Poemas neste tema
Dinheiro e Riqueza
Paulo Setúbal
As Gentes das Lavras
Quantas lavras! As de "S. João", as de "Cocaes", as da "Chapada", as de "Jacey", as da "Conceição", as do "Sutil"... Tudo a jorrar ouro! Ouro, às arrobas, do melhor, mais puro, diziam, que o das Gerais. Esse ouro, como um clarim, conclamava sem cessar as gentes. Forasteiros e naturais, nortistas e sulistas, vinha tudo, por esses sertões afora — e sabe Deus como! — atrás do ouro de Cuiabá. Não havia barreiras que os fizessem estacar. Não havia perigos que os fizessem refletir. Nada! Nem os matos, nem os rios, nem as feras, nem a indiada, nem a fome, nem as misérias infinitas, horrorizantes da jornada.
Cuiabá tornou-se o açude onde se aglutinava a escumalha lodosa do Brasil. Era o desaguadouro de todos os aventureiros. E que aventureiros! Bandidos, fugidos às justiças, jogadores, matadores sanguinários, ladrões, salteadores. Ralé vil, ralé imunda, ralé repugnante.
E que vida, no Cuiabá, heterogênea e bruta! Nas tascas, onde havia sempre "mulheres bastardas e jogos de parar", desencadeavam-se tragédias selvagens, violentíssimas, em que fuzilavam facões e toledanas. Assassínio era coisa de todo o dia. Roubos também. Toda a gente roubava! Os negros, com perícias pasmosas, surripiavam ouro das bateias e iam, nos dias de folga, emborrachar-se com ele nas tavernas. Os índios, que sempre foram racialmente falsos, escondiam na boca os granetes que podiam e, à noite, muito às ocultas; entregavam-no aos ourives a troco de pedaços de fumo. Mulatas quitandeiras, com os tabuleiros à cabeça, viviam nas catas a vender broinhas aos escravos. Os escravos pagavam-nas com folhetas roubadas aos amos. Até os padres, contaminados pela fúria das riquezas, contrabandeavam. Rodrigo César, para cortar tudo aquilo, todas aquelas mortes, todos aqueles roubos, todo aquele contrabando, lançava, ininterruptamente, bandos sobre bandos. Ninguém mais, ordenava o Governador, "havendo de fazer jornada a Cuyabá, não a faça sem licença minha e sem tirar o paçaporte na secretaria do Governo". E mandava fechar as baiúcas de jogo. E proibia, sob penas carrancudas, que partissem forasteiros para as minas. E negros sem dono. E índios avulsos. E mulheres de vida fácil. E padres castelhanos. Estes, sob pretexto algum, mesmo sob pretexto de missão, não tinham sequer permissão de atravessar as minas. Mas os bandos, por mais rigorosos, eram vãos. O ouro de Cuiabá enlouquecia. Que importavam aquelas proibições? Toda a gente, para atingir o metal satânico, as fraudava. E não havia meio de impedir a fraude. Por isso, cada ano, as monções partiam repletas. E cada ano, nos povoados, contavam-se as misérias e os padecimentos dessas monções.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 61-63. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
Cuiabá tornou-se o açude onde se aglutinava a escumalha lodosa do Brasil. Era o desaguadouro de todos os aventureiros. E que aventureiros! Bandidos, fugidos às justiças, jogadores, matadores sanguinários, ladrões, salteadores. Ralé vil, ralé imunda, ralé repugnante.
E que vida, no Cuiabá, heterogênea e bruta! Nas tascas, onde havia sempre "mulheres bastardas e jogos de parar", desencadeavam-se tragédias selvagens, violentíssimas, em que fuzilavam facões e toledanas. Assassínio era coisa de todo o dia. Roubos também. Toda a gente roubava! Os negros, com perícias pasmosas, surripiavam ouro das bateias e iam, nos dias de folga, emborrachar-se com ele nas tavernas. Os índios, que sempre foram racialmente falsos, escondiam na boca os granetes que podiam e, à noite, muito às ocultas; entregavam-no aos ourives a troco de pedaços de fumo. Mulatas quitandeiras, com os tabuleiros à cabeça, viviam nas catas a vender broinhas aos escravos. Os escravos pagavam-nas com folhetas roubadas aos amos. Até os padres, contaminados pela fúria das riquezas, contrabandeavam. Rodrigo César, para cortar tudo aquilo, todas aquelas mortes, todos aqueles roubos, todo aquele contrabando, lançava, ininterruptamente, bandos sobre bandos. Ninguém mais, ordenava o Governador, "havendo de fazer jornada a Cuyabá, não a faça sem licença minha e sem tirar o paçaporte na secretaria do Governo". E mandava fechar as baiúcas de jogo. E proibia, sob penas carrancudas, que partissem forasteiros para as minas. E negros sem dono. E índios avulsos. E mulheres de vida fácil. E padres castelhanos. Estes, sob pretexto algum, mesmo sob pretexto de missão, não tinham sequer permissão de atravessar as minas. Mas os bandos, por mais rigorosos, eram vãos. O ouro de Cuiabá enlouquecia. Que importavam aquelas proibições? Toda a gente, para atingir o metal satânico, as fraudava. E não havia meio de impedir a fraude. Por isso, cada ano, as monções partiam repletas. E cada ano, nos povoados, contavam-se as misérias e os padecimentos dessas monções.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 61-63. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
1 375
Frei Francisco de São Carlos
Canto VI [Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
(...)
Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
A ilustre povoação de Paulicéia,
Aprazível lugar, cuja campanha
O Tamandaaí cercando banha,
Cujos alunos, fortes e briosos
Rios transpondo, montes escabrosos,
Átropos insultando e os seus perigos,
Sem rotina segura, sem abrigos,
De Panteras e Serpes assaltados,
E do indígena bruto; além cansados,
Darão com as terras pingues e abundantes
Das veias d'oiro ricas, e diamantes.
