Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Anderson Braga Horta
Balões
Por que é triste a beleza?
O belo perceptível
é uma ilusão de abraço
entre o aqui e o invisível.
É mera tentativa,
a beleza tocável,
de ponte — escassa e breve —
entre o real e o ilocável.
Por isso o belo é apenas
o sustentar de um dó,
e sua fruição
cabe num peito só.
É gesto solitário
antes que a ansiada união.
Arremedo de céu
que estoura ao rés do chão.
O belo perceptível
é uma ilusão de abraço
entre o aqui e o invisível.
É mera tentativa,
a beleza tocável,
de ponte — escassa e breve —
entre o real e o ilocável.
Por isso o belo é apenas
o sustentar de um dó,
e sua fruição
cabe num peito só.
É gesto solitário
antes que a ansiada união.
Arremedo de céu
que estoura ao rés do chão.
1 132
Álvares de Azevedo
Terza Rima
É belo dentre a cinza ver ardendo
Nas mãos do fumador um bom cigarro,
Sentir o fumo em névoas recendendo,
Do cachimbo alemão no louro barro
Ver a chama vermelha estremecendo
E até... perdoem... respirar-lhe o sarro!
Porém o que há mais doce nesta vida,
O que das mágoas desvanece o luto
E dá som a uma alma empobrecida,
Palavra d’honra, és tu, ó meu charuto!
Nas mãos do fumador um bom cigarro,
Sentir o fumo em névoas recendendo,
Do cachimbo alemão no louro barro
Ver a chama vermelha estremecendo
E até... perdoem... respirar-lhe o sarro!
Porém o que há mais doce nesta vida,
O que das mágoas desvanece o luto
E dá som a uma alma empobrecida,
Palavra d’honra, és tu, ó meu charuto!
2 516
Alexandre Marino
Águas
pés na enxurrada
eu vou chovendo
enquanto o dia chora
e a vida
por dentro
me molha.
eu vou chovendo
enquanto o dia chora
e a vida
por dentro
me molha.
937
Antônio Massa
Réquiem
desta feita
morreu alguém por perto
Réquiem
no cinzento parque
sob o céu carrancudo
As mulheres seguem o corpo morto
e no quarto vazio restou a morte
fechando as cortinas
Senti
as flores ficaram mais leves
por um cérebro humano
E o agradável silêncio da tarde
o menino descalço sentado à porta
mastiga uvas
Quem permanece fiel
àquele que perde
Sem pressa com a morte
ninguém se parece com ninguém
os filhos pensam nos brinquedos
Sem despedidas nas partidas
isso é risível e censurável
Tradução de Aleksandar Jovanovic do poema do sérvio Miodrag Pávlovitch
para a coletânea Poesia Ioguslava Contemporânea.
morreu alguém por perto
Réquiem
no cinzento parque
sob o céu carrancudo
As mulheres seguem o corpo morto
e no quarto vazio restou a morte
fechando as cortinas
Senti
as flores ficaram mais leves
por um cérebro humano
E o agradável silêncio da tarde
o menino descalço sentado à porta
mastiga uvas
Quem permanece fiel
àquele que perde
Sem pressa com a morte
ninguém se parece com ninguém
os filhos pensam nos brinquedos
Sem despedidas nas partidas
isso é risível e censurável
Tradução de Aleksandar Jovanovic do poema do sérvio Miodrag Pávlovitch
para a coletânea Poesia Ioguslava Contemporânea.
834
Anselmo Gonçalves
O Sangue da Terra é a Chuva
Ao Zé é o fim, vai-lhe faltando a crençae faz desfeita dura ao Padinciço:- Padim, cumé, vois tendi a disavençacum nóis caboco? Para já cum isso!...
Não chove há muito tempo, falta a águae falta tudo, falta o pranto até.Falta a farinha seca e sobra a mágoa,moça donzela foi-se ao mundo e a pé.
Morrendo o gado pelo pasto mortoos "avoantes" nisto, vão-se embora,o pau na caatinga está mais torto.
