Temas
Poemas neste tema

Dinheiro e Riqueza

Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

As Gentes das Lavras

Quantas lavras! As de "S. João", as de "Cocaes", as da "Chapada", as de "Jacey", as da "Conceição", as do "Sutil"... Tudo a jorrar ouro! Ouro, às arrobas, do melhor, mais puro, diziam, que o das Gerais. Esse ouro, como um clarim, conclamava sem cessar as gentes. Forasteiros e naturais, nortistas e sulistas, vinha tudo, por esses sertões afora — e sabe Deus como! — atrás do ouro de Cuiabá. Não havia barreiras que os fizessem estacar. Não havia perigos que os fizessem refletir. Nada! Nem os matos, nem os rios, nem as feras, nem a indiada, nem a fome, nem as misérias infinitas, horrorizantes da jornada.

Cuiabá tornou-se o açude onde se aglutinava a escumalha lodosa do Brasil. Era o desaguadouro de todos os aventureiros. E que aventureiros! Bandidos, fugidos às justiças, jogadores, matadores sanguinários, ladrões, salteadores. Ralé vil, ralé imunda, ralé repugnante.

E que vida, no Cuiabá, heterogênea e bruta! Nas tascas, onde havia sempre "mulheres bastardas e jogos de parar", desencadeavam-se tragédias selvagens, violentíssimas, em que fuzilavam facões e toledanas. Assassínio era coisa de todo o dia. Roubos também. Toda a gente roubava! Os negros, com perícias pasmosas, surripiavam ouro das bateias e iam, nos dias de folga, emborrachar-se com ele nas tavernas. Os índios, que sempre foram racialmente falsos, escondiam na boca os granetes que podiam e, à noite, muito às ocultas; entregavam-no aos ourives a troco de pedaços de fumo. Mulatas quitandeiras, com os tabuleiros à cabeça, viviam nas catas a vender broinhas aos escravos. Os escravos pagavam-nas com folhetas roubadas aos amos. Até os padres, contaminados pela fúria das riquezas, contrabandeavam. Rodrigo César, para cortar tudo aquilo, todas aquelas mortes, todos aqueles roubos, todo aquele contrabando, lançava, ininterruptamente, bandos sobre bandos. Ninguém mais, ordenava o Governador, "havendo de fazer jornada a Cuyabá, não a faça sem licença minha e sem tirar o paçaporte na secretaria do Governo". E mandava fechar as baiúcas de jogo. E proibia, sob penas carrancudas, que partissem forasteiros para as minas. E negros sem dono. E índios avulsos. E mulheres de vida fácil. E padres castelhanos. Estes, sob pretexto algum, mesmo sob pretexto de missão, não tinham sequer permissão de atravessar as minas. Mas os bandos, por mais rigorosos, eram vãos. O ouro de Cuiabá enlouquecia. Que importavam aquelas proibições? Toda a gente, para atingir o metal satânico, as fraudava. E não havia meio de impedir a fraude. Por isso, cada ano, as monções partiam repletas. E cada ano, nos povoados, contavam-se as misérias e os padecimentos dessas monções.


Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).

SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 61-63. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
1 375
Sílvio Romero

Sílvio Romero

II - A Mancha Negra

(A ESCRAVIDÃO)

A natureza ainda aqui sorria virgem!
Havia pouco então que, em festival vertigem,
O nosso mar sulcara a frota de Cabral.
Trazido pelo vento em doido temporal,
O velho navegante, escapou às duras vagas.
O Éden do futuro achara em nossas plagas.

Ainda nesse tempo o vasto céu tranquilo
As selvas espelhava enormes, colossais.
Do mar os turbilhões, dos ventos o sibilo,
Da catadupa o som, da linfa os ternos ais
Passavam como o canto inebriante e vivo
Do gênio do Brasil. Ainda em sólio divo
A Mãe d'água morena as tranças penteava,
Aos cheiros da baunilha; a fonte acompanhava.

As queixas da cabocla, amante que chorosa
Do seu guerreiro ausente as mágoas lhe dizia.
A terra os seios nus não tinha pesarosa
Deixado retalhar à clara luz do dia.

E tudo era brilhante. Os troncos seculares,
Beijados pelo vento, agitando os cocares,
Ouviam deslizar, os rios namorados,
Qu'estendiam além os corpos prateados...
O selvagem valente o arco destendia,
E a seta ia certeira ao dorso do tapir;
A liberdade brusca, indômita, erradia,
Criou asas também; sabia então subir!

Soava pelo espaço o alegre ditirambo
Cantado pela flor e as virgens cor de jambo,
Cantado pelo azul e pelas ventanias...
O rio, a vastidão, a mata, os descampados,
Sabiam modular as fortes melodias
Em coros festivais, em hinos alternados.
De tudo irradiava a vida, as turbulências
Do virginal sentir; miríficas essências
Trescalavam do val aos seios das donzelas.
Em sono de leão dormia o Amazonas,
Esperando Orelana; ao sol de nossas zonas,
Guerreiro sem rival, sonhava fortes lutas...
Aos roncos do jaguar, oculto pelas grutas,
Bradava o pororoca em seu pavor profundo.

