Poemas neste tema
Propósito e Sentido da Vida
António Osório
Perguntas a Várias Mãos
Há tanto tempo em busca daquela alegria para sempre
Há de se manter a fé de achar ainda a thing of beauty
Ou de construí-la.
Más hélas! parece há muito que la chair est triste et jai lu tous les livres
Por onde afinal poderemos começar a façonar o mundo?
Recusamo-nos obstinadamente a crer, apesar de tantas evidências
que a vida é um passo na alfombra de um quarto
que jaz vazio
que a vida é um gesto inútil, como disse o amigo
na hora turva de dia já antigo
será uma seta solta no espaço?
entre duas trevas breve clarão?
Le vent se lève. Il faut tenter de vivre!
Há que resistir
Há que resistir ao tempo
Há que resistir ao nada em galope lancinante
neste tropel bravio de angústias e esquivanças.
Quando virás, demiurgo, promover a libertação?
Onde estás Deus, que te escondes?
Quando chegará o ponto ômega, o momento crístico, a parusia?
Quando a cidade do povo, a nova humanidade?
O grito selvagem do sol faz ainda a cada manhã estremecer a terra
E as línguas largas das águas continuam amorosas a relambê-la
não sabemos ainda, soturnos habitantes às vezes afoitos
Quando virá o libertador
Nem o seu nome.
Será que um dia, e quando, os cânticos jubilares do homem
acordarão as potências telárgicas?
Quando afinal o estronho de tantos prantos e blasfêmias
trará Deus de volta a tem?
Ou aqui O criará à imagem de seu barro?
Será que um dia a semente apodrecida de tantas esperanças
fecundará o velho ventre de Demeter?
Não se sabem respostas
Nem as queremos talvez.
Ser homem é perguntar quem sabe
neste solilóquio máquina de tempo
de caixas de músicas esquecidas de suas melodias
manobradas marionetes por um saltimbanco maneta.
Há de se manter a fé de achar ainda a thing of beauty
Ou de construí-la.
Más hélas! parece há muito que la chair est triste et jai lu tous les livres
Por onde afinal poderemos começar a façonar o mundo?
Recusamo-nos obstinadamente a crer, apesar de tantas evidências
que a vida é um passo na alfombra de um quarto
que jaz vazio
que a vida é um gesto inútil, como disse o amigo
na hora turva de dia já antigo
será uma seta solta no espaço?
entre duas trevas breve clarão?
Le vent se lève. Il faut tenter de vivre!
Há que resistir
Há que resistir ao tempo
Há que resistir ao nada em galope lancinante
neste tropel bravio de angústias e esquivanças.
Quando virás, demiurgo, promover a libertação?
Onde estás Deus, que te escondes?
Quando chegará o ponto ômega, o momento crístico, a parusia?
Quando a cidade do povo, a nova humanidade?
O grito selvagem do sol faz ainda a cada manhã estremecer a terra
E as línguas largas das águas continuam amorosas a relambê-la
não sabemos ainda, soturnos habitantes às vezes afoitos
Quando virá o libertador
Nem o seu nome.
Será que um dia, e quando, os cânticos jubilares do homem
acordarão as potências telárgicas?
Quando afinal o estronho de tantos prantos e blasfêmias
trará Deus de volta a tem?
Ou aqui O criará à imagem de seu barro?
Será que um dia a semente apodrecida de tantas esperanças
fecundará o velho ventre de Demeter?
Não se sabem respostas
Nem as queremos talvez.
Ser homem é perguntar quem sabe
neste solilóquio máquina de tempo
de caixas de músicas esquecidas de suas melodias
manobradas marionetes por um saltimbanco maneta.
1 253
Antero Coelho Neto
O Início?
Há uma coisa longe,
bem longe, atrás do horizonte
que vem não sei de onde.
Parece luz parece raio.
Lembra tudo e não lembra nada.
Agora é verde, logo amarelo.
Ou é vermelho?
Súbito torna-se opaca.
Volatiliza-se e fica sombra.
Será nossa Origem, nosso Começo?
Há uma coisa longe,
bem longe, não seio que seja.
Parece luz, mas não é.
É muito mais... talvez o Início...
Eu só sei que é longe,
muito longe, muito longe mesmo.
Parece luz, parece raio,
mas não é...
bem longe, atrás do horizonte
que vem não sei de onde.
Parece luz parece raio.
Lembra tudo e não lembra nada.
Agora é verde, logo amarelo.
Ou é vermelho?
Súbito torna-se opaca.
Volatiliza-se e fica sombra.
Será nossa Origem, nosso Começo?
Há uma coisa longe,
bem longe, não seio que seja.
Parece luz, mas não é.
É muito mais... talvez o Início...
Eu só sei que é longe,
muito longe, muito longe mesmo.
Parece luz, parece raio,
mas não é...
1 299
Notívaga Noturna
Prazer
prazer.
ardor.
arder.
atar.
foder.
fundir.
unir.
assar.
amassar.
doer.
morder.
libertar.
soltar:
a vida o espírito o corpo o tudo.
chorar.
sofrer.
desejar.
acreditar.
querer.
sonhar.
soltar:
o corpo o espírito a vida o tudo.
beijar,
beijar,
beijar:
um sorvete com caramelo, chocolate entremeado de beijar.
desaparecer aparecendo doce.
existir,
existir,
existir,
haverá afinal tanto pecado em apenas querer ser feliz?
tua pele,
no meu pêlo.
minha pele,
tocando a tua.
teus seios,
em meu singelo peito...
tua alma,
em meu pequeno coração...
minha boca,
em tua boca. louca.
minha alma. louca.
em tua alma. louca.
Será pecado ter este prazer de existir?
Se era pra ser assim,
Por quê antes não foi?
Por que não te encontrei enquanto navegando displicente na existência?
Precisava ser agora?
Quando tudo já parecia definido e travado...
Quando todo um destino já parecia ter sido selado?
Só não podia não ser, jamais.
A vida não teria tido sentido, nem alma.
A alma não teria tido uma vida, nem sentido.
A existência não teria tido vida, nem sentido, nem alma.
ardor.
arder.
atar.
foder.
fundir.
unir.
assar.
amassar.
doer.
morder.
libertar.
soltar:
a vida o espírito o corpo o tudo.
chorar.
sofrer.
desejar.
acreditar.
querer.
sonhar.
soltar:
o corpo o espírito a vida o tudo.
beijar,
beijar,
beijar:
um sorvete com caramelo, chocolate entremeado de beijar.
desaparecer aparecendo doce.
existir,
existir,
existir,
haverá afinal tanto pecado em apenas querer ser feliz?
tua pele,
no meu pêlo.
minha pele,
tocando a tua.
teus seios,
em meu singelo peito...
tua alma,
em meu pequeno coração...
minha boca,
em tua boca. louca.
minha alma. louca.
em tua alma. louca.
Será pecado ter este prazer de existir?
Se era pra ser assim,
Por quê antes não foi?
Por que não te encontrei enquanto navegando displicente na existência?
Precisava ser agora?
Quando tudo já parecia definido e travado...
Quando todo um destino já parecia ter sido selado?
Só não podia não ser, jamais.
A vida não teria tido sentido, nem alma.
A alma não teria tido uma vida, nem sentido.
A existência não teria tido vida, nem sentido, nem alma.