Aqueles que forrando o peito duro
De triplicado bronze, o mar escuro
De Hele na aventureira faia arando,
Voltam de Colcos ledos, transportando
D'oiro a lã; não disputem as conquistas,
Que hão de tentar os ínclitos Paulistas.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Frei Francisco de São Carlos. In: ---. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.413-414. (Textos, 2
Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
A ilustre povoação de Paulicéia,
Aprazível lugar, cuja campanha
O Tamandaaí cercando banha,
Cujos alunos, fortes e briosos
Rios transpondo, montes escabrosos,
Átropos insultando e os seus perigos,
Sem rotina segura, sem abrigos,
De Panteras e Serpes assaltados,
E do indígena bruto; além cansados,
Darão com as terras pingues e abundantes
Das veias d'oiro ricas, e diamantes.
Aqueles que forrando o peito duro
De triplicado bronze, o mar escuro
De Hele na aventureira faia arando,
Voltam de Colcos ledos, transportando
D'oiro a lã; não disputem as conquistas,
Que hão de tentar os ínclitos Paulistas.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Frei Francisco de São Carlos. In: ---. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.413-414. (Textos, 2
1 130
Joaquim Cardozo
As Alvarengas
"Tous les chemins vont vers la ville"
(Verhaeren)
As Alvarengas!
Ei-las que vão e vêm; outras paradas,
Imóveis. O ar silêncio. Azul céu, suavemente.
Na tarde sombra o velho cais do Apolo.
O sol das cinco acende um farol no zimbório
Da Assembléia.
As alvarengas!
Madalena. Deus te guie. Flor de zongue.
Negros curvando os dorsos nus
Impelem-nas ligeiras.
Vêm de longe, dos campos saqueados
Onde é tenaz a luta entre o Homem e a Terra,
Trazendo, nos bojos negros,
Para a cidade,
A ignota riqueza que o solo vencido abandona,
O latente rumor das florestas despedaçadas.
A cidade voragem
É o Moloch, é o abismo, é a caldeira...
Além, pelo ar distante e sobre as casas,
As chaminés fumegam e o vento alonga
O passo de parafuso
Das hélices de fumo;
E lentas
Vão seguindo, negras, jogando, cansadas;
E seguindo-as também em curvas n'água propagadas,
A dor da Terra, o clamor das raízes.
1925
Publicado no livro Poemas (1947).
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.3-4
(Verhaeren)
As Alvarengas!
Ei-las que vão e vêm; outras paradas,
Imóveis. O ar silêncio. Azul céu, suavemente.
Na tarde sombra o velho cais do Apolo.
O sol das cinco acende um farol no zimbório
Da Assembléia.
As alvarengas!
Madalena. Deus te guie. Flor de zongue.
Negros curvando os dorsos nus
Impelem-nas ligeiras.
Vêm de longe, dos campos saqueados
Onde é tenaz a luta entre o Homem e a Terra,
Trazendo, nos bojos negros,
Para a cidade,
A ignota riqueza que o solo vencido abandona,
O latente rumor das florestas despedaçadas.
A cidade voragem
É o Moloch, é o abismo, é a caldeira...
Além, pelo ar distante e sobre as casas,
As chaminés fumegam e o vento alonga
O passo de parafuso
Das hélices de fumo;
E lentas
Vão seguindo, negras, jogando, cansadas;
E seguindo-as também em curvas n'água propagadas,
A dor da Terra, o clamor das raízes.
1925
Publicado no livro Poemas (1947).
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.3-4
1 557
Stella Leonardos
Balada da Chica da Silva
Solo
"Jambá tuca rirá ô quê!
Coro
Jambá catussira rossequê
Solo
Rio, Rio."
— Meu pai, me conta da Chica
— a das estrelas dos antes
das catas de Serro Frio,
Sinhá de José Fernandes
o branco de desvario.
— De quem aquele navio
a um lago absurdo indagando?
Da nega Chica da Silva
Sinhá de José Fernandes.
Não há mar em Serro Frio
mas há, de sobra, diamante.
A nega sentiu capricho
navegante.
Jambá jambi jombô.
Chica da Silva
sonhou
De quem esses atavios
de estrelas não vistas dantes?
Da nega Chica da Silva
Sinhá de José Fernandes.
Não há corte em Serro Frio
mas há, de sobra, diamante.
A nega veste capricho
cintilante.
Jambá jombô jambi.
Chica da Silva
sorri
De quem o olhar de cobiça
e essas garras se ocultando,
ô nega Chica da Silva
sinhá de José Fernandes?
Do hóspede de Serro Frio
onde há, de sobra, diamante.
Do Conde vilão, capricho
vigilante.
Jambi jombô jambá.
Chica da Silva
sinhá.
De quem esses olhos-rios
de saudade rebrilhando?
Da nega Chica da Silva.
Levaram José Fernandes.
(Adeus Chica, e Serro Frio,
e contrato de diamante!)
Ai Chica chorando dia
de amante!
Jambá jambi jombô.
Chica da Silva
chorou.
— E depois: que houve com Chica,
sinhá de José Fernandes,
a nega de Serro Frio?
Será que o que andou chorando
é hoje estrela de rio?
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro da Abolição: poesia. São Paulo: Melhoramentos, 1986
"Jambá tuca rirá ô quê!
Coro
Jambá catussira rossequê
Solo
Rio, Rio."
— Meu pai, me conta da Chica
— a das estrelas dos antes
das catas de Serro Frio,
Sinhá de José Fernandes
o branco de desvario.
— De quem aquele navio
a um lago absurdo indagando?
Da nega Chica da Silva
Sinhá de José Fernandes.
Não há mar em Serro Frio
mas há, de sobra, diamante.
A nega sentiu capricho
navegante.
Jambá jambi jombô.
Chica da Silva
sonhou
De quem esses atavios
de estrelas não vistas dantes?
Da nega Chica da Silva
Sinhá de José Fernandes.
Não há corte em Serro Frio
mas há, de sobra, diamante.
A nega veste capricho
cintilante.
Jambá jombô jambi.
Chica da Silva
sorri
De quem o olhar de cobiça
e essas garras se ocultando,
ô nega Chica da Silva
sinhá de José Fernandes?
Do hóspede de Serro Frio
onde há, de sobra, diamante.
