Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Daniel Loureiro
Homem-Televisão
Me desalento entre as brumas do pensamento
E de novo acho que não sou bem eu
Essas imagens sempre me passam
Mesmo que eu queira mudar de canal
Antenas não tenho sou todo antena
Recebo influências do mundo emissor
Diante de evidências é fácil afirmar
Cada vez mais sou comum televisor
Meus tímpanos se fecham e me traem sempre
Ando na voltagem da rotina
Fora da caixa visões não me prendem
Parece que algo nunca anda bem
eu
não sou mais EU
mas às vezes me vêm lembranças
da ex-vida orgânica
hoje vivo aqui
fico assim ligado
sempre antenado
no mesmo canal
Por mais que eu tente
me levante ou sente
As minhas opiniões
São estatística de pesquisa de audiência.
E de novo acho que não sou bem eu
Essas imagens sempre me passam
Mesmo que eu queira mudar de canal
Antenas não tenho sou todo antena
Recebo influências do mundo emissor
Diante de evidências é fácil afirmar
Cada vez mais sou comum televisor
Meus tímpanos se fecham e me traem sempre
Ando na voltagem da rotina
Fora da caixa visões não me prendem
Parece que algo nunca anda bem
eu
não sou mais EU
mas às vezes me vêm lembranças
da ex-vida orgânica
hoje vivo aqui
fico assim ligado
sempre antenado
no mesmo canal
Por mais que eu tente
me levante ou sente
As minhas opiniões
São estatística de pesquisa de audiência.
822
Cláudio Murilo
Fora do Jogo
— Um alienado — apostrofam.
Não matou nem mandou matar,
não foi fiel à sua classe
(burguesa)
nem participou de mitins
comitês,
sindicatos.
Não assinou listas de adesão.
Não se solidarizou nem com a direita
nem com a esquerda.
Não foi servil com os poderosos do dia.
Não pendurou retratos,
não hasteou bandeiras,
não recebeu comendas.
Viveu fora do jogo,
sonhando uma Ideologia
que não se corrompesse com o atrito da Realidade.
Não matou nem mandou matar,
não foi fiel à sua classe
(burguesa)
nem participou de mitins
comitês,
sindicatos.
Não assinou listas de adesão.
Não se solidarizou nem com a direita
nem com a esquerda.
Não foi servil com os poderosos do dia.
Não pendurou retratos,
não hasteou bandeiras,
não recebeu comendas.
Viveu fora do jogo,
sonhando uma Ideologia
que não se corrompesse com o atrito da Realidade.
746
José Costa Matos
Louvação a André Breton
(A Mentira das Aparências Sensoriais)
A flor, o mar, o rosto de meu filho,
pão na mesa, o retrato de meu pai,
o circo, a vaca a olhar o pé de milho,
o azul da serra, a névoa que se esvai;
a igreja, o sino, o padre, o mapa, o trilho
sob a pedra que finge, mas não cai;
a pupila estrangeira do andarilho,
a carta sem razão que já não vai;
Judas, a queima, a Festa de Aleluia,
meus banhos de menino, a grota, a cuia,
bênçãos brancas da preta Juliana...
Nada disso, em verdade, eu vi no mundo?
Faltou-me a luz e aquele olhar profundo,
mais forte que a ilusão da raça humana?
A flor, o mar, o rosto de meu filho,
pão na mesa, o retrato de meu pai,
o circo, a vaca a olhar o pé de milho,
o azul da serra, a névoa que se esvai;
a igreja, o sino, o padre, o mapa, o trilho
sob a pedra que finge, mas não cai;
a pupila estrangeira do andarilho,
a carta sem razão que já não vai;
Judas, a queima, a Festa de Aleluia,
meus banhos de menino, a grota, a cuia,
bênçãos brancas da preta Juliana...
Nada disso, em verdade, eu vi no mundo?
Faltou-me a luz e aquele olhar profundo,
mais forte que a ilusão da raça humana?
892
Camilo Mota
Mantra
torno-me puro
meu puro encontro
o corpo se limpa
a mente se areja
palavras tão simples
em becos escusos
alertam da vida
a luz e o amor
não se perde nas veias
o sagrado fluído...
em horas banidas
corredores e ruas
resgatam o tempo
a infinitude de ser
ao torno de mim
o puro retorna
ao simples afável
de cada manhã
a cada calenda
torna-se puro
sentido da vida
o verso do ser
meu puro encontro
o corpo se limpa
a mente se areja
palavras tão simples
em becos escusos
alertam da vida
a luz e o amor
não se perde nas veias
o sagrado fluído...
em horas banidas
corredores e ruas
resgatam o tempo
a infinitude de ser
ao torno de mim
o puro retorna
ao simples afável
de cada manhã
a cada calenda
torna-se puro
sentido da vida
o verso do ser
956
Cludia Nobre de Oliveira
Vida
A vida num compasso
passo a passo tracejado
almejado, buscas voltas e idas
Caminhos, espinhos, espio
a trajetória nada retilínea
toda subida toda descida
toda busca.....
Vou e volto ao meu compasso ao meu sonho
ao meu segue consciência ao meu real
ao meu eu a meu Deus
Minha vida nesse giramundo nessa natureza
nessa enfim plena universal sempre em frente
bem ou mal mas sempre energia, fé, positiva
mas sede, sede de vida.
passo a passo tracejado
almejado, buscas voltas e idas
Caminhos, espinhos, espio
a trajetória nada retilínea
toda subida toda descida
toda busca.....
Vou e volto ao meu compasso ao meu sonho
ao meu segue consciência ao meu real
ao meu eu a meu Deus
Minha vida nesse giramundo nessa natureza
nessa enfim plena universal sempre em frente
bem ou mal mas sempre energia, fé, positiva
mas sede, sede de vida.
853
Cleonice Rainho
Idéias
As idéias moram
no pensamento
ou na mente
que tem sua casinha
na cabeça da gente.
Vão e vêm, viajam
na terra ou no mar.
Descansam, param,
saltam e voam alto
e longe, no azul do ar.
Dispensam carro
navio ou avião,
pois, se transportam
pela imaginação.
