma estruma os campos
Rebenta um trigo mais sinistro
Nesta seara de pirilampos
Nos semicúpios incandescentes
Dos seus tesouros derretidos
Os milionários têm repentes
Têm remorsos de homens falidos
E um Desejado de lua nova
Noivo da Pátria vem finalmente
Buscar a noiva para a sua cova
E dá-lhe a Morte como presente
De vagalumes irreais
É o sete-estrelo desenfreado
Rosa de chamas descomunais
Saltam-lhe os pulsos como foguetes
As mãos são Vestas embriagadas
Parando as cenas dos banquetes
Em saturnais carbonizadas
Incham-lhe os seios como mechas
De Salomé desintegrada
Por quem cem líricos lamechas
Ficam ardendo sem dar por nada
Uma manada de trovões
Leva a cidade nos seus cornos
Assam marquesas nos salões
Como perus dentro dos fornos
Os rechonchudos anjos das casas
Expiam crimes ancestrais
Mamando restos de leite em brasa
Nos esqueletos maternais
As salamandras uterinas
Queimam devassos nas suas camas
Com quem celebram fesceninas
E derradeiras núpcias de chamas
Os acadêmicos no espeto
Fazem um esforço de memória
Para manterem o esqueleto
Em ademanes de oratória
Em catedrais de mil archotes
Numa luxúria de extrema-unção
Um frenesi de sacerdotes
Tem um orgasmo de Inquisição
As labaredas quais proxenetas
Dos cidadãos mais importantes
Levam incêndios de meias pretas
A mercadores de diamantes
Logo que estoura algum ministro
E a sua alma estruma os campos
Rebenta um trigo mais sinistro
Nesta seara de pirilampos
Nos semicúpios incandescentes
Dos seus tesouros derretidos
Os milionários têm repentes
Têm remorsos de homens falidos
E um Desejado de lua nova
Noivo da Pátria vem finalmente
Buscar a noiva para a sua cova
E dá-lhe a Morte como presente
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1
Tomás Medeiros
Meu Canto Europa
Agora,
agora que todos os contatos estão feitos,
as linhas dos telefones sintonizadas,
os espaços de morses ensurdecidos,
os mares de barcos violados,
os lábios de risos esfrangalhados,
os filhos incógnitos germinados,
os frutos do solo encarcerados,
os músculos definhados
e o símbolo da escravidão determinado,
Agora,
agora que todos os contatos estão feitos,
com a coreografia do meu sangue coagulada,
o ritmo do meu tambor silencioso,
os fios do meu cabelo embranquecidos,
meu coito denunciado e o esperma esterilizado,
meus filhos de fome engravidados,
minha ânsia e meu querer amordaçados,
minhas estátuas de heróis dinamitadas,
meu grito de paz com chicotes abafado,
meus passos guiados como passos de besta,
e o raciocínio embotado e manietado,
Agora,
agora que me estampaste no
rosto
os primores da tua civilização,
eu te pergunto, Europa,
eu te pergunto:
AGORA?
agora que todos os contatos estão feitos,
as linhas dos telefones sintonizadas,
os espaços de morses ensurdecidos,
os mares de barcos violados,
os lábios de risos esfrangalhados,
os filhos incógnitos germinados,
os frutos do solo encarcerados,
os músculos definhados
e o símbolo da escravidão determinado,
Agora,
agora que todos os contatos estão feitos,
com a coreografia do meu sangue coagulada,
o ritmo do meu tambor silencioso,
os fios do meu cabelo embranquecidos,
meu coito denunciado e o esperma esterilizado,
meus filhos de fome engravidados,
minha ânsia e meu querer amordaçados,
minhas estátuas de heróis dinamitadas,
meu grito de paz com chicotes abafado,
meus passos guiados como passos de besta,
e o raciocínio embotado e manietado,
Agora,
agora que me estampaste no
rosto
os primores da tua civilização,
eu te pergunto, Europa,
eu te pergunto:
AGORA?
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1
Miguel de Couto Guerreiro
Lisboa Emaraçada, no Século Iluminado
I — Como passa o mau por bom
Faz do diabo o povo um santo;
Ajuda o adulador;
Cala o sábio, por temor
De se opor a povo tanto…
E vai o diabo em andor.
II — Século iluminado
O Século iluminado
Ouço a este chamar.
E ninguém pode negar
Que está bem adiantado
Em mentir e em enganar.
III — Dos sabichões do tempo
Nenhuma razão alcanço
Para andar empanturrada
Esta gente iluminada.
Dizem que os velhos têm ranço…
E eles menos, que têm nada.
IV — Da causa de muitos erros
Tanto néscio! Tanto insano!
Donde vem tal desatino?
Tudo nasce de um engano,
Que é pelo poder humano
Medir o Poder Divino.
( in Antologia de Poetas Alentejanos)
Faz do diabo o povo um santo;
Ajuda o adulador;
Cala o sábio, por temor
De se opor a povo tanto…
E vai o diabo em andor.
II — Século iluminado
O Século iluminado
Ouço a este chamar.
E ninguém pode negar
Que está bem adiantado
Em mentir e em enganar.
III — Dos sabichões do tempo
Nenhuma razão alcanço
Para andar empanturrada
Esta gente iluminada.
Dizem que os velhos têm ranço…
E eles menos, que têm nada.
IV — Da causa de muitos erros
Tanto néscio! Tanto insano!
Donde vem tal desatino?
Tudo nasce de um engano,
Que é pelo poder humano
Medir o Poder Divino.
( in Antologia de Poetas Alentejanos)
924
1
Mendes de Carvalho
Altifalantes
Altifalam vozes
nos salões e nas praças
nos ouvidos nos tumultos
martelam esmurram gritam palmejam
comunicam urram.
Conferências discursos aspectos e palestras
lições homenagens notas do dia e da semana
et nunc et semper.
Discursos almicos encomendados traduzidos
decorados divertidos ambaquistas.