Do Conde vilão, capricho
vigilante.
Jambi jombô jambá.
Chica da Silva
sinhá.
De quem esses olhos-rios
de saudade rebrilhando?
Da nega Chica da Silva.
Levaram José Fernandes.
(Adeus Chica, e Serro Frio,
e contrato de diamante!)
Ai Chica chorando dia
de amante!
Jambá jambi jombô.
Chica da Silva
chorou.
— E depois: que houve com Chica,
sinhá de José Fernandes,
a nega de Serro Frio?
Será que o que andou chorando
é hoje estrela de rio?
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro da Abolição: poesia. São Paulo: Melhoramentos, 1986
1 435
Affonso Ávila
Anti-Sonetos Ouropretanos
I
da vila rica de ouro preto o ouro
do preito o ouro do pilar o ouro
do pórtico o ouro do púlpito o ouro
do paramento o ouro do pálio o ouro
do panteão o ouro do pacto o ouro
do percalço o ouro do perjúrio o ouro
do patíbulo o ouro do proscrito o ouro
do prêmio o ouro do palimpsesto o ouro
do pedágio o ouro do pecado o ouro
do pulha o ouro do podre o ouro
do polvo o ouro do puro o ouro
do pobre o ouro do povo o ouro
do poeta o ouro do peito o ouro
da rima rica de outro preto o ouro
II
a cidade da hera e de idade
a antiguidade de édito e de idade
a posteridade de efígie e de idade
a eternidade de essência e de idade
a majestade de espírito e de idade
a gravidade de espectro e de idade
a dignidade de ênfase e de idade
a imobilidade de enlevo e de idade
a obliquidade de eflúvio e de idade
a soledade de exílio e de idade
a fatalidade de exaustão e de idade
a castidade de espera e de idade
a carnalidade de efêmero e de idade
a cidade de eros e de idade
(...)
In: ÁVILA, Affonso. Código de Minas & Poesia anterior. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p. 93-95. (Poesia hoje, 17. Série poetas brasileiros). Poema integrante da série Código de Minas
da vila rica de ouro preto o ouro
do preito o ouro do pilar o ouro
do pórtico o ouro do púlpito o ouro
do paramento o ouro do pálio o ouro
do panteão o ouro do pacto o ouro
do percalço o ouro do perjúrio o ouro
do patíbulo o ouro do proscrito o ouro
do prêmio o ouro do palimpsesto o ouro
do pedágio o ouro do pecado o ouro
do pulha o ouro do podre o ouro
do polvo o ouro do puro o ouro
do pobre o ouro do povo o ouro
do poeta o ouro do peito o ouro
da rima rica de outro preto o ouro
II
a cidade da hera e de idade
a antiguidade de édito e de idade
a posteridade de efígie e de idade
a eternidade de essência e de idade
a majestade de espírito e de idade
a gravidade de espectro e de idade
a dignidade de ênfase e de idade
a imobilidade de enlevo e de idade
a obliquidade de eflúvio e de idade
a soledade de exílio e de idade
a fatalidade de exaustão e de idade
a castidade de espera e de idade
a carnalidade de efêmero e de idade
a cidade de eros e de idade
(...)
In: ÁVILA, Affonso. Código de Minas & Poesia anterior. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p. 93-95. (Poesia hoje, 17. Série poetas brasileiros). Poema integrante da série Código de Minas
1 586
Sílvio Romero
II - A Mancha Negra
(A ESCRAVIDÃO)
A natureza ainda aqui sorria virgem!
Havia pouco então que, em festival vertigem,
O nosso mar sulcara a frota de Cabral.
Trazido pelo vento em doido temporal,
O velho navegante, escapou às duras vagas.
O Éden do futuro achara em nossas plagas.
Ainda nesse tempo o vasto céu tranquilo
As selvas espelhava enormes, colossais.
Do mar os turbilhões, dos ventos o sibilo,
Da catadupa o som, da linfa os ternos ais
Passavam como o canto inebriante e vivo
Do gênio do Brasil. Ainda em sólio divo
A Mãe d'água morena as tranças penteava,
Aos cheiros da baunilha; a fonte acompanhava.
As queixas da cabocla, amante que chorosa
Do seu guerreiro ausente as mágoas lhe dizia.
A terra os seios nus não tinha pesarosa
Deixado retalhar à clara luz do dia.
E tudo era brilhante. Os troncos seculares,
Beijados pelo vento, agitando os cocares,
Ouviam deslizar, os rios namorados,
Qu'estendiam além os corpos prateados...
O selvagem valente o arco destendia,
E a seta ia certeira ao dorso do tapir;
A liberdade brusca, indômita, erradia,
Criou asas também; sabia então subir!
Soava pelo espaço o alegre ditirambo
Cantado pela flor e as virgens cor de jambo,
Cantado pelo azul e pelas ventanias...
O rio, a vastidão, a mata, os descampados,
Sabiam modular as fortes melodias
Em coros festivais, em hinos alternados.
De tudo irradiava a vida, as turbulências
Do virginal sentir; miríficas essências
Trescalavam do val aos seios das donzelas.
Em sono de leão dormia o Amazonas,
Esperando Orelana; ao sol de nossas zonas,
Guerreiro sem rival, sonhava fortes lutas...
Aos roncos do jaguar, oculto pelas grutas,
Bradava o pororoca em seu pavor profundo.
Pois bem! Neste país, aqui no Novo Mundo,
Aqui, onde o que brota e cresce e luta e aspira,
Alenta o próprio ser do sol na imensa pira;
Aqui, onde o viver é fitar as alturas,
Onde não há baixeza e não se vêem planuras;
A sórdida cobiça, adiantando o braço,
De negro quis trajar a luz de nosso espaço;
A pérfida avareza alevantando a mão,
De luto nos vestiu da cor da... Escravidão!
Poema integrante da série Os Palmares.
In: ROMERO, Sílvio. Últimos harpejos: fragmentos poéticos. Pelotas: Carlos Pinto, 1883
A natureza ainda aqui sorria virgem!
Havia pouco então que, em festival vertigem,
O nosso mar sulcara a frota de Cabral.
