Poemas neste tema
Propósito e Sentido da Vida
Flávio Villa-Lobos
Norte
Minha fome é outra.
Não aquela que abre um buraco negro
no estômago
- vazio invisível,
que da boca algum alimento
lácteo - via esôfago -
cessa prontamente
até a próxima angústia.
Minha fome é outra.
Não um simples estar-no-mundo,
como disse Drummond
- o universo para mim
é pouco.
Minha fome salta como louca,
labareda intrépida
num incêndio grandioso.
Ela me devorará
ainda que eu entregue os pontos;
a eternidade é uma tosca
linha de partida
no horizonte, a cegar-me o olho.
Sim, minha fome é outra
- indigesta, não toca
as iguarias da estalagem.
Não tem nome,
nem forma, nem nada.
Apenas remove
montanhas, ajudando-me a vencer
o caminho penoso
sem jamais perder de vista
a paisagem.
Não aquela que abre um buraco negro
no estômago
- vazio invisível,
que da boca algum alimento
lácteo - via esôfago -
cessa prontamente
até a próxima angústia.
Minha fome é outra.
Não um simples estar-no-mundo,
como disse Drummond
- o universo para mim
é pouco.
Minha fome salta como louca,
labareda intrépida
num incêndio grandioso.
Ela me devorará
ainda que eu entregue os pontos;
a eternidade é uma tosca
linha de partida
no horizonte, a cegar-me o olho.
Sim, minha fome é outra
- indigesta, não toca
as iguarias da estalagem.
Não tem nome,
nem forma, nem nada.
Apenas remove
montanhas, ajudando-me a vencer
o caminho penoso
sem jamais perder de vista
a paisagem.
887
Fábio Peres
Talvez, se mudassemos de pronome
Porquê então nosso mundo é nosso,
se deles todos fogem,
nossos filhotes sem abrigo,
nossa compreensão sem miséria,
Talvez fosse isto:
E a nossa falta de vergonha,
ou nossa vergonha constante?
seria nosso bem estar?
Aliás, de bem nada tem nosso estar,
continuamos mal,
maus de peito, mal de bola,
talvez nós fossemos nossos próprios líderes
Pensamos até em consagração,
quando em chamas toma-se nosso lar,
e fugimos, despistar nossa apatia,
sem razão
Talvez se acreditássemos mais nas pequenas coisas,
nos pequenos seres,
nos pequenos valores,
nos pequenos fatos,
isso alimentasse nossa razão,
que mesmo sem livros continua culta,
que mesmo sem chorar ainda areja seus solos,
que mesmo sem ver se torna parte de um futuro,
que nem mesmo temos,
temos à nós mesmos,
o quanto pudermos,
queremos, queremos, queremos
Plantas trariam meu tesouro à mim,
de novo, e seríamos um pouco mais,
por sabermos de nosso poder,
e por sabermos dividir
Essa parte não fala somente de nós,
fala de você, e de mim,
porque costumamos achar que o que é de todos,
não tem dono,
e fazemos pouco do que nosso não é,
e isso faz faz com que sejamos um pouco piores,
e isso chega a ser tudo
se deles todos fogem,
nossos filhotes sem abrigo,
nossa compreensão sem miséria,
Talvez fosse isto:
E a nossa falta de vergonha,
ou nossa vergonha constante?
seria nosso bem estar?
