Poemas neste tema
Tristeza e Melancolia
Régis Bonvicino
RB Resolve Ser Poeta
Nas páginas de "La Rosa Profunda"
descubro que escolhi
a mais curiosa das profissões humanas,
salvo que todas, a seu modo, o são.
Como os alquimistas
que buscaram a pedra filosofal
no azougue fugitivo,
farei com que as palavras comuns
— naipes marcados do tahur, moeda da plebe —
rendam a magia que foi sua
quando Thor era o nume e o estrépito,
o trovão e a prece.
No dialeto de hoje,
direi, de minha forma, as coisas eternas;
tratarei de não ser indigno
do grande eco de Camões.
Este pó(eta) que sou será invulnerável.
Se uma mulher compartilhar de meu amor,
meu verso roçará a décima esfera dos céus concêntricos;
se uma mulher desdenhar meu amor,
farei de minha tristeza uma música,
um alto rio que siga ressoando no tempo.
Viverei de esquecer-me.
Serei a cara que entrevejo e esqueço,
Judas que aceita
a divina missão de ser traidor,
Calibán no lamaçal,
um soldado mercenário que morre
sem temor e sem fé,
Polícrates que vê com espanto
o anel devolvido pelo destino,
serei o amigo que me odeia.
O Rubáiyát me dará o rouxinol
e os Texperts as palavras-espadas.
Máscaras, agonias, ressurreições,
desmancharam e mancharam minha sorte:
e, alguma vez, talvez agora,
eu seja Jorge Luis Borges.
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987.
NOTA DE RÉGIS BONVICINO: Tradução-encarnação do poema "Browning Resuelve Ser Poeta", de Jorge Luis Borges, do livro LA ROSA PROFUND
descubro que escolhi
a mais curiosa das profissões humanas,
salvo que todas, a seu modo, o são.
Como os alquimistas
que buscaram a pedra filosofal
no azougue fugitivo,
farei com que as palavras comuns
— naipes marcados do tahur, moeda da plebe —
rendam a magia que foi sua
quando Thor era o nume e o estrépito,
o trovão e a prece.
No dialeto de hoje,
direi, de minha forma, as coisas eternas;
tratarei de não ser indigno
do grande eco de Camões.
Este pó(eta) que sou será invulnerável.
Se uma mulher compartilhar de meu amor,
meu verso roçará a décima esfera dos céus concêntricos;
se uma mulher desdenhar meu amor,
farei de minha tristeza uma música,
um alto rio que siga ressoando no tempo.
Viverei de esquecer-me.
Serei a cara que entrevejo e esqueço,
Judas que aceita
a divina missão de ser traidor,
Calibán no lamaçal,
um soldado mercenário que morre
sem temor e sem fé,
Polícrates que vê com espanto
o anel devolvido pelo destino,
serei o amigo que me odeia.
O Rubáiyát me dará o rouxinol
e os Texperts as palavras-espadas.
Máscaras, agonias, ressurreições,
desmancharam e mancharam minha sorte:
e, alguma vez, talvez agora,
eu seja Jorge Luis Borges.
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987.
NOTA DE RÉGIS BONVICINO: Tradução-encarnação do poema "Browning Resuelve Ser Poeta", de Jorge Luis Borges, do livro LA ROSA PROFUND
1 532
Capinan
Canção de Minha Descoberta
Eis-me resignado.
Fugi de tudo que fui
E pelo caminho de minha renúncia
Venho buscar banceiras novas.
Agora persigo a palavra nova
Por eles que esperam com o coração amargo
E o grito dentro do coração.
Não poderei aceitar o silêncio
E ficar em paz com a morte dos desgraçados
Caídos sem voz em nossa porta.
As crianças minhas morreram todas.
Possuo cada vontade, cada medo, cada ternura morta
Agitados de dor pela mão dos homens.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 8
Fugi de tudo que fui
E pelo caminho de minha renúncia
Venho buscar banceiras novas.
Agora persigo a palavra nova
Por eles que esperam com o coração amargo
E o grito dentro do coração.
Não poderei aceitar o silêncio
E ficar em paz com a morte dos desgraçados
Caídos sem voz em nossa porta.
As crianças minhas morreram todas.
Possuo cada vontade, cada medo, cada ternura morta
Agitados de dor pela mão dos homens.
In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 8
1 235
D. Pedro II
I - À Morte do Príncipe D Pedro
Pode o artista pintar a imagem morta
Da mulher, por quem dera a própria vida.
À esposa que a ventura vê perdida
Casto e saudoso beijo inda conforta.
A imitar-lhe os exemplos nos exorta
O amigo na extrema despedida...
Mas dizer o que sente a alma partida
Do pai, a quem, oh Deus, tua espada corta.
A flor de seu futuro, o filho amado;
Quem o pode, Senhor, se mesmo o Teu
Só morrendo livrou-nos do pecado,
Se a terra à voz do Gólgota tremeu
E o sangue do Cordeiro Imaculado
Até o próprio céu enegreceu!
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas.
NOTA: O poema se refere à morte do quarto e último filho de D. Pedro II com a Imperatriz D. Teresa Cristina Maria, em 185
Da mulher, por quem dera a própria vida.
À esposa que a ventura vê perdida
Casto e saudoso beijo inda conforta.
A imitar-lhe os exemplos nos exorta
O amigo na extrema despedida...
Mas dizer o que sente a alma partida
Do pai, a quem, oh Deus, tua espada corta.
A flor de seu futuro, o filho amado;
Quem o pode, Senhor, se mesmo o Teu
Só morrendo livrou-nos do pecado,
Se a terra à voz do Gólgota tremeu
E o sangue do Cordeiro Imaculado
Até o próprio céu enegreceu!
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas.
NOTA: O poema se refere à morte do quarto e último filho de D. Pedro II com a Imperatriz D. Teresa Cristina Maria, em 185
1 725
Rubens Rodrigues Torres Filho
Clorofila
Verde mar, verde rio e verde pranto
que choveria em verdes matas prisioneiras
aprisionadas neste longo e frio amante
que fui, para nós dois, na sexta-feira
da solidão.
