Poemas neste tema
Desilusão e Desamor
Álvares de Azevedo
Perdoa-me, Visão dos meus Amores
Perdoa-me, visão dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando! ...
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flôres!
De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores...
Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora...
Sem que última esperança me conforte,
Eu - que outrora vivia! - eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!
Se a ti ergui meus olhos suspirando! ...
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flôres!
De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores...
Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora...
Sem que última esperança me conforte,
Eu - que outrora vivia! - eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!
2 582
1
Afonso Duarte
Ode Sputnika
Vulneráveis Satélites
Percorrem o Espaço
Onde quis haver Deuses!
E choro (Netuno e Vênus, Mercúrio e Marte).
— O meu mundo infantil
Acabou hoje.
Tremei! Desferirei dos céus ímpias setas,
Minha faixa de Arco-íris como um Rei
Que reine entre os Planetas.
Percorrem o Espaço
Onde quis haver Deuses!
E choro (Netuno e Vênus, Mercúrio e Marte).
— O meu mundo infantil
Acabou hoje.
Tremei! Desferirei dos céus ímpias setas,
Minha faixa de Arco-íris como um Rei
Que reine entre os Planetas.
1 131
1
Eugenio Montale
VENTO NO CRESCENTE
A grande ponte não levava a ti.
Procurar-te-ia mesmo navegando
pelos esgotos a uma ordem tua.
Mas com o sol nos vidros das varandas
a minha força declinava já.
Um homem que prègava no Crescente
pergunta: Sabe onde está Deus? Sabia,
logo lhe disse. Abanou a cabeça,
mas foi no turbilhão que homens e casas
levava e levantava no negrume.
Procurar-te-ia mesmo navegando
pelos esgotos a uma ordem tua.
Mas com o sol nos vidros das varandas
a minha força declinava já.
Um homem que prègava no Crescente
pergunta: Sabe onde está Deus? Sabia,
logo lhe disse. Abanou a cabeça,
mas foi no turbilhão que homens e casas
levava e levantava no negrume.
1 129
1
Maurício de Lima
Quando um homem ama uma mulher
Depois de um dia de labuta,
Quando as forças estão esgotadas,
O guerreiro quer abrigo,
Quer beber com um amigo,
Quer voltar para sua amada...
E o amor tem dessas coisas,
Admiração, respeito e cumplicidade...
Enquanto é cego é perfeito,
Pois no outro não há defeito,
Só se vê felicidade...
E se amar é uma vocação,
Beber é uma necessidade...
Por amor um homem se aniquila
Numa garrafa de tequila
Prá fugir da realidade...
Mas o homem só se destrói
Quando vê que sua amada
É um ser humano comum,
Como ele próprio é um,
E que de especial não tem nada...
Talvez veja nela a si mesmo,
Como num espelho se vê o reflexo...
Talvez veja nela a mediocridade,
Com alguns lampejos de vaidade...
Terá, enfim, algo complexo...
"Não sei se vou ou se fico",
Dirá a si mesmo o condenado...
Pois tudo o que sonhara na vida
Não passou da ilusão perdida
De um coração apaixonado...
Terá crises de consciência
Quando lembrar do passado...
E todos os erros e mazelas
Serão atribuídos a ela
Como se ele não fosse também culpado...
Pensará nas orgias vividas,
Nos excessos cometidos,
Nas mulheres possuídas,
Nos cigarros, nas músicas e nas bebidas...
"E com ela, como terá sido?"
"Quantos homens ela teve?"
"Quando, onde e como ela fodeu?"
"Será que ela pensa em algum amante?"
"Como foi que eu não vi tudo antes?"
"E a primeira vez, como aconteceu?"
Ficará cheio de dúvidas
E criará mil problemas...
Tomando "uma" esquecerá a dor...
Talvez sinta novamente o amor...
Talvez resolva seu dilema...
Pois somente um ser puro
É digno de ser amado...
