Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Arthur Fortes
Esfinge
Fico-me só, horas mais horas, triste,
Nesta piedosa evocação do Outr´ora,
Em face ao quadro a que se não resiste:
Sonhos de então, desenganos de agora.
Na vida o mal tem também sua aurora
Que na alegria para mim consiste,
De amar alguém que me repele e adora
E que, ai de mim, existe e não existe.
Alguém que em meigos sonhos me aparece
Com a imácula pureza de uma prece
Em lábios virginais por noite clara;
E outras vezes me quer e me tortura
E sofre como eu sofro essa amargura
Desta paixão de forma estranha e rara!.
Nesta piedosa evocação do Outr´ora,
Em face ao quadro a que se não resiste:
Sonhos de então, desenganos de agora.
Na vida o mal tem também sua aurora
Que na alegria para mim consiste,
De amar alguém que me repele e adora
E que, ai de mim, existe e não existe.
Alguém que em meigos sonhos me aparece
Com a imácula pureza de uma prece
Em lábios virginais por noite clara;
E outras vezes me quer e me tortura
E sofre como eu sofro essa amargura
Desta paixão de forma estranha e rara!.
755
Alcides Werk
Soneto Aberto Sobre A Morte
Hoje é dia de festa nesta casa:
festa dos círios e das lamparinas.
Um corpo magro sobre a mesa, e a porta
de esteira aberta para os companheiros.
Beatas, terço, cafezinho, estórias,
o choro inútil da mulher sozinha,
a promessa do céu dos escolhidos
e uma herança de palha e de abandono.
Brasileiro, do norte, agricultor.
Semeou, semeou a vida inteira,
fez o campo florir por tantas vezes,
alimentou mil pássaros vadios,
foi sempre bom, mas nunca teve sorte,
e se vestiu de trapos para a morte.
festa dos círios e das lamparinas.
Um corpo magro sobre a mesa, e a porta
de esteira aberta para os companheiros.
Beatas, terço, cafezinho, estórias,
o choro inútil da mulher sozinha,
a promessa do céu dos escolhidos
e uma herança de palha e de abandono.
Brasileiro, do norte, agricultor.
Semeou, semeou a vida inteira,
fez o campo florir por tantas vezes,
alimentou mil pássaros vadios,
foi sempre bom, mas nunca teve sorte,
e se vestiu de trapos para a morte.
1 151
Arthur Fortes
Mágoa Renitente
Há nesta vida instantes dulçurosos
Concedidos às almas desgraçadas,
Que são, bem como as claras madrugadas,
Alvos, meigos, brilhantes, luminosos!
Esquecidos da mágoa, descuidosos,
Vamos então a rir pelas estradas,
Vendo alegres nas flores orvalhadas
A miragem dos dias venturosos!
Foi-me cedido o dúlcido momento
De me não mais ralar esse tormento
Desta ausência cruel, nossa inimiga!
Mas, ai de mim! Depressa te partiste,
E invadiu-me de novo a dor antiga,
Escura e fria, pavorosa e triste.
Concedidos às almas desgraçadas,
Que são, bem como as claras madrugadas,
Alvos, meigos, brilhantes, luminosos!
Esquecidos da mágoa, descuidosos,
Vamos então a rir pelas estradas,
Vendo alegres nas flores orvalhadas
A miragem dos dias venturosos!
Foi-me cedido o dúlcido momento
De me não mais ralar esse tormento
Desta ausência cruel, nossa inimiga!
Mas, ai de mim! Depressa te partiste,
E invadiu-me de novo a dor antiga,
Escura e fria, pavorosa e triste.
908
Artur Eduardo Benevides
Dos Caminhos e Descaminhos da Solidão
I
A solidão
é um grito selvagem
na infinita viagem
de nossa expectação.
Insulana e tirana
fere-nos com o sílex de sua maldição.
Ou dança às vezes crucial pavana
tornando mais escura a nossa habitação.
Ela vem de repente
com seu olhar parado, de serpente.
E nos põe em seus nichos
a ensinar-nos, com longos cochichos,
seu ofício final de penitente.
II
A solidão
é bailarina imóvel em cima de um tablado.
É o noivo enjeitado
que volta sozinho, em meio à multidão.
E semelha, às vezes, um velho trem parado.
Ou um rosto no espelho, aprisionado,
a ouvir, ao longe, o latido de um cão.
III
Oh, a disciplina dos que vivem sós
e dos que voam às cegas, como os noitibós!
E todos os poemas nascem dessa fonte.
Todos os nossos passos cruzarão sua ponte.
E como não temos para quem gritar
somos veleiros perdidos em seu mar.
IV
Já fui mais sozinho
do que os retratos de velhos casarões
onde se guarda, qual rubro vinho,
a soma imperial das solidões.
A solidão dos avós.
A solidão dos rondós.
A solidão da tia solteirona
adormecendo aos poucos, na poltrona.
Ou a solidão do negro acorrentado
por haver olhado a moça, no rio, desnuda.
A solidão graúda
dos que envelhecem em paz e castidade.
