Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Liz Christine
Dor
Sozinha e vulnerável
A dor é intragável
E é patética essa poesia
Não, na falta de companhia
Nem existe poesia
Arte é relação
E quanto mais pessoas à minha volta
Mais eu me sinto entregue
À solidão
E nem há ódio nem revolta
Que a inércia me carregue
Nada faço em depressão
Quero o prazer de viver de volta
Porque arte é paixão
Que sustenta e alimenta
O desejo
De viver e criar
E quando me vejo
Chorando
Amar
Anulando
A angústia e o vazio
Porque amor é o sentido
E sem ele nada crio
E ele é você
Meu amor pervertido
Agora você lê
O que prefiro esconder
Os fetiches? A depravação?
Eu preciso dizer
Que onde há paixão
Não existe nunca depravação
Baixaria
Não é fuder amando
Nem escrever poesia
Estando
Nua
Baixaria
É chorar
O sofrimento sempre me parece
Vulgar
E só amor me abastece
Para criar
Odeio a dor
E adoro me expor
Para me enxergar
E me conhecer
Florescer
Tão
Perfumada
Mergulhada
Em paixão
Venha à tona
Poesia
Aroma
Que me guia
Se não estou apaixonada
Eu me sinto desnorteada
A dor é intragável
E é patética essa poesia
Não, na falta de companhia
Nem existe poesia
Arte é relação
E quanto mais pessoas à minha volta
Mais eu me sinto entregue
À solidão
E nem há ódio nem revolta
Que a inércia me carregue
Nada faço em depressão
Quero o prazer de viver de volta
Porque arte é paixão
Que sustenta e alimenta
O desejo
De viver e criar
E quando me vejo
Chorando
Amar
Anulando
A angústia e o vazio
Porque amor é o sentido
E sem ele nada crio
E ele é você
Meu amor pervertido
Agora você lê
O que prefiro esconder
Os fetiches? A depravação?
Eu preciso dizer
Que onde há paixão
Não existe nunca depravação
Baixaria
Não é fuder amando
Nem escrever poesia
Estando
Nua
Baixaria
É chorar
O sofrimento sempre me parece
Vulgar
E só amor me abastece
Para criar
Odeio a dor
E adoro me expor
Para me enxergar
E me conhecer
Florescer
Tão
Perfumada
Mergulhada
Em paixão
Venha à tona
Poesia
Aroma
Que me guia
Se não estou apaixonada
Eu me sinto desnorteada
1 010
Agostina Akemi Sasaoka
Entranhas
O sorriso caiu.
Entre as pétalas de mim:
o cio.
Esperma aos farelos.
A lua bóia na taça de sangue.
Entre os sopros selvagens,
tórridos toques
(sinceros como um cadáver).
Com os dedos enfiados no vento,
quero lamber a liberdade.
Já esfacelei minhas lágrimas...
Enquanto o sol
baba sobre mim,
vou varrendo minha sombra
com restos de beijos...
A esperança dormiu.
Entre os subúrbios de mim:
a dor.
Bolhas de areia,
cacos de suor...
Há bolor nas estrelas.
Eis-me pecado!
Eis-me boca!
Pouca coisa:
alfinetes incendiados.
O amor vai pingando sobre o telhado,
amargo enquanto vocábulo:
deserto parido.
A vida é um estupro:
nasci para morrer.
Renascer das cinzas,
das sobras,
das teias...
Vou lutar até o orgasmo.
A noite
arrotou.
Assim seja,
assim sangre...
Entre a poeira de mim:
o prazer.
Caroço de paixão.
Vou morrer...
Vou morrer... Mas é só para te humilhar.
Vem...
Degola meu cheiro.
Não sou mulher,
sou distanásia.
Entre as pétalas de mim:
o cio.
Esperma aos farelos.
A lua bóia na taça de sangue.
Entre os sopros selvagens,
tórridos toques
(sinceros como um cadáver).
Com os dedos enfiados no vento,
quero lamber a liberdade.
Já esfacelei minhas lágrimas...
Enquanto o sol
baba sobre mim,
vou varrendo minha sombra
com restos de beijos...
A esperança dormiu.
Entre os subúrbios de mim:
a dor.
Bolhas de areia,
cacos de suor...
Há bolor nas estrelas.
Eis-me pecado!
Eis-me boca!
Pouca coisa:
alfinetes incendiados.
O amor vai pingando sobre o telhado,
amargo enquanto vocábulo:
deserto parido.
A vida é um estupro:
nasci para morrer.
Renascer das cinzas,
das sobras,
das teias...
Vou lutar até o orgasmo.
A noite
arrotou.
Assim seja,
assim sangre...
Entre a poeira de mim:
o prazer.
Caroço de paixão.
Vou morrer...
Vou morrer... Mas é só para te humilhar.
Vem...
Degola meu cheiro.
Não sou mulher,
sou distanásia.
918
Liz Christine
Meu chocolate
Ao leite ou derretido
Com passas ou crocante
Puro ou pervertido
Com recheio
É excitante
Eu saboreio
Te mordo
E meu corpo todo
Lambuzada
Chocolate
Fina arte
Transformada
Misturada
Ao sabor supremo
Meu chocolate
Meu veneno
Você é arte
Só você extermina
Minha melancolia
Você, serotonina
Que me vicia
Com passas ou crocante
Puro ou pervertido
Com recheio
É excitante
Eu saboreio
Te mordo
E meu corpo todo
Lambuzada
Chocolate
Fina arte
Transformada
Misturada
Ao sabor supremo
Meu chocolate
Meu veneno
Você é arte
Só você extermina
Minha melancolia
Você, serotonina
Que me vicia
968
Douglas Mondo
Puta-Maria
Infeliz vai sentida:
mal sabe o papel
que tem na vida.