As borboletas lúcidas na treva
que por artes de ausência vêm caindo
em chuvas-lantejoulas vão cobrindo
as lajes destes bosques, clorofila
irrespirável.
São páginas colhidas, escolhidas
que este vazio por dentro desescreve
e o tempo reinscreve do outro lado.
E nós, por dois ou três, unidos por engano,
partilhamos o frio, que só nos damos
sob condição, à espreita ou de tocaia.
Por trás do olhar dos lírios vai roendo
algum sutil inseto iluminado
que sabe dos desertos e a cavá-los
galopa nesse nada que o devora.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
que choveria em verdes matas prisioneiras
aprisionadas neste longo e frio amante
que fui, para nós dois, na sexta-feira
da solidão.
As borboletas lúcidas na treva
que por artes de ausência vêm caindo
em chuvas-lantejoulas vão cobrindo
as lajes destes bosques, clorofila
irrespirável.
São páginas colhidas, escolhidas
que este vazio por dentro desescreve
e o tempo reinscreve do outro lado.
E nós, por dois ou três, unidos por engano,
partilhamos o frio, que só nos damos
sob condição, à espreita ou de tocaia.
Por trás do olhar dos lírios vai roendo
algum sutil inseto iluminado
que sabe dos desertos e a cavá-los
galopa nesse nada que o devora.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
1 663
Pedro Nava
Ventania
Pro Mário
O vento veio maluco lá do alto do Bonfim
e veio chorando da tristura do cemitério.
Zuniu na praça do mercado
assuviou as mulatas avenida do comércio
e mexeu na saia delas.
Arrancou folha das árvores
poeira sungou do chão
depois virou
soprou
correu
danou
e entrou feito uma carga na avenida Afonso Pena,
O obelisco cortou ele pelo meio
mas ele foi avuando
e os fios da C.E.V.U. como cordas de viola
vibraram dum som longo
que cobriu Belo Horizonte feito um lamento.
O vento passou desmandado no Cruzeiro
saiu pro campo dobrou a mata
mas de repente
sua disparada pára na parede Serra do Curral
e o bicho stopa mas sapeca no morro um sopapo
que estrala que nem ginipapo
que mão raivosa
chispasse num muro curo..
Co-nhe-ceu papudo?
1926
In: REVISTA VERDE, Cataguases, ano 1, n.3, p.23, nov. 1927
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em carta a Pedro Nava datada de 19 mar. 1926: "Essa poesia me entusiasmou de verdade. Acho linda e das milhores coisas que você tem me mandado. Além da boniteza real da poesia acho que você está empregando com um talento firme o abrasileiramento da sua expressão. Discordo de certos processos, principalmente 'O obelisco cortou ele pelo meio'. Acho que você deve matutar mais sobre isso
O vento veio maluco lá do alto do Bonfim
e veio chorando da tristura do cemitério.
Zuniu na praça do mercado
assuviou as mulatas avenida do comércio
e mexeu na saia delas.
Arrancou folha das árvores
poeira sungou do chão
depois virou
soprou
correu
danou
e entrou feito uma carga na avenida Afonso Pena,
O obelisco cortou ele pelo meio
mas ele foi avuando
e os fios da C.E.V.U. como cordas de viola
vibraram dum som longo
que cobriu Belo Horizonte feito um lamento.
O vento passou desmandado no Cruzeiro
saiu pro campo dobrou a mata
mas de repente
sua disparada pára na parede Serra do Curral
e o bicho stopa mas sapeca no morro um sopapo
que estrala que nem ginipapo
que mão raivosa
chispasse num muro curo..
Co-nhe-ceu papudo?
1926
In: REVISTA VERDE, Cataguases, ano 1, n.3, p.23, nov. 1927
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em carta a Pedro Nava datada de 19 mar. 1926: "Essa poesia me entusiasmou de verdade. Acho linda e das milhores coisas que você tem me mandado. Além da boniteza real da poesia acho que você está empregando com um talento firme o abrasileiramento da sua expressão. Discordo de certos processos, principalmente 'O obelisco cortou ele pelo meio'. Acho que você deve matutar mais sobre isso
1 891
Lila Ripoll
Canção da Chuva
Cai uma chuva tão fina
que quase nem molha a gente.
É uma música em surdina
que apenas a alma sente.
Junto meu rosto à vidraça
e olho a rua sem pensar.
Fico em estado de graça,
como quem vai comungar.
Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida,
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!
Senhora tu não devias
permitir tantos enganos.
Há excesso de alegrias,
e excesso de desenganos.
Por onde andaram meus passos
vi sinais de desalentos.
Vaguei por muitos espaços
e senti todos os ventos.
Ventos do sul, vento norte,
ventos do leste e do oeste,
tão diversos como a sorte
que tu, na vida, nos deste.
Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida —
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!
Publicado no livro Céu Vazio: poesia (1941).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.4
que quase nem molha a gente.
É uma música em surdina
que apenas a alma sente.
Junto meu rosto à vidraça
e olho a rua sem pensar.
Fico em estado de graça,
como quem vai comungar.
Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida,
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!
Senhora tu não devias
permitir tantos enganos.
Há excesso de alegrias,
e excesso de desenganos.
Por onde andaram meus passos
vi sinais de desalentos.
Vaguei por muitos espaços
e senti todos os ventos.
Ventos do sul, vento norte,
ventos do leste e do oeste,
tão diversos como a sorte
que tu, na vida, nos deste.
Senhora dos mundos vivos,
Nossa Senhora da Vida —
quantos dias negativos
na minha estrada perdida!
Publicado no livro Céu Vazio: poesia (1941).
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.4
2 035
Eudoro Augusto
Final de Século
A coisa anda meio difícil
pra quem não dispensa uma alegria.
Até uma boa e sincera tristeza
anda cada vez mais rara
com essa moda de alto astral a qualquer preço.