Matuto sábio bem curtindo a "uva"filosofando e claro e sem demora,- A terra não tem sangue, farta a chuva!
Não chove há muito tempo, falta a águae falta tudo, falta o pranto até.Falta a farinha seca e sobra a mágoa,moça donzela foi-se ao mundo e a pé.
Morrendo o gado pelo pasto mortoos "avoantes" nisto, vão-se embora,o pau na caatinga está mais torto.
Matuto sábio bem curtindo a "uva"filosofando e claro e sem demora,- A terra não tem sangue, farta a chuva!
921
Alfredo José Assunção
Mais uma Abstração
Não quero música.Não quero amor.Não quero tempo, espaço ...
Quero ficar aquiouvindo os carros,vendo o mar parado.
Sentindo os pingos frioscaindo-me nos pés,fechando-me as mãos.
Não quero intervir em nada.Quero apenas ser mais uma abstração.
Quero ficar aquiouvindo os carros,vendo o mar parado.
Sentindo os pingos frioscaindo-me nos pés,fechando-me as mãos.
Não quero intervir em nada.Quero apenas ser mais uma abstração.
704
Cláudio Alex
Para Ana
Conta-me o que houve...
Explica-me o cenário...
Onde você anda?
Como é que foi?
Sim, deve estar tudo escrito.
Devias ter um livro preto de anotações
com este meu.
É verdade, o infinito e violeta?
Como um mergulho direto ao espírito
que te tragou e levou para longe
e nos deixou sem palavras.
Não gosto demais do concreto.
Não saberia fazê-lo
na tua acidez sulfúrea,
teus dentes, teus óculos escuros.
E os dedos... o calo da escrita.
A caibra de horas insones,
redigindo textos diretos,
sem retoques, sem gavetas,
sem embalagem, diretos,
secos e sulfúreos.
Deixa-me escrever um epitáfio,
não morto, nem eterno.
Um epitáfio mudo,
uma lembrança apenas,
apenas aquilo de lembrar.
Apenas aquilo de lembrar
e que sempre me lembre,
para a minha vida e morte,
fora das espécies comuns,
e ao mesmo tempo com tudo,
como o ar que expande,
como a água que adapta.
E toda a umidade de ambos...
E toda a melancolia de ambos...
Ana Cristina César.
Explica-me o cenário...
Onde você anda?
Como é que foi?
Sim, deve estar tudo escrito.
Devias ter um livro preto de anotações
com este meu.
É verdade, o infinito e violeta?
Como um mergulho direto ao espírito
que te tragou e levou para longe
e nos deixou sem palavras.
Não gosto demais do concreto.
Não saberia fazê-lo
na tua acidez sulfúrea,
teus dentes, teus óculos escuros.
E os dedos... o calo da escrita.
A caibra de horas insones,
redigindo textos diretos,
sem retoques, sem gavetas,
sem embalagem, diretos,
secos e sulfúreos.
Deixa-me escrever um epitáfio,
não morto, nem eterno.
Um epitáfio mudo,
uma lembrança apenas,
apenas aquilo de lembrar.
Apenas aquilo de lembrar
e que sempre me lembre,
para a minha vida e morte,
fora das espécies comuns,
e ao mesmo tempo com tudo,
como o ar que expande,
como a água que adapta.
E toda a umidade de ambos...
E toda a melancolia de ambos...
Ana Cristina César.
818
Álvaro Feijó
Varina
Eu mudei de pincel e de paleta
— embora seja a mesma a tinta com que escrevo —
mas mudei, que, de repente,
surgiste diante de mim.
Não é que me perturbes, mas eu sinto
que alguma coisa me comove ao ver-te.
Não é que te examine, porque sei
que me é quase impossível,
que me é mesmo impossível descrever-te.
A tua história, sim? A história que se repete
e é sempre nova porque há sempre gente
que nunca a ouviu
ou que não a quis ouvir.
