Poemas neste tema
Vida
João Airas de Santiago
Que de Bem Mi Ora Podia Fazer
Que de bem mi ora podia fazer
Deus se quisess' (e nom lhi cust'ar rem):
contar-mi os dias que nom passei bem
e dar-mi outro[s] tantos a meu prazer
com mia senhor; ca, se Deus mi perdom,
os dias que viv'hom'a seu prazer
dev'a contar que viv'e outros nom.
E mia vida non'a devo chamar
vida, mais mort', a que eu mi passei
sem mia senhor, ca nunca led'andei
e nom foi vida, mais foi gram pesar;
por en sabem quantos no mundo som:
os dias que viv'home sem pesar
dev'a contar que viv'e outros nom.
E os dias que me sem mia senhor
Deus fez viver, passe[i]-os eu tam mal
que nunca vi prazer de mim nem d'al
e esta vida foi tam sem sabor;
e quen'a julgar quiser com razom,
os dias que viv'hom'a seu sabor
dev'a contar que viv'e outros nom.
Deus se quisess' (e nom lhi cust'ar rem):
contar-mi os dias que nom passei bem
e dar-mi outro[s] tantos a meu prazer
com mia senhor; ca, se Deus mi perdom,
os dias que viv'hom'a seu prazer
dev'a contar que viv'e outros nom.
E mia vida non'a devo chamar
vida, mais mort', a que eu mi passei
sem mia senhor, ca nunca led'andei
e nom foi vida, mais foi gram pesar;
por en sabem quantos no mundo som:
os dias que viv'home sem pesar
dev'a contar que viv'e outros nom.
E os dias que me sem mia senhor
Deus fez viver, passe[i]-os eu tam mal
que nunca vi prazer de mim nem d'al
e esta vida foi tam sem sabor;
e quen'a julgar quiser com razom,
os dias que viv'hom'a seu sabor
dev'a contar que viv'e outros nom.
522
Virgílio Martinho
Canção Nocturna
Hesitei na escolha, cresceu a dúvida,
Mas sou como sou, um caso que faz fumo.
Quem dera que fosse crente, era bom,
Sou apenas um poço rodeado de olhos.
Vejo o mundo como quem vê o líquido,
Durmo enterrado na erva vermelha,
Minhas mãos são algas tacteantes
E o que percorrem tem a cor da água.
No fundo é isso, o castelo é transparente,
Tem linhas vagas, não pode sobreviver,
É um labirinto com a saída gradeada.
Nunca saberei o que sou, fumo e chega.
Mas não estou no final, não estou, vivo
com um pé no eixo, outro na margem, nado
Num mar pleno de cabeças, tu e tu e tu,
Nomes com rostos vistos ao longe, de longe.
Mas sou como sou, um caso que faz fumo.
Quem dera que fosse crente, era bom,
Sou apenas um poço rodeado de olhos.
Vejo o mundo como quem vê o líquido,
Durmo enterrado na erva vermelha,
Minhas mãos são algas tacteantes
E o que percorrem tem a cor da água.
No fundo é isso, o castelo é transparente,
Tem linhas vagas, não pode sobreviver,
É um labirinto com a saída gradeada.
Nunca saberei o que sou, fumo e chega.
Mas não estou no final, não estou, vivo
com um pé no eixo, outro na margem, nado
Num mar pleno de cabeças, tu e tu e tu,
Nomes com rostos vistos ao longe, de longe.
996
Virgílio Martinho
O Desenho do Corpo
Na palma da mão tenho um insecto,
Na arca do peito um coração,
Na curva do ventre uma teia.
Duas estradas são os meus braços,
Dois ramos as minhas pernas,
Vivo no espaço do tempo.
Na minha pele há uma história,
Feita de antigos sinais,
Cada um deles é um rosto.
Meus dedos são alicates,
Máquinas do ofício de viver,
Por eles sei o nome do amor.
Os olhos, esses, sempre o disse,
São espelhos que se mostram,
Quando os uso prolongo o canto.
A minha auréola são os cabelos,
Coroa de quem se oculta,
Manto sedoso, duna do corpo.
Com os lábios beijo, urdo os sentidos,
A saliva é o líquido que escorre
E cativa o desejo de quem quero.
Em mim tenho a página do segredo,
O impulso do mistério inteiro,
Do canto a que me dou, dando-me.
Na arca do peito um coração,
Na curva do ventre uma teia.
Duas estradas são os meus braços,
Dois ramos as minhas pernas,
Vivo no espaço do tempo.
Na minha pele há uma história,
Feita de antigos sinais,
Cada um deles é um rosto.
Meus dedos são alicates,
Máquinas do ofício de viver,
Por eles sei o nome do amor.
Os olhos, esses, sempre o disse,
São espelhos que se mostram,
Quando os uso prolongo o canto.
A minha auréola são os cabelos,
Coroa de quem se oculta,
Manto sedoso, duna do corpo.
Com os lábios beijo, urdo os sentidos,
A saliva é o líquido que escorre
E cativa o desejo de quem quero.
Em mim tenho a página do segredo,
O impulso do mistério inteiro,
Do canto a que me dou, dando-me.
1 048
Virgílio Martinho
Biografia Inventada
Sou Úrsula, chamo-me Luísa,
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.
De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.
Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.
Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.
Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.
Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.
O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.
Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.
Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.
De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.
Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.
Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.
Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.
Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.
O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.
Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.
Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
1 106
Virgílio Martinho
Viagem Para Dentro
Nasci dentro da terra,
Percorri as estações,
Nos anos vivi os anos,
Tenho olhos de prata.
Um dia fiz a viagem,
Acordei quem dormia,
A bola vermelha rolou,
Saiu-me a lotaria.
Pus-me ao caminho,
Fiz o passe de crescer,
Encontrei quem amar,
Renasci onde nasci.
Falei com poetas,
Tangi as harpas,
Meti-me no deserto,
Ergui-me em pirâmide.
No interior da mina
A palavra descobri,
O mineiro escavou-a,
Abriu-se em metais.
Longe havia o horizonte,
A linha onde tudo flutua,
Naveguei para nascente,
Arpoei o sol que vinha.
Quis agitar a onda,
Ver o delfim emergir,
Vi ao longe o poeta,
Tinha olhos de goraz.
Trouxe-me o poema,
O mapa dos meus olhos,
A pele que me cobre,
A respiração que vivo.
Percorri as estações,
Nos anos vivi os anos,
Tenho olhos de prata.