Ou planejam o amor, mas sem maldade,
e são logo feridos e esquecidos.
V
Ó solidão do desamor!
Solidão do Cristo no Tabor!
Solidão
dos que perderam as chuvas e a sazão!
E há um jogo de surpresas
quais passos pelas devesas
cheias de assombração.
Mastigamos, contudo, esse amargo pão
e há no corredor
do mundo interior
inexorável inavegação.
VI
Alma sozinha e perdida,
a solidão corre a toda a brida
para nada.
Mesmo assim, nasce a madrugada
sobre as casas vazias
e as penedias.
E tudo, em nós, verão ou primavera,
é uma vasta espera.
VII
Ai, solidão: a morte no último vagão.
Um longo e irrespondido olhar
ou um entreparar
de vento em nosso vão lamento.
Ela em nós se debruça
e soluça
enquanto uma seresta se afasta
qual canção azul e sempre casta
que jamais esquecemos
e em nós sofremos
igual à lembrança da infância perdida.
Ou da vida.
VIII
Triste é o nosso sorrir.
Às vezes, chegar é o mesmo que partir.
Somos uma longa viagem
em que vamos perdendo rumo e paisagem.
E no silêncio final dos caminhos
estaremos sozinhos.
Por isso, em minha alma indormida
o sonho é como o apito de despedida
de um navio tragado em rodopio.
IX
Ônix da ausência
a solidão é a consciência
do pélago nas almas mais sofridas.
Chuva molhando o rosto dos suicidas
é uma loba uivando sob o frio,
ou o cinzento do estio.
É o canto da araponga ao meio-dia.
O sol da noite. A dor da poesia.
O medo de alguém na multidão.
Um ser a fugir da escuridão.
E vem de Alba-Longa, talvez. Ou de Castela.
Ou do sertão, na Cantiga do Vilela.
Ou das longínquas ilhas
além dos horizontes das Antilhas.
Mas estando tão longe fica em nós tão perto
que sentimos seu abismo abrir-se num deserto.
X
Oh, a solidão dos espelhos
e do mugir dos bois na madrugada!
Ó solidão — batentes de uma escada
em que dormitam sete escaravelhos.
E há uma flauta triste no final de tudo.
Uma súplica em dor num espírito mudo.
Ou o grito inesperado. O final da lida.
O inalcançado amor. A alma já perdida
de um bêbado num bar. Ou de alguém a buscar
as cousas que deveriam estar e nunca estão.
E um punhal invisível se ergue: a solidão.
A solidão de Édipo e Narciso.
A solidão que chega sem aviso
ferindo os seios de luar da Amada.
E treme na balada
que em nós, qual soluço, sossegou.
Ou é um grou
voando ao solstício
sobre a boca fatal de um precipício.
E tudo parece o sono da verdade
qual cavalo cego em meio à tempestade.
Ainda assim, tentamos atravessar os nossos rios
vendo, nas lanternas, o lento apagar-se dos últimos pavios.
A solidão
é um grito selvagem
na infinita viagem
de nossa expectação.
Insulana e tirana
fere-nos com o sílex de sua maldição.
Ou dança às vezes crucial pavana
tornando mais escura a nossa habitação.
Ela vem de repente
com seu olhar parado, de serpente.
E nos põe em seus nichos
a ensinar-nos, com longos cochichos,
seu ofício final de penitente.
II
A solidão
é bailarina imóvel em cima de um tablado.
É o noivo enjeitado
que volta sozinho, em meio à multidão.
E semelha, às vezes, um velho trem parado.
Ou um rosto no espelho, aprisionado,
a ouvir, ao longe, o latido de um cão.
III
Oh, a disciplina dos que vivem sós
e dos que voam às cegas, como os noitibós!
E todos os poemas nascem dessa fonte.
Todos os nossos passos cruzarão sua ponte.
E como não temos para quem gritar
somos veleiros perdidos em seu mar.
IV
Já fui mais sozinho
do que os retratos de velhos casarões
onde se guarda, qual rubro vinho,
a soma imperial das solidões.
A solidão dos avós.
A solidão dos rondós.
A solidão da tia solteirona
adormecendo aos poucos, na poltrona.
Ou a solidão do negro acorrentado
por haver olhado a moça, no rio, desnuda.
A solidão graúda
dos que envelhecem em paz e castidade.
Ou planejam o amor, mas sem maldade,
e são logo feridos e esquecidos.
V
Ó solidão do desamor!
Solidão do Cristo no Tabor!
Solidão
dos que perderam as chuvas e a sazão!
E há um jogo de surpresas
quais passos pelas devesas
cheias de assombração.
Mastigamos, contudo, esse amargo pão
e há no corredor
do mundo interior
inexorável inavegação.
VI
Alma sozinha e perdida,
a solidão corre a toda a brida
para nada.
Mesmo assim, nasce a madrugada
sobre as casas vazias
e as penedias.
E tudo, em nós, verão ou primavera,
é uma vasta espera.
VII
Ai, solidão: a morte no último vagão.
Um longo e irrespondido olhar
ou um entreparar
de vento em nosso vão lamento.
