Poemas neste tema
Criatividade e Inspiração
Octavio Paz
Bajo tu clara sombra
Bajo tu clara sombra
vivo como la llama al aire,
en tenso aprendizaje de lucero.
vivo como la llama al aire,
en tenso aprendizaje de lucero.
1 455
Luiza Neto Jorge
Encantatória
Custa é saber
como se invoca o ser
que assiste à escrita,
como se afina a má-
quina que a dita,
como no cárcere
nu se evita,
emparedado,a lá-
grima soltar.
Custa é saber
como se emenda morte,
ou se a desvia,
como a tecla certa arreda
do branco suporte
a porcaria.
de A Lume
como se invoca o ser
que assiste à escrita,
como se afina a má-
quina que a dita,
como no cárcere
nu se evita,
emparedado,a lá-
grima soltar.
Custa é saber
como se emenda morte,
ou se a desvia,
como a tecla certa arreda
do branco suporte
a porcaria.
de A Lume
2 266
Rainer Maria Rilke
A hora inclina-se
A hora inclina-se
e toca-me
com golpe claro,metálico:
Tremem-me os sentido.Sinto : eu posso-
e agarro o dia plástico.
Nenhuma coisa
era perfeita antes de eu a olhar,
todo o devir parara.
A cada um dos meus olhares,agora já maduros,
vem,como noiva,a coisa apetecida.
Nada é
pequeno para mim,e amo-o apesar de tudo
e pinto-o em fundo de ouro,e grande,
e ergo-o ao alto,e não sei a quem
libertará a alma...
e toca-me
com golpe claro,metálico:
Tremem-me os sentido.Sinto : eu posso-
e agarro o dia plástico.
Nenhuma coisa
era perfeita antes de eu a olhar,
todo o devir parara.
A cada um dos meus olhares,agora já maduros,
vem,como noiva,a coisa apetecida.
Nada é
pequeno para mim,e amo-o apesar de tudo
e pinto-o em fundo de ouro,e grande,
e ergo-o ao alto,e não sei a quem
libertará a alma...
1 334
Luiza Neto Jorge
A magnólia
A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu resplendor.
Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria-na metáfora-
necessária,e leve,a cada um
onde se ecoa e resvala.
A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,
um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.
de O Seu Tempo a Seu Tempo
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu resplendor.
Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria-na metáfora-
necessária,e leve,a cada um
onde se ecoa e resvala.
A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,
um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.
de O Seu Tempo a Seu Tempo
4 101
Natércia Freire
Cor
É preciso soltar o ritmo que me
prende.Esta amarra de ferro à palavra e ao som.Emudecer,
no espaço, o arco e a correnteE ser nesta
varanda um pouco só de cor.Não saber se uma flor é
mesmo uma criança.Se um muro de jardim é proa de
navio.Se o monumento fala, se o monumento dança.Se
esta menina cega é uma estátua de frio.Um pássaro
que voa pode ser um perfume.Uma vela no rio, um
lenço no meu rosto.Na tarde de Fevereiro estar um
dia de Outubro.Nos meus olhos de morta uma noite
de Agosto.É preciso soltar o ritmo das
marés,Das estações, do Amor, dos signos e das águas,Os
duendes das plantas, os génios dos rochedosNos
cabelos do Vento, as tranças de
arvoredos.Desordenai-me, luz! Que nada mais dependaDas águas, das
marés, dos signos e do Amor.É preciso calar o arco e
a correnteE ser nesta varanda um pouco só de
cor.
prende.Esta amarra de ferro à palavra e ao som.Emudecer,
no espaço, o arco e a correnteE ser nesta
varanda um pouco só de cor.Não saber se uma flor é
mesmo uma criança.Se um muro de jardim é proa de
navio.Se o monumento fala, se o monumento dança.Se
esta menina cega é uma estátua de frio.Um pássaro
que voa pode ser um perfume.Uma vela no rio, um
lenço no meu rosto.Na tarde de Fevereiro estar um
dia de Outubro.Nos meus olhos de morta uma noite
de Agosto.É preciso soltar o ritmo das
marés,Das estações, do Amor, dos signos e das águas,Os
duendes das plantas, os génios dos rochedosNos
cabelos do Vento, as tranças de
arvoredos.Desordenai-me, luz! Que nada mais dependaDas águas, das
marés, dos signos e do Amor.É preciso calar o arco e
a correnteE ser nesta varanda um pouco só de
cor.