E a bebida suaviza o que é duro,
Torna claro o que é escuro,
Mantém tudo bom e imaculado...
Bêbado, ela será uma santa...
Sóbrio, ela será uma cadela...
Bêbado, desejará tê-la ao leito...
Sóbrio, o orgulho lhe apertará o peito
E o afastará da presença dela...
Ela não entenderá como
Nem porquê tal transformação...
O homem da sua vida não bebia,
Não xingava nem lhe batia
E hoje só lhe traz humilhação...
Depois de algum tempo, já cansada
De tentar entender a mudança,
Ela passará a culpar a bebida
Por ele estar "broxando" na vida...
Perderá, por fim, as esperanças...
E o que antes não existia de fato,
Com gole de vinho seleto,
Sairá do plano abstrato,
Das idéias de um corno nato,
E passará para o plano concreto...
Um corpo feminino jovem e bonito
Não fica menos atraente
Quando é mal servido de carícias,
Quando do sexo não recorda as delícias,
Se os desejos se mantêm ardentes...
Assim nasce um corno...
Uma rotina, uma idéia e uma bebida...
Um diálogo não consumado, uma palavra mal colocada,
Um gesto impensado, uma ofensa lançada,
Uma vida destruída pelo silêncio...
Assim nasce um bêbado...
Uma rotina, uma idéia e uma bebida...
Uma paixão apagada, uma paisagem sem cor,
Um desejo de paz, um sofrimento sem dor...
Uma vida esquecida pela embriagues...
Beber para esquecer a dor de não poder mais aceitar
Os defeitos de quem amamos um dia...
Para aliviar a angústia e o arrependimento...
Para conseguir ser feliz nestes momentos,
Idolatrando bêbado o que sóbrio se via...
Ele não a abandona enquanto sóbrio
Porque o hábito o fará novamente embriagado...
Quando bêbado os defeitos dela desaparecem,
Seu amor, seu carinho novamente florescem,
Ele se sente sujo e envergonhado...
Agora que ela passou a ter amantes...
Ele é só mais um miserável
Que em nada se parece com o homem de antes...
Hoje ele bebe até cair na beira da calçada...
Sóbrio, diz não aceita "aquela" conduta...
Bêbado, chora até ficar com a boca travada...
Diz para si mesmo que é triste amar puta...
Principalmente as mais procuradas...
Quando as forças estão esgotadas,
O guerreiro quer abrigo,
Quer beber com um amigo,
Quer voltar para sua amada...
E o amor tem dessas coisas,
Admiração, respeito e cumplicidade...
Enquanto é cego é perfeito,
Pois no outro não há defeito,
Só se vê felicidade...
E se amar é uma vocação,
Beber é uma necessidade...
Por amor um homem se aniquila
Numa garrafa de tequila
Prá fugir da realidade...
Mas o homem só se destrói
Quando vê que sua amada
É um ser humano comum,
Como ele próprio é um,
E que de especial não tem nada...
Talvez veja nela a si mesmo,
Como num espelho se vê o reflexo...
Talvez veja nela a mediocridade,
Com alguns lampejos de vaidade...
Terá, enfim, algo complexo...
"Não sei se vou ou se fico",
Dirá a si mesmo o condenado...
Pois tudo o que sonhara na vida
Não passou da ilusão perdida
De um coração apaixonado...
Terá crises de consciência
Quando lembrar do passado...
E todos os erros e mazelas
Serão atribuídos a ela
Como se ele não fosse também culpado...
Pensará nas orgias vividas,
Nos excessos cometidos,
Nas mulheres possuídas,
Nos cigarros, nas músicas e nas bebidas...
"E com ela, como terá sido?"
"Quantos homens ela teve?"
"Quando, onde e como ela fodeu?"
"Será que ela pensa em algum amante?"
"Como foi que eu não vi tudo antes?"
"E a primeira vez, como aconteceu?"
Ficará cheio de dúvidas
E criará mil problemas...