Trazido pelo vento em doido temporal,
O velho navegante, escapou às duras vagas.
O Éden do futuro achara em nossas plagas.
Ainda nesse tempo o vasto céu tranquilo
As selvas espelhava enormes, colossais.
Do mar os turbilhões, dos ventos o sibilo,
Da catadupa o som, da linfa os ternos ais
Passavam como o canto inebriante e vivo
Do gênio do Brasil. Ainda em sólio divo
A Mãe d'água morena as tranças penteava,
Aos cheiros da baunilha; a fonte acompanhava.
As queixas da cabocla, amante que chorosa
Do seu guerreiro ausente as mágoas lhe dizia.
A terra os seios nus não tinha pesarosa
Deixado retalhar à clara luz do dia.
E tudo era brilhante. Os troncos seculares,
Beijados pelo vento, agitando os cocares,
Ouviam deslizar, os rios namorados,
Qu'estendiam além os corpos prateados...
O selvagem valente o arco destendia,
E a seta ia certeira ao dorso do tapir;
A liberdade brusca, indômita, erradia,
Criou asas também; sabia então subir!
Soava pelo espaço o alegre ditirambo
Cantado pela flor e as virgens cor de jambo,
Cantado pelo azul e pelas ventanias...
O rio, a vastidão, a mata, os descampados,
Sabiam modular as fortes melodias
Em coros festivais, em hinos alternados.
De tudo irradiava a vida, as turbulências
Do virginal sentir; miríficas essências
Trescalavam do val aos seios das donzelas.
Em sono de leão dormia o Amazonas,
Esperando Orelana; ao sol de nossas zonas,
Guerreiro sem rival, sonhava fortes lutas...
Aos roncos do jaguar, oculto pelas grutas,
Bradava o pororoca em seu pavor profundo.
Pois bem! Neste país, aqui no Novo Mundo,
Aqui, onde o que brota e cresce e luta e aspira,
Alenta o próprio ser do sol na imensa pira;
Aqui, onde o viver é fitar as alturas,
Onde não há baixeza e não se vêem planuras;
A sórdida cobiça, adiantando o braço,
De negro quis trajar a luz de nosso espaço;
A pérfida avareza alevantando a mão,
De luto nos vestiu da cor da... Escravidão!
Poema integrante da série Os Palmares.
In: ROMERO, Sílvio. Últimos harpejos: fragmentos poéticos. Pelotas: Carlos Pinto, 1883
2 232
Edgar Allan Poe
Epigram for Wall Street
I'll tell you a plan for gaining wealth,
Better than banking, trade or leases —
Take a bank note and fold it up,
And then you will find your money in creases!
This wonderful plan, without danger or loss,
Keeps your cash in your hands, where nothing can trouble it;
And every time that you fold it across,
'Tis as plain as the light of the day that you double it!
1845
Better than banking, trade or leases —
Take a bank note and fold it up,
And then you will find your money in creases!
This wonderful plan, without danger or loss,
Keeps your cash in your hands, where nothing can trouble it;
And every time that you fold it across,
'Tis as plain as the light of the day that you double it!
1845
1 187
Álvares de Azevedo
O EDITOR
Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte
A poesia transcrita é de Torquato,
Desse pobre poeta enamorado
Pelos encantos de Leonora esquiva,
Copiei-a do próprio manuscrito;
E, para prova da verdade pura
Deste prólogo meu, basta que eu diga
Que a letra era um garrancho indecifrável,
Mistura de borrões e linhas tortas!
Trouxe-ma do Arquivo lá da lua
E decifrou-ma familiar demônio...
Demais... infelizmente é bem verdade
Que Tasso lastimou-se da penúria
De não ter um ceitil para a candeia.
Provo com isso que do mundo todo
O sol é este Deus indefinível,
Ouro, prata, papel, ou mesmo cobre,
Mais santo do que os Papas - o dinheiro!
Byron no seu Don Juan votou-lhe cantos,
Filinto Elísio e Tolentino o sonham,
Foi o Deus de Bocage e d'Aretino,
- Aretino! essa incrível criatura
Lívida, tenebrosa, impura e bela,
Sublime... e sem pudor, onda de lodo
Em que do gênio profanou-se a pérola,
Vaso d'ouro que um óxido terrível
Envenenou de morte, alma - poeta
Que tudo profanou com as mãos imundas
E latiu como um cão mordendo um século...
..............................
Quem não ama o dinheiro? Não me engano
Se creio que Satã, à noite, veio
Aos ouvidos de Adão adormecido,
Na sua hora primeira, murmurar-lhe
Essa palavra mágica da vida,
Que vibra musical em todo o mundo,
Se houvesse o Deus-Vintém no Paraíso
Eva não se tentava pelas frutas,
Pela rubra maçã não se perdera:
Preferira decerto o louro amante
Que tine tão suave e é tão macio!
Se não faltasse o tempo a meus trabalhos,
Eu mostraria quanto o povo mente
Quando diz que - a poesia enjeita e odeia
As moedinhas doiradas. É mentira!
Desde Homero (que até pedia cobre),
Virgílio, Horácio, Calderón, Racine,
Boileau e o fabuleiro LaFontaine
E tantos que melhor decerto fora
De poetas copiar algum catálogo,
Todos a mil e mil por ele vivem
E alguns chegaram a morrer por ele!
Eu só peço licença de fazer-vos
Uma simples pergunta: - na gaveta
Se Camões visse o brilho do dinheiro...
Malfilâtre, Gilbert, o altivo Chatterton
Se o tivessem nas rotas algibeiras,
Acaso blasfemando morreriam?
Segunda Parte
A poesia transcrita é de Torquato,
Desse pobre poeta enamorado
Pelos encantos de Leonora esquiva,
Copiei-a do próprio manuscrito;
E, para prova da verdade pura
Deste prólogo meu, basta que eu diga
Que a letra era um garrancho indecifrável,
Mistura de borrões e linhas tortas!
Trouxe-ma do Arquivo lá da lua
E decifrou-ma familiar demônio...
