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Tristeza e Melancolia

Castro Alves

Castro Alves

Partida do meu Mestre do Coração

O Exmo. Sr. D. Antônio de Macedo Costa, Bispo do Pará

Oh! Que silêncio expressivo!
Que triste melancolia!
Tudo nos diz dores;
Tudo nos diz agonia!
Chora terno o caro mestre,
O disciplo também chora;
Que todos sofrem agora!

Apenas ouço soluços
Arrancados dentre prantos!
Tristes ais, filhos da dor,
Partidos de peitos tantos!
Frases puras que bem dizem
O sofrer, as aflições,
Que pungem tais corações!...

Mas por que todos conjuntos,
Estais assim a chorar?
Que motivo vossas almas
Pôde assim sensibilizar?
Que motivo vossos peitos
Faz assim starem sofrendo;
Tantas dores padecendo?

Ai! É que a ausência penosa
Já pouco tarda a chegar!
É que impiedoso o destino
Dos olhos vai nos roubar
O mestre, o mestre querido,
Que nos sabia ensinar
A nosso Deus adorar!

Ai! É que dentro em breve
(Talvez pra sempre, oh! meu Deus!)
Não possamos mais ouvir
Os santos conselhos seus!
Ele tão bom nos guiava
A salvo por entre a lida
Desta tão custosa vida!

Chora, bem triste, Ginásio,
Derrama pranto sem fim!
Ah! Chora que isto consola
A quem sofre dor assim!.
Chora, que não mais verás
Unido alegre contigo
O teu mestre, o teu amigo!

Chora, chora, meu Ginásio.
Eis a hora de partir,
Dhora em diante saudades
Cruéis vos hão de ferir!
Que a nós juntos como agora
Não mais há de alumiar
Este sol, que vês brilhar.

A pátria nos tira o mestre
É — nos preciso ceder;
Mas nos não proíbe o pranto,
Nem no-lo pode tolher;
Que então seria matar
Fé de amigo os sentimentos
E aumentar-nos os tormentos!...

Ginásio Baiano. 14 de julho de 1861.
O discípulo amigo do coração

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Castro Alves

Castro Alves

UMA PÁGINA DE ESCOLA REALISTA

drama cômico em quatro palavras

A tragédia me faz rir, a comédia me faz chorar,
E o drama? Nem rir, nem chorar...
(Pensamento de CARNIOLI)

CENÁRIO

A alcova é fria e pequena
Abrindo sobre um jardim.
A tarde frouxa e serena
Já desmaia para o fim.
No centro um leito fechado
Deixa o longo cortinado
Sobre o tapete rolar...
Há, nas jarras deslumbrantes,
Camélias frias, brilhantes,
Lembrando a neve polar.

Livros esparsos por terra,
Uma harpa caída além;
E essa tristeza, que encerra
O asilo, onde sofre alguém.
Fitas, máscaras e flores
Não sei que vagos odores
Falam de amor e prazer.
Além da frouxa penumbra
Um vulto incerto ressumbra
— O vulto de uma mulher.

Vous, qui volez là-bas, légères hirondelles
Dites-moi, dites-moi, porquoi vais-je mourir!
MUSSET

MÁRIO (no leito)

É tarde! É tarde! Abri-me estas cortinas
Deixai que a luz me acaricie a fronte!...
Ó sol, ó noivo das regiões divinas,
Suspende um pouco a luz neste horizonte!

SILVIA (abrindo a janela)

Da noite o frio vento te regela
o mórbido suor...

MÁRIO

Oh! que me importa?
A tarde doura-me o suor da fronte...
— Último louro desta vida morta!

Crepusclo! mocidade! natureza!
Inundai de fulgor meu dia extremo...
Quero banhar-me em vagas de harmonia,
Como no lago se mergulha o remo!

E que amores que sonham as esferas!
A brisa é de volúpia um calafrio.
A estrela sai das folhas do infinito,
Sai dos musgos o verme luzidio ...

Tudo que vive, que palpita e sente
Chama o par amoroso para a sombra.
O pombo arrula — preparando o ninho,
A abelha zumbe — preparando a alfombra.

As trevas rolam como as tranças negras,
Que a Andaluza desmancha em mago enleio:
E entre rendas sutis surge medrosa
A lua plena, qual moreno seio.

Abre-se o ninho... o cálice... o regaço...
Anfitrite, corando, aguarda o noivo...