O cais viu-te nascer!
Corrias, loucamente, pelas retas
intermináveis dos paredões
de cimento e granito,
e em caixotes com cheiro de sardinha
fazias tabogan das lingüetas
— o tabogan dos parques infantis
que não pudeste ver.
Assim, faminta e seminua
mas livre como os peixes
fizeste-te mulher!
Depois foi o correr das ruas da cidade,
enrouquecendo a gritar:
— "Quem merca os camarões" ...
Depois um que voltou da Terra Nova
e te olhou como fera sequiosa
de carne,
quando o lugre, ao chegar, entrou na doca.
Depois o inevitável!
O luar...
A Senhora dAgonia...
A quentura de Agosto...
E, então,
não era só o peso da canastra,
era o peso dum filho
e a fome de dois para matar,
até que o lugre voltasse
e se esquecesse
o calvário da luta...
Um dia no intervalo da campanha
o sexo falou mais alto
e o coração calou.
Foste dum outro homem e, depois,
de dois,
de três.
Quando ele voltou
encontrou-te perdida
e tu perdeste-o.
Hoje, num outro porto, ainda gritas
o teu pregão.
Quando um homem te encontra fora de horas,
para ele foi sempre um bom encontro...
e. . . "até mais ver" ...
Vês! Eu sei a tua história...
(Há tantos que a não sabem!)
E, no entanto,
Dum homem só ou de cem,
num porto do meu país ou num porto de Islândia
Tu surgiste aos meus olhos
como a mesma mulher.
— embora seja a mesma a tinta com que escrevo —
mas mudei, que, de repente,
surgiste diante de mim.
Não é que me perturbes, mas eu sinto
que alguma coisa me comove ao ver-te.
Não é que te examine, porque sei
que me é quase impossível,
que me é mesmo impossível descrever-te.
A tua história, sim? A história que se repete
e é sempre nova porque há sempre gente
que nunca a ouviu
ou que não a quis ouvir.
O cais viu-te nascer!
Corrias, loucamente, pelas retas
intermináveis dos paredões
de cimento e granito,
e em caixotes com cheiro de sardinha
fazias tabogan das lingüetas
— o tabogan dos parques infantis
que não pudeste ver.
Assim, faminta e seminua
mas livre como os peixes
fizeste-te mulher!
Depois foi o correr das ruas da cidade,
enrouquecendo a gritar:
— "Quem merca os camarões" ...
Depois um que voltou da Terra Nova
e te olhou como fera sequiosa
de carne,
quando o lugre, ao chegar, entrou na doca.
Depois o inevitável!
O luar...
A Senhora dAgonia...
A quentura de Agosto...
E, então,
não era só o peso da canastra,
era o peso dum filho
e a fome de dois para matar,
até que o lugre voltasse
e se esquecesse
o calvário da luta...
Um dia no intervalo da campanha
o sexo falou mais alto
e o coração calou.
Foste dum outro homem e, depois,
de dois,
de três.
Quando ele voltou
encontrou-te perdida
e tu perdeste-o.
Hoje, num outro porto, ainda gritas
o teu pregão.
Quando um homem te encontra fora de horas,
para ele foi sempre um bom encontro...
e. . . "até mais ver" ...
Vês! Eu sei a tua história...
(Há tantos que a não sabem!)
E, no entanto,
Dum homem só ou de cem,
num porto do meu país ou num porto de Islândia
Tu surgiste aos meus olhos
como a mesma mulher.
1 633
Aleilton Fonseca
nova meditação sobre o tietê
"Águas do Tietê,
onde me queres levar?
- Rio que entras pela terra
e que me afastas do mar..."
