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Poemas neste tema

Dinheiro e Riqueza

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Os Bens E o Sangue

I
Às duas horas da tarde deste nove de agosto de 1847
nesta fazenda do Tanque e em dez outras casas de rei, q não de valete,
em Itabira Ferros Guanhães Cocais Joanesia Capão
diante do estrume em q se movem nossos escravos, e da viração
perfumada dos cafezais q trança na palma dos coqueiros
fiéis servidores de nossa paisagem e de nossos fins primeiros,
deliberamos vender, como de fato vendemos, cedendo posse jus e domínio
e abrangendo desde os engenhos de secar areia até o ouro mais fino,
nossas lavras mto nossas por herança de nossos pais e sogros bem amados
q dormem na paz de Deus entre santas e santos martirizados.
Por isso neste papel azul Bath escrevemos com a nossa melhor letra
estes nomes c] em qualquer tempo desafiarão tramóia trapaça e treta:
ESMERIL PISSARRÃO
CANDONGA CONCEIÇÃO

E tudo damos por vendido ao compadre e nosso amigo
[o snr Raimundo Procópio
e a d. Maria Narcisa sua mulher, e o q não fôr vendido, por alborque
de nossa mão passará, e trocaremos lavras por matas,
lavras por títulos, lavras por mulas, lavras por mulatas e arriatas,
que trocar é nosso fraco e lucrar é nosso forte. Mas fique esclarecido:
somos levados menos por gosto do sempre negócio q no sentido
de nossa remota descendência ainda mal debuxada no longe dos serros.
De nossa mente lavamos o ouro como de nossa alma um dia os erros
se lavarão na pia da penitência. E filhos netos bisnetos
tataranetos despojados dos bens mais sólidos e
[rutilantes portanto os mais completos
irão tomando a pouco e pouco desapego de toda fortuna
e concentrando seu fervor numa riqueza só, abstrata e una.
LAVRA DA PACIÊNCIA
LAVRINHA DE CUBAS
ITABIRUÇU
II

Mais que todos deserdamos
deste nosso oblíquo modo
um menino inda não nado

(e melhor não fora nado)
que de nada lhe daremos
sua parte de nonada
e que nada, porém nada
o há de ter desenganado.
E nossa rica fazenda
já presto se desfazendo
vai-se em sal cristalizando
na porta de sua casa
ou até na ponta da asa
de seu nariz fino e frágil,
de sua alma fina e frágil,
de sua certeza frágil
frágil frágil frágil frágil
mas que por frágil é ágil,
e na sua mala-sorte
se rirá êle da morte.
III

Este figura em nosso
pensamento secreto.
Num magoado alvoroço
o queremos marcado
a nos negar; depois
de sua negação
nos buscará. Em tudo
será pelo contrário
seu fado extra-ordinário.
Vergonha da família
que de nobre se humilha
na sua malincônica
tristura meio cômica,
dulciamara nux-vomica.
IV

Este hemos por bem
reduzir à simples
condição ninguém.
Não lavrará campo.
Tirará sustento
de algum mel nojento.
Há de ser violento
sem ter movimento.
Sofrerá tormenta
no melhor momento.
Não se sujeitando
a um poder celeste
ei-lo senão quando
de nudez se veste,
roga à escuridão
abrir-se em clarão.
Este será tonto
e amará no vinho
um novo equilíbrio
e seu passo tíbio
sairá na cola
de nenhum caminho.
V

— Não judie com o menino
compadre.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Passo, na noite da rua suburbana,

Passo, na noite da rua suburbana,
Regresso da conferência com peritos como eu.
Regresso só, e poeta agora, sem perícia nem engenharia,
Humano até ao som dos meus sapatos solitários no princípio da noite
Onde ao longe a porta da tenda tardia se encobre com o último taipal.
Ah, o som do jantar nas casas felizes!
Passo, e os meus ouvidos vêem para dentro das casas.
O meu exílio natural enternece-se no escuro
Da aia meu lar, da rua meu ser, da rua meu sangue.
Ser a criança economicamente garantida,
Com a cama fofa e o sono da infância e a criada!
O meu coração sem privilégio!
Minha sensibilidade da exclusão!
Minha mágoa extrema de ser eu!