Se alguém acha que este mundo
anda meio cafajeste, ou ainda mais,
não sou eu que vou contradizer.
Mas na verdade, tudo mudou
muito pouco.
Um ou outro mito,
aqui e ali um grito,
mais ou menos aflito.
O que varia mesmo é o som do apito
de acordo com o bairro, conforme o gueto.
Em alguns a polícia acode e sacode;
em outros se salva quem pode.
A carne continua fraca.
Mormente a da mucosa,
mais frágil, mais perigosa.
A lua tem seus caprichos.
Os poderosos mentem,
as filas aumentam,
a cerveja anda nojenta
e o rapaz da TV diz que vai ser mais eficaz
o combate ao tráfico de drogas.
Por mim, espero apenas
a passagem vertiginosa dos riscos voadores.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
pra quem não dispensa uma alegria.
Até uma boa e sincera tristeza
anda cada vez mais rara
com essa moda de alto astral a qualquer preço.
Se alguém acha que este mundo
anda meio cafajeste, ou ainda mais,
não sou eu que vou contradizer.
Mas na verdade, tudo mudou
muito pouco.
Um ou outro mito,
aqui e ali um grito,
mais ou menos aflito.
O que varia mesmo é o som do apito
de acordo com o bairro, conforme o gueto.
Em alguns a polícia acode e sacode;
em outros se salva quem pode.
A carne continua fraca.
Mormente a da mucosa,
mais frágil, mais perigosa.
A lua tem seus caprichos.
Os poderosos mentem,
as filas aumentam,
a cerveja anda nojenta
e o rapaz da TV diz que vai ser mais eficaz
o combate ao tráfico de drogas.
Por mim, espero apenas
a passagem vertiginosa dos riscos voadores.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Uma Noite na Ópera
1 093
Gilberto Mendonça Teles
Era um moinho sem vento
Era um moinho sem vento,
uma palmeira sem chão,
estrela sem firmamento,
tristeza sem solidão.
(Queria agarrar o tempo,
vê-lo na palma da mão.
Ir ao contrário volvendo-o,
fechá-lo no seu galpão.
Depois soltá-lo em silêncio,
segui-lo na direção
que a vida com seus inventos
perdeu em libertação.)
Deu o vento no moinho,
teve a palmeira seu chão,
teve a estrela o seu caminho
e a tristeza, a solidão.
(Tentou gritar que era tarde,
que a vida perdia em vão.
Veio um anjo de alvaiade,
cantou-lhe alguma canção.
Depois olhou-o espantado,
jogou as asas no chão,
tirou a rosa dos lábios
e pôs-lhe o tempo na mão.)
Publicado no livro Sintaxe invisível (1967).
In: TELES, Gilberto Mendonça. Os melhores poemas. Seleção de Luiz Busatto. São Paulo: Global, 1993. p. 54. (Os Melhores poemas, 27
uma palmeira sem chão,
estrela sem firmamento,
tristeza sem solidão.
(Queria agarrar o tempo,
vê-lo na palma da mão.
Ir ao contrário volvendo-o,
fechá-lo no seu galpão.
Depois soltá-lo em silêncio,
segui-lo na direção
que a vida com seus inventos
perdeu em libertação.)
Deu o vento no moinho,
teve a palmeira seu chão,
teve a estrela o seu caminho
e a tristeza, a solidão.
(Tentou gritar que era tarde,
que a vida perdia em vão.
Veio um anjo de alvaiade,
cantou-lhe alguma canção.
Depois olhou-o espantado,
jogou as asas no chão,
tirou a rosa dos lábios
e pôs-lhe o tempo na mão.)
Publicado no livro Sintaxe invisível (1967).
In: TELES, Gilberto Mendonça. Os melhores poemas. Seleção de Luiz Busatto. São Paulo: Global, 1993. p. 54. (Os Melhores poemas, 27
1 940
Antônio Barreto
Sobre as Virtudes da Preguiça
Não devemos fazer nada em Agosto.
Agosto, dizem os jornais mais corajosos,
é sombrio, anticatólico e meditabundo.
Assim posto, não devemos fazer nada em Agosto.
Agosto é o mês das bruxas, das rixas e das tragédias.
Devemos ficar trancados em casa, em Agosto,
comendo salgadinhos e rezando às Almas
que as almas sempre soltam suas rédeas
mesmo quando não as queremos soltas.
Não devemos fazer nada em Agosto:
alguma coisa tenebrosa lhe cavalga o dorso.
Assim, devemos ficar à toa em Agosto
Esperando a morte, sem remorso.
In: BARRETO, Antônio. Vastafala: poesia. São Paulo: Scipione: Fundação Nestlé de Cultura, 1988. p.64. Poema integrante da série Revelações do Abismo.
Agosto, dizem os jornais mais corajosos,
é sombrio, anticatólico e meditabundo.
Assim posto, não devemos fazer nada em Agosto.
Agosto é o mês das bruxas, das rixas e das tragédias.
Devemos ficar trancados em casa, em Agosto,
comendo salgadinhos e rezando às Almas
que as almas sempre soltam suas rédeas
mesmo quando não as queremos soltas.
Não devemos fazer nada em Agosto:
alguma coisa tenebrosa lhe cavalga o dorso.
Assim, devemos ficar à toa em Agosto
Esperando a morte, sem remorso.
In: BARRETO, Antônio. Vastafala: poesia. São Paulo: Scipione: Fundação Nestlé de Cultura, 1988. p.64. Poema integrante da série Revelações do Abismo.
1 583
Moacyr Felix
Poema do Cego, da Noite e do Mar
A Fernando Mendes Viana
I
Lágrimas de cego
trazei-me uma pérola
da noite e do mar.
Nas águas cansadas
meus olhos nadaram
em nadas de nada
e vão se afogar!
Se vinte ou dez vezes
foram o céu cúmplice
da súbita chama
que dardeja o eterno
sobre a onda a rolar,
por que é que se afogam
depois tão vazios
de todos os séculos
que acharam no mar?
