Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
António Ramos Rosa
Os Anjos Que Conheço São de Erva E de Silêncio
Os anjos que conheço são de erva e de silêncio
nalgum jardim de tarde. Mas quais os mais ardentes?
Feitos de mar e sol, elevam-se nas ondas,
entre as mulheres de coxas tão fortes como touros.
O meu luto é de mesas e de bandeiras sem paz.
É estar sem corpo à espera, inconsolada boca,
o fogo ateia o peito, a cabeça perde a fronte,
o vazio rodopia, é o celeste inferno.
Desço ainda um degrau com o anjo infernal,
um turbilhão de ervas, um redemoinho de sangue.
Quem me vale agora se perdi o meu cavalo?
nalgum jardim de tarde. Mas quais os mais ardentes?
Feitos de mar e sol, elevam-se nas ondas,
entre as mulheres de coxas tão fortes como touros.
O meu luto é de mesas e de bandeiras sem paz.
É estar sem corpo à espera, inconsolada boca,
o fogo ateia o peito, a cabeça perde a fronte,
o vazio rodopia, é o celeste inferno.
Desço ainda um degrau com o anjo infernal,
um turbilhão de ervas, um redemoinho de sangue.
Quem me vale agora se perdi o meu cavalo?
1 086
António Ramos Rosa
Lâmpada Oscilante
O que eu diria, caminho pobre,
caminho de pó. Com dedos de sol,
a mão rasando a parede, minha única asa
— pó de asa no muro.
O que perdi, perco, tudo o que vi,
lâmpada de folhas, reúno o pó disperso,
pente de pedra em cabelos de terra,
o chão do dia some-se sob os passos nocturnos,
o sol ilumina o muro que não vejo.
O que te digo acende-se na boca que não ouço,
o que te dou é um sinal de que não vejo a luz.
Corro ao longo do muro raso
antes que o sol se apague.
Os dedos do sol pela terra rasa,
o fogo breve
extingue-se nas árvores.
Caminho contra o vento com um resto de calor.
caminho de pó. Com dedos de sol,
a mão rasando a parede, minha única asa
— pó de asa no muro.
O que perdi, perco, tudo o que vi,
lâmpada de folhas, reúno o pó disperso,
pente de pedra em cabelos de terra,
o chão do dia some-se sob os passos nocturnos,
o sol ilumina o muro que não vejo.
O que te digo acende-se na boca que não ouço,
o que te dou é um sinal de que não vejo a luz.
Corro ao longo do muro raso
antes que o sol se apague.
Os dedos do sol pela terra rasa,
o fogo breve
extingue-se nas árvores.
Caminho contra o vento com um resto de calor.
1 130
António Ramos Rosa
Em Miseráveis Quartos
Em miseráveis quartos
eu descobri a luz
os bêbedos sorriam
por vezes
Entre a fome e o medo
entre a fome e o medo
meu corpo respirava
a tua luz
E o pão era de sangue
com restos de cinza
Apenas os telhados
ondulavam ao sol
Perdido pelas calçadas
um íntimo suor
escorria-me pela cara
Esse suor dizia
mais sobre a verdade
que todas as palavras
eu descobri a luz
os bêbedos sorriam
por vezes
Entre a fome e o medo
entre a fome e o medo
meu corpo respirava
a tua luz
E o pão era de sangue
com restos de cinza
Apenas os telhados
ondulavam ao sol
Perdido pelas calçadas
um íntimo suor
escorria-me pela cara
Esse suor dizia
mais sobre a verdade
que todas as palavras
1 179
António Ramos Rosa
As Palavras Mais Nuas
As palavras mais nuas
as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que dormem
na sombra dos meus olhos.
Que alegria elas sonham, que outro dia,
para que rostos brilham?
Procurei sempre um lugar
onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio
quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.
Se reunissem
para uma alegria nova,
que o pequenino corpo
de miséria
respirasse o ar livre,
a multidão dos pássaros escondidos,
a densidade das folhas, o silêncio
e um céu azul e fresco.
as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que dormem
na sombra dos meus olhos.
Que alegria elas sonham, que outro dia,
para que rostos brilham?
Procurei sempre um lugar
onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio
quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.
Se reunissem
para uma alegria nova,
que o pequenino corpo
de miséria
respirasse o ar livre,
a multidão dos pássaros escondidos,
a densidade das folhas, o silêncio
e um céu azul e fresco.
1 384
António Ramos Rosa
Aqui Nesta Cave Dos Soluços
Aqui nesta cave dos soluços
como um ventre vazio
deixo entrar o sol
e um mínimo insecto
me distrai
como um ventre vazio
deixo entrar o sol
e um mínimo insecto
me distrai
620
António Ramos Rosa
Deixas Passar os Barcos e as Nuvens
Je laisse passer les bateaux les nuages.
P.E.
