Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Affonso Romano de Sant'Anna
Os Desaparecidos
De repente, naqueles dias, começaram
a desaparecer pessoas, estranhamente.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Ia-se colher a flor oferta
e se esvanecia.
Eclipsava-se entre um endereço e outro
ou no táxi que se ia.
Culpado ou não, sumia-se
ao regressar do escritório ou da orgia.
Entre um trago de conhaque
e um aceno de mão, o bebedor sumia.
Evaporava o pai
ao encontro da filha que não via.
Mães segurando filhos e compras,
gestantes com tricots ou grupos de estudantes
desapareciam.
Desapareciam amantes em pleno beijo
e médicos em meio à cirurgia.
Mecânicos se diluíam
— mal ligavam o torno do dia.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Desaparecia-se a olhos vistos
e não era miopia. Desaparecia-se
até à primeira vista. Bastava
que alguém visse um desaparecido
e o desaparecido desaparecia.
Desaparecia o mais conspícuo
e o mais obscuro sumia.
Até deputados e presidentes evanesciam.
Sacerdotes, igualmente, levitando
iam, aerefeitos, constatar no além
como os pecadores partiam.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Os atores no palco
entre um gesto e outro, e os da platéia
enquanto riam.
Não, não era fácil
ser poeta naqueles dias.
Porque os poetas, sobretudo
— desapareciam.
Publicado no livro Política e paixão (1980).
In: SANT'ANNA, Affonso Romano de. A poesia possível. Rio de Janeiro: Rocco, 198
a desaparecer pessoas, estranhamente.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Ia-se colher a flor oferta
e se esvanecia.
Eclipsava-se entre um endereço e outro
ou no táxi que se ia.
Culpado ou não, sumia-se
ao regressar do escritório ou da orgia.
Entre um trago de conhaque
e um aceno de mão, o bebedor sumia.
Evaporava o pai
ao encontro da filha que não via.
Mães segurando filhos e compras,
gestantes com tricots ou grupos de estudantes
desapareciam.
Desapareciam amantes em pleno beijo
e médicos em meio à cirurgia.
Mecânicos se diluíam
— mal ligavam o torno do dia.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Desaparecia-se a olhos vistos
e não era miopia. Desaparecia-se
até à primeira vista. Bastava
que alguém visse um desaparecido
e o desaparecido desaparecia.
Desaparecia o mais conspícuo
e o mais obscuro sumia.
Até deputados e presidentes evanesciam.
Sacerdotes, igualmente, levitando
iam, aerefeitos, constatar no além
como os pecadores partiam.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Os atores no palco
entre um gesto e outro, e os da platéia
enquanto riam.
Não, não era fácil
ser poeta naqueles dias.
Porque os poetas, sobretudo
— desapareciam.
Publicado no livro Política e paixão (1980).
In: SANT'ANNA, Affonso Romano de. A poesia possível. Rio de Janeiro: Rocco, 198
8 219
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Affonso Romano de Sant'Anna
Os Desaparecidos
De repente, naqueles dias, começaram
a desaparecer pessoas, estranhamente.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Ia-se colher a flor oferta
e se esvanecia.
Eclipsava-se entre um endereço e outro
ou no táxi que se ia.
Culpado ou não, sumia-se
ao regressar do escritório ou da orgia.
Entre um trago de conhaque
e um aceno de mão, o bebedor sumia.
Evaporava o pai
ao encontro da filha que não via.
Mães segurando filhos e compras,
gestantes com tricots ou grupos de estudantes
desapareciam.
Desapareciam amantes em pleno beijo
e médicos em meio à cirurgia.
Mecânicos se diluíam
— mal ligavam o torno do dia.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Desaparecia-se a olhos vistos
e não era miopia. Desaparecia-se
até à primeira vista. Bastava
que alguém visse um desaparecido
e o desaparecido desaparecia.
Desaparecia o mais conspícuo
e o mais obscuro sumia.
Até deputados e presidentes evanesciam.
Sacerdotes, igualmente, levitando
iam, aerefeitos, constatar no além
como os pecadores partiam.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Os atores no palco
entre um gesto e outro, e os da platéia
enquanto riam.
Não, não era fácil
ser poeta naqueles dias.
Porque os poetas, sobretudo
— desapareciam.
Publicado no livro Política e paixão (1980).
In: SANT'ANNA, Affonso Romano de. A poesia possível. Rio de Janeiro: Rocco, 198
a desaparecer pessoas, estranhamente.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Ia-se colher a flor oferta
e se esvanecia.
Eclipsava-se entre um endereço e outro
ou no táxi que se ia.
Culpado ou não, sumia-se
ao regressar do escritório ou da orgia.
Entre um trago de conhaque
e um aceno de mão, o bebedor sumia.
Evaporava o pai
ao encontro da filha que não via.
Mães segurando filhos e compras,
gestantes com tricots ou grupos de estudantes
desapareciam.
Desapareciam amantes em pleno beijo
e médicos em meio à cirurgia.
Mecânicos se diluíam
— mal ligavam o torno do dia.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Desaparecia-se a olhos vistos
e não era miopia. Desaparecia-se
até à primeira vista. Bastava
que alguém visse um desaparecido
e o desaparecido desaparecia.
Desaparecia o mais conspícuo
e o mais obscuro sumia.
Até deputados e presidentes evanesciam.
Sacerdotes, igualmente, levitando
iam, aerefeitos, constatar no além
como os pecadores partiam.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Os atores no palco
entre um gesto e outro, e os da platéia
enquanto riam.
Não, não era fácil
ser poeta naqueles dias.
Porque os poetas, sobretudo
— desapareciam.
Publicado no livro Política e paixão (1980).
In: SANT'ANNA, Affonso Romano de. A poesia possível. Rio de Janeiro: Rocco, 198
8 219
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Affonso Romano de Sant'Anna
Os Desaparecidos
De repente, naqueles dias, começaram
a desaparecer pessoas, estranhamente.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Ia-se colher a flor oferta
e se esvanecia.
Eclipsava-se entre um endereço e outro
ou no táxi que se ia.
Culpado ou não, sumia-se
ao regressar do escritório ou da orgia.
Entre um trago de conhaque
e um aceno de mão, o bebedor sumia.
Evaporava o pai
ao encontro da filha que não via.
Mães segurando filhos e compras,
gestantes com tricots ou grupos de estudantes
desapareciam.
Desapareciam amantes em pleno beijo
e médicos em meio à cirurgia.
Mecânicos se diluíam
— mal ligavam o torno do dia.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Desaparecia-se a olhos vistos
e não era miopia. Desaparecia-se
até à primeira vista. Bastava
que alguém visse um desaparecido
e o desaparecido desaparecia.
Desaparecia o mais conspícuo
e o mais obscuro sumia.
Até deputados e presidentes evanesciam.
Sacerdotes, igualmente, levitando
iam, aerefeitos, constatar no além
como os pecadores partiam.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Os atores no palco
entre um gesto e outro, e os da platéia
enquanto riam.
Não, não era fácil
ser poeta naqueles dias.
Porque os poetas, sobretudo
— desapareciam.
Publicado no livro Política e paixão (1980).
In: SANT'ANNA, Affonso Romano de. A poesia possível. Rio de Janeiro: Rocco, 198
a desaparecer pessoas, estranhamente.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Ia-se colher a flor oferta
e se esvanecia.
Eclipsava-se entre um endereço e outro
ou no táxi que se ia.
Culpado ou não, sumia-se
ao regressar do escritório ou da orgia.
Entre um trago de conhaque
e um aceno de mão, o bebedor sumia.
Evaporava o pai
ao encontro da filha que não via.
Mães segurando filhos e compras,
gestantes com tricots ou grupos de estudantes
desapareciam.
Desapareciam amantes em pleno beijo
e médicos em meio à cirurgia.
Mecânicos se diluíam
— mal ligavam o torno do dia.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Desaparecia-se a olhos vistos
e não era miopia. Desaparecia-se
até à primeira vista. Bastava
que alguém visse um desaparecido
e o desaparecido desaparecia.
Desaparecia o mais conspícuo
e o mais obscuro sumia.
Até deputados e presidentes evanesciam.
Sacerdotes, igualmente, levitando
iam, aerefeitos, constatar no além
como os pecadores partiam.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Os atores no palco
entre um gesto e outro, e os da platéia
enquanto riam.
Não, não era fácil
ser poeta naqueles dias.
Porque os poetas, sobretudo
— desapareciam.
Publicado no livro Política e paixão (1980).
In: SANT'ANNA, Affonso Romano de. A poesia possível. Rio de Janeiro: Rocco, 198
8 219
6
Inácio José de Alvarenga Peixoto
Canto Genetlíaco
Bárbaros filhos destas brenhas duras,
nunca mais recordeis os males vossos;
revolvam-se no horror das sepulturas
dos primeiros avós os frios ossos:
que os heróis das mais altas cataduras
principiam a ser patrícios nossos;
e o vosso sangue, que esta terra ensopa,
já produz frutos do melhor da Europa.
Bem que venha a semente à terra estranha,
quando produz, com igual força gera;
nem do forte leão, fora de Espanha,
a fereza nos filhos degenera;
o que o estio numas terras ganha,
em outras vence a fresca primavera;
e a raça dos heróis da mesma sorte
produz no sul o que produz no norte.
(...)
Isto, que Europa barbaria chama,
do seio das delícias, tão diverso,
quão diferente é para quem ama
os ternos laços de seu pátrio berço!
O pastor loiro, que o meu peito inflama,
dará novos alentos ao meu verso,
para mostrar do nosso herói na boca
como em grandezas tanto horror se troca.
"Aquelas serras na aparência feias,
— dirá José — oh quanto são formosas!
Elas conservam nas ocultas veias
a força das potências majestosas;
têm as ricas entranhas todas cheias
de prata, oiro e pedras preciosas;
aquelas brutas e escalvadas serras
fazem as pazes, dão calor às guerras.
"Aqueles matos negros e fechados,
que ocupam quase a região dos ares,
são os que, em edifícios respeitados,
repartem raios pelos crespos mares.
Os coríntios palácios levantados,
dóricos templos, jônicos altares,
são obras feitas desses lenhos duros,
filhos desses sertões feios e escuros.
"A c'roa de oiro, que na testa brilha,
e o cetro, que empunha na mão justa
do augusto José a heróica filha,
nossa rainha soberana augusta;
e Lisboa, da Europa maravilha,
cuja riqueza todo o mundo assusta,
estas terras a fazem respeitada,
bárbara terra, mas abençoada.
"Estes homens de vários acidentes,
pardos e pretos, tintos e tostados,
são os escravos duros e valentes,
aos penosos trabalhos costumados:
Eles mudam aos rios as correntes,
rasgam as serras, tendo sempre armados
da pesada alavanca e duro malho
os fortes braços feitos ao trabalho.
(...)
Publicado no livro ALMANAK das Musas: nova coleção de poesias oferecida ao gênio português (1793).
In: LAPA, M. Rodrigues. Vida e obra de Alvarenga Peixoto. Rio de Janeiro: INL, 1960
nunca mais recordeis os males vossos;
revolvam-se no horror das sepulturas
dos primeiros avós os frios ossos:
que os heróis das mais altas cataduras
principiam a ser patrícios nossos;
e o vosso sangue, que esta terra ensopa,
já produz frutos do melhor da Europa.