Um dia fiz a viagem,
Acordei quem dormia,
A bola vermelha rolou,
Saiu-me a lotaria.
Pus-me ao caminho,
Fiz o passe de crescer,
Encontrei quem amar,
Renasci onde nasci.
Falei com poetas,
Tangi as harpas,
Meti-me no deserto,
Ergui-me em pirâmide.
No interior da mina
A palavra descobri,
O mineiro escavou-a,
Abriu-se em metais.
Longe havia o horizonte,
A linha onde tudo flutua,
Naveguei para nascente,
Arpoei o sol que vinha.
Quis agitar a onda,
Ver o delfim emergir,
Vi ao longe o poeta,
Tinha olhos de goraz.
Trouxe-me o poema,
O mapa dos meus olhos,
A pele que me cobre,
A respiração que vivo.
1 000
Virgílio Martinho
Fetal
Fetal dentro do escuro da mãe,
formada na sua arca de vida,
sujeita à expulsão pela mater,
vim fêmea do negrume para a luz.
Ungida de matérias, tatuada de líquidos,
após o vagido, o som do chorar,
busquei o volume, o redondo do seio,
mãos hesitantes no tacto inicial.
Finda a busca, achado o alimento,
veio o crescer, a torrente viva,
soma de gestos, levedura de sons,
qual labirinto de espelhos feito.
Imagem de imagens, o desenho do rosto,
o despertar do ser inscrito nos olhos,
nas linhas enigmas da mão aberta,
no pulsante relevo da pele branca.
Estar no mundo, função minha,
ter em memória a vida que vou sendo,
no crescimento do meu crescer,
primeiro passado, depois futuro.
Agora, no ventre curvo a felpa crespa,
as pernas como funis até aos pés,
o rabo quais polpas da humana árvore,
as calotes dos seios desejo de mãos.
Do amor sei o desejo no desejar
quando o primeiro fiz e sofri
formada na sua arca de vida,
sujeita à expulsão pela mater,
vim fêmea do negrume para a luz.
Ungida de matérias, tatuada de líquidos,
após o vagido, o som do chorar,
busquei o volume, o redondo do seio,
mãos hesitantes no tacto inicial.
Finda a busca, achado o alimento,
veio o crescer, a torrente viva,
soma de gestos, levedura de sons,
qual labirinto de espelhos feito.
Imagem de imagens, o desenho do rosto,
o despertar do ser inscrito nos olhos,
nas linhas enigmas da mão aberta,
no pulsante relevo da pele branca.
Estar no mundo, função minha,
ter em memória a vida que vou sendo,
no crescimento do meu crescer,
primeiro passado, depois futuro.
Agora, no ventre curvo a felpa crespa,
as pernas como funis até aos pés,
o rabo quais polpas da humana árvore,
as calotes dos seios desejo de mãos.
Do amor sei o desejo no desejar
quando o primeiro fiz e sofri
1 013
Álvaro Guerra
antimemória
Viemos do mundo para o mundo
do nosso lugar para o lugar
e perdemos a memória de onde viemos
só o ar que respiramos nos não custa o esforço visível
dor mínima
dor habituada
em tecidos que se usam e se rompem
o resto é nunca nos inscrevermos
senão com violência
entre as acumuladas pedras da cidade
(ou) sobre o caprichoso húmus
inventando o esquecimento
e perseguindo a inventada liberdade
do infinito sempre interrogando
um regresso
uma despedida
suamos a passagem
soamos a rangente esperança
somos amos desta soma de anos não somados
consolamentum excomungado
redenção crucificada
sabemos que acabar lutando é começar
e da beleza é tudo o que sabemos
do nosso lugar para o lugar
e perdemos a memória de onde viemos
só o ar que respiramos nos não custa o esforço visível
dor mínima
dor habituada
em tecidos que se usam e se rompem
o resto é nunca nos inscrevermos
senão com violência
entre as acumuladas pedras da cidade
(ou) sobre o caprichoso húmus
inventando o esquecimento
e perseguindo a inventada liberdade
do infinito sempre interrogando
um regresso
uma despedida
suamos a passagem
soamos a rangente esperança
somos amos desta soma de anos não somados
consolamentum excomungado
redenção crucificada
sabemos que acabar lutando é começar
e da beleza é tudo o que sabemos
1 063
Mário-Henrique Leiria
RIFÃO QUOTIDIANO
Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece
1 312
Antônio Olinto
Teoria do Homem
O começo do homem é o fim do homem
o começo é o fim
o começo é o homem
o homem é o fim
meço o homem pelo fim
o fim é a medida a medida é o começo
a medida é o meio o meio é o medo
o vulto é o vento
o vento bate na bandeira
parece passo na pressa
o passo é a pressa
a pressa é o modo
o modo é o mito
o mito é a meta
o fim é o mito
o mito é o começo
o começo do homem é o fim do homem
o fim do homem é o começo do homem.
o começo é o fim
o começo é o homem
o homem é o fim
meço o homem pelo fim
o fim é a medida a medida é o começo
a medida é o meio o meio é o medo
o vulto é o vento
o vento bate na bandeira
parece passo na pressa
o passo é a pressa
a pressa é o modo
o modo é o mito
o mito é a meta
o fim é o mito
o mito é o começo
o começo do homem é o fim do homem
o fim do homem é o começo do homem.
725
Mário-Henrique Leiria
Eu vos afirmo
Eu vos afirmo
Eu sou o maldito
o único que conhece
a maldição de não existir
existindo
o único único
que é acompanhado
por outro que conhece a maldição
que é também maldito
que é também o único
eu sou
eu sou
porque somos
o único vários só
solitário de ser acompanhado
solitários de sermos verdadeiros
talvez sabendo
talvez conhecendo
a solidão que formo
formamos
só único
sós únicos.
Eu sou o maldito
o único que conhece
a maldição de não existir
existindo
o único único
que é acompanhado
por outro que conhece a maldição
que é também maldito
que é também o único
eu sou
eu sou
porque somos
o único vários só
solitário de ser acompanhado
solitários de sermos verdadeiros
talvez sabendo
talvez conhecendo
a solidão que formo
formamos
só único
sós únicos.
687
Mário-Henrique Leiria
desejo eterno
No mundo o primeiro homem apareceu.
E com ele nasceu
a ânsia, sempre insatisfeita,
de lutar, de combater,
de dominar.
Os tempos rodaram.
