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Poemas neste tema

Vida

Alexei Bueno

Alexei Bueno

Transmutação

Transmutação

Nascemos carne. E a cada dia

Nos vamos transformando em sonho.

Há sempre um patamar tristonho

Na escada em que antes não havia.

Há sempre um quarto em que vivemos

E nunca vimos. Sempre há um morto

Que bate à porta. Há sempre um porto

Que jamais houve e de onde viemos.

Há uma manhã cinza na feira

Que não se acaba há muitos anos.

Há uma mulher, nua entre panos,

Que não é nossa a vida inteira.

O tempo espera, inalterado

Como um licor, que nós subamos

Por ele abaixo, nós que vamos

Descendo-o acima em passo ousado.

Atrás há a aurora. À frente o nada.

No meio a confusão das luas.

Ah! quem voltasse às mesmas ruas

Em senso inverso, até a entrada.

Quem desse as costas à saída

Certa e voraz, e, dessa sorte,

Fosse afastando-se da morte

Até a primeira hora da vida

E seu mistério, e se encarnasse

Nos seus eus idos, e fugisse

Por si acima, até que ouvisse

O choro antigo, e ainda o passasse.

Nascemos carne, e ao sonho vamos.

Somos o fio que desfaz

Toda a tapeçaria, mas

Quem é que o puxa, nem sonhamos.

Vamos fazendo-nos de ar

De crianças rijas que já fomos,

Vamos como explodindo em gomos

De ser, um fruto a se espalhar.

Nossos amigos são de vento

Cada vez mais. As nossas casas

Grãos que o sol doura. Soam asas

No nosso cofre mais sedento.

Para isso apenas nos gerastes,

Para ser sonho, mães de sonho.

Há sempre um pássaro medonho

Nos nomeando entre umas hastes.

Há sempre um baile de sumidos

Na íntima praça inexistente.

Há um branco sol sempre presente

Na noite em que vamos perdidos.

Há um rosto cruel que nos exorta.

E escadas. E a manhã na feira

Que vai durando a vida inteira.

Há o patamar. E um beijo. E a porta.

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Antonio Machado

Antonio Machado

RETRATO (DE CAMPOS DE CASTILLA)

A minha infância é lembranças de um pátio sevilhano,
e de um claro pomar de limoeiros maduros;
a juventude quatro lustros em campo castelhano;
a minha história uns casos que recordar não cuido.

Nem sedutor Mañara, nem Brandomín hei sido
- quem não conhece o meu desleixo indumentário? -
mas recebi a flecha que disparou Cupido,
e amei o que elas podem ter de hospitalário.

Tenho nas veias algum sangue jacobino,
mas meu verso brota sem carregar o tom;
e mais que homem que julga só beber do fino,
sou, no pleno sentido da palavra, bom.

Adoro a formosura e na moderna estética
cortei as rosas do jardim de Ronsard;
mas não amo as artes da actual cosmética,
nem sou desses pássaros do novo gay-trinar.

Desdenho as cantarias dos tenores pecos,
e o coro dos grilos que cantam à lua.
E paro a distinguir as vozes e os ecos,
e de entre as vozes todas ouço apenas uma.

Sou clássico, romântico? Não sei. Deixar quisera
meus versos como deixa o capitão sua espada:
famosa pela mão que combateu com ela,
não pelo ofício do alfageme apreciada.

Converso com o homem que sempre vai comigo
- quem fala só conta falar com Deus um dia -
meu solilóquio é prática com este amigo
que me ensinou o segredo da filantropia.

E não vos devo nada. Deveis-me quanto hei escrito.
A meu trabalho acudo, com meu dinheiro pago
a roupa que me cobre, e a casa adonde habito,
o pão que me alimenta, o leito em que me apago.

E quando chegue o dia da última viagem,
pronta a partir a nau que nunca há-de voltar,
haveis de ver-me a bordo com pouca bagagem,
e mesmo quase nu, como os filhos do mar.

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Caminho da Manhã

Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.
Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.
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