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Cultura e Tradição

Levi Bucalem Ferrari

Levi Bucalem Ferrari

Un séjour à Guarujá

(Madrigale a la moda dei maestri MariOswalDrumão, produção de Joãozinho Trinta, figurinos de Clodovil e direção variando entre Frederico Fellini e Zé do Caixão. Agradecemos ao indispensável apoio de nossos patrocinadores sem os quais este espetáculo seria impossível etc.)

Lua cheia... Minissaias, sorvetes, frivolidades.
Maduros casais idicham cotidianos milionários.
Ou galicizam lugares comuns: Mais non!
Um menino do Rio cinematografa-se.
Morte em Veneza, verão com vento.
Certas garotinhas... Âge du diable...
Une vague sensation dinceste.
De uma a língua circunda o sorvete
E outra o chupa, sorvendo-lhe o suco.
Alguém assobia bossas-novas...
"e quem sonhou, sonhou..."

Entre impertinentes cartazes de vende-se e aluga-se
O balneário se liquida
Num muro, toscas garatujas desafiam o frenesi imobiliário:
Volte minha nega, abaixo a psicanálise.

As ondas se fazem gigantescas lânguidas línguas
A lamber o traseiro da surfista sobre a prancha
Há espuma nas franjas
O mar saliva e ejacula.

Areias abundam bandos de madamas maquiadas.
O jogo da noite foi longe demais. Nunca mais.
Negócios em alta agitam conversas senhoriais
Saltos altos... modorras... uis e ais.

Alhures middle classes weekendizam
Vôlei, tênis, frescobol... guarda-sóis coloridos.
O executivo esteira-se. Ê vida boa!
Não volto mais prá São Paulo.
Crinaças areiam coxas de óleobronze...
Não enche o saco moleque!
Uma gorda de biquini...exigências do fellini
Ah, sim,
Entre tantas abandonadas bundas
Uma por ti suspira
Talvez aquela que retesou-te os glúteos

Mais ao fundo, negros caipiram
Cachaça ou vodka?
E espetinhos de camarão
Televivem-se anúncios de cigarro e coca-cola.
Figuração.
Às vezes penso que o Debret retratou o Brasil pro resto da vida.

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Quirino dos Santos

Quirino dos Santos

O saci

"Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez.

Ainda há pouco no terreiro
Saltavas a traquinar;
Nesse teu rosto trigueiro
Não se via um só pesar;

Sorrias sempre contente,
já hoje não sorris;
Cozias tão diligente
Cantando sempre feliz.

Já hoje tua cantiga
É toda cheia de dor,
E Aninhas, tua amiga
Não buscas mais com amor.

No quintal as tuas flores
Todas pendem a morrer;
Do sol os quentes ardores
Não lhes vais arrefecer.

Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez!

Mariquinhas, minha neta,
A causa toda já sei,
De andares tão inquieta;
Agora já adivinhei!

Aquela vasta silveira
Além dos campos ali,
É assombrada a noite inteira
Por um medonho Saci.

É ele que vem horrendo
Montar nos bons animais;
A noite toda correndo
Ai! quanto susto nos faz!

Foi ali ele que tu o viste,
Que a tua face beijou...
Depois disso é que assim triste
A minha neta ficou.

Mariquinhas, minha neta,
Neta do meu coração,
Não quero te ver inquieta,
Inquieta mais assim, não!

Vai contrita e humilhada
Te prostrar aos pés de Deus;
Expiar, jura, emendada
Os graves pecados teus.

Que hás de ter infinito
Prazer imenso a fruir,
E o Sererê maldito
Para longe há de fugir.

Eia pois, oh Mariquinhas,
Finda a tua palidez;
Tristeza que nunca tinhas
Não tenhas mais desta vez!"

Assim falou a velhinha
No seu sisudo falar;
Aconselhou a netinha
E logo pôs-se a rezar!

Mariquinhas magoada
Não responde à velha, não!
Ai! pobre, de envergonhada
Ficou a olhar para o chão.

Mas de noite a janelinha
Do seu quarto se entreabriu,
E houve quem visse asinha
Que um vulto a ela assumiu!

Como ela deixa a desoras
Um vulto junto de si?!
Venham cá dizer-me agora
Que não seria o Saci!...