As civilizações passaram.
Agora as multidões caldaicas
depois os exércitos do Egipto de Dáris
avassalaram toda a terra
na fúria eterna do domínio,
da guerra.
Milhões de homens pereceram.
Impérios famosos desapareceram
mas o desejo de lutar continuou.
(…)
E hoje, como ontem, como sempre,
o homem matará.
Desejo que nasceu com o primeiro
e só com o último
morrerá.
Afinal para quê tanto lutar?
Quando o homem que hoje foi poderoso
for banquete de vermes, imundície e podridão,
o mundo continua a girar,
o tempo passa,
e o homem nada conseguiu
no seu desejo eterno
de ilusão.
E com ele nasceu
a ânsia, sempre insatisfeita,
de lutar, de combater,
de dominar.
Os tempos rodaram.
As civilizações passaram.
Agora as multidões caldaicas
depois os exércitos do Egipto de Dáris
avassalaram toda a terra
na fúria eterna do domínio,
da guerra.
Milhões de homens pereceram.
Impérios famosos desapareceram
mas o desejo de lutar continuou.
(…)
E hoje, como ontem, como sempre,
o homem matará.
Desejo que nasceu com o primeiro
e só com o último
morrerá.
Afinal para quê tanto lutar?
Quando o homem que hoje foi poderoso
for banquete de vermes, imundície e podridão,
o mundo continua a girar,
o tempo passa,
e o homem nada conseguiu
no seu desejo eterno
de ilusão.
763
Francesca Angiolillo
Problema existencial
Como esperar que você compreenda
o milagre da carne
abrindo espaço, fibra a fibra
a partir de meio centímetro de vida?
A vida,
meu filho,
é mesmo uma ferida.
(No flanco de um ciclo
ela se abre
para nos dar
e receber.)
Por que a caveira tem dente?
Mamãe, a caveira foi gente?
O olho da caveira, cadê?
A terra comeu.
A terra comeu.
A terra comeu.
o milagre da carne
abrindo espaço, fibra a fibra
a partir de meio centímetro de vida?
A vida,
meu filho,
é mesmo uma ferida.
(No flanco de um ciclo
ela se abre
para nos dar
e receber.)
Por que a caveira tem dente?
Mamãe, a caveira foi gente?
O olho da caveira, cadê?
A terra comeu.
A terra comeu.
A terra comeu.
725
Daniel Lima
Minha mãe era feita de incertezas
Minha mãe era feita de incertezas.
tecida de solidão de infindas luas.
Nunca assentou seu coração viajeiro
de medo de esquecer o fim da viagem.
Não dormia, sonhava,
Vivia os sonhos acordada e louca
e amava a vida
com tal ódio e paixão, que até se percebia nos seus solhos,
nas mãos, nos gestos
na vontade de ser e o desespero
de não ser nunca e ainda.
E eu perguntava coisas
E ela não respondia,
apenas navegava incertos mares,
guiada por estrelas que eu não via.
Minha mãe era feita de incertezas
mas, por certo, sabia o que queria.
tecida de solidão de infindas luas.
Nunca assentou seu coração viajeiro
de medo de esquecer o fim da viagem.
Não dormia, sonhava,
Vivia os sonhos acordada e louca
e amava a vida
com tal ódio e paixão, que até se percebia nos seus solhos,
nas mãos, nos gestos
na vontade de ser e o desespero
de não ser nunca e ainda.
E eu perguntava coisas
E ela não respondia,
apenas navegava incertos mares,
guiada por estrelas que eu não via.
Minha mãe era feita de incertezas
mas, por certo, sabia o que queria.
676
Renato Rezende
[Oceano]
Círculos de luz opaca, em vibrações, como se saíssem de mim, da região entre os olhos: a sensação de levantar-me dentro de mim mesmo, e ascender, ao ver um objeto caindo, caindo, caindo sem fim e se espatifando junto a uma grande encosta murada, uma muralha que parecia erguer-se indefinidamente, e de repente, eu vendo, lá de cima, o infinito vale muito embaixo, onde corre o rio que era eu o objeto espatifado.
—Então me mata?
[Ela está pedindo para você matá-la]
Não Posso.
—Então me carrega no colo, em silêncio.
Sou uma pepita de ouro no seu ventre.
No fim de todos os caminhos, de todos os atalhos, de todas as vielas, de todos os declives, de todos os abismos, de todas as picadas e veredas está o mar.
O oceano iluminado.
Sonhei com você. A gente estava num bar do aeroporto, se despedindo, você ia viajar para algum lugar e usava umas roupas meio estranhas, tipo assim, roupas de peregrino. Aí você me disse que quando voltasse ia se casar com alguém do seu passado, você disse: “essa pessoa sempre esteve lá, acho que no fundo sempre soube que era ela”.
Uma voz agora:
Que me diga que eu existo, que eu estou vivo.
O sentimento de desamparo, no tudo estar de pernas para o ar, é facilmente sanado pelo Amor. Não o que vem de fora, mas o Amor que vem de dentro: substituir essa sensação por Amor: e tudo volta ao seu lugar, sobre esta terra, ao rés do chão: tudo volta a ter sentido.
Ser como um cão farejador de Amor.
Eu não quero ir a lugar algum.
—se for preciso, cavo.
Escorrer a vida e gozar de suas dádivas, sem cobiçar nada.
O Amor transforma o Tempo num oceano.
Cruzam monstros marinhos, disformes, horrorosos,
escuros
e eu os amo
a todos
Lá vou eu
choramingando de ternura pelos cantos.
Sou muito grata por existir.
Tudo é a Verdade.
Sou
partícula de fogo que retorna ao Sol
Esse corpo nunca mais.
—Então me mata?
[Ela está pedindo para você matá-la]
Não Posso.
—Então me carrega no colo, em silêncio.
Sou uma pepita de ouro no seu ventre.
No fim de todos os caminhos, de todos os atalhos, de todas as vielas, de todos os declives, de todos os abismos, de todas as picadas e veredas está o mar.
O oceano iluminado.
Sonhei com você. A gente estava num bar do aeroporto, se despedindo, você ia viajar para algum lugar e usava umas roupas meio estranhas, tipo assim, roupas de peregrino. Aí você me disse que quando voltasse ia se casar com alguém do seu passado, você disse: “essa pessoa sempre esteve lá, acho que no fundo sempre soube que era ela”.
Uma voz agora:
Que me diga que eu existo, que eu estou vivo.