Dar prazer e guarida;
do amor ser sossego
a quem nunca teve partida.
Do suor fazer tempero,
e da flor nunca ter afago;
doutro corpo o acre-cheiro.
O gozo presente negado,
e na pele o rasgo nu;
por amor algum trocado.
Infeliz vai adormecida;
pela paga não tem fome,
é gruta santa da forte cuspida.
É Maria,
é Puta-Maria,
é santa
da putaria.
mal sabe o papel
que tem na vida.
Dar prazer e guarida;
do amor ser sossego
a quem nunca teve partida.
Do suor fazer tempero,
e da flor nunca ter afago;
doutro corpo o acre-cheiro.
O gozo presente negado,
e na pele o rasgo nu;
por amor algum trocado.
Infeliz vai adormecida;
pela paga não tem fome,
é gruta santa da forte cuspida.
É Maria,
é Puta-Maria,
é santa
da putaria.
1 169
Levi Bucalem Ferrari
Afeto
Como demonstrar afeto no espaço contido?
É preciso muita sutileza
Olhares vagos
Palavras tímidas
Gestos quase gestos
E no entanto
Há um intenso
Por enquanto tenso
Olhar imenso
Infelizmente imerso
No universo
Do contido
O grito litro de sangue do afeto perdido
O leite derramado no leito solitário
A pele atrai a pele
Como o olhar o olhar
Enquanto desce o decote
Lentamente
Discretamente
Infelizmente
A vida é mente
A vida mente
Avidamente
E a morte vence
No espaço do contido
Obviamente
É preciso muita sutileza
Olhares vagos
Palavras tímidas
Gestos quase gestos
E no entanto
Há um intenso
Por enquanto tenso
Olhar imenso
Infelizmente imerso
No universo
Do contido
O grito litro de sangue do afeto perdido
O leite derramado no leito solitário
A pele atrai a pele
Como o olhar o olhar
Enquanto desce o decote
Lentamente
Discretamente
Infelizmente
A vida é mente
A vida mente
Avidamente
E a morte vence
No espaço do contido
Obviamente
838
Fernando Correia Pina
Fado da Serafina
Por trás ou pela frente, é indiferente.
Na boca ou entre as mamas, é trabalho
e a quem disser que gozo doidamente
o foda eternamente um bom caralho.
O leite que bebi azedou todo,
a carne que comi não soube a nada
e é sempre a mesma coisa quando fodo,
a ensossa fast-foda requentada.
Envelhecida, triste e sifilítica,
do bar de luxo fui para o passeio
e do passeio passei à beira-estrada
e hoje a cona me ralha apocalíptica -
pega por pega, antes foras política,
puta por puta, mil vezes deputada.
Na boca ou entre as mamas, é trabalho
e a quem disser que gozo doidamente
o foda eternamente um bom caralho.
O leite que bebi azedou todo,
a carne que comi não soube a nada
e é sempre a mesma coisa quando fodo,
a ensossa fast-foda requentada.
Envelhecida, triste e sifilítica,
do bar de luxo fui para o passeio
e do passeio passei à beira-estrada
e hoje a cona me ralha apocalíptica -
pega por pega, antes foras política,
puta por puta, mil vezes deputada.
1 564
Anjo Hazel
Façamos um trato esta noite
Façamos um trato esta noite... não sejamos tão realistas.
Você geme e suspira, eu ouço
enquanto minha boca te explora como louco
flutuando em luas surrealistas.
Façamos um trato esta noite... efêmera é esta carne que nos lacra.
O tempo pára enquanto te despes.
O mundo desaba quando te vestes.
Ama-me antes que o pudor te rasgue como faca.
Façamos um trato esta noite... as lágrimas são cristais do coração.
Eu sinto o fel em teus lábios maculados.
Vejo o abismo de teus olhos mascarados
que se escondem atrás de tormentos vãos...
Façamos um trato esta noite... não adianta fugir da própria vida !
Ainda temes a flor pelos espinhos.
Ainda crês que terminaremos sozinhos.
E o amor é não mais que uma mentira.
Façamos um trato esta noite... prometo te convencer na quietude
que o amor ideal é ao desfolhar dos dias
a felicidade nublando nosso ódio
e ter consigo sempre esta virtude.
Você geme e suspira, eu ouço
enquanto minha boca te explora como louco
flutuando em luas surrealistas.
Façamos um trato esta noite... efêmera é esta carne que nos lacra.
O tempo pára enquanto te despes.
O mundo desaba quando te vestes.
Ama-me antes que o pudor te rasgue como faca.
Façamos um trato esta noite... as lágrimas são cristais do coração.
Eu sinto o fel em teus lábios maculados.
Vejo o abismo de teus olhos mascarados
que se escondem atrás de tormentos vãos...
Façamos um trato esta noite... não adianta fugir da própria vida !
Ainda temes a flor pelos espinhos.
Ainda crês que terminaremos sozinhos.
E o amor é não mais que uma mentira.
Façamos um trato esta noite... prometo te convencer na quietude
que o amor ideal é ao desfolhar dos dias
a felicidade nublando nosso ódio
e ter consigo sempre esta virtude.
1 422
Helga Holtz
Ausente
Ele dorme ausente dos meus olhos abertos,
guarda para si paisagens que desejo sonhar.
Sob pálpebras alvas de tecido sonolento
percebo o claro volume genital do seu olhar.
