Poemas neste tema
Angústia
Renato Rezende
[O Dia]
Somos todos iguais, é preciso ter compaixão pelas limitações dos outros e pelas minhas também. Preciso de mais compaixão por mim mesmo. Vou deixar rolar o que está acontecendo. Por que essa agonia? Está tudo bem. Sim, existe um grande esforço interno para chegar ao ponto de encontro entre o Ser e o não-Ser, e me sinto confuso.
Tentar colocar o mínimo de estresse possível nesse esforço, nessa confusão.
Eu, que sempre levanto tarde, acordei mais cedo (é sempre bom ver as pessoas na rua, saindo de casa, começando o dia, no frescor da manhã, isso deve acontecer todos os dias, enquanto eu durmo) para buscar um cheque derradeiro. Depois pensei em dar uma volta na cidade, no bairro, visitar uma exposição... mas voltei para casa. Já não sou o flanêur que era. Já não vejo sentido em caminhar a esmo.
Já não quero ver mais nada. Mas tampouco logro ficar parado dentro de mim mesmo.
Tranquila/ No centro de sua maravilha.
Ontem à noite, antes de dormir, senti nitidamente a pulsação, o limite entre o êxtase e um esvaziamento depressivo—era uma questão de um pequeno esforço para fixar-me no êxtase. Mas ambos não
pareciam estar em mim.
Se é para morrer, melhor morrer logo.
Começo a trabalhar sem ânimo numa pequena tradução—sintome encurralado, pressionado, com tudo atrasado. Mesmo com quase nada para fazer.
Não quero fazer nada.
Dai-me um corpo, uma voz, uma função.
O que fazer com meu desejo? Onde está o meu desejo? Eu que não soube escolher entre ser homem ou mulher. De tanto não saber o que fazer com o desejo, perdi-o de vista.
Mais uma vez, deixo o trabalho e deito-me na cama, no meio do dia.
Felicidade. Angústia.
Fique tranqüila/ No centro de sua maravilha.
Tentar colocar o mínimo de estresse possível nesse esforço, nessa confusão.
Eu, que sempre levanto tarde, acordei mais cedo (é sempre bom ver as pessoas na rua, saindo de casa, começando o dia, no frescor da manhã, isso deve acontecer todos os dias, enquanto eu durmo) para buscar um cheque derradeiro. Depois pensei em dar uma volta na cidade, no bairro, visitar uma exposição... mas voltei para casa. Já não sou o flanêur que era. Já não vejo sentido em caminhar a esmo.
Já não quero ver mais nada. Mas tampouco logro ficar parado dentro de mim mesmo.
Tranquila/ No centro de sua maravilha.
Ontem à noite, antes de dormir, senti nitidamente a pulsação, o limite entre o êxtase e um esvaziamento depressivo—era uma questão de um pequeno esforço para fixar-me no êxtase. Mas ambos não
pareciam estar em mim.
Se é para morrer, melhor morrer logo.
Começo a trabalhar sem ânimo numa pequena tradução—sintome encurralado, pressionado, com tudo atrasado. Mesmo com quase nada para fazer.
Não quero fazer nada.
Dai-me um corpo, uma voz, uma função.
O que fazer com meu desejo? Onde está o meu desejo? Eu que não soube escolher entre ser homem ou mulher. De tanto não saber o que fazer com o desejo, perdi-o de vista.
Mais uma vez, deixo o trabalho e deito-me na cama, no meio do dia.
Felicidade. Angústia.
Fique tranqüila/ No centro de sua maravilha.
1 014
Renato Rezende
Olho
De repente,
no meio do shopping
o impulso natural,
o súbito desejo
de ficar cego.
no meio do shopping
o impulso natural,
o súbito desejo
de ficar cego.
1 002
Renato Rezende
O Alto
Subo o Pão de Açúcar.
Subo o Corcovado.
E quero lançar-me lá de cima
acabar com tudo
num vôo de liberdade.
Mas me sento nas escadas
que brilham
e queimam a carne.
É alto o desespero
nesta cidade.
Apesar da claridade
visto de cima
tudo
é tranqüila fatalidade.
A cidade é frágil.
A cidade é um brinco.
Fácil, o mar se une ao lago.
Vamos todos morrer afogados.
Finjo
que não sei de nada
e não reajo.
Rio de Janeiro, 4 de abril 1997
Subo o Corcovado.
E quero lançar-me lá de cima
acabar com tudo
num vôo de liberdade.
Mas me sento nas escadas
que brilham
e queimam a carne.
É alto o desespero
nesta cidade.
Apesar da claridade
visto de cima
tudo
é tranqüila fatalidade.