Demais... infelizmente é bem verdade
Que Tasso lastimou-se da penúria
De não ter um ceitil para a candeia.
Provo com isso que do mundo todo
O sol é este Deus indefinível,
Ouro, prata, papel, ou mesmo cobre,
Mais santo do que os Papas - o dinheiro!
Byron no seu Don Juan votou-lhe cantos,
Filinto Elísio e Tolentino o sonham,
Foi o Deus de Bocage e d'Aretino,
- Aretino! essa incrível criatura
Lívida, tenebrosa, impura e bela,
Sublime... e sem pudor, onda de lodo
Em que do gênio profanou-se a pérola,
Vaso d'ouro que um óxido terrível
Envenenou de morte, alma - poeta
Que tudo profanou com as mãos imundas
E latiu como um cão mordendo um século...
..............................
Quem não ama o dinheiro? Não me engano
Se creio que Satã, à noite, veio
Aos ouvidos de Adão adormecido,
Na sua hora primeira, murmurar-lhe
Essa palavra mágica da vida,
Que vibra musical em todo o mundo,
Se houvesse o Deus-Vintém no Paraíso
Eva não se tentava pelas frutas,
Pela rubra maçã não se perdera:
Preferira decerto o louro amante
Que tine tão suave e é tão macio!
Se não faltasse o tempo a meus trabalhos,
Eu mostraria quanto o povo mente
Quando diz que - a poesia enjeita e odeia
As moedinhas doiradas. É mentira!
Desde Homero (que até pedia cobre),
Virgílio, Horácio, Calderón, Racine,
Boileau e o fabuleiro LaFontaine
E tantos que melhor decerto fora
De poetas copiar algum catálogo,
Todos a mil e mil por ele vivem
E alguns chegaram a morrer por ele!
Eu só peço licença de fazer-vos
Uma simples pergunta: - na gaveta
Se Camões visse o brilho do dinheiro...
Malfilâtre, Gilbert, o altivo Chatterton
Se o tivessem nas rotas algibeiras,
Acaso blasfemando morreriam?
1 914
Felipe Vianna
IDEOLOGIA
Arma vil,
És tu,
Droga sutil;
Dopadora de homens
É a ideologia
Que te faz concordar
Com o contento descontente.
Ganhas pouco,
Isto te aborrece?
Mas és feliz,
No que parece;
Pois a ideologia
Te empurra a felicidade a seco
Em comprimidos de tarja preta
Duma caixa que diz:
“Tens emprego,
Milhares não têm;
Agradeça a Deus. ”
Droga de ideologia,
Droga que dopa o homem.
Como pode
A sociedade alimentar-se
De seus próprios resíduos,
Sem nem mesmo reciclá-los.
Ideologia,
Alimento podre,
Que mantém os ricos ricos
E os pobres pobres.
30/05/2001
És tu,
Droga sutil;
Dopadora de homens
É a ideologia
Que te faz concordar
Com o contento descontente.
Ganhas pouco,
Isto te aborrece?
Mas és feliz,
No que parece;
Pois a ideologia
Te empurra a felicidade a seco
Em comprimidos de tarja preta
Duma caixa que diz:
“Tens emprego,
Milhares não têm;
Agradeça a Deus. ”
Droga de ideologia,
Droga que dopa o homem.
Como pode
A sociedade alimentar-se
De seus próprios resíduos,
Sem nem mesmo reciclá-los.
Ideologia,
Alimento podre,
Que mantém os ricos ricos
E os pobres pobres.
30/05/2001
752
Felipe Vianna
FOME
Aspiramos ao bem do povo
Mas, ao povo nada fazemos.
Com encarecimento peço de novo
Para que tentemos.
O que você ganha?
Não posso explicar;
É uma sensação incrível
Ver a felicidade de chorar.
A ventura de comer,
Matar a fome,
Matar a sede,
São direitos do homem.
Será maravilhoso,
Um mundo igual,
Esta utopia,
Uma anarquia total.
Os donos do mundo,
Conto-os nos dedos.
E por que são?
Espero uma explicação.
07/03/1996
Mas, ao povo nada fazemos.
Com encarecimento peço de novo
Para que tentemos.
O que você ganha?
Não posso explicar;
É uma sensação incrível
Ver a felicidade de chorar.
A ventura de comer,
Matar a fome,
Matar a sede,
São direitos do homem.
Será maravilhoso,
Um mundo igual,
Esta utopia,
Uma anarquia total.
Os donos do mundo,
Conto-os nos dedos.
E por que são?
Espero uma explicação.
07/03/1996
619
Maria Suely de Oliveira
São Paulo
São Paulo
Vista do chão
É a civilização
É chiclete
Espaguete
Gilete
Papelão
Página internética
Perdida no espaço
Máquina moderna
Fábrica de miséria
Memória de bagaço
De sangue, suor,
Poeira, aço
E pedaço de pão
É a civilização
Megalópole de vida mutante
Espremida no esperma
Do lixo de luxo
Do espigão
É a civilização
Mercadora de entulho
Mendiga de sonho
Caco de ilusão
É a civilização
De São Paulo
Vista do chão
Vista do chão
É a civilização
É chiclete
Espaguete
Gilete
Papelão
Página internética
Perdida no espaço
Máquina moderna
Fábrica de miséria
Memória de bagaço
De sangue, suor,
Poeira, aço
E pedaço de pão
É a civilização
Megalópole de vida mutante
Espremida no esperma
Do lixo de luxo
Do espigão
É a civilização
Mercadora de entulho
Mendiga de sonho
Caco de ilusão
É a civilização
De São Paulo
Vista do chão
874
Eduardo Valente da Fonseca
Onde nem tudo o que luz é oiro
Somos talvez até um país rico,
e tivemos Camões, e tivemos pessoa e o infante,
mas a beleza está nos escombros,
e atola-se na areia e morre sem nos ver.
porque se eu abro a minha mão à noite
e nela só vejo as linhas do destino,
de que me vale a história do meu povo?