Aliás, de bem nada tem nosso estar,
continuamos mal,
maus de peito, mal de bola,
talvez nós fossemos nossos próprios líderes
Pensamos até em consagração,
quando em chamas toma-se nosso lar,
e fugimos, despistar nossa apatia,
sem razão
Talvez se acreditássemos mais nas pequenas coisas,
nos pequenos seres,
nos pequenos valores,
nos pequenos fatos,
isso alimentasse nossa razão,
que mesmo sem livros continua culta,
que mesmo sem chorar ainda areja seus solos,
que mesmo sem ver se torna parte de um futuro,
que nem mesmo temos,
temos à nós mesmos,
o quanto pudermos,
queremos, queremos, queremos
Plantas trariam meu tesouro à mim,
de novo, e seríamos um pouco mais,
por sabermos de nosso poder,
e por sabermos dividir
Essa parte não fala somente de nós,
fala de você, e de mim,
porque costumamos achar que o que é de todos,
não tem dono,
e fazemos pouco do que nosso não é,
e isso faz faz com que sejamos um pouco piores,
e isso chega a ser tudo
947
Francisco Orban
Um homem
Um homem
não trai seu sonho
nem o deixa
sem o abrigo
da tarde
Assim o tem
como vestimenta
que não o deixa
mentir
que o desnuda
e o abate
Um homem traduz
seu sonho
na sua forma
de cumprir a tarde
como se sonhar
fosse só um ato
e não
um difícil encargo
não trai seu sonho
nem o deixa
sem o abrigo
da tarde
Assim o tem
como vestimenta
que não o deixa
mentir
que o desnuda
e o abate
Um homem traduz
seu sonho
na sua forma
de cumprir a tarde
como se sonhar
fosse só um ato
e não
um difícil encargo
907
Fernanda Benevides
Das Escadarias do Templo
Um dia fincarei,
qual astronauta, em altos píncaros
o marco do mais puro,
do mais sublime do mais...,
o ideal acalentado.
Assim,
lanço-me nos degraus do templo...!
(Inédito)
qual astronauta, em altos píncaros
o marco do mais puro,
do mais sublime do mais...,
o ideal acalentado.
Assim,
lanço-me nos degraus do templo...!
(Inédito)
945
Fernando Cereja
Parando
nem todo vazio é nada
nem todo nada é zero
nem todo zero é número
nem todo número é dois
nem todo dois é par
nem todo par é chinelo
nem todo chinelo é chão
nem todo chão é terra
nem toda terra é mundo
nem todo mundo é branco
nem todo branco é papel
nem todo papel é livro
nem todo livro é história
nem toda história é passado
nem todo passado é pisado
nem todo pisado é caminho
nem todo caminho é pedra
nem toda pedra é parede
nem toda parede é fim
nem todo fim é vazio
nem todo vazio é nada
nem todo nada é zero
nem todo zero é número
nem todo número é dois
nem todo dois é par
nem todo par é chinelo
nem todo chinelo é chão
nem todo chão é terra
nem toda terra é mundo
nem todo mundo é branco
nem todo branco é papel
nem todo papel é livro
nem todo livro é história
nem toda história é passado
nem todo passado é pisado
nem todo pisado é caminho
nem todo caminho é pedra
nem toda pedra é parede
nem toda parede é fim
nem todo fim é vazio
nem todo vazio é nada
875
Francisco Inácio Peixoto
Pedreira
Dependurados no espaço
Eles ficam ali o dia inteiro
Arrancando faíscas
Furando buracos na pedreira enorme
que reflete como um espelho
As suas sombras primitivas.
À tarde ouve-se um estrondo
E o eco repete a gargalhada das pedras
Que vieram rolando da montanha.
Os homens de pele tostada
Descem então dos seus esconderijos
E caminham pras suas casas
Vagarosamente decepcionados
Segurando nas mãos cheias de calos
As ferramentas com que procuram
Há uma porção de anos
O segredo que lhes dê
Uma nova revelação da vida...
Eles ficam ali o dia inteiro
Arrancando faíscas
Furando buracos na pedreira enorme
que reflete como um espelho
As suas sombras primitivas.
À tarde ouve-se um estrondo
E o eco repete a gargalhada das pedras
Que vieram rolando da montanha.
Os homens de pele tostada
Descem então dos seus esconderijos
E caminham pras suas casas
Vagarosamente decepcionados
Segurando nas mãos cheias de calos
As ferramentas com que procuram
Há uma porção de anos
O segredo que lhes dê
Uma nova revelação da vida...
836
Fábio Afonso de Almeida
Fraude
Participe da grande cartada,
Início e fim de todos os sonhos,
Estampa virtual da matéria,
Idéias semi-sólidas do cérebro.
Pegue, sinta, não acredite,
Chore a perda inexistente,
Exulte-se com o prêmio que finda
Na escala irreal da existência.
Fixe a imagem que desmancha
Detenha o tempo que foge.
