Poemas neste tema
Vida e Existência
José de Anchieta
Na Festa de São Lourenço
2o. ATO
No 2o. ato entram três diabos, que querem destruir a aldeia com
pecados, aos quais resistem São Lourenço e São Sebastião e o Anjo
da Guarda, livrando a aldeia e prendendo os diabos, cujos nomes
são: Guaixará, que é o rei; Aimbirê e Saravaia, seus criados.
Guaixará — (...)
Abá, serã, xe jabé? Quem, como eu?
Ixé serobiaripyra, Eu sou conceituado,
xe anangusú mixyra, sou o diabão assado,
Guaixará serímbae, Guaixará chamado,
Kuépe imoerapoanimbyra. por aí afamado.
(...)
Moraséia e ikatú, É bom dançar,
jeguáka, jemopiránga, adornar-se, tingir-se de
vermelho,
samongy, jetymanguánga, empenar o corpo, pintar as
pernas,
jemoúna, petymbú, fazer-se negro, fumar,
karaí moñamomoñánga... curandeirar...
Jemoyrõ, morapití, De enfurecer-se, andar
matando,
joú, tapúia rára, comer um ao outro, prender
tapuias,
aguasá, moropotára; amancebar-se, ser desonesto,
mañána, syguarajy espião, adúltero
— naipotári abá sejára. — não quero que o gentio
deixe.
Angarí Para isso
ajosúb abá koty, convivo com os índios,
texerorobiár, ujábo. induzindo-os a acreditarem em
mim.
Oú teñé xe peábo Vêm inutilmente afastar-me
"abaré" jába, kori, os tais "padres", agora,
Tupã rekó mombeguábo. apregoando a lei de Deus.
(...)
Saravaia — (...)
Chama quatro companheiros, que ajudem:
Tataurána, Tataurana,
erú ke nde mosurána! traze a tua muçurana!
Urubú, Jaguarusú, Urubu, Jaguaruçu,
ingapéma be perú! trazei também a ingapema!
Kaburé, jorí eñána Caborê, vem correndo
tobajára tiaú! comer os inimigos!
Acodem todos quatro, com suas armas, e dizem:
Tataurana — Ko xe musuranusú. Aqui está a minha muçurana
grossa.
Taú korí ijybapuéra, Eu lhe comerei os braços,
Jaguarusú juguéra, Jaguaruçu o pescoço,
iakanguéra Urubú, Urubu sua caveira,
Kaburé setymambuéra. Caborê as suas pernas.
Urubu — Ko aikó, Aqui estou,
syguepuéra tarasó vou levar as suas tripas e
bofes
iñyambebúia abé, para minha velha sogra.
xe raixó guaibi supé. Veio também a panela,
Oubé senaempepó, cozerão à minha vista.
tomoji xe renondé.
Jaguaruçu — Kobé ingape koatiára, Aqui está também a ingapema
listrada,
tajakáng mombúk murú. para quebrar-lhes as cabeças.
Iaputuúma taú. Comerei os seus miolos.
Xe aguaraguasú, jaguára. Sou o guará, a onça.
Xe jaguareté iporú! Sou jaguaretê antropófago!
Caborê — Kueisé ko aporapití, Andei por aqui derrotando,
ajurujúba jukábo, matando franceses,
uiñemoerapoangatuábo. para tornar-me famoso.
Tasó nde pyri, korí, Irei a teu lado, agora,
aipó tubixába guábo. devorar estes chefes.
(...)
Imagem - 00570010
In: ANCHIETA. Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954.
NOTA: Tradução da parte em tupi, por M. de L. de Paula Martin
No 2o. ato entram três diabos, que querem destruir a aldeia com
pecados, aos quais resistem São Lourenço e São Sebastião e o Anjo
da Guarda, livrando a aldeia e prendendo os diabos, cujos nomes
são: Guaixará, que é o rei; Aimbirê e Saravaia, seus criados.
Guaixará — (...)
Abá, serã, xe jabé? Quem, como eu?
Ixé serobiaripyra, Eu sou conceituado,
xe anangusú mixyra, sou o diabão assado,
Guaixará serímbae, Guaixará chamado,
Kuépe imoerapoanimbyra. por aí afamado.
(...)
Moraséia e ikatú, É bom dançar,
jeguáka, jemopiránga, adornar-se, tingir-se de
vermelho,
samongy, jetymanguánga, empenar o corpo, pintar as
pernas,
jemoúna, petymbú, fazer-se negro, fumar,
karaí moñamomoñánga... curandeirar...
Jemoyrõ, morapití, De enfurecer-se, andar
matando,
joú, tapúia rára, comer um ao outro, prender
tapuias,
aguasá, moropotára; amancebar-se, ser desonesto,
mañána, syguarajy espião, adúltero
— naipotári abá sejára. — não quero que o gentio
deixe.
Angarí Para isso
ajosúb abá koty, convivo com os índios,
texerorobiár, ujábo. induzindo-os a acreditarem em
mim.
Oú teñé xe peábo Vêm inutilmente afastar-me
"abaré" jába, kori, os tais "padres", agora,
Tupã rekó mombeguábo. apregoando a lei de Deus.
(...)
Saravaia — (...)
Chama quatro companheiros, que ajudem:
Tataurána, Tataurana,
erú ke nde mosurána! traze a tua muçurana!