O sentimento de desamparo, no tudo estar de pernas para o ar, é facilmente sanado pelo Amor. Não o que vem de fora, mas o Amor que vem de dentro: substituir essa sensação por Amor: e tudo volta ao seu lugar, sobre esta terra, ao rés do chão: tudo volta a ter sentido.
Ser como um cão farejador de Amor.
Eu não quero ir a lugar algum.
—se for preciso, cavo.
Escorrer a vida e gozar de suas dádivas, sem cobiçar nada.
O Amor transforma o Tempo num oceano.
Cruzam monstros marinhos, disformes, horrorosos,
escuros
e eu os amo
a todos
Lá vou eu
choramingando de ternura pelos cantos.
Sou muito grata por existir.
Tudo é a Verdade.
Sou
partícula de fogo que retorna ao Sol
Esse corpo nunca mais.
725
Renato Rezende
[Tento-Carolina]
Quero ser rei e quero servir
Meu Deus, está tudo pegando fogo
É da minha ferida que escorre o meu Amor
Prestar atenção nos vazios, nos imensos vazios que existem entre
todas as pessoas, os momentos, as palavras, as coisas.
Praticamente tudo é vazio
Só dias maravilhosos?
Encantei-me por uma árvore em frente ao
templo de Shiva. Era uma árvore comum, mas
com extraordinárias pequenas sementes
vermelhas que salpicavam o chão. Vivas,
lustrosas, rijas. Peguei um punhado e as trouxe
para cá; coloquei algumas numa pequena caixa
de mármore incrustado de pedras para Lakshmi.
No mês passado, caminhando na rua que sobe o
morro, encontrei as mesmas sementes! E apenas
hoje percebi e comprovei que a árvore no quintal
do prédio diante da minha janela (ao lado da
mangueira, perto da buganvília) é ela. A menos
de 10 metros da minha janela, da minha cama.
Como nascem dentro de cachos espiralados que
só se abrem no chão, nunca percebi as sementes
antes. Mas agora, atento, vejo os pontos
vermelhos entre a folhagem.
bead tree, bois de condori, peacock
flower-fence, colales, coral bean tree,
culalis, false wili wili, falso-sândalo,
kaikes, la’aulopa,
lera, lerendamu, lopa, metekam, olhode-dragão, paina, pitipitio, pomea, red
sandalwood tree,
redbeadtree, segavé, telengtúngd,
telentundalel,
vaivai,
vaivainivavalangi,
tento-carolina
O mundo manifesto.
O amor é uma chama que deve consumir tudo,
mas em mim sendo facilmente extinguida pelos caminhões
de areia dos pensamentos e sentimentos cotidianos
desistir do plano, como parte da estratégia;
desistir da estratégia
Tudo é impuro e belo
Tudo é perfeito e imperfeito
(Senti-me o que sou, sem mais, uma pessoa entre outras, finita e autorizada)
Teria a coragem de dizer que não me sinto, freqüentemente, uma pessoa?
Viver no limite daquilo que me limita.
(ontem, na festa da Carol, me vi
novamente tomando atitudes herdadas da minha mãe, e pela
primeira vez não me senti ridícula e tola, mas me aceitei, aceitando
assim minha mãe, e, novamente, assim, me aceitando)
deixar de vir a ser para ser—o que sou
todo futuro já aconteceu
Alço o coração ao alto, os braços abertos—sei que Deus quer me ajudar.
Eu não quero a redenção; eu já sou redimida,
Vim aprender a amar
Ah, olhar transparente!
Maravilha das maravilhas
salva:
Deleitar-se com a vida
Depois de sacrificá-la
Amor de perdição
Meu Deus, está tudo pegando fogo
É da minha ferida que escorre o meu Amor
Prestar atenção nos vazios, nos imensos vazios que existem entre
todas as pessoas, os momentos, as palavras, as coisas.
Praticamente tudo é vazio
Só dias maravilhosos?
Encantei-me por uma árvore em frente ao
templo de Shiva. Era uma árvore comum, mas
com extraordinárias pequenas sementes
vermelhas que salpicavam o chão. Vivas,
lustrosas, rijas. Peguei um punhado e as trouxe
para cá; coloquei algumas numa pequena caixa
de mármore incrustado de pedras para Lakshmi.
No mês passado, caminhando na rua que sobe o
morro, encontrei as mesmas sementes! E apenas
hoje percebi e comprovei que a árvore no quintal
do prédio diante da minha janela (ao lado da
mangueira, perto da buganvília) é ela. A menos
de 10 metros da minha janela, da minha cama.
Como nascem dentro de cachos espiralados que
só se abrem no chão, nunca percebi as sementes
antes. Mas agora, atento, vejo os pontos
vermelhos entre a folhagem.
bead tree, bois de condori, peacock
flower-fence, colales, coral bean tree,
culalis, false wili wili, falso-sândalo,
kaikes, la’aulopa,
lera, lerendamu, lopa, metekam, olhode-dragão, paina, pitipitio, pomea, red
sandalwood tree,
redbeadtree, segavé, telengtúngd,
telentundalel,
vaivai,
vaivainivavalangi,
tento-carolina
O mundo manifesto.
O amor é uma chama que deve consumir tudo,
mas em mim sendo facilmente extinguida pelos caminhões
de areia dos pensamentos e sentimentos cotidianos
desistir do plano, como parte da estratégia;
desistir da estratégia
Tudo é impuro e belo
Tudo é perfeito e imperfeito
(Senti-me o que sou, sem mais, uma pessoa entre outras, finita e autorizada)
Teria a coragem de dizer que não me sinto, freqüentemente, uma pessoa?
Viver no limite daquilo que me limita.
(ontem, na festa da Carol, me vi
novamente tomando atitudes herdadas da minha mãe, e pela
primeira vez não me senti ridícula e tola, mas me aceitei, aceitando
assim minha mãe, e, novamente, assim, me aceitando)
deixar de vir a ser para ser—o que sou
todo futuro já aconteceu
Alço o coração ao alto, os braços abertos—sei que Deus quer me ajudar.
Eu não quero a redenção; eu já sou redimida,
Vim aprender a amar
Ah, olhar transparente!
Maravilha das maravilhas
salva:
Deleitar-se com a vida
Depois de sacrificá-la
Amor de perdição
684
Renato Rezende
[Ensaios]
Saberei renascer em vida?
De vez em quando paro de escrever, com vontade de morrer.