(Mário de Andrade)
águas do tietê,
no jorro de tuas nascentes:
melhor ficassem paradas
em teus reflexos afluentes
tietê: índias águas verdadeiras
quando te chamavas anhembi
e tuas sinuosas ribeiras
guiavam um povo guarani
aquieta-te como lago,
esta pressa para que,
se adiante a luz de espelho
logo tu vais perder?
te insinuas por quilômetros
em teu leito decidido,
insisto no meu reclamo
mas descrês do meu aviso
segues murmurando marchas
incertas em certo destino
e mal sabes o destrato
dos esgotos mais íntimos
por teus caminhos indiretos
viajaram bandeirantes heris,
e agora bandeiam os dejetos
dos seus netos fabris
tuas águas conduziram à glória
os vencedores das regatas
nas linhas d’água da memória
da cidade que não te resgata
águas do tietê,
onde me queres levar?
- teu traçado e teu destino
não se casam com o mar...
exala antes que tarde
o aroma que será deposto!
em tua cor se resguarde
o teu sabor sem desgosto!
pois já te vão injetando
mais volume e vida a menos:
e nas tuas líquidas veias
os insanos vícios dos venenos
em tuas artérias aguascentes,
no percurso transformadas,
corre agora o pus demente:
e mal deságuas putrefatas
eis que te tornas plumas,
brancas formas cristalinas:
belo engano para os olhos,
e o odor corrói as narinas
há remédio mais perfeito
do que apenas uma lágrima,
se todos chorassem em teu leito,
lavando tuas águas da mácula
mas ninguém me escuta, corres
sem garças, só antíteses,
desde o lugar onde morres
até o pasto de lamas líquidas
águas do tietê,
onde me queres levar?
- eis as pontes e tudo é noite,
e muito longe dorme o mar...
te olho e não me vês, assim
em vão, corpo cego de águas:
em verso te afogo em mim,
em ti me afogo em mágoas...
aleilton fonseca, sp, 95
onde me queres levar?
- Rio que entras pela terra
e que me afastas do mar..."
(Mário de Andrade)
águas do tietê,
no jorro de tuas nascentes:
melhor ficassem paradas
em teus reflexos afluentes
tietê: índias águas verdadeiras
quando te chamavas anhembi
e tuas sinuosas ribeiras
guiavam um povo guarani
aquieta-te como lago,
esta pressa para que,
se adiante a luz de espelho
logo tu vais perder?
te insinuas por quilômetros
em teu leito decidido,
insisto no meu reclamo
mas descrês do meu aviso
segues murmurando marchas
incertas em certo destino
e mal sabes o destrato
dos esgotos mais íntimos
por teus caminhos indiretos
viajaram bandeirantes heris,
e agora bandeiam os dejetos
dos seus netos fabris
tuas águas conduziram à glória
os vencedores das regatas
nas linhas d’água da memória
da cidade que não te resgata
águas do tietê,
onde me queres levar?
- teu traçado e teu destino
não se casam com o mar...
exala antes que tarde
o aroma que será deposto!
em tua cor se resguarde
o teu sabor sem desgosto!
pois já te vão injetando
mais volume e vida a menos:
e nas tuas líquidas veias
os insanos vícios dos venenos
em tuas artérias aguascentes,
no percurso transformadas,
corre agora o pus demente:
e mal deságuas putrefatas
eis que te tornas plumas,
brancas formas cristalinas:
belo engano para os olhos,
e o odor corrói as narinas
há remédio mais perfeito
do que apenas uma lágrima,
se todos chorassem em teu leito,
lavando tuas águas da mácula
mas ninguém me escuta, corres
sem garças, só antíteses,
desde o lugar onde morres
até o pasto de lamas líquidas
águas do tietê,
onde me queres levar?