Urubú, Jaguarusú, Urubu, Jaguaruçu,
ingapéma be perú! trazei também a ingapema!
Kaburé, jorí eñána Caborê, vem correndo
tobajára tiaú! comer os inimigos!
Acodem todos quatro, com suas armas, e dizem:
Tataurana — Ko xe musuranusú. Aqui está a minha muçurana
grossa.
Taú korí ijybapuéra, Eu lhe comerei os braços,
Jaguarusú juguéra, Jaguaruçu o pescoço,
iakanguéra Urubú, Urubu sua caveira,
Kaburé setymambuéra. Caborê as suas pernas.
Urubu — Ko aikó, Aqui estou,
syguepuéra tarasó vou levar as suas tripas e
bofes
iñyambebúia abé, para minha velha sogra.
xe raixó guaibi supé. Veio também a panela,
Oubé senaempepó, cozerão à minha vista.
tomoji xe renondé.
Jaguaruçu — Kobé ingape koatiára, Aqui está também a ingapema
listrada,
tajakáng mombúk murú. para quebrar-lhes as cabeças.
Iaputuúma taú. Comerei os seus miolos.
Xe aguaraguasú, jaguára. Sou o guará, a onça.
Xe jaguareté iporú! Sou jaguaretê antropófago!
Caborê — Kueisé ko aporapití, Andei por aqui derrotando,
ajurujúba jukábo, matando franceses,
uiñemoerapoangatuábo. para tornar-me famoso.
Tasó nde pyri, korí, Irei a teu lado, agora,
aipó tubixába guábo. devorar estes chefes.
(...)
Imagem - 00570010
In: ANCHIETA. Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954.
NOTA: Tradução da parte em tupi, por M. de L. de Paula Martin
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1
Olga Savary
Caiçuçáua
Sempre o verão
e algum inverno
nesta cidade sem outono
e pouca primavera:
tudo isto te vê entrar
em mim todo inteiro
e eu em fogo vou bebendo
todos os teus rios
com uma insaciável sede
que te segue às estações
no dia aceso.
Em tua água sim está meu tempo,
meu começo. E depois nem poder ordenar:
te acalma, minha paixão.
In: SAVARY, Olga. Linha d'água. Pref. Felipe Fortuna. Il. Kazuo Wakabayashi. São Paulo: Massao Ohno; Niterói: Hipocampo, 1987.
NOTA: Do tupi = amor, amad
e algum inverno
nesta cidade sem outono
e pouca primavera:
tudo isto te vê entrar
em mim todo inteiro
e eu em fogo vou bebendo
todos os teus rios
com uma insaciável sede
que te segue às estações
no dia aceso.
Em tua água sim está meu tempo,
meu começo. E depois nem poder ordenar:
te acalma, minha paixão.
In: SAVARY, Olga. Linha d'água. Pref. Felipe Fortuna. Il. Kazuo Wakabayashi. São Paulo: Massao Ohno; Niterói: Hipocampo, 1987.
NOTA: Do tupi = amor, amad
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1
Felipe d’Oliveira
Ubi Troia Fuit
Eu queria que tu perdesses a beleza e ficasses,
não a estátua mutilada que liberta e amplia o êxtase,
mas a transfiguração de teu próprio esplendor,
a tua metempsicose em criatura usual,
integrada na turba.
Eu queria que tua beleza morresse
e que, como um mar de naufrágio,
sobrevivesse o teu corpo deserto de tua
graça sem vestígio.
Os homens perderiam a lembrança de seu desejo
e na lembrança dos homens se apagaria a tua irradiação
e ante os olhos dos homens se fecharia para
sempre o sulco que teus gestos
cadenciados abrem no ar
e a inconstância dos homens, insensível a
teu desastre, esqueceria a tua primavera.
Eu, só eu, ficaria contigo, eu só, com a
alegria de guardar intacta a tua imagem.
Tudo que para minha percepção nasceu de ti
permaneceria integral e imutável:
a rua continuaria sendo o friso que tu
povoaste de efígies harmoniosas
nascidas de cada passo de tua marcha;
a noite continuaria sendo o veludo morno
com que teu beijo a prolongou até a
origem de meu sonho;
e diante de mim a felicidade continuaria,
vigilante e eterna, no fundo de teus
olhos de antigamente já apagados
para os outros que os olharam.
Eu, só eu, ficaria contigo
e seria o senhor fabuloso de um tesouro
desaparecido que a cobiça não percebe,
e seria a voz secreta, a alma imperecível de
uma cidade morta,
e seria o testemunho revelador de uma
legenda esquecida.
Eu, só eu, ficaria contigo...
E, de trazer-te em mim,
eu seria a fôrma ignorada de uma
escultura perdida
de cuja perfeição os homens se recordam com nostalgia.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Amor, que Move o Sol.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.91-9
não a estátua mutilada que liberta e amplia o êxtase,
mas a transfiguração de teu próprio esplendor,
a tua metempsicose em criatura usual,
integrada na turba.
Eu queria que tua beleza morresse
e que, como um mar de naufrágio,
sobrevivesse o teu corpo deserto de tua
graça sem vestígio.
Os homens perderiam a lembrança de seu desejo
e na lembrança dos homens se apagaria a tua irradiação
e ante os olhos dos homens se fecharia para
sempre o sulco que teus gestos
cadenciados abrem no ar
e a inconstância dos homens, insensível a
teu desastre, esqueceria a tua primavera.