1 208
Vicente Franz Cecim
Os grandes mestres
Os grandes mestres
há uma qualidade que os homens ignoram: viver é
menos
Queda que a pedra da memória
e mais do que as serpentes reconhecem: O odor humano
Está
entre as estrelas morrendo nos seus sonhos
e a terra fria afagada contra o peito
antes de lançar um sol sobre as suas vítimas
Se isso se parece um pouco com as residências do mal
e com casas perdidas em si mesmas,
foram os Cálices da espécie que deram à vida a nutrição e os tumultos
Eu falo da invenção da sede
Porque o homem é o animal de areia que dá sentido às fontes do real
e quanto a noite cai,
bebemos a água escura do ventre das mulheres
Mas vejam: o escorpião instalou as suas ferragens
O céu tem suas lágrimas em silêncio
O caracol da voz,
quando sussurra os enigmas da chuva,
sabe:
Quase nunca é tempo
Quase nunca é tempo
para o perfume do sangue
Quase nunca é tempo
de permanecer humano
Esses rios têm espelhos partidos, e tudo o que foi
submerso
é um caos perdido
há uma qualidade que os homens ignoram: viver é
menos
Queda que a pedra da memória
e mais do que as serpentes reconhecem: O odor humano
Está
entre as estrelas morrendo nos seus sonhos
e a terra fria afagada contra o peito
antes de lançar um sol sobre as suas vítimas
Se isso se parece um pouco com as residências do mal
e com casas perdidas em si mesmas,
foram os Cálices da espécie que deram à vida a nutrição e os tumultos
Eu falo da invenção da sede
Porque o homem é o animal de areia que dá sentido às fontes do real
e quanto a noite cai,
bebemos a água escura do ventre das mulheres
Mas vejam: o escorpião instalou as suas ferragens
O céu tem suas lágrimas em silêncio
O caracol da voz,
quando sussurra os enigmas da chuva,
sabe:
Quase nunca é tempo
Quase nunca é tempo
para o perfume do sangue
Quase nunca é tempo
de permanecer humano
Esses rios têm espelhos partidos, e tudo o que foi
submerso
é um caos perdido
1 068
Vicente Franz Cecim
Àquele que dorme sem sono
Os teus corpos, Um de Carne e Outro de Sombra,
envolve em óleos
pois são dois, e o segundo é mais real
É preciso ver num sonho
a paisagem das verdades
onde insetos vêm pousar em nossas mãos
Há palavras que os homens não dizem
Há águas tão amargas,
filho,
que se recusam a devolver às fontes
as antigas possibilidades musicais da espécie
Mas as luas da febre
estão passando
sobre os lugares onde a sombra humana ainda irá passar
Um longo caminho não é sinal de eternidade
Ninguém ainda foi ouvir o silêncio das estrelas
E não ter colhido o mel,
a um murmúrio de distância dos teus lábios,
salgou ainda mais as colméias eternas
É lenta a economia daqueles que aqui esquecem o sabor do sal
E há uns que temem a queda das unhas no inverno,
e há outros que pararam a vida
numa estação vazia
É preciso ir à paisagem das verdades: Insetos
pousariam
em nossas mãos: Os ouvidos humanos
são cavernas escuras
Agora nascerão raízes,
quando esperavas asas
E quem sabe um dia virão frutos
para te dar ao leite coagulado,
suficiente é ter nascido
Suficiente é ser a sede, pois só por isso se obteve
a dádiva
dos lagos e da gota de veneno
e um oceano de lágrimas
para encher os olhos de ternura
O que tu sabes de ti?
Somente que já vai começando a desaceleração do vento
em teus cabelos
A menos que desças no caminho, para colher as
imagens
que foram caindo da nossa memória,
estás perdido
A menos que subas, ao avistar uma montanha de
homens
que foram virados do avesso, os ossos por fora,
a carne por dentro,
e te prostres em adoração ao pó,
v
em que esses homens se tornarão?
Chama o vento com o ar dos teus pulmões
por amor às cinzas
Estas perdido
Entre a festa para receber,
com festa humana,
e uma esperança de ferrugens
Sob os sons das estrelas,
uma esperança de ferrugens
é o que te fere a sombra
e estás perdido
A melhor coisa que fazes
e a pior, será parar a circulação contínua da máquina
Prova uma gota do nosso sangue,
e aceita, sorrindo,
que isso aconteceu,
que foram caindo da nossa memória
a polpa e a seiva, tingidas de vermelho
Um futuro de rodas que já não rodarão
para as colheitas do destino
Entrega o nosso trem ao delírio de uma floresta
virgem a cada dia
E a voz que te diz isso:
ao menos uma vez
teremos o ferro do nosso dispensável coração
Então, por que não semear de mãos vazias?
envolve em óleos
pois são dois, e o segundo é mais real
É preciso ver num sonho
a paisagem das verdades
onde insetos vêm pousar em nossas mãos
Há palavras que os homens não dizem
Há águas tão amargas,
filho,
que se recusam a devolver às fontes
as antigas possibilidades musicais da espécie
Mas as luas da febre
estão passando
sobre os lugares onde a sombra humana ainda irá passar
Um longo caminho não é sinal de eternidade
Ninguém ainda foi ouvir o silêncio das estrelas
E não ter colhido o mel,
a um murmúrio de distância dos teus lábios,
salgou ainda mais as colméias eternas
É lenta a economia daqueles que aqui esquecem o sabor do sal
E há uns que temem a queda das unhas no inverno,
e há outros que pararam a vida
numa estação vazia
É preciso ir à paisagem das verdades: Insetos
pousariam
em nossas mãos: Os ouvidos humanos
são cavernas escuras
Agora nascerão raízes,
quando esperavas asas
E quem sabe um dia virão frutos
para te dar ao leite coagulado,
suficiente é ter nascido
Suficiente é ser a sede, pois só por isso se obteve
a dádiva
dos lagos e da gota de veneno
e um oceano de lágrimas
para encher os olhos de ternura
O que tu sabes de ti?
Somente que já vai começando a desaceleração do vento
em teus cabelos
A menos que desças no caminho, para colher as
imagens
que foram caindo da nossa memória,
estás perdido
A menos que subas, ao avistar uma montanha de
homens
que foram virados do avesso, os ossos por fora,
a carne por dentro,
e te prostres em adoração ao pó,
v
em que esses homens se tornarão?
Chama o vento com o ar dos teus pulmões
por amor às cinzas
Estas perdido
Entre a festa para receber,
com festa humana,
e uma esperança de ferrugens
Sob os sons das estrelas,
uma esperança de ferrugens
é o que te fere a sombra
e estás perdido
A melhor coisa que fazes
e a pior, será parar a circulação contínua da máquina
Prova uma gota do nosso sangue,
e aceita, sorrindo,
que isso aconteceu,
que foram caindo da nossa memória
a polpa e a seiva, tingidas de vermelho
Um futuro de rodas que já não rodarão
para as colheitas do destino
Entrega o nosso trem ao delírio de uma floresta
virgem a cada dia
E a voz que te diz isso:
ao menos uma vez
teremos o ferro do nosso dispensável coração
Então, por que não semear de mãos vazias?
1 297
Henri Michaux
Labyrinthe
Labyrinthe
Labyrinthe, la vie, labyrinthe, la mort
Labyrinthe sans fin, dit le Maître de Ho.
Tout enfonce, rien ne libère.
Le suicidé renaît à une nouvelle souffrance.
La prison ouvre sur une prison
Le couloir ouvre un autre couloir:
Celui qui croit dérouler le rouleau de sa vie
Ne déroule rien de tout.