Várias vezes ao dia me deito na cama e durmo um pouco.
Ensaios.
Vou perder o medo de ficar louco.
Começar a ser o que eu sou.
Quanto a mim, continuo com essa idéia de que não tenho (nem quero ter) outra alternativa além de ser exatamente o que eu sou. Isto
Será um fracasso absoluto; mas não importa, essa é minha vida.
Eu nunca fui eu; eu sempre fui essa força dentro de mim.
Eu poderia ser facilmente qualquer pessoa.
Por acaso eu sou eu.
Eu:
Quando um prato quebra, eu digo, um prato a menos.
E sinto uma felicidade sincera, um júbilo.
Quando morre alguém, não me comovo.
Um dia serei eu, e pronto.
Para mim, a verdadeira vida sempre foi outra.
Ela cortou a ponta da minha cabeça. Me misturei ao céu.
Avisto o ponto de paz no qual a morte e o tempo já não existem como realidades limitantes.
Um homem que chegou cedo demais ao seu próprio enterro. Espero pacientemente sentado numa cadeira. Quando as pessoas enfim chegam, deito-me no caixão. Aí começam os ritos.
É preciso afirmar: Eu sou. Eu existo.
AMA ET FAC UT VIS
Tenho sido meticulosamente destruído.
Era uma casa abandonada, sem telhado
e as vacas
a haviam invadido
(e lambiam as paredes de barro):
era eu
quando por fim
me viraram
do avesso.
Meu Deus, muito obrigado por ajudar-me a ser quem eu sou. Ajudaime a ser quem eu sou. Ajudai-me a ser quem seu sou. Ajudai-me, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, meu belo Senhor, eu quero ser quem eu sou. Oh, Senhor, eu serei quem eu sou. É preciso que eu seja quem eu sou. Oh, Senhor, que eu seja quem eu sou.
Tem uma hora em que você abandona todo mundo e sai sozinho.
Eu vivo minha vida como se eu não existisse.
A pessoa sempre vai se sentir bem ou mal, ou uma coisa ou outra, mas eu não sou ela.
Não me importo com o que possa vir a acontecer.
Eu só sossegarei com o silêncio.
Estes têm sido os melhores e piores anos da minha vida.
Sei que não tenho um emprego, mas eu não vivo nessa realidade.
Eu não faço a menor idéia do que um poeta seja.
De vez em quando paro de escrever, com vontade de morrer.
Várias vezes ao dia me deito na cama e durmo um pouco.
Ensaios.
Vou perder o medo de ficar louco.
Começar a ser o que eu sou.
Quanto a mim, continuo com essa idéia de que não tenho (nem quero ter) outra alternativa além de ser exatamente o que eu sou. Isto
Será um fracasso absoluto; mas não importa, essa é minha vida.
Eu nunca fui eu; eu sempre fui essa força dentro de mim.
Eu poderia ser facilmente qualquer pessoa.
Por acaso eu sou eu.
Eu:
Quando um prato quebra, eu digo, um prato a menos.
E sinto uma felicidade sincera, um júbilo.
Quando morre alguém, não me comovo.
Um dia serei eu, e pronto.
Para mim, a verdadeira vida sempre foi outra.
Ela cortou a ponta da minha cabeça. Me misturei ao céu.
Avisto o ponto de paz no qual a morte e o tempo já não existem como realidades limitantes.
Um homem que chegou cedo demais ao seu próprio enterro. Espero pacientemente sentado numa cadeira. Quando as pessoas enfim chegam, deito-me no caixão. Aí começam os ritos.
É preciso afirmar: Eu sou. Eu existo.
AMA ET FAC UT VIS
Tenho sido meticulosamente destruído.
Era uma casa abandonada, sem telhado
e as vacas
a haviam invadido
(e lambiam as paredes de barro):
era eu
quando por fim
me viraram
do avesso.
Meu Deus, muito obrigado por ajudar-me a ser quem eu sou. Ajudaime a ser quem eu sou. Ajudai-me a ser quem seu sou. Ajudai-me, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, meu belo Senhor, eu quero ser quem eu sou. Oh, Senhor, eu serei quem eu sou. É preciso que eu seja quem eu sou. Oh, Senhor, que eu seja quem eu sou.
Tem uma hora em que você abandona todo mundo e sai sozinho.
Eu vivo minha vida como se eu não existisse.
A pessoa sempre vai se sentir bem ou mal, ou uma coisa ou outra, mas eu não sou ela.
Não me importo com o que possa vir a acontecer.
Eu só sossegarei com o silêncio.
Estes têm sido os melhores e piores anos da minha vida.
Sei que não tenho um emprego, mas eu não vivo nessa realidade.
Eu não faço a menor idéia do que um poeta seja.
829
Renato Rezende
[Re-Nato]
O poder da respiração—entrando e saindo do corpo
e tive a sensação de que um nó havia se desatado
em algum ponto profundo do meu corpo
Depois de completamente esvaziado, sinto-me pouco a pouco
sendo preenchido, desde os pés.
(Às vezes me sinto sem pé, submerso).
Saia para uma caminhada pelo bairro
(Como entendo essa língua em que me falam?)
Observe bem
As casas dos homens, as ruas da cidade:
Esta é tua casa.
O teu espaço, o teu
É a medida do teu braço.
A tua boca come,
O teu intestino digere,
Agora você é um homem.
Ah, a dádiva de ser uma pessoa normal entre outras.
Deus veio tocar Rachmaninoff
e tocou pior que Rachmaninoff
(era eu)
A perfeição não é fazer tudo perfeito
Tudo acontece para o melhor
Eu era uma menina de 7 anos quando fui estuprada e jogada num poço. Agonizei durante 3 dias e 3 noites antes de morrer. É por isso que vivo meio morto.
Esse ato de violência inaugurou nova vida,
o caminho de volta.
Hoje amo o assassino sinceramente.
Quando o mundo acaba, a casa se ilumina.
O amor está na respiração profunda.
Acabei de voltar do supermercado. Comprei
um maço de coentro e um de basílico. A mão
direita ficou cheirando a coentro, e a
esquerda a basílico. Ambos tão vegetais e tão
diferentes. E como nos é difícil descrevê-los!
Uma vida humana é muita coisa—é uma eternidade.
Não há porque sentir vergonha ou culpa, tudo que desabrocha é a própria alegria, é a própria limpeza.