Palavras datilografadas improvisos ponderados
palavras dinâmicas magnéticas.
Altifalam palavras.
Hora de camaleões e altifalantes.
nos salões e nas praças
nos ouvidos nos tumultos
martelam esmurram gritam palmejam
comunicam urram.
Conferências discursos aspectos e palestras
lições homenagens notas do dia e da semana
et nunc et semper.
Discursos almicos encomendados traduzidos
decorados divertidos ambaquistas.
Palavras datilografadas improvisos ponderados
palavras dinâmicas magnéticas.
Altifalam palavras.
Hora de camaleões e altifalantes.
972
1
João Adolfo Hansen
Floretes agudos e porretes grossos
especial para a Folha de São Paulo
No Antigo Regime, dizia Adorno, a sátira aparecia como o florete agudo da distinção virtuosa dos melhores. Depois de algumas revoluções, deveria aparecer como o porrete grosso dos privilégios.
Hoje, apropriações de Gregório de Matos, classificação de um corpus poético colonial, ainda fazem o nome reencarnar-se retrospectivamente no seu tempo, o século 17, como um indivíduo liberal-libertino-libertário a profetizar o advento do Barroco e dos neo-Neo no retrô geral desse fim de século.
Na Bahia do século 17, a ordem era imposta, contestada, deformada e sempre reposta como padrão civilizatório em vários registros e meios materiais _entre eles, a sátira atribuída a Gregório de Matos, cuja produção e consumo incluíam-se na política católica do império português.
Como uma prática fundamentalmente integrativa, então a sátira emanava do lugar sagrado do Rei-hipóstase de Deus, ou da Trindade, Potência do Pai, Sabedoria do Filho e Amor do Espírito.
Programática, a arqueologia da ruína satírica seiscentista reconstrói tensões, conflitos e mesmo contradições dos seus usos em seu tempo porque não quer o fóssil. A diferença arruinada do passado é, justamente, a medida crítica das petrificações do presente que efetuam Gregório como desmemória política e cultural.
Como Robinet demonstra para o Ancien Régime, também na Bahia seiscentista a Potência subordina as outras primordialidades, assegurando o monopólio da violência da razão de Estado em nome da prudência política do governo cristão que declara visar ao bem comum. O que se faz com Sabedoria e Amor, segundo a sátira, que glosa o absoluto da ordem. Não distingue público e privado; ratifica a proibição da imprensa e a censura intelectual; aplaude o Santo Ofício da Inquisição e a caça à heresia; reitera ordens-régias e bandos que determinam a destruição de quilombos, a guerra justa ou massacres de índios, as devassas de foros falsos de fidalguia, de desvios de impostos e contrabando, de sedições de soldados e da plebe, de amores freiráticos, de sexo nefando, de blasfêmia e bruxaria. Antimaquiavélica, antierasmiana, antiluterana, anticalvinista, antijudaica, absolutista, contra-reformada, define as medidas da Potência como ações prudentes, amorosas e sábias. Insiste: devem ser complementadas pelo degredo, pelos açoites, pela forca, pelo garrote vil, pelo auto-da-fé e mais castigos, exemplares, não menos prudentes, exercidos com Sabedoria pela Potência pública em nome do Amor do todo. Como se lê, em outro registro, nas Cartas e nas Atas do Senado da Câmara de Salvador, em nome do bem comum do corpo místico do Estado do Brasil.
Na dilatação da Fé e do Império desse corpo místico, o satírico metaforiza a analogia com que Santo Tomás de Aquino define o terceiro modo da unidade de integração das partes do corpo humano no comentário do Livro 5 da Metafísica, de Aristóteles. A unidade do corpo pressupõe a pluralidade dos membros e a diversidade das funções. Sua perfeição, que é ordem, resulta da sua integração harmônica como instrumentos para um princípio superior, a alma. Por analogia, o corpus hominis naturale, o corpo natural do homem, é o termo de comparação para o corpo político do Estado, doutrinado como integração hierárquica, concórdia e paz de indivíduos e estamentos, súditos, que o compõem.
Na sátira, a autonomia é a paixão máxima que pode afetar os corpos. Nela, o bom uso político do cada macaco no seu galho reatualiza o meio-termo racional da virtude da Ética Nicomaquéia, adaptando-o ao elenco completo das virtudes cristãs, como meios e fins da colonização: defesa do território, controle da população, escravismo, catequese, combate à heresia, manutenção dos privilégios, ócio dos doces negócios do açúcar e do sexo.
Assim, a virtude do satírico metaforiza o conceito de superioridade social da racionalidade de Corte absolutista. Então, a superioridade só é mantida pela submissão política e simbólica às instituições. A submissão implica uma lógica da distinção pela subordinação à vontade real, à etiqueta e ao dogma. Afirma uma sátira ao Conde da Ericeira, que se suicidou jogando-se de uma janela: Quem cai da graça dEl-Rei/ cai da sua desgraça. Outra, que identifica sodomia e judaísmo pela perspectiva da instituição real: Mandou-vos El-Rei acaso/ a Sodoma, ou ao Brasil? Se não viveis em Judá,/ quem vos meteu a Rabi?. Ainda segundo o padrão da racionalidade de Corte, a identidade virtuosa do satírico e a não-unidade viciosa dos satirizados são compostas como representação e por meio da representação. A virtude alega signos de limpeza de sangue, catolicismo, fidalguia, liberdade, discrição e masculinidade, opondo-se às representações que pretendem a autonomia que lhe subverte a superioridade pressuposta: Ou por limpo, ou por branco/ fui na Bahia mofino. Em outra: Alerta pardos do trato,/ a quem a soberba emborca,/ que pode ser hoje forca,/ o que ontem foi mulato.
A posição deriva da forma da representação e, sendo figurado como parte de um conflito de representações, o satírico joga com a dupla hierarquia do seu ponto de vista. Quando afirma sua virtude e constitui o vício como obscenidade contra naturam, a (des)constituição do tipo prova metaforicamente a (im)propriedade política do topos. Na sátira, a tipologia semântica de virtudes e vícios é uma topologia pragmática de posições hierárquicas.