Deixas passar os barcos e as nuvens
e a chuva molha-te
e o sol inunda-te
Deixas passar o tempo e o amor
deixas passar os homens e os templos
deixas passar os exércitos e as lágrimas
Dormes sobre calhaus
sobre o convés dos teatros
sobre árvores descarnadas
sobre crianças informes
O teu suor é negro
como o dum cadáver
Do teu lenço escorrem os vermes da aventura
mais triste
do naufrágio mais lento
da hora petrificada
O teu corpo é um muro
onde a urina floresce
os teus braços tocam o fundo dum pântano
o teu desespero inventa os corais da cera
O teu barco desliza agora sobre a pedra
e o tempo é como um templo onde o presente
jaz como uma longa serpente fascinada
P.E.
Deixas passar os barcos e as nuvens
e a chuva molha-te
e o sol inunda-te
Deixas passar o tempo e o amor
deixas passar os homens e os templos
deixas passar os exércitos e as lágrimas
Dormes sobre calhaus
sobre o convés dos teatros
sobre árvores descarnadas
sobre crianças informes
O teu suor é negro
como o dum cadáver
Do teu lenço escorrem os vermes da aventura
mais triste
do naufrágio mais lento
da hora petrificada
O teu corpo é um muro
onde a urina floresce
os teus braços tocam o fundo dum pântano
o teu desespero inventa os corais da cera
O teu barco desliza agora sobre a pedra
e o tempo é como um templo onde o presente
jaz como uma longa serpente fascinada
903
Natasha Tinet
mice follies
nunca tive um olho mágico que funcionasse
atrás da porta, há sempre um aquário opaco
com peixes que não sabem que respiram
eu toco o relevo das minhas guelras
e abro todas as torneiras da casa
os pés envelhecidos se abrem em cortes de pele morta
deslizam no rinque de gelo da cozinha
já assistimos a esse desenho
torcíamos pelo rato, crescemos
somos o gato achatado contra a parede
preciso fazer um telefonema que não quero
me desculpe esse domingo no peito
eu não esperava escrever agora
mas, na esquina, uma cega disputa trocados
com um saxofonista, conheço esse jazz
você sabe, deus é um sádico
o diabo só tem uma grande autoestima.
atrás da porta, há sempre um aquário opaco
com peixes que não sabem que respiram
eu toco o relevo das minhas guelras
e abro todas as torneiras da casa
os pés envelhecidos se abrem em cortes de pele morta
deslizam no rinque de gelo da cozinha
já assistimos a esse desenho
torcíamos pelo rato, crescemos
somos o gato achatado contra a parede
preciso fazer um telefonema que não quero
me desculpe esse domingo no peito
eu não esperava escrever agora
mas, na esquina, uma cega disputa trocados
com um saxofonista, conheço esse jazz
você sabe, deus é um sádico
o diabo só tem uma grande autoestima.
748
Knut Hamsun
Em cem anos, tudo estará esquecido
Reviro-me insone por noites a fio,
qual náufrago num barco adernando,
e tudo por que tanto tenho sofrido
ao fim sempre vem dar em pranto.
Mas por que sofrer tanto?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Num sobressalto me vejo cantando
personagem da própria labuta.
Comungo com Deus qual gigante desperto
e a mesa com o diabo divido.
Por que, afinal, tamanha disputa?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Eis que então cessa enfim o conflito
e de alma enlevada ao mar eu me faço.
Nas vagas amargas me lanço
e assisto a meu mundo ser engolido.
Por que preferir um tal ranço?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Oh, não, antes flanar pela vida,
lançar um livro a cada Natal,
ombrear-se com os grandes poetas
e morrer como um lorde das letras.
É isto então que me faz decidido:
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Trad.: Leonardo Pinto Silva
Knut Hamsun – Om Hundrede År Er Alting Glemt
Jeg driver i aften og tænker og strider,
jeg synes jeg er som en kantret båt,
og alt hvad jeg jamrer og alt hvad jeg lider
det ender vel gjerne med gråt.
Men hvi skal jeg være så hårdt beklemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Da hopper jeg heller og synger en vise
og holder mit liv for en skjøn roman.
Jeg æter ved Gud som en fuldvoksen rise
og drikker som bare fan.
Men hvi skal jeg fare med al den skjæmt?
Om hundrede år er alting glemt.
Så stanser jeg virkelig heller striden
og ganger til sjøs med min pinte sjæl.
Der finder nok verden mig engang siden
så bitterlig druknet ihjæl.
Men hvi skal jeg ende så altfor slemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Å nei, det er bedre at rusle og leve
og skrive en bok til hver kommende jul
og stige tilslut til en versets greve
og dø som en romanens mogul.
Da er det nu dette som gjør mig forstemt:
Om hundrede år er alting glemt.
qual náufrago num barco adernando,
e tudo por que tanto tenho sofrido
ao fim sempre vem dar em pranto.
Mas por que sofrer tanto?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Num sobressalto me vejo cantando
personagem da própria labuta.
Comungo com Deus qual gigante desperto
e a mesa com o diabo divido.
Por que, afinal, tamanha disputa?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Eis que então cessa enfim o conflito
e de alma enlevada ao mar eu me faço.