Tomando "uma" esquecerá a dor...
Talvez sinta novamente o amor...
Talvez resolva seu dilema...
Pois somente um ser puro
É digno de ser amado...
E a bebida suaviza o que é duro,
Torna claro o que é escuro,
Mantém tudo bom e imaculado...
Bêbado, ela será uma santa...
Sóbrio, ela será uma cadela...
Bêbado, desejará tê-la ao leito...
Sóbrio, o orgulho lhe apertará o peito
E o afastará da presença dela...
Ela não entenderá como
Nem porquê tal transformação...
O homem da sua vida não bebia,
Não xingava nem lhe batia
E hoje só lhe traz humilhação...
Depois de algum tempo, já cansada
De tentar entender a mudança,
Ela passará a culpar a bebida
Por ele estar "broxando" na vida...
Perderá, por fim, as esperanças...
E o que antes não existia de fato,
Com gole de vinho seleto,
Sairá do plano abstrato,
Das idéias de um corno nato,
E passará para o plano concreto...
Um corpo feminino jovem e bonito
Não fica menos atraente
Quando é mal servido de carícias,
Quando do sexo não recorda as delícias,
Se os desejos se mantêm ardentes...
Assim nasce um corno...
Uma rotina, uma idéia e uma bebida...
Um diálogo não consumado, uma palavra mal colocada,
Um gesto impensado, uma ofensa lançada,
Uma vida destruída pelo silêncio...
Assim nasce um bêbado...
Uma rotina, uma idéia e uma bebida...
Uma paixão apagada, uma paisagem sem cor,
Um desejo de paz, um sofrimento sem dor...
Uma vida esquecida pela embriagues...
Beber para esquecer a dor de não poder mais aceitar
Os defeitos de quem amamos um dia...
Para aliviar a angústia e o arrependimento...
Para conseguir ser feliz nestes momentos,
Idolatrando bêbado o que sóbrio se via...
Ele não a abandona enquanto sóbrio
Porque o hábito o fará novamente embriagado...
Quando bêbado os defeitos dela desaparecem,
Seu amor, seu carinho novamente florescem,
Ele se sente sujo e envergonhado...
Agora que ela passou a ter amantes...
Ele é só mais um miserável
Que em nada se parece com o homem de antes...
Hoje ele bebe até cair na beira da calçada...
Sóbrio, diz não aceita "aquela" conduta...
Bêbado, chora até ficar com a boca travada...
Diz para si mesmo que é triste amar puta...
Principalmente as mais procuradas...
961
1
Ivaldo Gomes
Ao norte de mim
E o mundo gira em círculos,
Cada vez mais fechados.
É como se fosse uma roda,
A moer minhas esperanças
Sem dó nem piedade.
E gira o mundo em mim,
E muda os fusos
E difusos eu fico,
Eu vou.
E olho o norte da
Minha bússola amorosa,
E o magnético aponta.
O meu desapontamento.
E fico girando os pensamentos,
Ungüentos dos meus
Sonhos, desejos.
Lembro dos beijos,
Dados em ti.
Do universo de
Encantos do céu
Da tua boca.
E rouca fica a voz,
O violão e o verso.
E no reverso dos dias,
Ao Norte de mim.
E rola a vida lá fora...
E gira o desejo no peito...
E o meu astrolábio,
Salgado da maresia,
Molhados dos pingos
Das lágrimas.
Que caem assim.
Ai de mim, prisioneiro.
Desse olhar, que roda, roda,
Ao Norte de mim.
Cada vez mais fechados.
É como se fosse uma roda,
A moer minhas esperanças
Sem dó nem piedade.
E gira o mundo em mim,
E muda os fusos
E difusos eu fico,
Eu vou.
E olho o norte da
Minha bússola amorosa,
E o magnético aponta.
O meu desapontamento.
E fico girando os pensamentos,
Ungüentos dos meus
Sonhos, desejos.