(Longa pausa)

E tu também esperas teu esposo,
Ó morte! ó moça, que engrinalda o goivo!

SÍLVIA (a meia voz, acompanhando-se na guitarra)

Dizem as moças galantes
Que as rolas são tão constantes ...
Pois será?
Que morrendo-lhe os amantes,
Morrem de fome, arquejantes,
Quem dirá?

Dizem sábios arrogantes
Que nestas terras distantes,
Não por cá,
Sobre piras fumegantes
Morrem viúvas constantes,
Pois será?

Não creio nos navegantes
Nem nas histórias galantes,
Que há por lá.
Fome e fogueiras brilhantes
Cá não há...
Mas inda morrem amantes
De saudades lacerantes
Quem dirá?

(Aos últimos arpejos cai-lhe uma lágrima.)

MÁRIO (vendo-a chorar)

Sílvia! Deixa rolar sobre a guitarra,
Da lágrima a harmonia peregrina!
Sílvia! cantando — és a mulher formosa!
Silvia! chorando — és a mulher divina!

Oh! lágrimas e pérolas! - aljofares
Que rebentais no interno cataclismo,
Do oceano — este dédalo insondável!
Do coração — este profundo abismo!

Sílvia! dá-me a beber a gota dágua,
Nessa pálpebra roxa como o lírio...
Como lambe a gazela o brando orvalho
Nas largas folhas do deserto assírio.

E quando estalma desdobrando as asas
Entrar do céu na região serena,
Como uma estrela eu levarei nos dedos
Teu pranto sideral, ó Madalena! ...

Sílvia (tem-se ajoelhado aos pés do leito)

Meus prantos sirvam apenas
Pra umedecer teus cabelos,
Como da corça nos velos
Fresco orvalho a resvalar!
Pra molhar a flor, que aspires,
Rolem prantos de meus olhos,
Pra atravessar os escolhos
Meus prantos manda rolar!...

Meus prantos sirvam apenas
Pra a terra, em que tu pisares,
Pra a sede, em que te abrasares,
Terás meu sangue, Senhor!
Meus prantos são óleo humilde
Que eu derramo a tuas plantas...

(Mário estende-lhe os braços)

Mas se acaso me levantas
Meus prantos dizem-te amor!...

Mário (tendo-a contra o seio)

Sentir que a vida vai fugindo aos poucos
Como a luz, que desmaia no ocidente...
E boiar sobre as ondas do sepulcro,
Como Ofélia nas águas da corrente...

Sentir o sangue espanadar do peito
— Licor de morte — sobre a boca fria,
E meu lábio enxugar nos teus cabelos,
Como Rolla nas tranças de Maria.

De teus braços fazer o diadema
De minha vida, que desmaia insana,
Esquecer o passado em teu regaço,
Como Byron aos pés da Italiana;

Em teu lábio molhado e perfumoso
O licor entornar de minha vida...
Escutar-te nas vascas da agonia,
Como Fausto as canções de Margarida!

Eis como eu quero — na embriaguez da morte...
Do banquete no chão pender a fronte...
Inda a taça empunhando de teus beijos
Sob as rosas gentis de Anacreonte!...

(A noite tem descido pouco a pouco, o luar penetrando pela alcova alumia o grupo dos amantes)

SÍLVIA

Que palidez, meu poeta,
Se estende na face tua!...

MÁRIO

São os raios descorados,
Os alvos raios da lua!

SÍLVIA

Mas um suor de agonia
Teu peito ardente tressua ...

MÁRIO

São os orvalhos, que descem
Ao frio clarão da lua.

SÍLVIA

Que mancha é esta sangrenta,
Que no teu lábio flutua?

MÁRIO

São as sombras de uma nuvem
Que tolda a face da lua!

SÍLVIA

Como teus dedos esfriam
Sobre minha espádua nua! ...

MÁRIO (distraído)

Não vês um anjo, que desce,
No frouxo clarão da lua?

SÍLVIA

Mário? Não vês quem te chama?...
Tua amante... Sílvia... a tua...

MÁRIO (desmaiando)

É a morte que me leva
Num frio raio da lua! ...

(O poeta cai semimorto sobre o leito. No espasmo sua
mão contraída prende uma trança da moça.)

SÍLVIA

Teus brancos dedos fecharam
De meu cabelo a madeixa,
Tua amante não se queixa...
Bem vês... cativa ficou.
Mas não se prende o desejo
Que nalma acaso se aninha!...
Nunca viste a andorinha,
Que alegre o fio quebrou?