Nas vagas amargas me lanço
e assisto a meu mundo ser engolido.
Por que preferir um tal ranço?
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Oh, não, antes flanar pela vida,
lançar um livro a cada Natal,
ombrear-se com os grandes poetas
e morrer como um lorde das letras.
É isto então que me faz decidido:
Em cem anos, tudo estará esquecido.
Trad.: Leonardo Pinto Silva
Knut Hamsun – Om Hundrede År Er Alting Glemt
Jeg driver i aften og tænker og strider,
jeg synes jeg er som en kantret båt,
og alt hvad jeg jamrer og alt hvad jeg lider
det ender vel gjerne med gråt.
Men hvi skal jeg være så hårdt beklemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Da hopper jeg heller og synger en vise
og holder mit liv for en skjøn roman.
Jeg æter ved Gud som en fuldvoksen rise
og drikker som bare fan.
Men hvi skal jeg fare med al den skjæmt?
Om hundrede år er alting glemt.
Så stanser jeg virkelig heller striden
og ganger til sjøs med min pinte sjæl.
Der finder nok verden mig engang siden
så bitterlig druknet ihjæl.
Men hvi skal jeg ende så altfor slemt?
Om hundrede år er alting glemt.
Å nei, det er bedre at rusle og leve
og skrive en bok til hver kommende jul
og stige tilslut til en versets greve
og dø som en romanens mogul.
Da er det nu dette som gjør mig forstemt:
Om hundrede år er alting glemt.
559
António Ramos Rosa
Poema de Duas Faces
Quando havia antes um antigamente
havia uma esperança
agora no próprio coração da ilusão
onde a água limpa as pedras das ruínas
entre destroços límpidos
deito-me sobre a minha sombra e durmo
e durmo
Quando havia antes um amanhecer
à beira do abismo
agora no próprio coração do coração
durmo estrangulando um monstro inerme
um palhaço de palha seco e pálido
quando havia antes um caminho
Não houve nunca amigos nem pureza
nem carinhos de mãe salvam a noite
É preciso ir mais longe na incerteza
É preciso no silêncio não escutar
A manhã que eu procuro não foi sonhada
Uma árvore me ignora na raiz
Perfeitamente desesperado é o meu sonho
Os pássaros insultam-me na cama
Só com doidos com doidos amaria
perfeitamente presente na frescura
do mar
Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço
a líquida frescura duma jarra
um passo leve e certo em cada sombra
um ninho em cada ouvido
de doces abelhas cegas
Uma casa uma caixa de música e sossego
Um violão adormecido na doçura
Um mar longínquo à volta atrás do campo
Uma inundação de verdura e espessa paz
Uma repetida e vasta constelação de grilos
e os galos alacres do silêncio
Um mar de espuma e alegria obscura
Um mar de espuma e alegria clara
entre o verde e a brisa
Na brancura dos quartos
a inocência poderá sonhar desnuda
os insectos poderão entrar
juntamente com as plantas e as aves
Uma longa asa passará
o mundo e o silêncio a mesma ave
e o mar
o mudo leão longínquo e fresco
faiscará entre o verde as lâminas solares
havia uma esperança
agora no próprio coração da ilusão
onde a água limpa as pedras das ruínas
entre destroços límpidos
deito-me sobre a minha sombra e durmo
e durmo
Quando havia antes um amanhecer
à beira do abismo
agora no próprio coração do coração
durmo estrangulando um monstro inerme
um palhaço de palha seco e pálido
quando havia antes um caminho
Não houve nunca amigos nem pureza
nem carinhos de mãe salvam a noite
É preciso ir mais longe na incerteza
É preciso no silêncio não escutar
A manhã que eu procuro não foi sonhada
Uma árvore me ignora na raiz
Perfeitamente desesperado é o meu sonho
Os pássaros insultam-me na cama
Só com doidos com doidos amaria
perfeitamente presente na frescura
do mar
Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço
a líquida frescura duma jarra
um passo leve e certo em cada sombra
um ninho em cada ouvido
de doces abelhas cegas
Uma casa uma caixa de música e sossego
Um violão adormecido na doçura
Um mar longínquo à volta atrás do campo
Uma inundação de verdura e espessa paz
Uma repetida e vasta constelação de grilos
e os galos alacres do silêncio
Um mar de espuma e alegria obscura
Um mar de espuma e alegria clara
entre o verde e a brisa
Na brancura dos quartos
a inocência poderá sonhar desnuda
os insectos poderão entrar
juntamente com as plantas e as aves
Uma longa asa passará
o mundo e o silêncio a mesma ave
e o mar
o mudo leão longínquo e fresco
faiscará entre o verde as lâminas solares
1 176
Louise Glück
Paisagem/3
Nos fins do outono uma rapariga deitou fogo
a um trigal. O outono
fora muito seco; o campo
ardeu como palha.
Depois não sobrou nada.
Se o atravessávamos, não víamos nada.
Nada havia para colher, para cheirar.
