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Poemas neste tema

Cultura e Tradição

Sosigenes Costa

Sosigenes Costa

Case Comigo, Mariá

Case comigo, Mariá,
que ou te dou, Mariá,
que ou te dou, Meriá,
meu coração.

(Cantiga de roda)

O mar também é casado,
o mar também tem mulher.
É casado com a areia.
Dá-lhe beijos quando quer.

(Quadra popular]

Mariá, por que não te casas,
se o mar também é casado?
Se até o peixlnho é casado...
Não sabes que o mar é casado
com uma filha do rei?
Mariá, o mar é casado
com a filha loura do rei.
Mariá, por que não te casas
se o próprio mar é casado?

Ouem é a mulher do mar?
É a sereia?
É a areia, Mariá.
É a princesa dos seios de concha.

Mandei ao mar uma rosa, Mariá,
porque ele vai se casar.
O mar pediu que a sereia, Mariá,
viesse me visitar
e agradecer o presente.
Ouando foi isto? No passado, Mariá.

Sabes que fez a sereia, Mariá?
Deu-me um punhado de areia;
esta cidade de areia,
nossa terra, Mariá.

Aquela moça da praia, Mariá,
é namorada do mar.
Só vive olhando pra as ondas
e o mar vive a suspirar.

Aquela areia da praia
veio do Engenho de Areia, Mariá.
Que bela é a mulher do mar,
em cima daquela coroa!

Areia da Pedra Branca
desceste o rio correndo.
Tu viste a Ilha das Pombas,
ah! tu viste Mariá.

Adeus, Coroa da Palha,
que eu vou aos tombos da sorte,
rolando aos tombos da vida,
caindo e me levantando.
Só me salvo se cair
nos braços de Mariá.

Donde viria esta areia?
Da serra da Pedra Redonda.
Veio de Minas, Mariá,
rolando no Rio das Pedras
e só entrou na Bahia
quando passou dando um pulo
na cachoeira do Salto.

Deu um pulo no Salto Grande
a areia, a mulher do mar.
Em cima do Salto, está Minas.
Embaixo do Salto a Bahia.
Lá em cima a água é mineira,
caindo embaixo é baiana, Mariá.

Ah! como é linda esta roda
às sete horas da noite,
à hora em que a lua cheia
acabou de sair do mar,
iluminando Belmonte
com todas as suas ruas de areia.

A lua nasce chorando
lágrimas de prata na areia.
Apanhem numa redoma este pranto,
guardem bem guardada esta jóia
que um dia será adorada.
É a lágrima azul da saudade.
Que foi? O que teve? Nada.
Apenas uma lágrima salgada
caiu dos meus olhos na areia.

Marlá, por que não te casas?
Me diga; por que não te casas
comigo, se eu quero te dar,
se eu quero te dar, Mariá,
num beijo o meu coração?

Crianças cantando roda
nas ruas brancas da areia,
naquelas ruas tão longas
como as estradas de areia.

Cantando desde a Atalaia
até a Ponta de areia.
Cantando lá na Biela,
na rua do Camba e nas Baixas
e em todas as ruas de areia.

Ah! lá no Pontal da Barra
é que brilha a lua na areia,
nas areias da Barrinha
e na estrada da Barra Velha.
Mariá, por que não te casas?
Se tu casares comigo,
sabes o que te darei, Mariá?
Sabes o que te darei, Mariá?
Quantos beijos tu quiseres,
cem beijos se tu quiseres,
Mariá, meu coração.
Deitado dontigo na areia,
dar-te-ei meu coração.

Não é só o mar que é casado, Mariá.
O peixinho também é casado.
E o passarinho é casado.
Também quero ser casado
mas contigo, Mariá.

Mariá. case comigo,
já que o mar casou com a areia.

Mariá, por que não te casas,
se o mar também é casado?

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Caio Valério Catulo

Caio Valério Catulo

O Marruêro

............................
O canto alegre dos galo
no sertão amiudava!...
Nos taquará das lagoa
as saracura cantava!...

Cantando passava um bando
das verde maracanã!
Fermosa, cumo a cabôca,
Vinha rompendo a minhã!