Sim, é possível que a profética rosa do oriente
ainda venha pelo rio da primavera
ancorar na solidão imensa deste cais.
e tivemos Camões, e tivemos pessoa e o infante,
mas a beleza está nos escombros,
e atola-se na areia e morre sem nos ver.
porque se eu abro a minha mão à noite
e nela só vejo as linhas do destino,
de que me vale a história do meu povo?
Sim, é possível que a profética rosa do oriente
ainda venha pelo rio da primavera
ancorar na solidão imensa deste cais.
1 019
Fernando Tavares Rodrigues
Confissão
Entre números
e cifrões transfigurado
Como se também fosse o que fingia.
E o amor por amar que me doía
Neste corpo de amor desocupado.
Assim vestia, dia a dia, o meu ofício
Dessa cor que não serve os namorados:
A gravata, o colarinho de silício
E os gestos tão iguais, tão estudados
Para ganhar um pão que nunca quis
Virei os meus sonhos do avesso
Em vez de continuar a ser feliz.
E hoje só sei que o não mereço,
Que a imagem que criei já não condiz
Com aquele que, mesmo assim, ainda pareço.
e cifrões transfigurado
Como se também fosse o que fingia.
E o amor por amar que me doía
Neste corpo de amor desocupado.
Assim vestia, dia a dia, o meu ofício
Dessa cor que não serve os namorados:
A gravata, o colarinho de silício
E os gestos tão iguais, tão estudados
Para ganhar um pão que nunca quis
Virei os meus sonhos do avesso
Em vez de continuar a ser feliz.
E hoje só sei que o não mereço,
Que a imagem que criei já não condiz
Com aquele que, mesmo assim, ainda pareço.
1 105
Nauro Machado
Duplo Ruim
Toda existência
é voraz.
Todo ser deveria ser só.
Não unir-se nunca, jamais,
não enroscar-se a nenhum pó.
Ter por casa o mundo todo.
Ter por lar o que é do chão.
Carne, ó dinheiro de um soldo
ganho só com maldição!
Vilipendiar-se? Por quê?
Unir-se a outro? Mas com qual?
Ser um só, para mais ser,
fruto embora de um casal.
Toda existência é nenhuma,
Se feita para outra , em dois.
Role o mar, eterna espuma,
Presente ontem e depois.
é voraz.
Todo ser deveria ser só.
Não unir-se nunca, jamais,
não enroscar-se a nenhum pó.
Ter por casa o mundo todo.
Ter por lar o que é do chão.
Carne, ó dinheiro de um soldo
ganho só com maldição!
Vilipendiar-se? Por quê?
Unir-se a outro? Mas com qual?
Ser um só, para mais ser,
fruto embora de um casal.
Toda existência é nenhuma,
Se feita para outra , em dois.
Role o mar, eterna espuma,
Presente ontem e depois.
1 780
Jorge Viegas
Pretérito Social
Mentes
civilizadas de ideais diluídos
Na muralha do vil metal dourado
Criaram o banquete perfumado
Para alimentar os sentidos fluidos.
Apareceu sonhadora
Na tela pintada de azul
Onde o vento do sul
Abriu a linha reveladora.
Pinceladas de contrastes verticais
Brilham na melodia da madrugada
E no esplendor da grinalda aprumada
Reluzem lembranças superficiais.
Embriagantes desejos estilizados
De seios transparentes
Descem como sentidos mecanizados
Por entre sombras aparentes.
Simples força inventada
Alimenta o sonho da tendência
Que vê na transparência
A nudez da criação futurista.
civilizadas de ideais diluídos
Na muralha do vil metal dourado
Criaram o banquete perfumado
Para alimentar os sentidos fluidos.
Apareceu sonhadora
Na tela pintada de azul
Onde o vento do sul
Abriu a linha reveladora.
Pinceladas de contrastes verticais
Brilham na melodia da madrugada
E no esplendor da grinalda aprumada
Reluzem lembranças superficiais.
Embriagantes desejos estilizados
De seios transparentes
Descem como sentidos mecanizados
Por entre sombras aparentes.
Simples força inventada
Alimenta o sonho da tendência
Que vê na transparência
A nudez da criação futurista.
992
Marcelo Ribeiro
Do Corpo à Cálida Desgraça
Nudos peitos desnudos
Coxas alvas e ao mundo
Num harém de pecados desmedidos
E profundos
No toque de recorrer de outrora ou
Na galhofa do clicar de um fotógrafo
De leda estirpe e olho fundo
Inocência vendida por vintém
E a pureza que hoje
Sabe-se lá quem ainda a têm
Registradas em retangulares quadros de uma vida
Periódica
Nos desejos de criança sujo à óleo ou graxa
Ou entorpecidos de dinheiro sujo
Que nos proporciona um corpo límpido
De aspirações mortas
Da germinal dobra rósea exposta
Servida em qualquer esquina como uma suja hóstia
Disposta a engordar a confissão
De qualquer trágico beato
E ao padre o sermão
Sermão e raiva reprimida de também
Ele, pároco cético de seu credo
Não ter aproveitado
Em Eva o pecado original
Ou de tê-lo feito
Escondido em regalias seminais
Nos seminários
Nada angelicais
De nossas desgraças
Coxas alvas e ao mundo
Num harém de pecados desmedidos
E profundos
No toque de recorrer de outrora ou
Na galhofa do clicar de um fotógrafo
De leda estirpe e olho fundo
Inocência vendida por vintém
E a pureza que hoje
Sabe-se lá quem ainda a têm
Registradas em retangulares quadros de uma vida
Periódica
Nos desejos de criança sujo à óleo ou graxa
Ou entorpecidos de dinheiro sujo
Que nos proporciona um corpo límpido
De aspirações mortas
Da germinal dobra rósea exposta
Servida em qualquer esquina como uma suja hóstia
Disposta a engordar a confissão
De qualquer trágico beato
E ao padre o sermão
Sermão e raiva reprimida de também
Ele, pároco cético de seu credo
Não ter aproveitado
Em Eva o pecado original
Ou de tê-lo feito
Escondido em regalias seminais
Nos seminários
Nada angelicais
De nossas desgraças
1 002
Lili Gharcia
Boulevard
Compro do mundo uma parte de mim.
A alma é tão comerciável....