Instituição, a sátira produz a perversão como exemplaridade da regra. Para tanto, apropria-se da retórica de Quintiliano, Cícero e Aristóteles; emula a poesia de Juvenal; cantigas de escárnio e maldizer; o Cancioneiro Geral, de Resende; Camões, Suárez, Melo, Rodrigues Lobo, Gracián, Saavedra Fajardo, Quevedo, Góngora, Botero, Tesauro... Aplicando padrões coletivos e anônimos _... é já velho em Poetas elegantes/ O cair em torpezas semelhantes_, opera com técnicas de uma racionalidade não-psicológica, que estiliza e deforma os discursos das instituições e da murmuração informal do lugar. Sem pressupor a expressão do eu, a autoria, o mercado e a originalidade, compõe o público, na representação, como representação teológico-política de discretos e vulgares: O néscio, o ignorante, o inexperto,/ Que não elege o bom, nem mau reprova,/ Por tudo passa deslumbrado, e incerto.
Suas deformações obscenas são reguladas pelos dois estilos do gênero cômico: o ridículo, adequado aos vícios fracos, e a maledicência, própria dos nocivos: Tudo, o que aqui vos digo,/ ora é zombando, ora rindo, diz o personagem satírico. Em Gregório, domina a variante maledicente: zombando. No caso, o satírico é um tipo virtuoso e indignado contra a corrupção do seu mundo, conforme uma afetação retórica de indignação. Como na sátira de Juvenal, que imita, afirma que está às avessas e que sua indignação também é caótica, como se a fala fosse expressão informal de sua ira. A sátira, contudo, é uma arte do insulto que finge não seguir nenhuma arte: suas paixões são naturais, mas não são informais. A irracionalidade da indignação é construída racionalmente e sua obscenidade pressupõe, como dizia Klossowski sobre Sade, as normas que a tornam visível e emolduram. Na poesia católica chamada Gregório, o obsceno é alegoria do pecado mortal, a infração hierárquica, que corrompe a unidade do bem comum. A anatomia horrorosa de vícios, com que compõe tipos vulgares, não é subversiva ou transgressora da ordem. Também na vituperação dos melhores, o desbocado do Boca do Inferno encontra a realidade não na empiria, mas nas convenções hierárquicas da recepção contemporânea, pautadas pela concordância quanto à imagem caricatural que elabora, enquanto mantém em circulação os estereótipos de pessoas, grupos e situações.
A sátira não é iluminista. Concebe o tempo qualitativamente, como análogo do divino. Quando dramatiza os discursos do corpo místico, perspectiva-os pelo dogma da luz natural da Graça inata. Seu estilo misto formaliza a percepção do destinatário como
No Antigo Regime, dizia Adorno, a sátira aparecia como o florete agudo da distinção virtuosa dos melhores. Depois de algumas revoluções, deveria aparecer como o porrete grosso dos privilégios.
Hoje, apropriações de Gregório de Matos, classificação de um corpus poético colonial, ainda fazem o nome reencarnar-se retrospectivamente no seu tempo, o século 17, como um indivíduo liberal-libertino-libertário a profetizar o advento do Barroco e dos neo-Neo no retrô geral desse fim de século.
Na Bahia do século 17, a ordem era imposta, contestada, deformada e sempre reposta como padrão civilizatório em vários registros e meios materiais _entre eles, a sátira atribuída a Gregório de Matos, cuja produção e consumo incluíam-se na política católica do império português.
Como uma prática fundamentalmente integrativa, então a sátira emanava do lugar sagrado do Rei-hipóstase de Deus, ou da Trindade, Potência do Pai, Sabedoria do Filho e Amor do Espírito.
Programática, a arqueologia da ruína satírica seiscentista reconstrói tensões, conflitos e mesmo contradições dos seus usos em seu tempo porque não quer o fóssil. A diferença arruinada do passado é, justamente, a medida crítica das petrificações do presente que efetuam Gregório como desmemória política e cultural.
Como Robinet demonstra para o Ancien Régime, também na Bahia seiscentista a Potência subordina as outras primordialidades, assegurando o monopólio da violência da razão de Estado em nome da prudência política do governo cristão que declara visar ao bem comum. O que se faz com Sabedoria e Amor, segundo a sátira, que glosa o absoluto da ordem. Não distingue público e privado; ratifica a proibição da imprensa e a censura intelectual; aplaude o Santo Ofício da Inquisição e a caça à heresia; reitera ordens-régias e bandos que determinam a destruição de quilombos, a guerra justa ou massacres de índios, as devassas de foros falsos de fidalguia, de desvios de impostos e contrabando, de sedições de soldados e da plebe, de amores freiráticos, de sexo nefando, de blasfêmia e bruxaria. Antimaquiavélica, antierasmiana, antiluterana, anticalvinista, antijudaica, absolutista, contra-reformada, define as medidas da Potência como ações prudentes, amorosas e sábias. Insiste: devem ser complementadas pelo degredo, pelos açoites, pela forca, pelo garrote vil, pelo auto-da-fé e mais castigos, exemplares, não menos prudentes, exercidos com Sabedoria pela Potência pública em nome do Amor do todo. Como se lê, em outro registro, nas Cartas e nas Atas do Senado da Câmara de Salvador, em nome do bem comum do corpo místico do Estado do Brasil.
Na dilatação da Fé e do Império desse corpo místico, o satírico metaforiza a analogia com que Santo Tomás de Aquino define o terceiro modo da unidade de integração das partes do corpo humano no comentário do Livro 5 da Metafísica, de Aristóteles. A unidade do corpo pressupõe a pluralidade dos membros e a diversidade das funções. Sua perfeição, que é ordem, resulta da sua integração harmônica como instrumentos para um princípio superior, a alma. Por analogia, o corpus hominis naturale, o corpo natural do homem, é o termo de comparação para o corpo político do Estado, doutrinado como integração hierárquica, concórdia e paz de indivíduos e estamentos, súditos, que o compõem.
