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Cultura e Tradição

Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Tu me pediste notícias da Grécia:

Tu me pediste notícias da Grécia:
de Lisboa
por Goa e Madragoa e Itamaracá
me fui partindo e, pois, já tenho
algumas notícias da Grécia e escrevo
entre a mulher da bela cintura
dos olhos verdes
e o mar:
por mar chegadas, por mar envio
as notícias da Grécia;
redijo em alto mar entre
a madrugada jônia e a madrugada
de Maragogí — sudeste
do país dos Mourões.

E eras uma vez:
da cintura de Apolo o tornozelo dáctilo
vinhas e ao vinho o pé arisco —
de corda em corda a pisar na cítara
e em teu andar
notícias recentes da Grécia:
muitos corpos foram assados e o cheiro
da cútis das vítimas de fina raça
subiu das brasas e a fumaça
odorífera e a labareda e as libações
embriagavam os belos mancebos vindimados;
e era uma vez
Febo Apolo, o deus do arco de prata e lira de ouro
e ao teu andar, ao pé arteiro, a melodia
corda a corda
das notícias da Grécia:
aguardo informes: — aplacara a
hecatombe o deus irado ou, vagabundo
passeia Apolo pelos bosques
de aljava a tiracolo?

Escrevo no meio do mar entre a Grécia e a Itália
talvez Ilíria;
respirei quanto pude a violeta divina
vem o vento dos montes e à essência
das rosas maceradas
amadurecem-me as narinas sábias:
tal a rosa-dos-ventos dia e noite ao faro
dos navegantes.

E era uma vez Apolo e era uma vez uma palmeira
e os escravos de Dona Úrsula Mourão acharam
a imagem de São Gonçalo
e foi trazida para casa e louvada
em cânticos e ladainhas
e na manhã seguinte a divina creatura
era de novo achada ao pé da mesma palmeira
e foi trazida para casa e louvada
em cânticos e ladainhas

e no terceiro dia — fugira durante a noite —
voltou à sua palmeira
e Dona Úrsula Mourão, mais os homens
e as outras mulheres e as crianças
foram cantando e se assombrando até a palmeira sagrada
e em duas medidas de sua sombra
riscaram um retângulo
e ergueram uma capela e onde
era seu tronco é hoje o altar
de São Gonçalo dos Mourões
e estas
são noticias da Grécia:

respirei fundo a violeta divina
de Tênedos a Delfos e guardei
a palmeira nos olhos e o templo na serra;
e era uma vez
na ilha flutuante uma palmeira
uma palmeira em Delos e ali
soprou Apoio a flauta e desde então se fez
estável a ilha
imóvel Delos por pisá-la um Deus:
e era macho e belo e tangia também
uma cítara de ouro e do arco de prata
a flecha disputava ao relâmpago
alvo e risco no céu; e sobre a pele
da serpente na trípode sagrada
uma virgem fundou o lábio imaculado
de conceber o oráculo: o divino pênis
aquecido na boca a sacra Pítia
da garganta emprenhada devolvia o sorvo cálido
a palavra profética: —

‘E AEYOEPÍA

e é na boca das virgens e no ventre das ninfas
e semente fecunda
e à sua volta — e à sua cítara
as fêmeas aprendiam a língua e a voz dos deuses
e os rapazes aprendiam o poder dos deuses
e os adolescentes mortos
tornavam à vida e a vida era fundada
à sua volta e à sua cítara;
e era fundada a morte à volta
de seu arco de prata — e os outros deuses
o expulsaram do Olimpo —
estas são noticias da Grécia:

de erguer-se o canto, toda voz se apaga
e as ilhas cessam de flutuar e os deuses
invejavam os carneiros e os pastores
tangidos pelos montes da Tessália
à lira de ouro. E ao seu acorde
em pétala e aroma a bem-amada abria
o coração do heliotrópio e o rosto
do adolescente — amor alheio à vida e à morte —
nas folhas do jacinto doloria
e à mera melodia iam surgindo
o loureiro, a romã, o girassol e o mirto
e o zimbro e o lotus
e o galo e o gavião e o cisne
e a cigarra e o grifo
e era a palmeira e à sombra dela
a invenção do santo e as ladainhas
de Dona Úrsula Mourão;
estas são, amor, as notícias da Grécia
e eu recebi no mar:
ao sul a palmeira de Delos e ao norte
as palmeiras — Camaragibe e Ibiapaba, País dos Mourões —
lá onde a vida
aguça a seta nas aljavas de prata
e a morte
se canta à lua-cheia na viola na cítara
de Apolo adolescente.

Tenho notícias da Grécia, algumas:
noticias para a tua cintura pequena e os calcanhares
o chão dos deuses exilados
e lembranças de um deus: no exílio,
de seu canto se sustentava e ao canto
— sustento dos deuses e perigo dos deuses —
floresciam os homens e o rei Midas foi punido
e em sua própria frauta soprou Mársyas
sua própria morte; e ao canto
— ó sustento dos deuses, ó perigo dos homens! —
por auroras e noites perigosas
tenho notícias da Grécia — algumas —
da corte de Admeto na Tessália
da cor das águas ao redor das Cícladas
das virilhas cheirosas de Kirina, Hotel Adrianos,
do vôo do gavião no ar da tarde
do poeta caldeu na noite de Poséidon
dessa relva curvada à brisa do Parnaso
Danai tragountai Danai e Lyda e uma canção
e uma taberna e o vinho
e a inocência e o espanto de Hiacinto
e o zéfiro da morte em meus cabelos.

Ao terror da delícia os olhos brilham
pisa a planta dos pés a palmilha de pedra
rastro incandescente de um deus:
quem sou eu que te trago
as noticias da Grécia — algumas —?
o doce filho
da raça dos Mourões — país de para lá
da linha do Equador onde o pecado
não é e os homens
são machos e as mulheres
fêmeas — onde
à sombra das palmeiras e em seus troncos
aparecem os deuses e seus santos.

Vem, formosa mulher, camélia pálida,
que banharam de luz as alvoradas
na concha de tuas mãos a água verde
flauta diáfana de água à pétala
do lábio estremecia
e desmanchada ao canto — ao canto
a água sugeria de novo o gomo verde
a flauta diáfana de água
ao milagre dos dedos e do sopro:
bem que me deste, tu mesma, as notícias da Grécia
e eras jônica e coríntia, às vezes dórica
em teus quadris eólios tua concha
à relva eólia
à pétala do lábio estremecia e era
a melodia de tuas flautas escondidas:
começara
no golfo de teus olhos a viagem
ao verde mar por onde
a lua esverdeara a lua
de mel dos cabelos
de Helena à espuma
do desvairado amor:
e estas são notícias da Grécia e um deus
tangia cítaras e ovelhas e os homens
jurados à beleza
domavam o cavalo, a nau, a lança, a espada e a terra
orvalhada de sangue dos guerreiros — um deus
anunciava
a vida e a morte por amor do amor
e anunciava a vida e a morte e os machos
do país dos Mourões.