Rien ne débouche nulle part
Les siècles aussi vivent sous terre, dit le Maître de Ho.
Labyrinthe, la vie, labyrinthe, la mort
Labyrinthe sans fin, dit le Maître de Ho.
Tout enfonce, rien ne libère.
Le suicidé renaît à une nouvelle souffrance.
La prison ouvre sur une prison
Le couloir ouvre un autre couloir:
Celui qui croit dérouler le rouleau de sa vie
Ne déroule rien de tout.
Rien ne débouche nulle part
Les siècles aussi vivent sous terre, dit le Maître de Ho.
1 166
João Marcio Furtado Costa
Num Segundo, O Milênio
Num Segundo, O Milênio
(05/93)
Ao fim daquele segundo, nada se resolveu no mundo.
Por mais importante que fosse, daquele segundo, o fruto,
Seu maior feito, seu intuito, foi de encerrar o minuto.
Mas, também, o minuto, nada mudou de concreto, pois,
Por mais que fosse certo, por mais tempo que desse ao agora,
Nada mais de útil fizera, do que a troca da hora.
E a hora foi embora, radiante de alegria,
Na dicotomia da noite, terminara mais um dia.
Não fora um dia qualquer, aquele 31 de dezembro.
Nem maior, nem menor, nem mais claro ou mais escuro.
Tampouco foi mais puro. Porém, e sem engano,
Ao seu final foi-se o ano, e deu as caras, o futuro.
Foi-se o segundo, o minuto. Foi-se a hora e, junto, o ano,
E o tempo, que é cigano, resolveu baixar o pano,
E encerrar, de vez, o século.
Foste o vigésimo e terminaste. Nada em ti foi respeitado.
Aquele segundo arrogante, agindo qual meliante,
Roubou de ti o legado.
Ficou a melancolia. Alvíssaras ao novo século.
A vida ficou vazia. Alvíssaras ao vinte e um.
De mil passarás e a dois mil não chegarás!
Um por todos e todos por um.
De dois mil passarás e a três mil, quem saberá?
Chegaremos a lugar algum?
O tempo avança: Segundo, hora, milênio...
O mundo cansa: Urânio, ouro, oxigênio...
Elemento ou tempo? Tempo ou elemento?
O que mais importa no momento?
O que poderá nos salvar?
(05/93)
Ao fim daquele segundo, nada se resolveu no mundo.
Por mais importante que fosse, daquele segundo, o fruto,
Seu maior feito, seu intuito, foi de encerrar o minuto.
Mas, também, o minuto, nada mudou de concreto, pois,
Por mais que fosse certo, por mais tempo que desse ao agora,
Nada mais de útil fizera, do que a troca da hora.
E a hora foi embora, radiante de alegria,
Na dicotomia da noite, terminara mais um dia.
Não fora um dia qualquer, aquele 31 de dezembro.
Nem maior, nem menor, nem mais claro ou mais escuro.
Tampouco foi mais puro. Porém, e sem engano,
Ao seu final foi-se o ano, e deu as caras, o futuro.
Foi-se o segundo, o minuto. Foi-se a hora e, junto, o ano,
E o tempo, que é cigano, resolveu baixar o pano,
E encerrar, de vez, o século.
Foste o vigésimo e terminaste. Nada em ti foi respeitado.
Aquele segundo arrogante, agindo qual meliante,
Roubou de ti o legado.
Ficou a melancolia. Alvíssaras ao novo século.
A vida ficou vazia. Alvíssaras ao vinte e um.
De mil passarás e a dois mil não chegarás!
Um por todos e todos por um.
De dois mil passarás e a três mil, quem saberá?
Chegaremos a lugar algum?
O tempo avança: Segundo, hora, milênio...
O mundo cansa: Urânio, ouro, oxigênio...
Elemento ou tempo? Tempo ou elemento?
O que mais importa no momento?
O que poderá nos salvar?
761
Alexei Bueno
Pergunta
Será realmente a face do universo
a face da Medusa,
esta geral destruição confusa,
este criar perverso,
ou será a máscara,álgida e estrelada,
onde os cometas passam,
turva de treva,rútila de nada,
e onde olhos se espedaçam?
a face da Medusa,
esta geral destruição confusa,
este criar perverso,
ou será a máscara,álgida e estrelada,
onde os cometas passam,
turva de treva,rútila de nada,
e onde olhos se espedaçam?
1 355
Natália Correia
Do sentimento trágico da vida
Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.
Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.
Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.
Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.
E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.
Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.
Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.
Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.
E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.
2 956
Natália Correia
O Livro dos Amantes I
Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.
Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.
E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.
Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.
E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.
2 151
Carlos Felipe Moisés
Meia Palavra Inteira
Carlos Felipe Moisés entrevista José Paulo Paes
Poeta, ensaísta e tradutor, José Paulo Paes goza de alto prestígio entre intelectuais e especialistas, mas não conta ainda com o reconhecimento que merece junto a um público mais amplo. Uma das razões é sua aversão à chamada "vida literária", aquela aura mundana, feita de vaidades exacerbadas, golpes de oportunismo e tráfico de influências, que cerca o objeto propriamente literário que é o livro impresso. Parte por temperamento, parte por princípio, José Paulo sempre se manteve à distância das confrarias do elogio mútuo, responsáveis por tanta glória efêmera, preferindo arcar com o ônus de uma atividade rigorosamente ética. Para ele, a recepção da obra literária deve prescindir da promoção publicitária, sobretudo a autopromoção; o livro deve oferecer-se ao leitor tal como é e não como o estrelismo do autor e as injunções do momento o imponham ao imediatismo do consumo. Tem sido assim ao longo de mais de quatro décadas de dedicação discreta, silenciosa e apaixonada à literatura.
Seus ensaios exibem a curiosidade eclética do leitor privilegiado, autodidata, que, sem metodologias artificiais nem preconceitos, mas munido de severo olhar perscrutador, notável erudição e proficiência, cumpre com a função primordial da crítica: informar, avaliar, sempre no sentido de esclarecer e enriquecer a obra analisada e não de promover o analista e suas idiossincrasias. Suas traduções, impecáveis, têm posto à disposição do leitor de língua portuguesa algumas das mais importantes obras da literatura universal, em textos que não ficam nada a dever aos originais: os Sonetos luxuriosos de Aretino, os Poemas de Kaváfis, o Tristam Shandy de Sterne e tantos outros. Sua poesia, desde O aluno (1947) até Prosas (1992), revela uma voz instigante e original, que a cada livro aprimora aquelas características que lhe são mais peculiares: a concisão epigramática, o horror ao derramamento e ao sentimentalismo, a tendência conceitual mas antidiscursiva e a engenhosidade verbal, que em vez de buscar o malabarismo exibicionista busca a síntese exemplar, o laconismo prenhe de insinuações. Uma das marcas registradas dessa voz poética é o humor, aprendido em parte com Drummond, um humor que trafega ágil entre o trocadilho e o deboche, a acidez ferina e a soltura da gozação lúdica, sempre funcionando como revelação aguda do ridículo e das misérias da condição humana — ceticamente, mas com afeto, à Machado de Assis. Esse conluio de lirismo contido e denúncia amarga está invaria-velmente a serviço da consciência política, sem dogmas: a consciência do homem da Pólis, o homem solidário em sua relação com a comunidade.