A cidade é frágil.
A cidade é um brinco.
Fácil, o mar se une ao lago.
Vamos todos morrer afogados.
Finjo
que não sei de nada
e não reajo.
Rio de Janeiro, 4 de abril 1997
720
Paulo Henriques Britto
SEIS SONETOS SOTURNOS - III
E durma-se com um barulho desses,
engulam-se os sapos necessários.
Resolução? Final feliz? Esquece.
Por outro lado, tudo está bem claro,
nada é ambíguo, e nas entrelinhas
é só espaço em branco. Noves fora,
não há saída. A coisa não termina.
A hora chega, e ainda não é a hora,
ou já é tarde e Inês é morta. Não,
não adianta mais. E no entanto
há que seguir em frente, sempre. Mãos
à obra, sim. Conforme o combinado.
Igual à outra vez: táticas, planos,
metas. É claro que vai dar errado.
engulam-se os sapos necessários.
Resolução? Final feliz? Esquece.
Por outro lado, tudo está bem claro,
nada é ambíguo, e nas entrelinhas
é só espaço em branco. Noves fora,
não há saída. A coisa não termina.
A hora chega, e ainda não é a hora,
ou já é tarde e Inês é morta. Não,
não adianta mais. E no entanto
há que seguir em frente, sempre. Mãos
à obra, sim. Conforme o combinado.
Igual à outra vez: táticas, planos,
metas. É claro que vai dar errado.
801
Ricardo Aleixo
TREVA
vazio até o
fundo
crispado na
treva
mais um
día des
liza para
dentro
de um
dos tres
caminhos
sem volta
fundo
crispado na
treva
mais um
día des
liza para
dentro
de um
dos tres
caminhos
sem volta
465
Paulo Henriques Britto
MEMENTO MORI II
Luz frágil que brota no breu
e num rápido relance dá forma
e cor e corpo às coisas todas,
luz que se apega o pouco que pode
às aparências, acredita piamente
no sonho de substância que secretam,
luta com todas as parcas forças
contra o conforto de apagar-se enfim
por trás de duas implacáveis pálpebras.
e num rápido relance dá forma
e cor e corpo às coisas todas,
luz que se apega o pouco que pode
às aparências, acredita piamente
no sonho de substância que secretam,
luta com todas as parcas forças
contra o conforto de apagar-se enfim
por trás de duas implacáveis pálpebras.
858
Paulo Henriques Britto
MADRIGAL
Desista: não vai dar certo.
O mundo é o mesmo de sempre,
desejo é uma coisa cega.
Desista, enquanto é tempo.
As mãos não sabem o que pegam,
os pés vão aonde não sabem.
As cartas estão marcadas:
vai dar desgraça na certa.
O mundo é sempre a esmo,
desejo é uma porta aberta.
Desista, que a vida é incerta.
Ou insista. Dá no mesmo.
O mundo é o mesmo de sempre,
desejo é uma coisa cega.
Desista, enquanto é tempo.
As mãos não sabem o que pegam,
os pés vão aonde não sabem.
As cartas estão marcadas:
vai dar desgraça na certa.
O mundo é sempre a esmo,
desejo é uma porta aberta.
Desista, que a vida é incerta.
Ou insista. Dá no mesmo.
874
Paulo Henriques Britto
MEMENTO MORI I
Nenhum sinal da solidão se vê
lá onde o amor corrói a carne a fundo.
Dentro da pele, no entanto, você
é só você contra o mundo.
Esta felicidade que abastece
seu organismo, feito um combustível,
é volátil. Tudo que sobe desce.
Tudo que dói é possível.
lá onde o amor corrói a carne a fundo.
Dentro da pele, no entanto, você
é só você contra o mundo.
Esta felicidade que abastece
seu organismo, feito um combustível,
é volátil. Tudo que sobe desce.
Tudo que dói é possível.
509
Simone Brantes
Lapso
Um homem tira um grito das tripas,
do seu flautim medonho,
enquanto esfrega seu sexo contra a porta
do carro — pau e porra lhe pesando,
terríveis como poderíamos sentir se
por um acaso se tornasse
de um dolorido espanto este lapso:
não saber o que fazer com o que cai
de repente em nossas mãos.
do seu flautim medonho,
enquanto esfrega seu sexo contra a porta
do carro — pau e porra lhe pesando,
terríveis como poderíamos sentir se
por um acaso se tornasse
de um dolorido espanto este lapso:
não saber o que fazer com o que cai
de repente em nossas mãos.
573
Simone Brantes
Pastilhas brancas
Dormi calma por duas pastilhas brancas embalada,
como quem não tem ocupada a alma por tudo que dói.