pois o Major Galdino, meu avô,
cortava a taquara da serra com seu punhal de dois gumes
e ao fim da tarde e ao nascer da manhã
no alto do pé de tamarindo
pendurava a gaiola de alçapão armado e dentro dela
ou galo-de-campina de cabeça de púrpura
ou juriti arrulhadora:
e da copa das cajaranas de ouro
o outro galo-de-campina — a outra juriti —
vinha aprender
a banda de laranja a talhada de melão o arroz
a água do pequeno alguidar de barro e o canto
solitário entre as varetas de bambu — e logo
eram duas gargantas a cantar e era
aos ouvidos do risonho Major
um canto novo — e tu,
pássara chamadora,
ao furo de meu punhal na taquara
a flauta pura ao céu
azul irás sorvendo
soprada em sopro novo a velha
canção que cantavam as pássara
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Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Era uma vez

Era uma vez
Maria Alves Feitosa, da raça de minha avó, e era mulher de Francisco Feitosa
e o marido amava
as violas doces e as aguardentes ásperas
e Maria, quando rezava suas novenas na igreja — conta Leonardo — tinha por costume
mandar os grupos de escravas, que eram as cantoras,
entoarem cânticos da igreja até a casa de sua residência e uma tarde
no momento em que partiam da igreja
e as negras começavam o cântico
veio Francisco embriagado e esbofeteou o rosto de Dona Maria Feitosa e as negras
como sapo quando se bate nágua
calaram-se e pararam: e a senhora
ordenou-lhes marchassem e cantassem: não fora nada,
sendo por seu marido, não era agravo e o vigor
dos machos é sempre doce ao coração das fêmeas
na raça dos Mourões
e entre alcova e templo ao tom das ladainhas e ao canto das escravas
aprendemos o touro e as raparigas aprendem
o arrebatado amor e Mariana
mulher de Eufrásio, senhor do Cococi
mandou surrar e tonsurar a rapariga
e o Capitão-Mor puxou da bota uma faca aparelhada de prata e lavada de sangue e sempre
a morte se nutriu do amor
e o vigário do Cococi excomungou o Coronel: surrara, debaixo do altar-mor
onde se escondera,
O vilão que ousara versos a Joana, sua irmã, da raça dos Mourões e só
para alcova de Mourões eleita
e o Bispo de Olinda retirou-lhe a excomunhão:
matasse feras em vez de matar homens
e os Feitosa entravam a galope na cidade
com uma onça sangrenta na garupa e um deles
matou noventa e seis onças sem armadilhas, sem armas de fogo, sem mundéu,
sem gangorra e sem curral
apenas com sua faca de Pajeú e os três cachorros Elefante,
Corujo e Mosquete:
na boca da última delas deixou o couro da cabeça e o escravo fiel
deixou a mão, a faca encravada e a implacável morte

tanto me atendem à cítara

como à ponta do punhal

e Leonor ficou viúva e um dia
a casa de Leonor amanheceu fechada
e Leonor havia desaparecido
e Leonor era — conta Leonardo — uma viúva nova e muito formosa depois se soube:
fora raptada pelo Major Eufrásio Feitosa e por ele situada numa casa em um alto
e ainda hoje ali se chama
o Alto de Sa Leonor e os montes
e os rios e as devezas e as várzeas
guardam, da Serra da Joaninha ao Riacho do Sangue,
o nome com que os machos
nomearam amor e nomearam morte
no país dos Mourões

tanto me atendem à citara
como à ponta do punhal,
tanto a meu punho se deitam
os vencidos na macega
como a meu canto as mulheres
na ribanceira do rio:
explica, Maria Helena,
como esta doçura é forte
e o vigor desta bravura:
chama a princesa e estremeçam
seus seios na minha mão:
não sou Teseu nem Orfeu,
os dois são Mello Mourão.

Nünca houve nesta raça
homem não raparigueiro
e nela não se conhece
uma casada infiel:
no couro dos Mourões sobeja o macho
a ti domava a citara
a outras o músculo.

... deixa-me pastar a erva em tua mão.

E tu,
que não morres de mim, vives de mim

a ti e só a ti
ofereci a melodia a um tempo
de citara e de músculo e só tu
saberias dizer o contraponto
do canto que inventei aos teus ouvidos
e à doçura
de sua força
arrebatada no meu lombo e no êxtase
ela acenderá no crepúsculo
a estrela da manhã:
sob o ventre pentélicon
pentagrama de ouro!

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Morais Filho

Morais Filho

A mulata

Eu sou mulata vaidosa,
Linda, faceira, mimosa,
Quais muitas brancas não são!
Tenho requebros mais belos;
Se a noite são meus cabelos,
O dia é meu coração.

Sob a camisa bordada,
Fina, tão alva, arrendada,
Treme-me o seio moreno:
É como o jambo cheiroso,
Que pende ao galho frondoso
Coberto pelo sereno.

Nos bicos da chinelinha,
Quem voa mais levezinha,
Mais levezinha do que eu?...
Eu sou mulata tafula;
No samba, rompendo a chula,
Jamais ninguém me venceu!

Ao afinar da viola,
Quando estalo a castanhola,
Ferve a dança e o desafio;
Peneiro dum mole anseio,
Vou mansa num bamboleio
Qual vai a garça no rio.

Aos moços todos esquiva,
Sendo de todos cativa,
Demoro os olhares meus;
Mas, se murmuram: "maldita!
Bravo, mulata bonita!"
Adeus, meu ioiô, adeus ...

Minhas iaiás da janela
Me atiram cada olhadela,
Ai dá-se! mortas assim...
E eu sigo mais orgulhosa
Como se a cara raivosa
Não fosse feita pra mim.

Na fronte ainda que baça,
Me assenta o torço de cassa,
Melhor que coroa gentil;
E eu posso dizer ufana,
Que, qual mulata baiana.
Outra não há no Brasil.

Nos meus pulsos delicados
Trago corais engraçados
Contas de ouro e coralinas;
Prendo meu pano à cintura,
Que mais realça à brancura
Das saias de rendas finas.

Se arde um desejo agora,
De meus afetos senhora,
Sei encontrá-lo no amor;
Minha alma é qual borboleta,
Que voa e voa inquieta
Pousando de flor em flor.

Meus brincos de pedraria
Tombam, fazendo harmonia
Com meu cordão reluzente;
Na correntinha de prata,
Tem sempre e sempre a mulata
Figuinhas de boa gente.

Eu gosto bem desta vida,
Que assim se passa esquecida
De tudo que é triste e vão;
Um dito repinicado,
Um mimo, um riso, um agrado
Cativam meu coração.

Nos presepes da Lapinha,
Só a mulata é rainha,
Meiga a mostrar-se de novo;
De minha face ao encanto,
Vai-se o fervor pelo santo,
Pra o santo não olha o povo!...

Minha existência é de flores,
De sonhos, de luz, de amores,
Alegre como um festim!
Escrava, na terra um dono,
Outro no céu sobre um trono,
Que é meu Senhor do Bonfim!

Na fronte ainda que baça,
Me assenta o torço de cassa
Melhor que coroa gentil;
E eu posso dizer ufana,
Que, por mulata baiana,
Outra não há no Brasil.