O vento manso da serra,
vinha acordando os caminho!
Vinha das mata chêrosa
um chêro de passarinho!...

Lá, no fundo duma gróta,
adonde um córgo gimia,
gragaiava as siriêma
cum o fresco nacê do dia.

Uma araponga, atrepada
num braço de mato, im frô,
gritava, como se fosse
os grito da minha dó!!

E a sabiá, lá nos gaio
da larangêra, serena,
cantava, cumo si fosse
uma viola de pena!

Um passarinho inxirido,
mardosamente iscundido
nas fôia de um tamburí,
satisfeito, mangofando,
de mim se ria, gritando
lá de longe: "bem te vi"!

Chegando na incruziada,
despois do dia rompê,
sipurtei o meu segredo
num véio tronco de ipê.

Dênde essa hora, inté hoje,
eu conto as hora, a pená!...
Eu vórto a sê marruêro!
Vou vivê com os marruá!

Eu tinha o corpo fechado
prá tudo o que é marvadez!
Só de surucucutinga
eu fui mordido três vez!...

Dos marruá mais bravio,
que nos grotão derribei,
munta pontada, sá dona,
munta chifrada eu levei.

Prá riba de mim, Deus pode
mandá o que ele quizé!

O mundo é grande, sá dona!...
Grande é o amô!... Grande é a fé!

Grande é o pudê de Maria,
isposa de São josé!...
O Diabo, também, sá dona,
foi grande!... Cumo inda é!!!

Mas porém, nada é mais grande,
mais grande que Deus inté,
que uma cornada dos chifre
dos óio duma muié...