Podem nascer obscuras,
mas, se é uma idéia legal
brilha logo, lâmpada acesa,
pela Vontade e pelo Ideal.
Alimentam-se
umas das outras,
de lembranças,
de conversas,
de belas gravuras
ou boas leituras
e também da natureza
em sua simples beleza.
Mas, a idéia mais feliz,
a maior, a mais viva,
que sustenta os sonhos meus
— é a idéia de Deus.
no pensamento
ou na mente
que tem sua casinha
na cabeça da gente.
Vão e vêm, viajam
na terra ou no mar.
Descansam, param,
saltam e voam alto
e longe, no azul do ar.
Dispensam carro
navio ou avião,
pois, se transportam
pela imaginação.
Podem nascer obscuras,
mas, se é uma idéia legal
brilha logo, lâmpada acesa,
pela Vontade e pelo Ideal.
Alimentam-se
umas das outras,
de lembranças,
de conversas,
de belas gravuras
ou boas leituras
e também da natureza
em sua simples beleza.
Mas, a idéia mais feliz,
a maior, a mais viva,
que sustenta os sonhos meus
— é a idéia de Deus.
1 065
Cláudio Aguiar
Sextina da Dúvida
Do mundo dos mortais ou só dos anjos?
Quero a resposta já para que a dúvida
nunca prospere; mas se o entendimento
turba-se e vejo seres sem razão,
que pensar do meu corpo e de minh’alma,
se dela um sai e logo outro diz: entra?
Se sobrevive a alma que bem entra
no descuidado corpo, leves anjos
verberam no que é, fazendo que a alma
exista, enquanto se levanta a dúvida
no mundo, deformando-se a razão,
perdendo-se também o entendimento.
Se não é absoluto o entendimento,
mesmo que aprenda dele o que só entra
na matéria, restaura-se a razão.
Quem a desconhecer não verá anjos,
nem precisa chamar a si a dúvida
para chegar a ter outra boa alma.
Como mortal não vi jamais um’alma.
Logo, não vou perder o entendimento.
Com ele não conviveria a dúvida,
que, num relance, em nossos corpos entra.
Se de repente dele expulso os anjos,
que fazer do saber e da razão?
Se algum dia eu ficar sem a razão,
não sei se perderei toda minh’alma
e viverei no limbo com os anjos,
tendo tudo mas sem entendimento,
e até a certeza que em mim já não entra,
muito fará crescer a minha dúvida.
Já que está sempre a porta aberta à dúvida,
entrando a fé ou fugindo a razão,
nada entrará em ti sem o aviso: "entra"!
Se ninguém poderá viver sem alma,
mesmo quando lhe falte o entendimento,
não olvides que em nós habitam anjos.
-- Se você viu anjos, não resta dúvida,
tem entendimento e também razão.
-- Ali vem um’alma e agora em mim entra!
Quero a resposta já para que a dúvida
nunca prospere; mas se o entendimento
turba-se e vejo seres sem razão,
que pensar do meu corpo e de minh’alma,
se dela um sai e logo outro diz: entra?
Se sobrevive a alma que bem entra
no descuidado corpo, leves anjos
verberam no que é, fazendo que a alma
exista, enquanto se levanta a dúvida
no mundo, deformando-se a razão,
perdendo-se também o entendimento.
Se não é absoluto o entendimento,
mesmo que aprenda dele o que só entra
na matéria, restaura-se a razão.
Quem a desconhecer não verá anjos,
nem precisa chamar a si a dúvida
para chegar a ter outra boa alma.
Como mortal não vi jamais um’alma.
Logo, não vou perder o entendimento.
Com ele não conviveria a dúvida,
que, num relance, em nossos corpos entra.
Se de repente dele expulso os anjos,
que fazer do saber e da razão?
Se algum dia eu ficar sem a razão,
não sei se perderei toda minh’alma
e viverei no limbo com os anjos,
tendo tudo mas sem entendimento,
e até a certeza que em mim já não entra,
muito fará crescer a minha dúvida.
Já que está sempre a porta aberta à dúvida,
entrando a fé ou fugindo a razão,
nada entrará em ti sem o aviso: "entra"!
Se ninguém poderá viver sem alma,
mesmo quando lhe falte o entendimento,
não olvides que em nós habitam anjos.
-- Se você viu anjos, não resta dúvida,
tem entendimento e também razão.
-- Ali vem um’alma e agora em mim entra!
852
Cláudio Aguiar
Sonho Solar
A Miguel Elías Sánchez Sánchez
Eu não conheço o sol,
clarão que humilha e me faz manso.
Só o conheço na sombra
que também mata e inocenta.
No lago interior, alma afogada,
afundei a matéria abismal do choro,
facho imenso entre o dia e a noite.
Oh, escuridão eterna,
quando serei raio
partindo do útero da terra?
Eu não conheço a luz temporal
que anda por sendeiros,
buscando as pisadas das estrelas,
gerando um som que me emudece.
Ainda que o meu tamanho se agigante,
não vejo nada além do infinito.
Talvez me ensine mais o sonho
que me alimenta e logo me destrói:
rotor preciso da imensidão,
refrão nefasto da pequenez humana.
Eu não conheço o sol,
clarão que humilha e me faz manso.
Só o conheço na sombra
que também mata e inocenta.
No lago interior, alma afogada,
afundei a matéria abismal do choro,
facho imenso entre o dia e a noite.
Oh, escuridão eterna,
quando serei raio
partindo do útero da terra?
Eu não conheço a luz temporal
que anda por sendeiros,
buscando as pisadas das estrelas,
gerando um som que me emudece.
Ainda que o meu tamanho se agigante,
não vejo nada além do infinito.
Talvez me ensine mais o sonho
que me alimenta e logo me destrói:
rotor preciso da imensidão,
refrão nefasto da pequenez humana.