Lembro dos beijos,
Dados em ti.
Do universo de
Encantos do céu
Da tua boca.
E rouca fica a voz,
O violão e o verso.
E no reverso dos dias,
Ao Norte de mim.
E rola a vida lá fora...
E gira o desejo no peito...
E o meu astrolábio,
Salgado da maresia,
Molhados dos pingos
Das lágrimas.
Que caem assim.
Ai de mim, prisioneiro.
Desse olhar, que roda, roda,
Ao Norte de mim.
889
1
Marcial
EPIGRAMAS
I, 24 - A COTA
Com quem te não banhaste, não convidas nunca,
E só nos balneários teus convivas buscas.
A mim me perguntava como nunca o fora:
E agora sei que, nu, não pude encher-te os olhos.
Com quem te não banhaste, não convidas nunca,
E só nos balneários teus convivas buscas.
A mim me perguntava como nunca o fora:
E agora sei que, nu, não pude encher-te os olhos.
1 101
1
Agostina Akemi Sasaoka
Castigo
Desencaixo-me displicente.
Esvaziei-me, enfim.
Teu corpo
ainda queima,
tua mão ainda afaga.
Jamais
o prazer fora tão perverso.
Escondo meus lábios
atrás do batom.
Teus olhos
– canibais marinhos –
começam a se desfazer.
Não consigo te acompanhar.
És tão tolo...
Ainda me engasgo
com um último orgasmo.
Venci.
Sou aquela
que pela primeira vez
amas.
Mas a noite se esvai.
Sei que vais me tocar:
deixarei?
Não quero me amarrotar.
Tua boca me implora,
só que as estrelas se apagaram.
Vou-me embora
para nunca mais...
Se fosse amor,
não acabaria.
Esvaziei-me, enfim.
Teu corpo
ainda queima,
tua mão ainda afaga.
Jamais
o prazer fora tão perverso.
Escondo meus lábios
atrás do batom.
Teus olhos
– canibais marinhos –
começam a se desfazer.
Não consigo te acompanhar.
És tão tolo...
Ainda me engasgo
com um último orgasmo.
Venci.
Sou aquela
que pela primeira vez
amas.
Mas a noite se esvai.
Sei que vais me tocar:
deixarei?
Não quero me amarrotar.
Tua boca me implora,
só que as estrelas se apagaram.
Vou-me embora
para nunca mais...
Se fosse amor,
não acabaria.
902
1
Fernando Correia Pina
Depois de amar tão loucamente
Depois de te amar tão loucamente,
depois dessa paixão que me abrasou,
depois dessa tesão omnipotente
que os ossos do bom senso devorou,
achei-me um dia só, subitamente,
perguntando-me – agora onde é que vou
sem ninguém a quem amar intensamente,
sem ninguém a quem me dar tal como sou?
E a resposta não veio. Fiquei sozinho
afogando-me em desespero e vinho,
em tristes píveas, em anti-depressivos
e de ti, que hoje és apenas história,
guardo somente a saudosa memória
num pintelho entalado entre os incisivos.
depois dessa paixão que me abrasou,
depois dessa tesão omnipotente
que os ossos do bom senso devorou,
achei-me um dia só, subitamente,
perguntando-me – agora onde é que vou
sem ninguém a quem amar intensamente,
sem ninguém a quem me dar tal como sou?
E a resposta não veio. Fiquei sozinho
afogando-me em desespero e vinho,
em tristes píveas, em anti-depressivos
e de ti, que hoje és apenas história,
guardo somente a saudosa memória
num pintelho entalado entre os incisivos.
1 229
1
Judas Isgorogota
Atitudes
A poesia em mim era uma asa andeja
que voava noite e dia
e eu andejava, desde menino,
na asa da poesia.
— "Triste é o destino
dos poetas!" o meu pai dizia.
"Onde há poesia não há pão!"