1 510
Jorge Melícias
Roda em torno o bafo do nome,
e o homem está como um fole a prumo
sob o arco da língua.
Outras vezes é uma vara fincada
ao centro.
Abre a ideia,
sustenta o fogo nas mãos,
arde ao meio como um ofício puro.
de A Luz nos Pulmões(2000)
sob o arco da língua.
Outras vezes é uma vara fincada
ao centro.
Abre a ideia,
sustenta o fogo nas mãos,
arde ao meio como um ofício puro.
de A Luz nos Pulmões(2000)
874
Jorge Melícias
Os dedos batem no nome e estancam
Não há profundidade depois disso.
queria emergir magnífico
do meu fôlego,
cantar sob os foles da língua.
digo que todo o nome é dançado,
que freme como tocado de dentro.
queria emergir magnífico
do meu fôlego,
cantar sob os foles da língua.
digo que todo o nome é dançado,
que freme como tocado de dentro.
799
John Ashbery
Paradoxes and Oxymorons
Paradoxes and Oxymorons
This poem is concerned with language on a very plain level.
Look at it talking to you. You look out a window
Or pretend to fidget. You have it but you don’t have it.
You miss it, it misses you. You miss each other.
The poem is sad because it wants to be yours, and cannot.
What’s a plain level? It is that and other things,
Bringing a system of them into play. Play?
Well, actually, yes, but I consider play to be
A deeper outside thing, a dreamed role-pattern,
As in the division of grace these long August days
Without proof. Open-ended. And before you know
It gets lost in the stream and chatter of typewriters.
It has been played once more. I think you exist only
To tease me into doing it, on your level, and then you aren’t there
Or have adopted a different attitude. And the poem
Has set me softly down beside you. The poem is you.
This poem is concerned with language on a very plain level.
Look at it talking to you. You look out a window
Or pretend to fidget. You have it but you don’t have it.
You miss it, it misses you. You miss each other.
The poem is sad because it wants to be yours, and cannot.
What’s a plain level? It is that and other things,
Bringing a system of them into play. Play?
Well, actually, yes, but I consider play to be
A deeper outside thing, a dreamed role-pattern,
As in the division of grace these long August days
Without proof. Open-ended. And before you know
It gets lost in the stream and chatter of typewriters.
It has been played once more. I think you exist only
To tease me into doing it, on your level, and then you aren’t there
Or have adopted a different attitude. And the poem
Has set me softly down beside you. The poem is you.
1 220
Walt Whitman
Sometimes with One I Love
Sometimes with One I Love
Sometimes with one I love I fill myself with rage for fear I
effuse unreturnd love,
But now I think there is no unreturnd love, the pay is
certain one way or another,
(I loved a certain person ardently and my love was not
returnd,
Yet out of that I have written these songs.)
Sometimes with one I love I fill myself with rage for fear I
effuse unreturnd love,
But now I think there is no unreturnd love, the pay is
certain one way or another,
(I loved a certain person ardently and my love was not
returnd,
Yet out of that I have written these songs.)
1 752
Cláudio Ferro
Se aqui me manifesto
Se aqui me manifesto
por ter lido o teu...
E que o desejo meu
ede nao estar infesto
pelas poesias, e sim
repleto, satisfeito e feliz.
Pensava que estava so.
Mas neste mundo tao...
...tao imenso, vejo que,
existem monumentos
e pessoas grandes.
Viva a nossa poesia!
Com ou sem rima!
Bonita!
Feia!
Alegre!
Triste!
Que elas falam.
Que elas existem.
Porque nossos corações batem!
por ter lido o teu...
E que o desejo meu
ede nao estar infesto
pelas poesias, e sim
repleto, satisfeito e feliz.
Pensava que estava so.
Mas neste mundo tao...
...tao imenso, vejo que,
existem monumentos
e pessoas grandes.
Viva a nossa poesia!
Com ou sem rima!
Bonita!
Feia!
Alegre!
Triste!
Que elas falam.
Que elas existem.
Porque nossos corações batem!