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José Castello

José Castello

Flora Süssekind analisa críticos e autores

Para ela, as avaliações da produção cultural carecem de perspectiva histórica.
Nem tudo está perdido na crítica literária brasileira. Quem desejar um pouco de esperança deve ler, logo, os vigorosos ensaios da carioca Flora Süssekind, uma das mais brilhantes críticasde literatura da nova geração. Flora é uma intelectual incansável. No ano passado, publicou pela editora Sette Letras o ensaio Até Segunda Ordem Não Me Risque Nada, sobre os cadernos, os rascunhos e a poesia de Ana Cristina César.
Trabalhou também, com o rigor de sempre, na preparação da reedição das Memórias do Sobrinho de Meu Tio, de Joaquim Manuel de Macedo, editada pela Companhia das Letras, que faz parte de um amplo projeto de pesquisa sobre a época romântica brasileira. Flora retornou, também, à militância literária na imprensa, ao se tornar comentarista de livros do suplemento Idéias, do Jornal do Brasil. Concluiu, por fim, um livro de ensaios sobre o romantismo brasileiro, que tem o título provisório de Cenas de Fundação e, ainda sem editora definida, pretende publicá-lo ao longo deste ano.
as a agenda de Flora já está cheia até o final de 1996. Para começar, seu ensaio O Cinematógrafo de Letras, publicado em 1987 pela Companhia das Letras, está sendo traduzido para o inglês e tem edição programada para este ano pela Universidade de Stanford, EUA. Em abril, ela deve ser uma das conferencistas, em solenidade na Universidade de Berkeley, na alifórnia, de uma importante homenagem ao professor e crítico paulista Antonio Candido.
Como pesquisadora contratada do setor de filologia da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, Flora Süssekind está preparando, em parceria com Júlio Castañon Guimarães, a reedição dos Romances da Semana, do mesmo Macedo. Flora é, apesar de prestígio intelectual precoce e da vida acadêmica agitada, uma mulher serena e tímida, que seleciona os amigos com muito rigor e odeia o excesso de exposição. "Gosto mesmo é daquela mesa no setor de filologia na Casa de Rui, do chá de jasmim com o Júlio, de ler todos os jornais possíveis, para falar mal ou bem com três ou quatro pessoas", diz. "Não preciso de muito mais que isso."
Flora Süssekind é uma pesquisadora de posições sempre substantivas, baseadas em amplo lastro cultural e em uma preocupação extrema com o rigor. Por isso vale sempre a pena ouvi-la. Nessa entrevista, ela nos fala do jornalismo cultural brasileiro, da produção literária contemporânea e sobre o destino de nossa crítica, que ela representa com tanto vigor.
Estado - Que avaliação você faz do jornalismo cultural brasileiro de hoje?
Flora Süssekind - Não só nas seções dedicadas a livros e espetáculos, mas nos jornais brasileiros como um todo, o gênero dominante hoje é a coluna social. É um gênero modelar em todas as áreas, diferenciando-se apenas os personagens e os temas enfocados. Essa situação vem se anunciando desde o período militar, quando as colunas ganharam força como lugares em que se plantavam, anonimamente, notas e em que "informantes", como os de polícia, se tornaram muitas vezes mais importantes que os repórteres. Não é à toa que, nos anos 70, essas seções serviram, muitas vezes, de porta-vozes oficiosos para os meios militares. Sua popularização se associa, também, a uma preocupante ligação da atividade jornalística ao marketing e a um evidente empobrecimento cultural das classes médias, um público consumidor, mas não leitor, porque é incapaz de se concentrar em textos mais longos ou mais analíticos. A diagramação, por vezes, até mesmo transforma os segundos cadernos em simples extensões das colunas sociais, em geral asmesmas de jornal para jornal, e com fotos apenas ilustrativas. O mais grave é que só o que parece passível de venda imediata, de marketing, se torna noticiável. A cultura é vista como objeto de divulgação, não de reflexão. Daí não ser de estranhar a rarefação, talvez mesmo a impossibilidade, de algo sequer próximo da crítica cultural.
Estado - E o que se entende aí por cultura?
Flora - Os melhores suplementos culturais da imprensa brasileira - o Suplemento Dominical, do Jornal do Brasil, o Cultura, do Estado, nos anos 50, e o Folhetim, da Folha de S. Paulo, na virada dos anos 70 - tinham uma visão globalizante da produção cultural, procuravam colocar em relação articulistas de áreas diferentes e atividades culturais diversas. Isso é o contrário do que se vê hoje, com um dia para os discos, outro para o cinema, outro para livros, cada coisa numa prateleira própria, intransitiva. Outro dado curioso é que só o que está para ser lançado ou em cartaz pode ser tematizado. Ou então, o que acaba de morrer, fazer cem anos, ou coisa assim. Não se enxerga sequer o passado recente. Daí ser impossível comparar, detectar tendências ou reviravoltas. Tudo é ou boom ou crise. Sem perspectiva histórica não se consegue enxergar o que realmente singulariza o presente. Nesse sentido, seria fundamental reler uma seção como a Poesia Experiência, do Mário Faustino, nos anos 50. Com seu interesse simultneo em reavaliar a tradição literária e comprender a contemporaneidade, em meio a uma diagramação fantástica, fragmentária, sem hierarquizações na página, multiplicando a perspectiva de leitura.
Estado - Por que os críticos literários brasileiros, hoje, evitam um confronto direto com a produção contemporânea? Não são eles, em certa medida, responsáveis pela crise do jornalismo literário e pela separação entre crítica e leitor?
Flora - É, de fato, dificílima a análise do que nos é contemporâneo. Somos todos, artistas e críticos, parte de um mesmo período de tempo, convivemos com as tensões que o compõem e respondemos a elas sem que se possa prever o que resultará dessas respostas. Um grande crítico, no entanto, se define pela capacidade de compreensão do seu tempo. Lembre-se, nesse sentido, a avaliação do surrealismo, ou do trabalho de Brecht, por Walter Benjamin. Lembre-se a importância da leitura de Antonio Candido de seus contemporâneos João Cabral, Graciliano Ramos ou do memorialismo de Pedro Nava. Ou a crítica, via carta, da poesia de Drummond por Mário de Andrade. Ou a compreensão, de cara, por Augusto de Campos, da importância de Caetano Veloso, ou por Haroldo de Campos, do trabalho de Gerald Thomas.
Estado - O refúgio na universidade não significa uma opção pela torre de marfim? Por que a dificuldade da crítica em assinar avaliações objetivas, dizer com clareza "isso é bom", ou "não é bom"?
Flora - Às vezes o diálogo com o contemporâneo não é assim tão direto. E é por meio da análise de um outro período que se fala do próprio tempo. Um pouco como fez Paulo Leminski em Catatau, ao tratar do exílio interno por meio da figura de Descartes perdido no Brasil holandês, ou Silviano Santiago no romance Em Liberdade, tematizando Cláudio Manuel da Costa e Graciliano Ramos, mas também, indiretamente, o Brasil do período da distensão política. Ou, pensando em termos de crítica literária, quando Antonio Candido escreveu sobre Sílvio Romero, por exemplo, estava também redefinindo, para sua geração, o exercício da crítica literária. Quando Luís Costa Lima estuda a "mimesis", parece repensar igualmente os critérios de avaliação estética numa cultura dependente como a latino-americana. Quando Roberto Schwarz estuda o século 19, também procura dialogar com a prosa brasileira atual e direcioná-la para um realismo crítico como o que define no final do seu segundo livro sobre Machado de Assis. Silviano Santiago, uando estuda Mário de Andrade, parece procurar definir também o próprio perfil intelectual. E Walnice Nogueira Galvão, em No Calor da Hora, empreende não só um estudo sobre Canudos, mas uma genealogia da notícia, das exclusões, do processo contraditório de construção de um acontecimento, fundamental para a discussão da escrita histórica no Brasil.
Estado - O que define a literatura brasileira dos anos 90?
Flora - Um aspecto que me parece marcar a literatura bra
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José Castello