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Judas Isgorogota

Judas Isgorogota

Língua Portuguesa

Quando vieste de além, entre a incerteza
E o destemor dos teus, vestida vinhas
Da mais bela roupagem portuguesa!
Ah! quem te vira o talhe puro, as linhas
Esculturais e a excelsa realeza
De rainha de todas as rainhas!

Vinhas do Tejo múrmuro... Trazias
Na voz magoada o som das melodias,
No olhar, a queixa dos que lá se vão...
E a tristeza de todas as cigarras,
E a saudade de todas as guitarras
A soluçar, dentro do coração!

Vinhas radiante! Sob os céus pasmados,
A Cruz de Cristo nas infladas velas
Te indicava o caminha do Ideal!
E mar em fora, recordando fados,
Eras a alma das próprias caravelas
Universalizando Portugal!

E que entontecimento e que vertigem
Quando chegaste, enfim, à terra virgem,
E nela ergueste os braços teus, em cruz...
E que emoção, quando o imortal Cruzeiro
Pôs a teus pés, diante do mundo inteiro,
Sua coroa esplêndida de luz!

Depois, rendendo humilde vassalagem,
Todos te deram as pepitas de ouro
Que enfeitaram teu seio juvenil.
De então, onde fulgisse tua imagem,
Fulgia às tuas mãos o áureo tesouro,
Imensurável, deste meu Brasil!

E, certa noite, ao pé da Guanabara,
Surges envolta só na tule rara
De amor e sonhos, que te deu Jaci...
E, armas à mão, morena entre as morenas,
Tendo à cabeça teu cocar de penas,
Te lançaste à conquista de Peri!

Ah! quem te visse, após, em pleno dia,
Desnuda, ao sol, não te conheceria...
Qual irmã gêmea de Paraguassu,
Desafiavas uma raça inteira
Com teus coleios de onça traiçoeira
E com o feitiço do teu colo nu...

Mas, quem te olhasse, a sós, na noite quente,
Ah! como te acharia diferente
Ao ver-te, olhos molhados, a chorar,
Tua guitarra amiga dedilhando,
O teu fado liró, triste, cantando
E os dois olhos perdidos lá no mar...

Se me alegra o te ver brasileirinha,
Oh! lusitana e doce língua minha,
Não me envaidece, entanto, essa ilusão...
Que hás de ser portuguesa, na verdade,
Enquanto houver no mundo uma saudade,
Uma guitarra, um fado e um coração!

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Amador Ribeiro Neto

Amador Ribeiro Neto

A Poesia de Mário de Andrade: Pé Dentro, Pé Fora

A poesia de Mário de Andrade é importante mas muito desigual. Importante na multiplicidade técnica e na variedade temática, espelhando nosso país histórica, estética e socialmente. Desigual porque a qualidade estética de seus livros oscila de um poema para o outro, ao longo de toda a sua produção poética.
Comumente marcado por um subjetivismo que várias vezes escorrega para o mero romântico, Mário de Andrade deixa passar-lhe pelos vãos dos dedos a contundência que caracteriza a grande poesia. À exceção de alguns poemas, ou parte de outros, não conseguiu manter o vigor poético de um Cabral, de um Augusto de Campos, ou mesmo de um certo Drummond. Sem dúvida ficou aquém destes. Mas é dono de uma obra tão variada e instigante que ainda hoje é uma pedra no sapato/no caminho dos estudiosos de literatura.
Sua narrativa, p. ex., contém obras primas da nossa literatura como Macunaíma (1928) e Contos Novos (1946). Isso, sem falar de profundos mergulhos no campo da cultura popular, legando-nos obras indispensáveis nas áreas de música, dança, etc. E aí não cabe compará-lo a Cabral, Augusto ou Drummond. Nenhum dos três produziu, p. ex., uma obra tão ricamente diversificada quanto ele.
Por isso, ouvintes, perdão, leitores, por isso leitores, apaguemos a comparação. Todo eu estou comparativo. Ainda há pouco, falando do caráter desigual de sua poesia, cheguei a escrever: chinfrim. Risquei chinfrim. Risquemos a comparação. Digamos somente um poeta desigual. E vamos à poesia de Mário. Sem comparações, abramos nova página. (Nova, não! A primeira. Afinal, estamos iniciando). Vamos lá.
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Juscelino Vieira Mendes