Entre o velame e a âncora,
que lances definem
perdido ou ganhando
no jogo jogado
na noite e no mar?
Lágrimas de cego,
trazei-me uma pérola
da noite e do mar.
Mortalha ou morada
dos barcos tão brancos
de prata e de espanto,
ó lua a luar,
que devo eu doar
à dona dos prantos?
Mostrai-me entre os ramos
da noite e do ar
a pausa madura
da Vida a cantar
no cerne da vida
que amarga a doçura
que ondula este mar.
Lágrimas de cego,
trazei-me uma pérola
da noite e do mar...
(...)
Publicado no livro O Pão e o Vinho (1959).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.90-91
NOTA: Poema composto de 2 parte
I
Lágrimas de cego
trazei-me uma pérola
da noite e do mar.
Nas águas cansadas
meus olhos nadaram
em nadas de nada
e vão se afogar!
Se vinte ou dez vezes
foram o céu cúmplice
da súbita chama
que dardeja o eterno
sobre a onda a rolar,
por que é que se afogam
depois tão vazios
de todos os séculos
que acharam no mar?
Entre o velame e a âncora,
que lances definem
perdido ou ganhando
no jogo jogado
na noite e no mar?
Lágrimas de cego,
trazei-me uma pérola
da noite e do mar.
Mortalha ou morada
dos barcos tão brancos
de prata e de espanto,
ó lua a luar,
que devo eu doar
à dona dos prantos?
Mostrai-me entre os ramos
da noite e do ar
a pausa madura
da Vida a cantar
no cerne da vida
que amarga a doçura
que ondula este mar.
Lágrimas de cego,
trazei-me uma pérola
da noite e do mar...
(...)
Publicado no livro O Pão e o Vinho (1959).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.90-91
NOTA: Poema composto de 2 parte
1 263
Claudio Willer
Previsão do Tempo
I
eles estavam nus antes de viajar
no extremo da rua, as cortinas
como as haviam deixado
pensavam conhecer como pensavam possuir
a terra e o paraíso confundiam-se
no matiz das melancolias
na pedra transparente
apenas mais um passo
e nada mais
ainda uma distorção
proposital, perigosa
como até agora
evitando participar
salões voltados na mesma direção
dois ou três hábitos aceitáveis
do tamanho de uma unha
e assim mesmo
a torrente caía / as chamas espalhavam-se
junto com a cor dos olhos
II
Invertendo inteiramente a rua em liberdade
em um amplo existente
depois de matar
acostumados a aceitar tudo
sempre calmos e solícitos como uma oração
entre o início e o arremate
In: WILLER, Claudio. Anotações para um apocalipse. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1964
eles estavam nus antes de viajar
no extremo da rua, as cortinas
como as haviam deixado
pensavam conhecer como pensavam possuir
a terra e o paraíso confundiam-se
no matiz das melancolias
na pedra transparente
apenas mais um passo
e nada mais
ainda uma distorção
proposital, perigosa
como até agora
evitando participar
salões voltados na mesma direção
dois ou três hábitos aceitáveis
do tamanho de uma unha
e assim mesmo
a torrente caía / as chamas espalhavam-se
junto com a cor dos olhos
II
Invertendo inteiramente a rua em liberdade
em um amplo existente
depois de matar
acostumados a aceitar tudo
sempre calmos e solícitos como uma oração
entre o início e o arremate
In: WILLER, Claudio. Anotações para um apocalipse. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1964
1 274
Régis Bonvicino
Não Pode
poeta não pode sentir ódio
poeta não pode gostar
de automóvel
o poeta
não pode criar filhos
se vai à europa
é por brilho ou compromisso
nunca por troça ou prazer
sua tarefa: fazer
fazer fazer
VeRsOsTeXtOs
martírio
pequeno burguês
tókio nun restaurante japonês
o poeta é o que
se esqueceu
de viver
bem e com idéias?
o sofrimento: sua
platéia
(o mundo, massa maçante,
alcatéia!)
seu marketing-musa: a
lamentação
obsessão obsessão obsessão
assim
um lacaio de lacan num divã
qualquer
(ou eco imaginário de tristan edouard
corbiere)
o poeta não tem casa
de campo
seu lazer: papel
em branco
maçã, maçada
a existência não passa
de uma observação obstinada
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987
poeta não pode gostar
de automóvel
o poeta
não pode criar filhos
se vai à europa
é por brilho ou compromisso
nunca por troça ou prazer
sua tarefa: fazer
fazer fazer
VeRsOsTeXtOs
martírio
pequeno burguês
tókio nun restaurante japonês
o poeta é o que
se esqueceu
de viver
bem e com idéias?
o sofrimento: sua
platéia
(o mundo, massa maçante,
alcatéia!)
seu marketing-musa: a
lamentação
obsessão obsessão obsessão
assim
um lacaio de lacan num divã
qualquer
(ou eco imaginário de tristan edouard
corbiere)
o poeta não tem casa
de campo
seu lazer: papel
em branco
maçã, maçada
a existência não passa
de uma observação obstinada
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987
1 313
Armindo Trevisan
Graciliano Ramos Vende Sua Sombra ao Sol
Graciliano,
animal triste,
silêncio ensurdecido
entre o olho
e a caatinga.
Pão e laranja
para os místicos.
Para ti,
o cisco.
Graciliano,
pai,
anti-pai.
Ismália enlouqueceu
quando morreste.
E tu, intratável,
seduziste
uma a uma
as santas de Deus.
Graciliano,
arranjador
de verdade:
pisa, mais uma vez,
o coração,
o vosso e o meu.
Onde ele se acoitar,
tua cachorra
estique a pata
do abraço.
E assim,
anti-pai,
seja feita na terra
tua vontade.
In: TREVISAN, Armindo. Funilaria no ar. Porto Alegre: Movimento; Brasília: INL, 1973. (Poesia Sul, 7)
animal triste,
silêncio ensurdecido
entre o olho
e a caatinga.
Pão e laranja
para os místicos.
Para ti,
o cisco.
Graciliano,
pai,
anti-pai.