José Paulo Paes, em suma, é um escritor a quem se aplica com justeza o epíteto homem de letras, em sua expressão mais digna e elevada. Não é o simples profissional nem o diletante, não é o burocrata e menos ainda o arrivista das letras. É o homem de letras no sentido do denso humanismo que lhe serve de fundamento à atividade literária, por ele exercida com admirável humildade mas com a convicção ainda mais admirável do poder humanizador da literatura. Para ele, a literatura é o último reduto onde ainda é possível ao menos formular, de frente e em regime da mais irrestrita autenticidade, a ingente interrogação pelo sentido da existência.
Desde o início da carreira, José Paulo vem formulando e reformulando essa interrogação, nos seus mais variados matizes, empenhado em encontrar uma resposta que ele talvez saiba impossível — uma resposta que será, quando muito, parcial e provisória. Mas desistir quem há de?
Poeta, ensaísta e tradutor, José Paulo Paes goza de alto prestígio entre intelectuais e especialistas, mas não conta ainda com o reconhecimento que merece junto a um público mais amplo. Uma das razões é sua aversão à chamada "vida literária", aquela aura mundana, feita de vaidades exacerbadas, golpes de oportunismo e tráfico de influências, que cerca o objeto propriamente literário que é o livro impresso. Parte por temperamento, parte por princípio, José Paulo sempre se manteve à distância das confrarias do elogio mútuo, responsáveis por tanta glória efêmera, preferindo arcar com o ônus de uma atividade rigorosamente ética. Para ele, a recepção da obra literária deve prescindir da promoção publicitária, sobretudo a autopromoção; o livro deve oferecer-se ao leitor tal como é e não como o estrelismo do autor e as injunções do momento o imponham ao imediatismo do consumo. Tem sido assim ao longo de mais de quatro décadas de dedicação discreta, silenciosa e apaixonada à literatura.
Seus ensaios exibem a curiosidade eclética do leitor privilegiado, autodidata, que, sem metodologias artificiais nem preconceitos, mas munido de severo olhar perscrutador, notável erudição e proficiência, cumpre com a função primordial da crítica: informar, avaliar, sempre no sentido de esclarecer e enriquecer a obra analisada e não de promover o analista e suas idiossincrasias. Suas traduções, impecáveis, têm posto à disposição do leitor de língua portuguesa algumas das mais importantes obras da literatura universal, em textos que não ficam nada a dever aos originais: os Sonetos luxuriosos de Aretino, os Poemas de Kaváfis, o Tristam Shandy de Sterne e tantos outros. Sua poesia, desde O aluno (1947) até Prosas (1992), revela uma voz instigante e original, que a cada livro aprimora aquelas características que lhe são mais peculiares: a concisão epigramática, o horror ao derramamento e ao sentimentalismo, a tendência conceitual mas antidiscursiva e a engenhosidade verbal, que em vez de buscar o malabarismo exibicionista busca a síntese exemplar, o laconismo prenhe de insinuações. Uma das marcas registradas dessa voz poética é o humor, aprendido em parte com Drummond, um humor que trafega ágil entre o trocadilho e o deboche, a acidez ferina e a soltura da gozação lúdica, sempre funcionando como revelação aguda do ridículo e das misérias da condição humana — ceticamente, mas com afeto, à Machado de Assis. Esse conluio de lirismo contido e denúncia amarga está invaria-velmente a serviço da consciência política, sem dogmas: a consciência do homem da Pólis, o homem solidário em sua relação com a comunidade.
José Paulo Paes, em suma, é um escritor a quem se aplica com justeza o epíteto homem de letras, em sua expressão mais digna e elevada. Não é o simples profissional nem o diletante, não é o burocrata e menos ainda o arrivista das letras. É o homem de letras no sentido do denso humanismo que lhe serve de fundamento à atividade literária, por ele exercida com admirável humildade mas com a convicção ainda mais admirável do poder humanizador da literatura. Para ele, a literatura é o último reduto onde ainda é possível ao menos formular, de frente e em regime da mais irrestrita autenticidade, a ingente interrogação pelo sentido da existência.
Desde o início da carreira, José Paulo vem formulando e reformulando essa interrogação, nos seus mais variados matizes, empenhado em encontrar uma resposta que ele talvez saiba impossível — uma resposta que será, quando muito, parcial e provisória. Mas desistir quem há de?
919
Adriana Sampaio
Auto-Suficiência
Auto-Suficiência
Procuro outra ótica
Um ângulo de 180 graus
Para observar
As flechas que lanço
Em todas as direções.
Estou atrás de novas sensações
Que me permitam
Mais vida e menos perplexidade.
Como bom entendedor
Sem meias palavras
E isso basta!
Procuro outra ótica
Um ângulo de 180 graus
Para observar
As flechas que lanço
Em todas as direções.
Estou atrás de novas sensações
Que me permitam
Mais vida e menos perplexidade.
Como bom entendedor
Sem meias palavras
E isso basta!
980
Adriana Sampaio
Rebelião
Rebelião
Se existem outras dimensões
Por que não em mim?
Absorventes, inerentes
Sem nenhuma proporção.
Não há dicotomia
Entre o fogo que sufoca
E o ar que oxigena
Quando um se espraia
Através da existência do outro.
Convivência,
Nem sempre tão passiva
Entre beatitude e depravação
Contradições complemmentares
De sentimento e razão.
Sintagmas e paradigmas
Tesão e tédio
Tudo passando por portas de comunicação,
Pelos dez por cento de mente
Que ansiando pela lógica
Permitem-nos transpassar desordenadamente
Ao menos três dimensões.
Se existem outras dimensões
Por que não em mim?
Absorventes, inerentes
Sem nenhuma proporção.
Não há dicotomia
Entre o fogo que sufoca
E o ar que oxigena
Quando um se espraia
Através da existência do outro.
Convivência,
Nem sempre tão passiva
Entre beatitude e depravação
Contradições complemmentares
De sentimento e razão.
Sintagmas e paradigmas
Tesão e tédio
Tudo passando por portas de comunicação,
Pelos dez por cento de mente
Que ansiando pela lógica
Permitem-nos transpassar desordenadamente
Ao menos três dimensões.
972
Natália Correia
Véspera do Prodígio
Além do
sol, além do Sete-Estrelo
Uma última Tule me subentende.
O caminho pra mim não sei. Sabe-lo
Será ciência que a morrer se aprende?
Passo ou sou? Deuses, quem quebra o selo?
Quando entro em mim outrem me surpreende
Que um génio zombador tem por modelo.
Onde o esquivo lar desse duende?
Seja quem for o eu que em mim recluso
Alheio fado cumpre, é vácuo o uso
Que do Dom de pensar em vão fazemos.
Melhor é ir. Atravessar o muro,
Seguir na barca que passa o golfo escuro
E ao Grande Enigma abandonar os remos.
sol, além do Sete-Estrelo
Uma última Tule me subentende.
O caminho pra mim não sei. Sabe-lo
Será ciência que a morrer se aprende?
Passo ou sou? Deuses, quem quebra o selo?
Quando entro em mim outrem me surpreende
Que um génio zombador tem por modelo.
Onde o esquivo lar desse duende?
Seja quem for o eu que em mim recluso
Alheio fado cumpre, é vácuo o uso
Que do Dom de pensar em vão fazemos.
Melhor é ir. Atravessar o muro,
Seguir na barca que passa o golfo escuro
E ao Grande Enigma abandonar os remos.
1 976
Juscelino Vieira Mendes
Como será o céu?
Lá no céu, como seremos?
Estaremos a industriar, adorar
cantaremos,
ou vamos só amar?