Eu, só eu, ficaria contigo, eu só, com a
alegria de guardar intacta a tua imagem.
Tudo que para minha percepção nasceu de ti
permaneceria integral e imutável:
a rua continuaria sendo o friso que tu
povoaste de efígies harmoniosas
nascidas de cada passo de tua marcha;
a noite continuaria sendo o veludo morno
com que teu beijo a prolongou até a
origem de meu sonho;
e diante de mim a felicidade continuaria,
vigilante e eterna, no fundo de teus
olhos de antigamente já apagados
para os outros que os olharam.
Eu, só eu, ficaria contigo
e seria o senhor fabuloso de um tesouro
desaparecido que a cobiça não percebe,
e seria a voz secreta, a alma imperecível de
uma cidade morta,
e seria o testemunho revelador de uma
legenda esquecida.
Eu, só eu, ficaria contigo...
E, de trazer-te em mim,
eu seria a fôrma ignorada de uma
escultura perdida
de cuja perfeição os homens se recordam com nostalgia.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Amor, que Move o Sol.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.91-9
1 684
1
Fernando Paixão
78 [É dos deuses
É dos deuses
tocar fogo às coisas
esperar naturalmente
as sentenças
escritas na cinza.
In: PAIXÃO, Fernando. Fogo dos rios. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. p.5
tocar fogo às coisas
esperar naturalmente
as sentenças
escritas na cinza.
In: PAIXÃO, Fernando. Fogo dos rios. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. p.5
1 351
1
Fernando Paixão
78 [É dos deuses
É dos deuses
tocar fogo às coisas
esperar naturalmente
as sentenças
escritas na cinza.
In: PAIXÃO, Fernando. Fogo dos rios. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. p.5
tocar fogo às coisas
esperar naturalmente
as sentenças
escritas na cinza.
In: PAIXÃO, Fernando. Fogo dos rios. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. p.5
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1
João Cabral de Melo Neto
O Retirante Explica ao Leitor Quem é e a Que Vai
— O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.
Imagem - 00730001
Publicado no livro Duas águas: poemas reunidos (1956). Poema integrante da série Morte e Vida Severina.
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.171-172. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.
Imagem - 00730001
Publicado no livro Duas águas: poemas reunidos (1956). Poema integrante da série Morte e Vida Severina.
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.171-172. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
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1
João Cabral de Melo Neto
O Retirante Explica ao Leitor Quem é e a Que Vai
— O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.
Imagem - 00730001
Publicado no livro Duas águas: poemas reunidos (1956). Poema integrante da série Morte e Vida Severina.
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.171-172. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.
Imagem - 00730001
Publicado no livro Duas águas: poemas reunidos (1956). Poema integrante da série Morte e Vida Severina.
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.171-172. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
5 787
1
Alphonsus de Guimaraens
L - Filhos
O amor, a cada filho, se renova.
Mesmo no inverno, brilha a primavera...
E o coração dos pais, sedento, prova
O néctar suave de quem tudo espera.
Vai-se a lua, e vem outra lua nova...
Ai! os filhos... (e quem os não quisera?)
São frutos que criamos para a cova.
Melhor fora que Deus no-los não dera.
Frutos de beijos e de abraços, frutos
Dos instantes fugazes, voluptuosos,
Rosário interminável de noivados...
Filhos... São flores para velhos lutos.
Por que Jesus nos fez tão venturosos,
Para sermos depois tão desgraçados?
Publicado no livro Poesias (1938). Poema integrante da série Sonetos / Pulvis.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 355. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
Mesmo no inverno, brilha a primavera...
E o coração dos pais, sedento, prova
O néctar suave de quem tudo espera.
Vai-se a lua, e vem outra lua nova...
Ai! os filhos... (e quem os não quisera?)
São frutos que criamos para a cova.
Melhor fora que Deus no-los não dera.
Frutos de beijos e de abraços, frutos
Dos instantes fugazes, voluptuosos,
Rosário interminável de noivados...
Filhos... São flores para velhos lutos.
Por que Jesus nos fez tão venturosos,
Para sermos depois tão desgraçados?
Publicado no livro Poesias (1938). Poema integrante da série Sonetos / Pulvis.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 355. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
5 208
1
Alphonsus de Guimaraens
L - Filhos
O amor, a cada filho, se renova.
Mesmo no inverno, brilha a primavera...
E o coração dos pais, sedento, prova
O néctar suave de quem tudo espera.
Vai-se a lua, e vem outra lua nova...
Ai! os filhos... (e quem os não quisera?)
São frutos que criamos para a cova.
Melhor fora que Deus no-los não dera.
Frutos de beijos e de abraços, frutos
Dos instantes fugazes, voluptuosos,
Rosário interminável de noivados...
Filhos... São flores para velhos lutos.
Por que Jesus nos fez tão venturosos,
Para sermos depois tão desgraçados?
Publicado no livro Poesias (1938). Poema integrante da série Sonetos / Pulvis.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 355. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
Mesmo no inverno, brilha a primavera...
E o coração dos pais, sedento, prova
O néctar suave de quem tudo espera.
Vai-se a lua, e vem outra lua nova...