824
Claudius Portugal
As Várias Faces de um Espelho
I
Alguém disse:
Ser
é ter-se tomado
II
Já faz algum tempo que não bebo
Não distribuo mais os sonhos
Hoje sinto entorpecidamente minhas dores
Não tenho mais necessidade de esconder o corpo
Para saber do corpo tive de correr estradas
e dei a juventude sem exigir amor
Dentro de todos me perdi da esperança
Um poema resplandeceu incompreensivelmente
Agora o corpo desistiu de procurar entender
Não escrevo mais palavras para ficar oculto
Nem guardo dentro do ventre algum segredo
Nenhuma cicatriz revela a lâmina e a faca
Não tenho os pesos e as medidas
Nem para quem quer que seja uma sentença
Cada momento traz o seu próprio veneno
Não inquieto mais o dia de amanhã
Não me inquieto mais com a dor de hoje
Há uma hora que as perguntas deixam de existir
Para um homem não basta o seu próprio corpo
Hoje já não há simples vítimas
Nem inocentes do sangue dos que morrem
Um poema não é remédio para acalmar o peito
Um poema não é caminho para pacificar o coração
Um poema é somente escrito de dias e noites
Um poema escreve certo por linhas tortas
Um poema escreve torto por linhas certas
Um poema escreve linhas por certo tortas
Meus pés pisam sobre o chão de um cemitério
Vim colocar flores na minha sepultura
Há um homem novo nascendo neste rosto
III
O que me destrói é minha falta
de vício
IV
Caminho entre sombras
Meus mortos dormem
no paraíso
das ilusões
— pai mãe irmãos —
O mar apaga rastros
Caminho
O destino
da estrada é seguir viagem
Quando escrevo
o caminho
sei apenas o meu próprio mal
e a cúmplice solidão
dos sentimentos
Sou um jogo
( marcado? )
Luz da saudade futuro me faz
crer
o que mais quiser ser
Sou
Alguém disse:
Ser
é ter-se tomado
II
Já faz algum tempo que não bebo
Não distribuo mais os sonhos
Hoje sinto entorpecidamente minhas dores
Não tenho mais necessidade de esconder o corpo
Para saber do corpo tive de correr estradas
e dei a juventude sem exigir amor
Dentro de todos me perdi da esperança
Um poema resplandeceu incompreensivelmente
Agora o corpo desistiu de procurar entender
Não escrevo mais palavras para ficar oculto
Nem guardo dentro do ventre algum segredo
Nenhuma cicatriz revela a lâmina e a faca
Não tenho os pesos e as medidas
Nem para quem quer que seja uma sentença
Cada momento traz o seu próprio veneno
Não inquieto mais o dia de amanhã
Não me inquieto mais com a dor de hoje
Há uma hora que as perguntas deixam de existir
Para um homem não basta o seu próprio corpo
Hoje já não há simples vítimas
Nem inocentes do sangue dos que morrem
Um poema não é remédio para acalmar o peito
Um poema não é caminho para pacificar o coração
Um poema é somente escrito de dias e noites
Um poema escreve certo por linhas tortas
Um poema escreve torto por linhas certas
Um poema escreve linhas por certo tortas
Meus pés pisam sobre o chão de um cemitério
Vim colocar flores na minha sepultura
Há um homem novo nascendo neste rosto
III
O que me destrói é minha falta
de vício
IV
Caminho entre sombras
Meus mortos dormem
no paraíso
das ilusões
— pai mãe irmãos —
O mar apaga rastros
Caminho
O destino
da estrada é seguir viagem
Quando escrevo
o caminho
sei apenas o meu próprio mal
e a cúmplice solidão
dos sentimentos
Sou um jogo
( marcado? )
Luz da saudade futuro me faz
crer
o que mais quiser ser
Sou
1 104
José Castello
Manoel de Barros busca o sentido da vida
Poeta diz ter solidão, mas acha que é opulência da alma e a traz, em sua obra, como amargor e sol
Manoel de Barros ficou perto de cinco meses com um longo questionário que lhe enviei pouco antes do carnaval deste ano. "Vou responder devagar e do meu jeito", ele me advertiu na época. Aceitei suas condições. Não imaginei, porém, que necessitasse de tanto tempo. Barros seguiu, em parte, as instruções de seus novos editores, da Record, que preferiam ver uma grande entrevista publicada no Estado apenas na época do lançamento do Livro sobre Nada. Mas não foi só essa preferência que o fez deixar o questionário de lado por um período tão longo. O poeta é um homem de hábitos lentos, que gosta de meditar muito antes de agir e não está acostumado a trair seu temperamento interiorano. Finalmente, no dia 12, ele despachou de Campo Grande, pelo correio, suas respostas a algumas perguntas que formulei. Assim começa um breve bilhete anexo: "Aí está o que pude; peço desculpas pela demora." Manoel de Barros respondeu por escrito, em organizadas folhas brancas do tipo ofício, datilografadas com esmero. Corrigiu os erros com a esferográfica, numerou metodicamente as questões e grampeou as páginas.
É um homem, sempre, cheio de cuidados. Antes de aceitar o convite da editora Record para se transferir - "proposta irrecusável por todos os motivos, até mesmo os financeiros", limita-se a dizer -, o poeta consultou José Elias Salomão, o proprietário da Civilização Brasileira. "Falei com ele e tudo bem; ficamos em paz todos", relata. A morte recente do editor Ênio Silveira, por certo, influenciou nessa decisão. Manoel de Barros se sentia tão ligado a Ênio que, enqunto ele estava vivo e mesmo com as condições precárias que a editora Civilização Brasileira atravessou na última década, não ousou mudar de casa. Os laços de amizade e a fidelidade pesaram mais que os interesses pessoais. Cada um de seus últimos livros editados por Ênio Silveira, mal ou bem (e, considerando que são livros de poemas, esses números são ótimos) vendeu, de todo modo, perto de 10 mil exemplares. "Acho que, na Record, esse número deve crescer por causa da estrutura de marketing da editora", diz. Apesar desse otimismo, Manoel de Barros continua a ser um homem basicamente melancólico e pessimista. "Acho que no futuro o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo", diz. "Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser." A seguir, as questões que ele decidiu responder.
Estado - Em que medida Mato Grosso do Sul está presente em sua poesia? Qual é sua relação com o regionalismo?