1 529
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Uma Honra, Perigosa Privilégio

Conta Serge Lifar que, ao receber um troféu de ouro, na Sagração da Primavera, Nijinski, Vaslav Fomitch Nijinski, o bailarino que dançava para dar glória a Deus e que escrevia no espaço a imagem efêmera e eterna de seus gestos e o sortilégio de seu corpo, recebeu a incubência de falar em nome dos demais agraciados. Ele, que não sabia fazer outra coisa, a não ser dançar, embaraçou-se, tropeçou, escorregou e caiu no palco. É o que temo que me aconteça aqui. Pois, além da emoção e da honra de receber pelas mãos fidalgas de Yolanda Queiroz, a Sereia de Ouro do Sistema Verdes Mares, nesta Sagração da Primavera de 1996, querem os ritos da cerimônia que eu fale também pelos outros contemplados. É uma honra. Um perigoso privilégio.
Como poderei expressar a graça e o encantamento de nossa grande Sinhá D’Amora? Ela é até minha prima distante — mas vamos nos aproximando. Pois, também eu pertenço ao clã daquela Dona Federalina Correia Lima. Sinhá D’Amora, hoje na adolescência pristina, de seus noventa anos, está no meu conhecimento e no meu bem-querer desde 1935 ou 36. Desde então, acostumei-me a encontrá-la no salão azul de minha doce e inesquecível amiga Julinha Galeno, que mantinha um verdadeiro Consulado do Ceará em sua bela casa de Ipanema. Guardo, daqueles tempos, a memória de sua leve estampa de mulher elegante e seus olhos sábios de ver as coisas e as pessoas, sempre ao lado da figura cavalheirisca e cordial de seu marido, Amora Maciel. Lembro-me de uma de suas primeiras exposições, creio que no salão mais conspícuo do Rio, no Palace Hotel. Seus pincéis, que já sugeriam um trânsito refinado entre o impressionismo francês e o expressionistas alemães, levaram depois suas cores e suas formas aos melhores espaços da Europa e dos Estados Unidos. O que ela recebe hoje é a gratidão do Ceará pelos momentos de beleza que nos traz. A mão e os olhos de um pintor, transfigurados em formas e cores, são sempre, como no verso de Keats, "a thing of beauty, a joy forever". Uma coisa de alegria, uma beleza para sempre. Por isso ela é hoje aqui agraciada, como na velha cantiga da infância, ao lado de três cavaleiros que a saúdam, todos três chapéu na mão.
Um deles é o meu velho amigo, o Dr. José Bonifácio da Silva Câmara, cheio de títulos e serviços na vida pública deste País. Mas o título maior, o que o traz a esta celebração, é o amor simultâneo pelo Ceará e pelos livros. Sou um velho rato de bibliotecas. As vivas e as mortas. Recebi, não faz muito tempo, um pequeno tratado de Umberto Eco sobre o corpo e a alma das bibliotecas. Com ele, percorri alguma delas. Como visitei, com Jorge Luis Borges, em seus delírios, no apartamento da Calle Maypu, em Buenos Aires, a Biblioteca de Babel e seu labirinto de livros, alguns em línguas que não existem mais. Como visitei, com Umberto Eco, as legendárias bibliotecas poligonais, de Nínive e de Samos, a de Pisístrato, em Atenas, e a de Alexandria que, com a de Serapion, tinha 700 mil volumes no século I. Vimos a de Pérgamo e a de Augusto e as 28 bibliotecas de Roma, do tempo de Constantino. E visitei, com minha mulher, as impressionantes bibliotecas de pedra na China e na Cochinchina, em Hanói e Xian, onde os livros são insculpidos na beleza rupestre das lâminas de granito. Mas a biblioteca que mais me comoveu, na verdade, foi aquela de mais de 6 mil volumes, na casa de José Bonifácio, todos eles escritos e editados no e sobre o Ceará. Como sabemos todos, a palavra biblioteca vem do grego — biblos — que quer dizer — livro — e — theke — que quer dizer — armário — e, pois, significa "armário de livros". A de José Bonifácio deveria se chamar "cardioteca" — é um armário do coração. Ou "pneumoteca". É um armário do coração e do espírito de nossa pátria cearense, de nosso País do Ceará. Naqueles livros e naquela biblioteca, faiscada em livrarias novas, em sebos de livros e nos empenhos de amigos, está assegurada a sobrevivência de cada um de nossos escritores. E a sobrevivência de nossas raízes.
Outro agraciado é o Dr. Luiz Esteves Neto. Sua vocação o transformou numa presença humana, exemplar e fecunda, na vida da sociedade cearense. Talvez não tenha nunca pintado quadros, como Sinhá D’Amora, nem guardado livros como José Bonifácio, nem escrito elegias, como este vosso cantador. Mas sem homens como ele nenhum de nós estaria aqui. Participante efetivo das atividades sociais, seu nome é um emblema da vida econômica e da vida associativa. Industrial, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará, sua representatividade o levou aos órgãos de direção da Confederação Nacional da Indústria, para onde levou a fibra e o vigor dos capitães de empresa de nossa terra. Seu nome figura na nominata egrégia dos clubes sociais e dos grupos de construção da riqueza e do desenvolvimento. Luiz Esteves Neto é para nós, aquilo que nosso filósofo maior, Farias Brito, chamava "a base física do espírito". Homem de formação universitária, ele poderia ter escolhido qualquer outro tipo de ocupação, nas áreas da inteligência. Escolheu esta, para dar à sociedade que pertencemos, horizontes melhores à esperança do desenvolvimento.
Quanto a mim, pobre cantador das Ipueiras, do pé-da-serra da Ibiapaba, aqui estou com único cabedal maior que mereservou a vida: — a riqueza de ser cearense. No país do sul, nas opulentas babilônias de São Paulo, com seus milhões de descendentes de primeira geração de imigrantes, algumas pessoas invocam a nobreza de suas origens, como na exclamação famosa de Alcântara Machado: — "Paulista eu sou, há quatrocentos anos".
Em nossa terra, aonde quase não chegou a vaga de imigrações da segunda metade do século passado e das primeiras décadas dos novecentos, todos nós, quase todos nós, podemos proclamar, como eu mesmo o faço: — "Cearense eu sou há quatrocentos anos". O que em outras terras é privilégio de uns poucos, aqui é patrimônio de todos. A este patrimônio, devo as vigências mais profundas que me nutriram ao longo da vida.
Teria eu de seis para sete anos, quando minha mãe, pobre professora primária do interior, me fazia decorar páginas inteiras do romance lírico de José de Alencar, cantando os verdes mares bravios e, ao mesmo tempo, um poema grandiloqüente, ufanista e saborosamente ingênuo, de nosso poeta popular, Juvenal Galeno, que ainda hoje sei de cor: "sou cearense e me ufano"...
Estas foram as primeiras plantas enraizadas no chão de minha alma. Depois, foram os cantadores de feira, especialmente o cantador Anselmo Vieira, das Ipueiras, catalogado por Leonardo Mota. Com eles aprendi o ritmo cantante das redondilhas maiores, dos decassílabos de gabinete e dos hendecassílabos sonoros, cantando galope na beira do mar. E aqui lembro — e rendo-lhe uma homenagem — um agraciado da Sereia de Ouro, desaparecido este ano, meu saudoso amigo Eleazar de Carvalho, o egrégio mestre-de-capela, que teve entre seus discípulos até mesmo o mais famoso maestro do mundo em nossos dias, Zumbin Mehta. Eleazar de Carvalho também me dizia um dia que toda a sua disciplina musical se edificara no metro escandido dos cantores de viola e de rabeca nas feiras do Ceará. Afinal, Homero também foi um cantador de lira nas feiras da Jônia.
Nos labirintos do saber e da cultura erudita, varando o oco do mundo, por Europas, Ásias, Áfricas e Américas, peregrino de todas as vicissitudes, talvez eu possa dizer como Keats: — acho que meu nome constará depois da minha morte entre os poetas de meu tempo". Se isto ocorrrer, à uma coisa eu o devo — à fidelidade obstinada à minha terra, aos seus valores primitivos.
Ainda recentemente o Presidente da República se queixava do caráter provinciano de nosso povo. Aprendi com meu saudoso amigo, o presidente Eduardo Frei, do Chile, uma linção fundamental: a distinção entre provincial e provinciano. Ser provinciano é uma coisa negativa. O provinciano é o homem sem perspectiva, que não conhece e não imagina nada além da pobre cerca de seu quintal. O resto do mundo não existe
1 333
Marcus Accioly