- eis as pontes e tudo é noite,
e muito longe dorme o mar...
te olho e não me vês, assim
em vão, corpo cego de águas:
em verso te afogo em mim,
em ti me afogo em mágoas...
aleilton fonseca, sp, 95
1 332
Antônio Fernando Guardado
Haicai
no hálito do planeta
ligeiro sopro desbotado
asfixia
fragmento de azul
no espelho das águas
as nuvens despedem-se
ligeiro sopro desbotado
asfixia
fragmento de azul
no espelho das águas
as nuvens despedem-se
899
Américo Gomes
Solstício
Tenho muito medo
De morrer de medo
De ficar sozinho
De morar sozinho
De perder carinho
De quem não me quer
Medo de escuro
De cair no muro
Trauma de tucano
De ser infeliz
E quem tanto quis
Munca me querer
Medo da vergonha
Que é sentir medo
Perder o afeto
De tantos amigos
De tantos amores
Medo de gozar
De ficar doente
De sonhar tão alto
E se espatifar
Medo que ninguem
Leia esse poema
Nem um fidebeque
O ego a chorar
E uma cascata
De medo, descendo
Na serra de medo
Que fica acolá
De morrer de medo
De ficar sozinho
De morar sozinho
De perder carinho
De quem não me quer
Medo de escuro
De cair no muro
Trauma de tucano
De ser infeliz
E quem tanto quis
Munca me querer
Medo da vergonha
Que é sentir medo
Perder o afeto
De tantos amigos
De tantos amores
Medo de gozar
De ficar doente
De sonhar tão alto
E se espatifar
Medo que ninguem
Leia esse poema
Nem um fidebeque
O ego a chorar
E uma cascata
De medo, descendo
Na serra de medo
Que fica acolá
882
Amadeu Fontana
Haicai
Despetala a rosa
o vento... Que desalento
na tarde chuvosa
Rosa, a rosa flor,
caída ao chão, esquecida,
lembra um pobre amor
o vento... Que desalento
na tarde chuvosa
Rosa, a rosa flor,
caída ao chão, esquecida,
lembra um pobre amor
966
Alex Bartalotti
Pensamentos esquecidos
Deixa eu poder te mostrar
os lindos castelos do lado de lá
os sonhos mais belos que o mar vai banhar
abraçados aos braços da luz do luar
Deixa eu poder lamentar
os pensamentos esquecidos que me fez faltar
os momentos deixados para o tempo gastar
os seus beijos derradeiros de tanto te amar
Deixa eu poder chorar
as lágrimas, harmonias e poesias
todas que um dia aspiravam te encantar
e que no dia você viu sem mesmo notar
Deixa eu poder reviver
aquele seu jeito mais lindo de ser
e quando no final mal pode se conter
as lágrimas que falam o que se vai sofrer
Mas vai garota, saibas esperar
fazes de tua beleza uma estrela a brilhar
enquanto esperas o mundo te mostrar
a constância do dia que você vai raiar
Vai, levante o rosto pois da vida é curto
o tempo de sorrir, e não há de chorar
A vida não perdoa e não olha pra trás
nos convence em destruir a nossa que jáz
Mas vai em frente, saiba se orgulhar
nossas águas já correram até o mais belo mar
nossas mágoas já merreram ao último olhar
mas nosso amor jamais merecia se separar
Pôr isso se um dia seu coração se emocionar
por alguma semente trazida pelo vento
anseies de um dia ela desabrochar
legado de meu contentamento.
os lindos castelos do lado de lá
os sonhos mais belos que o mar vai banhar
abraçados aos braços da luz do luar
Deixa eu poder lamentar
os pensamentos esquecidos que me fez faltar
os momentos deixados para o tempo gastar
os seus beijos derradeiros de tanto te amar
Deixa eu poder chorar
as lágrimas, harmonias e poesias
todas que um dia aspiravam te encantar
e que no dia você viu sem mesmo notar
Deixa eu poder reviver
aquele seu jeito mais lindo de ser
e quando no final mal pode se conter
as lágrimas que falam o que se vai sofrer
Mas vai garota, saibas esperar
fazes de tua beleza uma estrela a brilhar
enquanto esperas o mundo te mostrar
a constância do dia que você vai raiar
Vai, levante o rosto pois da vida é curto
o tempo de sorrir, e não há de chorar
A vida não perdoa e não olha pra trás
nos convence em destruir a nossa que jáz
Mas vai em frente, saiba se orgulhar
nossas águas já correram até o mais belo mar
nossas mágoas já merreram ao último olhar
mas nosso amor jamais merecia se separar
Pôr isso se um dia seu coração se emocionar
por alguma semente trazida pelo vento
anseies de um dia ela desabrochar
legado de meu contentamento.