Os cavalos não compreendem –
Onde está o campo, parecem dizer.
Como tu ou eu a perguntar
onde está a nossa casa.
Ninguém sabe responder-lhes.
Não sobra nada;
resta-nos esperar, a bem do lavrador,
que o seguro pague.
É como perder um ano de vida.
Em que perderias um ano da tua vida?
Mais tarde regressas ao velho lugar –
só restam cinzas: negrume e vazio.
Pensas: como pude viver aqui?
Mas na altura era diferente,
mesmo no último verão. A terra agia
como se nada de mal pudesse acontecer-lhe.
Um único fósforo foi quanto bastou.
Mas no momento certo – teve de ser no momento certo.
O campo crestado, seco –
a morte já a postos
por assim dizer.
traduzido por Rui Pires Cabral
a um trigal. O outono
fora muito seco; o campo
ardeu como palha.
Depois não sobrou nada.
Se o atravessávamos, não víamos nada.
Nada havia para colher, para cheirar.
Os cavalos não compreendem –
Onde está o campo, parecem dizer.
Como tu ou eu a perguntar
onde está a nossa casa.
Ninguém sabe responder-lhes.
Não sobra nada;
resta-nos esperar, a bem do lavrador,
que o seguro pague.
É como perder um ano de vida.
Em que perderias um ano da tua vida?
Mais tarde regressas ao velho lugar –
só restam cinzas: negrume e vazio.
Pensas: como pude viver aqui?
Mas na altura era diferente,
mesmo no último verão. A terra agia
como se nada de mal pudesse acontecer-lhe.
Um único fósforo foi quanto bastou.
Mas no momento certo – teve de ser no momento certo.
O campo crestado, seco –
a morte já a postos
por assim dizer.
traduzido por Rui Pires Cabral
751
Natasha Tinet
Evelyn McHale
Evelyn McHale não podia se casar
tinha tendências iguais às da mãe
não se pode fugir de uma herança
nem que se jogue do octogésimo
sexto andar do empire state
373 metros entre seus pés acetinados
e o choque de altitude que paralisou
fulminou seu coração antes do impacto metálico
contra um carro estacionado
ofélia afogada no lago negro do desespero
de punhos fechados em luvas e segredos
não há prêmio quando se quer morrer
evaporar adormecida em uma nuvem púrpura
diante dos transeuntes envenenados de cotidiano
um clique registra o “suicídio mais belo da história”
ninfa que repousa em lençóis turbulentos
senhoras, senhores, guardem seus narcisos
antes que apodreçam pela falta de lucidez
Evelyn McHale esposou a morte, mas
não há graciosidade nesse matrimônio
em seu corpo inerte, profundo e apático
na boca exonerada de esperança, quieta
mesmo quando viva, sufocada numa estufa
com a garganta pulsando o último passo
para o esquecimento.
tinha tendências iguais às da mãe
não se pode fugir de uma herança
nem que se jogue do octogésimo
sexto andar do empire state
373 metros entre seus pés acetinados
e o choque de altitude que paralisou
fulminou seu coração antes do impacto metálico
contra um carro estacionado
ofélia afogada no lago negro do desespero
de punhos fechados em luvas e segredos
não há prêmio quando se quer morrer
evaporar adormecida em uma nuvem púrpura
diante dos transeuntes envenenados de cotidiano
um clique registra o “suicídio mais belo da história”
ninfa que repousa em lençóis turbulentos
senhoras, senhores, guardem seus narcisos
antes que apodreçam pela falta de lucidez
Evelyn McHale esposou a morte, mas
não há graciosidade nesse matrimônio
em seu corpo inerte, profundo e apático
na boca exonerada de esperança, quieta
mesmo quando viva, sufocada numa estufa
com a garganta pulsando o último passo
para o esquecimento.
748
Sully Prudhomme
O vaso partido
O vaso azul destas verbenas,
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe subtil, roçou-o apenas,
Pois nem um ruído o revelou.
Mas a ferida persistente,
Mordendo-o sempre e sem sinal,
Fez, firme e imperceptivelmente,
A volta toda do cristal.
A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia.
Não toquem, não, que se quebrou.
Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor;
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;
Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal fino e profundo.
Já se quebrou; não toquem não.
Le vase brisé
Le vase où meurt cette vervaine
D’un coup d’éventail fut fêlé;
Le coup dut l’effleurer à peine,
Aucun bruit ne l’a révélé.
Mais la légère meurtrissure,
Mordant le cristal chaque jour,
D’une marche invisible et sûre
En a fait lentement le tour.
Son eau fraîche a fui goutte à goutte,
Le suc des fleurs s’est épuisé;
Personne encore ne s’en doute,
N’y touchez pas, il est brisé.
Souvent aussi la main qu’on aime
Effleurant le coeur, le meurtrit;
Puis le coeur se fend de lui-même,
La fleur de son amour périt;
Toujours intact aux yeux du monde,
Il sent croître et pleurer tout bas
Sa blessure fine et profonde:
Il est brisé, n’y touchez pas.
tradução Guilherme de Almeida
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe subtil, roçou-o apenas,
Pois nem um ruído o revelou.