Bem que venha a semente à terra estranha,
quando produz, com igual força gera;
nem do forte leão, fora de Espanha,
a fereza nos filhos degenera;
o que o estio numas terras ganha,
em outras vence a fresca primavera;
e a raça dos heróis da mesma sorte
produz no sul o que produz no norte.
(...)
Isto, que Europa barbaria chama,
do seio das delícias, tão diverso,
quão diferente é para quem ama
os ternos laços de seu pátrio berço!
O pastor loiro, que o meu peito inflama,
dará novos alentos ao meu verso,
para mostrar do nosso herói na boca
como em grandezas tanto horror se troca.
"Aquelas serras na aparência feias,
— dirá José — oh quanto são formosas!
Elas conservam nas ocultas veias
a força das potências majestosas;
têm as ricas entranhas todas cheias
de prata, oiro e pedras preciosas;
aquelas brutas e escalvadas serras
fazem as pazes, dão calor às guerras.
"Aqueles matos negros e fechados,
que ocupam quase a região dos ares,
são os que, em edifícios respeitados,
repartem raios pelos crespos mares.
Os coríntios palácios levantados,
dóricos templos, jônicos altares,
são obras feitas desses lenhos duros,
filhos desses sertões feios e escuros.
"A c'roa de oiro, que na testa brilha,
e o cetro, que empunha na mão justa
do augusto José a heróica filha,
nossa rainha soberana augusta;
e Lisboa, da Europa maravilha,
cuja riqueza todo o mundo assusta,
estas terras a fazem respeitada,
bárbara terra, mas abençoada.
"Estes homens de vários acidentes,
pardos e pretos, tintos e tostados,
são os escravos duros e valentes,
aos penosos trabalhos costumados:
Eles mudam aos rios as correntes,
rasgam as serras, tendo sempre armados
da pesada alavanca e duro malho
os fortes braços feitos ao trabalho.
(...)
Publicado no livro ALMANAK das Musas: nova coleção de poesias oferecida ao gênio português (1793).
In: LAPA, M. Rodrigues. Vida e obra de Alvarenga Peixoto. Rio de Janeiro: INL, 1960
9 207
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Inácio José de Alvarenga Peixoto
Canto Genetlíaco
Bárbaros filhos destas brenhas duras,
nunca mais recordeis os males vossos;
revolvam-se no horror das sepulturas
dos primeiros avós os frios ossos:
que os heróis das mais altas cataduras
principiam a ser patrícios nossos;
e o vosso sangue, que esta terra ensopa,
já produz frutos do melhor da Europa.
Bem que venha a semente à terra estranha,
quando produz, com igual força gera;
nem do forte leão, fora de Espanha,
a fereza nos filhos degenera;
o que o estio numas terras ganha,
em outras vence a fresca primavera;
e a raça dos heróis da mesma sorte
produz no sul o que produz no norte.
(...)
Isto, que Europa barbaria chama,
do seio das delícias, tão diverso,
quão diferente é para quem ama
os ternos laços de seu pátrio berço!
O pastor loiro, que o meu peito inflama,
dará novos alentos ao meu verso,
para mostrar do nosso herói na boca
como em grandezas tanto horror se troca.
"Aquelas serras na aparência feias,
— dirá José — oh quanto são formosas!
Elas conservam nas ocultas veias
a força das potências majestosas;
têm as ricas entranhas todas cheias
de prata, oiro e pedras preciosas;
aquelas brutas e escalvadas serras
fazem as pazes, dão calor às guerras.
"Aqueles matos negros e fechados,
que ocupam quase a região dos ares,
são os que, em edifícios respeitados,
repartem raios pelos crespos mares.
Os coríntios palácios levantados,
dóricos templos, jônicos altares,
são obras feitas desses lenhos duros,
filhos desses sertões feios e escuros.
"A c'roa de oiro, que na testa brilha,
e o cetro, que empunha na mão justa
do augusto José a heróica filha,
nossa rainha soberana augusta;
e Lisboa, da Europa maravilha,
cuja riqueza todo o mundo assusta,
estas terras a fazem respeitada,
bárbara terra, mas abençoada.
"Estes homens de vários acidentes,
pardos e pretos, tintos e tostados,
são os escravos duros e valentes,
aos penosos trabalhos costumados:
Eles mudam aos rios as correntes,
rasgam as serras, tendo sempre armados
da pesada alavanca e duro malho
os fortes braços feitos ao trabalho.
(...)
Publicado no livro ALMANAK das Musas: nova coleção de poesias oferecida ao gênio português (1793).
In: LAPA, M. Rodrigues. Vida e obra de Alvarenga Peixoto. Rio de Janeiro: INL, 1960
nunca mais recordeis os males vossos;
revolvam-se no horror das sepulturas
dos primeiros avós os frios ossos:
que os heróis das mais altas cataduras
principiam a ser patrícios nossos;
e o vosso sangue, que esta terra ensopa,
já produz frutos do melhor da Europa.
Bem que venha a semente à terra estranha,
quando produz, com igual força gera;
nem do forte leão, fora de Espanha,
a fereza nos filhos degenera;
o que o estio numas terras ganha,
em outras vence a fresca primavera;
e a raça dos heróis da mesma sorte
produz no sul o que produz no norte.
(...)
Isto, que Europa barbaria chama,
do seio das delícias, tão diverso,
quão diferente é para quem ama
os ternos laços de seu pátrio berço!
O pastor loiro, que o meu peito inflama,
dará novos alentos ao meu verso,
para mostrar do nosso herói na boca
como em grandezas tanto horror se troca.
"Aquelas serras na aparência feias,
— dirá José — oh quanto são formosas!
Elas conservam nas ocultas veias
a força das potências majestosas;
têm as ricas entranhas todas cheias
de prata, oiro e pedras preciosas;
aquelas brutas e escalvadas serras
fazem as pazes, dão calor às guerras.
"Aqueles matos negros e fechados,
que ocupam quase a região dos ares,
são os que, em edifícios respeitados,
repartem raios pelos crespos mares.
Os coríntios palácios levantados,
dóricos templos, jônicos altares,
são obras feitas desses lenhos duros,
filhos desses sertões feios e escuros.
"A c'roa de oiro, que na testa brilha,
e o cetro, que empunha na mão justa
do augusto José a heróica filha,
nossa rainha soberana augusta;
e Lisboa, da Europa maravilha,
cuja riqueza todo o mundo assusta,
estas terras a fazem respeitada,
bárbara terra, mas abençoada.
"Estes homens de vários acidentes,
pardos e pretos, tintos e tostados,
são os escravos duros e valentes,
aos penosos trabalhos costumados:
Eles mudam aos rios as correntes,
rasgam as serras, tendo sempre armados
da pesada alavanca e duro malho
os fortes braços feitos ao trabalho.
(...)
Publicado no livro ALMANAK das Musas: nova coleção de poesias oferecida ao gênio português (1793).
In: LAPA, M. Rodrigues. Vida e obra de Alvarenga Peixoto. Rio de Janeiro: INL, 1960
9 207
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Inácio José de Alvarenga Peixoto
Canto Genetlíaco
Bárbaros filhos destas brenhas duras,
nunca mais recordeis os males vossos;
revolvam-se no horror das sepulturas
dos primeiros avós os frios ossos:
que os heróis das mais altas cataduras
principiam a ser patrícios nossos;
e o vosso sangue, que esta terra ensopa,
já produz frutos do melhor da Europa.
Bem que venha a semente à terra estranha,
quando produz, com igual força gera;
nem do forte leão, fora de Espanha,
a fereza nos filhos degenera;
o que o estio numas terras ganha,
em outras vence a fresca primavera;
e a raça dos heróis da mesma sorte
produz no sul o que produz no norte.
(...)
Isto, que Europa barbaria chama,
do seio das delícias, tão diverso,
quão diferente é para quem ama
os ternos laços de seu pátrio berço!
O pastor loiro, que o meu peito inflama,
dará novos alentos ao meu verso,
para mostrar do nosso herói na boca
como em grandezas tanto horror se troca.
"Aquelas serras na aparência feias,
— dirá José — oh quanto são formosas!
Elas conservam nas ocultas veias
a força das potências majestosas;
têm as ricas entranhas todas cheias
de prata, oiro e pedras preciosas;
aquelas brutas e escalvadas serras
fazem as pazes, dão calor às guerras.
"Aqueles matos negros e fechados,
que ocupam quase a região dos ares,
são os que, em edifícios respeitados,
repartem raios pelos crespos mares.
Os coríntios palácios levantados,
dóricos templos, jônicos altares,
são obras feitas desses lenhos duros,
filhos desses sertões feios e escuros.
"A c'roa de oiro, que na testa brilha,
e o cetro, que empunha na mão justa
do augusto José a heróica filha,
nossa rainha soberana augusta;
e Lisboa, da Europa maravilha,
cuja riqueza todo o mundo assusta,
estas terras a fazem respeitada,
bárbara terra, mas abençoada.
"Estes homens de vários acidentes,
pardos e pretos, tintos e tostados,
são os escravos duros e valentes,
aos penosos trabalhos costumados:
Eles mudam aos rios as correntes,
rasgam as serras, tendo sempre armados
da pesada alavanca e duro malho
os fortes braços feitos ao trabalho.
(...)
Publicado no livro ALMANAK das Musas: nova coleção de poesias oferecida ao gênio português (1793).
In: LAPA, M. Rodrigues. Vida e obra de Alvarenga Peixoto. Rio de Janeiro: INL, 1960
nunca mais recordeis os males vossos;
revolvam-se no horror das sepulturas
dos primeiros avós os frios ossos:
que os heróis das mais altas cataduras
principiam a ser patrícios nossos;
e o vosso sangue, que esta terra ensopa,
já produz frutos do melhor da Europa.
Bem que venha a semente à terra estranha,
quando produz, com igual força gera;
nem do forte leão, fora de Espanha,
a fereza nos filhos degenera;
o que o estio numas terras ganha,
em outras vence a fresca primavera;
e a raça dos heróis da mesma sorte
produz no sul o que produz no norte.
(...)
Isto, que Europa barbaria chama,
do seio das delícias, tão diverso,
quão diferente é para quem ama
os ternos laços de seu pátrio berço!
O pastor loiro, que o meu peito inflama,
dará novos alentos ao meu verso,
para mostrar do nosso herói na boca
como em grandezas tanto horror se troca.
"Aquelas serras na aparência feias,
— dirá José — oh quanto são formosas!
Elas conservam nas ocultas veias
a força das potências majestosas;
têm as ricas entranhas todas cheias
de prata, oiro e pedras preciosas;
aquelas brutas e escalvadas serras
fazem as pazes, dão calor às guerras.
"Aqueles matos negros e fechados,
que ocupam quase a região dos ares,
são os que, em edifícios respeitados,
repartem raios pelos crespos mares.
Os coríntios palácios levantados,
dóricos templos, jônicos altares,
são obras feitas desses lenhos duros,
filhos desses sertões feios e escuros.
"A c'roa de oiro, que na testa brilha,
e o cetro, que empunha na mão justa
do augusto José a heróica filha,
nossa rainha soberana augusta;
e Lisboa, da Europa maravilha,
cuja riqueza todo o mundo assusta,
estas terras a fazem respeitada,
bárbara terra, mas abençoada.
"Estes homens de vários acidentes,
pardos e pretos, tintos e tostados,
são os escravos duros e valentes,
aos penosos trabalhos costumados:
Eles mudam aos rios as correntes,
rasgam as serras, tendo sempre armados
da pesada alavanca e duro malho
os fortes braços feitos ao trabalho.
