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Cidade e Cotidiano

Kōtarō Takamura

Kōtarō Takamura

Poema do louco (Kyôsha no shi)

Venha e sopre, venha e sopre
Vento frio e catabático de Chichibu
Venha e sopre, rolando montanha abaixo
O mundo está no final dos tempos, venha e sopre
Sopre contra minhas costas
Dentro da minha cabeça um gato melancólico mia
Em algum lugar, alguém se aproveita de Rodin
Coca-Cola, thank you very much
Nichô-me, sanchô-me, depois Owari-chô, em Ginza
Bonde elétrico, luz elétrica, fio elétrico, telefone
Triiim! triiim!
Até o galho do salgueiro, na neblina da noite
Cruza os braços pálidos e
Busca me aconselhar com carinho
Mais uma Coca-Cola
Sanatogen, Higiyama, balas para tosse
Acordo é proibido
Perfeição e paz são coisas secundárias
Eu persisto até o fim, persisto e realizo
Portanto, venha e sopre, venha e sopre
Vento frio e catabático de Chichibu
Venha e sopre, rolando montanha abaixo
Da minha pele jorrou sangue
Ah! Agora ficou divertido! Venha e sopre
Qual o critério para estimar uma pessoa?
Sério? Frívolo? Idiota? Sensato?
thank you very much, very very much
Ohana, Oume, jovens e notórias cortesãs da casa Kôchi
Sou o único que me conhece
Se há algo mais, é a alma, superior ao ser humano que me concebeu
Dentro da minha cabeça um gato melancólico mia
Teatro de macacos com figurinos ocidentais
Quando Kôichibee morde Teikurô
A platéia ovaciona
O mundo está no final dos tempos, venha e sopre
Vento frio e catabático de Chichibu
Venha e sopre, rolando montanha abaixo
Prólogo
Epílogo
“london bridge is broken down!”
Eu, afinal, estou em vias de enlouquecer
Ah! O perfume do cabelo!
Vem daquela mulher com grampo de chifre de cabra montês
Mais uma Coca-Cola
Louco, o que um louco pode fazer?
Eu, em todo caso, caminho
Nichô-me, sanchô-me, depois Owari-chô, em Ginza
A lua aparece sobre o telhado do teatro Kabuki
Sopre contra minhas costas
Vento frio e catabático de Chichibu
Venha e sopre, rolando montanha abaixo
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Frank O'Hara

Frank O'Hara

São Paulo e tudo mais

Totalmente sem graça e sorridente
eu entro
me sento e
encaro a geladeira
é abril
não maio
é maio
coisas tão pequenas precisam ser definidas pela manhã
depois das coisas grandes da noite
você quer que eu vá? quando
penso em tudo que tenho pensado fico maluco
apenas “viver em Birmingham é um inferno”
apenas “você vai sentir minha falta
mas isso é bom”
quando as lágrimas de toda uma geração forem reunidas
caberão todas numa xícara
e se elas evaporam
nem por isso a vida tem calor
“esse variado sonho, viver”
eu estou vivo com você
cheio de prazeres ansiosos e ansiedades prazerosas
dureza e maciez
ouvindo enquanto você fala e falando enquanto você lê
eu leio o que você lê
você não lê o que eu leio
e tudo bem, o curioso sou eu
você lê por alguma razão misteriosa
eu leio só porque sou escritor
o sol não necessariamente se põe, às vezes só desaparece
quando você não está aqui alguém entra e fala
“ei,
cadê o dançarino dessa cama?”
Ah os verões poloneses! aquelas brisas!
aqueles dentes pretos e brancos!
você nunca vem quando diz que vem por outro lado você vem sim
:
St.Paul and all that
Totally abashed and smiling
I walk in
sit down
face the frigidaire
it’s April
no May
it’s May
such little things have to be established in the morning
after the big things of night
do you want me to come? when
I think of all the things I’ve been thinking of I feel insane
simply “life in Birmingham is hell”
simply “you will miss me
but that’s good”
when the tears of a whole generation are assembled
they will only fill a coffee cup
just because they evaporate
doesn’t mean life has heat
“this various dream of living”
I am alive with you
full of anxious pleasures and pleasurable anxiety
hardness and softness
listening while you talk and talking while you read
I read what you read
you do not read what I read
which is right, I am the one with the curiosity
you read for some mysterious reason
I read simply because I am a writer
the sun doesn’t necessarily set, sometimes it just disappears
when you’re not here someone walks in says
“hey,
there’s no dancer in that bed”
O the Polish summers! those drafts!
those black and white teeth!
You never come when you say you’ll come but on the other hand you do come
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Pierre Albert-Birot