(Ouve-se um relógio dar horas.)

Já! tão tarde! E embalde tento
Abrir-te os dedos fechados...
Como frios cadeados,
Que o teu amor me lançou.
Porém se aqui me cativas
Minhalma foge-te asinha...
Nunca viste a andorinha,
Que alegre o fio quebrou!

(Debruça-se a escrever numa carteira.)

"Paulo! Vem à meia-noite...
Mário morre! Mário expira!
Vem que minha alma delira
E embalde cativa estou. . . "

MÁRIO (que tem lido por cima de seu ombro)

Sílvia! a morte abre-me os dedos,
És livre, Sílvia... caminha!
(morrendo)
Minhalma é como a andorinha,
Que alegre o fio quebrou.

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Castro Alves

Castro Alves

O HÓSPEDE

Choro por ver que os dias passam breves
E te esqueces de mim quando tu fores;
Como as brisas que passam doudas, leves,
E não tornam atrás a ver as flores.
Teófilo Braga

Onde vais, estrangeiro! Por que deixas
O solitário albergue do deserto?
O que buscas além dos horizontes?
Por que transpor o píncaro dos montes,
Quando podes achar o amor tão perto?...

"Pálido moço! Um dia tu chegaste
De outros climas, de terras bem distantes...
Era noite!... A tormenta além rugia...
Nos abetos da serra a ventania
Tinha gemidos longos, delirantes.

"Uma buzina restrugiu no vale
Junto aos barrancos onde geme o rio...
De teu cavalo o galopar soava,
E teu cão ululando replicava
Aos surdos roncos do trovão bravio.

"Entraste! A loura chama do brasido
Lambia um velho cedro crepitante,
Eras tão triste ao lume da fogueira...
Que eu derramei a lágrima primeira
Quando enxuguei teu manto gotejante!

"Onde vais, estrangeiro? Por que deixas
Esta infeliz, misérrima cabana?
Inda as aves te afagam do arvoredo...
Se quiseres... as flores do silvedo
Verás inda nas tranças da serrana.

"Queres voltar a este país maldito
Onde a alegria e o riso te deixaram?
Eu não sei tua história... mas que importa?...
... Bóia em teus olhos a esperança morta
Que as mulheres de lá te apunhalaram.

"Não partas, não! Aqui todos te querem!
Minhas aves amigas te conhecem.
Quando à tardinha volves da colina
Sem receio da longa carabina
De lajedo em lajedo as corças descem!

"Teu cavalo nitrindo na savana
Lambe as úmidas gramas em meus dedos,
Quando a fanfarra tocas na montanha,
A matilha dos ecos te acompanha
Ladrando pela ponta dos penedos.

"Onde vais, belo moço? Se partires
Quem será teu amigo, irmão e pajem?
E quando a negra insônia te devora,
Quem, na guitarra que suspira e chora,
Há de cantar-te seu amor selvagem?

"A choça do desterro é nua e fria!
O caminho do exílio é só de abrolhos!
Que família melhor que meus desvelos?...
Que tenda mais sutil que meus cabelos
Estrelados no pranto de teus olhos? ...

"Estranho moço! Eu vejo em tua fronte
Esta amargura atroz que não tem cura.
Acaso fulge ao sol de outros países,
Por entre as balças de cheirosos lises,
A esposa que tua alma assim procura?

"Talvez tenhas além servos e amantes,
Um palácio em lugar de uma choupana,
E aqui só tens uma guitarra e um beijo,
E o fogo ardente de ideal desejo
Nos seios virgens da infeliz serranal. . ."
—————

No entanto Ele partiu!... Seu vulto ao longe
Escondeu-se onde a vista não alcança...
... Mas não penseis que o triste forasteiro
Foi procurar nos lares do estrangeiro
O fantasma sequer de uma esperança!...

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Castro Alves

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O Sibarita Rornano

Este olhar, estes lábios, estas rugas
exprimem uma sede impaciente e
impossível de saciar. Quer e não pode.
Sente o desejo e a impaciência.
LAVATER
Escravo, dá-me a croa de amaranto
Que mandou-me inda há pouco Afra impudente.
Orna-me a fronte... Enrola-me os cabelos,
Quero o mole perfume do Oriente.

Lança nas chamas dessa etrusca pira
O nardo trescalante de Medina.
Vem... desenrola aos pés do meu triclínio
As felpas de uma colcha bizantina.