835
Alberto de Serpa
Um Jovem Camarada
Meu Camarada moço,
— Lidos os teus poemas,
Dizer-te que não temas
Dar-lhes fogo, a morte, o esquecimento,
Se queres a Poesia, vai para ela
Puro, desnudo, de ímpeto violento,
Como para a mulher
Em que parou teu sonho, — se és o seu.
Vai, como ela te quer.
Mas se outra chama inflama o teu amor,
se outro sonho tão belo te rendeu,
Tem a coragem nobre de depor
Os versos que não são teu instrumento.
Toma outras armas mais condizentes.
Não, a Poesia não a violentes!
Deixa os versos ao vento ...
— Lidos os teus poemas,
Dizer-te que não temas
Dar-lhes fogo, a morte, o esquecimento,
Se queres a Poesia, vai para ela
Puro, desnudo, de ímpeto violento,
Como para a mulher
Em que parou teu sonho, — se és o seu.
Vai, como ela te quer.
Mas se outra chama inflama o teu amor,
se outro sonho tão belo te rendeu,
Tem a coragem nobre de depor
Os versos que não são teu instrumento.
Toma outras armas mais condizentes.
Não, a Poesia não a violentes!
Deixa os versos ao vento ...
1 604
Carlos Figueiredo
Marpalavrilhar
e sombras, e enraizar coisas
e esse existir sempre, que não existia antes de ser imaginado
maior enigma que todos
como se fosse possível ter uma foto
nada, entre
balbucios, espaços entrecortados de sílabas, correntes de
prefixos, de ventos, assoprados por rimas, como se
houvessem dedos que procurassem segurar as cordas de uma
lira de areia, os enganos, as mentiras, os uivos, os olhares
lançados por maiúsculas, vôo de sinônimos, política das
relações oblíquas dos fonemas, prazeres guturais,
palatais, sibilantes, recurvados entre o balaústre de
hemistíquios, ávidos de presa, em seu pequeno choro
consonantal, nasal, linguodental, a epifania do som perfeito
da glota na invocação dos mistérios, vogais abertas ao ritmo
solar da andadura, pausa e percussão ocultas na cor da rima obscura,
ó falar dos gênios, em ão, em inhas, até o Poder. Ah! ervinhas a quem,
somente tu, Inês, dizias o nome que no peito, oculto tinhas.
"O perfume que dali se exala, já a deusa".
Nas palavras há galáxias distantes, onde talvez existam
estrelas em torno das quais girem planetas, fecundos
habitados por formas que desconhecemos, estrelas mortas,/
formadas
por desejos
iguais aqueles
necessários às reticências
distintos desses continentes que foram descobertos pelos
navegantes, na superfície do Planeta, apenas na forma em que
se apresentam, em mapa
onde cada ilha, arquipélago, promontório ou continente
submerge em um mar ausente, semelhante às coisas expostas ao
esquecimento, na luz do entardecer, além de qualquer
descobridor, entes aos quais não se pode ir ter com eles e
ao seu navegante o que cabe é criá-los, pelo dom que tem o
nome, ao ser dado às coisas
Marfim
Nota do Poema marpalavrilhar
" O perfume que dali se exala, já a deusa"
Castilho, "Amor e Melancolia"
e esse existir sempre, que não existia antes de ser imaginado
maior enigma que todos
como se fosse possível ter uma foto
nada, entre
balbucios, espaços entrecortados de sílabas, correntes de
prefixos, de ventos, assoprados por rimas, como se
houvessem dedos que procurassem segurar as cordas de uma
lira de areia, os enganos, as mentiras, os uivos, os olhares
lançados por maiúsculas, vôo de sinônimos, política das
relações oblíquas dos fonemas, prazeres guturais,
palatais, sibilantes, recurvados entre o balaústre de
hemistíquios, ávidos de presa, em seu pequeno choro
consonantal, nasal, linguodental, a epifania do som perfeito
da glota na invocação dos mistérios, vogais abertas ao ritmo
solar da andadura, pausa e percussão ocultas na cor da rima obscura,
ó falar dos gênios, em ão, em inhas, até o Poder. Ah! ervinhas a quem,
somente tu, Inês, dizias o nome que no peito, oculto tinhas.
"O perfume que dali se exala, já a deusa".