Na sátira, a autonomia é a paixão máxima que pode afetar os corpos. Nela, o bom uso político do cada macaco no seu galho reatualiza o meio-termo racional da virtude da Ética Nicomaquéia, adaptando-o ao elenco completo das virtudes cristãs, como meios e fins da colonização: defesa do território, controle da população, escravismo, catequese, combate à heresia, manutenção dos privilégios, ócio dos doces negócios do açúcar e do sexo.
Assim, a virtude do satírico metaforiza o conceito de superioridade social da racionalidade de Corte absolutista. Então, a superioridade só é mantida pela submissão política e simbólica às instituições. A submissão implica uma lógica da distinção pela subordinação à vontade real, à etiqueta e ao dogma. Afirma uma sátira ao Conde da Ericeira, que se suicidou jogando-se de uma janela: Quem cai da graça dEl-Rei/ cai da sua desgraça. Outra, que identifica sodomia e judaísmo pela perspectiva da instituição real: Mandou-vos El-Rei acaso/ a Sodoma, ou ao Brasil? Se não viveis em Judá,/ quem vos meteu a Rabi?. Ainda segundo o padrão da racionalidade de Corte, a identidade virtuosa do satírico e a não-unidade viciosa dos satirizados são compostas como representação e por meio da representação. A virtude alega signos de limpeza de sangue, catolicismo, fidalguia, liberdade, discrição e masculinidade, opondo-se às representações que pretendem a autonomia que lhe subverte a superioridade pressuposta: Ou por limpo, ou por branco/ fui na Bahia mofino. Em outra: Alerta pardos do trato,/ a quem a soberba emborca,/ que pode ser hoje forca,/ o que ontem foi mulato.
A posição deriva da forma da representação e, sendo figurado como parte de um conflito de representações, o satírico joga com a dupla hierarquia do seu ponto de vista. Quando afirma sua virtude e constitui o vício como obscenidade contra naturam, a (des)constituição do tipo prova metaforicamente a (im)propriedade política do topos. Na sátira, a tipologia semântica de virtudes e vícios é uma topologia pragmática de posições hierárquicas.
Instituição, a sátira produz a perversão como exemplaridade da regra. Para tanto, apropria-se da retórica de Quintiliano, Cícero e Aristóteles; emula a poesia de Juvenal; cantigas de escárnio e maldizer; o Cancioneiro Geral, de Resende; Camões, Suárez, Melo, Rodrigues Lobo, Gracián, Saavedra Fajardo, Quevedo, Góngora, Botero, Tesauro... Aplicando padrões coletivos e anônimos _... é já velho em Poetas elegantes/ O cair em torpezas semelhantes_, opera com técnicas de uma racionalidade não-psicológica, que estiliza e deforma os discursos das instituições e da murmuração informal do lugar. Sem pressupor a expressão do eu, a autoria, o mercado e a originalidade, compõe o público, na representação, como representação teológico-política de discretos e vulgares: O néscio, o ignorante, o inexperto,/ Que não elege o bom, nem mau reprova,/ Por tudo passa deslumbrado, e incerto.
Suas deformações obscenas são reguladas pelos dois estilos do gênero cômico: o ridículo, adequado aos vícios fracos, e a maledicência, própria dos nocivos: Tudo, o que aqui vos digo,/ ora é zombando, ora rindo, diz o personagem satírico. Em Gregório, domina a variante maledicente: zombando. No caso, o satírico é um tipo virtuoso e indignado contra a corrupção do seu mundo, conforme uma afetação retórica de indignação. Como na sátira de Juvenal, que imita, afirma que está às avessas e que sua indignação também é caótica, como se a fala fosse expressão informal de sua ira. A sátira, contudo, é uma arte do insulto que finge não seguir nenhuma arte: suas paixões são naturais, mas não são informais. A irracionalidade da indignação é construída racionalmente e sua obscenidade pressupõe, como dizia Klossowski sobre Sade, as normas que a tornam visível e emolduram. Na poesia católica chamada Gregório, o obsceno é alegoria do pecado mortal, a infração hierárquica, que corrompe a unidade do bem comum. A anatomia horrorosa de vícios, com que compõe tipos vulgares, não é subversiva ou transgressora da ordem. Também na vituperação dos melhores, o desbocado do Boca do Inferno encontra a realidade não na empiria, mas nas convenções hierárquicas da recepção contemporânea, pautadas pela concordância quanto à imagem caricatural que elabora, enquanto mantém em circulação os estereótipos de pessoas, grupos e situações.
A sátira não é iluminista. Concebe o tempo qualitativamente, como análogo do divino. Quando dramatiza os discursos do corpo místico, perspectiva-os pelo dogma da luz natural da Graça inata. Seu estilo misto formaliza a percepção do destinatário como
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Júlia Cortines
A Vingança de Cambises
Disseram — diz o rei a Prexaspes — que o vinho
Sobe presto à cabeça em denso torvelinho
De vapores, e a febre, o delírio produz,
Que irradiam no olhar uma sinistra luz.
Ou, pouco a pouco, pelo organismo se entorna,
Qual onda de torpor, voluptuosa e morna?
Disseram; e tu tens a ousadia de vir
Em face de teu rei palavras repetir
De estultos, e afirmar que o vinho afrouxa braços
Que fazem, como os meus, os reinos em pedaços?
Ao contrário; verás; (e bêbado entesou
No arco a flecha) porém é preciso que aponte
Um alvo; — o coração de teu filho.
E atirou,
Da criança, que nele o doce olhar fitava,
— Olhar que o etéreo azul do infinito espelhava, —
Varando lado a lado o peito e o coração.
E o pai disse, curvando humildemente a fronte:
— "Nem de Apolo é mais firme e mais certeira a mão."
Sobe presto à cabeça em denso torvelinho
De vapores, e a febre, o delírio produz,
Que irradiam no olhar uma sinistra luz.