Ai! os filhos... (e quem os não quisera?)
São frutos que criamos para a cova.
Melhor fora que Deus no-los não dera.
Frutos de beijos e de abraços, frutos
Dos instantes fugazes, voluptuosos,
Rosário interminável de noivados...
Filhos... São flores para velhos lutos.
Por que Jesus nos fez tão venturosos,
Para sermos depois tão desgraçados?
Publicado no livro Poesias (1938). Poema integrante da série Sonetos / Pulvis.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 355. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
5 208
1
Lindolf Bell
Manuel Bandeira do Brasil
Todos fizeram seus versos para o poeta.
Também vou fazer os meus.
Quando um poeta morre
os outros fazem silêncio
ainda que ninguém tome conhecimento.
Onde estiver,
a estrela da tarde
estará no horizonte da palavra,
atrás do teatro Carlos Gomes
de meus pensamentos vãos,
e me lembrarei de ti, Manuel
Bandeira da saudade.
Onde estiver,
estarei na sacada do mundo
esperando a tua bênção
no vento noturno,
na tua galeria intemporal
de poeta que fez versos
como quem ama.
Onde estiver,
sei que pairas
entre o coração que sabe
e o ruído dos automóveis
da rua quinze de novembro e a chuva
de minha cidade temporal,
que visitas sem que ninguém saiba
e abençoas sem resposta esperada.
Todos fizeram seus versos para o poeta.
E o tempo custou a chegar
para meus versos,
afundados que jaziam no rio Itajaí,
antes da estrela da manhã
ainda que tardia,
onde os esqueci.
quando um poeta morre
os outros morrem também.
Mas nasce um canto
que fica
e fica um verso que nasce,
poeta Manuel, Leão leal.
Mas um canto de morte inteira,
Mas um verso da vida inteira.
E eu queria te dizer,
Manuel Bandeira do Brasil
e verde vale de azul anil,
que achei uma palavra fora do dicionário,
uma palavra estrelada de nome:
MANUELANCOLIA.
Poema integrante da série Incorporação.
In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
Também vou fazer os meus.
Quando um poeta morre
os outros fazem silêncio
ainda que ninguém tome conhecimento.
Onde estiver,
a estrela da tarde
estará no horizonte da palavra,
atrás do teatro Carlos Gomes
de meus pensamentos vãos,
e me lembrarei de ti, Manuel
Bandeira da saudade.
Onde estiver,
estarei na sacada do mundo
esperando a tua bênção
no vento noturno,
na tua galeria intemporal
de poeta que fez versos
como quem ama.
Onde estiver,
sei que pairas
entre o coração que sabe
e o ruído dos automóveis
da rua quinze de novembro e a chuva
de minha cidade temporal,
que visitas sem que ninguém saiba
e abençoas sem resposta esperada.
Todos fizeram seus versos para o poeta.
E o tempo custou a chegar
para meus versos,
afundados que jaziam no rio Itajaí,
antes da estrela da manhã
ainda que tardia,
onde os esqueci.
quando um poeta morre
os outros morrem também.
Mas nasce um canto
que fica
e fica um verso que nasce,
poeta Manuel, Leão leal.
Mas um canto de morte inteira,
Mas um verso da vida inteira.
E eu queria te dizer,
Manuel Bandeira do Brasil
e verde vale de azul anil,
que achei uma palavra fora do dicionário,
uma palavra estrelada de nome:
MANUELANCOLIA.
Poema integrante da série Incorporação.
In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
1 832
1
Carlos Nejar
Alforria
Pássaros somos
sem menor retorno.
Depois as asas doem
e as folhas tombam.
Aos poucos
vou comprando
a liberdade.
Os sapatos doem,
as roupas doem,
a morte
não tem dor,
doendo em nós.
Aos poucos
vou comprando
a liberdade.
De chofre
nada nasce
A vigilância
cobre nosso sono
com gaiolas e tômbolas.
E o comércio
do sonho
se dissolve.
Aos poucos
vou comprando
a eternidade.
Publicado no livro O poço do calabouço (1977).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.145-14
sem menor retorno.
Depois as asas doem
e as folhas tombam.
Aos poucos
vou comprando
a liberdade.
Os sapatos doem,
as roupas doem,
a morte
não tem dor,
doendo em nós.
Aos poucos
vou comprando
a liberdade.
De chofre
nada nasce
A vigilância
cobre nosso sono
com gaiolas e tômbolas.
E o comércio
do sonho
se dissolve.
Aos poucos
vou comprando
a eternidade.
Publicado no livro O poço do calabouço (1977).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.145-14
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1
Carlos Nejar
Alforria
Pássaros somos
sem menor retorno.
Depois as asas doem
e as folhas tombam.
Aos poucos
vou comprando
a liberdade.
Os sapatos doem,
as roupas doem,
a morte
não tem dor,
doendo em nós.
Aos poucos
vou comprando
a liberdade.
De chofre
nada nasce
A vigilância
cobre nosso sono
com gaiolas e tômbolas.
E o comércio
do sonho
se dissolve.
Aos poucos
vou comprando
a eternidade.
Publicado no livro O poço do calabouço (1977).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.145-14
sem menor retorno.
Depois as asas doem
e as folhas tombam.
Aos poucos
vou comprando
a liberdade.
Os sapatos doem,
as roupas doem,
a morte
não tem dor,
doendo em nós.