Manoel de Barros - Há sempre um lastro de ancestralidades que nos situa no espaço. Mas não importa muito onde o artista tenha nascido. O que marca um estilo literário é a maneira de mexer com as palavras. Poesia é um fenômeno de linguagem. De minha parte, confesso que fujo do regionalismo que não dê em arte, que só quer fazer registro. Não gosto de descrever lugares, bichos, coisas da natureza. Gosto de inventar. Quem descreve não é dono do assunto; quem inventa é. Não tenho compromisso com as verdades consagradas. O que desejo é me constar por meio de um trabalho estético. Se de tudo resultar um cheiro de coisa do chão, é bom. Pode até ser que seja regionalismo. Porém, há de ser mais transfigurismo pela palavra.
Estado - Você se sente isolado em Campo Grande?
Barros - Isolado não me sinto, juro. Às vezes me isolo, me tranco na minha toca para escrever, para ler, para imaginar. Parece que, no fechado, o imaginário se solta melhor. O que sinto mesmo é incompletude: essa falta de explicação para o sentido da vida. O que tenho é solidão. Mas solidão é opulência da alma. Tudo isso parece que destila amargor e sol na minha poesia.
Estado - As viagens marcaram sua poesia? Penso em um poeta como Vinícius de Moraes que, em cada cidade que viveu, parece ter sido um homem diferente.
Barros - Alguns anos da minha vida ambulei por lugares decadentes. Havia um certo fascínio em mim por cidades mortas, casas abandonadas, vestígios de civilizações. Um fascínio por ruínas habitadas por sapos e borboletas. Eu gostava de ver alguma germinação da inércia sobre ervinhas doentes, paredes leprentas, coissa desprezadas. As fontes de minha poesia, estou certo, vêm de errâncias desurbanas. Agora, o caso do Vinícius é outro. Ele é um poeta inumerável. Ele vem das grandes paixões, das grandes complexidades, das perplexidades humanas. Ele era 300, ele era 350, como diria o nosso Mário de Andrade. Manoel de Barros só é um bugre perturbado.
Estado - Existe essa entidade chamada poesia brasileira ou existem apenas poetas nascidos no Brasil?
Barros - Penso que existe sim uma poesia brasileira. Uma poesia que expresa a nossa alma e o nosso quintal. Porém, a linguagem, o tratamento que o poeta imprima à sua matéria pode fazer dele um poeta universal. Assim, as nossas particularidades podem ser universais por meio das palavras. Temos poetas do mundo nascidos no Brasil.
Estado - Como foi sua relação com o editor Ênio Silveira, recém- falecido?
Barros - Do Ênio fui amigo e companheiro desde o primeiro dia que conversamos. Uma das criaturas mais puras, mais honestas, mais idealistas que conheci. Um ser de escol - como se diz. Trocamos cartas por muitos anos. Trocamos amizades. Mandava a ele os meus originais e ficava quieto, esperando. De repente, me mandava as provas. Fazia questão de escrever as orelhas. Tenho cinco livros lançados por ele.
Estado - Como é hoje sua rotina de poeta?
Barros - Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo "lugar de ser inútil". Exploro há 60 anos esses mistéros. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc. Faço escavações. Entro às 7 horas, saio ao meio-dia. Anoto coisas em pequenos cadernos de rascunho. Arrumo versos, frases, desenho bonecos. Leio a Bíblia, dicionários, às vezes percorro século para descobrir o primeiro esgar de uma palavra. E gosto de ouvir e ler Vozes da Origem. Gosto de coissa que começam assim: "Antigamente, o tatu era gente e namorou a mulher de outro homem." Está no livro Vozes da Origem, da antropóloga Betty Mindlin. Essas leituras me ajudam a explorar os mistérios irracionais. Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento.
Estado - Seu último livro publicado se chama O livro das Ignorãças (Civilização Brasileira, 1983). A citação de abertura é eloqüente: "As coisas que não existem são mais bonitas." Qual é o papel da ignorância na atividade poética?
Barros - Gosto de ver o que não aparece. Um que não era o adivinha de Tebas, o Tirésias, um que era apenas o Pote-Cru, andejo de beira de rios, criado em grotas de preá, me disse um dia: "Eu tenho vaticínios de lugares." Pote-Cru, ele tinha percepções sensoriais largas, como os adivinhos, os videntes, os bruxos, os urgos, os demiurgos, os curandeiros, os magos. Essa gente toda usa muito a ignorância para nos conhecer. Como é que eles podem dizer: "Vi a tarde se encolher no olho de um pássaro?" Entretanto, se encolhe! Como é que eles podem dizer: "Os carrapichos não pregam no vento." E, entretanto, não pregam. Essas descobertas vêm da ignorância.
Estado - Você vive em uma região brasileira em que a natureza, mal ou bem, ainda resiste. Há futuro para a natureza?
Barros - No grande futuro, não sei o que seja, acho que o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo. Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser. Aquela liberdade que o homem tem de se sentir livre para o silêncio das árvores não vai ter mais. O idioma não vai servir mais para celebrar. O ser não vai mais comungar com as coisas. A imaginação não vai mais desabrochar, porque os nossos desejos e fantasias serão realizados. O mundo vai ter outro cheiro. Salvo não seja.
Manoel de Barros ficou perto de cinco meses com um longo questionário que lhe enviei pouco antes do carnaval deste ano. "Vou responder devagar e do meu jeito", ele me advertiu na época. Aceitei suas condições. Não imaginei, porém, que necessitasse de tanto tempo. Barros seguiu, em parte, as instruções de seus novos editores, da Record, que preferiam ver uma grande entrevista publicada no Estado apenas na época do lançamento do Livro sobre Nada. Mas não foi só essa preferência que o fez deixar o questionário de lado por um período tão longo. O poeta é um homem de hábitos lentos, que gosta de meditar muito antes de agir e não está acostumado a trair seu temperamento interiorano. Finalmente, no dia 12, ele despachou de Campo Grande, pelo correio, suas respostas a algumas perguntas que formulei. Assim começa um breve bilhete anexo: "Aí está o que pude; peço desculpas pela demora." Manoel de Barros respondeu por escrito, em organizadas folhas brancas do tipo ofício, datilografadas com esmero. Corrigiu os erros com a esferográfica, numerou metodicamente as questões e grampeou as páginas.