Marcus Accioly

Seis Vozes d’África

O Negro Sol

1
Eras (antes d’América) a América
de negro sol na pele escura (ó África)
teu rei era um leão que (da floresta)
fazia sua expedição de caça
e (de juba ou coroa na cabeça)
reinava a solidão que te reinava
com a própria liberdade (uma leoa
que era tua rainha sem coroa)

mas morreu esse rei e outros vieram
(astralopitecínios que emergiram
dos animais) e todos te quiseram
e todos (nos seus reinos) dividiram
a rainha-leoa ou lhe impuseram
a própria escravidão que conseguiram
através de uma história que te fez
monopólio do Império Português

(sim) que Diogo Cão chegou ao Congo
(Bartolomeu ao Cabo das Tormentas)
e o velho Gama (em seu percurso longo)
sentiu as tuas terras sob as ventas
(a lei do teu comércio foi o escambo
dos teus filhos que já não amamentas
do leite e que amamaentam com seu sangue
o mundo que com eles fiou grande)

continente gigante e pigmeu
(lavrado pela daba primitiva)
se aa Esfinge do Egiyo te comeu
perto do Cabo Branco (na Tunísia)
a África do Sul (que conheceu
o apartheid do branco que domina)
tem um leão (Mandela) que te traz
(com sua pele negra) a branca paz

A Cor é Negra
2
a cor (a cor) a cor (a cor) a cor
é negra (sim) é negra (por que não?)
negro é o universo e este universo (por
tanto sol abrasado) é a escuridão
total (escuridão que faz supor
a cegueira da luz) a dimensão
infinita do escuro (o absoluto
manto da solidão) ó rei de luto

(continente-africano) ó rei de escura
pele (ó couro de rei) ó rei curtido
e enrugado no trono (ó carne dura
que veste o rei do seu real vestido
sobre o marfim dos ossos) rei à altura
de outros reis-continentes (rei erguido
feito a águia que ao sol em fogo voa)
ó rei mais alto que a própria coroa

(ó rei-leão) ó rei-jaguar (rei-tigre)
hipópotamo-rei (rei-elefante)
macaco-rei (rei zebra) rei-antílope
(rei-leopardo e rei-rinoceronte)
ó rei que vive (com a rainha) livre
(rei-esposo) marido-rei (amante-
da-liberdade) rei que sabe a lei
do seu reinado (a lei da selva) ó rei

de cor (de cor) de cor (de cor) de cor
negra (sim) de cor negra (por que não?)
já não quero cantar a tua dor
(continente-africano) é uma canção
que te quero cantar ( o teu senhor
é Deus) basta de tanta escravidão
(ó continente-rei) basta de açoite
que o sol é sangue ( a lua é sangue ) a noite

O Sangue era Vermelho
3
esfolaram à faca a tua cor
(extraíram-te as vísceras) notaram
que o sangue era vermelho e (dentro) a dor
também doía igual (não encontraram
qualquer vestígio de alma nem rumor
de humano sentimento contemplaram
onde o teu coração) "é um animal"
(e tratada tu foste como tal)

o sol curtiu teu couro feito um céu
espichado por varas (o simum
dobrou do centro ao norte o seu chapéu-
de-vento em teu cabelo ruim) "algum
dia erguerei da boca um escarcéu
que subirá a Deus" (disseste em um
tom que não disfarçava a voz azeda
e pediste os relâmpagos da zebra)

"ó escada do pescoço da girafa
deixa eu subir pr ti meus pés Àquele
(suplicaste) "leão de férrea-pata
dá-me da tua força e tu (ó pele-
de-aço) rinoceronte (de blindada
carapaça) consente que eu te sele
feito um cavalo e (com teu chifre) arrombe
o mal que (perto) veio de longe "

(continuaste) "e tu também (cavalo-
de-rio) ó boi chamado de hipopótamo
que és obra-prima do Senhor (deitado
à sombra do teu junco e do teu loto)
não me negues o teu furor guardado
nos abismos da lama (onde teu osso
de baleia é encalhado) eu sou a África"
(e choraste através da negra náscara)

Benjamin Moloise
4
Benjamin (Benjamin Moloise) acorda
os teus olhos da morte (negro) eu ouço
o teu canto subindo pela corda
onde balança ao vento teu pescoço
sob a "gravata" (branca) e sob a bota
(de Botha) a cal é viva no teu fosso
próximo ao muro da prisão (ó África-
do-Sul) pérola-negra (escura-lágrima)

marfim-queimado no elefante-vivo
(noite dentro do túnel) Benjamin
vejo teu canto sob o poste (grito
e o meu grito é teu grito até o fim
da voz apunhalada no conflito
do Cabo ou Jahannnesburgo) antes assim
(poeta-guerrilheiro) antes ser homem
(tua raça se orgulha do teu sangue)

já não importa o pesadelo (sonhas
e ninguém pode dominar teu sonho
que é mais forte e mais alto que as montanhas)
em teu carvão se acende um fogo estranho
com a estranha luz que trazes das entranhas
da África do Sul (do seu medonho
mundo) da capital sem paz (Pretória)
que com teu giz-noturno escreve a história

(o carrasco descansa) "executado"
(ó República d’África do Sul)
te canto à esquerda margem do rachado
continente (ou d’América) ó tu
e eu estamos cada um de um lado
do mar (ou da cadeia) em que jaz nu
sob o pó (Benjamin) até que vento
cubra com a minha voz o seu silêncio

Nelson Mandela
5
"ó África do Sul (Nelson Mandela
o teu filho é meu filho: eu sou a América)
quando a noite era toda teta
de cor (e teu mamilo a sua estrela)
o teu leite era luz e eras (mãe-negra
de onde a raça de Winnie) forte e bela
(feito a girafa erguias o pescoço
a um céu de sangue e nervo e carne e osso)

até que os holandeses (africânderes
e boêres) seguidos por ingleses
(nitilanders) vieram das distantes
terras sobre o teu povo e tuas reses
e as presas de marfim dos elefantes
e o ouro em Transvaal (porém teus chefes
saltaram do Kraal como se antílopes
com as lanças dos seus chifres contra os tigres)

ó Áfricapartaid (enquanto a hiena
gargalhava à pantera) do teu coito
com a árvore-real da tribo themba
(reserva de Transkei) veio a dezoito
de julho de dezoito (última lenda
da tua história) o homem (sonho afoito
de liberdade) aquele que seria
pastor dos teus leões (Mandela) o guia

(ó minha negra-irmã) quase três décadas
de prisão não dobraram o espinhaço
do lutador-de-boxe (entre as celas
raiadas no seu pêlo) nenhum braço
logrou forjar seu ferro entre perpétuas
condenações pois ( sob o mesmo espaço
na jaula de Mandela) estavas tu
(leoa escura) África do Sul"