Juscelino Vieira Mendes

Sestina do Shema

I
São palavras ordenadas por Deus
para alcançar de Suas criaturas o coração
que está longe pós-queda sem poder,
com arrogância e tristeza nalma.
Portanto do único Senhor ouve
a fim de que possa ser

II
É suprema a graça daquele ser
que busca, na sapiência, e ouve;
que ama, com exaltação, ao único Deus;
que O adora de todo coração
e com profundidade e beleza de toda a sua alma
recebe Suas palavras de poder

III
e, intimando à prole desse poder,
assentado em casa e com o fervor do coração;
andando pelo caminho aberto por esse grande Deus;
deitando, para o descanso e ronovação do seu ser;
levantando de manhã, ouve!
E atando as palavras ordenadas por sinal na sua mão,
com alegria nalma

IV
entre os seus olhos, que são as portas dessa alma,
e por testeiras que identificam O Deus,
escritas serão nos umbrais de seu coração.
Da casa, cuja entrada, dignificará o seu ser;
nas portas, para que tenha poder.
Portanto, ouve!

V
Por que, Israel, não ouve,
para o bem de sua alma?
Se na boa terra o introduziu Deus,
que havia jurado a seus pais, poder!
Emanado de Seu Ser,
de Seu Coração!

VI
Quem amou dAbraão o coração?
Quem tornou a Isaque um ser?
Quem do Senhor recebeu poder?
Quem edificou a sua alma?
Portanto, Israel, Ouve!
Porque a tudo ordenou Deus...

VII
que o tornará um ser de poder
e de alma edificada para o bem do coração
se ouve, Israel, quem o tirou da casa da servidão: Deus.

2 de janeiro de 1997.

Poema baseado no texto bíblico de Deuteronômio 6:4-9 - "Por algum tempo durante o período do Segundo Templo, esta passagem bíblica foi escolhida para ser recitada duas vezes ao dia, pela manhã e à noite, por todos os judeus. Conhecida pela sua palavra inicial, Shemá, começa assim: "Escuta, ó Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor é Um". Este versículo tornou-se o lema do judaísmo. É a primeira frase a ser ensinada a uma criança judia, e a última a ser pronunciada antes de morrer." Os Judeus e o Judaísmo, pág. 268, de David J. Goldberg e John D. Rayner - Trad. Paulo Geiger e Carlos André Oighenstein - Rio de Janeiro: Xenon Ed., 1989.

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Leonel Neves

Leonel Neves

UM ROMANCE DE REGRESSO

Vindo do Mundo Perdido,
Mau-Máli foi à Missão,
por acaso ou a pedido
ensinar sua lição,
fazer o que em qualquer parte
faria como artesão:
trabalhar na sua arte
de bonecos de latão.

Depois, ou por ter gostado
desta ou daquela oração,
ou por ter-se enamorado
de algum Cristo de latão,
fosse lá pelo que fosse,
Mau-Máli fez-se cristão,
dentro e fora baptizou-se,
Mau-Máli virou João.
E, como João, guardou
dentro do seu coração
não palavras que escutou
mas toda a sua intenção.

Pecados mortais e tudo
ouviu com muita atenção...
mas, guerreiro sobretudo,
que lá matar, isso não!

Tendo assim acontecido,
dada e tomada a lição,
voltou ao Mundo Perdido,
não Mau-Máli, mas João.
E a mulher barlaqueada
com Mau-Máli artesão
já com outro tinha aramada
sua esteira de traição.

Um timor que assim se engana
sabe a sua obrigação,
a que só uma catana
pode dar satisfação.
Uma adúltera confessa
merece tanto perdão
como o outro: sem cabeça,
o seu crime pagarão.
Mas o que Mau-Máli sabe,
o que manda a tradição,
é coisa que já não cabe
na cabeça de João.

Poderia esquecer tudo,
Cristo, baptismo, oração,
mas lembra-se sobretudo
que lá matar, isso não!

Ora já foi cumprido
o seu tempo na Missão,
já só no Mundo Perdido
há bonecos de latão,
não há lugar onde ponha
sua vida de artesão.
Sem lavar sua vergonha
como há-de viver João?
Por isso decapitou-se
com um só golpe de mão.