Sinta a inverdade do vazio,
Segure a geléia das formas.
Assim que se sentir esgotado,
Não creia no corpo cansado.
Mude sua própria natureza,
Que a morte também é uma fraude.
Início e fim de todos os sonhos,
Estampa virtual da matéria,
Idéias semi-sólidas do cérebro.
Pegue, sinta, não acredite,
Chore a perda inexistente,
Exulte-se com o prêmio que finda
Na escala irreal da existência.
Fixe a imagem que desmancha
Detenha o tempo que foge.
Sinta a inverdade do vazio,
Segure a geléia das formas.
Assim que se sentir esgotado,
Não creia no corpo cansado.
Mude sua própria natureza,
Que a morte também é uma fraude.
992
Emílio Burlamaqui
Um Tema
[Lá vai o grande rio
[Solene como uma procissão.
[Roçando florestas e rochas,
[Seu manto se alastra, se alonga
[E, qual pálio de rei antigo,
[Passa em lento e grave desfile.
[Sua essência: a água.
[Seu estado: o movimento.
[Mas, chegará um ponto de sua caminhada
[Em que o movimento lhe será retirado.
[Esse termo estará no seu encontro com o mar.
[O caráter essencial de água persistirá.
[No entanto — imóvel — como rio se findará.
[Deixou de existir o rio? Sim.
[Passou a inexistir a água? Não.
[A água se integrou no seu mar.
[Vamos ao homem, ser de índole tão andante,
[Esse rio humano que afronta a natureza,
[E rege, com maestria idêntica,
[Violinos e canhões, salmos e prantos.
[Pêndulo oscilante entre o nefando e o sublime.
[E lá vai o homem, inquieto, aflito,
[Em marcha desordenada
[Buscando o que não alcançará.
[Sua essência: a alma.
[Seu estado: o movimento.
[Sobreviverá o ansejo inelutável
[Em que o movimento que lhe era inerente
[Se converterá em estagnação.
[Sua essência, a alma, esta remanescerá.
[Não obstante — inerte — o homem já não será.
[Deixou de existir o homem? Sim.
[Passou a inexistir a alma? Não.
[A alma terá encontrado seu mar.
[Solene como uma procissão.
[Roçando florestas e rochas,
[Seu manto se alastra, se alonga
[E, qual pálio de rei antigo,
[Passa em lento e grave desfile.
[Sua essência: a água.
[Seu estado: o movimento.
[Mas, chegará um ponto de sua caminhada
[Em que o movimento lhe será retirado.
[Esse termo estará no seu encontro com o mar.
[O caráter essencial de água persistirá.
[No entanto — imóvel — como rio se findará.
[Deixou de existir o rio? Sim.
[Passou a inexistir a água? Não.
[A água se integrou no seu mar.
[Vamos ao homem, ser de índole tão andante,
[Esse rio humano que afronta a natureza,
[E rege, com maestria idêntica,
[Violinos e canhões, salmos e prantos.
[Pêndulo oscilante entre o nefando e o sublime.
[E lá vai o homem, inquieto, aflito,
[Em marcha desordenada
[Buscando o que não alcançará.
[Sua essência: a alma.
[Seu estado: o movimento.
[Sobreviverá o ansejo inelutável
[Em que o movimento que lhe era inerente
[Se converterá em estagnação.
[Sua essência, a alma, esta remanescerá.
[Não obstante — inerte — o homem já não será.
[Deixou de existir o homem? Sim.
[Passou a inexistir a alma? Não.
[A alma terá encontrado seu mar.
889
Emílio Moura
Gênese
Há sempre uma hora,
uma hora densa,
uma hora inesperada,
em que a paisagem mais inocente
tem o fulgor de um fiat.
O tempo sonha que é espaço,
o espaço sonha que é tempo,
a realidade se compenetra de sua irrealidade.
O homem repensa o mundo.
O mundo se recompõe em sua nostalgia de Deus.
uma hora densa,
uma hora inesperada,
em que a paisagem mais inocente
tem o fulgor de um fiat.
O tempo sonha que é espaço,
o espaço sonha que é tempo,
a realidade se compenetra de sua irrealidade.