Ismália enlouqueceu
quando morreste.
E tu, intratável,
seduziste
uma a uma
as santas de Deus.
Graciliano,
arranjador
de verdade:
pisa, mais uma vez,
o coração,
o vosso e o meu.
Onde ele se acoitar,
tua cachorra
estique a pata
do abraço.
E assim,
anti-pai,
seja feita na terra
tua vontade.
In: TREVISAN, Armindo. Funilaria no ar. Porto Alegre: Movimento; Brasília: INL, 1973. (Poesia Sul, 7)
1 012
Augusto Frederico Schmidt
Apocalipse
As velas estão abertas como luzes.
As ondas crespas cantam porque o vento as afogou.
As estrelas estão dependuradas no céu e oscilam.
Nós as veremos descer ao mar como lágrimas.
As estrelas frias se desprenderão do céu
E ficarão boiando, as mãos brancas inertes, sobre as águas
[frias.
As estrelas serão arrastadas pelas correntes boiando nas
[águas imensas.
Seus olhos estarão fechados docemente
E seus seios se elevarão gelados e enormes
Sobre o escuro do tempo.
Publicado no livro Canto da Noite (1934).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1956
As ondas crespas cantam porque o vento as afogou.
As estrelas estão dependuradas no céu e oscilam.
Nós as veremos descer ao mar como lágrimas.
As estrelas frias se desprenderão do céu
E ficarão boiando, as mãos brancas inertes, sobre as águas
[frias.
As estrelas serão arrastadas pelas correntes boiando nas
[águas imensas.
Seus olhos estarão fechados docemente
E seus seios se elevarão gelados e enormes
Sobre o escuro do tempo.
Publicado no livro Canto da Noite (1934).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1956
2 154
Eduardo Guimaraens
Tudo que faz da carne um mistério inquietante
D'une beauté effrayante, presque
spectrale
THÉOPHILE GAUTIER
Tudo que faz da carne um mistério inquietante,
languescências, brancor de túmulos ao luar,
marfins de rosa murcha, inerte e singular,
tudo o seu corpo tem, de abandonada amante.
Nimba-lhe a fronte o horror. Quando emudece, o olhar
mostra a antiga tortura eterna e alucinante,
porque os seus olhos são dois tercetos de Dante
que Gustavo Doré deixou por ilustrar!
Do gesto vão, jamais de arremesso ou de assomo,
fez o esforço brutal que dá glória ao perigo;
atrai assim, contudo, a alma do sonhador,
magnífica, fatal e funerária como
hirta e nua, ao entrar de um cenotáfio antigo,
uma estátua da morte, um mármore de dor!
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944
spectrale
THÉOPHILE GAUTIER
Tudo que faz da carne um mistério inquietante,
languescências, brancor de túmulos ao luar,
marfins de rosa murcha, inerte e singular,
tudo o seu corpo tem, de abandonada amante.
Nimba-lhe a fronte o horror. Quando emudece, o olhar
mostra a antiga tortura eterna e alucinante,
porque os seus olhos são dois tercetos de Dante
que Gustavo Doré deixou por ilustrar!
Do gesto vão, jamais de arremesso ou de assomo,
fez o esforço brutal que dá glória ao perigo;
atrai assim, contudo, a alma do sonhador,
magnífica, fatal e funerária como
hirta e nua, ao entrar de um cenotáfio antigo,
uma estátua da morte, um mármore de dor!
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944
998
Stella Leonardos
Serenata em Vila Rica
"Pisar com carinho as ruas/ que o Aleijadinho
pisou/ marcando-as com sua força/ como se
essas ruas fossem/ lotes de pedra-sabão."
Henriqueta Lisboa
Pisar com carinho as ruas
que o Aleijadinho pisou
e onde serestas flutuam.
Pisar com carinho as ruas
que o Aleijadinho pisou
marcando-as com sua força
à força de frustração.
Como se as ruas não fossem
de pedra e as pedras não fossem
pedaços de coração.
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro do Aleijadinho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. (Poetas de sempre, 4)
pisou/ marcando-as com sua força/ como se
essas ruas fossem/ lotes de pedra-sabão."
Henriqueta Lisboa
Pisar com carinho as ruas
que o Aleijadinho pisou
e onde serestas flutuam.
Pisar com carinho as ruas
que o Aleijadinho pisou
marcando-as com sua força
à força de frustração.
Como se as ruas não fossem
de pedra e as pedras não fossem
pedaços de coração.
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro do Aleijadinho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. (Poetas de sempre, 4)
1 104
Alphonsus de Guimaraens Filho
Cantilena II
A Mario Quintana
Mansa cantilena
num mundo que chora:
até me dá pena
te escutar agora.
Ao ouvir-te, tento
ir até ao fundo
de um deslumbramento
que ainda há no mundo
(pelo que segredas,
pelo que me falas),
tu que assim te quedas
em mim, se te calas,
— ai das cantilenas
num mundo de pranto! —
chama que asserenas
e em nós pões o encanto
de nem sei que dia
feito de inocência,
sopro de poesia
da mais pura ardência.
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Nó: poemas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1984. Poema integrante da série Nó
Mansa cantilena
num mundo que chora:
até me dá pena
te escutar agora.
Ao ouvir-te, tento
ir até ao fundo
de um deslumbramento
que ainda há no mundo
(pelo que segredas,
pelo que me falas),
tu que assim te quedas
em mim, se te calas,
— ai das cantilenas
num mundo de pranto! —
chama que asserenas
e em nós pões o encanto
de nem sei que dia
feito de inocência,
sopro de poesia
da mais pura ardência.
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Nó: poemas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1984. Poema integrante da série Nó
1 176
Alphonsus de Guimaraens Filho
A Todos os Poetas
A todos vós que um dia pressentistes
os passos alumbrados da poesia
na vossa alma soar — saudoso dia
que mais humanos, graves, e mais tristes
para sempre vos fez... A todos vós
que, amando, o amor sentistes impossível,
que, vendo o mundo, amastes o invisível,
e, ouvindo o canto, ouvistes nele a voz
de um reino imerso em névoa como clara
ilha na solidão... E deslumbrados
as palavras no vácuo erguestes para
reanimá-las e reacendê-las,
a todos vós o céu acolhe, consolados
pela luz da mais casta entre as estrelas.