Talvez, apartada de mim, minha dor tenha andado por aí perdida
ou tenha ficado o tempo todo aqui bem próxima
estendida sobre a cadeira
como essas roupas que se despem na véspera
e se vestem sem pudor no dia seguinte.
como quem não tem ocupada a alma por tudo que dói.
Talvez, apartada de mim, minha dor tenha andado por aí perdida
ou tenha ficado o tempo todo aqui bem próxima
estendida sobre a cadeira
como essas roupas que se despem na véspera
e se vestem sem pudor no dia seguinte.
776
Simone Brantes
Die Aufgabe
Chegar em casa um pouco mais
do que cansada e puxar ainda assim
e aos poucos o fio longo da mortalha
até fazer da noite sair enfim um dia
dentre todos os dias a morrer na praia
do que cansada e puxar ainda assim
e aos poucos o fio longo da mortalha
até fazer da noite sair enfim um dia
dentre todos os dias a morrer na praia
704
Alexandre Guarnieri
ilha na névoa
cercada pela tempestade que ameaça
sua secreta falésia de pétalas
toda e qualquer ilha, o mesmo símbolo
em todo ímpeto que habita, o mesmo nível
em todo mar que ataca a pedra:
a mesma meta
correnteza eterna
se há algo que a ilha renega e é eterno
é esta névoa
que atraiçoa seu único insulano,
um passo em falso:
entregue à queda
sua secreta falésia de pétalas
toda e qualquer ilha, o mesmo símbolo
em todo ímpeto que habita, o mesmo nível
em todo mar que ataca a pedra:
a mesma meta
correnteza eterna
se há algo que a ilha renega e é eterno
é esta névoa
que atraiçoa seu único insulano,
um passo em falso:
entregue à queda
727
António Carlos Cortez
Argila do sono
A mesma «argila do sono»
o deserto silencioso da noite
e tantas vezes um corpo
não encontrou posição
para a entrega à paz dos mortos
Uma névoa solar o rasgava
Um tampo de mesa era claro
Havia que escrever mas tardava
da névoa o sol e seu gelo
Só na argila do sono a escrita
era corte de carne mais óbvio
(por flashes construía a palavra)
o deserto silencioso da noite
e tantas vezes um corpo
não encontrou posição
para a entrega à paz dos mortos
Uma névoa solar o rasgava
Um tampo de mesa era claro
Havia que escrever mas tardava
da névoa o sol e seu gelo
Só na argila do sono a escrita
era corte de carne mais óbvio
(por flashes construía a palavra)
671
Paulo Teixeira
Heaven underneath the arches
O medo, o cansaço dos sismos quotidianos
leva-me à rua, aí onde só vive quem
não suporta ver o crepúsculo de casa.
Fora espera por mim a luz do céu londrino
e a noite abortiva de sono. Esse rumor
escuro da beleza que de longe me acena
como um semáforo ou um sinal de perigo.
Sem lei passeio até Embankment a minha
angústia civilizada. Aí o laser trespassa
a noite com a sua flora esverdeada,
as suas fitas mortuárias. Com uma fúria
obstinada estendo e recolho os braços
em dádiva e aceitação do que vem,
corpo dedilhado à toa nas cocheiras
até se gravar como uma paisagem sumariamente
perdida para sempre no negativo da visão.
Entre as farpas da música, nesse desespero verde
e polido que sulca a noite, perco-me o nome
e o rasto. Fora, a lua podia ser o meu caixão.
leva-me à rua, aí onde só vive quem
não suporta ver o crepúsculo de casa.
Fora espera por mim a luz do céu londrino
e a noite abortiva de sono. Esse rumor
escuro da beleza que de longe me acena
como um semáforo ou um sinal de perigo.
Sem lei passeio até Embankment a minha
angústia civilizada. Aí o laser trespassa
a noite com a sua flora esverdeada,
as suas fitas mortuárias. Com uma fúria
obstinada estendo e recolho os braços
em dádiva e aceitação do que vem,
corpo dedilhado à toa nas cocheiras
até se gravar como uma paisagem sumariamente
perdida para sempre no negativo da visão.
Entre as farpas da música, nesse desespero verde
e polido que sulca a noite, perco-me o nome
e o rasto. Fora, a lua podia ser o meu caixão.
625
Luís Quintais
Ave
Uma ave agonizante
entrou-te no quarto,
apenas uma sombra
que se enlaça
noutra:
assim definiste
a memória,
a cidade
que se mineraliza
quando
rodeias
essa sombra-ave
com os dedos
apavorados.
entrou-te no quarto,
apenas uma sombra
que se enlaça
noutra:
assim definiste
a memória,
a cidade
que se mineraliza
quando
rodeias
essa sombra-ave
com os dedos
apavorados.