Mas a ferida persistente,
Mordendo-o sempre e sem sinal,
Fez, firme e imperceptivelmente,
A volta toda do cristal.
A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia.
Não toquem, não, que se quebrou.
Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor;
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;
Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal fino e profundo.
Já se quebrou; não toquem não.
Le vase brisé
Le vase où meurt cette vervaine
D’un coup d’éventail fut fêlé;
Le coup dut l’effleurer à peine,
Aucun bruit ne l’a révélé.
Mais la légère meurtrissure,
Mordant le cristal chaque jour,
D’une marche invisible et sûre
En a fait lentement le tour.
Son eau fraîche a fui goutte à goutte,
Le suc des fleurs s’est épuisé;
Personne encore ne s’en doute,
N’y touchez pas, il est brisé.
Souvent aussi la main qu’on aime
Effleurant le coeur, le meurtrit;
Puis le coeur se fend de lui-même,
La fleur de son amour périt;
Toujours intact aux yeux du monde,
Il sent croître et pleurer tout bas
Sa blessure fine et profonde:
Il est brisé, n’y touchez pas.
tradução Guilherme de Almeida
1 743
António Ramos Rosa
Como Uma Sombra Vã
Como uma sombra vã
como uma sombra inútil
numa rua deserta
numa árvore seca
uma caneta inerte sobre a página
onde o sangue das palavras e das veias
uma taça rota pelo sangue
um lenço esburacado pelas lágrimas
uma gota de sangue
na neve
As palavras mais simples têm frio
como a palavra amor
como a palavra tempo
O esquecimento sem sombra é o país onde te abraço
como uma sombra inútil
no qual habitaste o sol antes da morte
As palavras mais simples são as mais preciosas
como uma sombra vã
numa rua deserta
Os dedos são mais tristes que formigas
as formigas que nascem sob as pálpebras
as pálpebras que são dunas de areia
a areia que é mais fina do que o gelo
o gelo que é cintilante nos teus dedos
cinzelados como líquenes de cristal
onde uma lágrima fulge como um sol
como uma sombra vã
numa rua deserta
Uma criança triste
pelo crivo das lágrimas
faz cintilar a luz
pelo crivo da vida
faz passar o céu puro
É um amante e um amigo
é uma criança com um barco
é uma sombra generosa
é um esqueleto de sangue
sobre o papel
É uma sombra uma sombra
sobre o cimo da neve
é uma gota de sangue
é um homem na fronteira
do vazio e da calma
um nosso irmão
como uma sombra inútil
numa rua deserta
numa árvore seca
uma caneta inerte sobre a página
onde o sangue das palavras e das veias
uma taça rota pelo sangue
um lenço esburacado pelas lágrimas
uma gota de sangue
na neve
As palavras mais simples têm frio
como a palavra amor
como a palavra tempo
O esquecimento sem sombra é o país onde te abraço
como uma sombra inútil
no qual habitaste o sol antes da morte
As palavras mais simples são as mais preciosas
como uma sombra vã
numa rua deserta
Os dedos são mais tristes que formigas
as formigas que nascem sob as pálpebras
as pálpebras que são dunas de areia
a areia que é mais fina do que o gelo
o gelo que é cintilante nos teus dedos
cinzelados como líquenes de cristal
onde uma lágrima fulge como um sol
como uma sombra vã
numa rua deserta
Uma criança triste
pelo crivo das lágrimas
faz cintilar a luz
pelo crivo da vida
faz passar o céu puro
É um amante e um amigo
é uma criança com um barco
é uma sombra generosa
é um esqueleto de sangue
sobre o papel
É uma sombra uma sombra
sobre o cimo da neve
é uma gota de sangue
é um homem na fronteira
do vazio e da calma
um nosso irmão
1 166
António Ramos Rosa
O Tempo Concreto
O tempo duro
com estas unhas de pedra
este hálito pobre
de órgãos esfomeados
estas quatro paredes de cinza e álcool
este rio negro correndo nas noites como um esgoto
O tempo magro
em que minhas mãos divididas
nitidamente separadas e caídas
ao longo dum corpo de cansaço
pedem o precipício a hecatombe clara
o acontecimento decisivo
O tempo fecundo
dos sonhos embrulhados repetidos como um hálito de febres
repassadas no travesseiro igual das noites e dos dias
das ruas agrestes e pequenas da mágoa
familiar e precisa como uma esmola certa
O tempo escuro
da peste consentida do vício proclamado
da sede amarfanhada pelas mãos dos amigos
da fome concreta dum sonho proibido
e do sabor amargo não sei de que remorso
O tempo ausente
dos olhos dum desejo de claras cidades
em que acenamos perdidos às soluções erguidas
com vozes bem distintas de cadáveres opressores
com gritos sufocados de problemas supostos
O tempo presente
das circunstâncias ferozes que erguem muros reais
dos fantasmas de carne que nos apertam as mãos
das anedotas contadas num outro mundo de cafés
e das vidas dos outros sempre fracassadas
O tempo dos sonhos