Aos poucos
vou comprando
a liberdade.
De chofre
nada nasce
A vigilância
cobre nosso sono
com gaiolas e tômbolas.
E o comércio
do sonho
se dissolve.
Aos poucos
vou comprando
a eternidade.
Publicado no livro O poço do calabouço (1977).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.145-14
1 159
1
Augusto Frederico Schmidt
Ouço uma Fonte
Ouço uma fonte
É uma fonte noturna
Jorrando.
É uma fonte perdida
No frio.
É uma fonte invisível.
É um soluço incessante,
Molhado, cantando.
É uma voz lívida.
É uma voz caindo
Na noite densa
E áspera.
É uma voz que não chama.
É uma voz nua.
É uma voz fria.
É uma voz sozinha.
É a mesma voz.
É a mesma queixa.
É a mesma angústia,
Sempre inconsolável.
É uma fonte invisível,
Ferindo o silêncio,
Gelada jorrando,
Perdida na noite.
É a vida caindo
No tempo!
Publicado no livro Fonte invisível (1949).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1956
É uma fonte noturna
Jorrando.
É uma fonte perdida
No frio.
É uma fonte invisível.
É um soluço incessante,
Molhado, cantando.
É uma voz lívida.
É uma voz caindo
Na noite densa
E áspera.
É uma voz que não chama.
É uma voz nua.
É uma voz fria.
É uma voz sozinha.
É a mesma voz.
É a mesma queixa.
É a mesma angústia,
Sempre inconsolável.
É uma fonte invisível,
Ferindo o silêncio,
Gelada jorrando,
Perdida na noite.
É a vida caindo
No tempo!
Publicado no livro Fonte invisível (1949).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1956
1 407
1
Emiliano Perneta
Mors
Nesse risonho lar,
A dor caiu neste momento,
Como se fosse a chuva, o vento,
O raio, e bate sem cessar...
Bate e estala,
Como uma louca,
De boca em boca,
De sala em sala...
Somente tu, flor delicada,
Como quem veio
Fatigada
De um passeio,
Tombaste ali, silenciosa,
Sobre o sofá,
No abandono,
Pálido rosa,
De um longo sono,
De que ninguém te acordará!
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
A dor caiu neste momento,
Como se fosse a chuva, o vento,
O raio, e bate sem cessar...
Bate e estala,
Como uma louca,
De boca em boca,
De sala em sala...
Somente tu, flor delicada,
Como quem veio
Fatigada
De um passeio,
Tombaste ali, silenciosa,
Sobre o sofá,
No abandono,
Pálido rosa,
De um longo sono,
De que ninguém te acordará!
Publicado no livro Ilusão (1911).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
2 272
1
Marcus Accioly
A Pedra Lavrada
1 - A mão que lavra a pedra
A pedra a mão esgota,
No chão de pedra o grão
De pedra em pedra brota.
A mão sacode o grão
No chão de pedra morta,
De pedra em pedra o grão
Da própria pedra brota.
2 - A mão fecunda a pedra
Nos ossos do seu ventre,
O grão nasce do chão
Da pedra em seu deventre.
A mão conhece o chão
Onde desceu por entre
O grão que vem da pedra
Aberta, do seu ventre.
3 - Se a chuva molha não
O grão na pedra, ovo
No ninho, pedra aberta
Que se fecha de novo.
A mão que sabe o grão
Que falta à mão do povo,
Espera o sol, a ave,
Que choca o grão, o ovo.
4 - O sol, ave-de-fogo,
Não queima o grão que choca,
Porém nascido ao sol
O grão já nasce soca.
Mas, sim ou não, o grão
Da pedra se desloca
Chocado pelo chão
Depois que a mão o choca.
5 - O grão não sabe o chão
Por isso a mão prepara
O grão para viver
Na pedra que escancara.
Se mesmo farto o grão
A safra é sempre avara,
Na pedra, o grão em flor
E fruto se escancara.
(...)
Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.17-18. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 20 oitava
A pedra a mão esgota,
No chão de pedra o grão
De pedra em pedra brota.
A mão sacode o grão
No chão de pedra morta,
De pedra em pedra o grão
Da própria pedra brota.
2 - A mão fecunda a pedra
Nos ossos do seu ventre,
O grão nasce do chão
Da pedra em seu deventre.
A mão conhece o chão
Onde desceu por entre
O grão que vem da pedra
Aberta, do seu ventre.
3 - Se a chuva molha não
O grão na pedra, ovo
No ninho, pedra aberta
Que se fecha de novo.
A mão que sabe o grão
Que falta à mão do povo,
Espera o sol, a ave,
Que choca o grão, o ovo.
4 - O sol, ave-de-fogo,
Não queima o grão que choca,
Porém nascido ao sol
O grão já nasce soca.
Mas, sim ou não, o grão
Da pedra se desloca
Chocado pelo chão
Depois que a mão o choca.
5 - O grão não sabe o chão
Por isso a mão prepara
O grão para viver
Na pedra que escancara.
Se mesmo farto o grão
A safra é sempre avara,
Na pedra, o grão em flor
E fruto se escancara.
(...)
Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.17-18. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 20 oitava
2 150
1
Cassiano Ricardo
Café-Expresso
1
Café-expresso — está escrito na porta.