Desejo amparo de algum sono, quero fugir
do olho molhado, vermelho, recém-acordado,
intumescido de sono e que me espia chorar.
guarda para si paisagens que desejo sonhar.
Sob pálpebras alvas de tecido sonolento
percebo o claro volume genital do seu olhar.
Desejo amparo de algum sono, quero fugir
do olho molhado, vermelho, recém-acordado,
intumescido de sono e que me espia chorar.
969
Liz Christine
Plágio
Puta que pariu
Que vazio imbecil
Este poema fede
Mas meu humor impede
Algo mais sutil
Não sei o motivo
Desse mal progressivo
Cresce a cada dia
Sujando minha poesia
Me sinto mal
incompleta e desigual
Não sei o que quero
E farei um plágio sincero
Não um plágio, uma adaptação
É minha visão
De um poema conhecido
Adorado e adaptado
À minha realidade
atual de confusão
e perplexidade
Vou-me embora pro Puteiro
Sexo sem amor
Preciso de dinheiro
O país está um horror
Minha mãe não mais aguenta
Meu pai não me sustenta
Poesia não alimenta
Nada, além do desejo de viver
E viver me atormenta
Só homens vou atender
Assim nunca vou me apaixonar
Vou trepar sem beijar
Que vazio imbecil
Este poema fede
Mas meu humor impede
Algo mais sutil
Não sei o motivo
Desse mal progressivo
Cresce a cada dia
Sujando minha poesia
Me sinto mal
incompleta e desigual
Não sei o que quero
E farei um plágio sincero
Não um plágio, uma adaptação
É minha visão
De um poema conhecido
Adorado e adaptado
À minha realidade
atual de confusão
e perplexidade
Vou-me embora pro Puteiro
Sexo sem amor
Preciso de dinheiro
O país está um horror
Minha mãe não mais aguenta
Meu pai não me sustenta
Poesia não alimenta
Nada, além do desejo de viver
E viver me atormenta
Só homens vou atender
Assim nunca vou me apaixonar
Vou trepar sem beijar
1 184
Vicent Andrés Estellés
Tot açò que ja no pot ser
Et besaria lentament,
et soltaria els cabells,
tacariciaria els muscles,
tagafaria el cap
per a besar-te dolçament,
estimada meua, dolça meua,
i sentir-te, encara més nina,
més nina encara sota les mans,
dessota els pèls del meu pit
i sota els pèls de lengonal,
i sentir-te sota el meu cos,
amb els grans ulls oberts,
més que entregada confiada,
feliç dins els meus abraços.
Et veuria anar, tota nua,
anant i tornant per la casa,
tot açò que ja no pot ser.
Sóc a punt de dir el teu nom,
sóc a punt de plorar-lo
i descriurel per les parets,
adorada meua, petita.
Si em desperte, a les nits,
em desperte pensant en tu,
en el teu daurat i petit cos.
Testimaria, tadoraria
fins a emplenar la teua pell,
fins a emplenar tot el teu cos
de petites besades cremants.
És un amor total i trist
el que sent per tu, criatura,
un amor que memplena les hores
totalement amb el record
de la teua figura alegre i àgil.
No deixe de pensar en tu,
em pregunte on estaràs,
voldria saber què fas,
i arribe a la desesperació.
Com testime! Em destrosses,
tacariciaria lentament,
amb una infinita tendresa,
i no deixaria al teu cos
cap lloc sense la meua carícia,
petita meua, dolça meua,
aliena probablement
a lamor que jo sent per tu,
tan adorable! Timagine
tèbia i nua, encara innocent,
vacil.lant, i ja decidida,
amb les meues mans als teus muscles,
revoltant-te els cabells,
agafant-te per la cintura
o obrint-te les cames,
fins a fer-te arribar, alhora,
amb gemecs i retrocessos,
a lespasme lent del vici;
fins a sentir-te enfollir,
una instantània follia:
tot açò que ja no pot ser,
petita meua, dolça meua.
Et recorde i estic plorant
i sent una tristesa enorme,
voldria ésser ara al llit,
sentir el teu cos prop del meu,
el cos teu, dolç i fredolic,
amb un fred de col.legiala,
encollida, espantada; vull
estar amb tu mentre dorms,
el teu cul graciós i dur,
la teua adorable proximitat,
fregar-te a penes, despertar-te,
despertar-me damunt el teu cos,
tot açò que ja no pot ser.
Et mire, i sense que tu ho sàpies,
mentre et tinc al meu davant
i testrenyc, potser, la mà,
tevoque en altres territoris
on mai havem estat;
contestant les teues paraules,
visc una ègloga dolcíssima,
amb el teu cos damunt una catifa,
damunt els taulells del pis,
a la butaca dun saló
de reestrena, amb la teua mà
petita dintre la meua,
infinitament feliç,
contemplant-te en lobscuritat,
dos punts de llum als teus ulls,
fins que al final em sorprens
i sens dubte em ruboritzes,
i ja no mires la pantalla,
abaixes llargament els ulls.
No és possible seguir així,
jo bé ho comprenc, però ocorre,
tot açò que ja no pot ser.
Revisc els dolços instants
de la meua vida, però amb tu.
És una flama, és una mort,
una llarga mort, aquesta vida,
no sé per què the conegut,
jo no volia conèixer-te...
A qualsevol part de la terra,
a qualsevol part de la nit,
mor un home damor per tu
mentre cuses, mentre contemples
un serial de televisió,
mentre parles amb una amiga,
per telèfon, dalgun amic;
mentre que et fiques al llit,
mentre compres en el mercat,
mentre veus, al teu mirall,
el desenvolupament dels teus pits,
mentre vas en motocicleta,
mentre laire et despentina,
mentre dorms, mentre orines,
mentre mires la primavera,
mentre espoles les estovalles,
mor un home damor per tu,
tot açò que ja no pot ser.