sem coragem para poder vivê-los
com muralhas de mortos que não querem morrer
com razões demais para poder viver
com uma força tão grande que temos de abafar
no fragor dos versos disfarçados
O tempo implacável
onde jurámos de pé viver até ao fim
maiores do que nós ser todo o grito nu
pureza conquistada no seio da vida impura
um raio de sol de sangue na face devastada
O tempo das palavras
numa circulação sombria como um poço
de ecos incontrolados
de timbres inesperados
como moedas de sangue cunhadas numa noite
demasiado curta e com luar demais
O tempo impessoal
em que fingimos ter um destino qualquer
para que nos conheçam os amigos forçados
para que nós próprios nos sintamos humanos
e este fardo de trevas esta dor sem limites
a possamos levar numa mala portátil
O tempo do silêncio
em que o riso postiço dos fregueses da vida
finge ignorá-lo enquanto soluçamos
de raiva de razão reprimida revolta
e os senhores de bom senso passeiam divertidos
O tempo da razão
em que os versos são soldados comprimidos
que guardam as armas dentro do coração
que rasgam os seus pulsos para fazer do sangue
a tinta de escrever duma nova canção
com estas unhas de pedra
este hálito pobre
de órgãos esfomeados
estas quatro paredes de cinza e álcool
este rio negro correndo nas noites como um esgoto
O tempo magro
em que minhas mãos divididas
nitidamente separadas e caídas
ao longo dum corpo de cansaço
pedem o precipício a hecatombe clara
o acontecimento decisivo
O tempo fecundo
dos sonhos embrulhados repetidos como um hálito de febres
repassadas no travesseiro igual das noites e dos dias
das ruas agrestes e pequenas da mágoa
familiar e precisa como uma esmola certa
O tempo escuro
da peste consentida do vício proclamado
da sede amarfanhada pelas mãos dos amigos
da fome concreta dum sonho proibido
e do sabor amargo não sei de que remorso
O tempo ausente
dos olhos dum desejo de claras cidades
em que acenamos perdidos às soluções erguidas
com vozes bem distintas de cadáveres opressores
com gritos sufocados de problemas supostos
O tempo presente
das circunstâncias ferozes que erguem muros reais
dos fantasmas de carne que nos apertam as mãos
das anedotas contadas num outro mundo de cafés
e das vidas dos outros sempre fracassadas
O tempo dos sonhos
sem coragem para poder vivê-los
com muralhas de mortos que não querem morrer
com razões demais para poder viver
com uma força tão grande que temos de abafar
no fragor dos versos disfarçados
O tempo implacável
onde jurámos de pé viver até ao fim
maiores do que nós ser todo o grito nu
pureza conquistada no seio da vida impura
um raio de sol de sangue na face devastada
O tempo das palavras
numa circulação sombria como um poço
de ecos incontrolados
de timbres inesperados
como moedas de sangue cunhadas numa noite
demasiado curta e com luar demais
O tempo impessoal
em que fingimos ter um destino qualquer
para que nos conheçam os amigos forçados
para que nós próprios nos sintamos humanos
e este fardo de trevas esta dor sem limites
a possamos levar numa mala portátil
O tempo do silêncio
em que o riso postiço dos fregueses da vida
finge ignorá-lo enquanto soluçamos
de raiva de razão reprimida revolta
e os senhores de bom senso passeiam divertidos
O tempo da razão
em que os versos são soldados comprimidos
que guardam as armas dentro do coração
que rasgam os seus pulsos para fazer do sangue
a tinta de escrever duma nova canção
760
Edmir Domingues
Soneto a Charles Chaplin
Já que o sal não nos dão nos dás a rosa,
a nós que temos sido a pura espera,
de que viesses trazendo a primavera
à nossa contingência dolorosa.
E na vila noturna e silenciosa
onde as pedras têm vida e os galhos de hera
nos falam, sob as luas da quimera
seremos a ciranda e a polvorosa.
Assim, na inquietação dos novos climas,
teremos os teus passos e presença
junto às nossas privadas pantomimas.
Sendo quase irreais quanto insensatos,
como se repousáramos na crença
do céu que deve haver para os sapatos.
a nós que temos sido a pura espera,
de que viesses trazendo a primavera
à nossa contingência dolorosa.
E na vila noturna e silenciosa
onde as pedras têm vida e os galhos de hera
nos falam, sob as luas da quimera
seremos a ciranda e a polvorosa.
Assim, na inquietação dos novos climas,
teremos os teus passos e presença
junto às nossas privadas pantomimas.
Sendo quase irreais quanto insensatos,
como se repousáramos na crença
do céu que deve haver para os sapatos.
623
Edmir Domingues
soneto XXIV - Ébrio de medos
Ai, nunca me perdesse entre os vinhedos
se bêbedo de vinho, ébrio de medos,
falei de nossos íntimos segredos
e na neve enterrei velhos brinquedos.