Zumbi
6
"uma cria de sexo masculino
com escassos dias de existência" (no ano
de mil seiscentos e cinquenta e cinco)
foi achada entre os presos de um mocambo
palmarino e chamada de Francisco
por seu preceptor ( o padre Antônio Melo)
sua cor negra era a da onça-
preta ou pantera (como conta a crônica)

fugiu aos quinze anos (coroinha
tornou-se guerrilheiro)foi Zumbi
("deus-da-guerra") na crespa carapinha
pôs palmas dos Palmares e dali
dividiu sua guerra entre a guerrilha
contra Domingos Jorge Velho e
a luta contra o tio Ganga-Zumba
que baixava o Quilombo ao rés da tumba

(tinha uma cobra armada em cada mão
e um gavião pousado em cada olho)
combatendo Manuel Lopes Galvão
sofreu um ferimento (ficou coxo)
por Antônio Soares (à traição)
foi furado a punhal e (do seu corpo
castrado na raiz) teve (na oca
garganta) o próprio pênis preso à boca

(América) porém ainda hoje
(da queda de Macaco) se
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Léo Schlafman

Léo Schlafman

Bilac

Quase um século após sua morte, a publicação das
obras reunidas serve de estímulo para reavaliar o
poeta que, objeto de entusiasmo popular na sua
época, tornou-se o alvo preferido dos modernistas

Obra reunida - Olavo Bilac - Organização de Alexei Bueno
Nova Aguilar, 1.078 páginas R$ 67

Oitenta anos separam a morte de Olavo Bilac da publicação ônibus de seus livros. É quase um século - mas século de grandes transformações estéticas e políticas. O poeta, que nasceu durante a Guerra do Paraguai e morreu, com a belle époque, no fim da Grande Guerra, reapresenta-se ao público em plena guerra da Chechênia, depois do desmoronamento do império soviético. Mas nunca deixou de ser publicado avulsamente, e lido, analisado nas escolas, e de tal forma que muitos de seus versos hoje fazem parte da memória popular, como "Ora (direis) ouvir estrelas!" ou "Última flor do Lácio, inculta e bela, / És a um tempo, esplendor e sepultura".
Sempre foi transcrito com fartura nas antologias, entronizado na liderança do movimento parnasiano, criticado e defendido, depois da morte como em vida. Mas, como disse T. S. Eliot, de tempos em tempos, em cada 100 anos mais ou menos, é desejável que algum crítico apareça para rever o passado e dispor os poetas e os poemas em nova ordem.
Segundo Eliot, nenhum poeta nem qualquer outro tipo de artista tem seu significado completo sozinho. Sua apreciação é a apreciação da relação com os poetas e artistas mortos. Não se pode avaliá-lo isoladamente. Quando nova obra de arte é criada, algo novo ocorre com todas as obras que a precederam.
O ciclo a que Bilac pertenceu chocou-se de frente com o fogo de barragem da Semana de Arte Moderna. De fato, quatro anos depois da morte dele, em 1918, os modernistas, em 1922, que, na fórmula de Ivan Junqueira, não sabiam bem o que queriam, embora soubessem perfeitamente o que não queriam, escolheram-no como alvo de predileção, abalaram-lhe o prestígio, e tudo "porque sua poesia não interessava em absoluto ao projeto modernista, e não porque o julgassem mau poeta".
O verso livre já destronara soneto, alexandrino e rimas em outras plagas, mas hoje se sabe, com o distanciamento crítico que só o tempo proporciona, que nenhum verso é livre para o homem que deseja fazer bom trabalho. Grande quantidade de prosa de má qualidade tem sido escrita, desde então, com o nome de verso. E vice-versa. Apenas um mau poeta poderia considerar o verso livre libertação da forma.
No entanto, a clivagem entre parnasianismo e modernismo enraizou-se para sempre. Basta comparar a exaltação militar de Bilac, na campanha pelo alistamento obrigatório, com o pacifismo de Clã do jabuti, de Mário de Andrade, dez anos depois, para constatar o abismo que a revolução modernista cavou entre as duas gerações. O abismo teve várias conseqüências. Gonçalves Dias, Castro Alves e Olavo Bilac foram os últimos na literatura brasileira a despertar ao mesmo tempo entusiasmo culto e popular. Implantou-se entre o grande público e as artes, incluindo a poesia, um mal-entendido, uma dissociação, até hoje não suficientemente esclarecida.
Num banquete monstro de que foi alvo, em 1907, Bilac lembrou que quarenta anos antes não havia propriamente homens de letras no Brasil. "Havia estadistas, parlamentares, professores, diplomatas, homens da sociedade ou homens ricos, que, de quando em quando, invadiam por momentos o bairro literário..." Na fase seguinte, poetas e escritores que desejavam ser apenas poetas e escritores cometeram o erro de mostrar desdém pela consideração que a sociedade lhes recusava. A geração de Bilac, e ele principalmente, transformaram o que era então passatempo em profissão, culto, sacerdócio. "Viemos trabalhar cá em baixo, no seio do formigueiro humano."
Hoje em dia não há banquetes monstros para poetas. O formigueiro humano sequer gosta da poesia que lê, alegando que não a entende. Já Bilac, da estréia ao crepúsculo, revelou-se antes simples do que complicado, e isto talvez seja uma das causas da extrema receptividade que tiveram e ainda têm seus versos. José Veríssimo criticava em Bilac a falta de extensão e profundeza, mas reconhecia feição descritiva, pompa, o brilho novo de sua forma, feitos para agradar, dando sempre "impressão de acabado, de perfeito". Machado de Assis, em A nova geração, definiu a poesia parnasiana como uma inclinação nova nos espíritos, sem se utilizar ainda da expressão parnasiana. O parnasianismo renegou o romantismo, e exaltou uma arte fria ("Serás para mim uma deusa, / (...) inviolável e fria", escreveu Bilac), impassível, intelectualizada, contra o transe, a participação e a emotividade - em suma, a hipertrofia do eu. Em Profissão de fé Bilac pregou o trabalho formal, o culto ao estilo: "Torce, aprimora, alteia, lima / A frase; e enfim, / No verso de ouro engasta a rima, / Como um rubim." Queria que a estrofe, cristalina, "Dobrada ao jeito / Do ourives, saia da oficina / Sem um defeito".
No correr da história literária, os parnasianos da primeira hora, como Alberto Oliveira, Raimundo Correia e Bilac (a "trindade parnasiana") têm sido identificados como românticos retardatários. Filiavam-se ao parnasse francês (Gautier, Bainville, Lisle, Baudelaire e Hérédia). Bocage superou Camões na veneração parnasiana brasileira. As obras bem escritas são eternas. Aboliu-se o mistério na poesia. Evitavam-se recursos musicais, como aliterações, homofonias, ecos, expressões de poder encantatório. Repudiava-se o contexto medieval e se proclamava a superioridade da vida, da saúde, da sensualidade, da objetividade, do conhecimento do mal e do homem, sobre a morte, a doença, a melancolia, o sentimentalismo, a objetividade, a inocência e Deus (João Pacheco, em O realismo).
Mas a impassibilidade parnasiana não se manifestou totalmente nos poetas brasileiros, sempre atormentados pela incontinência da sensibilidade nacional, o brilho da paisagem, a exigência do sensualismo. O próprio Bilac, citado por Pacheco, mais de uma vez reclamou, em versos, da asfixia imposta pela escola, demasiadamente atada à prisão da lógica: "O pensamento ferve, e é um turbilhão de lava: / A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve..." Manuel Bandeira, em Poemeto erótico, mostrou que isto não acontecia sempre: "Teu corpo claro e perfeito, / Teu corpo de maravilha, / Quero possuí-lo no leito / Estreito da redondilha." Pode-se, portanto, como fez Bandeira, e Bilac tantas vezes, tirar proveito das limitações da forma, quando se quer. Mário de Andrade, em O empalhador de passarinho, disse, a propósito de Bilac: "A escultura das palavras também tem suas belezas. A solaridade, a luz crua, a nitidez das sombras curtas de certos verbalismos enfunados, pelo próprio afastamento em que estão da verdadeira poesia, têm seu sabor especial, pecaminoso."
Ao estrear, aos 23 anos, com Poesias, Bilac já estava perfeitamente enquadrado no rigor da forma, e com a sensualidade à flor da pele. Na adolescência, encharcou-se dos ecos da Guerra do Paraguai ("Todo esse espetáculo de heroísmo dominando a vida nacional, e por muitos anos alimentando a altivez do povo"). O Rio de sua maturidade era estranho burgo colonial, com quase três quartos de negros. A casa onde nasceu, na Rua da Vala, atual Uruguaiana, pertencia à área que melhor exprimia a fealdade e sujeira da capital. Perto estava a Rua do Ouvidor, com seu singular comércio francês. Conforme descreveu Ledo Ivo, o que dominava o centro urbano era o comércio atacadista de aspecto sinistro. Quando um tílburi corria pelos calçamentos irregulares, os pedestres se colavam às paredes. Passava-se manteiga da Dinamarca no pão de trigo inglês, bebia-se cerveja alemã, comiam-se queijos flamengos na Confeitaria Pascoal, usavam-se os esgotos da City e andava-se em bonde da Botanical Garden. Os cidadãos inconformados reclamavam das loucuras do prefeito Pereira Passos.
Um ano antes da publicação de Poesias (1888) Bilac n
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João Antônio