929
Anselmo Gonçalves
O Jogo
O jogo, uma ilusão que ao tempo passae eu passo o tempo e sem saber porquênão vejo sobre a mesa a sua graçae os jogos seus que todo mundo vê.
Há turbação, minha alma já prevênas sombras do suplício uma ameaça,que vem de dentro, dentro de vocêfazendo do meu jogo uma devassa.
E jogo as cartas todas pelo chão.Faço trapaça com meu jogo falhovocê espia, corta e esconde a mão.
No pano verde o crupiê confere,escamoteio e vou, rei do baralho,morrendo ao ás da espada que me fere!
Há turbação, minha alma já prevênas sombras do suplício uma ameaça,que vem de dentro, dentro de vocêfazendo do meu jogo uma devassa.
E jogo as cartas todas pelo chão.Faço trapaça com meu jogo falhovocê espia, corta e esconde a mão.
No pano verde o crupiê confere,escamoteio e vou, rei do baralho,morrendo ao ás da espada que me fere!
911
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Todo Dia
Todo dia
Pedaços de mim
Em esgotos.
Toda noite
A alma triste
E o desgosto.
No rio final
Afinal o encontro:
Esgotos, desgostos.
Pedaços de mim
Em esgotos.
Toda noite
A alma triste
E o desgosto.
No rio final
Afinal o encontro:
Esgotos, desgostos.
814
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Sempre em Todos na Manhã
Sempre em todos na manhã
A noite na face
De manhã
Ao meio-dia, à tarde,
À noite,
A noite na face.
Nos profundos
E magoados olhos fundos
A noite.
Na noite,
Pleno encontro de tudo,
De todos.
A noite na face
De manhã
Ao meio-dia, à tarde,
À noite,
A noite na face.
Nos profundos
E magoados olhos fundos
A noite.
Na noite,
Pleno encontro de tudo,
De todos.
801
Antero Coelho Neto
Agora Tenho que Partir
Agora tenho de partir
para longe e sempre
sem nunca mais voltar.
Eu devo novamente fugir
como tantas vezes durante a vida
indo embora sem chorar
depois de outra luta perdida.
Parto mas hoje eu sei
que jamais voltarei
aqui ou a qualquer lugar.
para longe e sempre
sem nunca mais voltar.
Eu devo novamente fugir
como tantas vezes durante a vida
indo embora sem chorar
depois de outra luta perdida.
Parto mas hoje eu sei
que jamais voltarei
aqui ou a qualquer lugar.
1 277
Adriana Lustosa
Tenho que esperar
Tenho que esperar
o outono
o sopro divino
que o intransitivo verbo
se complete.
Esperar, esperar
o sorriso cotidiano
um sentido
Me espera!
Finge que me ama
e solta o trilho
do trem que vem vazio
Você dispara o revólver
e acerta o futuro
ficamos
eu, na corda bamba
você, no muro.
E se falhar o amor
que outra fantasia invento?
E se o lobo ávido
der comigo sedenta e ambigua
e não me reconhecer?
Se falhar o construção
aproveito-me da linguagem:
minto.
Soa falso esse sino
Blém blém no meu peito
No meu peito esse sino
Blém, blém. Blém, blém.
O peito campanério de um amor suspeito
Aflita fico.
Soa falso esse sino
Blém bém no meu peito.
De amores morreu Dolores;
das cores, das dores,
da vida levou flores.
Não vinga a vida:
Morre Dolores.
No peito um amor quase sem cor;
quase dor,
flor despetalando sem perdão.
De luto espero aflito pelo seu caixão.
Na noite enluarada sinto frio.
mato Dolores dentro de mim
e conheço Augusta.
o outono
o sopro divino
que o intransitivo verbo
se complete.