Ela em nós se debruça
e soluça
enquanto uma seresta se afasta
qual canção azul e sempre casta
que jamais esquecemos
e em nós sofremos
igual à lembrança da infância perdida.
Ou da vida.
VIII
Triste é o nosso sorrir.
Às vezes, chegar é o mesmo que partir.
Somos uma longa viagem
em que vamos perdendo rumo e paisagem.
E no silêncio final dos caminhos
estaremos sozinhos.
Por isso, em minha alma indormida
o sonho é como o apito de despedida
de um navio tragado em rodopio.
IX
Ônix da ausência
a solidão é a consciência
do pélago nas almas mais sofridas.
Chuva molhando o rosto dos suicidas
é uma loba uivando sob o frio,
ou o cinzento do estio.
É o canto da araponga ao meio-dia.
O sol da noite. A dor da poesia.
O medo de alguém na multidão.
Um ser a fugir da escuridão.
E vem de Alba-Longa, talvez. Ou de Castela.
Ou do sertão, na Cantiga do Vilela.
Ou das longínquas ilhas
além dos horizontes das Antilhas.
Mas estando tão longe fica em nós tão perto
que sentimos seu abismo abrir-se num deserto.
X
Oh, a solidão dos espelhos
e do mugir dos bois na madrugada!
Ó solidão — batentes de uma escada
em que dormitam sete escaravelhos.
E há uma flauta triste no final de tudo.
Uma súplica em dor num espírito mudo.
Ou o grito inesperado. O final da lida.
O inalcançado amor. A alma já perdida
de um bêbado num bar. Ou de alguém a buscar
as cousas que deveriam estar e nunca estão.
E um punhal invisível se ergue: a solidão.
A solidão de Édipo e Narciso.
A solidão que chega sem aviso
ferindo os seios de luar da Amada.
E treme na balada
que em nós, qual soluço, sossegou.
Ou é um grou
voando ao solstício
sobre a boca fatal de um precipício.
E tudo parece o sono da verdade
qual cavalo cego em meio à tempestade.
Ainda assim, tentamos atravessar os nossos rios
vendo, nas lanternas, o lento apagar-se dos últimos pavios.
1 544
Eduardo Bacelar
Brasília
Brasília que encanta, enfeitiça e amaldiçoa.
Não fora feita para ser habitada.
Seu único lago é artificial.
como tudo mais nesta capital.
Cidade do pôr de sol dos sete tons,
Mascarando a ansiedade vivida pelo dia
me envolve nas trevas da sua agonia.
Cidade onde prevalece o mentiroso até no céu.
Cidade dos Três falsos poderes:
Corrupção, interesse, cobiça.
Um misto de Brasil e hipocrisia.
Será o símbolo de nossa nação?
Cidade de patentes,
Cidade de indigentes.
Onde todos se conhecem,
Onde todos se odeiam.
Tem o céu estrelado,
Os crimes mascarados.
Capital decadente
de um pais ascendente.
Onde drogas substituem a falta de opção.
Murmúrios, a falta de ação.
Pobre de sua juventude sem coragem
De ver o erro e conserta-lo.
No passado, uma Brasília do futuro
que envelheceu rápido demais.
Brasília de um futuro,
Que já não existe mais.
Cidade isolada e desolada.
Encobre um grande mal que nos atiça
Da onde se conhece somente
O que os jornais querem mostrar.
Aqui querem decidir as nossas leis,
Perguntaram se eu as quero?
Leis e legados.
Mudados pôr poucos trocados.
Apertamentos parecem aumentar a distância
De um povo sem historia.
Que por alguma infelicidade do destino,
Veio aqui parar.
Quem pode de suas ruas foge,
Viaja não mais querendo voltar.
Sua forma a de um avião
que esperam em vão decolar.
Não fora feita para ser habitada.
Seu único lago é artificial.
como tudo mais nesta capital.
Cidade do pôr de sol dos sete tons,
Mascarando a ansiedade vivida pelo dia
me envolve nas trevas da sua agonia.
Cidade onde prevalece o mentiroso até no céu.
Cidade dos Três falsos poderes:
Corrupção, interesse, cobiça.
Um misto de Brasil e hipocrisia.
Será o símbolo de nossa nação?
Cidade de patentes,
Cidade de indigentes.
Onde todos se conhecem,
Onde todos se odeiam.
Tem o céu estrelado,
Os crimes mascarados.
Capital decadente
de um pais ascendente.
Onde drogas substituem a falta de opção.
Murmúrios, a falta de ação.
Pobre de sua juventude sem coragem
De ver o erro e conserta-lo.
No passado, uma Brasília do futuro
que envelheceu rápido demais.
Brasília de um futuro,
Que já não existe mais.
Cidade isolada e desolada.
Encobre um grande mal que nos atiça
Da onde se conhece somente
O que os jornais querem mostrar.
Aqui querem decidir as nossas leis,
Perguntaram se eu as quero?
Leis e legados.
Mudados pôr poucos trocados.
Apertamentos parecem aumentar a distância
De um povo sem historia.
Que por alguma infelicidade do destino,
Veio aqui parar.