Nas palavras há galáxias distantes, onde talvez existam
estrelas em torno das quais girem planetas, fecundos
habitados por formas que desconhecemos, estrelas mortas,/
formadas
por desejos
iguais aqueles
necessários às reticências
distintos desses continentes que foram descobertos pelos
navegantes, na superfície do Planeta, apenas na forma em que
se apresentam, em mapa
onde cada ilha, arquipélago, promontório ou continente
submerge em um mar ausente, semelhante às coisas expostas ao
esquecimento, na luz do entardecer, além de qualquer
descobridor, entes aos quais não se pode ir ter com eles e
ao seu navegante o que cabe é criá-los, pelo dom que tem o
nome, ao ser dado às coisas
Marfim
Nota do Poema marpalavrilhar
" O perfume que dali se exala, já a deusa"
Castilho, "Amor e Melancolia"
947
Adriana Sampaio
Álcool
Álcool
Não tenho gostado do que tenho escrito
Não tenho conseguido destilar minhas idéias
Não, definitivamente, não sou uma destilaria.
Não tenho gostado do que tenho escrito
Não tenho conseguido destilar minhas idéias
Não, definitivamente, não sou uma destilaria.
899
Renier Dias Pereira
Essência
Essência
Eu quero a rima pobre , paupérrimaEu quero os mais puros sentimentosEu quero o exagero , a língua erradaEu quero a dor , a alegria , o sofrimentoEu quero o íntimo , veias abertas Eu quero a sem-vergonhice , a poesia vivaEu quero o discurso em chamasEu quero o parto normal de uma vidasem limites...
Eu quero a rima pobre , paupérrimaEu quero os mais puros sentimentosEu quero o exagero , a língua erradaEu quero a dor , a alegria , o sofrimentoEu quero o íntimo , veias abertas Eu quero a sem-vergonhice , a poesia vivaEu quero o discurso em chamasEu quero o parto normal de uma vidasem limites...
1 227
Renier Dias Pereira
Êxtase
Êxtase
É mesmo uma coisa mágicavezes em que me perco falandosozinho ( uma arte ninho )
não são palavras imensas, sãolivres e refletem numcaminho gargalhada
o manifesto é para emocionar,uma emoção recíproca uma certa alogicidade ( a calçada do crime )
a priori um surrealismo extasianteuma magia só compreendida pelosfamintos - ousadia
a vida é para sempre ( me diga )o coração não pulsa mais, o soltoma seu lugar. espero a certeza de um golpe feliz.
É mesmo uma coisa mágicavezes em que me perco falandosozinho ( uma arte ninho )
não são palavras imensas, sãolivres e refletem numcaminho gargalhada
o manifesto é para emocionar,uma emoção recíproca uma certa alogicidade ( a calçada do crime )
a priori um surrealismo extasianteuma magia só compreendida pelosfamintos - ousadia
a vida é para sempre ( me diga )o coração não pulsa mais, o soltoma seu lugar. espero a certeza de um golpe feliz.
943
Renier Dias Pereira
Automatismo Extraordinário
Automatismo Extraordinário
Escrevo através de
um impulso magnífico
ora espumante ora ingênuo
sempre transcendental
num transbordamento mágico
expresso minha poesia como
asas na amplitude do infinito
a vida não acaba, o tempo não
passa, a poesia permanece
livre. Escapo do insignificante
Escrevo através de
um impulso magnífico
ora espumante ora ingênuo
sempre transcendental
num transbordamento mágico
expresso minha poesia como
asas na amplitude do infinito
a vida não acaba, o tempo não
passa, a poesia permanece
livre. Escapo do insignificante
919
Cirstina Areias
A Palavra
Para Carlos Drummond de Andrade
Os meus olhos devoram a palavra que tua boca pronunciou,
O meu pensamento absorve o teu
Emoção flui do teu corpo ao meu,
Do meu tempo ao teu.
Ler teu poema é realizar um ato de amor mágico, cósmico...
Vens dos confins do Tempo
Espírito reencarnado e errante
E escarneces da minha agonia quando exibes, assim, à minha revelia, à exaustão,
A expressão lapidar de minha particular tragédia...
É teu espírito dentro de mim
Usurpando e definindo-me com precisão de ourives,
Travestindo o sentimento comum em fina literatura...
Tu, eu a bruxa e essa dança gêmea, incestuosa e louca.