José Castello

Nordeste se reencontra com Ascenso Ferreira

Obras do mais importante poeta modernista da região são relançadas pela Nordestal Editora.
O Nordeste se reencontra com seu maior poeta modernista. "Feliz de quem achou sua maneira de expressão", escreveu certa vez Tristan Tzara, um dos pilotos da vanguarda literária européia na primeira metade do século. A frase cabe como uma luva em Ascenso Ferreira, que Luís da Câmara Cascudo descreveu, na primeira vez que o encontrou, ainda no pátio da Faculdade de Direito do Recife, como um homem "que olha a vida do alto de um metro e noventa e pisa com cem quilos as ruas velhas do Recife".
Mas a descoberta da identidade, muitas vezes, tem um duro preço. Nascido em 1895 em Palmares, interior de Pernambuco, Ascenso - sempre encoberto por seu infalível chapelão - morreu quatro dias antes de completar 70 anos, em 1965, e sua obra se perdeu, a partir daí, no mais terrível silêncio, que mais parecia uma maldição. Seus únicos três livros de poemas - Catimbó, de 1927, Cana Caiana, de 1939, e Xenhenhém, de 1951 - tiveram sua edição comercial mais recente em 1963, sob o selo da José Olympio. Dezoito anos depois, graças à teimosia do crítico e poeta pernambucano Juhareiz Correya, eles foram republicados em primorosa, mas restrita, edição artesanal.
Nos últimos dias de 1995, por fim, 32 anos depois da edição comercial mais recente, os poemas de Ascenso Ferreira foram finalmente relançados em cuidadoso trabalho da Nordestal Editora, dirigida pelo mesmo Correya, em co-edição com a Fundação de Arte de Pernambuco - Fundarte, presidida pelo romancista Raimundo Carrero. Rompe-se, assim, uma tela de mutismo e inoperância que, por anos a fio, cercou a obra do poeta.
Descaso
- O falso argumento, exibido durante todo esse tempo por desmemoriados e preguiçosos, era o de que a família de Ascenso Ferreira proibia a republicação de sua obra. Juhareiz Correya chegou a publicar no Jornal da Cidade, do Recife, no início dos anos 80, um irado artigo em que acusava a família do poeta de amordaçá-lo depois de morto. O próprio Correya ouviu da viúva, alguns dias depois, o mais enfático desmentido. Houve apenas descaso e desprezo.
A nova edição dos poemas modernistas de Ascenso Ferreira, que chegou em janeiro às livrarias do Nordeste em um só volume, reproduz ilustrações de Carybé, Cícero Dias, Joaquim Cardozo e Luís Jardim, entre outros, e é aberta com belos textos introdutórios, que já se tornaram clássicos do gênero, assinados por Manuel Bandeira e Sérgio Milliet. Catimbó, o primeiro dos três livros, é prefaciado por Ritmo Novo, um pequeno ensaio de Mário de Andrade. "Nesse livro, ele eleva ao máximo possível a tendência rapsódica da poesia brasileira", Mário escreve. Cana Caiana tem um texto de apresentação assinado por Luís da Câmara Cascudo. "Ninguém o imitará, mas Ascenso criou, como ninguém fez, sua maneira", escreve Cascudo. Xenhénhém é apresentado por um artigo assinado por Roger Bastide, para quem "aliando a intuição à ciência, Ascenso realizou algo muito difícil: a poesia popular".
Toda essa pompa é mais do que justa. Ascenso Ferreira é, afinal, o mais expressivo nome do movimento modernista no Nordeste. Nem o esquecimento, nem a fama injusta de folclórico e exótico, embaçam o brilho de seus versos. Ascenso se chamava, na verdade, Aníbal Torres. Era magro, desengonçado e escrevia sonetos decadentes que reuniu em um pequeno livro, Eu Voltarei ao Sol da Primavera, obra que merece ser sumariamente esquecida. Seu primeiro soneto, Flor Fenecida, foi publicado em A Notícia, em 1911. Perdeu o pai aos 7 anos, em acidente brutal, ferida de que jamais se recuperou por completo. Aos 13, já trabalhava no comércio e escrevia seus primeiros sonetos, baladas e madrigais, na pior tradição parnasiana. Em 1917, aos 22 anos, em ruptura radical, o poeta muda o nome de registro para Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira, com que se insere em uma linhagem eminentemente matriarcal. Com o Ascenso, ele repete o nome do avô materno, com o Ferreira reverencia o sobrenome da mãe. Engorda, passa dos 100 quilos, ml distribuídos nos 1,89 metro de altura. Sua marca, a partir daí, é o vozeirão forte, mas encantador. Torna-se uma espécie de ator em tempo integral, camuflado pelo nome falso e pelo imenso chapéu de palha, uma espécie nordestina de bufão.