Vendo aos homens a vida que me deram.
Multiplicai-me, Senhor!
O social é uma relação de compra e venda
Então vendo meu Milton,
Vendo Chopin,
Meu Bach,
Minha Alegria,
E depois me afogo de culpa por comer no almoço
um pedaço de espírito.
A alma é tão comerciável....
Vendo aos homens a vida que me deram.
Multiplicai-me, Senhor!
O social é uma relação de compra e venda
Então vendo meu Milton,
Vendo Chopin,
Meu Bach,
Minha Alegria,
E depois me afogo de culpa por comer no almoço
um pedaço de espírito.
1 548
Madi
Novo Amor
Novo Amor
O meu novo amor é um desastre econômico
Não tem onde cair morto
Mas tem, agora, o que mais importa:
alguns anos a menos, pernas
e uns olhos de sonhador
que quando caem nos meus me tiram do sério
Preciso dizer o resto?
O meu novo amor é um desastre econômico
Não tem onde cair morto
Mas tem, agora, o que mais importa:
alguns anos a menos, pernas
e uns olhos de sonhador
que quando caem nos meus me tiram do sério
Preciso dizer o resto?
885
João Quental
Aurora
"vôo sem pássaro dentro"
(Adolfo Casais Monteiro)
Não há dinheiro, vai-te embora, porque o telefone
não toca, alta madrugada? sei acordaria a famí1ia
que cavou um buraco na noite e não pode ser
incomodada mesmo que às vezes a fumaça histérica do
cigarro torne o nosso sono rancoroso dúbio estivemos
a conversar não adiantou nada novidades?
Não há dinheiro pois não venha quando quiser
amo-te com decepção nem tive o que olhei
em teus olhos resgatados, vírgulas para os amores,
assim não virão roer todos ao mesmo tempo
e o que peço é alguma coisa o que é eu não sei.
Não há dinheiro se o antes foi velho e o
depois pacífica compreensão difícil conhecer-te
os desejos de cegueira em cegueira permaneço
inocente esta raiva contra quem perguntaria
estamos aqui mas a vigília cansa dirige?
Vai, adormece logo, quantas vezes será
preciso dizer-te não sairei mais estou feliz
vigiarei ainda a porta a tranca não foi esquecida
desaconselho, qualquer, rancores, dorme, anos
gastei esperando, reuniu meus papéis velhos.
Vai, onde puseste as mãos nasceu logo
um segredo indócil quantas tardes lerás
essas bobagens boa literatura aqui no
canto da estante deves tentar o mundo
se vinga a gratidão teu prazer não é o meu.
Vai, ver-se doido é um despropósito e
não chegaremos a nos divertir sempre alguém
aparece sem dúvida cansaço homenagens constantes
ao mesmo deus assíduo irei só mas espero
concluir algo nem que seja fim nem que durma.
Não há noite que não acabe em
um final nada impede os finais a
escuridão é prévia mas não interessa
povoamos, cálculo puro, de civilizadas estrelas
os olhos desse pássaro morto em viagem.
(1989)
(Adolfo Casais Monteiro)
Não há dinheiro, vai-te embora, porque o telefone
não toca, alta madrugada? sei acordaria a famí1ia
que cavou um buraco na noite e não pode ser
incomodada mesmo que às vezes a fumaça histérica do
cigarro torne o nosso sono rancoroso dúbio estivemos
a conversar não adiantou nada novidades?
Não há dinheiro pois não venha quando quiser
amo-te com decepção nem tive o que olhei
em teus olhos resgatados, vírgulas para os amores,
assim não virão roer todos ao mesmo tempo
e o que peço é alguma coisa o que é eu não sei.
Não há dinheiro se o antes foi velho e o
depois pacífica compreensão difícil conhecer-te
os desejos de cegueira em cegueira permaneço
inocente esta raiva contra quem perguntaria
estamos aqui mas a vigília cansa dirige?
Vai, adormece logo, quantas vezes será
preciso dizer-te não sairei mais estou feliz
vigiarei ainda a porta a tranca não foi esquecida
desaconselho, qualquer, rancores, dorme, anos
gastei esperando, reuniu meus papéis velhos.
Vai, onde puseste as mãos nasceu logo
um segredo indócil quantas tardes lerás
essas bobagens boa literatura aqui no
canto da estante deves tentar o mundo
se vinga a gratidão teu prazer não é o meu.
Vai, ver-se doido é um despropósito e
não chegaremos a nos divertir sempre alguém
aparece sem dúvida cansaço homenagens constantes
ao mesmo deus assíduo irei só mas espero
concluir algo nem que seja fim nem que durma.
Não há noite que não acabe em
um final nada impede os finais a
escuridão é prévia mas não interessa
povoamos, cálculo puro, de civilizadas estrelas
os olhos desse pássaro morto em viagem.
(1989)
788
Hardi Filho
Esdrúxulo
A prata, o caviar, a mesa elástica,
riem do pobre
e lhe pesam no vazio estômago.
O lustre, o veludo, o mármore,
esbofeteiam
a face do menino pálido.
Dói no seu corpo o sacrifício
da ingênua espera:
aberta mão ao desviado prêmio
De tanto conviver com áscaris
morre o menino
de alma e coração imáculos.
Uma paixão antiga, hoje única,
domina o mundo.
É torturante a dor sem número.
riem do pobre
e lhe pesam no vazio estômago.
O lustre, o veludo, o mármore,
esbofeteiam
a face do menino pálido.
Dói no seu corpo o sacrifício
da ingênua espera:
aberta mão ao desviado prêmio
De tanto conviver com áscaris
morre o menino
de alma e coração imáculos.
Uma paixão antiga, hoje única,
domina o mundo.
É torturante a dor sem número.
1 333
Leal de Souza
Noturno
As luzes de ouro da cidade
Vaporam fúlgida neblina...
Esquivo ideal — felicidade,
Qual dessas luzes te ilumina ?
Fria a vontade e o peito ardente,
De bens e males sob os rastros,
O homem aos sonhos ergue a mente
E não levanta o olhar aos astros.