Vens dos confins do Tempo
Espírito reencarnado e errante
E acusas, com genialidade o sentimento que eu entalo na garganta.
Pasmo, vexada, ouvindo que gargalhas do Além,
Quando vês, dentro do meu cristalino choro,
O desespero de que nos teríamos amado...
Os meus olhos devoram a palavra que tua boca pronunciou,
O meu pensamento absorve o teu
Emoção flui do teu corpo ao meu,
Do meu tempo ao teu.
Ler teu poema é realizar um ato de amor mágico, cósmico...
Vens dos confins do Tempo
Espírito reencarnado e errante
E escarneces da minha agonia quando exibes, assim, à minha revelia, à exaustão,
A expressão lapidar de minha particular tragédia...
É teu espírito dentro de mim
Usurpando e definindo-me com precisão de ourives,
Travestindo o sentimento comum em fina literatura...
Tu, eu a bruxa e essa dança gêmea, incestuosa e louca.
Vens dos confins do Tempo
Espírito reencarnado e errante
E acusas, com genialidade o sentimento que eu entalo na garganta.
Pasmo, vexada, ouvindo que gargalhas do Além,
Quando vês, dentro do meu cristalino choro,
O desespero de que nos teríamos amado...
887
António de Navarro
Poema XVI
Uma nota solta
De não sei que música
Vagueia flor em flor
Como abelha de som.
Não lhe sei a cor,
Não lhe sei o tom,
— Deve ser esquiva e nívea
E faltar com certeza
Ao compositor e poeta
Que sonhou a perfeição
E a beleza
Sem mácula, que lhe adoece
De a buscar o coração
Ah, se ela quisesse
Aninhar-se na minha alma!...
De não sei que música
Vagueia flor em flor
Como abelha de som.
Não lhe sei a cor,
Não lhe sei o tom,
— Deve ser esquiva e nívea
E faltar com certeza
Ao compositor e poeta
Que sonhou a perfeição
E a beleza
Sem mácula, que lhe adoece
De a buscar o coração
Ah, se ela quisesse
Aninhar-se na minha alma!...
1 243
Juscelino Vieira Mendes
Vida Ordeira
Vida ordeira, muito só
Arrefece a incitação
de escrever composição
em casa de minha avó
Parece-me estranho
a vida caótica; de ator
É o melhor desafiador
da minha imaginação...
madrugada de julho/73.
Arrefece a incitação
de escrever composição
em casa de minha avó
Parece-me estranho
a vida caótica; de ator
É o melhor desafiador
da minha imaginação...
madrugada de julho/73.
1 097
Albano Dias Martins
Quatro
Perguntas,seguidas de um epílogo ao escultor José Rodrigues
1. Tens na
ponta do lápis uma chave
para abrir o poema.
Por onde é que ela o abre?
2. Se um besouro de asas
translúcidas entrasse
agora no poema
– tu deixavas?
3. Sabes
como se esculpe um poema
fechado a sete chaves?
4. E se uma pomba
roçasse o ângulo
raso do poema
– prendê-la-ias?
Tu que esculpes
com mãos de água o corpo
e a sombra dos dias.
in:Entre
a Cicuta e o Mosto(1992)
1. Tens na
ponta do lápis uma chave
para abrir o poema.
Por onde é que ela o abre?
2. Se um besouro de asas
translúcidas entrasse
agora no poema
– tu deixavas?
3. Sabes
como se esculpe um poema
fechado a sete chaves?
4. E se uma pomba
roçasse o ângulo
raso do poema
– prendê-la-ias?
Tu que esculpes
com mãos de água o corpo
e a sombra dos dias.
in:Entre
a Cicuta e o Mosto(1992)
1 180
Luís Represas
Pedra no charco
Caiu uma pedra no charco,
caiu um penedo no rio,
caiu mais um cabo da boa esperança no mar,
prá gente se agarrar.
Deixámos de ver as nuvens
que nos tapavam o céu,
pudemos sentir de perto a meiguice do tempo
onde a gente se escondeu.
É que hoje
nasceu mais um dia.
É que hoje
nasceu mais alguém.
É que hoje
nasceu um poeta na serra com a estrela da manhã.
Foi quando os lobos uivaram,
foi quando o lince miou,
as ovelhas não tinham fome
e a alcateia repousou.