No instante sereno
Em que todas as derrotas se tornam vitórias
A vida humana é longa
Se cada instante é doce
aqui tem um poço novo
poço dos desejos
lanço uma moeda de ouro
nesse poço
(viver cada momento como se rememorasse
em seu leito de doente, diante da morte)
eu fui Flora
eu fui Carlos
eu fui Jonas e Sebastião e Caius
e Raimundo e Stefania
(que importância um nome tem?)
Sou todo mundo,
agora você sou eu
(Uma mente sem fantasias):
Abra-te Coração.
e tive a sensação de que um nó havia se desatado
em algum ponto profundo do meu corpo
Depois de completamente esvaziado, sinto-me pouco a pouco
sendo preenchido, desde os pés.
(Às vezes me sinto sem pé, submerso).
Saia para uma caminhada pelo bairro
(Como entendo essa língua em que me falam?)
Observe bem
As casas dos homens, as ruas da cidade:
Esta é tua casa.
O teu espaço, o teu
É a medida do teu braço.
A tua boca come,
O teu intestino digere,
Agora você é um homem.
Ah, a dádiva de ser uma pessoa normal entre outras.
Deus veio tocar Rachmaninoff
e tocou pior que Rachmaninoff
(era eu)
A perfeição não é fazer tudo perfeito
Tudo acontece para o melhor
Eu era uma menina de 7 anos quando fui estuprada e jogada num poço. Agonizei durante 3 dias e 3 noites antes de morrer. É por isso que vivo meio morto.
Esse ato de violência inaugurou nova vida,
o caminho de volta.
Hoje amo o assassino sinceramente.
Quando o mundo acaba, a casa se ilumina.
O amor está na respiração profunda.
Acabei de voltar do supermercado. Comprei
um maço de coentro e um de basílico. A mão
direita ficou cheirando a coentro, e a
esquerda a basílico. Ambos tão vegetais e tão
diferentes. E como nos é difícil descrevê-los!
Uma vida humana é muita coisa—é uma eternidade.
Não há porque sentir vergonha ou culpa, tudo que desabrocha é a própria alegria, é a própria limpeza.
No instante sereno
Em que todas as derrotas se tornam vitórias
A vida humana é longa
Se cada instante é doce
aqui tem um poço novo
poço dos desejos
lanço uma moeda de ouro
nesse poço
(viver cada momento como se rememorasse
em seu leito de doente, diante da morte)
eu fui Flora
eu fui Carlos
eu fui Jonas e Sebastião e Caius
e Raimundo e Stefania
(que importância um nome tem?)
Sou todo mundo,
agora você sou eu
(Uma mente sem fantasias):
Abra-te Coração.
995
Renato Rezende
[Flores]
Só nos libertamos à medida que não somos esmagados.
Desde que morri, não tenho vontade de fazer nada.
Que eu saiba, não há nenhum caso na família.
Não tenho que ser: Sou.
Fui longe demais para voltar.
Se você espera, você espera para sempre.
É preciso estar presente, mas não apegado.
É preciso que a linguagem não agarre.
Vou repetindo: espaço, espaço chamado sala, espaço chamado quarto, objeto no espaço chamado cama, objeto no espaço chamado cortina, objeto sobre objeto no espaço chamado livro, livro sobre mesa que esta mão (minha) levanta...
Há em mim uma zona de cegueira, de cansaço, de descaso.
minha mão—minha—meu, mão
eu sou eu mesmo sem minha mão?
Deve ser muito doido ser gente.
Tem gente que demora muito para nascer.
Já é hora de me tornar quem realmente sou.
Dei de dormir com a luz acesa.
Assim, enquanto durmo, minha mente parece acesa.
É minha a luz acesa.
Desconfio que seja.
Eu sou você?
Preencher completamente a minha forma—viver ao máximo.
Melhor perder todos os medos.
A poesia está além do dia.
O homem não nasce, passa a vida nascendo.
Há flores que desabrocham no outono, no inverno.
Palavras dão corpo.
Desde que morri, não tenho vontade de fazer nada.
Que eu saiba, não há nenhum caso na família.
Não tenho que ser: Sou.
Fui longe demais para voltar.
Se você espera, você espera para sempre.
É preciso estar presente, mas não apegado.
É preciso que a linguagem não agarre.
Vou repetindo: espaço, espaço chamado sala, espaço chamado quarto, objeto no espaço chamado cama, objeto no espaço chamado cortina, objeto sobre objeto no espaço chamado livro, livro sobre mesa que esta mão (minha) levanta...
Há em mim uma zona de cegueira, de cansaço, de descaso.
minha mão—minha—meu, mão
eu sou eu mesmo sem minha mão?
Deve ser muito doido ser gente.
Tem gente que demora muito para nascer.
Já é hora de me tornar quem realmente sou.
Dei de dormir com a luz acesa.
Assim, enquanto durmo, minha mente parece acesa.
É minha a luz acesa.
Desconfio que seja.
Eu sou você?
Preencher completamente a minha forma—viver ao máximo.
Melhor perder todos os medos.
A poesia está além do dia.
O homem não nasce, passa a vida nascendo.
Há flores que desabrocham no outono, no inverno.
Palavras dão corpo.
989
Francesca Angiolillo
Na avenida
Como é triste a vida na cidade
a mãe empurra o carrinho na galeria
a criança sonolenta com a cara suja
de sorvete como é boa
a vida na cidade quando
se sai na avenida
e um homem dança
sacudindo todo o corpo ao som
da banda que acelera
todos os hits
que alegria
é sair na avenida e saber
que nela não encontro
mais você nem um eco
emana da esquina cheia
de papéis e folhas e cadeiras acanhadas
Ah que bela é a vida quando
a gente se esquece
e nem lembra
de que pensando na vida
assim
distraída
pode vir um carro e
bam.
a mãe empurra o carrinho na galeria
a criança sonolenta com a cara suja
de sorvete como é boa
a vida na cidade quando
se sai na avenida
e um homem dança
sacudindo todo o corpo ao som
da banda que acelera
todos os hits
que alegria
é sair na avenida e saber
que nela não encontro
mais você nem um eco
emana da esquina cheia
de papéis e folhas e cadeiras acanhadas
Ah que bela é a vida quando
a gente se esquece
e nem lembra
de que pensando na vida
assim
distraída
pode vir um carro e
bam.