O homem repensa o mundo.
O mundo se recompõe em sua nostalgia de Deus.
1 026
Carla Dias
O Estar Humano
Falta, e às vezes tanto,
que deito, choro e adormeço ...
e chego onde nunca estaria
se pudesse escolher.
Quando escolho, é como se estivesse
rompendo-se a magia.
Deixo que me escolham,
os dias bons e os difíceis,
as alegrias e o deboche,
a vergonha e a ... sede.
Sou um ser que sofre de ser,
que ama de amor,
e deita na grama
olhando o céu de fim de tarde.
E datilografo papéis, somo, subtraio.
Espero o instante em que nada
me faça sentir deslocada,
sem espaço ...
esperando que a crueza da vida
me cante em acontecimentos.
que deito, choro e adormeço ...
e chego onde nunca estaria
se pudesse escolher.
Quando escolho, é como se estivesse
rompendo-se a magia.
Deixo que me escolham,
os dias bons e os difíceis,
as alegrias e o deboche,
a vergonha e a ... sede.
Sou um ser que sofre de ser,
que ama de amor,
e deita na grama
olhando o céu de fim de tarde.
E datilografo papéis, somo, subtraio.
Espero o instante em que nada
me faça sentir deslocada,
sem espaço ...
esperando que a crueza da vida
me cante em acontecimentos.
904
Dante Milano
O Amor de Agora é o Mesmo Amor de Outrora
O Amor de Agora é o Mesmo Amor de Outrora
O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.
O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.
1 284
Debora Bottcher
Momentos
Quase a Vida me foge dos sentidos quando te vejo.
O chão parece estar longe
E meus ouvidos ouvem música.
Constante... calma... suave...
Tudo, de repente, parece colorido à volta.
A percepção do importante se perde
Tanto se agiganta minha emoção.
E é nestes momentos
Quando a Vida me foge dos sentidos,
Que percebo quanto sentido tem a Vida.
O chão parece estar longe
E meus ouvidos ouvem música.
Constante... calma... suave...
Tudo, de repente, parece colorido à volta.
A percepção do importante se perde
Tanto se agiganta minha emoção.
E é nestes momentos
Quando a Vida me foge dos sentidos,
Que percebo quanto sentido tem a Vida.
936
Camilo Mota
Por trás da palavra há o caos
o caos antecede o tempo
o tempo antevê o homem
o homem antepara o caos
o caos antecede o tempo antevê
o homem antepara o caos
o caos
antepara o homem
antevê o tempo
antecede o caos
o tempo antevê o homem
o homem antepara o caos
o caos antecede o tempo antevê
o homem antepara o caos
o caos
antepara o homem
antevê o tempo
antecede o caos
991
Camilo Mota
Mantra
torno-me puro
meu puro encontro
o corpo se limpa
a mente se areja
palavras tão simples
em becos escusos
alertam da vida
a luz e o amor
não se perde nas veias
o sagrado fluído...
em horas banidas
corredores e ruas
resgatam o tempo
a infinitude de ser
ao torno de mim
o puro retorna
ao simples afável
de cada manhã
a cada calenda
torna-se puro
sentido da vida
o verso do ser
meu puro encontro
o corpo se limpa
a mente se areja
palavras tão simples
em becos escusos
alertam da vida
a luz e o amor
não se perde nas veias
o sagrado fluído...
em horas banidas
corredores e ruas
resgatam o tempo
a infinitude de ser
ao torno de mim
o puro retorna
ao simples afável
de cada manhã
a cada calenda
torna-se puro
sentido da vida
o verso do ser
959
Chico Buarque
O que será
(À flor da terra)
Chico Buarque e Milton Nascimento 1976
O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza
Está na natureza, será que será
O que não tem certeza, nem nunca terá
O que não tem conserto, nem nunca terá
O que não tem tamanho
O que será que será
Que vive nas idéias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia-a-dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decéncia, nem nunca terá
O que não tem censura, nem nunca terá
O que não faz sentido
O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E o mesmo Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abbençoar
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo
Chico Buarque e Milton Nascimento 1976
O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza
Está na natureza, será que será
O que não tem certeza, nem nunca terá
O que não tem conserto, nem nunca terá
O que não tem tamanho
O que será que será
Que vive nas idéias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia-a-dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decéncia, nem nunca terá
O que não tem censura, nem nunca terá
O que não faz sentido
O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E o mesmo Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abbençoar
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo
1 905
Carlos Nóbrega
Em Riste
de que um obelisco
acusa o céu?