Quem pode de suas ruas foge,
Viaja não mais querendo voltar.
Sua forma a de um avião
que esperam em vão decolar.
635
Batista de Lima
A casa de meu avô
A casa de meu avô
tem histórias que o vento
esqueceu nas cumeeiras
Traços traçam
amarelo de tempo
nas pessoas dos retratos
No chapéu de meu avô
o peso do esperar
pendurou-se nas abas
O último cachorro
deixou seu jeito no canto da porta
seu grito no longe da serra
e no susto dos bichos
Nos varais as marcas dos panos
se envergonham de nudez
Nos baús o cheiro dos lençóis
espera a vida
que se esvaiu pelas frechas
A casa de meu avô
é uma dor sem jeito
tem histórias que o vento
esqueceu nas cumeeiras
Traços traçam
amarelo de tempo
nas pessoas dos retratos
No chapéu de meu avô
o peso do esperar
pendurou-se nas abas
O último cachorro
deixou seu jeito no canto da porta
seu grito no longe da serra
e no susto dos bichos
Nos varais as marcas dos panos
se envergonham de nudez
Nos baús o cheiro dos lençóis
espera a vida
que se esvaiu pelas frechas
A casa de meu avô
é uma dor sem jeito
1 060
Argemiro de Paula Garcia Filho
Imola 1
Em Imola se imola
um sonho
um mito
um herói.
Em Imola se esfola
a pele
a carne
e dói,
como dói,
saber que a vida segue
ainda que o sonho acabe.
Mas se os sonhos são etéreos,
se os mitos são lendas
e os heróis tem sangue,
nos restam apenas
as mãos,
os calos,
as cãs,
resta-nos erguer o destino.
Porque as pirâmides foram erguidas
por homens
e os nossos heróis sempre morrem,
no final.
Macaé, 29/06/94
um sonho
um mito
um herói.
Em Imola se esfola
a pele
a carne
e dói,
como dói,
saber que a vida segue
ainda que o sonho acabe.
Mas se os sonhos são etéreos,
se os mitos são lendas
e os heróis tem sangue,
nos restam apenas
as mãos,
os calos,
as cãs,
resta-nos erguer o destino.
Porque as pirâmides foram erguidas
por homens
e os nossos heróis sempre morrem,
no final.
Macaé, 29/06/94
916
Antonio Roberval Miketen
Es Tarde para la Mañana
A Simone
Pobre pollito indefenso,
apoyado en la lata de basura,
en la descontracción de una chaqueta
de lujo, viniendo de una secreta
sibelina, más fina
que la piel humana.
En lo alto, las nubes
acaban de teñirse
en el amarillo de tu suavidad.
La tarde atardeció en la mañana.
Tus ojitos, todavia abiertos,
querían mis manos
en el dorso de tu plumón.
Querían que yo todavia
fuese niño, niño
que ofreciese mi inocencia
sólo para el niño
que piaba en ti.
Gentil era tu mansedumbre,
inclinada sobre una rosa rota,
pues descansabas tu eternidad
sobre un bouquet despreciado
por haberse marchitado.
Pero debajo de ti
cada pétalo todavía sangraba,
dejando una mancha de vino
en el descanso de tu vientre.
Fué cuando yo pasé,
ya estabas muerto cuando yo pasé
enamorado por el poniente,
olvidado de la mañana
que subía de tus ojitos.
Pobre pollito indefenso,
apoyado en la lata de basura,
en la descontracción de una chaqueta
de lujo, viniendo de una secreta
sibelina, más fina
que la piel humana.
En lo alto, las nubes
acaban de teñirse
en el amarillo de tu suavidad.
La tarde atardeció en la mañana.
Tus ojitos, todavia abiertos,
querían mis manos
en el dorso de tu plumón.
Querían que yo todavia
fuese niño, niño
que ofreciese mi inocencia
sólo para el niño
que piaba en ti.
Gentil era tu mansedumbre,
inclinada sobre una rosa rota,
pues descansabas tu eternidad
sobre un bouquet despreciado
por haberse marchitado.
Pero debajo de ti
cada pétalo todavía sangraba,
dejando una mancha de vino
en el descanso de tu vientre.
Fué cuando yo pasé,
ya estabas muerto cuando yo pasé
enamorado por el poniente,
olvidado de la mañana
que subía de tus ojitos.
638
Antonio Roberval Miketen
É Tarde para a Manhã
A Simone
Pobre pintinho indefeso,
encostado na lata de lixo,
na descontração de um casaco
de luxo, vindo de uma secreta
zibelina, mais fina
do que a pele humana.
No alto, as nuvens
acabam de tingir-se
no amarelo da tua maciez.
A tarde entardeceu na manhã.
Os teus olhinhos ainda abertos
queriam as minhas mãos
no dorso da tua penugem.
Queriam que eu ainda
fosse menino, menino
que oferecesse a minha inocência
só para a criança
que piava em ti.
Gentil era a tua mansidão,
debruçada sobre uma rosa rota,
pois descansavas a tua eternidade
sobre um buquê desprezado
por ser trazido de murcho.