No ano-símbolo de 1922, Ascenso se torna amigo de Joaquim Cardozo, Gilberto Freire e Luís da Câmara Cascudo. A princípio, apesar das amizades, o poeta é uma das vozes a se erguer contra o modernismo de 1922, que chega ao Nordeste pelas mãos de Joaquim Inojosa. Mas logo se aproxima da Revista do Norte, porta-voz dos modernistas na região, e em 1926, publica seu primeiro poema modernista, Lusco Fusco, que, no primeiro livro da nova fase, Catimbó, datado de 1927, aparece com o título de Boca da Noite. No ano seguinte, reforçando os laços modernistas, Ascenso se torna amigo de Mário de Andrade. Em 1929, faz sua primeira viagem ao sul do País e realiza um recital consagrador no Teatro dos Brinquedos, em São Paulo. Intelectuais influentes como Cassiano Ricardo, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade se aproximam, então, do poeta.
Em 1945, Ascenso abandona a mulher, com quem se casara em 1921, para viver em companhia de uma adolescente, Maria de Lurdes Medeiros, abrindo um novo divisor de águas em sua vida. A essa altura, ele já é um fenômeno de cuja presença todos desejam privar. Em 1951, o poeta faz sua quarta viagem ao Sudeste para o lançamento de seus poemas reunidos em edição de luxo. Em 1955, quando participa ativamente da campanha de Juscelino Kubitschek para a presidência da República, a dupla identidade de Ascenso Ferreira já está inteiramente à mostra. Apesar da experiência modernista e de toda a consagração que mereceu, ele ainda é visto, essencialmente, como um "poeta foclórico", pecha preconceituosa de que jamais se livrará.
Colorido
- Ascenso Ferreira é um rapsodo de perfil clássico, uma cópia solar e primitiva dos cantadores ambulantes que perambulavam pela Grécia antiga. O folclore é, a rigor, coisa bem diferente. Seus poemas ganham colorido e ritmo especiais quando lidos, em particular por ele mesmo, tanto que chegou a gravá-los em disco. Ascenso foi, de fato, o primeiro poeta brasileiro a registrar, de própria voz, seus versos.
Manuel Bandeira, em análise precisa, escreveu certa vez: "Quem não ouviu Ascenso dizer, cantar, declamar, rezar, cuspir, dançar, arrotar os seus poemas não pode fazer idéia das virtualidades verbais neles contidas." São poemas sobre os mangues, o massapê e a caatinga, destilados no ritmo dos reisados, dos maracatus e das vaquejadas. Apesar da presença impregnada do mundo nordestino, não se pode incorrer no erro de classificar Ascenso Ferreira como um poeta regionalista. "Ele não fez reportagens de fatos étnicos, nem lambiscou o exotismo dos costumes bárbaros do Brasil", escreveu Sérgio Milliet, em momento de absoluta lucidez.
Também Manuel Bandeira soube detectar, com precisão, essa ponte que Ascenso ergueu entre o natural e o artificial. "Costuma se falar de verso metrificado e verso livre, como se algum abismo os separasse", escreveu Bandeira. "Ascenso é o melhor exemplo com que se possa provar que não existe tal abismo." É de Bandeira, ainda, a sentença: "Ascenso continuou a ser deliciosamente provinciano, sem nenhum ranço regionalista." É bom recordar, aqui, de Roger astide quando esse diz, em ensaio sobre a obra de Ascenso, que a poesia popular, enquanto expressão estética do povo, a rigor não existe. "O povo não faz poesia popular, ou faz uma cópia má da poesia dos burgueses", escreve. Ascenso é uma prova disso.
Paradoxo
- Há, apesar de tudo, muito paradoxo nessa admiração. A afeição que Manuel Bandeira e Mário de Andrade nutriram por Ascenso Ferreira esteve quase sempre pontuada por um tipo disfarçado - e envergonhado - de desprezo. Essa atitude ambígua que o sul civilizado nutriu em relação ao grande rapsodo nordestino de
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Júlio Maciel