Que a lua iluminava com ternura
rosas de sangue sobre a estrada escura,
e todos conheceram da amargura
que eu vestia de sonho e de aventura.
Constrangimento então, loucura quase,
olhos cobertos de invisível gaze,
sentimento de culpa e confusão.
Sei que havia violões e sei de banjos,
e lembro os que de mim fugiam, anjos.
Talvez quisessem-me eles e eu os não.
se bêbedo de vinho, ébrio de medos,
falei de nossos íntimos segredos
e na neve enterrei velhos brinquedos.
Que a lua iluminava com ternura
rosas de sangue sobre a estrada escura,
e todos conheceram da amargura
que eu vestia de sonho e de aventura.
Constrangimento então, loucura quase,
olhos cobertos de invisível gaze,
sentimento de culpa e confusão.
Sei que havia violões e sei de banjos,
e lembro os que de mim fugiam, anjos.
Talvez quisessem-me eles e eu os não.
613
Stéphane Mallarmé
Tristeza de verão
O sol, na areia, aquece, ó brava adormecida,
O ouro da tua coma em banho langoroso,
Queimando o seu incenso em tua face aguerrida,
E mistura aos teus prantos um filtro amoroso.
Desse branco fulgor a imóvel calmaria
Te faz dizer, dolente, ó carícias discretas,
‘Jamais nós dois seremos uma múmia fria
Sob o antigo deserto e as palmeiras eretas!’
Porém os teus cabelos, rio morno, imploram
Para afogar sem medo a nossa alma triste
E encontrar esse Nada que em teu ser não medra.
Degustarei o bistre que teus cílios choram
Para ver se ele doa àquele que feriste
A insensibilidade do azul e da pedra.
(Stéphane Mallarmé, 1864, trad. Augusto de Campos)
O ouro da tua coma em banho langoroso,
Queimando o seu incenso em tua face aguerrida,
E mistura aos teus prantos um filtro amoroso.
Desse branco fulgor a imóvel calmaria
Te faz dizer, dolente, ó carícias discretas,
‘Jamais nós dois seremos uma múmia fria
Sob o antigo deserto e as palmeiras eretas!’
Porém os teus cabelos, rio morno, imploram
Para afogar sem medo a nossa alma triste
E encontrar esse Nada que em teu ser não medra.
Degustarei o bistre que teus cílios choram
Para ver se ele doa àquele que feriste
A insensibilidade do azul e da pedra.
(Stéphane Mallarmé, 1864, trad. Augusto de Campos)
1 675
Edmir Domingues
soneto IX - E tu não vinhas
Nunca houvesse o luar da tanta espera
e a noite de perfume e fermosura,
quando a rosa está murcha na cintura
e o corj)o nu não sabe à primavera.
Rede tecida em tempo e fibras de hera,
de tanto tempo enorme na espessura,
ficada pura ao dia e à noite pura
que a fuga mais real já se fizera.
Oh! Não digas que o mar já te não queira
talvez, porquanto a escura cabeleira
se prende entre as mais coisas comezinhas.
Mas dissolvam-se em fumo os longos braços,
pois perdeu-se a esperança entre os cansaços
da espera e do saber que tu não vinhas.
e a noite de perfume e fermosura,
quando a rosa está murcha na cintura
e o corj)o nu não sabe à primavera.
Rede tecida em tempo e fibras de hera,
de tanto tempo enorme na espessura,
ficada pura ao dia e à noite pura
que a fuga mais real já se fizera.
Oh! Não digas que o mar já te não queira
talvez, porquanto a escura cabeleira
se prende entre as mais coisas comezinhas.
Mas dissolvam-se em fumo os longos braços,
pois perdeu-se a esperança entre os cansaços
da espera e do saber que tu não vinhas.
680
Edmir Domingues
soneto XXIII - Asas quebradas
As vozes vêm do inferno e me atormentam
porque falam de sangue, angústia, morte,
e a valsa lenta, agora sepultada,
singularmente lenta, não se escuta.
Eu que fiquei tão só falo por ela,
de meigas esperanças, meigos sonhos,
que em tempo de passado estão dormindo,
inevitavelmente desmanchados.
E a valsa se desfaz que a flauta é névoa
como se o som distante regressara
aos fagotes e aos velhos contrabaixos.
Minhas asas quebradas me atrapalham.
Dolorosas e inúteis que se encontram
já não servem ao voo e à inocência.
porque falam de sangue, angústia, morte,
e a valsa lenta, agora sepultada,
singularmente lenta, não se escuta.
Eu que fiquei tão só falo por ela,
de meigas esperanças, meigos sonhos,
que em tempo de passado estão dormindo,
inevitavelmente desmanchados.
E a valsa se desfaz que a flauta é névoa
como se o som distante regressara
aos fagotes e aos velhos contrabaixos.
Minhas asas quebradas me atrapalham.
Dolorosas e inúteis que se encontram
já não servem ao voo e à inocência.