(...)
Publicado no livro ALMANAK das Musas: nova coleção de poesias oferecida ao gênio português (1793).
In: LAPA, M. Rodrigues. Vida e obra de Alvarenga Peixoto. Rio de Janeiro: INL, 1960
9 207
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Inácio José de Alvarenga Peixoto
Canto Genetlíaco
Bárbaros filhos destas brenhas duras,
nunca mais recordeis os males vossos;
revolvam-se no horror das sepulturas
dos primeiros avós os frios ossos:
que os heróis das mais altas cataduras
principiam a ser patrícios nossos;
e o vosso sangue, que esta terra ensopa,
já produz frutos do melhor da Europa.
Bem que venha a semente à terra estranha,
quando produz, com igual força gera;
nem do forte leão, fora de Espanha,
a fereza nos filhos degenera;
o que o estio numas terras ganha,
em outras vence a fresca primavera;
e a raça dos heróis da mesma sorte
produz no sul o que produz no norte.
(...)
Isto, que Europa barbaria chama,
do seio das delícias, tão diverso,
quão diferente é para quem ama
os ternos laços de seu pátrio berço!
O pastor loiro, que o meu peito inflama,
dará novos alentos ao meu verso,
para mostrar do nosso herói na boca
como em grandezas tanto horror se troca.
"Aquelas serras na aparência feias,
— dirá José — oh quanto são formosas!
Elas conservam nas ocultas veias
a força das potências majestosas;
têm as ricas entranhas todas cheias
de prata, oiro e pedras preciosas;
aquelas brutas e escalvadas serras
fazem as pazes, dão calor às guerras.
"Aqueles matos negros e fechados,
que ocupam quase a região dos ares,
são os que, em edifícios respeitados,
repartem raios pelos crespos mares.
Os coríntios palácios levantados,
dóricos templos, jônicos altares,
são obras feitas desses lenhos duros,
filhos desses sertões feios e escuros.
"A c'roa de oiro, que na testa brilha,
e o cetro, que empunha na mão justa
do augusto José a heróica filha,
nossa rainha soberana augusta;
e Lisboa, da Europa maravilha,
cuja riqueza todo o mundo assusta,
estas terras a fazem respeitada,
bárbara terra, mas abençoada.
"Estes homens de vários acidentes,
pardos e pretos, tintos e tostados,
são os escravos duros e valentes,
aos penosos trabalhos costumados:
Eles mudam aos rios as correntes,
rasgam as serras, tendo sempre armados
da pesada alavanca e duro malho
os fortes braços feitos ao trabalho.
(...)
Publicado no livro ALMANAK das Musas: nova coleção de poesias oferecida ao gênio português (1793).
In: LAPA, M. Rodrigues. Vida e obra de Alvarenga Peixoto. Rio de Janeiro: INL, 1960
nunca mais recordeis os males vossos;
revolvam-se no horror das sepulturas
dos primeiros avós os frios ossos:
que os heróis das mais altas cataduras
principiam a ser patrícios nossos;
e o vosso sangue, que esta terra ensopa,
já produz frutos do melhor da Europa.
Bem que venha a semente à terra estranha,
quando produz, com igual força gera;
nem do forte leão, fora de Espanha,
a fereza nos filhos degenera;
o que o estio numas terras ganha,
em outras vence a fresca primavera;
e a raça dos heróis da mesma sorte
produz no sul o que produz no norte.
(...)
Isto, que Europa barbaria chama,
do seio das delícias, tão diverso,
quão diferente é para quem ama
os ternos laços de seu pátrio berço!
O pastor loiro, que o meu peito inflama,
dará novos alentos ao meu verso,
para mostrar do nosso herói na boca
como em grandezas tanto horror se troca.
"Aquelas serras na aparência feias,
— dirá José — oh quanto são formosas!
Elas conservam nas ocultas veias
a força das potências majestosas;
têm as ricas entranhas todas cheias
de prata, oiro e pedras preciosas;
aquelas brutas e escalvadas serras
fazem as pazes, dão calor às guerras.
"Aqueles matos negros e fechados,
que ocupam quase a região dos ares,
são os que, em edifícios respeitados,
repartem raios pelos crespos mares.
Os coríntios palácios levantados,
dóricos templos, jônicos altares,
são obras feitas desses lenhos duros,
filhos desses sertões feios e escuros.
"A c'roa de oiro, que na testa brilha,
e o cetro, que empunha na mão justa
do augusto José a heróica filha,
nossa rainha soberana augusta;
e Lisboa, da Europa maravilha,
cuja riqueza todo o mundo assusta,
estas terras a fazem respeitada,
bárbara terra, mas abençoada.
"Estes homens de vários acidentes,
pardos e pretos, tintos e tostados,
são os escravos duros e valentes,
aos penosos trabalhos costumados:
Eles mudam aos rios as correntes,
rasgam as serras, tendo sempre armados
da pesada alavanca e duro malho
os fortes braços feitos ao trabalho.
(...)
Publicado no livro ALMANAK das Musas: nova coleção de poesias oferecida ao gênio português (1793).
In: LAPA, M. Rodrigues. Vida e obra de Alvarenga Peixoto. Rio de Janeiro: INL, 1960
9 207
6
Luiz de Miranda
Abril
Quero tudo em abril
o que é doce e juvenil
na mão de uma menina
em breve alucina
é o amor que se declara
presença matutina
em quem antes não amara
Quero amar em abril
mais do que em março
assim a voz da paixão
é onde coloco o abraço
Quero tudo em abril
o sonho vem logo abrir
o que em mim era pueril
para o canto fazer-se ouvir
entre as ruas da cidade
Quero tudo em abril
do feliz aniversário
ao amor ordinário
da namorada cheirosa
que seja rosa e morada
luz aberta na madrugada
Quero tudo em abril
as formas de ser gentil
o que nunca é servil
o que serve só ao Brasil
toda a rima em il
que nunca será febril
pois nunca é noite em abril
In: MIRANDA, Luiz de. Livro dos meses. São Paulo: FTD, 1992. (Falas poéticas).
o que é doce e juvenil
na mão de uma menina
em breve alucina
é o amor que se declara
presença matutina
em quem antes não amara
Quero amar em abril
mais do que em março
assim a voz da paixão
é onde coloco o abraço
Quero tudo em abril
o sonho vem logo abrir
o que em mim era pueril
para o canto fazer-se ouvir
entre as ruas da cidade
Quero tudo em abril
do feliz aniversário
ao amor ordinário
da namorada cheirosa
que seja rosa e morada
luz aberta na madrugada
Quero tudo em abril
as formas de ser gentil
o que nunca é servil
o que serve só ao Brasil
toda a rima em il
que nunca será febril
pois nunca é noite em abril
In: MIRANDA, Luiz de. Livro dos meses. São Paulo: FTD, 1992. (Falas poéticas).
5 042
6
Gonçalves de Magalhães
Apólogo: O Carro e o Burro
Um touro, não amestrado
No exercício de carreiro,
Num falso passo que deu
Pôs o carro no lameiro.
Conhecendo esse embaraço,
Procurou sair de modo,
Que ao menos salvasse a vida,
Visto o carro estar no lodo.
Alguns animais, passando
No desastroso lugar,
Tentaram, mas não puderam
Do charco o carro tirar.
Até que um burro já velho,
Cheio de louca vaidade,
Cuidou ser esse o momento
De ganhar celebridade.
— A que vás lá? — Disse um desses
Que pastavam por aí:
Deixa vir quem disso entenda;
Que isso não é para ti. —
"Tu falas antes de tempo;
Disse o burro ao que o arguia:
Vou mostrar-te o quanto posso;
Muito alcança quem porfia."
Vejam só o que é ser burro
Por instinto e natureza!
Não mediu as suas forças,
Nem viu do carro a grandeza.
Zurrando, e dando patadas,
Foi meter-se no atoleiro;
Entre os varais colocou-se,
E o pescoço pôs no apeiro.
Mas para fazer tais cousas
Foi necessário agachar-se;
Atolou-se até o ventre
Quando tentou levantar-se.
Como o terreno era fofo,
Tendo já mil voltas dado,
Tentou safar-se do jugo,
E o carro deitou de lado.
O pobre burro entre as varas
Virou de pernas para o ar;
Todo de lama coberto
Começou a espernear.
Isto aos burros acontece,
Que se esquecem do que são
E se não por nós responda
A geral opinião.
Quantos o carro do Estado
Querem guiar mui lampeiros,
E por trancos e barrancos,
Dão com ele em atoleiros?
Publicado no livro Poesias Avulsas (1864). Poema integrante da série Livro Segundo: Poesias Várias.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
No exercício de carreiro,
Num falso passo que deu
Pôs o carro no lameiro.
Conhecendo esse embaraço,
Procurou sair de modo,
Que ao menos salvasse a vida,
Visto o carro estar no lodo.
Alguns animais, passando
No desastroso lugar,
Tentaram, mas não puderam
Do charco o carro tirar.
Até que um burro já velho,
Cheio de louca vaidade,
Cuidou ser esse o momento
De ganhar celebridade.
— A que vás lá? — Disse um desses
Que pastavam por aí:
Deixa vir quem disso entenda;
Que isso não é para ti. —
"Tu falas antes de tempo;
Disse o burro ao que o arguia:
Vou mostrar-te o quanto posso;
Muito alcança quem porfia."
Vejam só o que é ser burro
Por instinto e natureza!
Não mediu as suas forças,
Nem viu do carro a grandeza.
Zurrando, e dando patadas,
Foi meter-se no atoleiro;
Entre os varais colocou-se,
E o pescoço pôs no apeiro.
Mas para fazer tais cousas
Foi necessário agachar-se;
Atolou-se até o ventre
Quando tentou levantar-se.
Como o terreno era fofo,
Tendo já mil voltas dado,
Tentou safar-se do jugo,
E o carro deitou de lado.
O pobre burro entre as varas
Virou de pernas para o ar;
Todo de lama coberto
Começou a espernear.
Isto aos burros acontece,
Que se esquecem do que são
E se não por nós responda
A geral opinião.
Quantos o carro do Estado
Querem guiar mui lampeiros,
E por trancos e barrancos,
Dão com ele em atoleiros?
Publicado no livro Poesias Avulsas (1864). Poema integrante da série Livro Segundo: Poesias Várias.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
13 419
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Gonçalves de Magalhães
Apólogo: O Carro e o Burro
Um touro, não amestrado
No exercício de carreiro,
Num falso passo que deu
Pôs o carro no lameiro.
Conhecendo esse embaraço,
Procurou sair de modo,
Que ao menos salvasse a vida,
Visto o carro estar no lodo.
Alguns animais, passando
No desastroso lugar,
Tentaram, mas não puderam
Do charco o carro tirar.
Até que um burro já velho,
Cheio de louca vaidade,
Cuidou ser esse o momento
De ganhar celebridade.
— A que vás lá? — Disse um desses
Que pastavam por aí:
Deixa vir quem disso entenda;
Que isso não é para ti. —
"Tu falas antes de tempo;
Disse o burro ao que o arguia:
Vou mostrar-te o quanto posso;
Muito alcança quem porfia."
Vejam só o que é ser burro
Por instinto e natureza!
Não mediu as suas forças,
Nem viu do carro a grandeza.
Zurrando, e dando patadas,
Foi meter-se no atoleiro;
Entre os varais colocou-se,
E o pescoço pôs no apeiro.
Mas para fazer tais cousas
Foi necessário agachar-se;
Atolou-se até o ventre
Quando tentou levantar-se.