Ohl tenho tédio... Embalde, ao pôr da tarde,
Pelas nereidas louras embalado,
Vogo em minha galera ao som das harpas,
Da cortesã nos seios recostado.

Debalde, em meu palácio altivo, imenso,
De mosaicos brilhantes embutido,
Nuas, volvem as filhas do Oriente
No morno banho em termas de porfido.

Só amo o circo... a dor, gritos e flores,
A pantera, o leão de hirsuta coma;
Onde o banho de sangue do universo
Rejuvenesce a púrpura de Roma.

E o povo rei — na vítima do mundo
Palpa as entranhas que inda sangue escorrem,
E ergue-se o grito extremo dos cativos:
— Ave, Cesar! saúdam-te os que morrem!

Escravo, quero um canto... Vibra a lira,
De Orfeu desperta a fibra dolorida,
Canta a volúpia das bacantes nudas,
Fere o hino de amor que inflama a vida.

Doce, como do Himeto o mel dourado,
Puro como o perfume... Escravo insano!
Teu canto é o grito rouco das Eumênides,
Sombrio como um verso de Lucano.

Quero a ode de amor que o vento canta
Do Palatino aos flóreos arvoredos.
Quero os cantos de Nero... Escravo infame,
Quebras as cordas nos convulsos dedos!

Deixa esta lira! como o tempo é longo!
Insano! insano! que tormento sinto!
Traze o louro falerno transparente
Na mais custosa taça de Corinto.

Pesa-me a vida!... está deserto o Forum!
E o tédio!... o tédio!... que infernal idéia!
Dá-me a taça, e do ergástulo das servas
Tua irmã trar-me-ás, — a grega Haidéia!

Quero em seu seio... Escravo desgraçado,
A este nome tremeu-te o braço exangue?
Vê... Manchaste-me a toga com o falerno,
Irás manchar o Coliseu com o sangue!...

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Castro Alves

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POESIA E MENDICIDADE

(No álbum da Ex.ma Sra. D. MARIA JUSTINA PROENÇA PEREIRA PEIXOTO)

I

Senhora! A Poesia outrora era a Estrangeira,
Pálida, aventureira, errante a viajar,
Batendo em duas portas — ao grito das procelas —
Ao céu — pedindo estrelas, à terra — um pobre lar!

Visão — de áureos lauréis — porém de manto esquálido,
Mulher — de lábio pálido — e olhar — cheio de luz.
Seus passos nos espinhos em sangue se assinalam...
E os astros lhe resvalam — à flor dos ombros nus ...

II

Olhai! O sol descamba... A tarde harmoniosa
Envolve luminosa a Grécia em frouxo véu.
Na estrada ao som da vaga, ao suspirar do vento,
De um marco poeirento um velho então se ergueu.

Ergueu-se tateando... é cego... o cego anseia...
Porém o que tateia aquela augusta mão?
Talvez busca pegar o sol, que lento expira!...
Fado cruel... mentira!... Homero pede pão!

III

Mas ai! volvei, Senhora, os vossos belos olhos
Daquele mar de abrolhos, a um novo quadro! olhai!
Do vasto salão gótico eu ergo o reposteiro...
o lar é hospitaleiro... Entrai, Senhora, entrail

Estamos na média idade. Arnês, gládio, armadura
Servem de compostura à sala vasta e chá.
A um lado um galgo esvelto ameiga e acaricia
A mão suave, esguia — à loura castelã.

Vai o banquete em meio... O bardo se alevanta
Pega da lira... canta... uma canção de amor...
Ouvi-o! Para ouvi-lo a estrela pensativa
Alonga pela ogiva um raio de languor!

Dos ramos do carvalho a brisa se debruça...
Na sala alguém soluça... (amor, ou languidez?)
Súbito a nota extrema anseia, treme, rola...
Alguém pede uma esmola... Senhora, não olheis!...

Assim nos tempos idos a musa canta e pede...
Gênio e mendigo... vede... o abismo de irrisões!
Tasso implora um olhar! Vai Ossian mendicante...
Caminha roto o Dante! e pede pão Camões.

IV

Bem sei, Senhora, que ao talento agora
Surgiu a aurora de uma luz amena.
Hoje há salário pra qualquer trabalho,
Cinzel, ou malho, ferramenta ou pena!

Melhor que o Rei sabe pagar o pobre
Melhor que o nobre — protetor verdugo —!
Foi surdo um trono... à maior glória vossa...
Abre-se a choça aos Miseráveis de Hugo.