Mas... João suicidou-se?
- Mau-Máli matou João!

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SÃO JOÃO

S. JOÃO

Ó Precursor, fizeste-a bonita!
Não que teu Cristo, encarnação do Bem –
Não seja quem seja o teu Divino Anunciado.
O mal são os que após, sem mística divina
Nem ternura cristã, ou só humana,
Meteram a Jesus na cela da doutrina
Com as algemas do ódio manietado
Para depois manchar de falsa fé
O pobre homem que todo homem é

A cruel multidão negramente infinita
Que tem sido o algoz ou o ladrão
Da ingénua humanidade aflita –
Esses que, aqui mesmo, pelos modos,
Dão ao inferno realização...

Ah, não podiam ser piores, nem
Que a mulher do Diabo, se ele a tem,
Os tivesse parido a todos.

Eu bem sei que houve muito santo e crente,
Muito puro, bondoso e inocente.
Bem sei, bem sei:
Sei-o eu e sabe-o toda a gente.

Mas esses, cuja alma está em Cristo
São só isto –
Qualquer remédio que se dissolvesse
No chá que para isso há,
E cujo gosto nele se perdesse;
O chá fica sabendo só a chá.
Se o remédio faz bem,
Não o sabe ninguém.
Que o chá não presta, não duvida alguém.

Sabemos isso, e sabê-lo-ia antes
De todos nós teu Mestre que viria,
Profeta, Deus e guia dos errantes,
Quão dolorosamente o saberia?
Sei que houve astros no céu da fé vazia.
Sei, mas repara que falso isso soa!
Por mais astros que a noite use brilhantes,
Que Diabo!, a noite não se chama dia.

Ó Precursor! Fizeste-a boa!

Daí, para nós, és de Lisboa,
Não és o precursor de nada.
És um rapaz ainda menino
Que tem por missão boa,
Por missão sorridente e sossegada
Ter ao colo um cordeiro pequenino.

Lá o que esse cordeiro significa
Não tem cheiro
Para o povo, que tem a alma rica
Da emoção que não conhece.
Para ele o cordeiro é um cordeiro,
E o menino sorri e a vida esquece.

O resto são fogueiras
E os saltos dados a gritar
Com um medo exagerado
Feito tudo de maneira
A mostrar
O riso, as pernas e o agrado.
É quente e anónima a aragem,
Tudo é juventude e viço
Num arraial multicolor e vasto.
Bonito serviço
Como homenagem
A quem, ainda com cabeça, foi um casto!

Mas é assim que és
E é assim que serás,
Até que pisem esta terra os pés
Do último fado que o Destino traz.

Então, esperamos, eu e todos,
Ver-te «surgir no céu», como quem vence
Tudo que é realidade ou ilusão
Por o menino ser que lhe pertence,
E os seus bons e santos modos
«Com o cordeirinho na mão»,
Como te viu Catulo Cearense.

Mas, desçamos à terra,
Que, por enquanto, o céu aterra,
Porque antes disso mete a morte.
Há muita coisa desconhecida
Na tua vida.
Tens muita sorte
Em ninguém saber da partida
Que em mil setecentos e dezassete
Tu fizeste à Igreja constituída.
Estás, eu bem sei, cansado
Com o que a Igreja se intromete
Com tua vida e o teu divino fado.

(E) foi então que, para te vingar
E à maneira de santo, os arreliar
Desceste mansamente à terra
Perfeitamente disfarçado
E fizeste entre os homens da razão
Um milagre assinado,
Mas cuja assinatura se erra
Quando em teu dia, S. João do Verão,
Fundaste a Grande Loja de Inglaterra.
Isto agora é que é bom,
Se bem que vagamente rocambólico.
Eu a julgar-te até católico,
E tu sais-me mação.

Bem, aí é que há espaço para tudo,
Para o bem temporal do mundo vário.
Que o teu sorriso doure quanto estudo
E o teu Cordeiro
Me faça sempre justo e verdadeiro,
Pronto a fazer falar o coração
Alto e bom som
Contra todas as fórmulas do mal,
Contra tudo que torna o homem precário.
Se és mação,
Sou mais do que mação – eu sou templário.

Esqueço-te santo
Deslembro o teu indefinido encanto.

Meu Irmão, dou-te o abraço fraternal.
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