Como o terreno era fofo,
Tendo já mil voltas dado,
Tentou safar-se do jugo,
E o carro deitou de lado.
O pobre burro entre as varas
Virou de pernas para o ar;
Todo de lama coberto
Começou a espernear.
Isto aos burros acontece,
Que se esquecem do que são
E se não por nós responda
A geral opinião.
Quantos o carro do Estado
Querem guiar mui lampeiros,
E por trancos e barrancos,
Dão com ele em atoleiros?
Publicado no livro Poesias Avulsas (1864). Poema integrante da série Livro Segundo: Poesias Várias.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
No exercício de carreiro,
Num falso passo que deu
Pôs o carro no lameiro.
Conhecendo esse embaraço,
Procurou sair de modo,
Que ao menos salvasse a vida,
Visto o carro estar no lodo.
Alguns animais, passando
No desastroso lugar,
Tentaram, mas não puderam
Do charco o carro tirar.
Até que um burro já velho,
Cheio de louca vaidade,
Cuidou ser esse o momento
De ganhar celebridade.
— A que vás lá? — Disse um desses
Que pastavam por aí:
Deixa vir quem disso entenda;
Que isso não é para ti. —
"Tu falas antes de tempo;
Disse o burro ao que o arguia:
Vou mostrar-te o quanto posso;
Muito alcança quem porfia."
Vejam só o que é ser burro
Por instinto e natureza!
Não mediu as suas forças,
Nem viu do carro a grandeza.
Zurrando, e dando patadas,
Foi meter-se no atoleiro;
Entre os varais colocou-se,
E o pescoço pôs no apeiro.
Mas para fazer tais cousas
Foi necessário agachar-se;
Atolou-se até o ventre
Quando tentou levantar-se.
Como o terreno era fofo,
Tendo já mil voltas dado,
Tentou safar-se do jugo,
E o carro deitou de lado.
O pobre burro entre as varas
Virou de pernas para o ar;
Todo de lama coberto
Começou a espernear.
Isto aos burros acontece,
Que se esquecem do que são
E se não por nós responda
A geral opinião.
Quantos o carro do Estado
Querem guiar mui lampeiros,
E por trancos e barrancos,
Dão com ele em atoleiros?
Publicado no livro Poesias Avulsas (1864). Poema integrante da série Livro Segundo: Poesias Várias.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
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6
João Cabral de Melo Neto
Fábula de um Arquiteto
A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e teto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.
Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até refechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.
Publicado no livro A educação pela pedra (1966).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.345-346. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e teto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.
Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até refechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.
Publicado no livro A educação pela pedra (1966).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.345-346. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
19 717
6
Neves e Sousa
Angolano
Ser angolano é meu fado, é meu castigo
Branco eu sou e pois já não consigo
mudar jamais de cor ou condição...
Mas, será que tem cor o coração?
Ser africano não é questão de cor
é sentimento, vocação, talvez amor.
Não é questão nem mesmo de bandeiras
de língua, de costumes ou maneiras...
A questão é de dentro, é sentimento
e nas parecenças de outras terras
longe das disputas e das guerras
encontro na distância esquecimento!
Branco eu sou e pois já não consigo
mudar jamais de cor ou condição...
Mas, será que tem cor o coração?
Ser africano não é questão de cor
é sentimento, vocação, talvez amor.
Não é questão nem mesmo de bandeiras
de língua, de costumes ou maneiras...
A questão é de dentro, é sentimento
e nas parecenças de outras terras
longe das disputas e das guerras
encontro na distância esquecimento!
1 772
6
José Craveirinha
Sementeira
Cresce a semente
lentamente
debaixo da terra escura.
Cresce a semente
enquanto a vida se curva no chicomo
e o grande sol de África
vem amadurecer tudo
com o seu calor enorme de revelação.
Cresce a semente
que a povoação plantou curvada
e a estrada passa ao lado
macadamizada quente e comprida
e a semente germina
lentamente no matope
imperceptível
como um caju em maturação.
E a vida curva as suas milhentas mãos
geme e chora na sina
de plantar nosso suor branco
enquanto a estrada passa ao lado
aberta e poeirenta até Gaza e mais além
camionizada e comprida.
Depois
de tanga e capulana a vida espera
espiando no céu os agoiros que vão
rebentar sobre as campinas de África
a povoação toda junta no eucalipto grande
nos corações a mamba da ansiedade.
Oh! Dia de colheita vai começar
na terra ardente do algodão!
lentamente
debaixo da terra escura.
Cresce a semente
enquanto a vida se curva no chicomo
e o grande sol de África
vem amadurecer tudo
com o seu calor enorme de revelação.
Cresce a semente
que a povoação plantou curvada
e a estrada passa ao lado
macadamizada quente e comprida
e a semente germina
lentamente no matope
imperceptível
como um caju em maturação.
E a vida curva as suas milhentas mãos
geme e chora na sina
de plantar nosso suor branco
enquanto a estrada passa ao lado
aberta e poeirenta até Gaza e mais além
camionizada e comprida.
Depois
de tanga e capulana a vida espera
espiando no céu os agoiros que vão
rebentar sobre as campinas de África
a povoação toda junta no eucalipto grande
nos corações a mamba da ansiedade.
Oh! Dia de colheita vai começar
na terra ardente do algodão!
6 306
6
José Craveirinha
Sementeira
Cresce a semente
lentamente
debaixo da terra escura.
Cresce a semente
enquanto a vida se curva no chicomo
e o grande sol de África
vem amadurecer tudo
com o seu calor enorme de revelação.
Cresce a semente
que a povoação plantou curvada
e a estrada passa ao lado
macadamizada quente e comprida
e a semente germina
lentamente no matope
imperceptível
como um caju em maturação.
E a vida curva as suas milhentas mãos
geme e chora na sina
de plantar nosso suor branco
enquanto a estrada passa ao lado
aberta e poeirenta até Gaza e mais além
camionizada e comprida.
Depois
de tanga e capulana a vida espera
espiando no céu os agoiros que vão
rebentar sobre as campinas de África
a povoação toda junta no eucalipto grande
nos corações a mamba da ansiedade.
Oh! Dia de colheita vai começar
na terra ardente do algodão!
lentamente
debaixo da terra escura.
Cresce a semente
enquanto a vida se curva no chicomo
e o grande sol de África
vem amadurecer tudo
com o seu calor enorme de revelação.
Cresce a semente
que a povoação plantou curvada
e a estrada passa ao lado
macadamizada quente e comprida
e a semente germina
lentamente no matope
imperceptível
como um caju em maturação.
E a vida curva as suas milhentas mãos
geme e chora na sina
de plantar nosso suor branco
enquanto a estrada passa ao lado
aberta e poeirenta até Gaza e mais além
camionizada e comprida.
Depois
de tanga e capulana a vida espera
espiando no céu os agoiros que vão
rebentar sobre as campinas de África
a povoação toda junta no eucalipto grande
nos corações a mamba da ansiedade.
Oh! Dia de colheita vai começar
na terra ardente do algodão!
6 306
6
Olavo Bilac
A Escravidão
BEM MAIS FELIZ do que a nossa é a geração desses pirralhos que andam agora por aí a jogar a cabra-cega, a atirar pedras às árvores e a perlustrar os mistérios da carta do abc.
É bem certo que os dias se sucedem e não se parecem. No maravilhoso tear em que uma alta Vontade desconhecida vai urdindo a teia das eras, há fios claros, de ouro e de sol, e fios negros, da cor da noite e do desespero. Depois das grandes crises, a vida repousa e adormece, refazendo forças; e há então esses largos períodos de paz e modorra, que dão aos espíritos otimistas, à moda de Pangloss, a ilusão de que foram contados e extintos os dias de sofrimento humano.
Esses meninos, que aí andam jogando peteca, não viram nunca um escravo... Quando eles crescerem, saberão que já houve no Brasil uma raça triste, votada à escravidão e ao desespero; e verão nos museus a coleção hedionda dos troncos, dos vira-mundos e dos bacalhaus; e terão notícias dos trágicos horrores de uma época maldita: filhos arrancados ao seio das mães, virgens violadas em pranto, homens assados lentamente em fornos de cal, mulheres nuas recebendo na sua mísera nudez desvalida o duplo ultraje das chicotadas e dos olhares do feitor bestial. Saberão tudo isso, quando já tiverem vivido bastante para compreender a maldade humana, quando a vida já lhes houver apagado da alma o esplendor da primitiva inocência; e, decerto, um frêmito de espanto e de cólera há de sacudi-los.
Mas a sua indignação nunca poderá ser tão grande como a daqueles que nasceram e cresceram em pleno horror, no meio desse horrível drama de sangue e lodo, sentindo dentro do ouvido e da alma, numa arrastada e contínua melopéia, o longo gemer da raça mártir, — orquestração satânica de todos os soluços, de todas as impressões, de todos os lamentos que a tortura e a injustiça podem arrancar a gargantas humanas...
A distância, tanto no espaço como no tempo, atenua a violência das impressões.
Ainda há pouco tempo, em fevereiro, os astrônomos dos observatórios da Europa viram aparecer uma nova estrela, na constelação do Aquarium.
O astro novo brilhou alguns dias, com um intenso fulgor, e apagou-se logo. A explicação que a ciência encontra para esse fenômeno causa admiração e espanto. O que parecia um astro novo era realmente um velho astro, até então invisível para nós e subitamente incendiado, em uma horrenda catástrofe, por uma combustão química. Assim, o que aos nossos olhos se afigura o natal radiante de um astro, o desabrochar esplêndido de uma flor planetária, é, de fato, o funeral de um mundo, talvez igual, talvez superior ao nosso, e devorado e destruído por milhões e milhões de séculos de vida, naufragando agora no inevitável e irreparável desastre. Mas, a nós, que nos importa essa tragédia celeste, passada, tão longe da terra, que a inteligência humana nem pode calcular a distância que nos separa do seu cenário? Estremecemos durante um minuto, e passamos adiante, sem mais pensar no astro defunto que se abisma no aniquilamento...
A distância no tempo tem o mesmo benéfico efeito da distância no espaço. Nós não podemos ter hoje uma idéia nítida do que foram, por exemplo, os pavores da inquisição: o ulular das vítimas do Santo Ofício atenuou-se e morreu, sem um eco. E o horror que hoje nos causa a leitura daquela infinita narração de atrocidades, é um horror puramente literário. Longe dos olhos, longe do coração, — diz o velho prolóquio; a distância é o pintor miraculoso que faz aparecer, no fundo do quadro, vagamente esfumadas numa névoa indecisa, cousas que, vistas de perto, só causariam repugnância e aflição.
Esses meninos, que nasceram depois de 13 de maio, pertencem a uma geração amada dos deuses. Quando saem de casa a caminho do colégio, com os livros na maleta e uma risonha primavera nos olhos e na alma, já não encontram pelas ruas, como nós encontrávamos, o doloroso espetáculo que nos estatelava de surpresa e assombro: — as levas de escravos maltrapilhos e chagados, que saíam das casas de comissão, manadas de gado humano consignadas à ferocidade dos eitos, pobres mulheres e pobres homens, que traziam no rosto uma máscara de ferro, como prevenção e castigo da intemperança; míseros anciãos cambaios e trêmulos, tendo a alvura da carapinha em contraste com a escuridão da pele, e já meio mortos de velhice e sofrimento, e ainda mourejando de sol a sol, com o cesto sujo à cabeça para o trabalho do ganho, molecotes nus e esqueléticos que chupavam seios sem leite; toda a vasta procissão, enfim, dos abandonados de Deus...