Mas debaixo de ti
cada pétala ainda sangrava,
deixando uma mancha de vinho
no descanso do teu ventre.
Foi quando eu passei,
já estavas morto quando eu passei
enamorado pelo poente,
esquecido da manhã
que subia dos teus olhinhos.
Pobre pintinho indefeso,
encostado na lata de lixo,
na descontração de um casaco
de luxo, vindo de uma secreta
zibelina, mais fina
do que a pele humana.
No alto, as nuvens
acabam de tingir-se
no amarelo da tua maciez.
A tarde entardeceu na manhã.
Os teus olhinhos ainda abertos
queriam as minhas mãos
no dorso da tua penugem.
Queriam que eu ainda
fosse menino, menino
que oferecesse a minha inocência
só para a criança
que piava em ti.
Gentil era a tua mansidão,
debruçada sobre uma rosa rota,
pois descansavas a tua eternidade
sobre um buquê desprezado
por ser trazido de murcho.
Mas debaixo de ti
cada pétala ainda sangrava,
deixando uma mancha de vinho
no descanso do teu ventre.
Foi quando eu passei,
já estavas morto quando eu passei
enamorado pelo poente,
esquecido da manhã
que subia dos teus olhinhos.
826
Araripe Coutinho
O Amor Jaz
O amor jaz no cacto do jardim
e cada espinho exposto à luz do corpo
é um pedaço morto de cada um de nós
o corpo é feito de taças
- cheias e vazias -
vitrais de luas engolindo a noite
pousando gozos nas sombras das ruas,
Além das veias todo amor é sangue
sangue de um sorvete de solidão amarga
assim morrendo
assim tão suave inflama
dentro da alma
além da madrugada.
Rendidos já não buscamos a enseada
o sorvete que falo
vem das almas
das almas das mulheres nunca amadas
que sempre pelas taças
vertem lágrimas
e bebem gotas de amores mortos.
e cada espinho exposto à luz do corpo
é um pedaço morto de cada um de nós
o corpo é feito de taças
- cheias e vazias -
vitrais de luas engolindo a noite
pousando gozos nas sombras das ruas,
Além das veias todo amor é sangue
sangue de um sorvete de solidão amarga
assim morrendo
assim tão suave inflama
dentro da alma
além da madrugada.
Rendidos já não buscamos a enseada
o sorvete que falo
vem das almas
das almas das mulheres nunca amadas
que sempre pelas taças
vertem lágrimas
e bebem gotas de amores mortos.
1 328
José Armelim
A Vida é Esta
A vida abana, sacode
É um leque
A vida é esta
Queima, pica
É piri-[iri
Fogo a arder.
A vida é esta
Cifrão prá frente
Cifrão pra trás
Tudo a contar,
Descontar, conter.
A vida é esta
Um berlinde
Gira, rola,
Salta, desliza
Um ping-pong
Bate, resvala
A vida é esta.
Um elástico
Puxa, estica
Torce, dobra
A vida é esta.
Uma dança
Baila, rebola
Ginga, contorna
A vida é esta.
Um jogo
Disputa, goleia
Ganha, perde
A vida é esta.
Uma ferida
Amola, remói
Dói, dói, dói-dói...
E é assim a vida
Enfim, uma grande dor.
É um leque
A vida é esta
Queima, pica
É piri-[iri
Fogo a arder.
A vida é esta
Cifrão prá frente
Cifrão pra trás
Tudo a contar,
Descontar, conter.
A vida é esta
Um berlinde
Gira, rola,
Salta, desliza
Um ping-pong
Bate, resvala
A vida é esta.
Um elástico
Puxa, estica
Torce, dobra
A vida é esta.
Uma dança
Baila, rebola
Ginga, contorna
A vida é esta.
Um jogo
Disputa, goleia
Ganha, perde
A vida é esta.
Uma ferida
Amola, remói
Dói, dói, dói-dói...
E é assim a vida
Enfim, uma grande dor.
909
José Armelim
Augusta
A azáfama é enorme!
Corpos de olhar distante,
Submersos e deslocados.
Um a um, e por rotina,
Batem e chocam absortos
Na multidão solitária
Da rua que se despe,
Por detrás de qual biombo,
Onde se esconde a ansiedade.
Respiram extenuados
Gases, venenos fumados,
Monóxidas correntes, correntes
De toldos, gritos, pregões
De gente, de muitas gentes,
Numa osmose de ilusões!
Cruza, cruza, pára e olha
Pára e olha, cruza, cruza,
Uma mulher de blusa.
Revira, vira, depenica
Apalpa fruta, compra alguma
Gesticula pára e estuda.
Fecha os olhos de cansaço
Respira fundo, bem lá dentro
Trás fadiga no regaço.
Compra carne que está cara,
Pára e olha, apressa o passo.
Tique tique contrabaixo,
Rua acima, rua abaixo.
O tempo é pouco e escasso...
Corre sempre, gira gira
Já são horas de andar,
De fazer mais um jantar,
Pra depois ir trabalhar.