Pensar no amanhã sem lida
é tão intrigante e fascinante
quanto pensar nesta vida
que nos é tão delirante
A vida é prêmio e felicidade
que recebemos num instante
a caminho da eternidade
É magnifico o céu antever
como lugar dos justificados
na ‘insustentável leveza do ser’.
Estaremos a industriar, adorar
cantaremos,
ou vamos só amar?
Pensar no amanhã sem lida
é tão intrigante e fascinante
quanto pensar nesta vida
que nos é tão delirante
A vida é prêmio e felicidade
que recebemos num instante
a caminho da eternidade
É magnifico o céu antever
como lugar dos justificados
na ‘insustentável leveza do ser’.
1 160
António de Navarro
Poema IV
Ópera humana...
Onde o cantor é um operário
A construir e a destruir:
Cria ruínas e, a seu lado,
Ergue um castelo ao imaginarão,
Erguido no presente com a sombra no passado
E para a luz sombria do futuro.
E, enfim, lá canta a sua música
Feita de carne ou lama,
De pus ou chaga, de sorriso ou lágrima...
O instrumento e o palco
Somos nós
E o pensamento da obra nós julgamos
O nosso pensamento.
Mas ele,
Só ele sabe de cor o seu papel.
...Os ramos
Duma árvore partida
Parecem perguntar ao vento:
Aonde vamos?
Aonde foi a nossa vida?!
Pergunto ao pensamento: aonde vou?
Responde, idealizando um novo plano
Topográfico: fica a tua espera;
Diz o silêncio: tu és só o teu inesperado!
Parecem perguntar: aonde vamos,
Aonde foi a nossa vida?!
. . .Os ramos
Da árvore partida!
Onde o cantor é um operário
A construir e a destruir:
Cria ruínas e, a seu lado,
Ergue um castelo ao imaginarão,
Erguido no presente com a sombra no passado
E para a luz sombria do futuro.
E, enfim, lá canta a sua música
Feita de carne ou lama,
De pus ou chaga, de sorriso ou lágrima...
O instrumento e o palco
Somos nós
E o pensamento da obra nós julgamos
O nosso pensamento.
Mas ele,
Só ele sabe de cor o seu papel.
...Os ramos
Duma árvore partida
Parecem perguntar ao vento:
Aonde vamos?
Aonde foi a nossa vida?!
Pergunto ao pensamento: aonde vou?
Responde, idealizando um novo plano
Topográfico: fica a tua espera;
Diz o silêncio: tu és só o teu inesperado!
Parecem perguntar: aonde vamos,
Aonde foi a nossa vida?!
. . .Os ramos
Da árvore partida!
1 061
Fernando Pessoa
THE STORY OF SALOMON WASTE
THE STORY OF SALOMON WASTE
This is all the story of Salomon Waste.
Always hurrying yet never in haste
He fussed and worked and toiled all frothing
And at the end of all did nothing
This is all of Salomon Waste.
He lived in wishing and in striving,
And nothing came of all his living;
He worked and toiled in pain and sweat,
And nothing came out of all that.
This is all the story of Salomon Waste.
..............
Each day new projects did betray,
Yet each day was like every day.
He was born and died and between these
He worried himself himself to tease.
He bustled, worried, moved and cried
But in his life no more’s descried
Than two clear facts: he lived and died.
This is all the story of Salomon Waste.
Alexander Search, 11/08/1907
This is all the story of Salomon Waste.
Always hurrying yet never in haste
He fussed and worked and toiled all frothing
And at the end of all did nothing
This is all of Salomon Waste.
He lived in wishing and in striving,
And nothing came of all his living;
He worked and toiled in pain and sweat,
And nothing came out of all that.
This is all the story of Salomon Waste.
..............
Each day new projects did betray,
Yet each day was like every day.
He was born and died and between these
He worried himself himself to tease.
He bustled, worried, moved and cried
But in his life no more’s descried
Than two clear facts: he lived and died.
This is all the story of Salomon Waste.
Alexander Search, 11/08/1907
4 526
Fernando Pessoa
VI - Some were as loved loved, some as prizes prized.
Some were as loved loved, some as prizes prized.
A natural wife to the fed man my mate,
I was sufficient to whom I sufficed.
I moved, slept, bore and aged without a fate.
A natural wife to the fed man my mate,
I was sufficient to whom I sufficed.
I moved, slept, bore and aged without a fate.
3 947
Fernando Pessoa
XIII - The work is done. The hammer is laid down.
The work is done. The hammer is laid down.
The artisans, that built the slow-grown town,
Have been succeeded by those who still built.
All this is something lack-of-something screening.
The thought whole has no meaning
But lies by Time's wall like a pitcher spilt.
The artisans, that built the slow-grown town,
Have been succeeded by those who still built.
All this is something lack-of-something screening.
The thought whole has no meaning
But lies by Time's wall like a pitcher spilt.
4 338
Fernando Pessoa
Quero fugir ao mistério
FAUSTO
(EXTRACTOS)
ACTO I
Quero fugir ao mistério
Para onde fugirei?
Ele é a vida e a morte
Ó Dor, aonde me irei?
O mistério de tudo
Aproxima-se tanto do meu ser,
Chega aos olhos meus d'alma tão perto,
Que me dissolvo em trevas e universo...
Em trevas me apavoro escuramente.
O perene mistério, que atravessa
Como um suspiro céus e corações...
O mistério ruiu sobre a minha alma
E soterrou-a... Morro consciente!
Acorda, eis o mistério ao pé de ti!
E assim pensando riu amargamente,
Dentro em mim riu como se chorasse!
Ah, tudo é símbolo e analogia!
O vento que passa, a noite que esfria
São outra coisa que a noite e o vento –
Sombras de vida e de pensamento.
Tudo que vemos é outra coisa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
É o eco de outra maré que está
Onde é real o mundo que há.
Tudo que temos é esquecimento.
A noite fria, o passar do vento
São sombras de mãos cujos gestos são
A ilusão mãe desta ilusão.
09/11/1932
Tudo transcende tudo
E é mais real e menos do que é.
(Fausto no seu laboratório)
FAUSTO (só):
Ondas de aspiração que vãs morreis
Sem mesmo o coração e alma atingir
Do vosso sentimento; ondas de pranto,
Não vos posso chorar e em mim subis,
Maré imensa rumorosa e surda,
Para morrer na praia do limite
Que a vida impõe ao Ser; ondas saudosas
D'algum mar alto aonde a praia seja
Um sonho inútil, ou d'alguma terra
Desconhecida mais que a eterna aura
Do eterno sofrimento, e onde formas
Dos olhos d'alma não imaginadas
Vagam, essências lúcidas e (...)
Esquecidas daquilo que chamamos
Suspiro, lágrima, desolação;
Ondas nas quais não posso visionar,
Nem dentro em mim, em sonho, barco ou ilha,
Nem esperança transitória, nem
Ilusão nada da desilusão;
Oh, ondas sem brancuras, asperezas,
Mas redondas, como óleos e silentes
No vosso intérmino e total rumor...
Oh, ondas d'alma, decaí em lago
Ou levantai-vos ásperas e brancas
Com o sussurro ácido da espuma
Erguei em tempestades no meu ser.
Vós sois um mar sem céu, sem luz, sem ar
Sentido, visto não, rumorejante
Sobre o fundo profundo da minha alma!
Lágrimas, sinto em mim vosso amargor!
Não vos quero chorar. Se vos chorasse
Como chegar – tantas! – ao vosso fim?