É um homem, sempre, cheio de cuidados. Antes de aceitar o convite da editora Record para se transferir - "proposta irrecusável por todos os motivos, até mesmo os financeiros", limita-se a dizer -, o poeta consultou José Elias Salomão, o proprietário da Civilização Brasileira. "Falei com ele e tudo bem; ficamos em paz todos", relata. A morte recente do editor Ênio Silveira, por certo, influenciou nessa decisão. Manoel de Barros se sentia tão ligado a Ênio que, enqunto ele estava vivo e mesmo com as condições precárias que a editora Civilização Brasileira atravessou na última década, não ousou mudar de casa. Os laços de amizade e a fidelidade pesaram mais que os interesses pessoais. Cada um de seus últimos livros editados por Ênio Silveira, mal ou bem (e, considerando que são livros de poemas, esses números são ótimos) vendeu, de todo modo, perto de 10 mil exemplares. "Acho que, na Record, esse número deve crescer por causa da estrutura de marketing da editora", diz. Apesar desse otimismo, Manoel de Barros continua a ser um homem basicamente melancólico e pessimista. "Acho que no futuro o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo", diz. "Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser." A seguir, as questões que ele decidiu responder.
Estado - Em que medida Mato Grosso do Sul está presente em sua poesia? Qual é sua relação com o regionalismo?
Manoel de Barros - Há sempre um lastro de ancestralidades que nos situa no espaço. Mas não importa muito onde o artista tenha nascido. O que marca um estilo literário é a maneira de mexer com as palavras. Poesia é um fenômeno de linguagem. De minha parte, confesso que fujo do regionalismo que não dê em arte, que só quer fazer registro. Não gosto de descrever lugares, bichos, coisas da natureza. Gosto de inventar. Quem descreve não é dono do assunto; quem inventa é. Não tenho compromisso com as verdades consagradas. O que desejo é me constar por meio de um trabalho estético. Se de tudo resultar um cheiro de coisa do chão, é bom. Pode até ser que seja regionalismo. Porém, há de ser mais transfigurismo pela palavra.
Estado - Você se sente isolado em Campo Grande?
Barros - Isolado não me sinto, juro. Às vezes me isolo, me tranco na minha toca para escrever, para ler, para imaginar. Parece que, no fechado, o imaginário se solta melhor. O que sinto mesmo é incompletude: essa falta de explicação para o sentido da vida. O que tenho é solidão. Mas solidão é opulência da alma. Tudo isso parece que destila amargor e sol na minha poesia.
Estado - As viagens marcaram sua poesia? Penso em um poeta como Vinícius de Moraes que, em cada cidade que viveu, parece ter sido um homem diferente.
Barros - Alguns anos da minha vida ambulei por lugares decadentes. Havia um certo fascínio em mim por cidades mortas, casas abandonadas, vestígios de civilizações. Um fascínio por ruínas habitadas por sapos e borboletas. Eu gostava de ver alguma germinação da inércia sobre ervinhas doentes, paredes leprentas, coissa desprezadas. As fontes de minha poesia, estou certo, vêm de errâncias desurbanas. Agora, o caso do Vinícius é outro. Ele é um poeta inumerável. Ele vem das grandes paixões, das grandes complexidades, das perplexidades humanas. Ele era 300, ele era 350, como diria o nosso Mário de Andrade. Manoel de Barros só é um bugre perturbado.
Estado - Existe essa entidade chamada poesia brasileira ou existem apenas poetas nascidos no Brasil?
Barros - Penso que existe sim uma poesia brasileira. Uma poesia que expresa a nossa alma e o nosso quintal. Porém, a linguagem, o tratamento que o poeta imprima à sua matéria pode fazer dele um poeta universal. Assim, as nossas particularidades podem ser universais por meio das palavras. Temos poetas do mundo nascidos no Brasil.
Estado - Como foi sua relação com o editor Ênio Silveira, recém- falecido?
Barros - Do Ênio fui amigo e companheiro desde o primeiro dia que conversamos. Uma das criaturas mais puras, mais honestas, mais idealistas que conheci. Um ser de escol - como se diz. Trocamos cartas por muitos anos. Trocamos amizades. Mandava a ele os meus originais e ficava quieto, esperando. De repente, me mandava as provas. Fazia questão de escrever as orelhas. Tenho cinco livros lançados por ele.
Estado - Como é hoje sua rotina de poeta?
Barros - Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo "lugar de ser inútil". Exploro há 60 anos esses mistéros. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc. Faço escavações. Entro às 7 horas, saio ao meio-dia. Anoto coisas em pequenos cadernos de rascunho. Arrumo versos, frases, desenho bonecos. Leio a Bíblia, dicionários, às vezes percorro século para descobrir o primeiro esgar de uma palavra. E gosto de ouvir e ler Vozes da Origem. Gosto de coissa que começam assim: "Antigamente, o tatu era gente e namorou a mulher de outro homem." Está no livro Vozes da Origem, da antropóloga Betty Mindlin. Essas leituras me ajudam a explorar os mistérios irracionais. Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento.
Estado - Seu último livro publicado se chama O livro das Ignorãças (Civilização Brasileira, 1983). A citação de abertura é eloqüente: "As coisas que não existem são mais bonitas." Qual é o papel da ignorância na atividade poética?
Barros - Gosto de ver o que não aparece. Um que não era o adivinha de Tebas, o Tirésias, um que era apenas o Pote-Cru, andejo de beira de rios, criado em grotas de preá, me disse um dia: "Eu tenho vaticínios de lugares." Pote-Cru, ele tinha percepções sensoriais largas, como os adivinhos, os videntes, os bruxos, os urgos, os demiurgos, os curandeiros, os magos. Essa gente toda usa muito a ignorância para nos conhecer. Como é que eles podem dizer: "Vi a tarde se encolher no olho de um pássaro?" Entretanto, se encolhe! Como é que eles podem dizer: "Os carrapichos não pregam no vento." E, entretanto, não pregam. Essas descobertas vêm da ignorância.