João Antônio

Choros — Para Pintagol e Cuíca

A mulher que eu não tenho sequer anda,
apenas desliza sutil feito ave.

Gaivota, à vôo preciso e espaçoso da gaivota,
e quem, quem são as outras perante
a que eu não tenho —
atrizes, babás , damas, mucamas,
faxineiras, serão verdureiras
mãos encardidos, quadradas,
hão de ser novatas na vida, desajeitadas,
tentando o trottoir da avenida
aventurando, meio envergonhadas,
mas empurradas pela fome,
aprendizes vacilantes de manicure
ou banhistas marrons de sol,
falsas madames vão à feira,
regateiam uma dúzia e meia de bananas
e mulheres de vida andeja serão
chamadas de tudo quanto é nome,
ciganinhas suburbanas e de araque,
ciganaqem descida com a gana e a necessidade
escorrida de algum enfiado escondido, da Baixada Fluminense,
a engambelar nos praças, no centro da cidade,
lendo a sorte questionável nas mãos dos passantes
— um olho na palma, outro na polícia —
rodam lépidas, o vestido longo e ordinário de chita,
escafedem-se espaventadas pelos becos,
erradas, erradias já que analfabetas,
por penúria ou orfandade corridas da área rural,
perdidaças ignorantes de tudo
e, entanto, mais carregam dentro de si
uma enorme aflição, tumultuada necessidade de amor,
ou serão aqueles que, em solidão e no escuro comem chocolate,
bombons de chocolate.

A que eu não tenho terá sido do vizinho.
Professor de inglês,
aranha escrevedor de jogo do bicho,
deputado salafrário,
ou no aparente ridículo da vida,
inusitada mas tosca, azeda e possível inversão, banal e não,
mulher de outra mulher?

Sem que eu pedisse
ó, não minha,
alma, retomada, semente, fêmea, vida,
far-me-ia cafuné, dar-me-ia um copo dágua,
socaria no pilão a magnífica paçoca com carne seca,
dividiria comigo a fatia de goiabada,
a agrura de um despejo, uma prisão,
a correria pela vida, a vida, ou correntia,
ou o recacau de uma pancadaria na barriga da rua,
chuva e sol, após,
acordar-me-ia com beijos,
relassem na minha barba de três dias,
nas rugas da minha cara.

Também na linha do horizonte,
onde céu e mar se tocam, de lá
ela vem vindo e pode chega
baixando a conspiração dos demônios.

Em nada lembraria as outras
com quem me droguei em paixão,
coxas de Diana,
em chispas e trama de paixão,
fogo de palha a durar sete anos cada um,
carismático número sete,
em cada conhaque a duração de sete janeiros,
foram quatro vezes sete
perfazendo vinte e oito anos
ah, montanha russa,
em que cheirei, cheiramos, fumei, fumamos,
cafunguei, cafungamos, joguei com exagero, arrepiado bebi,
sobe-e-desce, prende a respiração,
antes e depois da mulher que eu não tive,
ó benditas, as anteriores,
melhor me ensinaram,
o meu corpo a tal ponto e detalhes,
não se lembra
e nem se esquece de todos os pontos,
o fremir de cada ondulação dos corpos
dessas benditas mulheres da rua e de casa
para quem o amor tem cheiro,
sobe pelas paredes, prolonga-se,
engalfinha, espicha,
escarrapacha, encolhe,
grito arfado, indômito,
suga o ar e quebra camas,
é boêmio fora de hora
tampouco escolhe lugar,
jamais cronometrado
junto, grudado a essas benditas mulheres
olhos mortiços ou sonhadores,
como os olhos de uma criança.

A mulher que eu não tenho
não joga bilhar francês, sequer carteia bridge,
é outro o seu pano verde,
joga sinuca, ganha partidas,
remata pelo golpe dos vinte-e-sete,
e pelo dos vinte-e-sete,
conserva a extrema elegância
fecha à marinheira, os seus cigarros de papel
e fumo desfiado nas coxas nuas, grossas, morenas coxas,
sustentadas pelas canelas finas de sabiá.

Guarda, estelante.
Reproduz, a capricho, um perfume onipresente.
Luminar, guardará para o sempre o enigma —
onde, segredado, em que noite única,
ficou escondido deveras o frescor superfino
ondeava, emanado das perna dançarinas,
passos de descalça odalisca dos antigos cabarés.

A que eu não tive, novinha,
não tem idade,
tem treze anos e não é virgem
e me ensina na cama
e tem mais de trinta e cinco
tem, em principal, todas as carnes
e as idéias no lugar.

Palmeira, o esguia ao vento,
é o meu calor na madrugada
o meu novo Morro da Geada
a reinvenção do primeiro estilingue
levanta a voz e grave de crioula sacudida,
o susto, o arrepio da primeira boca em que suguei
a mulher que eu não tive
e se esconde nas estrofes de aço e ferro batido,
um só Nelson Cavaquinho.

Acresce espontânea, delicada, dolente,
malandra, macia, sestrosa,
dengosa, nítida, límpida,
como um sorriso brasileiro
e como um choro de Garoto,
Aníbal Augusto Sardinha.
Trata-se, mais do que a musa morena,
ainda mais que perfeita
a mulher que eu não tenho
só tem linhas sinuosas e não faz elipses mentais
arruma o trilho e é a um só tempo locomotiva
e, tão perfeita, não tem passado.