Que jo me muir damor per tu.
et soltaria els cabells,
tacariciaria els muscles,
tagafaria el cap
per a besar-te dolçament,
estimada meua, dolça meua,
i sentir-te, encara més nina,
més nina encara sota les mans,
dessota els pèls del meu pit
i sota els pèls de lengonal,
i sentir-te sota el meu cos,
amb els grans ulls oberts,
més que entregada confiada,
feliç dins els meus abraços.
Et veuria anar, tota nua,
anant i tornant per la casa,
tot açò que ja no pot ser.
Sóc a punt de dir el teu nom,
sóc a punt de plorar-lo
i descriurel per les parets,
adorada meua, petita.
Si em desperte, a les nits,
em desperte pensant en tu,
en el teu daurat i petit cos.
Testimaria, tadoraria
fins a emplenar la teua pell,
fins a emplenar tot el teu cos
de petites besades cremants.
És un amor total i trist
el que sent per tu, criatura,
un amor que memplena les hores
totalement amb el record
de la teua figura alegre i àgil.
No deixe de pensar en tu,
em pregunte on estaràs,
voldria saber què fas,
i arribe a la desesperació.
Com testime! Em destrosses,
tacariciaria lentament,
amb una infinita tendresa,
i no deixaria al teu cos
cap lloc sense la meua carícia,
petita meua, dolça meua,
aliena probablement
a lamor que jo sent per tu,
tan adorable! Timagine
tèbia i nua, encara innocent,
vacil.lant, i ja decidida,
amb les meues mans als teus muscles,
revoltant-te els cabells,
agafant-te per la cintura
o obrint-te les cames,
fins a fer-te arribar, alhora,
amb gemecs i retrocessos,
a lespasme lent del vici;
fins a sentir-te enfollir,
una instantània follia:
tot açò que ja no pot ser,
petita meua, dolça meua.
Et recorde i estic plorant
i sent una tristesa enorme,
voldria ésser ara al llit,
sentir el teu cos prop del meu,
el cos teu, dolç i fredolic,
amb un fred de col.legiala,
encollida, espantada; vull
estar amb tu mentre dorms,
el teu cul graciós i dur,
la teua adorable proximitat,
fregar-te a penes, despertar-te,
despertar-me damunt el teu cos,
tot açò que ja no pot ser.
Et mire, i sense que tu ho sàpies,
mentre et tinc al meu davant
i testrenyc, potser, la mà,
tevoque en altres territoris
on mai havem estat;
contestant les teues paraules,
visc una ègloga dolcíssima,
amb el teu cos damunt una catifa,
damunt els taulells del pis,
a la butaca dun saló
de reestrena, amb la teua mà
petita dintre la meua,
infinitament feliç,
contemplant-te en lobscuritat,
dos punts de llum als teus ulls,
fins que al final em sorprens
i sens dubte em ruboritzes,
i ja no mires la pantalla,
abaixes llargament els ulls.
No és possible seguir així,
jo bé ho comprenc, però ocorre,
tot açò que ja no pot ser.
Revisc els dolços instants
de la meua vida, però amb tu.
És una flama, és una mort,
una llarga mort, aquesta vida,
no sé per què the conegut,
jo no volia conèixer-te...
A qualsevol part de la terra,
a qualsevol part de la nit,
mor un home damor per tu
mentre cuses, mentre contemples
un serial de televisió,
mentre parles amb una amiga,
per telèfon, dalgun amic;
mentre que et fiques al llit,
mentre compres en el mercat,
mentre veus, al teu mirall,
el desenvolupament dels teus pits,
mentre vas en motocicleta,
mentre laire et despentina,
mentre dorms, mentre orines,
mentre mires la primavera,
mentre espoles les estovalles,
mor un home damor per tu,
tot açò que ja no pot ser.
Que jo me muir damor per tu.
1 722
Machado de Assis
Visio
Eras pálida. E os cabelos,
Aéreos, soltos novelos,
Sobre as espáduas caíam...
Os olhos meio-cerrados
De volúpia e de ternura
Entre lágrimas luziam...
E os braços entrelaçados,
Como cingindo a ventura,
Ao teu seio me cingiram...
Depois, naquele delírio,
Suave, doce martírio
De pouquíssimos instantes
Os teus lábios sequiosos,
Frios trêmulos, trocavam
Os beijos mais delirantes,
E no supremo dos gozos
Ante os anjos se casavam
Nossas almas palpitantes...
Depois... depois a verdade,
A fria realidade,
A solidão, a tristeza;
Daquele sonho desperto,
Olhei... silêncio de morte
Respirava a natureza —
Era a terra, era o deserto,
Fora-se o doce transporte,
Restava a fria certeza.
Desfizera-se a mentira:
Tudo aos meus olhos fugira;
Tu e o teu olhar ardente,
Lábios trêmulos e frios,
O abraço longo e apertado,
O beijo doce e veemente;
Restavam meus desvarios,
E o incessante cuidado,
E a fantasia doente.
E agora te vejo. E fria
Tão outra estás da que eu via
Naquele sonho encantado!
És outra, calma, discreta,
Com o olhar indiferente,
Tão outro do olhar sonhado,
Que a minha alma de poeta
Não vê se a imagem presente
Foi a imagem do passado.