E entre os uivos e os miados
o poeta abriu o choro.
E entre os vales e os cabeços,
cavalgando uma alcateia
o poema deslizou.
caiu um penedo no rio,
caiu mais um cabo da boa esperança no mar,
prá gente se agarrar.
Deixámos de ver as nuvens
que nos tapavam o céu,
pudemos sentir de perto a meiguice do tempo
onde a gente se escondeu.
É que hoje
nasceu mais um dia.
É que hoje
nasceu mais alguém.
É que hoje
nasceu um poeta na serra com a estrela da manhã.
Foi quando os lobos uivaram,
foi quando o lince miou,
as ovelhas não tinham fome
e a alcateia repousou.
E entre os uivos e os miados
o poeta abriu o choro.
E entre os vales e os cabeços,
cavalgando uma alcateia
o poema deslizou.
1 208
Bocage
Em louvor do grande Camões
Sobre os contrários o terror e a morte
Dardeje embora Aquiles denodado,
Ou no rápido carro ensanguentado
Leve arrastos sem vida o Teuco forte:
Embora o bravo Macedónio corte
Coa fulminante espada o nó fadado,
Que eu de mais nobre estímulo tocado,
Nem lhe amo a glória, nem lhe invejo a sorte:
Invejo-te, Camões, o nome honroso;
Da mente criadora o sacro lume,
Que exprime as fúrias de Lieu raivoso:
Os ais de Inês, de Vénus o queixume,
As pragas do gigante proceloso,
O céu de Amor, o inferno do Ciúme.
Dardeje embora Aquiles denodado,
Ou no rápido carro ensanguentado
Leve arrastos sem vida o Teuco forte:
Embora o bravo Macedónio corte
Coa fulminante espada o nó fadado,
Que eu de mais nobre estímulo tocado,
Nem lhe amo a glória, nem lhe invejo a sorte:
Invejo-te, Camões, o nome honroso;
Da mente criadora o sacro lume,
Que exprime as fúrias de Lieu raivoso:
Os ais de Inês, de Vénus o queixume,
As pragas do gigante proceloso,
O céu de Amor, o inferno do Ciúme.
1 954
Otávio Ramos
YANG
Minha música se mostra, avança
serena feito vaca mansa.
Este som, rockn roll
estandarte que tremula ao sol.
Este som, escarlate
pedra que brilha, quilate.
Mas é só uma canção
para aquecer seu coração.
Já conheço essa minha guitarra
arma, bomba, cimitarra.
Me conheço, sem eira nem beira.
Poesia, última trincheira.
Minha música, cor quente
eu quero é pratear sua mente.
Novamente.
Eu quero é pratear sua mente.
serena feito vaca mansa.
Este som, rockn roll
estandarte que tremula ao sol.
Este som, escarlate
pedra que brilha, quilate.
Mas é só uma canção
para aquecer seu coração.
Já conheço essa minha guitarra
arma, bomba, cimitarra.
Me conheço, sem eira nem beira.
Poesia, última trincheira.
Minha música, cor quente
eu quero é pratear sua mente.
Novamente.
Eu quero é pratear sua mente.
962
Fernando Pessoa
10 - THE POEM
THE POEM
There sleeps a poem in my mind
That shall my entire soul express.
I feel it vague as sound and wind
Yet sculptured in full definiteness.
It has no stanza, verse or word.
Ev'n as I dream it, it is not.
'Tis a mere feeling of it, blurred,
And but a happy mist round thought.
Day and night in my mystery
I dream and read and spell it over,
And ever round words' brink in me
Its vague completeness seems to hover.
I know it never shall be writ.
I know I know not what it is.
But I am happy dreaming it,
And false bliss, although false, is bliss.
There sleeps a poem in my mind
That shall my entire soul express.
I feel it vague as sound and wind
Yet sculptured in full definiteness.
It has no stanza, verse or word.
Ev'n as I dream it, it is not.
'Tis a mere feeling of it, blurred,
And but a happy mist round thought.
Day and night in my mystery
I dream and read and spell it over,
And ever round words' brink in me
Its vague completeness seems to hover.
I know it never shall be writ.
I know I know not what it is.
But I am happy dreaming it,
And false bliss, although false, is bliss.
4 474