Entro com muita pressa. Meio tonto,
por haver acordado tão cedo...
E pronto! parece um brinquedo...
cai o café na xícara pra gente
maquinalmente.
E eu sinto o gosto, o aroma, o sangue quente de São Paulo
nesta pequena noite líquida e cheirosa
que é a minha xícara de café.
A minha xícara de café
é o resumo de todas as coisas que vi na fazenda e me vêm à memória
[apagada...
Na minha memória anda um carro de bois a bater as porteiras da
[estrada...
Na minha memória pousou um pinhé a gritar: crapinhé!
E passam uns homens
que levam às costas
jacás multicores
com grãos de café.
E piscam lá dentro, no fundo do meu coração,
uns olhos negros de cabocla a olhar pra mim
com seu vestido de alecrim e pés no chão.
E uma casinha cor de luar na tarde roxo-rosa...
Um cuitelinho verde sussurrando enfiando o bico na catléia cor de
[sol que floriu no portão...
E o fazendeiro, calculando a safra do espigão...
Mas acima de tudo
aqueles olhos de veludo da cabocla maliciosa a olhar pra mim
como dois grandes pingos de café
que me caíram dentro da alma
e me deixaram pensativo assim...
2
Mas eu não tenho tempo pra pensar nessas coisas!
Estou com pressa. Muita pressa.
A manhã já desceu do trigésimo andar
daquele arranha-céu colorido onde mora.
Ouço a vida gritando lá fora!
Duzentos réis, e saio. A rua é um vozerio.
Sobe-e-desce de gente que vai pras fábricas.
Pralapracá de automóveis. Buzinas. Letreiros.
Compro um jornal. O Estado! O Diário Nacional!
Levanto a gola do sobretudo, por causa do frio.
E lá me vou pro trabalho, pensando...
Ó meu São Paulo!
Ó minha uiara de cabelo vermelho!
Ó cidade dos homens que acordam mais cedo no mundo!
Imagem - 00700005
In: RICARDO, Cassiano. Martim Cererê: o Brasil dos meninos, dos poetas e dos heróis. Ed. crít. Marlene Gomes Mendes, Deila Conceição Perez e Jayro José Xavier. Pref. Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Antares; Brasília: INL: Fundação Pró-Memória, 198
Café-expresso — está escrito na porta.
Entro com muita pressa. Meio tonto,
por haver acordado tão cedo...
E pronto! parece um brinquedo...
cai o café na xícara pra gente
maquinalmente.
E eu sinto o gosto, o aroma, o sangue quente de São Paulo
nesta pequena noite líquida e cheirosa
que é a minha xícara de café.
A minha xícara de café
é o resumo de todas as coisas que vi na fazenda e me vêm à memória
[apagada...
Na minha memória anda um carro de bois a bater as porteiras da
[estrada...
Na minha memória pousou um pinhé a gritar: crapinhé!
E passam uns homens
que levam às costas
jacás multicores
com grãos de café.
E piscam lá dentro, no fundo do meu coração,
uns olhos negros de cabocla a olhar pra mim
com seu vestido de alecrim e pés no chão.
E uma casinha cor de luar na tarde roxo-rosa...
Um cuitelinho verde sussurrando enfiando o bico na catléia cor de
[sol que floriu no portão...
E o fazendeiro, calculando a safra do espigão...
Mas acima de tudo
aqueles olhos de veludo da cabocla maliciosa a olhar pra mim
como dois grandes pingos de café
que me caíram dentro da alma
e me deixaram pensativo assim...
2
Mas eu não tenho tempo pra pensar nessas coisas!
Estou com pressa. Muita pressa.
A manhã já desceu do trigésimo andar
daquele arranha-céu colorido onde mora.
Ouço a vida gritando lá fora!
Duzentos réis, e saio. A rua é um vozerio.
Sobe-e-desce de gente que vai pras fábricas.
Pralapracá de automóveis. Buzinas. Letreiros.
Compro um jornal. O Estado! O Diário Nacional!
Levanto a gola do sobretudo, por causa do frio.
E lá me vou pro trabalho, pensando...
Ó meu São Paulo!
Ó minha uiara de cabelo vermelho!
Ó cidade dos homens que acordam mais cedo no mundo!
Imagem - 00700005
In: RICARDO, Cassiano. Martim Cererê: o Brasil dos meninos, dos poetas e dos heróis. Ed. crít. Marlene Gomes Mendes, Deila Conceição Perez e Jayro José Xavier. Pref. Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Antares; Brasília: INL: Fundação Pró-Memória, 198
4 577
1
Eduardo Alves da Costa
O Poeta Eduardo Leva seu Cão Raivoso a Passear
Eduardo, louco em férias, poeta disfarçado em
burocrata, levanta-se todos os dias com
péssimo humor, para ser devorado pelo
relógio de ponto.
Obediente, amável, prestativo, conhece a fisionomia
dos carimbos, sabe de cor o roteiro
dos papéis e sente uma vontade secreta de
atear fogo aos arquivos.
Adora olhar pela janela. Está sempre olhando
pela janela, muito embora nada aconteça.
Acredita nos homens, entregaria sua vida por
eles, porque é um tolo, um humanista
impenitente, um amante das grandes causas,
um aprendiz de santo, um sofredor pela
miséria alheia, uma vítima do melodramático,
um desprotegido contra a chantagem
emocional, com uma farpa da cruz atravessada
no coração.