Esperar, esperar
o sorriso cotidiano
um sentido
Me espera!
Finge que me ama
e solta o trilho
do trem que vem vazio
Você dispara o revólver
e acerta o futuro
ficamos
eu, na corda bamba
você, no muro.
E se falhar o amor
que outra fantasia invento?
E se o lobo ávido
der comigo sedenta e ambigua
e não me reconhecer?
Se falhar o construção
aproveito-me da linguagem:
minto.
Soa falso esse sino
Blém blém no meu peito
No meu peito esse sino
Blém, blém. Blém, blém.
O peito campanério de um amor suspeito
Aflita fico.
Soa falso esse sino
Blém bém no meu peito.
De amores morreu Dolores;
das cores, das dores,
da vida levou flores.
Não vinga a vida:
Morre Dolores.
No peito um amor quase sem cor;
quase dor,
flor despetalando sem perdão.
De luto espero aflito pelo seu caixão.
Na noite enluarada sinto frio.
mato Dolores dentro de mim
e conheço Augusta.
1 030
Arita Damasceno Pettená
Tarde demais
Tarde demais
Era frio, muito frio .
Frio na tarde, frio em mim..
Olhos em pranto,
Alma em desencanto,
Parti a caminhar .
E no melancólico crepúsculo,
Ouvi uma voz que dizia :
Esqueça !
ConTinuei a caminhada .
Era noite, muito noite então .
Estrelas perfilavam o firmamento,
Num brilho nostálgico o solitário .
E dentro da noite vazia,
Rosto banhado em luar,
Ouvi outra voz que dizia :
Perdoa !
Prossegui a cavalgada .
E já não havia mágoa
E nem mais ressentimento .
Foi quando então o coração falou :
Volta !
Voltei .
Mas era tarde,
Muito tarde então .
Nunca mais o encontrei!
Era frio, muito frio .
Frio na tarde, frio em mim..
Olhos em pranto,
Alma em desencanto,
Parti a caminhar .
E no melancólico crepúsculo,
Ouvi uma voz que dizia :
Esqueça !
ConTinuei a caminhada .
Era noite, muito noite então .
Estrelas perfilavam o firmamento,
Num brilho nostálgico o solitário .
E dentro da noite vazia,
Rosto banhado em luar,
Ouvi outra voz que dizia :
Perdoa !
Prossegui a cavalgada .
E já não havia mágoa
E nem mais ressentimento .
Foi quando então o coração falou :
Volta !
Voltei .
Mas era tarde,
Muito tarde então .
Nunca mais o encontrei!
1 151
Giuseppe Ungaretti
À MEMÓRIA DE
Chamava-se
Maomé Cheabe
Descendente
dos emires dos nómadas
suicida
porque não tinha já
pátria
Amou a França
e mudou de nome
Foi Marcel
mas não era francês
e não sabia já
viver
na tenda dos seus
onde se escuta a cantilena
do Corão
saboreando um café
E não sabia soltar
o canto
do seu abandono
Acompanhei-o
junto com a patroa do hotel
onde habitávamos
em Paris
no nº 5 da Rue des Carmes
murcha viela em descida
Repousa
no cemitério de Ivry
subúrbio que parece
sempre em dia
de uma
feira levantada.
E talvez eu só
ainda saiba
que viveu.
Maomé Cheabe
Descendente
dos emires dos nómadas
suicida
porque não tinha já
pátria
Amou a França
e mudou de nome
Foi Marcel
mas não era francês
e não sabia já
viver
na tenda dos seus
onde se escuta a cantilena
do Corão
saboreando um café
E não sabia soltar
o canto
do seu abandono
Acompanhei-o
junto com a patroa do hotel
onde habitávamos
em Paris
no nº 5 da Rue des Carmes
murcha viela em descida
Repousa
no cemitério de Ivry
subúrbio que parece
sempre em dia
de uma
feira levantada.