Foi, sim, mas visão apenas;
Daquelas visões amenas
Que à mente dos infelizes
Descem vivas e animadas,
Cheias de luz e esperança
E de celestes matizes:
Mas, apenas dissipadas,
Fica uma leve lembrança,
Não ficam outras raízes.
Inda assim, embora sonho,
Mas sonho doce e risonho,
Desse-me Deus que fingida
Tivesse aquela ventura
Noite por noite, hora a hora,
No que me resta de vida,
Que, já livre da amargura,
Alma, que em dores me chora,
Chorara de agradecida!
Aéreos, soltos novelos,
Sobre as espáduas caíam...
Os olhos meio-cerrados
De volúpia e de ternura
Entre lágrimas luziam...
E os braços entrelaçados,
Como cingindo a ventura,
Ao teu seio me cingiram...
Depois, naquele delírio,
Suave, doce martírio
De pouquíssimos instantes
Os teus lábios sequiosos,
Frios trêmulos, trocavam
Os beijos mais delirantes,
E no supremo dos gozos
Ante os anjos se casavam
Nossas almas palpitantes...
Depois... depois a verdade,
A fria realidade,
A solidão, a tristeza;
Daquele sonho desperto,
Olhei... silêncio de morte
Respirava a natureza —
Era a terra, era o deserto,
Fora-se o doce transporte,
Restava a fria certeza.
Desfizera-se a mentira:
Tudo aos meus olhos fugira;
Tu e o teu olhar ardente,
Lábios trêmulos e frios,
O abraço longo e apertado,
O beijo doce e veemente;
Restavam meus desvarios,
E o incessante cuidado,
E a fantasia doente.
E agora te vejo. E fria
Tão outra estás da que eu via
Naquele sonho encantado!
És outra, calma, discreta,
Com o olhar indiferente,
Tão outro do olhar sonhado,
Que a minha alma de poeta
Não vê se a imagem presente
Foi a imagem do passado.
Foi, sim, mas visão apenas;
Daquelas visões amenas
Que à mente dos infelizes
Descem vivas e animadas,
Cheias de luz e esperança
E de celestes matizes:
Mas, apenas dissipadas,
Fica uma leve lembrança,
Não ficam outras raízes.
Inda assim, embora sonho,
Mas sonho doce e risonho,
Desse-me Deus que fingida
Tivesse aquela ventura
Noite por noite, hora a hora,
No que me resta de vida,
Que, já livre da amargura,
Alma, que em dores me chora,
Chorara de agradecida!
1 538
Quirino dos Santos
O saci
"Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez.
Ainda há pouco no terreiro
Saltavas a traquinar;
Nesse teu rosto trigueiro
Não se via um só pesar;
Sorrias sempre contente,
já hoje não sorris;
Cozias tão diligente
Cantando sempre feliz.
Já hoje tua cantiga
É toda cheia de dor,
E Aninhas, tua amiga
Não buscas mais com amor.
No quintal as tuas flores
Todas pendem a morrer;
Do sol os quentes ardores
Não lhes vais arrefecer.
Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez!
Mariquinhas, minha neta,
A causa toda já sei,
De andares tão inquieta;
Agora já adivinhei!
Aquela vasta silveira
Além dos campos ali,
É assombrada a noite inteira
Por um medonho Saci.
É ele que vem horrendo
Montar nos bons animais;
A noite toda correndo
Ai! quanto susto nos faz!
Foi ali ele que tu o viste,
Que a tua face beijou...
Depois disso é que assim triste
A minha neta ficou.
Mariquinhas, minha neta,
Neta do meu coração,
Não quero te ver inquieta,
Inquieta mais assim, não!
Vai contrita e humilhada
Te prostrar aos pés de Deus;
Expiar, jura, emendada
Os graves pecados teus.
Que hás de ter infinito
Prazer imenso a fruir,
E o Sererê maldito
Para longe há de fugir.
Eia pois, oh Mariquinhas,
Finda a tua palidez;
Tristeza que nunca tinhas
Não tenhas mais desta vez!"
Assim falou a velhinha
No seu sisudo falar;
Aconselhou a netinha
E logo pôs-se a rezar!
Mariquinhas magoada
Não responde à velha, não!
Ai! pobre, de envergonhada
Ficou a olhar para o chão.
Mas de noite a janelinha
Do seu quarto se entreabriu,
E houve quem visse asinha
Que um vulto a ela assumiu!
Como ela deixa a desoras
Um vulto junto de si?!
Venham cá dizer-me agora
Que não seria o Saci!...
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez.
Ainda há pouco no terreiro
Saltavas a traquinar;
Nesse teu rosto trigueiro
Não se via um só pesar;
Sorrias sempre contente,
já hoje não sorris;
Cozias tão diligente
Cantando sempre feliz.
Já hoje tua cantiga
É toda cheia de dor,
E Aninhas, tua amiga
Não buscas mais com amor.
No quintal as tuas flores
Todas pendem a morrer;
Do sol os quentes ardores
Não lhes vais arrefecer.
Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez!
Mariquinhas, minha neta,
A causa toda já sei,
De andares tão inquieta;
Agora já adivinhei!
Aquela vasta silveira
Além dos campos ali,
É assombrada a noite inteira
Por um medonho Saci.
É ele que vem horrendo
Montar nos bons animais;
A noite toda correndo
Ai! quanto susto nos faz!
Foi ali ele que tu o viste,
Que a tua face beijou...
Depois disso é que assim triste
A minha neta ficou.
Mariquinhas, minha neta,
Neta do meu coração,
Não quero te ver inquieta,
Inquieta mais assim, não!
Vai contrita e humilhada
Te prostrar aos pés de Deus;
Expiar, jura, emendada
Os graves pecados teus.