Ou, pouco a pouco, pelo organismo se entorna,
Qual onda de torpor, voluptuosa e morna?
Disseram; e tu tens a ousadia de vir
Em face de teu rei palavras repetir
De estultos, e afirmar que o vinho afrouxa braços
Que fazem, como os meus, os reinos em pedaços?
Ao contrário; verás; (e bêbado entesou
No arco a flecha) porém é preciso que aponte
Um alvo; — o coração de teu filho.
E atirou,
Da criança, que nele o doce olhar fitava,
— Olhar que o etéreo azul do infinito espelhava, —
Varando lado a lado o peito e o coração.
E o pai disse, curvando humildemente a fronte:
— "Nem de Apolo é mais firme e mais certeira a mão."
489
1
Florisvaldo Mattos
Galope Amarelo
Quando ele voltou
a moça do portão estava casada
o prefeito era uma cruz e uma placa
as aves mudaram de itinerário
como os ônibus
o irmão mais moço tomava ópio
para esquecer.
Quando ele voltou
o empregado da esquina respondera
a um processo
onde perdera a esperança e os dedos
o pai fuzilara um estudante
a mãe fugira com um mascate.
Quando ele partiu
a primavera galopava nos rosais
os campos de begônias floresciam
o gado esturrava nos currais
a terra desafiada vicejava como
uma égua na véspera do galope.
Quando ele partiu
o alimento dos olhos era a verdura
de paisagem além da cerca
as goiabas enchiam os cestos
as mulheres voltavam com os meninos
os velhos falavam de assombração
a lua espreitava o pátio e o quintal.
Quando ele voltou
o ministro citava o arquiteto
com a pretensão de restaurar
tempo à revelia dos relógios
o muro substituía o horizonte
as autoridades sonolentas distribuíam
o passaporte dos homens para o sanatório
quando ele voltou
as leis se haviam tornado ainda mais fósseis
as oligarquias muito mais poderosas
os poderosos mais astutos
o ministro lembrava a pá sob os escombros,
o menino relia as manchetes da guerra
os preconceitos rimavam com a economia.
Quando ele voltou
havia uma encruzilhada e um alto-falante
a moça do portão estava casada
o irmão caçula era um soldado velho
Quando ele partiu
a primavera galopava nos rosais,
Quando ele voltou
o céu era só um galope amarelo,
a moça do portão estava casada
o prefeito era uma cruz e uma placa
as aves mudaram de itinerário
como os ônibus
o irmão mais moço tomava ópio
para esquecer.
Quando ele voltou
o empregado da esquina respondera
a um processo
onde perdera a esperança e os dedos
o pai fuzilara um estudante
a mãe fugira com um mascate.
Quando ele partiu
a primavera galopava nos rosais
os campos de begônias floresciam
o gado esturrava nos currais
a terra desafiada vicejava como
uma égua na véspera do galope.
Quando ele partiu
o alimento dos olhos era a verdura
de paisagem além da cerca
as goiabas enchiam os cestos
as mulheres voltavam com os meninos
os velhos falavam de assombração
a lua espreitava o pátio e o quintal.
Quando ele voltou
o ministro citava o arquiteto
com a pretensão de restaurar
tempo à revelia dos relógios
o muro substituía o horizonte
as autoridades sonolentas distribuíam
o passaporte dos homens para o sanatório
quando ele voltou
as leis se haviam tornado ainda mais fósseis
as oligarquias muito mais poderosas
os poderosos mais astutos
o ministro lembrava a pá sob os escombros,
o menino relia as manchetes da guerra
os preconceitos rimavam com a economia.
Quando ele voltou
havia uma encruzilhada e um alto-falante
a moça do portão estava casada
o irmão caçula era um soldado velho
Quando ele partiu
a primavera galopava nos rosais,
Quando ele voltou
o céu era só um galope amarelo,
2 083
1
Gregório de Matos
Finge que Defende a Honra
Uma cidade tão nobre,
uma gente tão honrada
veja-se um dia louvada
desde o mais rico ao mais pobre:
cada pessoa o seu cobre,
mas se o diabo me atiça,
que indo a fazer-lhe justiça
algum saia a justiçar,
não me poderão negar
que por direito, e por Lei
esta é a justiça, que manda El-Rei
O Fidalgo de solar
se dá por envergonhado
de um tostão pedir prestado
para o ventre sustentar:
diz que antes o quer furtar
por manter a negra honra,
que passar pela desonra
de que lhe neguem talvez;
mas se o virdes nas galés
com honras de Vice-Rei,
esta é a justiça, que manda El-Rei
A Donzela embiocada
mal trajada, e mal comida,
antes quer na sua vida
ter saia, que ser honrada:
à pública amancebada
por manter a negra honrinha,
e se lho sabe a vizinha
e lho ouve a clerezia,
dão com ela na enxovia
e paga a pena da lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
A Casada com adorno,
e o Marido mal vestido,
crede que este tal Marido
penteia monho de corno:
se disser pelo contorno
que se sofre a Frei Tomás
por manter a honra o faz,
esperai pela pancada,
que com carocha pintada
de Angola há de ser Visrei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Os Letrados Peralvilhos
citando o mesmo Doutor
a fazer de réu o Autor
comem de ambos os carrinhos:
se se diz pelos corrilhos
sua prevaricação,
a desculpa, que lhe dão,
é a honra de seus parentes
e entonces os requerentes
fogem desta infame grei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Clérigo julgador,
que as causas julga sem pejo,
não reparando que eu vejo
que erra a Lei, e erra o Doutor:
quando vêem de Monsenhor
a sentença revogada
por saber que foi comprada
pelo jimbo, ou pelo abraço,
responde o Juiz madraço,
minha honra é minha Lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Mercador avarento,
quando a sua compra estende,
no que compra, e no que vende,
tira duzentos por cento:
não é ele tão jumento,
que não saiba que em Lisboa
se lhe há de dar na gamboa;
mas comido já o dinheiro
diz que a honra está primeiro,
e que honrado a toda Lei:
esta é justiça, que manda El-Rei.