Quem fez lenha de todo o berço da minha infância?
Quem fez trapos de limpar o chão dos meus lençóis de menino?
Quem expôs por cima das cascas e do cotão das casas
Nos caixotes de lixo do mundo
As rendas daquela camisa que usei para me baptizarem?
Quem me vendeu ao Destino?
Quem me trocou por mim?
Venho de falar precisamente em circunstâncias positivas.
Pus pontos concretos, como um numerador automático.
Tive razão como uma balança.
Disse como sabia.

Agora, a caminho do carro eléctrico do término de onde se volta à cidade,
Passo, bandido, metafísico, sob a luz dos candeeiros afastados
E na sombra entre os dois candeeiros afastados tenho vontade de não seguir.
Mas apanharei o eléctrico.
Soará duas vezes a campainha lá do fim invisível da correia puxada
Pelas mãos de dedos grossos do condutor por barbear.
Apanharei o eléctrico.
Ai de mim; apesar de tudo sempre apanhei o eléctrico —
Sempre, sempre, sempre...
Voltei sempre à cidade,
Voltei sempre à cidade, depois de especulações e desvios,
Voltei sempre com vontade de jantar.
Mas nunca jantei o jantar que soa atrás de persianas
Das casas felizes dos arredores por onde se volta ao eléctrico,
Das casas conjugais da normalidade da vida!
Pago o bilhete através dos interstícios,
E o condutor passa por mim como se eu fosse a Crítica da Razão Pura...
Paguei o bilhete. Cumpri o dever. Sou vulgar.
E tudo isto são coisas que nem o suicídio cura.
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Inácio José de Alvarenga Peixoto

Inácio José de Alvarenga Peixoto

Sonho Poético

Oh, que sonho, oh, que sonho eu tive nesta
feliz, ditosa, sossegada sesta!
Eu vi o Pão d'Açúcar levantar-se,
e no meio das ondas transformar-se
na figura do Índio mais gentil,
representando só todo o Brasil.
Pendente a tiracol de branco arminho,
côncavo dente de animal marinho
as preciosas armas lhe guardava:
era tesouro e juntamente aljava.
De pontas de diamante eram as setas,
as hásteas de ouro, mas as penas pretas;
que o Índio valeroso, ativo e forte,
não manda seta em que não mande a morte.
Zona de penas de vistosas cores,
guarnecida de bárbaros lavores,
de folhetas e pérolas pendentes,
finos cristais, topázios transparentes,
em recamadas peles de saíras,
rubins, e diamantes e safiras,
em campo de esmeralda escurecia
a linda estrela que nos traz o dia.
No cocar... oh! que assombro, oh! que riqueza!
Vi tudo quanto pode a natureza:
no peito, em grandes letras de diamante,
o nome da Augustíssima Imperante.
De inteiriço coral novo instrumento
as mãos lhe ocupa, enquanto ao doce acento
das saudosas palhetas, que afinava,
Píndaro Americano assim cantava:
"Sou vassalo, sou leal;
como tal,
fiel constante,
sirvo à glória da imperante,
sirvo à grandeza real.
Aos Elísios descerei,
fiel sempre a Portugal,
ao famoso vice-rei,
ao ilustre general,
às bandeiras que jurei.
Insultando o fado e a sorte
e a fortuna desigual,
a quem morrer sabe, a morte
nem é morte nem é mal."


In: LAPA, M. Rodrigues. Vida e obra de Alvarenga Peixoto. Rio de Janeiro: INL, 1960.
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Sousa Caldas

Sousa Caldas

Carta Dirigida a Meu Amigo João de Deus Pires Ferreira [1

Em que lhe descrevo a minha Viagem por mar até Gênova

Meu Pires,

Despontava o dia em que a meus olhos, não
sem saudade, havia por alguns meses desaparecer
Lisboa,

Que merece bem o nome
De Bisâncio ocidental;
Onde o saber pouco val,
Têm valor só prata e ouro,
Branco açúcar, rijo couro;
É melhor ter, que virtude:
Pelo menos assim pensa
Gente douta, e povo rude.