702
João Cabral de Melo Neto
O Fim do Mundo
No fim de um mundo melancólico
os homens lêem jornais
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol
Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.
O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
o sonho final.
os homens lêem jornais
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol
Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.
O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
o sonho final.
1 117
Edmir Domingues
soneto IV - Carnaval de ilusões
Fantasias de luas esquecidas
entre o enigma da morte e a rosa clara
que em vinho de manhãs se enfeitiçara
e em luz que inspira as ânsias incontidas.
Carnaval de ilusões, que a luz mais rara
fez descer sobre as sombras recolhidas,
que fez brotar do sangue das feridas
uma tímida flor que não brotara.
Busca sem fim da imagem tão somente,
fugida a nosso amor contido e ardente
no adeus que não consola e não compensa.
E entre murmurações de tédio e sono,
mesmo que reste o leito no abandono
o desejo que pede a só presença.
entre o enigma da morte e a rosa clara
que em vinho de manhãs se enfeitiçara
e em luz que inspira as ânsias incontidas.
Carnaval de ilusões, que a luz mais rara
fez descer sobre as sombras recolhidas,
que fez brotar do sangue das feridas
uma tímida flor que não brotara.
Busca sem fim da imagem tão somente,
fugida a nosso amor contido e ardente
no adeus que não consola e não compensa.
E entre murmurações de tédio e sono,
mesmo que reste o leito no abandono
o desejo que pede a só presença.
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Edmir Domingues
soneto XVII - De mãos dadas
E por sermos canções jamais cantadas
apesar de amarguras recalcadas,
os mendigos vieram, de mãos dadas,
juntar-se a nós em nossas mascaradas.
E até ser madrugada vinho quente,
rosas vindas do chão de antigamente,
equação de silêncio impenitente
tombada no punhal da voz demente.
Que limpa-chaminés, mendigos, loucos,
conosco dão-se bem nos risos poucos
e nas canções bastante e na tristeza.
Que resta sempre o mundo quase infância,
todo sombra ante o vento da inconstância,
não resistido ao pranto e à natureza.
apesar de amarguras recalcadas,
os mendigos vieram, de mãos dadas,
juntar-se a nós em nossas mascaradas.
E até ser madrugada vinho quente,
rosas vindas do chão de antigamente,
equação de silêncio impenitente
tombada no punhal da voz demente.
Que limpa-chaminés, mendigos, loucos,
conosco dão-se bem nos risos poucos
e nas canções bastante e na tristeza.
Que resta sempre o mundo quase infância,
todo sombra ante o vento da inconstância,
não resistido ao pranto e à natureza.
605
Edmir Domingues
soneto XIII - Partiu a ave esperança
Nos soluços enfermos desta noite
as enlutadas vozes falam claro,
e há tormento, Senhor, e entre o tormento
desejo inconfessável de suicídio.
Asas curvas, partiu a ave esperança
entre um sopro de vento, envolta em nuvens,
e restou-nos a nós somente a bruma
desencanto que vem dos sonhos poucos.
Lembrança de outras vozes, sosseqadas,
rir deus flautas de outrora, nunca ouvidas
no silêncio da noite onipresente.
Sugestões de abandono se refletem
do abafamento enorme dos sentidos
nesta noite maior que sai dos olhos.
as enlutadas vozes falam claro,
e há tormento, Senhor, e entre o tormento
desejo inconfessável de suicídio.
Asas curvas, partiu a ave esperança
entre um sopro de vento, envolta em nuvens,
e restou-nos a nós somente a bruma
desencanto que vem dos sonhos poucos.
Lembrança de outras vozes, sosseqadas,
rir deus flautas de outrora, nunca ouvidas
no silêncio da noite onipresente.
Sugestões de abandono se refletem
do abafamento enorme dos sentidos
nesta noite maior que sai dos olhos.
652
Edmir Domingues
soneto XIV - Um mundo como o nosso
A caravana estranha, grave e estranha,
dos limpa-chaminés, dos desgraçados,
aves já quase não de tão cansados,
as sombras deste bairro morto assanha.
Seguem. E a angústia mórbida acompanha
aqueles a seus olhos bem-amados,
que sonham meigos risos sufocados
que a lua faz de antigos quando banha.
Os limpa-chaminés só têm a rua
onde tombam de sono, a luz da lua
e essas canções que são de um mundo louco,
leves, vazias, feitas de tão pouco.
Canções que repetir tento e não posso
porque não são de um mundo como o nosso.
dos limpa-chaminés, dos desgraçados,
aves já quase não de tão cansados,
as sombras deste bairro morto assanha.
Seguem. E a angústia mórbida acompanha
aqueles a seus olhos bem-amados,
que sonham meigos risos sufocados
que a lua faz de antigos quando banha.
Os limpa-chaminés só têm a rua
onde tombam de sono, a luz da lua
e essas canções que são de um mundo louco,
leves, vazias, feitas de tão pouco.
Canções que repetir tento e não posso
porque não são de um mundo como o nosso.
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