Porém não sei se é por costume antigo,
Que inda é mendigo do cantor o gênio.
Mudem-se os panos do cenário a esmo
O vulto é o mesmo... num melhor proscênio ...

V

Hoje o Poeta — caminheiro errante,
Que tem saudade de um país melhor
Pede uma pérola — à maré montante,
Do seio às vagas — pede — um outro amor.

Alma sedenta de ideal na terra
Busca apagar aquela sede atroz!
Pede a harmonia divinal, que encerra
Do ninho o chilro... da tormenta a voz!

E o rir da folha, o sussurrar da fala,
Trenos da estrela no amoroso estio.
Voz que dos poros o Universo exala
Do céu, da gruta, do alcantil, do rio!

Pede aos pequenos, desde o verme ao tojo,
Ao fraco, ao forte. . . — preces, gritos, uivos ...
Pede das águias o possante arrojo,
Para encontrar os meteoros ruivos.

Pede à mulher que seja boa e linda
— Vestal de um tipo que o ideal revela...
Pois ser formosa é ser melhor ainda...
Se és boa — és luz... mas se és formosa — estrela...

E pede à sombra pra aljofrar de orvalhos
A fronte azul da solidão noturna.
E pede às auras pra afagar os galhos
E pede ao lírio pra enfeitar a furna.

Pede ao olhar a maciez suave
Que tem o arminho e o edredon macio,
O aveludado da penugem dave,
Que afaga as plumas no palmar sombrio.

.................................................................................

E quando encontra sobre a terra ingrata
Um reverbero do clarão celeste,
— Alma formada de uma essência grata,
Que a lua — doura, e que um perfume veste;

Um rir, que nasce como o broto em maio;
Mostrando seivas de bondade infinda,
Fronte que guarda — a claridade e o raio,
— Virtude e graça — o ser bondosa e linda ...

Então, Senhora, sob tanto encanto
Pede o Poeta (que não tem renome)
— Versos — à brisa pra vos dar um canto...
Raios ao sol — pra vos traçar o nome! ...

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Bernardo Guimarães

Bernardo Guimarães

Hino à Tarde

A tarde está tão bela e tão serena
Que convida a cismar .. Ei-la saudosa
E meiga reclinada
Em seu etéreo leito,
Da muda noite amável precursora;
Do róseo seio aromas transpirando,
Com vagos cantos, com gentil sorriso
Ao repouso convida a natureza.
Montão de nuvens, como vasto incêndio,
Resplende no horizonte, e o clarão rábido
Céus e montes ao longe purpureia.
Pelas odoras veigas
As auras brandamente se espreguiçam,
E o sabiá na encosta solitária
Saudoso cadenceia
Pousado arpejo, que entristece os termos.
Oh! que grato remanso! — que hora amena,
Propícia aos sonhos dalma!
Quem me dera voltar à feliz quadra,
Em que este coração me transbordava
De emoções virginais, de afetos puros!
Em que esta alma em seu selo refletia,
Como o cristal da fonte, pura ainda,
Todo o fulgor do céu, toda a beleza
E magia da terra! ...ó doce quadrar
Quão veloz te sumiste — como um sonho
Nas sombras do passado!

Quanto eu te amava então, tarde formosa.
Qual pastora gentil, que se reclina
Rósea e louçã, sobre a macia relva,
Das diurnas fadigas descansando;
A face em que o afã lhe acende as cores,
Na mão repousa — os seios lhe estremecem
No mole arfar, e o lume de seus olhos
Em suave langor vai desmaiando;
Assim me aparecias, meiga tarde,
Sobre os montes do ocaso debruçada;
Tu eras o anjo da melancolia
Que à paz da solidão me convidava.
Então no tronco, que o tufão prostrava
No viso da colina ou na erma rocha,
Sobre a margem do abismo pendurada,
Me assentava a cismar, nutrindo a mente
De arroubadas visões, de aéreos sonhos.
Contigo a sós sentindo o teu bafejo
De aromas e frescor banhar-me a fronte,
E afagar brandamente os meus cabelos,
Minhalma então boiava docemente
Por um mar de ilusões e parecia
Que um coro aéreo, pelo azul do espaço,
Me ia embalando com sonoras dálias:
De um puro sonho sobre as asas de ouro
Me voava enlevado o pensamento,
Encantadas paragens devassando;
Ou nas vagas de luz que o ocaso inundam
Afoito me embebia, e o espaço infindo
Transpondo, ia entrever no estranho arroubo
Os radiantes pórticos do Elísio.
Ó sonhos meus, ó ilusões amenas
De meus primeiros anos,
Poesia, amor, Saudades, esperanças,
Onde fostes? por que me abandonasses?