A Viúva autorizada,
que não possui um vintém,
porque o Marido de bem
deixou a casa empenhada:
ali vai a fradalhada,
qual formiga em correição,
dizendo que à casa vão
manter a honra da casa;
se a virdes arder em brasa,
que ardeu a honra entendei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Adônis da manhã,
o Cupido em todo dia,
que anda correndo a coxia
com recadinhos da Irmã:
e se lhe cortam a lã,
diz que anda naquele andar
por a honra conservar
bem tratado, e bem vestido,
eu o verei tão despido,
que até as costas lhe verei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Se virdes um Dom Abade
sobre o púlpito cioso,
não lhe chameis religioso,
chamai-lhe embora de frade:
e se o tal paternidade
rouba as rendas do convento
para acudir ao sustento
da puta, como da peita,
com que livra da suspeita
do Geral, do Viso-Rei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
uma gente tão honrada
veja-se um dia louvada
desde o mais rico ao mais pobre:
cada pessoa o seu cobre,
mas se o diabo me atiça,
que indo a fazer-lhe justiça
algum saia a justiçar,
não me poderão negar
que por direito, e por Lei
esta é a justiça, que manda El-Rei
O Fidalgo de solar
se dá por envergonhado
de um tostão pedir prestado
para o ventre sustentar:
diz que antes o quer furtar
por manter a negra honra,
que passar pela desonra
de que lhe neguem talvez;
mas se o virdes nas galés
com honras de Vice-Rei,
esta é a justiça, que manda El-Rei
A Donzela embiocada
mal trajada, e mal comida,
antes quer na sua vida
ter saia, que ser honrada:
à pública amancebada
por manter a negra honrinha,
e se lho sabe a vizinha
e lho ouve a clerezia,
dão com ela na enxovia
e paga a pena da lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
A Casada com adorno,
e o Marido mal vestido,
crede que este tal Marido
penteia monho de corno:
se disser pelo contorno
que se sofre a Frei Tomás
por manter a honra o faz,
esperai pela pancada,
que com carocha pintada
de Angola há de ser Visrei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Os Letrados Peralvilhos
citando o mesmo Doutor
a fazer de réu o Autor
comem de ambos os carrinhos:
se se diz pelos corrilhos
sua prevaricação,
a desculpa, que lhe dão,
é a honra de seus parentes
e entonces os requerentes
fogem desta infame grei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Clérigo julgador,
que as causas julga sem pejo,
não reparando que eu vejo
que erra a Lei, e erra o Doutor:
quando vêem de Monsenhor
a sentença revogada
por saber que foi comprada
pelo jimbo, ou pelo abraço,
responde o Juiz madraço,
minha honra é minha Lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Mercador avarento,
quando a sua compra estende,
no que compra, e no que vende,
tira duzentos por cento:
não é ele tão jumento,
que não saiba que em Lisboa
se lhe há de dar na gamboa;
mas comido já o dinheiro
diz que a honra está primeiro,
e que honrado a toda Lei:
esta é justiça, que manda El-Rei.
A Viúva autorizada,
que não possui um vintém,
porque o Marido de bem
deixou a casa empenhada:
ali vai a fradalhada,
qual formiga em correição,
dizendo que à casa vão
manter a honra da casa;
se a virdes arder em brasa,
que ardeu a honra entendei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Adônis da manhã,
o Cupido em todo dia,
que anda correndo a coxia
com recadinhos da Irmã:
e se lhe cortam a lã,
diz que anda naquele andar
por a honra conservar
bem tratado, e bem vestido,
eu o verei tão despido,
que até as costas lhe verei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Se virdes um Dom Abade
sobre o púlpito cioso,
não lhe chameis religioso,
chamai-lhe embora de frade:
e se o tal paternidade
rouba as rendas do convento
para acudir ao sustento
da puta, como da peita,
com que livra da suspeita
do Geral, do Viso-Rei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
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1
Epitácio Mendes Silva
Promessas
Promessas, guerras, conflitos,
fazem a hora da existência
e a certeza é uma só:
o amanhã será sombrio !
Promessa que não se cumpre
vai matando a esperança
e a guerra que busca a paz
traz a insegurança da paz.
Felizes os loucos e inocentes
que vivem das fantasias
e que das promessas não conhecem
o lado das traições.
fazem a hora da existência
e a certeza é uma só:
o amanhã será sombrio !
Promessa que não se cumpre
vai matando a esperança
e a guerra que busca a paz
traz a insegurança da paz.
Felizes os loucos e inocentes
que vivem das fantasias
e que das promessas não conhecem
o lado das traições.
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1
Dante Milano
Terra de Ninguém
A sala recende
A terra molhada,
A caule úmido e raiz apodrecida.
As flores sobre o cadáver
Contraem pétalas enregeladas.
A figura de cera no caixão bordado
Sorri como um cego sorri
Com ar de náusea.
Os convidados expandem uma tristeza festiva.
O defunto recusa
Qualquer comunicação com a humanidade
Que lhe é de todo indiferente agora.
(Ele que morreu "pela Causa" e recebe honras fúnebres.)
Em sua torre de marfim,
Sob o céu absoluto da paisagem devastada,
Reina, altivo. (Há coroas, há bendeiras na sala.)
Passante! descobre-te e não rias,
Respeita a morte e o fedor se sua glória.
A terra molhada,
A caule úmido e raiz apodrecida.
As flores sobre o cadáver
Contraem pétalas enregeladas.
A figura de cera no caixão bordado
Sorri como um cego sorri
Com ar de náusea.
Os convidados expandem uma tristeza festiva.
O defunto recusa
Qualquer comunicação com a humanidade
Que lhe é de todo indiferente agora.
(Ele que morreu "pela Causa" e recebe honras fúnebres.)