Espera ansioso o momento de lutar pelo proletariado
mas não compreende como se
resolverá o problema de acomodar os milhões
de traseiros num único trono. E se prepara,
desde logo, para enfrentar os burocratas,
os donos do poder e o pelotão de fuzilamento.
Odeia os delegados, representantes, procuradores,
emissários, substitutos, intermediários,
signatários e mensageiros.
(...)
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
burocrata, levanta-se todos os dias com
péssimo humor, para ser devorado pelo
relógio de ponto.
Obediente, amável, prestativo, conhece a fisionomia
dos carimbos, sabe de cor o roteiro
dos papéis e sente uma vontade secreta de
atear fogo aos arquivos.
Adora olhar pela janela. Está sempre olhando
pela janela, muito embora nada aconteça.
Acredita nos homens, entregaria sua vida por
eles, porque é um tolo, um humanista
impenitente, um amante das grandes causas,
um aprendiz de santo, um sofredor pela
miséria alheia, uma vítima do melodramático,
um desprotegido contra a chantagem
emocional, com uma farpa da cruz atravessada
no coração.
Espera ansioso o momento de lutar pelo proletariado
mas não compreende como se
resolverá o problema de acomodar os milhões
de traseiros num único trono. E se prepara,
desde logo, para enfrentar os burocratas,
os donos do poder e o pelotão de fuzilamento.
Odeia os delegados, representantes, procuradores,
emissários, substitutos, intermediários,
signatários e mensageiros.
(...)
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
1 963
1
Renata Pallottini
Através da Vida
Através da vida o homem
vai sendo ludibriado.
Deitando-se em qualquer porta
o homem percebe que ficou de lado.
E depois constatando
que a mulher não lhe foi dada
para amá-lo, como está dito.
Foi-lhe dada para nada.
A mulher ao longo da vida
percebe que foi sendo usada
e que agora está no fim.
E que nunca recebeu um sim.
Os filhos que ali estão
estão ali porque estão.
Não tinham sido queridos.
Tinham só acontecido.
E os filhos que ali estão,
não sabem de coisa alguma.
Vão à escola se vão à escola.
Se não vão, inventam uma.
Depois que morre a gente descansa
e a terra é quente, mesmo na morte.
Depois da morte eu descansarei
e não terei medo da morte.
E não olharei para o alto, temendo
o alto peso da terra.
Mas estarei dormindo e dormindo.
De forma eterna e só então eterna.
Publicado no livro Os Arcos da Memória (1971).
In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.17
vai sendo ludibriado.
Deitando-se em qualquer porta
o homem percebe que ficou de lado.
E depois constatando
que a mulher não lhe foi dada
para amá-lo, como está dito.
Foi-lhe dada para nada.
A mulher ao longo da vida
percebe que foi sendo usada
e que agora está no fim.
E que nunca recebeu um sim.
Os filhos que ali estão
estão ali porque estão.
Não tinham sido queridos.
Tinham só acontecido.
E os filhos que ali estão,
não sabem de coisa alguma.
Vão à escola se vão à escola.
Se não vão, inventam uma.
Depois que morre a gente descansa
e a terra é quente, mesmo na morte.
Depois da morte eu descansarei
e não terei medo da morte.
E não olharei para o alto, temendo
o alto peso da terra.
Mas estarei dormindo e dormindo.
De forma eterna e só então eterna.
Publicado no livro Os Arcos da Memória (1971).
In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.17
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1
Renata Pallottini
Através da Vida
Através da vida o homem
vai sendo ludibriado.
Deitando-se em qualquer porta
o homem percebe que ficou de lado.
E depois constatando
que a mulher não lhe foi dada
para amá-lo, como está dito.
Foi-lhe dada para nada.
A mulher ao longo da vida
percebe que foi sendo usada
e que agora está no fim.
E que nunca recebeu um sim.
Os filhos que ali estão
estão ali porque estão.
Não tinham sido queridos.
Tinham só acontecido.
E os filhos que ali estão,
não sabem de coisa alguma.
Vão à escola se vão à escola.
Se não vão, inventam uma.
Depois que morre a gente descansa
e a terra é quente, mesmo na morte.
Depois da morte eu descansarei
e não terei medo da morte.
E não olharei para o alto, temendo
o alto peso da terra.
Mas estarei dormindo e dormindo.
De forma eterna e só então eterna.
Publicado no livro Os Arcos da Memória (1971).
In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.17
vai sendo ludibriado.
Deitando-se em qualquer porta
o homem percebe que ficou de lado.
E depois constatando
que a mulher não lhe foi dada
para amá-lo, como está dito.
Foi-lhe dada para nada.
A mulher ao longo da vida
percebe que foi sendo usada
e que agora está no fim.
E que nunca recebeu um sim.
Os filhos que ali estão
estão ali porque estão.
Não tinham sido queridos.
Tinham só acontecido.
E os filhos que ali estão,
não sabem de coisa alguma.
Vão à escola se vão à escola.
Se não vão, inventam uma.
Depois que morre a gente descansa
e a terra é quente, mesmo na morte.
Depois da morte eu descansarei
e não terei medo da morte.
E não olharei para o alto, temendo
o alto peso da terra.
Mas estarei dormindo e dormindo.