Publicado no livro Sonetos com dedicatória (1956).
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p. 270-271
os passos alumbrados da poesia
na vossa alma soar — saudoso dia
que mais humanos, graves, e mais tristes
para sempre vos fez... A todos vós
que, amando, o amor sentistes impossível,
que, vendo o mundo, amastes o invisível,
e, ouvindo o canto, ouvistes nele a voz
de um reino imerso em névoa como clara
ilha na solidão... E deslumbrados
as palavras no vácuo erguestes para
reanimá-las e reacendê-las,
a todos vós o céu acolhe, consolados
pela luz da mais casta entre as estrelas.
Publicado no livro Sonetos com dedicatória (1956).
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p. 270-271
1 132
Eduardo Guimaraens
Às vezes, quando vou por altas horas, quando
Às vezes, quando vou por altas horas, quando
fujo através da noite, a este amor que reveste
de um tênue véu de névoa a face do meu sonho,
de lábios infantis que, uma e outra vez, murmuram
uma queixa, como a de alguém que se maltrata,
um murmúrio, afinal, que só tu poderias
compreender, fico a olhar os jardins solitários
que ornam a calma azul por onde vou passando.
E às vezes, paro e sonho à frente de um cipreste;
outras, invejo o ardor de um canteiro tristonho
alvos lírios claustrais que aromam e fulguram,
como fantásticos turíbulos de prata.
Outras, quando anda a lua entre as ruas sombrias
e as flores tomam o ar de votos funerários,
cada aléia é como um regato cintilando,
onde um Ofélia, de alva e imponderável veste
loira e fria, tombou, morta de amor e sonho.
Junto às grades hostis que os jardins enclausuram
e que, ao fulgor da luz, são de ouro, bronze ou prata,
descanso, muita vez, as mãos longas e frias.
E enquanto a lua evoca extáticos cenários
de paisagens do polo e torna em verde brando
todo o azul que lhe nimba a tristeza celeste,
das grades através, como através de um sonho
de prisioneiro, a cujo olhar se transfiguram
as visões do exterior, tenho a visão exata
da noite que convida às grandes nostalgias.
Eu sou o doce irmão dos jardins solitários,
que lhes conhece a dor, que os vê da sombra, olhando
pelo ermo e triste e verde olhar de algum cipreste...
Uns são feitos de tudo, enfim, que há no meu sonho.
E é por isso, talvez, que ora ardem e fulguram,
ora são tristes como esses vitrais de prata
onde Cristo ergue a Deus as mãos longas e frias.
Eu sou o doce irmão dos jardins solitários,
desses jardins que exalto, amo e celebro, quando
por horas mortas vou, do amor que me reveste
de amargura, fugindo, ao longo do meu sonho.
E, ao longo do meu sonho, os jardins se enclausuram
de lágrimas! (Ah! sobre essas grades de prata
quando virás pousar as mãos longas e frias?
Quando abrirás, sorrindo, os jardins solitários,
tu que hás de amar-me um dia e que eu espero? Quando?
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944
fujo através da noite, a este amor que reveste
de um tênue véu de névoa a face do meu sonho,
de lábios infantis que, uma e outra vez, murmuram
uma queixa, como a de alguém que se maltrata,
um murmúrio, afinal, que só tu poderias
compreender, fico a olhar os jardins solitários
que ornam a calma azul por onde vou passando.
E às vezes, paro e sonho à frente de um cipreste;
outras, invejo o ardor de um canteiro tristonho
alvos lírios claustrais que aromam e fulguram,
como fantásticos turíbulos de prata.
Outras, quando anda a lua entre as ruas sombrias
e as flores tomam o ar de votos funerários,
cada aléia é como um regato cintilando,
onde um Ofélia, de alva e imponderável veste
loira e fria, tombou, morta de amor e sonho.
Junto às grades hostis que os jardins enclausuram
e que, ao fulgor da luz, são de ouro, bronze ou prata,
descanso, muita vez, as mãos longas e frias.
E enquanto a lua evoca extáticos cenários
de paisagens do polo e torna em verde brando
todo o azul que lhe nimba a tristeza celeste,
das grades através, como através de um sonho
de prisioneiro, a cujo olhar se transfiguram
as visões do exterior, tenho a visão exata
da noite que convida às grandes nostalgias.
Eu sou o doce irmão dos jardins solitários,
que lhes conhece a dor, que os vê da sombra, olhando
pelo ermo e triste e verde olhar de algum cipreste...
Uns são feitos de tudo, enfim, que há no meu sonho.
E é por isso, talvez, que ora ardem e fulguram,
ora são tristes como esses vitrais de prata
onde Cristo ergue a Deus as mãos longas e frias.
Eu sou o doce irmão dos jardins solitários,
desses jardins que exalto, amo e celebro, quando
por horas mortas vou, do amor que me reveste
de amargura, fugindo, ao longo do meu sonho.
E, ao longo do meu sonho, os jardins se enclausuram
de lágrimas! (Ah! sobre essas grades de prata
quando virás pousar as mãos longas e frias?
Quando abrirás, sorrindo, os jardins solitários,
tu que hás de amar-me um dia e que eu espero? Quando?
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944
1 070
Felipe d’Oliveira
Cenário de Louça e de Cristal
A onda e a algazarra espocam girândolas sonoras.
As serpentinas dos risos sem compasso
se arremessam de lado a lado,
estendem no azul redes aéreas de rumores eufóricos.
A onda bate a cadência no seu gongo líquido,
— fermata sem fim, pasta melódica em que
se fundem e se amaciam
todas as notas do alarido.
A manhã ressoa,
o mar redondo é todo um copo de cristal
vibrado pelo atrito de dedos luminosos.