645
Sérgio Medeiros
O passeio dos bichos
– então o piolho se foi
saltando
– um sapo o engoliu
e se foi pulando
– uma cobra os etc.
e se foi coleando
– um falcão os etc.
e se foi voando
– até o final da viagem
ou do passeio…
saltando
– um sapo o engoliu
e se foi pulando
– uma cobra os etc.
e se foi coleando
– um falcão os etc.
e se foi voando
– até o final da viagem
ou do passeio…
686
Samarone Lima de Oliveira
Formas do dia
Às vezes, ao escolher os sapatos
Erramos o dia.
E a cor, a forma,
Nos levam ao ponto primordial:
Como saímos de casa.
Às vezes, a falta de uma bênção
Nos leva ao segundo erro:
Saímos de casa desassistidos
E nos perdemos do próprio dia.
Às vezes, a falta de um aviso
De um recado
De um aceno
Nos faz seguir sem os pequenos gestos
Que nos salvam o dia.
Quase sempre
Voltamos para casa
Tão vivos
E nem sabemos
Que sapatos, bênçãos, avisos
Nos salvam a vida.
Erramos o dia.
E a cor, a forma,
Nos levam ao ponto primordial:
Como saímos de casa.
Às vezes, a falta de uma bênção
Nos leva ao segundo erro:
Saímos de casa desassistidos
E nos perdemos do próprio dia.
Às vezes, a falta de um aviso
De um recado
De um aceno
Nos faz seguir sem os pequenos gestos
Que nos salvam o dia.
Quase sempre
Voltamos para casa
Tão vivos
E nem sabemos
Que sapatos, bênçãos, avisos
Nos salvam a vida.
694
Renato Rezende
[Azul]
Sou uma coisa morta.
Não há nada que eu possa perder agora
que já não tenha perdido antes.
Agora que eu morri posso dizer que sempre tive mesmo a saúde frágil.
Agora que morri posso assumir que sempre fui uma mulher.
Agora que morri posso simplesmente amar.
Viver ficou muito mais fácil agora. Eu deveria ter morrido antes.
Eu amo
Eu amo
Estonteantemente
Aparado, lavado, vestido, perfumado,
o corpo é imaginário
Desista de ser: seja
Nós damos o que não temos
(Conversa longa com uma moça. Mora longe, vem de balsa. Seu corpo mexe, sua boca mexe, seus lindos olhos negros mexem. Entusiasmada, me falava sobre a necessidade do escritor escrever para o seu tempo; eu, olhos perdidos, sem conseguir fazer a conexão, mal a ouvia.)
Atravessei o túnel a pé—o clarão e o azul do mar ao fundo, adiante.
Eu vivo de milagres
Eu nunca fiz nada.
A vida de qualquer um é muita, é o suficiente. A vida.
Para quem escrevo?
Importa quem fala? Precisamos sempre saber?
"Escreva!"
Seja atraído para o que ama, como um inseto para uma lâmpada.
Quebre a coluna.
Um ponto de luz que se abriu
Azul
Dedicar-me completamente ao outro
Porque o outro sou eu.
Encandilar
Quero ser mastigada:
Oh, Deus.
Ponha-me sobre o Tempo
Sempre quis uma vida maior do que a que cabia em mim.
Oh, Deus.
Quero seu pé no meu peito.
(O interesse pelo mundo
é proporcional ao interesse
pelo corpo)
O buraco é sempre mais embaixo
E agora caio
O que fazer com esse corpo?
[UM CORPO DE LUZ]
Não há nada que eu possa perder agora
que já não tenha perdido antes.
Agora que eu morri posso dizer que sempre tive mesmo a saúde frágil.
Agora que morri posso assumir que sempre fui uma mulher.
Agora que morri posso simplesmente amar.
Viver ficou muito mais fácil agora. Eu deveria ter morrido antes.
Eu amo
Eu amo
Estonteantemente
Aparado, lavado, vestido, perfumado,
o corpo é imaginário
Desista de ser: seja
Nós damos o que não temos
(Conversa longa com uma moça. Mora longe, vem de balsa. Seu corpo mexe, sua boca mexe, seus lindos olhos negros mexem. Entusiasmada, me falava sobre a necessidade do escritor escrever para o seu tempo; eu, olhos perdidos, sem conseguir fazer a conexão, mal a ouvia.)
Atravessei o túnel a pé—o clarão e o azul do mar ao fundo, adiante.
Eu vivo de milagres
Eu nunca fiz nada.
A vida de qualquer um é muita, é o suficiente. A vida.
Para quem escrevo?
Importa quem fala? Precisamos sempre saber?
"Escreva!"
Seja atraído para o que ama, como um inseto para uma lâmpada.
Quebre a coluna.
Um ponto de luz que se abriu
Azul
Dedicar-me completamente ao outro
Porque o outro sou eu.
Encandilar
Quero ser mastigada:
Oh, Deus.
Ponha-me sobre o Tempo
Sempre quis uma vida maior do que a que cabia em mim.
Oh, Deus.
Quero seu pé no meu peito.
(O interesse pelo mundo
é proporcional ao interesse
pelo corpo)
O buraco é sempre mais embaixo
E agora caio
O que fazer com esse corpo?
[UM CORPO DE LUZ]
751
Renato Rezende
[Filtros]
Eu criei uma ilusão, um véu, há muitas camadas de tecido,
muito filtro, entre eu e a vida.
Mas uma vida humana não é justamente a experiência desses
filtros?
A vida—experiência absurda—não é sempre necessariamente
mediada?
A vida humana só é se mediada.
Somos todos vazios,
Sem existência fixa.
A gente vai sempre virando
apenas mais uma vida,
perdida
ARRISCAR TUDO
Todos os recursos
Concentrar todos os esforços
Lançar tudo fora
Um homem deve dedicar sua vida àquilo pelo qual se esquece
se perde
diante do abismo
pisa
no vazio
Nada tem sentido
Tudo é um fim em si mesmo.
Derreter no coração todos os sentidos.
Nesta terra não há jardim que não tenha sido construído sobre os quintos dos infernos.
A pessoa nunca é em termos absolutos. Nenhum de nós é.
Somos sempre em termos relativos. Em relação ao outro: espelhos uns dos outros. Poderíamos ser qualquer um de nós.
Isso é ser livre?
Toda pessoa que se preze é uma fracassada.
