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Poemas neste tema

Coragem e Força

Olavo Bilac

Olavo Bilac

O Rio

Da mata no seio umbroso,
No verde seio da serra,
Nasce o rio generoso,
Que é a providência da terra.

Nasce humilde; e, pequenino,
Foge ao sol abrasador;
É um fio dágua, tão fino,
Que desliza sem rumor.

Entre as pedras se insinua,
Ganha corpo, abre caminho,
Já canta, já tumultua,
Num alegre borburinho.

Agora ao sol, que o prateia,
Todo se entrega, a sorrir;
Avança, as rochas ladeia,
Some-se, torna a surgir.

Recebe outras águas, desce
As encostas de uma em uma,
Engrossa as vagas, e cresce,
Galga os penedos, e espuma.

Agora, indômito e ousado,
Transpõe furnas e grotões,
Vence abismos, despenhado
Em saltos e cachoeirões.

E corre, galopa, cheio
De força; de vaga em vaga,
Chega ao vale, alarga o seio,
Cava a terra, o campo alaga . . .

Expande-se, abre-se, ingente,
Por cem léguas, a cantar,
Até que cai finalmente,
No seio vasto do mar . . .

Mas na triunfal majestade
Dessa marcha vitoriosa,
Quanto amor, quanta bondade
Na sua alma generosa!

A cada passo que dava
O nobre rio, feliz
Mais uma árvore criava,
Dando vida a uma raiz.

Quantas dádivas e quantas
Esmolas pelos caminhos!
Matava a sede das plantas
E a sede dos passarinhos . . .

Fonte de força e fartura,
Foi bem, foi saúde e pão:
Dava às cidades frescura,
Fecundidade ao sertão . . .

E um nobre exemplo sadio
Nas suas águas se encerra;
Devemos ser como o rio,
Que é a providência da terra:

Bendito aquele que é forte,
E desconhece o rancor,
E, em vez de servir a morte,
Ama a vida, e serve o Amor!

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Gonçalves Dias

Gonçalves Dias

Canto Primeiro

(...)

Dos Gamelas um chefe destemido,
Cioso d'alcançar renome e glória,
Vencendo a fama, que os sertões enchia,
Saiu primeiro a campo, armado e forte,
Guedelha e ronco dos sertões imensos,
Guerreiros mil e mil vinham trás ele,
Cobrindo os montes e juncando as matas.
Com pejado carcaz de ervadas setas
Tingidas d'urucu, segundo a usança
Bárbara e fera, desgarrados gritos
Davam no meio das canções de guerra.

Chegou, e fez saber que era chegado
O rei das selvas a propor combate
Dos Timbiras ao chefe. — "A nós só caiba
(Disse ele) a honra e a glória; entre nós ambos
Decida-se a questão do esforço e brios.
Estes, que vês, impávidos guerreiros,
São meus, que me obedecem; se me vences,
São teus; se és o vencido, os teus me sigam:
Aceita ou foge, que a vitória é minha."

"Não fugirei", responde-lhe Itajuba,
"Que os homens, meus iguais, encaram fito
O sol brilhante, e os não deslumbra o raio".

"Serás, pois que me afrontas, torna o bárbaro,
Do meu valor troféu, — e da vitória,
Qu'hei de certo alcançar, despojo opimo.
Nas tabas em que habito ora as mulheres
Tecem da sapucaia as longas cordas,
Que os pulsos teus hão de arrochar-te em breve;
E tu vil, e tu preso, e tu coberto
D'escárnio e d'irrisão! — Cheio de glória,
Além dos Andes voará meu nome!"

O filho de Jaguar sorriu-se a furto:
Assim o pai sorri ao filho imberbe,
Que, desprezado o arco seu pequeno,
Talhado para aquelas mãos sem forças,
Tenta doutro maior curvar as pontas,
Que vezes três o mede em toda a altura!

Travaram luta fera os dois guerreiros.
Primeiro ambos de longe as setas vibram;
Amigos manitôs, que ambos protegem,
Nos ares as desgarram. Do Gamela
Entrou a frecha trêmula num tronco
E só parou no cerne; a do Timbira,
Ciciando veloz, fugiu mais longe,
Roçando apenas os frondosos cimos.
Encontram-se os Tacapes, lá se partem;
Ambos o punho inútil rejeitando,
Estreitam-se valentes: braço a braço,
Alentando açodados, peito a peito,
Revolvem fundo a terra aos pés, e ao longe
Rouqueja o peito arfado um som confuso.

(...)

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Publicado no livro Os Timbiras (1857).

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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Fagundes Varela

Fagundes Varela

O General Juarez

(...)

Juarez! Juarez! sempre teu nome
Da liberdade ao lado!
Sempre teus brados ao passar dos ventos!
Sempre a lembrança tua
A cada marulhar de humanas vagas!
Em que fonte sagrada
Bebeste esse valor e essa firmeza
Que os reveses não quebram?

(...)

Quão enganada marcha a tirania!
Quão cego o despotismo
Paira e volteia nessas virgens plagas!
Há no seio da América
Um mundo novo a descobrir-se ainda:
Senhores de além-mar,
Quereis saber onde esse mundo existe?
Quereis saber seu nome?
Sondai o peito à raça americana,
E nesse mar sem fundo,
Inda aquecido pelo mar primeiro,
Vereis a liberdade!

Tu a encaraste, Juarez, de perto!
No mais fundo das matas
Onde a mãe natureza te mostrava
Um código mais puro
Do que os preceitos da infernal ciência
Cujas letras malditas
Queimam do pergaminho a lisa face,
Aprendeste o segredo
Que desde a hora prima do universo
As torrentes murmuram!
E contemplando o ermo, o céu, as águas,
Choraste por ser homem!

Mas dos vulcões sorvendo o fumo espesso,
Transpondo os areais,
Buscando asilo nas florestas amplas,
Arrostando as tormentas
Entre um pugilo de guerreiros bravos,
Pejaste de legendas
Todo o deserto que teus pés tocaram!
E as solidões sorriam,
Os abutres saíam de seus antros,
As turbas dos selvagens
Vinham surpresas se postar nos montes
Para ver-te passar!

O espírito de um povo nunca morre.
Não, não foram os homens
Que sobre o globo prolongando a vista,
Regiões escolheram,
E formaram nações, usos e crenças;
Não, uma oculta lei
Disse: — Ao Árabe as terras arenosas,
Aos Germanos a neve;
Aqui o fogo, a luz, ali neblinas;
Nesta calmos pastores,
Ali fortes guerreiros; sonhos, crenças,
Lhes servem de defesa.

(...)

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Publicado no livro Cantos do ermo e da cidade: poesia (1869).

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.17
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