De forma eterna e só então eterna.
Publicado no livro Os Arcos da Memória (1971).
In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.17
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1
Abgar Renault
Ônibus
Vem atulhado de gente,
vai atulhado de gente,
gente que vai trabalhar,
gente que parte cansada,
gente que volta cansada
de um incurável cansaço.
Ônibus que é para todos
os que não podem parar
Ônibus de velhos, moços,
mulheres, meninos, crianças,
estudantes e pedreiros,
pintores e professores,
mecânicos e bombeiros
enfumaçados e tristes
a dormir durante a viagem.
Dormem, mas dormem que sono?
Dormem sonhando que sonhos?
Sonhos de amor ou de guerra?
No espaço ou no chão de terra?
Ai! daqueles que não dormem
e não têm sonho nenhum
no estreito aperto dos bancos
ou de pé aos solavancos
dentro do ônibus mortal
de uma vida não vivida
em que a maior alegria
tem um olhar de tristeza
ri meio sorriso triste
e não desce onde deseja
mas onde o trânsito quer.
Triste ônibus desta vida.
In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990. Poema integrante da série Cristal Refratário.
vai atulhado de gente,
gente que vai trabalhar,
gente que parte cansada,
gente que volta cansada
de um incurável cansaço.
Ônibus que é para todos
os que não podem parar
Ônibus de velhos, moços,
mulheres, meninos, crianças,
estudantes e pedreiros,
pintores e professores,
mecânicos e bombeiros
enfumaçados e tristes
a dormir durante a viagem.
Dormem, mas dormem que sono?
Dormem sonhando que sonhos?
Sonhos de amor ou de guerra?
No espaço ou no chão de terra?
Ai! daqueles que não dormem
e não têm sonho nenhum
no estreito aperto dos bancos
ou de pé aos solavancos
dentro do ônibus mortal
de uma vida não vivida
em que a maior alegria
tem um olhar de tristeza
ri meio sorriso triste
e não desce onde deseja
mas onde o trânsito quer.
Triste ônibus desta vida.
In: RENAULT, Abgar. Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1990. Poema integrante da série Cristal Refratário.
1 278
1
Renata Pallottini
Noite Afora
A quem devo dizer que em tua carne
se sobreleva o tempo e o duradouro,
mancha de óleo no azul, alaga e intensifica
o contratempo a que chamei amor?
A quem devo dizer dos meus perigos
quando, o corcel furioso, olhei ao longe
e não vi mais limites que o oceano
nem mais convites que o das ondas frias?
Como antepor o corte nas montanhas
— Liberdade — ao dever que a si mesma impõe a terra
de estender-se conforme o espaço havido?
Malícia do destino, ardil composto outrora...
Arde a grama da noite em que te vais embora,
e essa chama caminha, essa chama, essas vinhas,
essas uvas, cortadas noite afora.
Poema integrante da série Noite Afora.
In: PALLOTTINI, Renata. Noite afora. São Paulo: Brasiliense, 197
se sobreleva o tempo e o duradouro,
mancha de óleo no azul, alaga e intensifica
o contratempo a que chamei amor?
A quem devo dizer dos meus perigos
quando, o corcel furioso, olhei ao longe
e não vi mais limites que o oceano
nem mais convites que o das ondas frias?
Como antepor o corte nas montanhas
— Liberdade — ao dever que a si mesma impõe a terra
de estender-se conforme o espaço havido?
Malícia do destino, ardil composto outrora...
Arde a grama da noite em que te vais embora,
e essa chama caminha, essa chama, essas vinhas,
essas uvas, cortadas noite afora.
Poema integrante da série Noite Afora.
In: PALLOTTINI, Renata. Noite afora. São Paulo: Brasiliense, 197
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Renata Pallottini
Noite Afora
A quem devo dizer que em tua carne
se sobreleva o tempo e o duradouro,
mancha de óleo no azul, alaga e intensifica
o contratempo a que chamei amor?
A quem devo dizer dos meus perigos
quando, o corcel furioso, olhei ao longe
e não vi mais limites que o oceano
nem mais convites que o das ondas frias?
Como antepor o corte nas montanhas
— Liberdade — ao dever que a si mesma impõe a terra
de estender-se conforme o espaço havido?
Malícia do destino, ardil composto outrora...
Arde a grama da noite em que te vais embora,
e essa chama caminha, essa chama, essas vinhas,
essas uvas, cortadas noite afora.
Poema integrante da série Noite Afora.
In: PALLOTTINI, Renata. Noite afora. São Paulo: Brasiliense, 197
se sobreleva o tempo e o duradouro,
mancha de óleo no azul, alaga e intensifica
o contratempo a que chamei amor?
A quem devo dizer dos meus perigos
quando, o corcel furioso, olhei ao longe
e não vi mais limites que o oceano
nem mais convites que o das ondas frias?
Como antepor o corte nas montanhas
— Liberdade — ao dever que a si mesma impõe a terra
de estender-se conforme o espaço havido?
Malícia do destino, ardil composto outrora...
Arde a grama da noite em que te vais embora,
e essa chama caminha, essa chama, essas vinhas,
essas uvas, cortadas noite afora.
Poema integrante da série Noite Afora.
In: PALLOTTINI, Renata. Noite afora. São Paulo: Brasiliense, 197
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