Pierre Albert-Birot

Décimo-Terceiro Poema

Huh huh huh ha e então as palavras com seu ar de ser alguém
O verbo ele tudo e todos
Ama e presta-se à pessoa
Ela ama
Ruas casas cidades céu o verbo doou tudo
A pessoa caminha pelas cidades e olha o céu
Minha casa meu rosto as árvores ele e vós
O primeiro dia e o último
A pessoa trancada em pequenos quadrados de tempo
Presta atenção nos carros cura suas mãos e faz bebês
Paula ama sua mãe
Meu pai está em São Paulo
Ele retornará amanhã
Sem a bondade do verbo ficávamos no infinitivo
Este maravilhoso tudo e todos
Que a ninguém conhece
Mesmo assim melhor o tédio de nascer e morrer
Como fazemos o sol erguer-se ao dizer é dia
(tradução de Ricardo Domeneck, publicada no número impresso de estréia daModo de Usar & Co.)
:
Treizième Poème
Pierre Albert-Birot
Heu heu heu ha et puis des mots qui ont l´air d´être quelqu´un
Le verbe lui le tout et le toujours
Aime et se prête à la personne
Elle aime
Rues maisons villes ciel le verbe a tout donné
La personne marche dans les villes et regarde le ciel
Ma maison mon visage les arbres lui et vous
Le premier jour et le dernier
La personne enfermée dans les petits carrés du temps
Prend garde aux voitures soigne ses mains et fait des enfants
Paul aime sa mère
Mon père est à Paris
Il reviendra demain
Sans la bonté du verbe nous restions à l´infinitif
Ce merveilleux tout et toujours
Qui ne connaît personne
Pourtant mieux vaut l´ennui de naître et de mourir
Puisqu´on fait lever le soleil en disant it fait jour
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Shinkichi Takahashi

Shinkichi Takahashi

Poema 18

Nos automóveis da cidade, o sonho do vendedor de tubos para cachimbo
Asakusa, da geléia de ágar, dos doces de feijão azuki e mel
impossível rasgar, improvável quebrar
os desesperados cozidos feitos com sakê doce
cochilando numa parede do décimo primeiro andar
que tal destruirmos os icebergs do Pólo Norte?
lembre-se que espirro também é limonada
alimento devorado e vomitado é sorvete
as nádegas daqueles rebeldes que se masturbam em segredo
doloridas de tanto cagar arroz glutinoso
mulher de tronco esguio e pernas inflexíveis
alegremo-nos com a destruição do país
pise, pise até espatifar
conserve os suportes das geta
não serão abertas exceções
Frango grelhado no espeto
a menina precoce empina a bunda
brinca com os seios dentro da roupa
irradia olhares famintos a torto e a direito
caminha voraz
a mulher achatada, quase um linguado
inclina-se para a frente, a sem-vergonha
os pés à moda antiga, passos de tarambola
alça vôo qual sushi norimaki
o macarrão chinês da viúva enrugada, sessentona,
não me agrada, bife à milanesa de uma recém convertida do meretrício
madame com andar de enguia
também abomino o tendon da moça interiorana
e desgosto do arroz frito com tofu amassado que imita o sabor de ganso
a ela, a quem desagrada tsukeyaki, peço desculpas
contudo, no café histérico
indigno que sou de uma xícara de café
sirvo-me de azuki cozido
e sakê doce
a criada de pele macia como mochi, ou amendoim, batata assada
prefiro sorver o molho de macarrão
na agência dos correios, onde a funcionária é saudável,
à carne com arroz
de dez centavos servida por empregadas de mãos sifilíticas.
(tradução de Diogo Kaupatez)
.
.
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Luís Gama

Luís Gama

O Barão da Borracheira

Na Capital do Império Brasileiro,
Conhecida pelo — Rio de Janeiro,
Onde a mania, grave enfermidade,
Já não é como dantes, raridade;
E qualquer paspalhão endinheirado
De nobreza se faz empanturrado -
Em a rua chamada do Ouvidor,
Onde brilha a riqueza, o esplendor,
À porta de uma modista de Paris,
Lindo carro parou — Número — X — ,
Conduzindo um volume, na figura,
Que diziam alguns, ser criatura
Cujas formas mui toscas e brutais
Assemelham-na brutos animais.
Mal que da sege salta a raridade,
Retumba a mais profunda hilaridade.
Em massa corre o povo, apressuroso
Para ver o volume monstruoso;
De espanto toda a gente amotinada
Dizia ser coisa endiabrada!
Uns afirmam que o bruto é um camelo,
Por trazer no costado cotovelo,
É asno, diz um outro, anda de tranco,
Apesar do focinho d'urso branco!
Ser jumento aquele outro declarava,
Porque longas orelhas abanava.
Recresce a confusão na inteligência,
O bruto não conhecem d'excelência.
Mandam vir do Livreiro Garnier,
Os volumes do Grande Couvier;
Buffon, Guliver, Plínio, Columella,
Morais, Fonseca, Barros e Portela;
Volveram d'alto a baixo tais volumes,
Com olhos de luzentes vagalumes,
E desta nunca vista raridade
Não puderam notar a qualidade!
Vencido de roaz curiosidade
O povo percorreu toda a cidade;
As caducas farmácias, livrarias,
As boticas, e vãs secretarias;
E já todos a fé perdida tinham,
Por verem que o brutal não descobriam,
Quando idéia feliz e luminosa,
Na cachola brilhou dum Lampadosa
Que excedendo em carreira os finos galgos,
Lá foi ter à Secreta dos Fidalgos;
E dizem que encontrara registrado
O nome do colosso celebrado:
Era o grande Barão da borracheira,
Que seu título comprou na régia-feira!
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