Em sua torre de marfim,
Sob o céu absoluto da paisagem devastada,
Reina, altivo. (Há coroas, há bendeiras na sala.)
Passante! descobre-te e não rias,
Respeita a morte e o fedor se sua glória.
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1
Castro Alves
Improviso
(À MOCIDADE ACADÊMICA)
Moços! A inépcia nos chamou de estúpidos!
Moços! O crime nos cobriu de sangue!
Vós os luzeiros do país, erguei-vos!
Perante a infâmia ninguém fica exangue
Protesto santo se levanta agora,
De mim, de vós, da multidão, do povo;
Somos da classe da justiça e brio,
Não há mais classe ante esse crime novo!
Sim! mesmo em face, da nação, da pátria,
Nós nos erguemos com soberba fé!
A lei sustenta o popular direito,
Nós sustentamos o direito em pé!
Moços! A inépcia nos chamou de estúpidos!
Moços! O crime nos cobriu de sangue!
Vós os luzeiros do país, erguei-vos!
Perante a infâmia ninguém fica exangue
Protesto santo se levanta agora,
De mim, de vós, da multidão, do povo;
Somos da classe da justiça e brio,
Não há mais classe ante esse crime novo!
Sim! mesmo em face, da nação, da pátria,
Nós nos erguemos com soberba fé!
A lei sustenta o popular direito,
Nós sustentamos o direito em pé!
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1
Castro Alves
O Povo ao Poder
QUANDO nas praças seleva
Do povo a sublime voz...
Um raio ilumina a treva
O Cristo assombra o algoz...
Que o gigante da calçada
Com pé sobre a barricada
Desgrenhado, enorme, e nu,
Em Roma é Catão ou Mário,
É Jesus sobre o Calvário,
É Garibaldi ou Kossuth.
A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor.
Senhor!... pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua de seu...
Ninguém vos rouba os castelos
Tendes palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu.
Na tortura, na fogueira...
Nas tocas da inquisição
Chiava o ferro na carne
Porém gritava a aflição.
Pois bem... nest’hora poluta
Nós bebemos a cicuta
Sufocados no estertor;
Deíxai-nos soltar um grito
Que topando no infinito
Talvez desperte o Senhor.
A palavra! vós roubais-la
Aos lábios da multidão
Dizeis, senhores, à lava
Que não rompa do vulcão.
Mas quinfâmia! Ai, velha Roma,
Ai, cidade de Vendoma,
Ai, mundos de cem heróis,
Dizei, cidades de pedra,
Onde a liberdade medra
Do porvir aos arrebóis.
Dizei, quando a voz dos Gracos
Tapou a destra da lei?
Onde a toga tribunícia
Foi calcada aos pés do rei?
Fala, soberba Inglaterra,
Do sul ao teu pobre irmão;
Dos teus tribunos que é feito?
Tu guarda-os no largo peito
Não no lodo da prisão.
No entanto em sombras tremendas
Descansa extinta a nação
Fria e treda como o morto.
E vós, que sentis-lhe o pulso
Apenas tremer convulso
Nas extremas contorções...
Não deixais que o filho louco
Grite "oh! Mãe, descansa um pouco
Sobre os nossos corações".
Mas embalde... Que o direito
Não é pasto do punhal.
Nem a patas de cavalos
Se faz um crime legal...
Ah! não há muitos setembros
Da plebe doem os membros
No chicote do poder,
E o momento é malfadado
Quando o povo ensangüentado
Diz: já não posso sofrer.
Pois bem! Nós que caminhamos
Do futuro para a luz,
Nós que o Calvário escalamos
Levando nos ombros a cruz,
Que do presente no escuro
Só temos fé no futuro,
Como alvorada do bem,
Como Laocoonte esmagado
Morreremos coroado
Erguendo os olhos além.
Irmãos da terra da América,
Filhos do solo da cruz,
Erguei as frontes altivas,
Bebei torrentes de luz...
Ai! soberba populaça,
Rebentos da velha raça
Dos nossos velhos Catões,
Lançai um protesto, é povo,
Protesto que o mundo novo
Manda aos tronos e às nações.
Do povo a sublime voz...
Um raio ilumina a treva
O Cristo assombra o algoz...
Que o gigante da calçada
Com pé sobre a barricada
Desgrenhado, enorme, e nu,
Em Roma é Catão ou Mário,
É Jesus sobre o Calvário,
É Garibaldi ou Kossuth.
A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor.
Senhor!... pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua de seu...
Ninguém vos rouba os castelos
Tendes palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu.
Na tortura, na fogueira...
Nas tocas da inquisição
Chiava o ferro na carne
Porém gritava a aflição.
Pois bem... nest’hora poluta
Nós bebemos a cicuta
Sufocados no estertor;
Deíxai-nos soltar um grito
Que topando no infinito
Talvez desperte o Senhor.
A palavra! vós roubais-la
Aos lábios da multidão
Dizeis, senhores, à lava
Que não rompa do vulcão.
Mas quinfâmia! Ai, velha Roma,
Ai, cidade de Vendoma,
Ai, mundos de cem heróis,
Dizei, cidades de pedra,
Onde a liberdade medra
Do porvir aos arrebóis.
Dizei, quando a voz dos Gracos
Tapou a destra da lei?
Onde a toga tribunícia
Foi calcada aos pés do rei?
Fala, soberba Inglaterra,
Do sul ao teu pobre irmão;
Dos teus tribunos que é feito?
Tu guarda-os no largo peito
Não no lodo da prisão.
No entanto em sombras tremendas
Descansa extinta a nação
Fria e treda como o morto.
E vós, que sentis-lhe o pulso
Apenas tremer convulso
Nas extremas contorções...
Não deixais que o filho louco
Grite "oh! Mãe, descansa um pouco
Sobre os nossos corações".
Mas embalde... Que o direito
Não é pasto do punhal.
Nem a patas de cavalos
Se faz um crime legal...
Ah! não há muitos setembros
Da plebe doem os membros
No chicote do poder,
E o momento é malfadado
Quando o povo ensangüentado
Diz: já não posso sofrer.