Chegado ao vosso fim que encontraria?
Talvez uma aridez desesperada
Uma ânsia vã de não poder trazer-vos
Outra vez para mim para chorar-vos
Em vã consolação inda outra vez!
Não haver alma, inda ideia vã!
Havê-la e imortal, sonho pequeno
De término, embora coerente
À sua pequenez. Que mais? Havê-la,
Havê-la e ser mortal, morrer num Todo
Celeste? Vago, vão. Não haverá
Além da morte e da imortalidade
Qualquer coisa maior? Ah, deve haver
Além de vida e morte, ser, não ser,
Um Inominável supertranscendente
Eterno Incógnito e incognoscível!
Deus? Nojo. Céu, inferno? Nojo, nojo.
Pra quê pensar, se há-de parar aqui
O curto voo do entendimento?
Mais além! Pensamento, mais além!
O mistério dos olhos e do olhar
Do sujeito e do objecto, transparente
Ao horror que além dele está; o mudo
Sentimento de se desconhecer,
E a confrangida comoção que nasce
De sentir a loucura do vazio;
O horror duma existência incompreendida
Quando à alma se chega desse horror
Faz toda a dor humana uma ilusão.
Essa é a suprema dor, a vera cruz.
Querem desdenhar o teu sentir orgulho
Oh, Cristo!
Então eu vejo – horror – a íntima alma,
O perene mistério que atravessa
Como um suspiro céus e corações.
Saído apenas duma infância
Incertamente triste e diferente
Uma vez contemplando dum outeiro
A linha de colinas majestosa
Que azulada e em perfis desaparecia
No horizonte, contemplando os campos,
Vi de repente como que tudo
Desaparecer (...)
E um abismo invisível, uma coisa
Nem parecida com a existência
Ocupar não o espaço, mas o modo
Com que eu pensava o visível.
E então o horror supremo que jamais
Deixei depois, mas que aumentando e sendo
O mesmo sempre,
Ocupou-me...
Oh, primeira visão interior
Do mistério infinito, em que ruiu
A minha vida juvenil numa hora!
Não leio já; queria abrir um livro
E ver, de chofre, ali, a ciência toda...
Queria ao menos poder crer que, lendo,
E em prolongadas horas lendo e lendo,
No fim alguma coisa me ficava
Do essencial do mundo, que eu subia
Até ao menos cada vez mais perto
Do mistério... Que ele, inda que inatingido,
Ao menos dele que eu me aproximava...
Não fosse tudo um (...)
Como uma criança que a fingir sobe
Uns degraus que pintou no chão...
Não leio. Horas intérminas, perdido
De tudo, salvo de uma dolorosa
Consciência vazia de mim próprio,
Como um frio numa noite intensa,
Em frente ao livro aberto vivo e morro ...
Nada... E a impaciência fria e dolorosa
De ler pra não sonhar, e ter perdido
O sonho! Assim como um (...) engenho
Que, abandonado, em vão trabalha ainda,
Sem nexo, sem propósito, eu moo
E remoo a ilusão do pensamento...
E hora a hora na minha estéril alma
Mais fundo o abismo entre meu ser e mim
Se abre, e nesse abismo não há nada...
Ditoso o tempo em que eu sonhava, e às vezes
Eu parava de ler para seguir
Os cortejos em mim... Amor, orgulho,
– Crenças inda! – pintavam os meus sonhos...
E com muita insistência, eu era
O amante de belezas (...)
E o rei de povos vagos e submissos;
E quer em braços que eu sonhava, ou entre
As filas (...) prostradas, eu vivia
Sublimes nadas, alegrias sem cor.
Mas
Hoje nenhuma imagem, nenhum vulto
Evoco em mim... Só um deserto aonde
Não a cor dum areal, nem um ar morto
Posso sonhar... Mas tendo só a ideia,
Tendo da cor o pensamento apenas,
Vazio, oco, sem calor nem frio,
Sem posição, nem direcção, nem (...)
Só o vazio lugar do pensamento...
O Suspiro do Mundo:
Vida, morte,
Riso, pranto
É o manto
Que me cobre.
Natureza,
Amor, beleza,
Tudo quanto
A alma descobre.
O Mistério
Deste mundo
Teu profundo
Olhar leu;
D'além dele –
Cerra a alma
De pavor! –
Venho eu.
Nada, nada
Já acalma
Tua dor.
Tu bem sabes
Ser minha voz
Mais atroz
De mudo horror
No que não diz,
E só tu sentes
E compreendes.
Cerra, infeliz
Cerra a (tua) alma
Ao meu pavor!
(Fausto com os olhos fechados, encolhido na cadeira, treme como que dum grande frio.)
(EXTRACTOS)
ACTO I
Quero fugir ao mistério
Para onde fugirei?
Ele é a vida e a morte
Ó Dor, aonde me irei?
O mistério de tudo
Aproxima-se tanto do meu ser,
Chega aos olhos meus d'alma tão perto,
Que me dissolvo em trevas e universo...
Em trevas me apavoro escuramente.
O perene mistério, que atravessa
Como um suspiro céus e corações...
O mistério ruiu sobre a minha alma
E soterrou-a... Morro consciente!
Acorda, eis o mistério ao pé de ti!
E assim pensando riu amargamente,
Dentro em mim riu como se chorasse!
Ah, tudo é símbolo e analogia!
O vento que passa, a noite que esfria
São outra coisa que a noite e o vento –
Sombras de vida e de pensamento.
Tudo que vemos é outra coisa.
A maré vasta, a maré ansiosa,
É o eco de outra maré que está
Onde é real o mundo que há.
Tudo que temos é esquecimento.
A noite fria, o passar do vento
São sombras de mãos cujos gestos são
A ilusão mãe desta ilusão.
09/11/1932
Tudo transcende tudo
E é mais real e menos do que é.
(Fausto no seu laboratório)
FAUSTO (só):
Ondas de aspiração que vãs morreis
Sem mesmo o coração e alma atingir
Do vosso sentimento; ondas de pranto,
Não vos posso chorar e em mim subis,
Maré imensa rumorosa e surda,
Para morrer na praia do limite
Que a vida impõe ao Ser; ondas saudosas
D'algum mar alto aonde a praia seja
Um sonho inútil, ou d'alguma terra
Desconhecida mais que a eterna aura
Do eterno sofrimento, e onde formas
Dos olhos d'alma não imaginadas
Vagam, essências lúcidas e (...)
Esquecidas daquilo que chamamos
Suspiro, lágrima, desolação;
Ondas nas quais não posso visionar,
Nem dentro em mim, em sonho, barco ou ilha,
Nem esperança transitória, nem
Ilusão nada da desilusão;
Oh, ondas sem brancuras, asperezas,
Mas redondas, como óleos e silentes
No vosso intérmino e total rumor...
Oh, ondas d'alma, decaí em lago
Ou levantai-vos ásperas e brancas
Com o sussurro ácido da espuma
Erguei em tempestades no meu ser.
Vós sois um mar sem céu, sem luz, sem ar
Sentido, visto não, rumorejante
Sobre o fundo profundo da minha alma!
Lágrimas, sinto em mim vosso amargor!
Não vos quero chorar. Se vos chorasse
Como chegar – tantas! – ao vosso fim?
Chegado ao vosso fim que encontraria?
Talvez uma aridez desesperada
Uma ânsia vã de não poder trazer-vos
Outra vez para mim para chorar-vos
Em vã consolação inda outra vez!