Dir-me-á que de Londres, Amsterdã, Berlim,
Viena, se pode dizer que sicut et nos manquejam
de um olho; não duvido: de Paris por ora nada
digo; espero as leis civis para ajuizar se fizeram
nelas o que devem.

É então que a minha Musa,
De cantar mais ansiosa,
Ferirá de novo as cordas
De sua lira saudosa.

Entretanto vamos ao ponto, que é a descrição
da minha viagem até Gênova. Por onde começarei?

Cansada a mimosa Aurora,
Para o leito se acolhia,
Enquanto Apolo açoitava
Os messageiros do dia.

Em vão Pirois retorcia
As orelhas fumegantes,
E com rinchos dissonantes
Etonte o ar aturdia;

Porque Apolo enfurecido
Mais e mais os fustigava,
Vibrando a torta manopla
Com horroroso estampido:

Vinte vezes foi ouvida,
Qual o vento, sibilar,
E nas ancas revoltosas
Dos ginetes estalar,
Por tal modo

que amanheceu enfim de todo. Confesse que é
uma das manhãs longas que se tem visto raiar
sobre o Horizonte: mas enfim amanheceu. Era de
esperar que, depois de tanto trabalho de Apolo,
a manhã fosse clara e brilhante: não sucedeu
assim;

Porque densa escura névoa,
Por entre o freio, escumavam
Os cavalos furiosos,
Dos açoites que aturavam.

Se lhe não agrada esta teoria, para explicar a
origem das névoas; saiba que em Poesia ainda se
não deu melhor; e se não é certa, ao menos é as-
sim inteligível para mostrar que a manhã foi ne-
bulosa. Irra! que manhã! eu mesmo já não sei
como hei de chegar ao meio-dia, a não ser de pulo.
Saltemos pois:

(...)


In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
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Luís Gama

Luís Gama

O Barão da Borracheira

Quando pilho um desses nobres,
Ricos só d'áureo metal
Mas d'espírito tão pobres
Que não possuem real,
Não lhes saio do costado,
— Sei que é trabalho baldado,
Porque a pele dura têm;
Mas eu fico satisfeita,
Que o meu ferrão só respeita
A virtude, e mais ninguém!
F.X. DE NOVAIS - A Vespa

Na Capital do Império Brasileiro,
Conhecida pelo — Rio de Janeiro,
Onde a mania, grave enfermidade,
Já não é como dantes, raridade;
E qualquer paspalhão endinheirado
De nobreza se faz empanturrado -
Em a rua chamada do Ouvidor,
Onde brilha a riqueza, o esplendor,
À porta de uma modista de Paris,
Lindo carro parou — Número — X — ,
Conduzindo um volume, na figura,
Que diziam alguns, ser criatura
Cujas formas mui toscas e brutais
Assemelham-na brutos animais.

Mal que da sege salta a raridade,
Retumba a mais profunda hilaridade.
Em massa corre o povo, apressuroso
Para ver o volume monstruoso;
De espanto toda a gente amotinada
Dizia ser coisa endiabrada!

Uns afirmam que o bruto é um camelo,
Por trazer no costado cotovelo,
É asno, diz um outro, anda de tranco,
Apesar do focinho d'urso branco!
Ser jumento aquele outro declarava,
Porque longas orelhas abanava.
Recresce a confusão na inteligência,
O bruto não conhecem d'excelência.
Mandam vir do Livreiro Garnier,
Os volumes do Grande Couvier;
Buffon, Guliver, Plínio, Columella,
Morais, Fonseca, Barros e Portela;
Volveram d'alto a baixo tais volumes,
Com olhos de luzentes vagalumes,
E desta nunca vista raridade
Não puderam notar a qualidade!

Vencido de roaz curiosidade
O povo percorreu toda a cidade;
As caducas farmácias, livrarias,
As boticas, e vãs secretarias;
E já todos a fé perdida tinham,
Por verem que o brutal não descobriam,
Quando idéia feliz e luminosa,
Na cachola brilhou dum Lampadosa
Que excedendo em carreira os finos galgos,
Lá foi ter à Secreta dos Fidalgos;
E dizem que encontrara registrado
O nome do colosso celebrado:
Era o grande Barão da borracheira,
Que seu título comprou na régia-feira!...