E talvez eu só
ainda saiba
que viveu.
1 635
Adailton Medeiros
Auto-retrato
Diante do espelho grande do tempo
sinto asco
tenho ódio
descubro que não sou mais menino
Aos 50 anos (hoje — 16 / 7 / 88 (câncer) sábado — e sempre
com medo olhando para trás e para os lados)
questiono-me (lagarto sem rabo):
— como deve ser bom
nascer crescer envelhecer e morrer
Diante do espelho grande na porta
(o nascido no jirau: meu nobre catre) choro-me:
feto asno velhote pétreo ser incomunicável
sem qualquer detalhe que eu goste
(Um espermatozóide feio e raquítico)
Como nas cartas do tarô onde me leio
— eis-me aqui espelho grande quebrado ao meio
sinto asco
tenho ódio
descubro que não sou mais menino
Aos 50 anos (hoje — 16 / 7 / 88 (câncer) sábado — e sempre
com medo olhando para trás e para os lados)
questiono-me (lagarto sem rabo):
— como deve ser bom
nascer crescer envelhecer e morrer
Diante do espelho grande na porta
(o nascido no jirau: meu nobre catre) choro-me:
feto asno velhote pétreo ser incomunicável
sem qualquer detalhe que eu goste
(Um espermatozóide feio e raquítico)
Como nas cartas do tarô onde me leio
— eis-me aqui espelho grande quebrado ao meio
944
Antero Coelho Neto
A Criança do meu Passado
A criança chorou longe,
enquanto o tempo de hoje
se fez presente em mim.
Assim o fato de agora
perturba o homem em si
e a criança chora longe.
Sinto o choro distante,
cada vez mais, na imagem
do passado que lembro.
São soluços e são gritos
de fome, raiva e desespero
que hoje ainda persistem.
São diferentes os sentimentos,
mas continuam os mesmos
soluços e gritos da alma.
A criança de ontem
perde-se muito na lembrança,
mas é a mesma que chora agora
enquanto o tempo de hoje
se fez presente em mim.
Assim o fato de agora
perturba o homem em si
e a criança chora longe.
Sinto o choro distante,
cada vez mais, na imagem
do passado que lembro.
São soluços e são gritos
de fome, raiva e desespero
que hoje ainda persistem.
São diferentes os sentimentos,
mas continuam os mesmos
soluços e gritos da alma.
A criança de ontem
perde-se muito na lembrança,
mas é a mesma que chora agora
1 502
Amândio César
Que Hora é Esta?
É em vão que o sol doura
As asperezas da terra:
Secou na seara loura
Toda a esperança que ela encerra.
Baldadas todas as horas,
Todos os passos sem fim.
Murchou de vez o alecrim,
Secaram roxas amoras.
É quente a água das fontes,
Escalda o sangue nas veias:
São de fogo os grãos de areias
E as pragas negras dos montes.
Para quê lutar ainda
Numa luta sem sentido?
Sofre-se por se ter sofrido
Esta angústia que não finda.
Angústia que sobe à boca
Que amarga como a amargura
— Existência mal segura,
Fazenda que mal dá roupa.
Cansaram-se assim de tudo,
Todos nos pesam demais
— Os poetas são jograis
E o seu cantar quase mudo.
As asperezas da terra:
Secou na seara loura
Toda a esperança que ela encerra.
Baldadas todas as horas,
Todos os passos sem fim.
Murchou de vez o alecrim,
Secaram roxas amoras.
É quente a água das fontes,
Escalda o sangue nas veias:
São de fogo os grãos de areias
E as pragas negras dos montes.
Para quê lutar ainda
Numa luta sem sentido?
Sofre-se por se ter sofrido
Esta angústia que não finda.
Angústia que sobe à boca
Que amarga como a amargura
— Existência mal segura,
Fazenda que mal dá roupa.
Cansaram-se assim de tudo,
Todos nos pesam demais
— Os poetas são jograis
E o seu cantar quase mudo.
1 058