Pois bem! Nós que caminhamos
Do futuro para a luz,
Nós que o Calvário escalamos
Levando nos ombros a cruz,
Que do presente no escuro
Só temos fé no futuro,
Como alvorada do bem,
Como Laocoonte esmagado
Morreremos coroado
Erguendo os olhos além.
Irmãos da terra da América,
Filhos do solo da cruz,
Erguei as frontes altivas,
Bebei torrentes de luz...
Ai! soberba populaça,
Rebentos da velha raça
Dos nossos velhos Catões,
Lançai um protesto, é povo,
Protesto que o mundo novo
Manda aos tronos e às nações.
2 473
1
Chico Buarque
Ano Novo
O rei chegou
E já mandou tocar os sinos
Na cidade inteira
É pra cantar os hinos
Hastear bandeiras
E eu que sou menino
Muito obediente
Estava indiferente
Logo me comovo
Pra ficar contente
Porque é Ano Novo
Há muito tempo
Que essa minha gente
Vai vivendo a muque
É o mesmo batente
É o mesmo batuque
Já ficou descrente
É sempre o mesmo truque
E que já viu de pé
O mesmo velho ovo
Hoje fica contente
Porque é Ano Novo
A minha nega me pediu um vestido
Novo e colorido
Pra comemorar
Eu disse:
Finja que não está descalça
Dance alguma valsa
Quero ser seu par
E ao meu amigo que não vê mais graça
Todo ano que passa
Só lhe faz chorar
Eu disse:
Homem, tenha seu orgulho
Não faça barulho
O rei não vai gostar
E quem for cego veja de repente
Todo o azul da vida
Quem estiver doente
Saia na corrida
Quem tiver presente
Traga o mais vistoso
Quem tiver juízo
Fique bem ditoso
Quem tiver sorriso
Fique lá na frente
Pois vendo valente
E tão leal seu povo
O rei fica contente
Porque é Ano Novo
E já mandou tocar os sinos
Na cidade inteira
É pra cantar os hinos
Hastear bandeiras
E eu que sou menino
Muito obediente
Estava indiferente
Logo me comovo
Pra ficar contente
Porque é Ano Novo
Há muito tempo
Que essa minha gente
Vai vivendo a muque
É o mesmo batente
É o mesmo batuque
Já ficou descrente
É sempre o mesmo truque
E que já viu de pé
O mesmo velho ovo
Hoje fica contente
Porque é Ano Novo
A minha nega me pediu um vestido
Novo e colorido
Pra comemorar
Eu disse:
Finja que não está descalça
Dance alguma valsa
Quero ser seu par
E ao meu amigo que não vê mais graça
Todo ano que passa
Só lhe faz chorar
Eu disse:
Homem, tenha seu orgulho
Não faça barulho
O rei não vai gostar
E quem for cego veja de repente
Todo o azul da vida
Quem estiver doente
Saia na corrida
Quem tiver presente
Traga o mais vistoso
Quem tiver juízo
Fique bem ditoso
Quem tiver sorriso
Fique lá na frente
Pois vendo valente
E tão leal seu povo
O rei fica contente
Porque é Ano Novo
2 298
1
Alcides Werk
Das Águas Grandes
o barco passando e a onda molhando
o menino molhado, na porta da frente.
O homem doente
deitado na rede
com os olhos cansados de espanto e de mágoa
de ver tanta água
de ver tanta água
bebendo do sangue, roendo as raízes
de tudo o que fez.
Na estreita maromba,
os bichos chorando de fome e de frio,
com medo do rio
com medo do rio que cresce outra vez.
(Quando eu for Presidente,
de amplos e amorosíssimos poderes,
decretarei,
sem visto do congresso,
nem processo,
canonizando santos nacionais
os mártires da enchente.
Convocarei um exército de anjos
para domar o rio e o desvario
dos prováveis dilúvios anuais.
Mesmo assim, por razões de previdência,
visto que temos mártires demais
e precisamos de gente,
levarei meus irmãos pra terra firme,
onde casa não pode ser navio,
nem se esteja sujeito
às caprichosas emoções do rio.)
o barco passando, e meus olhos sofrendo
da mesma miséria da mesma miséria
que vêem.
E, de repente,
me vem uma vontade provisória
de encher os bolsos de demagogia,
entrar em cada casa com uma estória,
qualquer que seja - que não seja séria,
falar de tudo - menos de miséria,
prometer coisas que não cumprirei,
como se faz em tempo de eleições,
para que sejam menos infelizes
(enquanto o rio esconde as roças podres),
mastigando ilusões.
o menino molhado, na porta da frente.
O homem doente
deitado na rede
com os olhos cansados de espanto e de mágoa
de ver tanta água
de ver tanta água
bebendo do sangue, roendo as raízes
de tudo o que fez.
Na estreita maromba,
os bichos chorando de fome e de frio,
com medo do rio
com medo do rio que cresce outra vez.
(Quando eu for Presidente,
de amplos e amorosíssimos poderes,
decretarei,
sem visto do congresso,
nem processo,
canonizando santos nacionais
os mártires da enchente.
Convocarei um exército de anjos
para domar o rio e o desvario
dos prováveis dilúvios anuais.
Mesmo assim, por razões de previdência,
visto que temos mártires demais
e precisamos de gente,
levarei meus irmãos pra terra firme,
onde casa não pode ser navio,
nem se esteja sujeito
às caprichosas emoções do rio.)
o barco passando, e meus olhos sofrendo
da mesma miséria da mesma miséria
que vêem.
E, de repente,
me vem uma vontade provisória
de encher os bolsos de demagogia,
entrar em cada casa com uma estória,
qualquer que seja - que não seja séria,
falar de tudo - menos de miséria,
prometer coisas que não cumprirei,
como se faz em tempo de eleições,
para que sejam menos infelizes
(enquanto o rio esconde as roças podres),
mastigando ilusões.
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