Ser inteiriço em palmeira
tem o pescoço longo,
apertada vagina pequena,
corta e não é dentada, fecha
engole, acalora, corta
e fecha como alicate.

Nunca usou óculos
o que eu não tenho
tem os olhos negros sombreados
onde baila a alma,
e trinta e dois dentes límpidos na boca
jamais usou dentifrício,
escovados com a areia dos rios pelo dedo indicador.

Caída, caída na vida e mulher chamada pública
a que eu não tenho
é quem requebra só pra mim
e quando acorda, me entreolha e diz,
se ainda durmo, vida, ficaste mais linda.
O bamboleio sarado dos ancas
o empinado dos seios
rijas coxas avançam
marcam de tal desenho o andar,
mulher que eu não tive,
assista exímia, quase nua, guerreira ritmada,
de tal sorriso, sambeiro,
ao pisar adona-se a avenida toda
e parece ser todo dela.

Sendo crioula, cabrocha ou irmã rara em nefertite,
mulata melhormente,
quase um sorriso e quase meio sorriso,
a harmonia da indagação sábia,
humilde leveza tão solene,
cabe uma enciclopédia em sua cara,
não livresca, só humano,
em olhos grandes, antigos e sofridos das pretas,
à voz grave das negras dos morros
quando fala é feito o pintassilgo
mestiçado com a canária-do-reino
ganhou o conto magnífico, incansável,
politonado e contínuo, quase metálico,
híbrido bailarino pintagol.

Estrela-guia não minha
singular e não rara
supina dona do impossível
a quem não dói perder dinheiro
doma, fina, a ousado equação delirante,
quanto menos tem mais gasta
e alvejante, luminosa se presta,
quando a questão é ruça
usa como nenhuma
a excelência da conjugação do verbo coisar.
Aperta-se o cerco, o jogo é jogado,
a que eu não tenho
mantém a vagina molhada
e bom o coração,
aprendeu com o sete-estrelo dos pontos
a descrer na lei do mínimo esforço,
sabe, não somos brinquedo e brincamos,
e diz de cor e salteado
a manha das ruas,
os sambas-de-preto
em que mulher de malandro é rapaz
num dia apanha, no outro quer mais.
Beldroegas, à pascácios, inquietos, farisaicos,
mondrongos aturdidos —
ela não desconhece que a maioria
é mosca de padaria.

Encostado à esquina eu não fique
já que é nunca morto o Morro da Geada,
mas esper
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Nelson Ascher

Nelson Ascher

Festas do intelecto e da desordem

Há muito de semelhante nas trajetórias que levaram (ou trouxeram) Waly Salomão e Antonio Risério aos seus respectivos primeiros volumes de poemas. Primeiros, sim _pois o que Waly fazia antes era um tipo de prosa, e o volume de estréia de Risério (incorporado neste novo) estava mais para um ensaio geral, oculto, além disso, no segredo de uma edição mínima. Bom, quanto às semelhanças, ambos vêm do mesmo Estado _a Bahia_, ligaram-se e/ou descendem _mais ou menos_ da MPB de lá (Caetano, Gil & cia.) e da poesia concreta paulista, agitaram revistas nos anos 70 (Navilouca um, Muda o outro) etc.
Mas as diferenças são importantes. "Algaravia" de Waly é um livro cosmopolita, embora claramente enraizado na sua origem. "Fetiche" de Risério, no que tem de mais realizado, é étnico, ou melhor, interétnico. O primeiro metaboliza _sem negá-las_ as influências que formaram o poeta. O segundo oscila entre algo de fato próprio/pessoal e um lastro de tributos pagos explicitamente. Um atrai, entre outras razões, pelo que já não é. O outro, pelo que poderia ser mais plenamente.
As intenções de Waly são claras e ele as declara: "Um poema deve ser uma festa do intelecto"; "_O que é que você quer ser quando crescer?/_Poeta polifônico." A festa polifônica do intelecto se realiza sobretudo na memória que, para ele, "é uma ilha de edição", em que são trabalhados diversos tempos e lugares, reais ou imaginários, evocados de distintas maneiras, mas principalmente por meio de frases em outras línguas (inglês, francês, catalão).
Atravessa o livro uma perpétua perplexidade em face do quê e pelo quê se passou e, curiosamente, sobressai em seus poemas não tanto a nostalgia quanto a náusea _por exemplo, dos anos 60/70 em "Pesadelo de Classe"_ e, quando se celebra (dubiamente) a viagem em "Poema Jet-Lagged", ela é logo após negada em "Anti-Viagem", texto que, com o anterior, espelha-se num díptico oximoresco.
Waly faz do poema uma des-re-montagem da experiência, mas sua meta, obviamente, não é a fixação desta e sim o próprio poema, que, aliás, é continuamente discutido dentro e por dentro sem que se transforme em metapoesia. E as próprias citações eruditas brotam, por assim dizer, organicamente do argumento e da "persona" lírica inventada. E aqui, no conjunto, ele barroquiza tropicalmente, na melhor tradição de seu Estado: "Uns ouvindo o canto intuem Orfeu, outros sentem/ Oxum" _porque sua poesia se faz com "Alaúde, cuíca e pau-de-chuva". Mais que o citado, portanto, conta mesmo é quem cita, pois, afinal, "Alguém acha que ritmo jorra fácil,/ pronto rebento do espontaneismo?".
Em "Fetiche", por sua vez, o mais duradouro é o que se vincula a/e decorre do ensaísmo do poeta.
Risério, conhecido como um dos mais talentosos ensaístas de sua geração, estudou com originalidade a poesia brasileira moderna, a MPB, o carnaval e certos temas _sua marca registrada_ que poderiam ser chamados de etnopoéticos. Quando sua própria poesia se aproxima desse último conjunto de inquietações, ela ganha singularidade. Quando, por outro lado, envolve-se com as admirações literárias e musicais do autor, ela deixa a rigor de ser "sua própria poesia" e torna-se poesia alheia.
Assim há no livro poemas que poderiam ser atribuídos, por exemplo, a Haroldo de Campos ("Dêuteros Hélios" remete obviamente aos "Opúsculos Goetheanos"); a Paulo Leminski ("Leminskiana" naturalmente, mas também "Estreito de Behring"); a Décio Pignatari ("Caras Pintadas", em que frases inteiras ganham outro sentido quando deformadas pela troca de letras);
Caetano Veloso ("Noche de Ronda" descende de "Podres Poderes", "Vaca Profana" etc.), Affonso Avilla, José Paulo Paes e até mesmo Drummond (compare-se "Toque Árabe", que não é um mau poema, com "Anedota Búlgara").
O tributo mais pesado, porém, é pago a Augusto de Campos. E não se trata apenas do caráter visual do livro, com poemas espacializados, transcritos em diversas famílias e corpos de letra e processados por computador, ou de "intraduções", mas de praticamente metade dos textos do livro operando num estilo que, com poucas alterações generacionais, são augustianos sem tirar nem pôr.
Poetas foram feitos para serem imitados, seguidos, mas também alterados. O problema é que Augusto é um dos mais singulares que existem, particularmente quando desenvolve paralela e articuladamente o verbal e o visual, algo no que ele é provavelmente único. Ou seja, uma vez que se chegue ao "ovo novelo" de Colombo, torna-se fácil imitá-lo, mas o resultado acaba sendo precisamente isso _uma imitação, com as consequências de praxe: o que for bom no poema pertence ao mestre, enquanto cabe ao discípulo assumir plena responsabilidade pelos seus defeitos.
Em outras palavras, Augusto é inimitável e metade de "Fetiche" o demonstra bem: quando os poemas funcionam, eles não são, em última instância, de autoria do autor.
Essa autoria se firma e patenteia, isto sim, nos poemas em que Riséio busca sua _com perdão da palavra_ inspiração, em outras culturas, na alteridade, na procura do _com redobrado perdão da palavra_ "outro", uma entidade cantada, decantada e entrevistada, mas raramente entrevista.
É aqui _em "Via Papua" e "Antiskoklaan" (um poema judaico), na algaravia multicultural (no bom sentido) de "Herrera", em "Padê", "Poema de Catequese" e outros_ que o poeta retoma uma das melhores vertentes do primeiro modernismo _a de Oswald, Raul Bopp e do Mario macunaímico_ para começar a trabalhá-la, enquanto fetiche "so to say" primitivo _sem fetichismo primitivista_, num outro patamar de conhecimento antropológico, informado agora menos pelos delírios de Bachofen que pelos estudos de um Mircea Eliade ou um Lévi-Strauss. A chave disso, é Risério mesmo quem a dá em sua "Arte Poética": "Na serra da desordem/ no piracambu tapiri/ em cada igarapé do pindaré/ em cada igarapé do gurupi/ existe uma palavra/ uma palavra nova para mim".
Lançamento - "Algaravias", de Waly Salomão, será lançado no Rio, no dia 8, a partir das 20h, na Livraria Timbre (r. Marquês de São Vicente, 52, loja 221, tel. 021/274-1146), e em São Paulo, no dia 15, a partir das 20h, na Livraria Antes do Baile Verde (al. Gabriel Monteiro da Silva, 1.374, tel. 011/881-9721).