Que hás de ter infinito
Prazer imenso a fruir,
E o Sererê maldito
Para longe há de fugir.
Eia pois, oh Mariquinhas,
Finda a tua palidez;
Tristeza que nunca tinhas
Não tenhas mais desta vez!"
Assim falou a velhinha
No seu sisudo falar;
Aconselhou a netinha
E logo pôs-se a rezar!
Mariquinhas magoada
Não responde à velha, não!
Ai! pobre, de envergonhada
Ficou a olhar para o chão.
Mas de noite a janelinha
Do seu quarto se entreabriu,
E houve quem visse asinha
Que um vulto a ela assumiu!
Como ela deixa a desoras
Um vulto junto de si?!
Venham cá dizer-me agora
Que não seria o Saci!...
1 028
Paul Celan
ESTOU SOZINHO,coloco a flor de cinza
no corpo cheio de negrume amadurecido.Boca de irmã,
tu dizes uma palavra que sobrevive diante das janelas,
e sem ruído trepa,o que eu sonhei,por mim acima.
Estou de pé na profusão das horas murchas
e poupo uma resina para um pássaro tardio:
ele traz o floco de neve nas penas vermelho-vivo;
com o grão de gelo no bico,atravessa o verão.
tu dizes uma palavra que sobrevive diante das janelas,
e sem ruído trepa,o que eu sonhei,por mim acima.
Estou de pé na profusão das horas murchas
e poupo uma resina para um pássaro tardio:
ele traz o floco de neve nas penas vermelho-vivo;
com o grão de gelo no bico,atravessa o verão.
1 178
Li Shang-Yin
São
tão difíceis os encontros, mais difícil a separação.
O vento leste perdeu a força, murcharam todas as flores.
Na Primavera, os bichos-da-seda tecem, até morrer, os fios do coração;
As lágrimas da vela não secam até o pavio ser cinza.
De manhã vendo-se ao espelho: ficará grisalho o cabelo?
Repetindo um poema durante a noite, sentirá o arrepio do luar?
Não é longe, daqui até ao Rio Escuro
Pássaro Azul, depressa, vigia-me a estrada.
O vento leste perdeu a força, murcharam todas as flores.
Na Primavera, os bichos-da-seda tecem, até morrer, os fios do coração;
As lágrimas da vela não secam até o pavio ser cinza.
De manhã vendo-se ao espelho: ficará grisalho o cabelo?
Repetindo um poema durante a noite, sentirá o arrepio do luar?
Não é longe, daqui até ao Rio Escuro
Pássaro Azul, depressa, vigia-me a estrada.
910
Paul Celan
DO AZUL
DO AZUL,que ainda busca o seu olho,bebo eu em primeiro lugar.
Da marca do teu pé bebo eu e vejo:
rolas-me entre os dedos,pérola,e cresces!
Cresces como todos os que foram esquecidos.
Rolas:o granizo preto da melancolia
cai num lenço,todo branco de dizer adeus.
(tradução
de João Barrento e y.k.Centeno)
Da marca do teu pé bebo eu e vejo:
rolas-me entre os dedos,pérola,e cresces!
Cresces como todos os que foram esquecidos.
Rolas:o granizo preto da melancolia
cai num lenço,todo branco de dizer adeus.
(tradução
de João Barrento e y.k.Centeno)
1 225
Paulo Mendes Campos
Os domingos
Os domingos
Todas as funções da alma
estão perfeitas neste domingo. O tempo inunda a
sala, os quadros, a fruteira. Não há um crédito
desmedido de esperança. Nem a verdade dos supremos
desconsolos - Simplesmente a tarde transparente, Os
vidros fáceis das horas preguiçosas, Adolescência
das cores, preciosas andorinhas. Na tarde –
lembro – uma árvore parada, A alma caminhava para os
montes, Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza. Domingo –
lembro – era o instante das pausas, O pouso dos
tristes, o porto do insofrido. Na tarde, uma valsa; na
ponte, um trem de carga; No mar, a desilusão dos que
longe se buscaram; No declive da encosta, onde a
vista não vai, Os laranjais de infindáveis doçuras
geométricas; Na alma, os azuis dos que se afastam, O
cristal intocado, a rosa que destoa. Dos meus
domingos sempre fiz um claustro. As pétalas caíam no
dorso das campinas, A noite aclarava os
sofrimentos, As crianças nasciam, os mortos se esqueciam
mortos, Os ásperos se calavam, os suicidas se
matavam. Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos. E uma
esperança que não tenho.
Todas as funções da alma
estão perfeitas neste domingo. O tempo inunda a
sala, os quadros, a fruteira. Não há um crédito
desmedido de esperança. Nem a verdade dos supremos
desconsolos - Simplesmente a tarde transparente, Os
vidros fáceis das horas preguiçosas, Adolescência
das cores, preciosas andorinhas. Na tarde –
lembro – uma árvore parada, A alma caminhava para os
montes, Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza. Domingo –
lembro – era o instante das pausas, O pouso dos
tristes, o porto do insofrido. Na tarde, uma valsa; na
ponte, um trem de carga; No mar, a desilusão dos que
longe se buscaram; No declive da encosta, onde a
vista não vai, Os laranjais de infindáveis doçuras
geométricas; Na alma, os azuis dos que se afastam, O
cristal intocado, a rosa que destoa. Dos meus
domingos sempre fiz um claustro. As pétalas caíam no
dorso das campinas, A noite aclarava os
sofrimentos, As crianças nasciam, os mortos se esqueciam
mortos, Os ásperos se calavam, os suicidas se
matavam. Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos. E uma
esperança que não tenho.