Estado - Você vive em uma região brasileira em que a natureza, mal ou bem, ainda resiste. Há futuro para a natureza?
Barros - No grande futuro, não sei o que seja, acho que o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo. Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser. Aquela liberdade que o homem tem de se sentir livre para o silêncio das árvores não vai ter mais. O idioma não vai servir mais para celebrar. O ser não vai mais comungar com as coisas. A imaginação não vai mais desabrochar, porque os nossos desejos e fantasias serão realizados. O mundo vai ter outro cheiro. Salvo não seja.
1 933
Dílson Catarino
Passado Quebrado
Não há muros intransponíveis
Não há linhas sempre retas
Nem há o dia certo
É melhor deixar tudo pra depois
E nada dizer a eles.
Peixes não adoram deuses
Talvez por isso sejam tão serenos
E tudo passa por eles
Como se nada fosse.
Muros altos, linhas tortas
Como saber o que fazer?
Durante tanto tempo sem nada entender
Acordando somente com a noite
Sem coragem de se olhar ao espelho
Sem coragem de crescer
Somente olhar à lua
Sentado à mesa de um bar
A caminhar pela escuridão
Querendo ser assim por toda a vida.
Em mim, tudo mudou,
e ninguém me avisou
Ainda procuro meus óculos quebrados
pra enxergar melhor o passado
que também se quebrou.
Ainda sinto meus longos cabelos
Cortados como minha liberdade
Podados como minha ingenuidade.
Não há linhas sempre retas
Nem há o dia certo
É melhor deixar tudo pra depois
E nada dizer a eles.
Peixes não adoram deuses
Talvez por isso sejam tão serenos
E tudo passa por eles
Como se nada fosse.
Muros altos, linhas tortas
Como saber o que fazer?
Durante tanto tempo sem nada entender
Acordando somente com a noite
Sem coragem de se olhar ao espelho
Sem coragem de crescer
Somente olhar à lua
Sentado à mesa de um bar
A caminhar pela escuridão
Querendo ser assim por toda a vida.
Em mim, tudo mudou,
e ninguém me avisou
Ainda procuro meus óculos quebrados
pra enxergar melhor o passado
que também se quebrou.
Ainda sinto meus longos cabelos
Cortados como minha liberdade
Podados como minha ingenuidade.
739
Olympia Mahu
Voar, voar
Não entendo como te admiras
Quando quero sair para voar sozinha.
Quero sair, voar
Voar bem alto...
Quem sabe, até, um vôo errante,
Estabanado, atropelado
Quem sabe, até, em queda livre..
Já vivi bastante sob tuas asas
Não tenho queixas, apenas alguns medos.
Quero soltar-me
Mostrar quem sou, o que aprendi
Que sei, não esqueço, Muito foi contigo...
Desprender-me de ti, é como soltar as amarras
Cortar o cordão que muito me protegeu
Mas, que hoje me aprisiona...
Gratidão te tenho demais
Mas, a inquietude é ainda maior.
Preciso sair por aí
Descobrir-me
Saber quem sou, o que faço,
Por onde caminhar...
Não te assuste!
Que bom que ainda tenho muitas dúvidas dentro de mim
E força suficiente para descobri-las
Quem sabe, solucioná-las.
Quero de ti a amizade, o apoio e o carinho
Coisas tão grande em ti
Que divides tão bem com todos.
Quero poder crescer
Para estar sempre por perto
Merecendo o teu respeito...
Olimpya Mahu, 26/7/94
Quando quero sair para voar sozinha.
Quero sair, voar
Voar bem alto...
Quem sabe, até, um vôo errante,
Estabanado, atropelado
Quem sabe, até, em queda livre..
Já vivi bastante sob tuas asas
Não tenho queixas, apenas alguns medos.
Quero soltar-me
Mostrar quem sou, o que aprendi
Que sei, não esqueço, Muito foi contigo...
Desprender-me de ti, é como soltar as amarras
Cortar o cordão que muito me protegeu
Mas, que hoje me aprisiona...
Gratidão te tenho demais
Mas, a inquietude é ainda maior.
Preciso sair por aí
Descobrir-me
Saber quem sou, o que faço,
Por onde caminhar...
Não te assuste!
Que bom que ainda tenho muitas dúvidas dentro de mim
E força suficiente para descobri-las
Quem sabe, solucioná-las.
Quero de ti a amizade, o apoio e o carinho
Coisas tão grande em ti
Que divides tão bem com todos.
Quero poder crescer
Para estar sempre por perto
Merecendo o teu respeito...
Olimpya Mahu, 26/7/94
1 061
Angela Carneiro
Armário
Arrumar o armário
passei um bom tempo da vida pensando em arrumar o armário
passei um tempo menor da vida realmente arrumando o armário
E nesse arrumar de armário
há um desarrumar de emoções
coisas desaparecidas
aparecem no armário, na mente, no coração
Pouca coisa énecessária par se arrumar o armário
umpequeno banco,
uma grande cesta de lixo
alguma criatividade
muita boa-vontade
e tempo
o tempo passa ao se arrumar o armário
passa-se o tempo
ao contrário do sentido do relógio
pensa-se o tempo
Caixas e gavetas
coisas acumuladas
pastas, recortes, papéis, apostilhas, assuntos
ao arrumar a coleção empilhada
a ampulheta da mente revira
Por que guardei isso no armário e não na memória?
Por que errei esta questão na prova de história?
Lixo!
A bola de ping-pong o gordo atirou na prova de geometria com a área
do círculo ao redor
Lixo!
Um papel dobrado como gaivota
apenas a palavra azul desenhada a pena
(ai, esse tempo que não volta e dá voltas!)