Aqueles de nós, que iam passar as férias nas fazendas, ainda estudavam de mais perto e com mais proveito a sinistra engrenagem do aparelho negreiro.
Lá, no esplendor perpétuo da natureza em festa, sob um céu todo feito de carícia e paz, na face da terra aberta em flores e frutos, — estendiam-se os eitos devoradores de vidas, e a crueldade inventava requintes satânicos. Ao rumorejo suave das ramadas, e ao festivo clamor dos pássaros, casava-se, do romper do sol ao cair da tarde, uma cantilena melancólica que dava calefrios... Era o queixume dos que retalhavam a terra, enquanto os vergalhos dos carrascos lhes retalhavam as costas; era o guaiar da raça miserável que cantava o seu infinito desconsolo. E, no chão que o esforço dos escravos lavrava e fertilizava, corria o sangue dos mártires, pedindo misericórdia, clamando vingança, caindo sem cessar, gota a gota, dos corpos supliciados...
Ah! que felizes sois vós, meninos de agora! Já ao vosso inocente folgar se não vem unir a revolta instintiva, que nos envenenava a alma, naqueles duros tempos da nossa meninice... Quando nascestes, já essa nossa revolta explodira, terrível, rompendo contra todas as conveniências, contra tradições de família e de casta, para extinguir a aviltante vergonha; e agora podeis sorrir vendo o trabalho irmanar pretos e brancos, na terra amada que já não tem pústulas malignas no seio...
Mas das grandes desgraças sociais, como das grandes moléstias que longo tempo devastam o organismo humano, sempre resta alguma cousa que convém combater e afastar.
Em boa hora, lembrou-se alguém de pedir ao presidente do Estado do Rio o perdão dos ex-escravos que cumprem sentença na penitenciária de Niterói.
Já se pode declarar vencida a campanha, porque o homem que está dirigindo o Estado do Rio foi, pelo fulgor da sua pena e pela nobreza do seu exemplo, um dos mais ardentes apóstolos da abolição. Mas não basta que se use de misericórdia para os infelizes da penitenciária de Niterói. Por esse vasto Brasil, quantas vítimas da escravidão não estarão, ainda, no fundo dos calabouços negros, pagando crimes a que foram unicamente levados pelo rebaixamento moral e pelo irrefletido desespero a que os reduzia o egoísmo sórdido dos senhores?
Há uma lenda da Bretanha, cujo suave encanto vem agora à lembrança do cronista.
Diz a doce lenda que um dia, no fulgor incomparável da sua majestade, o Senhor Deus dos cristãos viu chegar à barra do seu tribunal supremo uma alma carregada de crimes torpes. O Senhor Deus franziu o sobrolho e começou a invectivar a alma daninha:
— Tu roubaste, tu intrigaste, tu caluniaste, tu violaste donzelas, tu saqueaste as minhas igrejas, tu profanaste a terra com a tua presença, tu renegaste o meu nome!
A pobre alma, debaixo desse temporal de acusações tremendas, quedava calada e triste. E o senhor Deus clamou, com uma voz que abalou os céus:
— Que alegas tu em tua defesa, ó alma perversa?! Então, a alma perversa disse, chorando:
— Senhor! eu nunca conheci mãe!
E o senhor Deus, comovido e aplacado, acolheu em seu seio o pecador... Assim também, diante da justiça dos homens e da justiça de Deus, podem e devem comparecer sem receio aqueles que, quando escravos, cometeram crimes.<
É bem certo que os dias se sucedem e não se parecem. No maravilhoso tear em que uma alta Vontade desconhecida vai urdindo a teia das eras, há fios claros, de ouro e de sol, e fios negros, da cor da noite e do desespero. Depois das grandes crises, a vida repousa e adormece, refazendo forças; e há então esses largos períodos de paz e modorra, que dão aos espíritos otimistas, à moda de Pangloss, a ilusão de que foram contados e extintos os dias de sofrimento humano.
Esses meninos, que aí andam jogando peteca, não viram nunca um escravo... Quando eles crescerem, saberão que já houve no Brasil uma raça triste, votada à escravidão e ao desespero; e verão nos museus a coleção hedionda dos troncos, dos vira-mundos e dos bacalhaus; e terão notícias dos trágicos horrores de uma época maldita: filhos arrancados ao seio das mães, virgens violadas em pranto, homens assados lentamente em fornos de cal, mulheres nuas recebendo na sua mísera nudez desvalida o duplo ultraje das chicotadas e dos olhares do feitor bestial. Saberão tudo isso, quando já tiverem vivido bastante para compreender a maldade humana, quando a vida já lhes houver apagado da alma o esplendor da primitiva inocência; e, decerto, um frêmito de espanto e de cólera há de sacudi-los.
Mas a sua indignação nunca poderá ser tão grande como a daqueles que nasceram e cresceram em pleno horror, no meio desse horrível drama de sangue e lodo, sentindo dentro do ouvido e da alma, numa arrastada e contínua melopéia, o longo gemer da raça mártir, — orquestração satânica de todos os soluços, de todas as impressões, de todos os lamentos que a tortura e a injustiça podem arrancar a gargantas humanas...
A distância, tanto no espaço como no tempo, atenua a violência das impressões.
Ainda há pouco tempo, em fevereiro, os astrônomos dos observatórios da Europa viram aparecer uma nova estrela, na constelação do Aquarium.
O astro novo brilhou alguns dias, com um intenso fulgor, e apagou-se logo. A explicação que a ciência encontra para esse fenômeno causa admiração e espanto. O que parecia um astro novo era realmente um velho astro, até então invisível para nós e subitamente incendiado, em uma horrenda catástrofe, por uma combustão química. Assim, o que aos nossos olhos se afigura o natal radiante de um astro, o desabrochar esplêndido de uma flor planetária, é, de fato, o funeral de um mundo, talvez igual, talvez superior ao nosso, e devorado e destruído por milhões e milhões de séculos de vida, naufragando agora no inevitável e irreparável desastre. Mas, a nós, que nos importa essa tragédia celeste, passada, tão longe da terra, que a inteligência humana nem pode calcular a distância que nos separa do seu cenário? Estremecemos durante um minuto, e passamos adiante, sem mais pensar no astro defunto que se abisma no aniquilamento...
A distância no tempo tem o mesmo benéfico efeito da distância no espaço. Nós não podemos ter hoje uma idéia nítida do que foram, por exemplo, os pavores da inquisição: o ulular das vítimas do Santo Ofício atenuou-se e morreu, sem um eco. E o horror que hoje nos causa a leitura daquela infinita narração de atrocidades, é um horror puramente literário. Longe dos olhos, longe do coração, — diz o velho prolóquio; a distância é o pintor miraculoso que faz aparecer, no fundo do quadro, vagamente esfumadas numa névoa indecisa, cousas que, vistas de perto, só causariam repugnância e aflição.
Esses meninos, que nasceram depois de 13 de maio, pertencem a uma geração amada dos deuses. Quando saem de casa a caminho do colégio, com os livros na maleta e uma risonha primavera nos olhos e na alma, já não encontram pelas ruas, como nós encontrávamos, o doloroso espetáculo que nos estatelava de surpresa e assombro: — as levas de escravos maltrapilhos e chagados, que saíam das casas de comissão, manadas de gado humano consignadas à ferocidade dos eitos, pobres mulheres e pobres homens, que traziam no rosto uma máscara de ferro, como prevenção e castigo da intemperança; míseros anciãos cambaios e trêmulos, tendo a alvura da carapinha em contraste com a escuridão da pele, e já meio mortos de velhice e sofrimento, e ainda mourejando de sol a sol, com o cesto sujo à cabeça para o trabalho do ganho, molecotes nus e esqueléticos que chupavam seios sem leite; toda a vasta procissão, enfim, dos abandonados de Deus...
Aqueles de nós, que iam passar as férias nas fazendas, ainda estudavam de mais perto e com mais proveito a sinistra engrenagem do aparelho negreiro.
Lá, no esplendor perpétuo da natureza em festa, sob um céu todo feito de carícia e paz, na face da terra aberta em flores e frutos, — estendiam-se os eitos devoradores de vidas, e a crueldade inventava requintes satânicos. Ao rumorejo suave das ramadas, e ao festivo clamor dos pássaros, casava-se, do romper do sol ao cair da tarde, uma cantilena melancólica que dava calefrios... Era o queixume dos que retalhavam a terra, enquanto os vergalhos dos carrascos lhes retalhavam as costas; era o guaiar da raça miserável que cantava o seu infinito desconsolo. E, no chão que o esforço dos escravos lavrava e fertilizava, corria o sangue dos mártires, pedindo misericórdia, clamando vingança, caindo sem cessar, gota a gota, dos corpos supliciados...
Ah! que felizes sois vós, meninos de agora! Já ao vosso inocente folgar se não vem unir a revolta instintiva, que nos envenenava a alma, naqueles duros tempos da nossa meninice... Quando nascestes, já essa nossa revolta explodira, terrível, rompendo contra todas as conveniências, contra tradições de família e de casta, para extinguir a aviltante vergonha; e agora podeis sorrir vendo o trabalho irmanar pretos e brancos, na terra amada que já não tem pústulas malignas no seio...
Mas das grandes desgraças sociais, como das grandes moléstias que longo tempo devastam o organismo humano, sempre resta alguma cousa que convém combater e afastar.
Em boa hora, lembrou-se alguém de pedir ao presidente do Estado do Rio o perdão dos ex-escravos que cumprem sentença na penitenciária de Niterói.
Já se pode declarar vencida a campanha, porque o homem que está dirigindo o Estado do Rio foi, pelo fulgor da sua pena e pela nobreza do seu exemplo, um dos mais ardentes apóstolos da abolição. Mas não basta que se use de misericórdia para os infelizes da penitenciária de Niterói. Por esse vasto Brasil, quantas vítimas da escravidão não estarão, ainda, no fundo dos calabouços negros, pagando crimes a que foram unicamente levados pelo rebaixamento moral e pelo irrefletido desespero a que os reduzia o egoísmo sórdido dos senhores?
Há uma lenda da Bretanha, cujo suave encanto vem agora à lembrança do cronista.
Diz a doce lenda que um dia, no fulgor incomparável da sua majestade, o Senhor Deus dos cristãos viu chegar à barra do seu tribunal supremo uma alma carregada de crimes torpes. O Senhor Deus franziu o sobrolho e começou a invectivar a alma daninha:
— Tu roubaste, tu intrigaste, tu caluniaste, tu violaste donzelas, tu saqueaste as minhas igrejas, tu profanaste a terra com a tua presença, tu renegaste o meu nome!
A pobre alma, debaixo desse temporal de acusações tremendas, quedava calada e triste. E o senhor Deus clamou, com uma voz que abalou os céus:
— Que alegas tu em tua defesa, ó alma perversa?! Então, a alma perversa disse, chorando:
— Senhor! eu nunca conheci mãe!
E o senhor Deus, comovido e aplacado, acolheu em seu seio o pecador... Assim também, diante da justiça dos homens e da justiça de Deus, podem e devem comparecer sem receio aqueles que, quando escravos, cometeram crimes.<
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6
Olavo Bilac
A Escravidão
BEM MAIS FELIZ do que a nossa é a geração desses pirralhos que andam agora por aí a jogar a cabra-cega, a atirar pedras às árvores e a perlustrar os mistérios da carta do abc.