Não haver alma, inda ideia vã!
Havê-la e imortal, sonho pequeno
De término, embora coerente
À sua pequenez. Que mais? Havê-la,
Havê-la e ser mortal, morrer num Todo
Celeste? Vago, vão. Não haverá
Além da morte e da imortalidade
Qualquer coisa maior? Ah, deve haver
Além de vida e morte, ser, não ser,
Um Inominável supertranscendente
Eterno Incógnito e incognoscível!
Deus? Nojo. Céu, inferno? Nojo, nojo.
Pra quê pensar, se há-de parar aqui
O curto voo do entendimento?
Mais além! Pensamento, mais além!
O mistério dos olhos e do olhar
Do sujeito e do objecto, transparente
Ao horror que além dele está; o mudo
Sentimento de se desconhecer,
E a confrangida comoção que nasce
De sentir a loucura do vazio;
O horror duma existência incompreendida
Quando à alma se chega desse horror
Faz toda a dor humana uma ilusão.
Essa é a suprema dor, a vera cruz.
Querem desdenhar o teu sentir orgulho
Oh, Cristo!
Então eu vejo – horror – a íntima alma,
O perene mistério que atravessa
Como um suspiro céus e corações.
Saído apenas duma infância
Incertamente triste e diferente
Uma vez contemplando dum outeiro
A linha de colinas majestosa
Que azulada e em perfis desaparecia
No horizonte, contemplando os campos,
Vi de repente como que tudo
Desaparecer (...)
E um abismo invisível, uma coisa
Nem parecida com a existência
Ocupar não o espaço, mas o modo
Com que eu pensava o visível.
E então o horror supremo que jamais
Deixei depois, mas que aumentando e sendo
O mesmo sempre,
Ocupou-me...
Oh, primeira visão interior
Do mistério infinito, em que ruiu
A minha vida juvenil numa hora!
Não leio já; queria abrir um livro
E ver, de chofre, ali, a ciência toda...
Queria ao menos poder crer que, lendo,
E em prolongadas horas lendo e lendo,
No fim alguma coisa me ficava
Do essencial do mundo, que eu subia
Até ao menos cada vez mais perto
Do mistério... Que ele, inda que inatingido,
Ao menos dele que eu me aproximava...
Não fosse tudo um (...)
Como uma criança que a fingir sobe
Uns degraus que pintou no chão...
Não leio. Horas intérminas, perdido
De tudo, salvo de uma dolorosa
Consciência vazia de mim próprio,
Como um frio numa noite intensa,
Em frente ao livro aberto vivo e morro ...
Nada... E a impaciência fria e dolorosa
De ler pra não sonhar, e ter perdido
O sonho! Assim como um (...) engenho
Que, abandonado, em vão trabalha ainda,
Sem nexo, sem propósito, eu moo
E remoo a ilusão do pensamento...
E hora a hora na minha estéril alma
Mais fundo o abismo entre meu ser e mim
Se abre, e nesse abismo não há nada...
Ditoso o tempo em que eu sonhava, e às vezes
Eu parava de ler para seguir
Os cortejos em mim... Amor, orgulho,
– Crenças inda! – pintavam os meus sonhos...
E com muita insistência, eu era
O amante de belezas (...)
E o rei de povos vagos e submissos;
E quer em braços que eu sonhava, ou entre
As filas (...) prostradas, eu vivia
Sublimes nadas, alegrias sem cor.
Mas
Hoje nenhuma imagem, nenhum vulto
Evoco em mim... Só um deserto aonde
Não a cor dum areal, nem um ar morto
Posso sonhar... Mas tendo só a ideia,
Tendo da cor o pensamento apenas,
Vazio, oco, sem calor nem frio,
Sem posição, nem direcção, nem (...)
Só o vazio lugar do pensamento...
O Suspiro do Mundo:
Vida, morte,
Riso, pranto
É o manto
Que me cobre.
Natureza,
Amor, beleza,
Tudo quanto
A alma descobre.
O Mistério
Deste mundo
Teu profundo
Olhar leu;
D'além dele –
Cerra a alma
De pavor! –
Venho eu.
Nada, nada
Já acalma
Tua dor.
Tu bem sabes
Ser minha voz
Mais atroz
De mudo horror
No que não diz,
E só tu sentes
E compreendes.
Cerra, infeliz
Cerra a (tua) alma
Ao meu pavor!
(Fausto com os olhos fechados, encolhido na cadeira, treme como que dum grande frio.)
7 323
Fernando Pessoa
Sangra-me o coração. Tudo que penso
Sangra-me o coração. Tudo que penso
A emoção mo tomou. Sofro esta mágoa
Que é o mundo imoral, regrado e imenso,
No qual o bem é só como um incenso
Que cerca a vida, como a terra a água.
Todos os dias, ouça ou veja, dão
Misérias, males, injustiças – quanto
Pode afligir o estéril coração.
E todo anseio pelo bem é vão,
E a vontade tão vã como é o pranto.
Que Deus duplo nos pôs na alma sensível
Ao mesmo tempo os dons de conhecer
Que o mal é a norma, o natural possível,
E de querer o bem, inútil nível,
Que nunca assenta regular no ser?
Com que fria esquadria e vão compasso
Que invisível Geómetra regrou
As marés deste mar de mau sargaço –
O mundo fluido, com seu tempo e spaço,
Que ele mesmo não sabe quem criou?
Mas, seja como for, nesta descida
De Deus ao ser, o mal teve alma e azo;
E o Bem, justiça espiritual da vida,
É perdida palavra, substituída
Por bens obscuros, fórmulas do acaso.
Que plano extinto, antes de conseguido,
Ficou só mundo, norma e desmazelo?
Mundo imperfeito, porque foi erguido?
Como acabá-lo, templo inconcluído,
Se nos falta o segredo com que erguê-lo?
O mundo é Deus que é morto, e a alma aquele
Que, esse Deus exumado, reflectiu
A morte e a exumação que houveram dele.
Mas stá perdido o selo com que sele
Seu pacto com o vivo que caiu.
Por isso, em sombra e natural desgraça,
Tem que buscar aquilo que perdeu –
Não ela, mas a morte que a repassa,
E vem achar no Verbo a fé e a graça –
A nova vida do que já morreu.
Porque o Verbo é quem Deus era primeiro,
Antes que a morte, que o tornou o mundo,
Corrompesse de mal o mundo inteiro:
E assim no Verbo, que é o Deus terceiro,
A alma volve ao Bem que é o seu fundo.
26/04/1934
A emoção mo tomou. Sofro esta mágoa
Que é o mundo imoral, regrado e imenso,
No qual o bem é só como um incenso
Que cerca a vida, como a terra a água.
Todos os dias, ouça ou veja, dão
Misérias, males, injustiças – quanto
Pode afligir o estéril coração.
E todo anseio pelo bem é vão,
E a vontade tão vã como é o pranto.
Que Deus duplo nos pôs na alma sensível
Ao mesmo tempo os dons de conhecer
Que o mal é a norma, o natural possível,
E de querer o bem, inútil nível,
Que nunca assenta regular no ser?
Com que fria esquadria e vão compasso
Que invisível Geómetra regrou
As marés deste mar de mau sargaço –
O mundo fluido, com seu tempo e spaço,
Que ele mesmo não sabe quem criou?
Mas, seja como for, nesta descida
De Deus ao ser, o mal teve alma e azo;
E o Bem, justiça espiritual da vida,
É perdida palavra, substituída
Por bens obscuros, fórmulas do acaso.