Mulher vende, mulher compra
Vira, vira. Enquanto dura,
Sai dinheiro, paga a conta,
Volta à rua, pára e olha,
Mira a avenida inundada
Todinha de lés a lés
Onde, por doido vaivém,
Não há lugar para os pés...
E volta de novo a casa
Onde renasce a canseira,
Onde floresce a fadiga.
Que nisto de trabalhar,
É sempre à mesma maneira
É sempre sempre a girar.
E em constante rodopio,
Suor banhando-lhe o rosto,
Maria lá se penteia.
É sempre desta maneira
A vida desta Maria!...
E, atrasada pró trabalho,
Lá vai Maria com pressa
Que, dentro do mesmo dia,
Um outro dia começa.
Corpos de olhar distante,
Submersos e deslocados.
Um a um, e por rotina,
Batem e chocam absortos
Na multidão solitária
Da rua que se despe,
Por detrás de qual biombo,
Onde se esconde a ansiedade.
Respiram extenuados
Gases, venenos fumados,
Monóxidas correntes, correntes
De toldos, gritos, pregões
De gente, de muitas gentes,
Numa osmose de ilusões!
Cruza, cruza, pára e olha
Pára e olha, cruza, cruza,
Uma mulher de blusa.
Revira, vira, depenica
Apalpa fruta, compra alguma
Gesticula pára e estuda.
Fecha os olhos de cansaço
Respira fundo, bem lá dentro
Trás fadiga no regaço.
Compra carne que está cara,
Pára e olha, apressa o passo.
Tique tique contrabaixo,
Rua acima, rua abaixo.
O tempo é pouco e escasso...
Corre sempre, gira gira
Já são horas de andar,
De fazer mais um jantar,
Pra depois ir trabalhar.
Mulher vende, mulher compra
Vira, vira. Enquanto dura,
Sai dinheiro, paga a conta,
Volta à rua, pára e olha,
Mira a avenida inundada
Todinha de lés a lés
Onde, por doido vaivém,
Não há lugar para os pés...
E volta de novo a casa
Onde renasce a canseira,
Onde floresce a fadiga.
Que nisto de trabalhar,
É sempre à mesma maneira
É sempre sempre a girar.
E em constante rodopio,
Suor banhando-lhe o rosto,
Maria lá se penteia.
É sempre desta maneira
A vida desta Maria!...
E, atrasada pró trabalho,
Lá vai Maria com pressa
Que, dentro do mesmo dia,
Um outro dia começa.
967
Antonio Roberval Miketen
It is Late to be Morning
For Simone
Poor little helpless baby chick,
leaning against the thrash can,
at ease in a coat of sheer luxury,
derived from a secret sable fur,
finer
than human skin.
High up, the clouds
are becoming the color
of the yellow of your softness.
The evening turned the morning late.
Your little eyes still open
want my hands
touching the back of your feathers.
They want me to be a small boy,
a small boy offering my innocence
to the little child that chirps inside you.
Sweet was your tameness
bent over a defeated rose,
while you rested your eternity
on a bouquet of roses, despised
because withered.
But under you each petal bleeded,
leaving a stain of wine
in the rniddle of your belly.
I then passed by,
you were already dead when I passed by
enamored of the sunset,
oblivious of the morning
that was rising in your little eyes.
Poor little helpless baby chick,
leaning against the thrash can,
at ease in a coat of sheer luxury,
derived from a secret sable fur,
finer
than human skin.
High up, the clouds
are becoming the color
of the yellow of your softness.
The evening turned the morning late.
Your little eyes still open
want my hands
touching the back of your feathers.
They want me to be a small boy,
a small boy offering my innocence
to the little child that chirps inside you.
Sweet was your tameness
bent over a defeated rose,
while you rested your eternity
on a bouquet of roses, despised
because withered.
But under you each petal bleeded,
leaving a stain of wine
in the rniddle of your belly.
I then passed by,
you were already dead when I passed by
enamored of the sunset,
oblivious of the morning
that was rising in your little eyes.
937
Antonio Roberval Miketen
Eight Song of Friendship
Close to the waves of the sea of Vigo
I come to remember a friend.
Birds shed feathers at the horizon
and the feathers, water from a spring
in Vigo, on the seaweeds
of the friend announce his delay.
From beyond comes, light as feathers,
the pain I do not want to lament.
But the svagulls fill with mist
the depth of my sorrow,
when, on the shores of the sea of Vigo
I come to remember a friend.
I come to remember a friend.
Birds shed feathers at the horizon
and the feathers, water from a spring
in Vigo, on the seaweeds
of the friend announce his delay.
From beyond comes, light as feathers,
the pain I do not want to lament.
But the svagulls fill with mist
the depth of my sorrow,
when, on the shores of the sea of Vigo
I come to remember a friend.
1 007
Antônio de Oliveira
Décima
Tanto Pirene chorou
Que em fonte se converteu:
Mas Diana que a ofendeu
Por que em fonte a transformou?
Porque como desejou
Ter uma fonte perene
(Qual a famosa Hipocrene)
De Pirene a fonte faz:
Porque no nome já traz
O ser perene Pirene.