Por essas luzes atraídos,
Filhos do vale e da planura,
De longe vieram, atrevidos,
Bater às portas da ventura ...
As luzes de ouro da cidade
Vaporam fúlgida neblina...
Esquivo ideal — felicidade,
Qual dessas luzes te ilumina?...
Vaporam fúlgida neblina...
Esquivo ideal — felicidade,
Qual dessas luzes te ilumina ?
Fria a vontade e o peito ardente,
De bens e males sob os rastros,
O homem aos sonhos ergue a mente
E não levanta o olhar aos astros.
Por essas luzes atraídos,
Filhos do vale e da planura,
De longe vieram, atrevidos,
Bater às portas da ventura ...
As luzes de ouro da cidade
Vaporam fúlgida neblina...
Esquivo ideal — felicidade,
Qual dessas luzes te ilumina?...
949
Jonas da Silva
Barro Amarelo
Do cemitério o chão, aqui, a cova,
Parece de oiro: é lindo este amarelo.
Aqui vieram fazer o seu castelo
Os que passaram pela Grande Prova.
Os que têm fome de oiro, os que uma trova
À auricídia cantaram com desvelo,
Aqui o têm sob a folha do cutelo
Da Morte, curvo como a Lua Nova.
As raízes das árvores tenazes
Não penetram no solo socalcado;
No entanto viçam rosas e lilases.
— Vais em visita a alguém que tua alma chora?
Liga-te a argila os pés ao chão... Cuidado!
Este barro amarelo te devora! ...
Parece de oiro: é lindo este amarelo.
Aqui vieram fazer o seu castelo
Os que passaram pela Grande Prova.
Os que têm fome de oiro, os que uma trova
À auricídia cantaram com desvelo,
Aqui o têm sob a folha do cutelo
Da Morte, curvo como a Lua Nova.
As raízes das árvores tenazes
Não penetram no solo socalcado;
No entanto viçam rosas e lilases.
— Vais em visita a alguém que tua alma chora?
Liga-te a argila os pés ao chão... Cuidado!
Este barro amarelo te devora! ...
1 312
Edigar de Alencar
Balada do Cearense
— Mamãe, eu vou pro Amazonas,
não quero ficar aqui,
já estou cansado de tudo,
não suporto essa leseira.
— Meu filho, não diz besteira!
— Mamãe, eu quero embarcar,
vou pro Acre, vou pro diabo,
aqui eu não fico mais,
não posso viver assim,
sem dinheiro, maltrapilho,
isso aqui parece o inferno,
quero ir pro paraíso.
— Meu filho, toma juízo!
— Mamãe, tenha paciência,
vou-me embora pro Amazonas,
que me importa com sezões,
com maleita, com febrões,
aqui eu morro de fome,
não posso mais vender bicho
que a policia prende a gente.
Mamãe, não me dê conselho
que fala pra banda mouca.
— Meu filho, cala essa boca!
— Mamãe, é hoje o meu dia,
preparei minha tipóia,
vou ganhar muito dinheiro,
vou comprar um seringal,
um dia eu volto, mamãe,
e trago a felicidade!
— Nossa Senhora te ajude,
São José seja teu pai!
Vai com Deus, meu filho, vai...
não quero ficar aqui,
já estou cansado de tudo,
não suporto essa leseira.
— Meu filho, não diz besteira!
— Mamãe, eu quero embarcar,
vou pro Acre, vou pro diabo,
aqui eu não fico mais,
não posso viver assim,
sem dinheiro, maltrapilho,
isso aqui parece o inferno,
quero ir pro paraíso.
— Meu filho, toma juízo!
— Mamãe, tenha paciência,
vou-me embora pro Amazonas,
que me importa com sezões,
com maleita, com febrões,
aqui eu morro de fome,
não posso mais vender bicho
que a policia prende a gente.
Mamãe, não me dê conselho
que fala pra banda mouca.
— Meu filho, cala essa boca!
— Mamãe, é hoje o meu dia,
preparei minha tipóia,
vou ganhar muito dinheiro,
vou comprar um seringal,
um dia eu volto, mamãe,
e trago a felicidade!
— Nossa Senhora te ajude,
São José seja teu pai!
Vai com Deus, meu filho, vai...
945
Durvalino Filho
O Rei Estava Ensimesmado
O rei estava ensimesmado,
De sua boca nada se ouvia
— nenhuma ordem para hoje,
nenhum enforcamento.
Não foi cobrado o dízimo da noite.
Um escândalo arrebentou na economia
e não foi liberado o pensamento
porque o rei havia-se calado
e o país inteiro adormecia.
O enclausurado urrou por entre as grades.
Mil acidentes com os bóias-frias.
O bispo ficou celerado, possesso
e o diabo rezou a ordem do dia.
Na iniciativa privada
forjaram-se falências desastrosas
com a mudez do rei que só ouvia.
Mataram cães de estimação
em mansões de beira-rio.
Comunidades se desintegraram,
crianças tornaram-se desafio
e a nudez das mulheres
virou prato do dia,
Adeus, véus de Alexandria!
Não houve festas nas periferias
e as mentiras aumentaram em abril.
Até que o rei declarou
num assomo de agonia:
"Nada mudou no Brasil."
De sua boca nada se ouvia
— nenhuma ordem para hoje,
nenhum enforcamento.
Não foi cobrado o dízimo da noite.
Um escândalo arrebentou na economia
e não foi liberado o pensamento
porque o rei havia-se calado
e o país inteiro adormecia.
O enclausurado urrou por entre as grades.
Mil acidentes com os bóias-frias.
O bispo ficou celerado, possesso
e o diabo rezou a ordem do dia.
Na iniciativa privada
forjaram-se falências desastrosas
com a mudez do rei que só ouvia.
Mataram cães de estimação
em mansões de beira-rio.
Comunidades se desintegraram,
crianças tornaram-se desafio
e a nudez das mulheres
virou prato do dia,
Adeus, véus de Alexandria!
Não houve festas nas periferias
e as mentiras aumentaram em abril.
Até que o rei declarou
num assomo de agonia:
"Nada mudou no Brasil."
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