Que plano extinto, antes de conseguido,
Ficou só mundo, norma e desmazelo?
Mundo imperfeito, porque foi erguido?
Como acabá-lo, templo inconcluído,
Se nos falta o segredo com que erguê-lo?
O mundo é Deus que é morto, e a alma aquele
Que, esse Deus exumado, reflectiu
A morte e a exumação que houveram dele.
Mas stá perdido o selo com que sele
Seu pacto com o vivo que caiu.
Por isso, em sombra e natural desgraça,
Tem que buscar aquilo que perdeu –
Não ela, mas a morte que a repassa,
E vem achar no Verbo a fé e a graça –
A nova vida do que já morreu.
Porque o Verbo é quem Deus era primeiro,
Antes que a morte, que o tornou o mundo,
Corrompesse de mal o mundo inteiro:
E assim no Verbo, que é o Deus terceiro,
A alma volve ao Bem que é o seu fundo.
26/04/1934
3 926
Fernando Pessoa
Sonho sem fim nem fundo.
Sonho sem fim nem fundo.
Durmo, fruste e infecundo.
Deus dorme, e é isso o mundo.
Mas se eu dormir também
Um sono qual Deus tem
Talvez eu sonhe o Bem –
O Bem do Mal que existo.
Esse sonho, que avisto,
Em mim chamo-lhe o Cristo.
II
Agora o seu ser ausente,
Surge o que há de presente
Na ausência, eternamente.
Não foi em cruz erguida
Num calvário da vida,
Mas numa cruz vivida
Que foi crucificado
O que foi, em seu lado,
Por lança golpeado.
III
E desse coração
Água e sangue virão,
Mas a verdade não...
Só quando já, descido
De aonde foi subido
Para ser escarnecido,
Seu corpo for baixar
Onde se há-de enterrar,
O haverei de encontrar.
IV
Desde que o mundo foi
No mundo à alma dói
O que ao mundo destrói.
Desde que a vida dura
Tem a vida a amargura
De ser mortal e impura.
E assim na Cruz se fez
A vida, para que a nós
Veja o melhor de nós.
V
O túmulo fechado
Aberto foi achado
E vazio encontrado.
Meu coração também
É o túmulo do Bem,
Que a vida bem não tem.
Mas há um anjo a me ver
E a meu lado a dizer
Que tudo é outro ser.
02/07/1934
Durmo, fruste e infecundo.
Deus dorme, e é isso o mundo.
Mas se eu dormir também
Um sono qual Deus tem
Talvez eu sonhe o Bem –
O Bem do Mal que existo.
Esse sonho, que avisto,
Em mim chamo-lhe o Cristo.
II
Agora o seu ser ausente,
Surge o que há de presente
Na ausência, eternamente.
Não foi em cruz erguida
Num calvário da vida,
Mas numa cruz vivida
Que foi crucificado
O que foi, em seu lado,
Por lança golpeado.
III
E desse coração
Água e sangue virão,
Mas a verdade não...
Só quando já, descido
De aonde foi subido
Para ser escarnecido,
Seu corpo for baixar
Onde se há-de enterrar,
O haverei de encontrar.
IV
Desde que o mundo foi
No mundo à alma dói
O que ao mundo destrói.
Desde que a vida dura
Tem a vida a amargura
De ser mortal e impura.
E assim na Cruz se fez
A vida, para que a nós
Veja o melhor de nós.
V
O túmulo fechado
Aberto foi achado
E vazio encontrado.
Meu coração também
É o túmulo do Bem,
Que a vida bem não tem.
Mas há um anjo a me ver
E a meu lado a dizer
Que tudo é outro ser.
02/07/1934
4 472
Fernando Pessoa
CANTO A LEOPARDI
CANTO A LEOPARDI
Ah, mas da voz exânime pranteia
O coração aflito respondendo:
«Se é falsa a ideia, quem me deu a ideia?
Se não há nem bondade nem justiça
Porque é que anseia o coração na liça
Os seus inúteis mitos defendendo?
Se é falso crer num deus ou num destino
Que saiba o que é o coração humano,
Porque há o humano coração e o tino
Que tem do bem e o mal? Ah, se é insano
Querer justiça, porque na justiça
Querer o bem, para que o bem querer?
Que maldade, (...) que injustiça
Nos fez pra crer, se não devemos crer?
Se o dúbio e incerto mundo,
Se a vida transitória
Têm noutra parte o íntimo e profundo
Sentido, e o quadro último da história,
Porque há um mundo transitório e incerto
Onde ando por incerteza e transição,
Hoje um mal, uma dor, (...), aberto
Um só dorido coração?»
(...)
Assim, na noite abstracta da Razão,
Inutilmente, majestosamente,
Dialoga consigo o coração,
Fala alto a si mesma a mente;
E não há paz nem conclusão,
Tudo é como se fora inexistente.
1934
Ah, mas da voz exânime pranteia
O coração aflito respondendo:
«Se é falsa a ideia, quem me deu a ideia?
Se não há nem bondade nem justiça
Porque é que anseia o coração na liça
Os seus inúteis mitos defendendo?
Se é falso crer num deus ou num destino
Que saiba o que é o coração humano,
Porque há o humano coração e o tino
Que tem do bem e o mal? Ah, se é insano
Querer justiça, porque na justiça
Querer o bem, para que o bem querer?
Que maldade, (...) que injustiça
Nos fez pra crer, se não devemos crer?
Se o dúbio e incerto mundo,
Se a vida transitória
Têm noutra parte o íntimo e profundo
Sentido, e o quadro último da história,
Porque há um mundo transitório e incerto
Onde ando por incerteza e transição,
Hoje um mal, uma dor, (...), aberto
Um só dorido coração?»
(...)
Assim, na noite abstracta da Razão,
Inutilmente, majestosamente,
Dialoga consigo o coração,
Fala alto a si mesma a mente;
E não há paz nem conclusão,
Tudo é como se fora inexistente.
1934
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Fernando Pessoa
Não digas nada! Que hás-me de dizer?
Não digas nada! Que hás-me de dizer?
Que a vida é inútil, que o prazer é falso?
Di-lo de cada dia o cadafalso
Ao que ali cada dia vai morrer.
Mais vale não querer.
Sim, não querer, porque querer é um ponto,
Ponto no horizonte de onde estamos,
E que nunca atinges nem achas,
Presos locais da vida e do horizonte
Sem asas e sem ponte.
Não digas nada, que dizer é nada!
Que importa a vida, e o que se faz na vida?
É tudo uma ignorância diluída.
Tudo é esperar à beira de uma estrada
A vinda sempre adiada.
Outros são os caminhos e as razões.
Outra a vontade que os fará seus.
Outros os montes e os solenes céus.
08/07/1934
Que a vida é inútil, que o prazer é falso?
Di-lo de cada dia o cadafalso
Ao que ali cada dia vai morrer.
Mais vale não querer.
Sim, não querer, porque querer é um ponto,
Ponto no horizonte de onde estamos,
E que nunca atinges nem achas,
Presos locais da vida e do horizonte
Sem asas e sem ponte.
Não digas nada, que dizer é nada!
Que importa a vida, e o que se faz na vida?
É tudo uma ignorância diluída.
Tudo é esperar à beira de uma estrada
A vinda sempre adiada.
Outros são os caminhos e as razões.
Outra a vontade que os fará seus.
Outros os montes e os solenes céus.
08/07/1934
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