Pois bem! Neste país, aqui no Novo Mundo,
Aqui, onde o que brota e cresce e luta e aspira,
Alenta o próprio ser do sol na imensa pira;
Aqui, onde o viver é fitar as alturas,
Onde não há baixeza e não se vêem planuras;
A sórdida cobiça, adiantando o braço,
De negro quis trajar a luz de nosso espaço;
A pérfida avareza alevantando a mão,
De luto nos vestiu da cor da... Escravidão!


Poema integrante da série Os Palmares.

In: ROMERO, Sílvio. Últimos harpejos: fragmentos poéticos. Pelotas: Carlos Pinto, 1883
2 232
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

O EDITOR

Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte

A poesia transcrita é de Torquato,
Desse pobre poeta enamorado
Pelos encantos de Leonora esquiva,
Copiei-a do próprio manuscrito;
E, para prova da verdade pura
Deste prólogo meu, basta que eu diga
Que a letra era um garrancho indecifrável,
Mistura de borrões e linhas tortas!
Trouxe-ma do Arquivo lá da lua
E decifrou-ma familiar demônio...
Demais... infelizmente é bem verdade
Que Tasso lastimou-se da penúria
De não ter um ceitil para a candeia.

Provo com isso que do mundo todo
O sol é este Deus indefinível,
Ouro, prata, papel, ou mesmo cobre,
Mais santo do que os Papas - o dinheiro!

Byron no seu Don Juan votou-lhe cantos,
Filinto Elísio e Tolentino o sonham,
Foi o Deus de Bocage e d'Aretino,
- Aretino! essa incrível criatura
Lívida, tenebrosa, impura e bela,
Sublime... e sem pudor, onda de lodo
Em que do gênio profanou-se a pérola,
Vaso d'ouro que um óxido terrível
Envenenou de morte, alma - poeta
Que tudo profanou com as mãos imundas
E latiu como um cão mordendo um século...

..............................

Quem não ama o dinheiro? Não me engano
Se creio que Satã, à noite, veio
Aos ouvidos de Adão adormecido,
Na sua hora primeira, murmurar-lhe
Essa palavra mágica da vida,
Que vibra musical em todo o mundo,

Se houvesse o Deus-Vintém no Paraíso
Eva não se tentava pelas frutas,
Pela rubra maçã não se perdera:
Preferira decerto o louro amante
Que tine tão suave e é tão macio!

Se não faltasse o tempo a meus trabalhos,
Eu mostraria quanto o povo mente
Quando diz que - a poesia enjeita e odeia
As moedinhas doiradas. É mentira!

Desde Homero (que até pedia cobre),
Virgílio, Horácio, Calderón, Racine,
Boileau e o fabuleiro LaFontaine
E tantos que melhor decerto fora
De poetas copiar algum catálogo,
Todos a mil e mil por ele vivem
E alguns chegaram a morrer por ele!
Eu só peço licença de fazer-vos
Uma simples pergunta: - na gaveta
Se Camões visse o brilho do dinheiro...
Malfilâtre, Gilbert, o altivo Chatterton
Se o tivessem nas rotas algibeiras,
Acaso blasfemando morreriam?

1 914
João Quental

João Quental

Aurora

"vôo sem pássaro dentro"
(Adolfo Casais Monteiro)

Não há dinheiro, vai-te embora, porque o telefone
não toca, alta madrugada? sei acordaria a famí1ia
que cavou um buraco na noite e não pode ser
incomodada mesmo que às vezes a fumaça histérica do
cigarro torne o nosso sono rancoroso dúbio estivemos
a conversar não adiantou nada novidades?

Não há dinheiro pois não venha quando quiser
amo-te com decepção nem tive o que olhei
em teus olhos resgatados, vírgulas para os amores,
assim não virão roer todos ao mesmo tempo
e o que peço é alguma coisa o que é eu não sei.

Não há dinheiro se o antes foi velho e o
depois pacífica compreensão difícil conhecer-te
os desejos de cegueira em cegueira permaneço
inocente esta raiva contra quem perguntaria
estamos aqui mas a vigília cansa dirige?

Vai, adormece logo, quantas vezes será
preciso dizer-te não sairei mais estou feliz
vigiarei ainda a porta a tranca não foi esquecida
desaconselho, qualquer, rancores, dorme, anos
gastei esperando, reuniu meus papéis velhos.

Vai, onde puseste as mãos nasceu logo
um segredo indócil quantas tardes lerás
essas bobagens boa literatura aqui no
canto da estante deves tentar o mundo
se vinga a gratidão teu prazer não é o meu.

Vai, ver-se doido é um despropósito e
não chegaremos a nos divertir sempre alguém
aparece sem dúvida cansaço homenagens constantes
ao mesmo deus assíduo irei só mas espero
concluir algo nem que seja fim nem que durma.

Não há noite que não acabe em
um final nada impede os finais a
escuridão é prévia mas não interessa
povoamos, cálculo puro, de civilizadas estrelas
os olhos desse pássaro morto em viagem.

(1989)

788