É bem certo que os dias se sucedem e não se parecem. No maravilhoso tear em que uma alta Vontade desconhecida vai urdindo a teia das eras, há fios claros, de ouro e de sol, e fios negros, da cor da noite e do desespero. Depois das grandes crises, a vida repousa e adormece, refazendo forças; e há então esses largos períodos de paz e modorra, que dão aos espíritos otimistas, à moda de Pangloss, a ilusão de que foram contados e extintos os dias de sofrimento humano.
Esses meninos, que aí andam jogando peteca, não viram nunca um escravo... Quando eles crescerem, saberão que já houve no Brasil uma raça triste, votada à escravidão e ao desespero; e verão nos museus a coleção hedionda dos troncos, dos vira-mundos e dos bacalhaus; e terão notícias dos trágicos horrores de uma época maldita: filhos arrancados ao seio das mães, virgens violadas em pranto, homens assados lentamente em fornos de cal, mulheres nuas recebendo na sua mísera nudez desvalida o duplo ultraje das chicotadas e dos olhares do feitor bestial. Saberão tudo isso, quando já tiverem vivido bastante para compreender a maldade humana, quando a vida já lhes houver apagado da alma o esplendor da primitiva inocência; e, decerto, um frêmito de espanto e de cólera há de sacudi-los.
Mas a sua indignação nunca poderá ser tão grande como a daqueles que nasceram e cresceram em pleno horror, no meio desse horrível drama de sangue e lodo, sentindo dentro do ouvido e da alma, numa arrastada e contínua melopéia, o longo gemer da raça mártir, — orquestração satânica de todos os soluços, de todas as impressões, de todos os lamentos que a tortura e a injustiça podem arrancar a gargantas humanas...
A distância, tanto no espaço como no tempo, atenua a violência das impressões.
Ainda há pouco tempo, em fevereiro, os astrônomos dos observatórios da Europa viram aparecer uma nova estrela, na constelação do Aquarium.
O astro novo brilhou alguns dias, com um intenso fulgor, e apagou-se logo. A explicação que a ciência encontra para esse fenômeno causa admiração e espanto. O que parecia um astro novo era realmente um velho astro, até então invisível para nós e subitamente incendiado, em uma horrenda catástrofe, por uma combustão química. Assim, o que aos nossos olhos se afigura o natal radiante de um astro, o desabrochar esplêndido de uma flor planetária, é, de fato, o funeral de um mundo, talvez igual, talvez superior ao nosso, e devorado e destruído por milhões e milhões de séculos de vida, naufragando agora no inevitável e irreparável desastre. Mas, a nós, que nos importa essa tragédia celeste, passada, tão longe da terra, que a inteligência humana nem pode calcular a distância que nos separa do seu cenário? Estremecemos durante um minuto, e passamos adiante, sem mais pensar no astro defunto que se abisma no aniquilamento...
A distância no tempo tem o mesmo benéfico efeito da distância no espaço. Nós não podemos ter hoje uma idéia nítida do que foram, por exemplo, os pavores da inquisição: o ulular das vítimas do Santo Ofício atenuou-se e morreu, sem um eco. E o horror que hoje nos causa a leitura daquela infinita narração de atrocidades, é um horror puramente literário. Longe dos olhos, longe do coração, — diz o velho prolóquio; a distância é o pintor miraculoso que faz aparecer, no fundo do quadro, vagamente esfumadas numa névoa indecisa, cousas que, vistas de perto, só causariam repugnância e aflição.
Esses meninos, que nasceram depois de 13 de maio, pertencem a uma geração amada dos deuses. Quando saem de casa a caminho do colégio, com os livros na maleta e uma risonha primavera nos olhos e na alma, já não encontram pelas ruas, como nós encontrávamos, o doloroso espetáculo que nos estatelava de surpresa e assombro: — as levas de escravos maltrapilhos e chagados, que saíam das casas de comissão, manadas de gado humano consignadas à ferocidade dos eitos, pobres mulheres e pobres homens, que traziam no rosto uma máscara de ferro, como prevenção e castigo da intemperança; míseros anciãos cambaios e trêmulos, tendo a alvura da carapinha em contraste com a escuridão da pele, e já meio mortos de velhice e sofrimento, e ainda mourejando de sol a sol, com o cesto sujo à cabeça para o trabalho do ganho, molecotes nus e esqueléticos que chupavam seios sem leite; toda a vasta procissão, enfim, dos abandonados de Deus...
Aqueles de nós, que iam passar as férias nas fazendas, ainda estudavam de mais perto e com mais proveito a sinistra engrenagem do aparelho negreiro.
Lá, no esplendor perpétuo da natureza em festa, sob um céu todo feito de carícia e paz, na face da terra aberta em flores e frutos, — estendiam-se os eitos devoradores de vidas, e a crueldade inventava requintes satânicos. Ao rumorejo suave das ramadas, e ao festivo clamor dos pássaros, casava-se, do romper do sol ao cair da tarde, uma cantilena melancólica que dava calefrios... Era o queixume dos que retalhavam a terra, enquanto os vergalhos dos carrascos lhes retalhavam as costas; era o guaiar da raça miserável que cantava o seu infinito desconsolo. E, no chão que o esforço dos escravos lavrava e fertilizava, corria o sangue dos mártires, pedindo misericórdia, clamando vingança, caindo sem cessar, gota a gota, dos corpos supliciados...
Ah! que felizes sois vós, meninos de agora! Já ao vosso inocente folgar se não vem unir a revolta instintiva, que nos envenenava a alma, naqueles duros tempos da nossa meninice... Quando nascestes, já essa nossa revolta explodira, terrível, rompendo contra todas as conveniências, contra tradições de família e de casta, para extinguir a aviltante vergonha; e agora podeis sorrir vendo o trabalho irmanar pretos e brancos, na terra amada que já não tem pústulas malignas no seio...
Mas das grandes desgraças sociais, como das grandes moléstias que longo tempo devastam o organismo humano, sempre resta alguma cousa que convém combater e afastar.
Em boa hora, lembrou-se alguém de pedir ao presidente do Estado do Rio o perdão dos ex-escravos que cumprem sentença na penitenciária de Niterói.
Já se pode declarar vencida a campanha, porque o homem que está dirigindo o Estado do Rio foi, pelo fulgor da sua pena e pela nobreza do seu exemplo, um dos mais ardentes apóstolos da abolição. Mas não basta que se use de misericórdia para os infelizes da penitenciária de Niterói. Por esse vasto Brasil, quantas vítimas da escravidão não estarão, ainda, no fundo dos calabouços negros, pagando crimes a que foram unicamente levados pelo rebaixamento moral e pelo irrefletido desespero a que os reduzia o egoísmo sórdido dos senhores?
Há uma lenda da Bretanha, cujo suave encanto vem agora à lembrança do cronista.
Diz a doce lenda que um dia, no fulgor incomparável da sua majestade, o Senhor Deus dos cristãos viu chegar à barra do seu tribunal supremo uma alma carregada de crimes torpes. O Senhor Deus franziu o sobrolho e começou a invectivar a alma daninha:
— Tu roubaste, tu intrigaste, tu caluniaste, tu violaste donzelas, tu saqueaste as minhas igrejas, tu profanaste a terra com a tua presença, tu renegaste o meu nome!
A pobre alma, debaixo desse temporal de acusações tremendas, quedava calada e triste. E o senhor Deus clamou, com uma voz que abalou os céus:
— Que alegas tu em tua defesa, ó alma perversa?! Então, a alma perversa disse, chorando:
— Senhor! eu nunca conheci mãe!
E o senhor Deus, comovido e aplacado, acolheu em seu seio o pecador... Assim também, diante da justiça dos homens e da justiça de Deus, podem e devem comparecer sem receio aqueles que, quando escravos, cometeram crimes.<
É bem certo que os dias se sucedem e não se parecem. No maravilhoso tear em que uma alta Vontade desconhecida vai urdindo a teia das eras, há fios claros, de ouro e de sol, e fios negros, da cor da noite e do desespero. Depois das grandes crises, a vida repousa e adormece, refazendo forças; e há então esses largos períodos de paz e modorra, que dão aos espíritos otimistas, à moda de Pangloss, a ilusão de que foram contados e extintos os dias de sofrimento humano.
Esses meninos, que aí andam jogando peteca, não viram nunca um escravo... Quando eles crescerem, saberão que já houve no Brasil uma raça triste, votada à escravidão e ao desespero; e verão nos museus a coleção hedionda dos troncos, dos vira-mundos e dos bacalhaus; e terão notícias dos trágicos horrores de uma época maldita: filhos arrancados ao seio das mães, virgens violadas em pranto, homens assados lentamente em fornos de cal, mulheres nuas recebendo na sua mísera nudez desvalida o duplo ultraje das chicotadas e dos olhares do feitor bestial. Saberão tudo isso, quando já tiverem vivido bastante para compreender a maldade humana, quando a vida já lhes houver apagado da alma o esplendor da primitiva inocência; e, decerto, um frêmito de espanto e de cólera há de sacudi-los.
Mas a sua indignação nunca poderá ser tão grande como a daqueles que nasceram e cresceram em pleno horror, no meio desse horrível drama de sangue e lodo, sentindo dentro do ouvido e da alma, numa arrastada e contínua melopéia, o longo gemer da raça mártir, — orquestração satânica de todos os soluços, de todas as impressões, de todos os lamentos que a tortura e a injustiça podem arrancar a gargantas humanas...
A distância, tanto no espaço como no tempo, atenua a violência das impressões.
Ainda há pouco tempo, em fevereiro, os astrônomos dos observatórios da Europa viram aparecer uma nova estrela, na constelação do Aquarium.
O astro novo brilhou alguns dias, com um intenso fulgor, e apagou-se logo. A explicação que a ciência encontra para esse fenômeno causa admiração e espanto. O que parecia um astro novo era realmente um velho astro, até então invisível para nós e subitamente incendiado, em uma horrenda catástrofe, por uma combustão química. Assim, o que aos nossos olhos se afigura o natal radiante de um astro, o desabrochar esplêndido de uma flor planetária, é, de fato, o funeral de um mundo, talvez igual, talvez superior ao nosso, e devorado e destruído por milhões e milhões de séculos de vida, naufragando agora no inevitável e irreparável desastre. Mas, a nós, que nos importa essa tragédia celeste, passada, tão longe da terra, que a inteligência humana nem pode calcular a distância que nos separa do seu cenário? Estremecemos durante um minuto, e passamos adiante, sem mais pensar no astro defunto que se abisma no aniquilamento...
A distância no tempo tem o mesmo benéfico efeito da distância no espaço. Nós não podemos ter hoje uma idéia nítida do que foram, por exemplo, os pavores da inquisição: o ulular das vítimas do Santo Ofício atenuou-se e morreu, sem um eco. E o horror que hoje nos causa a leitura daquela infinita narração de atrocidades, é um horror puramente literário. Longe dos olhos, longe do coração, — diz o velho prolóquio; a distância é o pintor miraculoso que faz aparecer, no fundo do quadro, vagamente esfumadas numa névoa indecisa, cousas que, vistas de perto, só causariam repugnância e aflição.