E um pouco do passado é rasgado ejogado na cesta de lixo
Tudo é novamente selecionado
e novamente guardado
no armário e na mente
armariamente
mente novamente armada
armário novamente limpo
tentativa de organizar a memória e o quarto
por pouco tempo
pois mais um quarto da vida será passado
pensando-se em arrumar o armário.
passei um bom tempo da vida pensando em arrumar o armário
passei um tempo menor da vida realmente arrumando o armário
E nesse arrumar de armário
há um desarrumar de emoções
coisas desaparecidas
aparecem no armário, na mente, no coração
Pouca coisa énecessária par se arrumar o armário
umpequeno banco,
uma grande cesta de lixo
alguma criatividade
muita boa-vontade
e tempo
o tempo passa ao se arrumar o armário
passa-se o tempo
ao contrário do sentido do relógio
pensa-se o tempo
Caixas e gavetas
coisas acumuladas
pastas, recortes, papéis, apostilhas, assuntos
ao arrumar a coleção empilhada
a ampulheta da mente revira
Por que guardei isso no armário e não na memória?
Por que errei esta questão na prova de história?
Lixo!
A bola de ping-pong o gordo atirou na prova de geometria com a área
do círculo ao redor
Lixo!
Um papel dobrado como gaivota
apenas a palavra azul desenhada a pena
(ai, esse tempo que não volta e dá voltas!)
E um pouco do passado é rasgado ejogado na cesta de lixo
Tudo é novamente selecionado
e novamente guardado
no armário e na mente
armariamente
mente novamente armada
armário novamente limpo
tentativa de organizar a memória e o quarto
por pouco tempo
pois mais um quarto da vida será passado
pensando-se em arrumar o armário.
1 788
Cândida Alves
Todo corpo
Todo corpo
Toda vida explica nos seus rastros
Sempre uma notícia escrita nos seus traços
Todos os anseios no mover dos braços
Todo corpo traz um benefício sobre suas curvas
E algum sacrifício com lembranças turvas
Marca suas dobras
Todo corpo amado ou desolado chora
Toda sua virtude e seu pecado aflora
Todo corpo uma mente oculta
Todo corpo é alma enquanto vida pulsa
Toda vida explica nos seus rastros
Sempre uma notícia escrita nos seus traços
Todos os anseios no mover dos braços
Todo corpo traz um benefício sobre suas curvas
E algum sacrifício com lembranças turvas
Marca suas dobras
Todo corpo amado ou desolado chora
Toda sua virtude e seu pecado aflora
Todo corpo uma mente oculta
Todo corpo é alma enquanto vida pulsa
1 038
Carlos Nóbrega
O Século Seguinte
eis o tempo
da profunda busca
Em que se busca
o que já está nas mãos
da profunda busca
Em que se busca
o que já está nas mãos
902
Castro Alves
PELAS SOMBRAS
Ao Padre Francisco de Paula
Cest que je suis frappé du doute.
Cest que létoile de la foi
Néclaire plus ma noire route.
Tout est abime autour de moi!
La Morvonnais
Senhor! A noite é brava... a praia é toda escolhos.
Ladram na escuridão das Circes as cadelas...
As lívidas marés atiram, a meus olhos,
Cadáveres, que riem à face das estrelas!
Da garça do oceano as ensopadas penas
O mórbido suor enxugam-me da testa.
Na aresta do rochedo o pé se firma apenas...
No entanto ouço do abismo a rugidora festa! ...
Nas orlas de meu manto o vendaval senrola. . .
Como invisível destra açoita as faces minhas...
Enquanto que eu tropeço... um grito ao longe rola...
"Quem foi?" perguntam rindo as solidões marinhas.
Senhor! Um facho ao menos empresta ao caminhante.
A treva me assoberba... O Deus! dá-me um clarão!
————
E uma Voz respondeu nas sombras triunfante:
"Acende, ó Viajor! — o facho da Razão!"
...........................................................................
Senhor! Ao pé do lar, na quietação, na calma
Pode a flama subir brilhante, loura, eterna;
Mas quando os vendavais, rugindo, passam nalma,
Quem pode resguardar a trêmula lanterna?
Torcida... desgrenhada aos dedos da lufada
Bateu-me contra o rosto... e se abismou na treva,
Eu vi-a vacilar... e minha mão queimada
A lâmpada sem luz embalde ao raio eleva.
Quem fez a gruta — escura, o pirilampo cria!
Quem fez a noite — azul, inventa a estrela clara!
Na fronte do oceano — acende uma ardentia!
Com o floco do Santelmo — a tempestade aclara!
Mas ai! Que a treva interna — a dúvida constante —
Deixaste assoberbar-me em funda escuridão! ...
E uma Voz respondeu nas sombras triunfante:
"Acende, ó Viajor! a Fé no coração!..."
Cest que je suis frappé du doute.
Cest que létoile de la foi
Néclaire plus ma noire route.
Tout est abime autour de moi!
La Morvonnais
Senhor! A noite é brava... a praia é toda escolhos.
Ladram na escuridão das Circes as cadelas...
As lívidas marés atiram, a meus olhos,
Cadáveres, que riem à face das estrelas!
Da garça do oceano as ensopadas penas
O mórbido suor enxugam-me da testa.
Na aresta do rochedo o pé se firma apenas...
No entanto ouço do abismo a rugidora festa! ...
Nas orlas de meu manto o vendaval senrola. . .
Como invisível destra açoita as faces minhas...
Enquanto que eu tropeço... um grito ao longe rola...
"Quem foi?" perguntam rindo as solidões marinhas.
Senhor! Um facho ao menos empresta ao caminhante.
A treva me assoberba... O Deus! dá-me um clarão!
————
E uma Voz respondeu nas sombras triunfante:
"Acende, ó Viajor! — o facho da Razão!"
...........................................................................
Senhor! Ao pé do lar, na quietação, na calma
Pode a flama subir brilhante, loura, eterna;
Mas quando os vendavais, rugindo, passam nalma,
Quem pode resguardar a trêmula lanterna?
Torcida... desgrenhada aos dedos da lufada
Bateu-me contra o rosto... e se abismou na treva,
Eu vi-a vacilar... e minha mão queimada
A lâmpada sem luz embalde ao raio eleva.
Quem fez a gruta — escura, o pirilampo cria!
Quem fez a noite — azul, inventa a estrela clara!
Na fronte do oceano — acende uma ardentia!
Com o floco do Santelmo — a tempestade aclara!