A manhã põe brunidos de faiança
no mosaico desmanchado sobre a areia.
As tintas se interpenetram, móveis,
— puzzle vivo que a vaga empurra e espalha —
e as cores correm, chocam-se, repelem-se,
como uma grande bola de mercúrio
desagregada em gotas coloridas.
O arlequim da manhã, caindo do alto,
desarticulou os pedaços da roupa policrômica
e foi esmaltar os "tóraces" e os ventres
com o arco-íris decomposto dos losangos.
Os corpos úmidos deslocam-se,
brilham no fundo de porcelana que o azul
espesso enxuga.
Elásticos, libertos,
os corpos úmidos desenham ritmos instintivos
e mergulhados no sol,
que os alivia de um peso igual a seu
volume em luz compacta,
ainda guardam a leveza dos movimentos na água.
A manhã progride em tons,
transborda de roxos, verdes, escarlates.
Abrem-se umbelíferas gigantéias de novos guarda-sóis.
Outros ombros irrompem de novas capas
pintalgadas, — vitrais de pano,
corrediços, baixados sobre a areia.
E o homem dos balões de borracha cai da altura
pendurado a um pára-quedas de esferas multicores
que, agitadas às pontas dos barbantes,
sacolejam no ar a flor desmanchada de
um fogo de artifício em pleno dia.
Os corpos úmidos desenrolam
a ronda dos troncos harmoniosos,
dos seios em ponta,
das espáduas queimadas,
das coxas lisas,
buscam-se, penetram-se à distância,
atropelam-se nas fugas ágeis,
sem perceber o rapaz corcunda de maiô preto,
amargo e imóvel,
recurvo, arqueado em G maiúsculo,
que pensa, triste, a olhar de longe o atleta
de camisa verde:
— Se o mundo fosse de corcundas
eu de certo teria nascido como ele...
E a manhã continua,
sacudindo cores
como uma arara que se espluma.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Cenários.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.69-70
As serpentinas dos risos sem compasso
se arremessam de lado a lado,
estendem no azul redes aéreas de rumores eufóricos.
A onda bate a cadência no seu gongo líquido,
— fermata sem fim, pasta melódica em que
se fundem e se amaciam
todas as notas do alarido.
A manhã ressoa,
o mar redondo é todo um copo de cristal
vibrado pelo atrito de dedos luminosos.
A manhã põe brunidos de faiança
no mosaico desmanchado sobre a areia.
As tintas se interpenetram, móveis,
— puzzle vivo que a vaga empurra e espalha —
e as cores correm, chocam-se, repelem-se,
como uma grande bola de mercúrio
desagregada em gotas coloridas.
O arlequim da manhã, caindo do alto,
desarticulou os pedaços da roupa policrômica
e foi esmaltar os "tóraces" e os ventres
com o arco-íris decomposto dos losangos.
Os corpos úmidos deslocam-se,
brilham no fundo de porcelana que o azul
espesso enxuga.
Elásticos, libertos,
os corpos úmidos desenham ritmos instintivos
e mergulhados no sol,
que os alivia de um peso igual a seu
volume em luz compacta,
ainda guardam a leveza dos movimentos na água.
A manhã progride em tons,
transborda de roxos, verdes, escarlates.
Abrem-se umbelíferas gigantéias de novos guarda-sóis.
Outros ombros irrompem de novas capas
pintalgadas, — vitrais de pano,
corrediços, baixados sobre a areia.
E o homem dos balões de borracha cai da altura
pendurado a um pára-quedas de esferas multicores
que, agitadas às pontas dos barbantes,
sacolejam no ar a flor desmanchada de
um fogo de artifício em pleno dia.
Os corpos úmidos desenrolam
a ronda dos troncos harmoniosos,
dos seios em ponta,
das espáduas queimadas,
das coxas lisas,
buscam-se, penetram-se à distância,
atropelam-se nas fugas ágeis,
sem perceber o rapaz corcunda de maiô preto,
amargo e imóvel,
recurvo, arqueado em G maiúsculo,
que pensa, triste, a olhar de longe o atleta
de camisa verde:
— Se o mundo fosse de corcundas
eu de certo teria nascido como ele...
E a manhã continua,
sacudindo cores
como uma arara que se espluma.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Cenários.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.69-70
1 352
Sílvio Romero
X - A Serpe
I
Passa, meu condenado, a tarde é linda,
O céu é pensativo; para ver-te
Ei-lo que se ilumina; quer fazer-te
Um sinal como atento; mas por quê?
É que dás um exemplo majestoso
De galé resignado, indiferente
Às auras, que te embalam docemente,
E à nuvem, que é vaidosa, e que o não crê.
Passa, meu condenado; a moita é fresca.
Copada e perfumosa; vai, te esconde
Pois, já que tudo exulta, lá por onde
A flor agreste oculta se retrai.
O mundo folga e ri-se... é magnífico!
Mas tu sereno, impávido te mostras;
Nunca desces, medroso, nem te prostras...
Estupendo parece quem não cai!
Oculta lá na treva escura e densa
A serpe cala as queixas, e proscrita,
Tranquila, esquece a cólera, que agita
Muita rábida insânia do furor.
Vê por entre a folhage', a imensidade;
Estupefata tem ímpetos de amá-la...
Tão pequena que é!... mas como exala
Tanta desgraça cheia de fulgor!
Gosta da luz, mas compreende a sombra.
Da altivez é fanática; desdenha
A fera, que arrogante se desenha
A seus olhos, frenética de si.
Miserável, que sofre a exuberância
Da desdita cruel; mas não ostenta
Mentida superfluidade opulenta
Lá de íntimo sossego... Por aí —
Pela selva sombria odeia o pássaro,
O frívolo que canta e não medita,
E a flor que se intumesce, e que se agita
A cada rir do vento que passou.
Ignóbil, parece uma blasfêmia
Da natureza enraivada, a ironia
Que a terra arroja aos céus! E quem diria
Que fel de gênio atroz a formulou?!
(...)