Esses meninos, que nasceram depois de 13 de maio, pertencem a uma geração amada dos deuses. Quando saem de casa a caminho do colégio, com os livros na maleta e uma risonha primavera nos olhos e na alma, já não encontram pelas ruas, como nós encontrávamos, o doloroso espetáculo que nos estatelava de surpresa e assombro: — as levas de escravos maltrapilhos e chagados, que saíam das casas de comissão, manadas de gado humano consignadas à ferocidade dos eitos, pobres mulheres e pobres homens, que traziam no rosto uma máscara de ferro, como prevenção e castigo da intemperança; míseros anciãos cambaios e trêmulos, tendo a alvura da carapinha em contraste com a escuridão da pele, e já meio mortos de velhice e sofrimento, e ainda mourejando de sol a sol, com o cesto sujo à cabeça para o trabalho do ganho, molecotes nus e esqueléticos que chupavam seios sem leite; toda a vasta procissão, enfim, dos abandonados de Deus...
Aqueles de nós, que iam passar as férias nas fazendas, ainda estudavam de mais perto e com mais proveito a sinistra engrenagem do aparelho negreiro.
Lá, no esplendor perpétuo da natureza em festa, sob um céu todo feito de carícia e paz, na face da terra aberta em flores e frutos, — estendiam-se os eitos devoradores de vidas, e a crueldade inventava requintes satânicos. Ao rumorejo suave das ramadas, e ao festivo clamor dos pássaros, casava-se, do romper do sol ao cair da tarde, uma cantilena melancólica que dava calefrios... Era o queixume dos que retalhavam a terra, enquanto os vergalhos dos carrascos lhes retalhavam as costas; era o guaiar da raça miserável que cantava o seu infinito desconsolo. E, no chão que o esforço dos escravos lavrava e fertilizava, corria o sangue dos mártires, pedindo misericórdia, clamando vingança, caindo sem cessar, gota a gota, dos corpos supliciados...
Ah! que felizes sois vós, meninos de agora! Já ao vosso inocente folgar se não vem unir a revolta instintiva, que nos envenenava a alma, naqueles duros tempos da nossa meninice... Quando nascestes, já essa nossa revolta explodira, terrível, rompendo contra todas as conveniências, contra tradições de família e de casta, para extinguir a aviltante vergonha; e agora podeis sorrir vendo o trabalho irmanar pretos e brancos, na terra amada que já não tem pústulas malignas no seio...
Mas das grandes desgraças sociais, como das grandes moléstias que longo tempo devastam o organismo humano, sempre resta alguma cousa que convém combater e afastar.
Em boa hora, lembrou-se alguém de pedir ao presidente do Estado do Rio o perdão dos ex-escravos que cumprem sentença na penitenciária de Niterói.
Já se pode declarar vencida a campanha, porque o homem que está dirigindo o Estado do Rio foi, pelo fulgor da sua pena e pela nobreza do seu exemplo, um dos mais ardentes apóstolos da abolição. Mas não basta que se use de misericórdia para os infelizes da penitenciária de Niterói. Por esse vasto Brasil, quantas vítimas da escravidão não estarão, ainda, no fundo dos calabouços negros, pagando crimes a que foram unicamente levados pelo rebaixamento moral e pelo irrefletido desespero a que os reduzia o egoísmo sórdido dos senhores?
Há uma lenda da Bretanha, cujo suave encanto vem agora à lembrança do cronista.
Diz a doce lenda que um dia, no fulgor incomparável da sua majestade, o Senhor Deus dos cristãos viu chegar à barra do seu tribunal supremo uma alma carregada de crimes torpes. O Senhor Deus franziu o sobrolho e começou a invectivar a alma daninha:
— Tu roubaste, tu intrigaste, tu caluniaste, tu violaste donzelas, tu saqueaste as minhas igrejas, tu profanaste a terra com a tua presença, tu renegaste o meu nome!
A pobre alma, debaixo desse temporal de acusações tremendas, quedava calada e triste. E o senhor Deus clamou, com uma voz que abalou os céus:
— Que alegas tu em tua defesa, ó alma perversa?! Então, a alma perversa disse, chorando:
— Senhor! eu nunca conheci mãe!
E o senhor Deus, comovido e aplacado, acolheu em seu seio o pecador... Assim também, diante da justiça dos homens e da justiça de Deus, podem e devem comparecer sem receio aqueles que, quando escravos, cometeram crimes.<
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6
Olavo Bilac
A Jogatina
Maldito invento dum baronete
Que dos cruzados neto não é.
É mais terrível que o voltarete,
Que a vermelhinha, que o lasquinet.
Dá mais partido para o banqueiro
Do que a roleta, que o dá copioso,
Haver não pode, no mundo inteiro,
Jogo mais certo, mais engenhoso.
Praga maldita, praga danada,
Maior que todas as pragas do Egito.
Que esta cidade traz devastada,
Triste e delgada, como um palito.
Pobre cidade, pacata outrora
Que só jogava o burro, a bisca,
E mais a víspora; hoje a devora
A jogatina, que tudo arrisca.
Joga o velho, joga o moço,
Joga o menino, a menina,
Joga a parda do caroço,
Joga a dama papa-fina,
Joga o Saco-do-Alferes
E o fidalgo Botafogo,
Jogam homens e mulheres,
Todos jogam; tudo é jogo!
Joga-se à luz meridiana,
À do gás e da candeia,
Joga-se toda a semana
Sem receio da cadeia.
Joga-se tudo bem descarado,
Roleta, solo, truco, manilha,
Marimbo, pocker, roleta, dado,
E o sete-e-meio e a rapa-pilha.
Porém dos jogos, mil e quinhentos,
Que nos assolam com seus caprichos,
Figura impávida, aos quatro ventos,
O pavoroso jogo dos bichos.
Se tem virtudes, altas e belas,
Dizer bem pode muitos magnatas,
Alvins, Ribeiros e Cabanelas,
E outros ilustres bicharocratas.
Em balde a nossa fina polícia,
Que tem às vezes um bom capricho,
Emprega força, tino e malícia
Não lhe é possível "matar o bicho".
In: BILAC, Olavo. Bom humor. Org. Eloy Pontes. Rio de Janeiro: Casa Mandarino, 1940*. p.63-65. (Vida literária
Que dos cruzados neto não é.
É mais terrível que o voltarete,
Que a vermelhinha, que o lasquinet.
Dá mais partido para o banqueiro
Do que a roleta, que o dá copioso,
Haver não pode, no mundo inteiro,
Jogo mais certo, mais engenhoso.
Praga maldita, praga danada,
Maior que todas as pragas do Egito.
Que esta cidade traz devastada,
Triste e delgada, como um palito.
Pobre cidade, pacata outrora
Que só jogava o burro, a bisca,
E mais a víspora; hoje a devora
A jogatina, que tudo arrisca.
Joga o velho, joga o moço,
Joga o menino, a menina,
Joga a parda do caroço,
Joga a dama papa-fina,
Joga o Saco-do-Alferes
E o fidalgo Botafogo,
Jogam homens e mulheres,
Todos jogam; tudo é jogo!
Joga-se à luz meridiana,
À do gás e da candeia,
Joga-se toda a semana
Sem receio da cadeia.
Joga-se tudo bem descarado,
Roleta, solo, truco, manilha,
Marimbo, pocker, roleta, dado,
E o sete-e-meio e a rapa-pilha.
Porém dos jogos, mil e quinhentos,
Que nos assolam com seus caprichos,
Figura impávida, aos quatro ventos,
O pavoroso jogo dos bichos.
Se tem virtudes, altas e belas,
Dizer bem pode muitos magnatas,
Alvins, Ribeiros e Cabanelas,
E outros ilustres bicharocratas.
Em balde a nossa fina polícia,
Que tem às vezes um bom capricho,
Emprega força, tino e malícia
Não lhe é possível "matar o bicho".
In: BILAC, Olavo. Bom humor. Org. Eloy Pontes. Rio de Janeiro: Casa Mandarino, 1940*. p.63-65. (Vida literária
5 032
6
Olavo Bilac
A Jogatina
Maldito invento dum baronete
Que dos cruzados neto não é.
É mais terrível que o voltarete,
Que a vermelhinha, que o lasquinet.
Dá mais partido para o banqueiro
Do que a roleta, que o dá copioso,
Haver não pode, no mundo inteiro,
Jogo mais certo, mais engenhoso.
Praga maldita, praga danada,
Maior que todas as pragas do Egito.
Que esta cidade traz devastada,
Triste e delgada, como um palito.
Pobre cidade, pacata outrora
Que só jogava o burro, a bisca,
E mais a víspora; hoje a devora
A jogatina, que tudo arrisca.
Joga o velho, joga o moço,
Joga o menino, a menina,
Joga a parda do caroço,
Joga a dama papa-fina,
Joga o Saco-do-Alferes
E o fidalgo Botafogo,
Jogam homens e mulheres,
Todos jogam; tudo é jogo!
Joga-se à luz meridiana,
À do gás e da candeia,
Joga-se toda a semana
Sem receio da cadeia.
Joga-se tudo bem descarado,
Roleta, solo, truco, manilha,
Marimbo, pocker, roleta, dado,
E o sete-e-meio e a rapa-pilha.
Porém dos jogos, mil e quinhentos,
Que nos assolam com seus caprichos,
Figura impávida, aos quatro ventos,
O pavoroso jogo dos bichos.
Se tem virtudes, altas e belas,
Dizer bem pode muitos magnatas,
Alvins, Ribeiros e Cabanelas,
E outros ilustres bicharocratas.
Em balde a nossa fina polícia,
Que tem às vezes um bom capricho,
Emprega força, tino e malícia
Não lhe é possível "matar o bicho".
In: BILAC, Olavo. Bom humor. Org. Eloy Pontes. Rio de Janeiro: Casa Mandarino, 1940*. p.63-65. (Vida literária
Que dos cruzados neto não é.
É mais terrível que o voltarete,
Que a vermelhinha, que o lasquinet.
Dá mais partido para o banqueiro
Do que a roleta, que o dá copioso,
Haver não pode, no mundo inteiro,
Jogo mais certo, mais engenhoso.
Praga maldita, praga danada,
Maior que todas as pragas do Egito.
Que esta cidade traz devastada,
Triste e delgada, como um palito.
Pobre cidade, pacata outrora
Que só jogava o burro, a bisca,
E mais a víspora; hoje a devora
A jogatina, que tudo arrisca.
Joga o velho, joga o moço,
Joga o menino, a menina,
Joga a parda do caroço,
Joga a dama papa-fina,
Joga o Saco-do-Alferes
E o fidalgo Botafogo,
Jogam homens e mulheres,
Todos jogam; tudo é jogo!
Joga-se à luz meridiana,
À do gás e da candeia,
Joga-se toda a semana
Sem receio da cadeia.
Joga-se tudo bem descarado,
Roleta, solo, truco, manilha,
Marimbo, pocker, roleta, dado,
E o sete-e-meio e a rapa-pilha.
Porém dos jogos, mil e quinhentos,
Que nos assolam com seus caprichos,
Figura impávida, aos quatro ventos,
O pavoroso jogo dos bichos.
Se tem virtudes, altas e belas,
Dizer bem pode muitos magnatas,
Alvins, Ribeiros e Cabanelas,
E outros ilustres bicharocratas.
Em balde a nossa fina polícia,
Que tem às vezes um bom capricho,
Emprega força, tino e malícia
Não lhe é possível "matar o bicho".
In: BILAC, Olavo. Bom humor. Org. Eloy Pontes. Rio de Janeiro: Casa Mandarino, 1940*. p.63-65. (Vida literária
5 032
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Olavo Bilac
A Jogatina
Maldito invento dum baronete
Que dos cruzados neto não é.