1 481
Murillo Mendes
O Exilado
Meu corpo está cansado de suportar a máquina do mundo.
Os sentidos em alarme gritam:
O demônio tem mais poder que Deus.
Preciso vomitar a vida em sangue
Com tudo o que amaldiçoei e o que amei.
Passam ao largo os navios celestes
E os lírios do campo têm veneno.
Nem Job na sua desgraça
Estava despido como eu.
Eu vi a criança negar a graça divina
Vi o meu retrato de condenado em todos os tempos
E a multidão me apontando como o falso profeta.
Espero a tempestade de fogo
Mais do que um sinal de vida
Os sentidos em alarme gritam:
O demônio tem mais poder que Deus.
Preciso vomitar a vida em sangue
Com tudo o que amaldiçoei e o que amei.
Passam ao largo os navios celestes
E os lírios do campo têm veneno.
Nem Job na sua desgraça
Estava despido como eu.
Eu vi a criança negar a graça divina
Vi o meu retrato de condenado em todos os tempos
E a multidão me apontando como o falso profeta.
Espero a tempestade de fogo
Mais do que um sinal de vida
2 201
Alejandra Pizarnik
La jaula
Afuera hay sol.
No es más que un sol
pero los hombres lo miran
y después cantan.
Yo no sé del sol.
Yo sé de la melodía del ángel
y el sermón caliente
del último viento.
Sé gritar hasta el alba
cuando la muerte se posa desnuda
en mi sombra.
Yo lloro debajo de mi nombre.
Yo agito pañuelos en la noche
y barcos sedientos de realidad
bailan conmigo.
Yo oculto clavos
para escarnecer a mis sueños enfermos.
Afuera hay sol.
Yo me visto de cenizas.
No es más que un sol
pero los hombres lo miran
y después cantan.
Yo no sé del sol.
Yo sé de la melodía del ángel
y el sermón caliente
del último viento.
Sé gritar hasta el alba
cuando la muerte se posa desnuda
en mi sombra.
Yo lloro debajo de mi nombre.
Yo agito pañuelos en la noche
y barcos sedientos de realidad
bailan conmigo.
Yo oculto clavos
para escarnecer a mis sueños enfermos.
Afuera hay sol.
Yo me visto de cenizas.
1 817
Paul Verlaine
Chanson dautomne
Chanson dautomne
Les sanglots longs
Des violons
De lautomne
Blessent mon coeur
Dune langueur
Monotone.
Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne lheure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure
Et je men vais
Au vent mauvais
Qui memporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.
Les sanglots longs
Des violons
De lautomne
Blessent mon coeur
Dune langueur
Monotone.
Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne lheure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure
Et je men vais
Au vent mauvais
Qui memporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.
1 413
Juan-Eduardo
Ni la luz
de la luna
La noche enferma
duerme lejos del río.No me escuches,
no me oigas llorar cuando amanece.
Dime:¿has tocado mis ojos
con tus dedos de hielo?
Es que estoy enterrado;
no pises nunca el césped,
no pises la tristeza,
ni la luz de la Luna
cuando pone lejanos los caminos.
Muchacha,
no me escuches,no.No me escuches.
La noche enferma
duerme lejos del río.No me escuches,
no me oigas llorar cuando amanece.
Dime:¿has tocado mis ojos
con tus dedos de hielo?
Es que estoy enterrado;
no pises nunca el césped,
no pises la tristeza,
ni la luz de la Luna
cuando pone lejanos los caminos.
Muchacha,
no me escuches,no.No me escuches.
928
Josefina Plá
Soy
Soy
Carne transida, opaco ventanal de tristeza,
agua que huye del cielo en perpetuo temblor;
vaso que no ha sabido colmarse de pureza
ni abrirse ancho a los negros raudales del horror.
¡Ojos que no sirvieron para mirar la muerte,
boca que no ha rendido su gran beso de amor!
Manos como dos alas heridas: ¡diestra inerte
que no consigue alzarse a zona de fulgor!
Planta errátil e incierta, cobarde ante el abrojo,
reacia al duro viaje, esquiva al culto fiel;
¡rodillas que el placer no hincó ante su altar rojo,
mas que el remordimiento no ha logrado vencer!
Garganta temerosa del entrañable grito
que desnuda la carne del último dolor:
¡lengua que es como piedra al dulzor infinito
de la verdad postrera dormida en la pasión!
Haz de inútiles rosas, agostándose en sombra,
pozo oculto que nunca abrevó una gran sed;
prado que no ha podido amansarse en alfombra,
¡pedazo de la muerte, que no se sabe ver!
Carne transida, opaco ventanal de tristeza,
agua que huye del cielo en perpetuo temblor;
vaso que no ha sabido colmarse de pureza
ni abrirse ancho a los negros raudales del horror.
¡Ojos que no sirvieron para mirar la muerte,
boca que no ha rendido su gran beso de amor!
Manos como dos alas heridas: ¡diestra inerte
que no consigue alzarse a zona de fulgor!
Planta errátil e incierta, cobarde ante el abrojo,
reacia al duro viaje, esquiva al culto fiel;
¡rodillas que el placer no hincó ante su altar rojo,
mas que el remordimiento no ha logrado vencer!
Garganta temerosa del entrañable grito
que desnuda la carne del último dolor:
¡lengua que es como piedra al dulzor infinito
de la verdad postrera dormida en la pasión!
Haz de inútiles rosas, agostándose en sombra,
pozo oculto que nunca abrevó una gran sed;
prado que no ha podido amansarse en alfombra,
¡pedazo de la muerte, que no se sabe ver!