Que em fonte se converteu:
Mas Diana que a ofendeu
Por que em fonte a transformou?
Porque como desejou
Ter uma fonte perene
(Qual a famosa Hipocrene)
De Pirene a fonte faz:
Porque no nome já traz
O ser perene Pirene.
1 273
Cláudio Alex
Para Ana
Conta-me o que houve...
Explica-me o cenário...
Onde você anda?
Como é que foi?
Sim, deve estar tudo escrito.
Devias ter um livro preto de anotações
com este meu.
É verdade, o infinito e violeta?
Como um mergulho direto ao espírito
que te tragou e levou para longe
e nos deixou sem palavras.
Não gosto demais do concreto.
Não saberia fazê-lo
na tua acidez sulfúrea,
teus dentes, teus óculos escuros.
E os dedos... o calo da escrita.
A caibra de horas insones,
redigindo textos diretos,
sem retoques, sem gavetas,
sem embalagem, diretos,
secos e sulfúreos.
Deixa-me escrever um epitáfio,
não morto, nem eterno.
Um epitáfio mudo,
uma lembrança apenas,
apenas aquilo de lembrar.
Apenas aquilo de lembrar
e que sempre me lembre,
para a minha vida e morte,
fora das espécies comuns,
e ao mesmo tempo com tudo,
como o ar que expande,
como a água que adapta.
E toda a umidade de ambos...
E toda a melancolia de ambos...
Ana Cristina César.
Explica-me o cenário...
Onde você anda?
Como é que foi?
Sim, deve estar tudo escrito.
Devias ter um livro preto de anotações
com este meu.
É verdade, o infinito e violeta?
Como um mergulho direto ao espírito
que te tragou e levou para longe
e nos deixou sem palavras.
Não gosto demais do concreto.
Não saberia fazê-lo
na tua acidez sulfúrea,
teus dentes, teus óculos escuros.
E os dedos... o calo da escrita.
A caibra de horas insones,
redigindo textos diretos,
sem retoques, sem gavetas,
sem embalagem, diretos,
secos e sulfúreos.
Deixa-me escrever um epitáfio,
não morto, nem eterno.
Um epitáfio mudo,
uma lembrança apenas,
apenas aquilo de lembrar.
Apenas aquilo de lembrar
e que sempre me lembre,
para a minha vida e morte,
fora das espécies comuns,
e ao mesmo tempo com tudo,
como o ar que expande,
como a água que adapta.
E toda a umidade de ambos...
E toda a melancolia de ambos...
Ana Cristina César.
810
Anderson Braga Horta
Balões
Por que é triste a beleza?
O belo perceptível
é uma ilusão de abraço
entre o aqui e o invisível.
É mera tentativa,
a beleza tocável,
de ponte — escassa e breve —
entre o real e o ilocável.
Por isso o belo é apenas
o sustentar de um dó,
e sua fruição
cabe num peito só.
É gesto solitário
antes que a ansiada união.
Arremedo de céu
que estoura ao rés do chão.
O belo perceptível
é uma ilusão de abraço
entre o aqui e o invisível.
É mera tentativa,
a beleza tocável,
de ponte — escassa e breve —
entre o real e o ilocável.
Por isso o belo é apenas
o sustentar de um dó,
e sua fruição
cabe num peito só.
É gesto solitário
antes que a ansiada união.
Arremedo de céu
que estoura ao rés do chão.
1 123
Alexandre Marino
Águas
pés na enxurrada
eu vou chovendo
enquanto o dia chora
e a vida
por dentro
me molha.
eu vou chovendo
enquanto o dia chora
e a vida
por dentro
me molha.
927
Antônio Massa
Revelação
Uma única testemunha;
emulsão chapeada
isolada no escuro
por quem me viu
A luztestemunha e tudo
fotografado
em sais de prata
banhados por breu
em busca
eu
do meu
reflexo
E quantos vi?
Papéis futilgráficos
retidos ao lixo,
e meus nitratos
sedentos de informação
A luz
cisão do meu ser,
das cópias negativas
di vi di da s
em minha dor
emulsão chapeada
isolada no escuro
por quem me viu
A luztestemunha e tudo
fotografado
em sais de prata
banhados por breu
em busca
eu
do meu
reflexo
E quantos vi?
Papéis futilgráficos
retidos ao lixo,
e meus nitratos
sedentos de informação
A luz
cisão do meu ser,
das cópias negativas
di vi di da s
em minha dor
991
Álvares de Azevedo
Terza Rima
É belo dentre a cinza ver ardendo
Nas mãos do fumador um bom cigarro,
Sentir o fumo em névoas recendendo,
Do cachimbo alemão no louro barro
Ver a chama vermelha estremecendo
E até... perdoem... respirar-lhe o sarro!
Porém o que há mais doce nesta vida,
O que das mágoas desvanece o luto
E dá som a uma alma empobrecida,
Palavra d’honra, és tu, ó meu charuto!
Nas mãos do fumador um bom cigarro,
Sentir o fumo em névoas recendendo,
Do cachimbo alemão no louro barro
Ver a chama vermelha estremecendo
E até... perdoem... respirar-lhe o sarro!