Mas ai! Que a treva interna — a dúvida constante —
Deixaste assoberbar-me em funda escuridão! ...
E uma Voz respondeu nas sombras triunfante:
"Acende, ó Viajor! a Fé no coração!..."
2 077
Bartyra Soares
Mutatis Mutandis
Tomo a forma do mar.
Se é preciso que em minhas águas
navegue o vento e em mim
o sol refaça caminhos
de impulsos e chamas verdes
não me furto ao compromisso que hoje
me impõe esta manhã.
Minhas águas de sal e segredo
ferem-se na aspereza dos corais
e por não ser lâmina e por não
ser espinho não tenho
como revidar. Deixo que minha dor
em mim desabe. Recolho meu grito
de incertezas e convicções.
E quando a última gaivota
da tarde no poente pousar
a sombra do seu cansaço
só então serei quem fui.
Assim sobre penhascos
e dunas não mais depositarei
lembranças e sargaços.
Se é preciso que em minhas águas
navegue o vento e em mim
o sol refaça caminhos
de impulsos e chamas verdes
não me furto ao compromisso que hoje
me impõe esta manhã.
Minhas águas de sal e segredo
ferem-se na aspereza dos corais
e por não ser lâmina e por não
ser espinho não tenho
como revidar. Deixo que minha dor
em mim desabe. Recolho meu grito
de incertezas e convicções.
E quando a última gaivota
da tarde no poente pousar
a sombra do seu cansaço
só então serei quem fui.
Assim sobre penhascos
e dunas não mais depositarei
lembranças e sargaços.
769
Bandeira Tribuzi
O homem em pele e osso
A pele é superfície,
os ossos são entranha.
A pele é o que se vê,
os ossos o que escapa.
A pele é uma casca,
os ossos uma safra.
A pele é entrega,
o osso é arma.
A pele é palma,
o osso é clava.
A pele é a pintura,
os ossos são a casa.
A pele é o acidente,
o osso o permanente.
A pele são as nuvens,
os ossos são a água.
A pele são os musgos,
os ossos são as montanhas.
A pele é o agora,
os ossos são milênios.
A pele é um orvalho,
os ossos são invernos.
(Pele & Osso / 1970)
os ossos são entranha.
A pele é o que se vê,
os ossos o que escapa.
A pele é uma casca,
os ossos uma safra.
A pele é entrega,
o osso é arma.
A pele é palma,
o osso é clava.
A pele é a pintura,
os ossos são a casa.
A pele é o acidente,
o osso o permanente.
A pele são as nuvens,
os ossos são a água.
A pele são os musgos,
os ossos são as montanhas.
A pele é o agora,
os ossos são milênios.
A pele é um orvalho,
os ossos são invernos.
(Pele & Osso / 1970)
3 399
Bento Prado Júnior
Como se engana o século presente
Como se engana o século presente,
cuja atenção se volta para fora,
nesse obstante afã que se demora
na só preocupação do mundo ambiente!
Não percebe que o objeto que enamora
não é a realidade que pressente,
mas ilusão falaz que aos olhos mente
e, como o tempo, assim se vai embora.
Mais feliz e mais sábio, com certeza,
quem, ao lume do espírito, investiga
os arcanos do ser, região secreta,
onde o que busca, encontra, na pureza
da alma que, presa ao tempo, se castiga,
mas, em Deus, se liberta e se completa!
cuja atenção se volta para fora,
nesse obstante afã que se demora
na só preocupação do mundo ambiente!
Não percebe que o objeto que enamora
não é a realidade que pressente,
mas ilusão falaz que aos olhos mente
e, como o tempo, assim se vai embora.
Mais feliz e mais sábio, com certeza,
quem, ao lume do espírito, investiga
os arcanos do ser, região secreta,
onde o que busca, encontra, na pureza
da alma que, presa ao tempo, se castiga,
mas, em Deus, se liberta e se completa!
1 341
Batista de Lima
Pródigo
Sempre retorno para casa
não para a casa
para onde sempre retorno
Retorno para uma outra casa
que carrego aos ombros
para outra casa
que me carrega aos ombros
Sempre carrego essa casa do retorno
que cabe em qualquer casa
e não cabe em casa alguma
Não adianta a casa onde nasci
nem a casa onde todo dia nasço
A casa que carrego
não tem portas nem paredes
nem ocupa terreno algum
A casa que carrego
é apenas uma casa
uma profunda e vasta casa
não para a casa
para onde sempre retorno
Retorno para uma outra casa
que carrego aos ombros
para outra casa
que me carrega aos ombros
Sempre carrego essa casa do retorno
que cabe em qualquer casa
e não cabe em casa alguma
Não adianta a casa onde nasci
nem a casa onde todo dia nasço
A casa que carrego
não tem portas nem paredes
nem ocupa terreno algum
A casa que carrego
é apenas uma casa
uma profunda e vasta casa
1 108
Beatriz Azevedo
Eu sou a Beatriz
eu sou a beatriz
sem dentes
eu sou a beatriz
dândi abundante
eu sou a beatriz
estridente gigante
eu não sou mais
a beatriz de Dante
sem dentes
eu sou a beatriz
dândi abundante
eu sou a beatriz
estridente gigante
eu não sou mais
a beatriz de Dante
942
Aymar Mendonça
Canto de Alma e Flores
Fantasio a alma
com o canto da consciência
Há pinheiros bordados na toalha
e perfume de hortênsias no jardim
No grito estridente do grilo
vão-se as horas
e num galho seco
a cotovia canta
Mas chega a noite
a chama da lamparina oscila
e na toalha
os pinheiros deixam cair folhas mortas
Amo esse quadro
esse recanto em que me escondo
E me preparo
para colher as flores da manhã.
com o canto da consciência
Há pinheiros bordados na toalha
e perfume de hortênsias no jardim
No grito estridente do grilo
vão-se as horas
e num galho seco
a cotovia canta
Mas chega a noite
a chama da lamparina oscila
e na toalha
os pinheiros deixam cair folhas mortas
Amo esse quadro
esse recanto em que me escondo
E me preparo
para colher as flores da manhã.
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