Júlio Maciel

Boigrafia

(l888-1967)

Estamos nos aproximando cada vez mais da fase pré-modernista e do Modernismo, quando muitos poetas já vão tentando, por conhecimento ou intuitivamente, deixar a ortodoxia do Simbolismo e do Parnasianismo, mas, curiosamente, fazendo ainda reverência ao sentimento romântico. No caso de Júlio Maciel, quando larga as amarras formais (sonetos de rimas irregulares), assina seus versos com pseudônimo.
Júlio Barbosa Maciel nasceu em Baturité, no dia 28 de abril de 1888 e cedo transferiu-se para Fortaleza, onde estudou no Colégio Colombo e no Liceu do Ceará. Viaja para o Rio de Janeiro para estudar na Faculdade de Direito. Formado, volta ao Ceará e terá um grande périplo como Promotor Público pelo interior do Estado, Quixeramobim, Baturité, Crato. Foi juiz ainda em Caririaçu, Cedro, Assare, Icó, Russas, Granja.
Como poeta, começa cedo Júlio Maciel a lidar com os versos, publicando seus sonetos nas revistas 31 de Agosto e Fortaleza, isso quando andava ainda pelos quinze anos de idade, em 1902. Ainda colabora noutra revista de Joaquim Pimenta, Terra da Luz, em 1908. Os poemas reunidos, em livro de estréia, só saíriam em 1918, Terra Mártir. O segundo livro só virá em 1943, Poemas da Solidão.
Obra poética definida, os cearenses destacam dois, de fato, extraordinários sonetos de Júlio Maciel, Jacarecanga e Verde, em que o poeta, com dicção forte e pessoal, exalta o passado histórico do Ceará e o verde na "ressurreição do Sertão rudo".
Para o crítico e também poeta Sânzio de Azevedo, o segundo soneto citado é "um dos mais belos de toda a poesia cearense", pelo apuro formal, pelo lirismo, e que poderá ser lido daqui a vinte anos "com o mesmo prazer estético, sem o ranço que costumam criar as ortodoxias".
Júlio Maciel pertenceu à Academia Cearense de Letras, onde ocupou a Cadeira de nº 28, patrono Mário da Silveira. Morreu em Fortaleza no dia 8 de abril de 1967.