Imagem - 00270001


Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).

In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.110-111. (Últimas gerações, 4)

NOTA: Epígrafe tirada do poema "A Vespa", do livro NOVAS POESIAS (Porto, 1958), de Faustino Xavier de Novai
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Juó Bananére

Juó Bananére

O prugressu di Zan Baolo - Tuttos lugaro tenia só

O prugressu di Zan Baolo – Tuttos lugaro tenia só

matta virginia(1) – També d'abax'o a ponte do

viadutto – Io co Garonello arubamus

galligna lá muitas veíz

Altros appuntamenti.

Lustrissimu Ridattore
du "Pirralho"


Io té visto molto prugressu inda a mia vita che io tegno, sessantré annos, ma come questo prugressu di Zan Baolo só indo o prospero distritto do Abax'o Pigues mi té(2) visto uguali.

S’immagine che a genti vá pigá un girio disposa du jantáro e quano xiga inda a rua da Gonçolaçó tenía lá un tirreno tutto xiigno co gapino. Intó a genti vai ali p’ra dianti invisitá uno amighe e quano giá vurtó, spia p'ro tirreno, ma che!! non té(3) maise tírreno(4) nisciuno, ma inveiz stá flizida lá una bunita casa maise bunita da casa do Capitó.

Eh! mamma mia! si non fosse os intaliano, che speranza! non tenia né una casa chique come quella che fiz agora o Garonello inzima a rua Martigno Francesco.

També si non fosse os intalianos non tenia né u larghe du Arrusá, né o Bó Retiro, né as cumpania di operette do Vitale(5) e né o Bertini(6) che també é u migliore ingraziato di tutto o mondo interinho.

També o "garadura" furo os intalianos che indiscobriro.

Eh! ma si pensa che Zan Baolo furo tutta vita come oggi? Stó moltos inganatus si signore!

Primiere, quano minho avó xigá qui inzima o Brasile só tenia a ladere do Abax'o Pigues, o larghe du Arrusá e u barro da Liberdá.

A Villa Buarca, a Barafunda, o Bó Retiro stavo tutto coperto c'oa mattavirgia. També a Luiz e també a Bixiga.

D'Abx’o a ponte do viadutto(7) era tutto gapino e tenia moltos passarigno che io iva tuttos dí di magná cidigno matá co stilingo. També tenia lá a casa du Bargionase dove io co Garonello che in quello tempio era piqueno come o Alengaro, tuttos dí ia cum elli arrubá galligna.

Disposa io co Garonello ia vedê s'inforcá us negro ingoppa a pracia a Republiga che u Garonello tenia molta paura, perché una veiz una molhere veglia che si diceva feticera falló p'ra elli che també elli tenia da murrê inforcado.

Povero Garonello! xuró piore du leitó assado.

(Palpito p'ra manhá: porco).

També u Morse in quello tempio giá tenia inventadu u teligrame senza fili.

Oggi inveiz nó, pur causa che faiz u palpito do bixo inzima u giurná do Gartola.

Evviva u Gartola!

Evvivôôô.....

Con tutto o a stima dua cumideraçó, il suo griato

Rigumendaçós p'rá famiglia


Publicada no jornal O Pirralho, 20 abr. 1912, p. 13.

BANANÉRE, Juó. Crônicas avulsas, 1911/1917. O pirralho. São Paulo, 24 fev. 1912. Apud ANTUNES, Benedito. As cartas d’Abaixo Piques de Juó Bananére. Assis, 1996. P. 83-85. Tese de Doutorado. UNESP.

NOTAS:
(1) Pronúnc.: virgínia. (2) P. te. (3) P. nouté. (4) P. Tirreno, nisciuno. (5) Ettore Vitale, diretor da Companhia Italiana Ettore Vitale, de óperas bufas e operetas (MENEZES, 1969, p. 18). (6) Diretor da companhia de teatro que levava o seu nome. (7) Viaduto do Chá.
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