É mais terrível que o voltarete,
Que a vermelhinha, que o lasquinet.
Dá mais partido para o banqueiro
Do que a roleta, que o dá copioso,
Haver não pode, no mundo inteiro,
Jogo mais certo, mais engenhoso.
Praga maldita, praga danada,
Maior que todas as pragas do Egito.
Que esta cidade traz devastada,
Triste e delgada, como um palito.
Pobre cidade, pacata outrora
Que só jogava o burro, a bisca,
E mais a víspora; hoje a devora
A jogatina, que tudo arrisca.
Joga o velho, joga o moço,
Joga o menino, a menina,
Joga a parda do caroço,
Joga a dama papa-fina,
Joga o Saco-do-Alferes
E o fidalgo Botafogo,
Jogam homens e mulheres,
Todos jogam; tudo é jogo!
Joga-se à luz meridiana,
À do gás e da candeia,
Joga-se toda a semana
Sem receio da cadeia.
Joga-se tudo bem descarado,
Roleta, solo, truco, manilha,
Marimbo, pocker, roleta, dado,
E o sete-e-meio e a rapa-pilha.
Porém dos jogos, mil e quinhentos,
Que nos assolam com seus caprichos,
Figura impávida, aos quatro ventos,
O pavoroso jogo dos bichos.
Se tem virtudes, altas e belas,
Dizer bem pode muitos magnatas,
Alvins, Ribeiros e Cabanelas,
E outros ilustres bicharocratas.
Em balde a nossa fina polícia,
Que tem às vezes um bom capricho,
Emprega força, tino e malícia
Não lhe é possível "matar o bicho".
In: BILAC, Olavo. Bom humor. Org. Eloy Pontes. Rio de Janeiro: Casa Mandarino, 1940*. p.63-65. (Vida literária
Que dos cruzados neto não é.
É mais terrível que o voltarete,
Que a vermelhinha, que o lasquinet.
Dá mais partido para o banqueiro
Do que a roleta, que o dá copioso,
Haver não pode, no mundo inteiro,
Jogo mais certo, mais engenhoso.
Praga maldita, praga danada,
Maior que todas as pragas do Egito.
Que esta cidade traz devastada,
Triste e delgada, como um palito.
Pobre cidade, pacata outrora
Que só jogava o burro, a bisca,
E mais a víspora; hoje a devora
A jogatina, que tudo arrisca.
Joga o velho, joga o moço,
Joga o menino, a menina,
Joga a parda do caroço,
Joga a dama papa-fina,
Joga o Saco-do-Alferes
E o fidalgo Botafogo,
Jogam homens e mulheres,
Todos jogam; tudo é jogo!
Joga-se à luz meridiana,
À do gás e da candeia,
Joga-se toda a semana
Sem receio da cadeia.
Joga-se tudo bem descarado,
Roleta, solo, truco, manilha,
Marimbo, pocker, roleta, dado,
E o sete-e-meio e a rapa-pilha.
Porém dos jogos, mil e quinhentos,
Que nos assolam com seus caprichos,
Figura impávida, aos quatro ventos,
O pavoroso jogo dos bichos.
Se tem virtudes, altas e belas,
Dizer bem pode muitos magnatas,
Alvins, Ribeiros e Cabanelas,
E outros ilustres bicharocratas.
Em balde a nossa fina polícia,
Que tem às vezes um bom capricho,
Emprega força, tino e malícia
Não lhe é possível "matar o bicho".
In: BILAC, Olavo. Bom humor. Org. Eloy Pontes. Rio de Janeiro: Casa Mandarino, 1940*. p.63-65. (Vida literária
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6
Mario Benedetti
Façamos um trato
Companheira
você sabe
que pode contar
comigo
não até dois
ou até dez
senão contar
comigo
se alguma vez
percebe
que a olho nos olhos
e um brilho de amor
reconheces nos meus
não alerte seus fuzis
nem pense que deliro
apesar do brilho
ou talvez porque existe
você pode contar
comigo
se outras vezes
me encontra
intratável sem motivo
não pense que fraquejara
igual pode contar
comigo
porém façamos um trato
eu quisera contar
com você
é tão lindo
saber que você existe
um se sente vivo
e quando digo isto
quero dizer contar
embora seja até dois
embora seja até cinco
não já para que acuda
pressurosa em meu auxílio
senão para saber
a ciência certa
que você sabe que pode
conta comigo.
você sabe
que pode contar
comigo
não até dois
ou até dez
senão contar
comigo
se alguma vez
percebe
que a olho nos olhos
e um brilho de amor
reconheces nos meus
não alerte seus fuzis
nem pense que deliro
apesar do brilho
ou talvez porque existe
você pode contar
comigo
se outras vezes
me encontra
intratável sem motivo
não pense que fraquejara
igual pode contar
comigo
porém façamos um trato
eu quisera contar
com você
é tão lindo
saber que você existe
um se sente vivo
e quando digo isto
quero dizer contar
embora seja até dois
embora seja até cinco
não já para que acuda
pressurosa em meu auxílio
senão para saber
a ciência certa
que você sabe que pode
conta comigo.
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6
Castro Alves
O Livro e a América
Ao Grêmio Literário
Talhado para as grandezas,
P'ra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".
Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.
Olhando em torno então brada:
“Tudo marcha!… Ó grande Deus!
As cataratas — p′ra terra,
As estrelas — para os ecos.
Lá, do polo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar…
Eu quero marchar com os ventos,
Com os mundos… co′os firmamentos!!!”
E Deus responde — “Marchar!”
“Marchar!… Mas como?… Da Grécia
Nos dóricos Parthenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Pantheons?..
Marchar co′a espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo…
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?..”
“Marchar!.. Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?..
Não!.. Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir…
Lá brada Cesar morrendo:
No pugilato tremendo
Quem sempre vence é o porvir!”
Filhos do sec′lo das luzes!
Filhos da Grande Nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo…
Eolo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade voou!
Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O sec'lo, que viu Colombo,
Viu Gutenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...
Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto —
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.
Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
P'ra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz!...
Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão!...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...
Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
Talhado para as grandezas,
P'ra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".
Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.
Olhando em torno então brada:
“Tudo marcha!… Ó grande Deus!
As cataratas — p′ra terra,
As estrelas — para os ecos.
Lá, do polo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar…
Eu quero marchar com os ventos,
Com os mundos… co′os firmamentos!!!”
E Deus responde — “Marchar!”
“Marchar!… Mas como?… Da Grécia
Nos dóricos Parthenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Pantheons?..
Marchar co′a espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo…
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?..”
“Marchar!.. Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?..
Não!.. Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir…
Lá brada Cesar morrendo:
No pugilato tremendo
Quem sempre vence é o porvir!”
Filhos do sec′lo das luzes!
Filhos da Grande Nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo…
Eolo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade voou!
Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O sec'lo, que viu Colombo,
Viu Gutenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...
Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto —
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.
Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
P'ra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz!...
Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão!...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...
Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
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Castro Alves
O Livro e a América
Ao Grêmio Literário
Talhado para as grandezas,
P'ra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".
Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.
Olhando em torno então brada:
“Tudo marcha!… Ó grande Deus!
As cataratas — p′ra terra,
As estrelas — para os ecos.
Lá, do polo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar…
Eu quero marchar com os ventos,
Com os mundos… co′os firmamentos!!!”
E Deus responde — “Marchar!”
“Marchar!… Mas como?… Da Grécia
Nos dóricos Parthenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Pantheons?..
Marchar co′a espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo…
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?..”
“Marchar!.. Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?..
Não!.. Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir…
Lá brada Cesar morrendo:
No pugilato tremendo
Quem sempre vence é o porvir!”
Filhos do sec′lo das luzes!
Filhos da Grande Nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo…
Eolo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade voou!
Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O sec'lo, que viu Colombo,
Viu Gutenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...
Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto —
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.
Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
P'ra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz!...
Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão!...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...
Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
Talhado para as grandezas,
P'ra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".
Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.
Olhando em torno então brada:
“Tudo marcha!… Ó grande Deus!
As cataratas — p′ra terra,
As estrelas — para os ecos.
Lá, do polo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar…
Eu quero marchar com os ventos,
Com os mundos… co′os firmamentos!!!”
E Deus responde — “Marchar!”
“Marchar!… Mas como?… Da Grécia
Nos dóricos Parthenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Pantheons?..
Marchar co′a espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo…
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?..”
“Marchar!.. Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?..
Não!.. Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir…
Lá brada Cesar morrendo:
No pugilato tremendo
Quem sempre vence é o porvir!”
Filhos do sec′lo das luzes!
Filhos da Grande Nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo…
Eolo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade voou!
Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O sec'lo, que viu Colombo,
Viu Gutenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...
Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto —
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.
Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
P'ra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz!...
Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão!...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...
Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
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Castro Alves
O Livro e a América
Ao Grêmio Literário
Talhado para as grandezas,
P'ra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".
Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.
Olhando em torno então brada:
“Tudo marcha!… Ó grande Deus!
As cataratas — p′ra terra,
As estrelas — para os ecos.
Lá, do polo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar…
Eu quero marchar com os ventos,
Com os mundos… co′os firmamentos!!!”
E Deus responde — “Marchar!”
“Marchar!… Mas como?… Da Grécia
Nos dóricos Parthenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Pantheons?..
Marchar co′a espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo…
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?..”
“Marchar!.. Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?..
Não!.. Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir…
Lá brada Cesar morrendo:
No pugilato tremendo
Quem sempre vence é o porvir!”
Filhos do sec′lo das luzes!
Filhos da Grande Nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo…
Eolo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade voou!
Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O sec'lo, que viu Colombo,
Viu Gutenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...
Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto —
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.
Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
P'ra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz!...
Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão!...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...
Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
Talhado para as grandezas,
P'ra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".
Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.
Olhando em torno então brada:
“Tudo marcha!… Ó grande Deus!
As cataratas — p′ra terra,
As estrelas — para os ecos.
Lá, do polo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar…
Eu quero marchar com os ventos,
Com os mundos… co′os firmamentos!!!”
E Deus responde — “Marchar!”
“Marchar!… Mas como?… Da Grécia
Nos dóricos Parthenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Pantheons?..
Marchar co′a espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo…
— Com as garras nas mãos do mundo,
— Com os dentes no coração?..”
“Marchar!.. Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?..
Não!.. Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir…
Lá brada Cesar morrendo:
No pugilato tremendo
Quem sempre vence é o porvir!”
Filhos do sec′lo das luzes!
Filhos da Grande Nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo…
Eolo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade voou!
Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O sec'lo, que viu Colombo,
Viu Gutenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...
Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto —
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.
Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
P'ra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz!...
Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão!...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...
Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
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Carlos Edmilson Vieira
Sofrimentos
A dor que em mim mora
não é o mal no meu corpo
carne destinada à terra húmida
última guardiã do sofrimento
pois esse já fiz oferenda
ao mais Homem de todos os Homens
mumificado pela injustiça humana
que estrangula o nosso ser
a dor que em mim mora
é a que vi em Bissau
é a que viveram na travessia para Dakar
é a que viveram na travessia para Cabo Verde
é a que vejo no corpo dos outros
não é o mal no meu corpo
carne destinada à terra húmida
última guardiã do sofrimento
pois esse já fiz oferenda
ao mais Homem de todos os Homens
mumificado pela injustiça humana
que estrangula o nosso ser
a dor que em mim mora
é a que vi em Bissau
é a que viveram na travessia para Dakar
é a que viveram na travessia para Cabo Verde
é a que vejo no corpo dos outros
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