864
Golgona Anghel
Não gosto de contar os desastres em detalhe
Não gosto de contar os desastres em detalhe
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.
Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.
Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.
Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.
Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.
Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.
Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.
921
Golgona Anghel
Devia escrever coisas mais divertidas
Devia escrever coisas mais divertidas,
entreter as massas.
Evitar, ao menos, cenas tristes,
mudar de roupa uma vez por mês.
Podia, decerto, afastar-me, sair do corpo,
dos seus humores.
Entrar na biopolítica usar os seus métodos.
Engravidar uma ideia alegre.
Enfim, nada contra os suicidas de carreira
e os demais performers do além.
Não é que não me apeteça largar-te
num eléctrico sem travões.
Deixar-te num país estrangeiro,
sem dinheiro e sem memória.
Não se iludam, ainda sei baixar as calças.
Fazer o truque.
Mas se o meu psiquiatra ler este livro,
vai achar que o tratamento
já não funciona.
entreter as massas.
Evitar, ao menos, cenas tristes,
mudar de roupa uma vez por mês.
Podia, decerto, afastar-me, sair do corpo,
dos seus humores.
Entrar na biopolítica usar os seus métodos.
Engravidar uma ideia alegre.
Enfim, nada contra os suicidas de carreira
e os demais performers do além.
Não é que não me apeteça largar-te
num eléctrico sem travões.
Deixar-te num país estrangeiro,
sem dinheiro e sem memória.
Não se iludam, ainda sei baixar as calças.
Fazer o truque.
Mas se o meu psiquiatra ler este livro,
vai achar que o tratamento
já não funciona.
1 095
Hélia Correia
1.
Para quê, perguntou ele, para que servem
Os poetas em tempo de indigência?
Dois séculos corridos sobre a hora
Em que foi escrita esta meia linha,
Não a hora do anjo, não: a hora
Em que o luar, no monte emudecido,
Fulgurou tão desesperadamente
Que uma antiga substância, essa beleza
Que podia tocar-se num recesso
Da poeirenta estrada, no terror
Das cadelas nocturnas, na contínua
Perturbação, morada da alegria;
Os poetas em tempo de indigência?
Dois séculos corridos sobre a hora
Em que foi escrita esta meia linha,
Não a hora do anjo, não: a hora
Em que o luar, no monte emudecido,
Fulgurou tão desesperadamente
Que uma antiga substância, essa beleza
Que podia tocar-se num recesso
Da poeirenta estrada, no terror
Das cadelas nocturnas, na contínua
Perturbação, morada da alegria;
1 314
Luís Quintais
Homenagem à adjectivação
Turbulento e caótico é o mundo, dear.
Meteorologias são bichos
de irrmediável fulgurante rápida incivilidade.
Meteorologias são bichos
de irrmediável fulgurante rápida incivilidade.
745
Nelly Sachs
QUEM CHAMA?
Quem chama?
A própria voz!
Quem responde?
Morte!
A amizade naufraga
no bivaque do sono?
Sim!
Por que um galo não canta?
Ele espera até que o beijo do alecrim
flutue sobre as águas!
O que é isto?
O instante de desolação
do qual se desprendeu o tempo
morto de eternidade!
O que é isto?
Sono e morte não têm características
A própria voz!
Quem responde?
Morte!
A amizade naufraga
no bivaque do sono?
Sim!
Por que um galo não canta?
Ele espera até que o beijo do alecrim
flutue sobre as águas!
O que é isto?
O instante de desolação
do qual se desprendeu o tempo
morto de eternidade!
O que é isto?
Sono e morte não têm características
715
Nelly Sachs
É UM ESCURO COMO
É um escuro como
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
768
Nelly Sachs
É UM ESCURO COMO
É um escuro como
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
745
Nelly Sachs
QUEM CHAMA?
Quem chama?
A própria voz!
Quem responde?
Morte!
A amizade naufraga
no bivaque do sono?
Sim!
Por que um galo não canta?
Ele espera até que o beijo do alecrim
flutue sobre as águas!
O que é isto?
O instante de desolação
do qual se desprendeu o tempo
morto de eternidade!
O que é isto?
Sono e morte não têm características
A própria voz!
Quem responde?
Morte!
A amizade naufraga
no bivaque do sono?
Sim!
Por que um galo não canta?
Ele espera até que o beijo do alecrim
flutue sobre as águas!
O que é isto?
O instante de desolação
do qual se desprendeu o tempo
morto de eternidade!
O que é isto?
Sono e morte não têm características
711