Na Noruega há um Joe Doe que passa os dias olhando pela janela a neve cair, sem vontade de sair de casa. Ele teria coisas para fazer, responder emails e telefonemas, o trabalho se acumulando. Eu não me importo com isso, não o julgo, não o condeno. Acho que ele tem todo o tempo do mundo, o direito a todo esse tempo: não sinto ansiedade, nem culpa, não me envolvo. Agora eu sou esse Joe Doe no Rio de Janeiro:
No meio da tarde, levanto e saio: nada realmente para fazer, apenas a atração pela luz e pelo abismo. Apenas o descaso pelo falatório.
[Essa é a imagem da minha vida].
Mas não saio com a experiência de um vazio interno, um oco. Não é para o exílio que saio, e sim para a VIDA. Agora, quando saio, carrego o mundo comigo: sou eu o vivo, são eles os mortos.
[Não. O Amor nos une a todos: somos todos vivos e mortos: homo caritas est].
muito filtro, entre eu e a vida.
Mas uma vida humana não é justamente a experiência desses
filtros?
A vida—experiência absurda—não é sempre necessariamente
mediada?
A vida humana só é se mediada.
Somos todos vazios,
Sem existência fixa.
A gente vai sempre virando
apenas mais uma vida,
perdida
ARRISCAR TUDO
Todos os recursos
Concentrar todos os esforços
Lançar tudo fora
Um homem deve dedicar sua vida àquilo pelo qual se esquece
se perde
diante do abismo
pisa
no vazio
Nada tem sentido
Tudo é um fim em si mesmo.
Derreter no coração todos os sentidos.
Nesta terra não há jardim que não tenha sido construído sobre os quintos dos infernos.
A pessoa nunca é em termos absolutos. Nenhum de nós é.
Somos sempre em termos relativos. Em relação ao outro: espelhos uns dos outros. Poderíamos ser qualquer um de nós.
Isso é ser livre?
Toda pessoa que se preze é uma fracassada.
Na Noruega há um Joe Doe que passa os dias olhando pela janela a neve cair, sem vontade de sair de casa. Ele teria coisas para fazer, responder emails e telefonemas, o trabalho se acumulando. Eu não me importo com isso, não o julgo, não o condeno. Acho que ele tem todo o tempo do mundo, o direito a todo esse tempo: não sinto ansiedade, nem culpa, não me envolvo. Agora eu sou esse Joe Doe no Rio de Janeiro:
No meio da tarde, levanto e saio: nada realmente para fazer, apenas a atração pela luz e pelo abismo. Apenas o descaso pelo falatório.
[Essa é a imagem da minha vida].
Mas não saio com a experiência de um vazio interno, um oco. Não é para o exílio que saio, e sim para a VIDA. Agora, quando saio, carrego o mundo comigo: sou eu o vivo, são eles os mortos.
[Não. O Amor nos une a todos: somos todos vivos e mortos: homo caritas est].
831
Renato Rezende
[Estilhaços]
[estar: dois ou mais
locais ao mesmo tempo.]
Já sei o que vou fazer. Nada.
E quando o dinheiro acabar? Nada.
Do chão ninguém passa.
Eu não tenho compromisso com o real.
De vez em quando rompe-se um espelho.
Ainda não suporto
a força desse gozo.
Vou-me embora para Pasárgada? Que nada
Vou ficar aqui mesmo
Aqui
sou amigo dos meus inimigos, rei dos mosquitos.
Quanto mais belo, mais verdadeiro
Quanto mais verdadeiro, mais pleno
Tudo que é dito é desmentido.
Tudo o que é, também não é.
Estamos todos aqui de forma oblíqua—estilhaços.
Quando virarei do avesso?
A arte de estar onde se está
Ser é estar
esse habitar, esse ser quem é dentro de si
Penso, logo penso que existo.
só as ações são sólidas
o importante não é estar aqui ou ali
estar com este ou aquela
pq a pressa em morrer?
logo logo estará morto
a vida nunca é a vida
viver nunca é viver
Toda cultura inventa um corpo
Quer chá? Não quer chá.
Viver é sempre um construir
Uma coisa de barro é mais humana que uma de plástico?
Por quê?
Há palavras sagradas?
Há uma força maior? Algo que nos atravessa?
Ser Renato como poderia ser qualquer pessoa. O Renato tem seu destino. Ser Renato sendo o que observa o Renato, sendo o que assiste, estupefato, divertido, o filme do desenvolver da vida do Renato. Ser Renato não sendo o Renato, e sim aquele que assiste. Ser aquele que testemunha a vida do Renato sendo o Renato. Ser o que assiste—ser o observador—a vida do Renato interferindo na vida do Renato através do Amor.
Ser o que assiste amando. O ponto de encontro entre o Renato sendo e o que o assiste enquanto: é o Amor.
locais ao mesmo tempo.]
Já sei o que vou fazer. Nada.
E quando o dinheiro acabar? Nada.
Do chão ninguém passa.
Eu não tenho compromisso com o real.
De vez em quando rompe-se um espelho.
Ainda não suporto
a força desse gozo.
Vou-me embora para Pasárgada? Que nada
Vou ficar aqui mesmo
Aqui
sou amigo dos meus inimigos, rei dos mosquitos.
Quanto mais belo, mais verdadeiro
Quanto mais verdadeiro, mais pleno
Tudo que é dito é desmentido.
Tudo o que é, também não é.
Estamos todos aqui de forma oblíqua—estilhaços.
Quando virarei do avesso?
A arte de estar onde se está
Ser é estar
esse habitar, esse ser quem é dentro de si
Penso, logo penso que existo.
só as ações são sólidas
o importante não é estar aqui ou ali
estar com este ou aquela
pq a pressa em morrer?
logo logo estará morto
a vida nunca é a vida
viver nunca é viver
Toda cultura inventa um corpo
Quer chá? Não quer chá.
Viver é sempre um construir
Uma coisa de barro é mais humana que uma de plástico?
Por quê?
Há palavras sagradas?
Há uma força maior? Algo que nos atravessa?
Ser Renato como poderia ser qualquer pessoa. O Renato tem seu destino. Ser Renato sendo o que observa o Renato, sendo o que assiste, estupefato, divertido, o filme do desenvolver da vida do Renato. Ser Renato não sendo o Renato, e sim aquele que assiste. Ser aquele que testemunha a vida do Renato sendo o Renato. Ser o que assiste—ser o observador—a vida do Renato interferindo na vida do Renato através do Amor.
Ser o que assiste amando. O ponto de encontro entre o Renato sendo e o que o assiste enquanto: é o Amor.
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