Porém o que há mais doce nesta vida,
O que das mágoas desvanece o luto
E dá som a uma alma empobrecida,
Palavra d’honra, és tu, ó meu charuto!
2 487
Álvares de Azevedo
Trindade
A vida é uma planta misteriosa
Cheia d’espinhos, negra de amarguras
Onde só abrem duas flores puras -
Poesia e amor...
E a mulher... é a nota suspirosa
Que treme d’alma a corda estremecida,
_É fada que nos leva além da vida
Pálidos de langor!
A poesia é a luz da mocidade,
O amor é o poema dos sentidos,
A febre dos momentos não dormidos
E o sonhar da ventura...
Voltai, sonhos de amor e de saudade!
Quero ainda sentir arder-me o sangue,
Os olhos turvos, o meu peito langue,
E morrer de ternura!
Cheia d’espinhos, negra de amarguras
Onde só abrem duas flores puras -
Poesia e amor...
E a mulher... é a nota suspirosa
Que treme d’alma a corda estremecida,
_É fada que nos leva além da vida
Pálidos de langor!
A poesia é a luz da mocidade,
O amor é o poema dos sentidos,
A febre dos momentos não dormidos
E o sonhar da ventura...
Voltai, sonhos de amor e de saudade!
Quero ainda sentir arder-me o sangue,
Os olhos turvos, o meu peito langue,
E morrer de ternura!
3 712
Antônio Massa
Réquiem
desta feita
morreu alguém por perto
Réquiem
no cinzento parque
sob o céu carrancudo
As mulheres seguem o corpo morto
e no quarto vazio restou a morte
fechando as cortinas
Senti
as flores ficaram mais leves
por um cérebro humano
E o agradável silêncio da tarde
o menino descalço sentado à porta
mastiga uvas
Quem permanece fiel
àquele que perde
Sem pressa com a morte
ninguém se parece com ninguém
os filhos pensam nos brinquedos
Sem despedidas nas partidas
isso é risível e censurável
Tradução de Aleksandar Jovanovic do poema do sérvio Miodrag Pávlovitch
para a coletânea Poesia Ioguslava Contemporânea.
morreu alguém por perto
Réquiem
no cinzento parque
sob o céu carrancudo
As mulheres seguem o corpo morto
e no quarto vazio restou a morte
fechando as cortinas
Senti
as flores ficaram mais leves
por um cérebro humano
E o agradável silêncio da tarde
o menino descalço sentado à porta
mastiga uvas
Quem permanece fiel
àquele que perde
Sem pressa com a morte
ninguém se parece com ninguém
os filhos pensam nos brinquedos
Sem despedidas nas partidas
isso é risível e censurável
Tradução de Aleksandar Jovanovic do poema do sérvio Miodrag Pávlovitch
para a coletânea Poesia Ioguslava Contemporânea.
825
Almeida Garrett
Tronco Despido (1828)
Virgílio,
Sine nomine corpus
Qual tronco despido
De folha e de flores,
Dos ventos batido
No inverno gelado
De ardentes queimores
No estio abrasado,
De nada sentido,
Que nada ele sente...
Assim ao prazer,
À dor indifrente,
Vão-me as horas da vida
Comprida
Correndo,
Vivendo,
Se é vida
Tam triste viver.
Sine nomine corpus
Qual tronco despido
De folha e de flores,
Dos ventos batido
No inverno gelado
De ardentes queimores
No estio abrasado,
De nada sentido,
Que nada ele sente...
Assim ao prazer,
À dor indifrente,
Vão-me as horas da vida
Comprida
Correndo,
Vivendo,
Se é vida
Tam triste viver.
3 113
Albano Dias Martins
Trapézio
Volúvel foi o nome escolhido para a entronização da festa. Para seu ornamento, a máscara.
Uma orquestra de violinos, disposta em ogiva, convocada para a lânguida coreografia dos sentidos, ensaiava, em todos os timbres, a prometida melodia dos gestos e das palavras sem fronteiras.
Quem olhasse atentamente em redor, na sala deserta, acharia por fim descomposta a mesa, esgarçada a toalha de linho do banquete, rotas as cordas dos violinos.
Só o trapezista, lá no alto, aguardava ainda o sinal anunciado para o início do seu número, inscrito no programa. O trapézio fora, porém, retirado a ocultas, e, sem rede, apenas lhe restava o salto no vazio. O salto mortal.
Uma orquestra de violinos, disposta em ogiva, convocada para a lânguida coreografia dos sentidos, ensaiava, em todos os timbres, a prometida melodia dos gestos e das palavras sem fronteiras.
Quem olhasse atentamente em redor, na sala deserta, acharia por fim descomposta a mesa, esgarçada a toalha de linho do banquete, rotas as cordas dos violinos.
Só o trapezista, lá no alto, aguardava ainda o sinal anunciado para o início do seu número, inscrito no programa. O trapézio fora, porém, retirado a ocultas, e, sem rede, apenas lhe restava o salto no vazio. O salto mortal.
968