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António Quadros

António Quadros

Ode ao Cristo

das Janelas Verdes

Quem te pintou triste e secreto,
Ó Cristo de olhar vendado,
Ó Cristo misterioso,
Abandonado
No Museu das Janelas Verdes,
Quem te pintou saudoso,
Talvez do Céu, talvez do Homem,
Talvez da criação antes da prova,
Quem te pintou assim, sereno e encoberto,
Imagem nova
Que um povo a ti votado
Um dia descobriu?
Ninguém conhece o mestre que te viu
Enigmático, silencioso,
Um Deus, dir-se-ia, envergonhado,
Mais que humilhado,
Vexado
Porque a palavra se cumpriu,
Porque na hora precisa
Os seus irmãos eleitos
O julgaram,
O feriram,
O mataram
E porque ao longo deste tempo interminável,
Após a crucifixão,
Após a ressurreição
O julgamento prossegue,
A tortura, o crime,
A traição,
O deicídio constantemente perpetrado
Ao sabor da existência quotidiana.
Ninguém conhece o pintor, o iniciado,
O sabedor do mistério
Que é o longo movimento necessário
Do nosso universo imaginário,
Onde tudo é signo e símbolo,
Onde o olhar de Jesus, encoberto,
Ensina a suprema perfeição
De um Deus capaz de amar
E de chorar,
De um Deus assassinado capaz de ressurgir
E de voltar
Sem parábolas, sem cifras, sem véus
Na plenitude da final revelação.

Ah, não, bizantinos sonhadores,
Não estetas da Itália,
Da França,
Mestres da Flandria,
Da fria Inglaterra,
Da férrea Germânia,
Não pintores da Espanha,
Vossa não podia ser a exata imagem
Que um português criou e jaz sepulta
No Museu das janelas Verdes, em Lisboa!
De Ti, sábio Jesus,
Promotor do movimento necessário,
Homem secreto do futuro cumprido,
De Ti fizeram um diáfano celeste
De ouro ornado e neste mundo perdido,
Um reflexo do maravilhoso céu sonhado,
Entre nós caído
Para que místicamente o contemplássemos...
De Ti fizeram um Orfeu ou um Apolo,
Querendo idealizar-te à helênica medida,
A finita estrutura
Do sedutor, estético humanismo...
De Ti fizeram um racional justiceiro,
Um implacável profeta, um missionário
Da Lei divina,
Um Rei,
Um General,
Um Papa,
De Ti fizeram ainda um comerciante de almas
Demasiado carnal,
Demasiado terreno em cenas burguesas,
Em habituais paisagens holandesas,
De Ti fizeram um transcendente imperador
Que pela vontade e nela inteligência
Os homens foi capaz, de dominar...
De Ti fizeram um humano angustiado,
Primeiro Ator do teatro do mundo,
Aflito protagonisa de tragédia...
Mas Tu não choras, ó Cristo,
Pelo Teu padecimento,
Não sais fora de Ti em esgares de sofrimento,
Não és o magro asceta castelhano,
O torturado místico envolto em sombras,
O cadaveroso deformado!