ele mesmo tão inpuro
entre potência e solidão
acusa o céu?
ele mesmo tão inpuro
entre potência e solidão
918
Carlos Nóbrega
O Século Seguinte
eis o tempo
da profunda busca
Em que se busca
o que já está nas mãos
da profunda busca
Em que se busca
o que já está nas mãos
905
Bráulio de Abreu
Semeador
Busca semear, na vida, o próspero e fecundo
Grão do teu sentimento. E verás, algum dia,
A árvore produzir, para a glória do mundo,
Flores e frutos bons, de humildade e alegria.
Vela o sono fugaz do infeliz moribundo,
E esquece a própria dor que tanto te angustia,
Porque o alheio mal é maior, mais profundo,
E o teu destino é encher a mão que está vazia.
Pede a Deus, que te vê da pupila dos astros,
Pelos que vivem sós, pelo destino incerto
Desses que vão e vêm, onde há velas e mastros.
E nunca, em toda a vida, o desamor te vença
Teu dever é florir o mais bruto deserto,
Sem, ao menos, pensar na menor recompensa.
Grão do teu sentimento. E verás, algum dia,
A árvore produzir, para a glória do mundo,
Flores e frutos bons, de humildade e alegria.
Vela o sono fugaz do infeliz moribundo,
E esquece a própria dor que tanto te angustia,
Porque o alheio mal é maior, mais profundo,
E o teu destino é encher a mão que está vazia.
Pede a Deus, que te vê da pupila dos astros,
Pelos que vivem sós, pelo destino incerto
Desses que vão e vêm, onde há velas e mastros.
E nunca, em toda a vida, o desamor te vença
Teu dever é florir o mais bruto deserto,
Sem, ao menos, pensar na menor recompensa.
1 913
Aymar Mendonça
in Certeza
Para onde irá minha alma
depois da apoteose?
Irá comigo
a certeza de quê?
Não sei se os anos idos
selarão o encontro
vida/morte
com fluxos de sol.
depois da apoteose?
Irá comigo
a certeza de quê?
Não sei se os anos idos
selarão o encontro
vida/morte
com fluxos de sol.
1 003
André Joffily Abath
O Navegador
Tempo não é o que passa,
é sim o que fica,
cercado em quatro paredes,
prisioneiro da própria vida.
Daí não haver saída,
ou chegada até a margem.
Viver não é ir, voltar;
viver é viagem.
é sim o que fica,
cercado em quatro paredes,
prisioneiro da própria vida.
Daí não haver saída,
ou chegada até a margem.
Viver não é ir, voltar;
viver é viagem.
1 690
Amílcar Dória
Onde o homem vai buscar a sua origem?
2.
Onde o homem vai buscar a sua origem?
Nas entranhas do solo, nas sementes
das plantas ou no cio dos animais
ou mesmo em pétreos corpos silenciosos?
No caso o homem a que se trata
nasceu de sua própria incoerência:
quando sentiu em si a consciência
de que era gente quase perde o tino.
Pois se indagou em sua mente aflita:
eu sou sozinho ou todo o universo
é parte do meu ser, ou é o inverso?
Donde saí, de que remoto esconso
de lápides fatais me originei?
Então adormeceu em fundo sono.
Onde o homem vai buscar a sua origem?
Nas entranhas do solo, nas sementes
das plantas ou no cio dos animais
ou mesmo em pétreos corpos silenciosos?
No caso o homem a que se trata
nasceu de sua própria incoerência:
quando sentiu em si a consciência
de que era gente quase perde o tino.
Pois se indagou em sua mente aflita:
eu sou sozinho ou todo o universo
é parte do meu ser, ou é o inverso?
Donde saí, de que remoto esconso
de lápides fatais me originei?
Então adormeceu em fundo sono.
860