Poema integrante da série Parte Segunda: A Natureza.
In: ROMERO, Sílvio. Cantos do fim do século, 1869/1873. Rio de Janeiro: Tip. Fluminense, 1878
Passa, meu condenado, a tarde é linda,
O céu é pensativo; para ver-te
Ei-lo que se ilumina; quer fazer-te
Um sinal como atento; mas por quê?
É que dás um exemplo majestoso
De galé resignado, indiferente
Às auras, que te embalam docemente,
E à nuvem, que é vaidosa, e que o não crê.
Passa, meu condenado; a moita é fresca.
Copada e perfumosa; vai, te esconde
Pois, já que tudo exulta, lá por onde
A flor agreste oculta se retrai.
O mundo folga e ri-se... é magnífico!
Mas tu sereno, impávido te mostras;
Nunca desces, medroso, nem te prostras...
Estupendo parece quem não cai!
Oculta lá na treva escura e densa
A serpe cala as queixas, e proscrita,
Tranquila, esquece a cólera, que agita
Muita rábida insânia do furor.
Vê por entre a folhage', a imensidade;
Estupefata tem ímpetos de amá-la...
Tão pequena que é!... mas como exala
Tanta desgraça cheia de fulgor!
Gosta da luz, mas compreende a sombra.
Da altivez é fanática; desdenha
A fera, que arrogante se desenha
A seus olhos, frenética de si.
Miserável, que sofre a exuberância
Da desdita cruel; mas não ostenta
Mentida superfluidade opulenta
Lá de íntimo sossego... Por aí —
Pela selva sombria odeia o pássaro,
O frívolo que canta e não medita,
E a flor que se intumesce, e que se agita
A cada rir do vento que passou.
Ignóbil, parece uma blasfêmia
Da natureza enraivada, a ironia
Que a terra arroja aos céus! E quem diria
Que fel de gênio atroz a formulou?!
(...)
Poema integrante da série Parte Segunda: A Natureza.
In: ROMERO, Sílvio. Cantos do fim do século, 1869/1873. Rio de Janeiro: Tip. Fluminense, 1878
1 577
Mafalda Veiga
O Bêbado Pintor
Encostado ao balcão da taberna
o bêbado pintor
espera a noite de sombras vazias
e quem vende o amor assim
Louco e ébrio num circo deserto
cambaleando e só
um palhaço triste
inventa um pouco de alegria
e dança num palco gasto
afastando o pó
Hoje eu sou rei do mundo
pintor de todo o lugar
um coração de vagabundo
sabe voar
Ela entra nas noites sem rumo
com o olhar vazio
e traz nos cabelos
a brisa leve do Outono
que ele quis pintar
e lhe fugiu
Só e ébrio num carrossel louco
sem mastro nem chão
diz-lhe: vem ver um palhaço triste
descobrir a poesia
em noites de amor
e solidão
Hoje eu sou o rei do mundo
pintor de todo o lugar
um coração de vagabundo
sabe voar
o bêbado pintor
espera a noite de sombras vazias
e quem vende o amor assim
Louco e ébrio num circo deserto
cambaleando e só
um palhaço triste
inventa um pouco de alegria
e dança num palco gasto
afastando o pó
Hoje eu sou rei do mundo
pintor de todo o lugar
um coração de vagabundo
sabe voar
Ela entra nas noites sem rumo
com o olhar vazio
e traz nos cabelos
a brisa leve do Outono
que ele quis pintar
e lhe fugiu
Só e ébrio num carrossel louco
sem mastro nem chão
diz-lhe: vem ver um palhaço triste
descobrir a poesia
em noites de amor
e solidão
Hoje eu sou o rei do mundo
pintor de todo o lugar
um coração de vagabundo
sabe voar
1 185
Mafalda Veiga
Restolho
geme o restolho triste e solitário
a embalar a noite escura e fria
e a perder-se no olhar da ventania
que canta ao tom do velho campanário
geme o restolho preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem côr e sem vontade
geme o restolho a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda
mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar pra aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração
geme o restolho a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa é enorme, intensa, aguda
mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar pra aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração
a embalar a noite escura e fria
e a perder-se no olhar da ventania
que canta ao tom do velho campanário
geme o restolho preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem côr e sem vontade
geme o restolho a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda
mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar pra aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração
geme o restolho a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa é enorme, intensa, aguda
mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar pra aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração
2 349
Mafalda Veiga
Dança da terra
Ai esta terra arde
É uma fogueira
Não há quem a salve
De ruir inteira
Ai o sonho morre
Amordaçado
Já nem parece
Ter-se sonhado
Ai esta terra lembra
Cada madrugada
Em que o desalento
Tem sabor a nada
Ai o sonho morre
Desencantado
Já nem parece
Ter-se guardado
Mas no vento morno
Que vem do mar
A lua ainda chama
Prá gente dançar
A lua ainda dança
Prá gente cantar
Ai esta terra queima
É uma ferida aberta
Rasgada no peito
Onde a dor aperta
Ai o meu filho chora
E eu não chego ao mar
Só nos seus olhos
Posso naufragar
Mas no vento morno
Que vem do mar
A lua ainda chama
Prá gente dançar
A lua ainda dança
Prá gente cantar
É uma fogueira
Não há quem a salve
De ruir inteira
Ai o sonho morre
Amordaçado
Já nem parece
Ter-se sonhado
Ai esta terra lembra
Cada madrugada
Em que o desalento
Tem sabor a nada
Ai o sonho morre
Desencantado
Já nem parece
Ter-se guardado
Mas no vento morno
Que vem do mar
A lua ainda chama
Prá gente dançar
A lua ainda dança
Prá gente cantar
Ai esta terra queima
É uma ferida aberta
Rasgada no peito
Onde a dor aperta
Ai o meu filho chora
E eu não chego ao mar
Só nos seus olhos
Posso naufragar
Mas no vento morno
Que vem do mar
A lua ainda chama
Prá gente dançar
A lua ainda dança
Prá gente cantar
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