Sofres, sereno,
Sofres, saudoso,
Sofres, sábio e santo
Mas não por Ti,
Se sofres é por nós, sempre e hoje,
Nos no longo, interminável tempo,
Nós em guerras, em doenças, em horrores,
Nós, infiéis de geração em geração,
Nós perdidos,
Nós esquecidos,
Nós, livres, libertos, todavia,
Senhores da invocação, da decisão,
Senhores da graça luminosa
Ou do erro gasto e repetido.
Sofres secreto
E o teu olhar de fogo ficará oculto
Até que à pureza humana o possas desvelar.
Este é o povo das grandes, longas quedas
E também das grandes, fundas intuições,
Este é o povo que em Cristo vê o Messias revelado
E também o Messias encoberto de porvir,
Este é o povo que ama o Deus menino
Porque até na maturidade do Cristo renascido
Descobre a virtualidade infinita, irrevelada,
O imenso Ser, para lá de toda a imagem,
O Espírito sem limites que a infância anuncia
E que jamais, num conceito, num olhar,
Jamais numa verdade humana se detém.
Ó Cristo de olhar vendado,
Ó Cristo misterioso,
Abandonado
No Museu das Janelas Verdes,
Ó Cristo encoberto e final,
Vem,
Traz até nós o que ainda não somos,
Ensina-nos a sermos o para que nos criastes,
Em nome do nosso apelo,
Em nome do nosso sonho,
Em nome do nosso almejar-te e conceber-te
Tu e Outro,
Patente e todavia encoberto
Como no Ecce Homo das Janelas Verdes,
Em nome do desejo de total superação
Que subsiste no coração de todos os humanos,
De todos sem exceção,
Vem
E consagra a matéria deste mundo,
O que em nós pesa e obsta
A luz imensa do Teu Espírito,
Que todos pressentimos,
Todos sem exceção,
Ainda quando três vezes Te negamos.

Ó Cristo próximo e distante,
Ó Cristo saudoso,
Misterioso,
Vem...
Conhecemos a dor,
Tarda-nos o amor,
Vem conosco no termos merecido
O império de paz que no mundo cindido
Entre gente próxima edificamos,
Vem conosco no olharmos ao espelho dos teus olhos desvelados.
A nossa clara imagem descoberta,
Vem conosco, Irmão,
Na alegria de cantar aos quatro ventos,
Nos cinco continentes, nas terras e nos céus,
Ecce Homo! Enfim, enfim, o Homem!

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Aleilton Fonseca

Aleilton Fonseca

nova meditação sobre o tietê

"Águas do Tietê,
onde me queres levar?
- Rio que entras pela terra
e que me afastas do mar..."
(Mário de Andrade)

águas do tietê,
no jorro de tuas nascentes:
melhor ficassem paradas
em teus reflexos afluentes

tietê: índias águas verdadeiras
quando te chamavas anhembi
e tuas sinuosas ribeiras
guiavam um povo guarani

aquieta-te como lago,
esta pressa para que,
se adiante a luz de espelho
logo tu vais perder?

te insinuas por quilômetros
em teu leito decidido,
insisto no meu reclamo
mas descrês do meu aviso

segues murmurando marchas
incertas em certo destino
e mal sabes o destrato
dos esgotos mais íntimos

por teus caminhos indiretos
viajaram bandeirantes heris,
e agora bandeiam os dejetos
dos seus netos fabris

tuas águas conduziram à glória
os vencedores das regatas
nas linhas d’água da memória
da cidade que não te resgata

águas do tietê,
onde me queres levar?
- teu traçado e teu destino
não se casam com o mar...

exala antes que tarde
o aroma que será deposto!
em tua cor se resguarde
o teu sabor sem desgosto!

pois já te vão injetando
mais volume e vida a menos:
e nas tuas líquidas veias
os insanos vícios dos venenos

em tuas artérias aguascentes,
no percurso transformadas,
corre agora o pus demente:
e mal deságuas putrefatas

eis que te tornas plumas,
brancas formas cristalinas:
belo engano para os olhos,
e o odor corrói as narinas

há remédio mais perfeito
do que apenas uma lágrima,
se todos chorassem em teu leito,
lavando tuas águas da mácula

mas ninguém me escuta, corres
sem garças, só antíteses,
desde o lugar onde morres
até o pasto de lamas líquidas

águas do tietê,
onde me queres levar?
- eis as pontes e tudo é noite,
e muito longe dorme o mar...

te olho e não me vês, assim
em vão, corpo cego de águas:
em verso te afogo em mim,
em ti me afogo em mágoas...

aleilton fonseca, sp, 95

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