Inda do tempo me não pesa a destra
E não me alveja a fronte; — inda não sinto
Cercar-me o coração da idade os gelos,
E já vós me fugis, ó ledas flores
De minha primavera!
E assim vós me deixais, — tronco sem seiva,
Só, definhando na aridez do mundo?
sonhos meus, por que me abandonasses?

A tarde está tão bela e tão serena
Que convida a cismar: — vai pouco a pouco
Desmaiando o rubor dos horizontes,
E pela amena solidão dos vales
Caladas sombras pousam: — breve a noite
Abrigará com a sombra de seu manto
A terra adormecida.
Vinde ainda uma vez, meus sonhos de ouro,
Nesta hora, em que tudo sobre a terra
Suspira, cisma ou canta,
Como esse afagador extremo raio,
Que à tarde pousa sobre as grimpas ermas,
Vinde pairar ainda sobre a fronte
Do bardo pensativo; — iluminara
Com um raio inspirado;
Antes que os ecos todos adormeçam
Da noite no silêncio,
Quero um hino vibrar nas cordas dharpa
Para saudar a filha do crepúsculo.

Ai de mim! — esses tempos já caíram
Na sombria voragem do passado!
Os meus Sonhos queridos se esvaíram,
Como após o festim murchas se espalham
As flores da grinalda:
Perdeu a fantasia as asas de ouro
Com que Se alava às regiões sublimes
De mágica poesia,
E despojada de seus doces sonhos
Minhalma vela a sós com o sofrimento,
Qual vela o condenado
Em sombria masmorra à luz sinistra
De amortecida lâmpada.
Adeus, formosa filha do Ocidente,
Virgem de olhar sereno que meus sonhos
Em doces harmonias transformavas;
Adeus, ó tarde! — já nas frouxas cordas
Rouqueja o vento e a voz me desfalece...
Mil e mil vezes raiarás ainda
Nestes sítios saudosos que escutaram
De minha lira o desleixado acento;
Mas ai de mim! nas solitárias veigas
Não mais escutarás a voz do bardo,
Hinos casando ao sussurrar da brisa
Para saudar teus mágicos fulgores!
Silenciosa e triste está minhalma,
Bem como lira de estaladas cordas
Que o trovador esquece pendurada
No ramo do arvoredo,
Em ócio triste balançando ao vento.

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Alexei Bueno

Alexei Bueno

O Bordado Cruel

Quando era noite, atrás daquela porta,
junto a uma vela duas velhas riam
Matando aos poucos uma aranha torta.

E a alegria que elas dividiam
Poucos tiveram já no mundo um dia,
Mas os que a achavam sempre a bendiziam.

Cheia de medo, a criatura fria
Dançava horrível rente de uma chama
Que lentamente o corpo lhe roía,

E as velhas rindo a observar da cama
Iam falando sobre de que modo
Com dor mais lenta um corpo vil se inflama.

Espécie estranha de um vivente lodo,
Sendo corcunda e só com sete pernas
A aranha uivava por seu corpo todo

Que se expandia em inchações externas
Causando às velhas, com o vermelho horrendo
Do seu ardor, as sensações mais ternas...

Emocionadas, com as mãos tremendo,
Vieram então com um bando de alfinetes
Que em cada pata foram se prendendo,

E a aranha presa de mil cacoetes
Foi só os espinhos de uma prata ardente
Que a recobria em infernais coletes.

E nesta arte foram indo em frente,
Depois agulhas, e um perfume ardido,
E ao fim de tudo uma tesoura ingente,

Até que o fogo e o animal vencido
Murcharam juntos sobre a mesa irada
Em mil pedaços de um negror transido,

E ambas as velhas, conhecendo o nada,
Com face imensa devoraram tudo
Que lhes restava da fatal jornada.

Enquanto, a olhá-las, um retrato mudo
De seu marido ia chorando as dores
Que o recobriam no ancestral escudo,

E todo o chão ia se abrindo em flores
E uma criança, que ninguém notara,
Pela janela olhava sem temores

E ia crescendo, e de uma forma rara,
Enquanto as velhas, enxugando as portas,
Varriam tétricas, na noite clara,

Todo o amargor das profecias mortas!

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