1 142
Anne Sexton
Sylvias Death
Sylvias Death
O Sylvia, Sylvia,
with a dead box of stones and spoons,
with two children, two meteors
wandering loose in a tiny playroom,
with your mouth into the sheet,
into the roofbeam, into the dumb prayer,
(Sylvia, Sylvia
where did you go
after you wrote me
from Devonshire
about raising potatoes
and keeping bees?)
what did you stand by,
just how did you lie down into?
Thief --
how did you crawl into,
crawl down alone
into the death I wanted so badly and for so long,
the death we said we both outgrew,
the one we wore on our skinny breasts,
the one we talked of so often each time
we downed three extra dry martinis in Boston,
the death that talked of analysts and cures,
the death that talked like brides with plots,
the death we drank to,
the motives and the quiet deed?
(In Boston
the dying
ride in cabs,
yes death again,
that ride home
with our boy.)
O Sylvia, I remember the sleepy drummer
who beat on our eyes with an old story,
how we wanted to let him come
like a sadist or a New York fairy
to do his job,
a necessity, a window in a wall or a crib,
and since that time he waited
under our heart, our cupboard,
and I see now that we store him up
year after year, old suicides
and I know at the news of your death
a terrible taste for it, like salt,
(And me,
me too.
And now, Sylvia,
you again
with death again,
that ride home
with our boy.)
And I say only
with my arms stretched out into that stone place,
what is your death
but an old belonging,
a mole that fell out
of one of your poems?
(O friend,
while the moons bad,
and the kings gone,
and the queens at her wits end
the bar fly ought to sing!)
O tiny mother,
you too!
O funny duchess!
O blonde thing!
February 17, 1963
O Sylvia, Sylvia,
with a dead box of stones and spoons,
with two children, two meteors
wandering loose in a tiny playroom,
with your mouth into the sheet,
into the roofbeam, into the dumb prayer,
(Sylvia, Sylvia
where did you go
after you wrote me
from Devonshire
about raising potatoes
and keeping bees?)
what did you stand by,
just how did you lie down into?
Thief --
how did you crawl into,
crawl down alone
into the death I wanted so badly and for so long,
the death we said we both outgrew,
the one we wore on our skinny breasts,
the one we talked of so often each time
we downed three extra dry martinis in Boston,
the death that talked of analysts and cures,
the death that talked like brides with plots,
the death we drank to,
the motives and the quiet deed?
(In Boston
the dying
ride in cabs,
yes death again,
that ride home
with our boy.)
O Sylvia, I remember the sleepy drummer
who beat on our eyes with an old story,
how we wanted to let him come
like a sadist or a New York fairy
to do his job,
a necessity, a window in a wall or a crib,
and since that time he waited
under our heart, our cupboard,
and I see now that we store him up
year after year, old suicides
and I know at the news of your death
a terrible taste for it, like salt,
(And me,
me too.
And now, Sylvia,
you again
with death again,
that ride home
with our boy.)
And I say only
with my arms stretched out into that stone place,
what is your death
but an old belonging,
a mole that fell out
of one of your poems?
(O friend,
while the moons bad,
and the kings gone,
and the queens at her wits end
the bar fly ought to sing!)
O tiny mother,
you too!
O funny duchess!
O blonde thing!
February 17, 1963
1 355
Gilson Nascimento
Vero palhaço
Nascer, o vir à vida, a caminhada
A alegria, a tristeza, o desengano
É o que sentimos a cada passada
De uma a outra etapa, ano após ano
Mal o riso se fecha o peito dói
Há choros que esbarram em gargalhar
De vez em quando a mágoa que corrói
À porta da alegria vem chorar
De contrastes assim tece-se a vida
Pesares abrem nalma uma ferida
Há risos a fluir até no olhar
E o homem, ora rindo, ora chorando
Enquanto vive a vida caminhando
Vero palhaço, ri o seu penar.
A alegria, a tristeza, o desengano
É o que sentimos a cada passada
De uma a outra etapa, ano após ano
Mal o riso se fecha o peito dói
Há choros que esbarram em gargalhar
De vez em quando a mágoa que corrói
À porta da alegria vem chorar
De contrastes assim tece-se a vida
Pesares abrem nalma uma ferida
Há risos a fluir até no olhar
E o homem, ora rindo, ora chorando
Enquanto vive a vida caminhando
Vero palhaço, ri o seu penar.
997
Antero de Quental
Aspiração
Meus dias vão correndo vagarosos,
Sem prazer e sem dor parece
Que o foco interior já desfalece
E vacila com raios duvidosos.
É bela a vida e os anos são formosos,
E nunca ao peito amante o amor falece...
Mas, se a beleza aqui nos aparece,
Logo outra lembra de mais puros gozos.
Minha alma, ó Deus! a outros céus aspira:
Se um momento a prendeu mortal beleza,
É pela eterna pátria que suspira...
Porém, do pressentir dá-ma a certeza,
Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira,
Eu sempre bendirei esta tristeza!
Sem prazer e sem dor parece
Que o foco interior já desfalece
E vacila com raios duvidosos.
É bela a vida e os anos são formosos,
E nunca ao peito amante o amor falece...
Mas, se a beleza aqui nos aparece,
Logo outra lembra de mais puros gozos.
Minha alma, ó Deus! a outros céus aspira:
Se um momento a prendeu mortal beleza,
É pela eterna pátria que suspira...
Porém, do pressentir dá-ma a certeza,
Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira,
Eu sempre bendirei esta tristeza!
2 965