(in Folha de São Paulo)

Leia obra poética de Nelson Ascher

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Nelson Ascher

Nelson Ascher

O purgatório do Boca do Inferno

Mistérios gregorianos

Desde sua morte, há prováveis 300 anos, até os dias de hoje, a pessoa e a poesia de Gregório de Matos são objeto de uma polêmica ininterrupta Gregório de Matos e Guerra, cujo tricentenário da morte ocorre provavelmente no presente ano, é geralmente considerado a figura literária mais relevante do Brasil colonial. Ainda assim, o Boca do Inferno encontra-se há cerca de 150 anos num purgatório crítico, depois de ter passado outros tantos numa espécie de limbo. Tão ou mais célebre do que o satirista barroco é a ininterrupta polêmica que, por século e meio, mas, de certa forma, há já, pelo menos, três séculos, tem posto em questão tudo que diz respeito à sua pessoa, obra, reputação, época etc.
Nascido em Salvador, talvez em 1636, ou seja, há 360 anos, ele teria estudado na Bahia e em Portugal (Coimbra), e vivido dos dois lados do Atlântico, numa trajetória que incluiria um exílio em Angola, algo que, segundo a lenda, decorreria de uma reação de autoridades ofendidas pela virulência de suas sátiras. Julga-se que, já de retorno ao Brasil, teria morrido no Recife em 1696 ou 1695 (a segunda hipótese é defendida pelo historiador Fernando da Rocha Peres em texto nesta página).
A primeira "biografia" foi escrita um século depois. Acerca de sua vida há, portanto, pouquíssimos fatos, bastante conjetura e muito mais ignorância.
Os mistérios que cercam sua obra são ainda maiores, pois, enquanto vivia o provável autor, seus poemas — jamais recolhidos por ele mesmo num volume autógrafo — circularam em folhas soltas, copiados e recopiados à mão, e seu texto se alterava de versão em versão. Como discutir então suas intenções originais? Virtualmente "desaparecida" depois de sua morte, a obra volta realmente a circular aos poucos apenas em 1850. E, embora o poeta já tivesse sido atacado em vida enquanto imitador, foi só com a publicação de meados do século passado que principiou de verdade a "questão gregoriana".
Como se poderia esperar, essa polêmica dizia amiúde menos respeito ao poeta ou aos poemas do que às preocupações dos polemistas e de seu tempo. Num primeiro momento, que cobre cerca de cem anos, há sem dúvida textos sérios, mas o que se discute em geral é menos a qualidade dos textos, seu contexto histórico e outras tantas coisas do gênero, do que seu "caráter":
Gregório é autor original ou mero plagiário? Trata-se de um grande poeta que torna grande a poesia brasileira desde seus primórdios ou será ele, alternativamente, um português ou um mulato sem relevância. Ufanemo-nos dele e do nosso país ou não?
A mudança qualitativa da querela vem na segunda metade dos anos 40, primeiro com a publicação, por parte de Segismundo Spina, de uma antologia comentada e prefaciada por um minucioso estudo favorável ao poeta, tudo isso realizado segundo critérios de discussão mais congeniais aos dias que correm. Em seguida, a posição contrária também se renova por meio de alguns estudos de Paulo Rónai, que não tanto repete os velhos argumentos quanto os modifica ao repô-los em bases filológicas e estilísticas mais seguras.
Uma observação contundente, porém, que João Carlos Teixeira Gomes faz em seu "Gregório de Matos - O Boca-de-Brasa", é a de que nem uma vez sequer usa Rónai, para se referir ao poeta, o termo "barroco". Pode-se argumentar que o crítico húngaro formou-se num país e num período quando esse nome era sinônimo de decadência não só literária, mas social, econômica, nacional. Isso talvez ajude a explicar a posição de Rónai que, defensor de primeira hora de Drummond e de Guimarães Rosa, não pode ser qualificado de literato conservador.
Em todo caso, a omissão de Rónai demarca o signo sob o qual a polêmica viria a continuar e segue se travando: o da importância do barroco. A reavaliação do barroco, efetuada sobretudo nos anos 20, por gente como T.S. Eliot na Inglaterra, García Lorca na Espanha e Walter Benjamin na Alemanha, foi mais do que uma discussão meramente erudita e resumia, à sua maneira, muitos dos pontos programáticos do modernismo internacional. A partir dos anos 50, a "questão gregoriana" que inicialmente pouco tinha a ver com isso tudo, revestiu-se também desse significado que no Brasil parece agora ser o central. Esse é seguramente o tema principal do estudo de Haroldo de Campos, como se pode ver até mesmo em seu título —"O Sequestro do Barroco".
Ser hoje contra ou a favor de Gregório implica principalmente tomar partido num debate sobre o barroco, seu significado e sua relevância para a literatura moderna. É claro que há outras discussões paralelas como, segundo o gosto de nosso tempo, sobre o sentido político da obra de Gregório, se suas sátiras são, de acordo com os padrões de sua época ou da nossa, anticolonialistas, progressistas, talvez revolucionárias, ou conformistas, reacionárias e mesmo racistas. É justo que estas e outras questões sejam esmiuçadas e é provável que encontrem tão pouca resolução, ou pelo menos consenso, quanto as mais antigas. Para todos os efeitos, quanto mais "sub judice", mais presente a obra contestada de Gregório se torna na literatura brasileira, embora sua presença se configure sob a forma do paradoxo —provavelmente perpétuo.
Original e revolucionário.
(in Caderno Mais!, Folha de São Paulo, 20/10/96)

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