E minha mãe que, além de sertaneja,
possuia um coração, como todas as mães:
— "Pois que faça poesia!
A poesia é o melhor dos pães".
Quando chegou a hora
de trabalhar, ser gente,
fazer da vida uma linha reta,
ela que até ali fora uma linha curva
espinhosa e difícil... mar em fora
saí, para lutar valentemente.
Acontece que eu era apenas um poeta...
Mas, ao fim, encalhei, como outros muitos barcos
desarvorados,
no acoradouro de um jornal;
vida de sonhos e ordenados parcos,
que, entretanto, me dava o que eu queria:
um pouco de ideal,
de liberdade e poesia.
E um certo dia:
— "Jornal é a sensação do cotidiano!
É a vida terra-a-terra!
Nada de poesia!"
Só agora é que vejo, céus, quanto tempo perdido...
E agora, olhando para trás, eu vejo,
comovido,
que, em meio a tanta desilusão,
ainda assim me ficou a quietude
que me anima e conforta.
Enfim, nem tudo foi em vão:
hoje sei que no mundo, a poesia
está morta...
Aquilo que era a essência da alma humana
não mais existe... Em luta, diária, insana,
tudo se digladia...
O homem, para vencer, precisa odiar
a própria poesia!...
Mas, agora que estou aposentado,
com toda a minha experiência
dos homens, e do mundo atormentado;
dos mistérios da vida e da divina essência;
hoje, que longe vai a juventude;
hoje, que vivo como um pássaro
que pressente chegar, por entre rosas,
a paz idílica das últimas
auroras e dos últimos crepúsculos;
eu, hoje, resolvi tomar uma atitude
definitiva, corajosa,
entre as mais corajosas:
— Vou fazer poesia!
que voava noite e dia
e eu andejava, desde menino,
na asa da poesia.
— "Triste é o destino
dos poetas!" o meu pai dizia.
"Onde há poesia não há pão!"
E minha mãe que, além de sertaneja,
possuia um coração, como todas as mães:
— "Pois que faça poesia!
A poesia é o melhor dos pães".
Quando chegou a hora
de trabalhar, ser gente,
fazer da vida uma linha reta,
ela que até ali fora uma linha curva
espinhosa e difícil... mar em fora
saí, para lutar valentemente.
Acontece que eu era apenas um poeta...
Mas, ao fim, encalhei, como outros muitos barcos
desarvorados,
no acoradouro de um jornal;
vida de sonhos e ordenados parcos,
que, entretanto, me dava o que eu queria:
um pouco de ideal,
de liberdade e poesia.
E um certo dia:
— "Jornal é a sensação do cotidiano!
É a vida terra-a-terra!
Nada de poesia!"
Só agora é que vejo, céus, quanto tempo perdido...
E agora, olhando para trás, eu vejo,
comovido,
que, em meio a tanta desilusão,
ainda assim me ficou a quietude
que me anima e conforta.
Enfim, nem tudo foi em vão:
hoje sei que no mundo, a poesia
está morta...
Aquilo que era a essência da alma humana
não mais existe... Em luta, diária, insana,
tudo se digladia...
O homem, para vencer, precisa odiar
a própria poesia!...
Mas, agora que estou aposentado,
com toda a minha experiência
dos homens, e do mundo atormentado;
dos mistérios da vida e da divina essência;
hoje, que longe vai a juventude;
hoje, que vivo como um pássaro
que pressente chegar, por entre rosas,
a paz idílica das últimas
auroras e dos últimos crepúsculos;
eu, hoje, resolvi tomar uma atitude
definitiva, corajosa,
entre as mais corajosas:
— Vou fazer poesia!
1 367
1
João José Cochofel
Breve
Breve
o tão que fote
o pudor de sê-lo.
Breve
o laço vermelho
dado no cabelo.
Breve
a flor que abriu
e o sol mudou.
Breve
tanto sonho findo
que a vida pisou.
o tão que fote
o pudor de sê-lo.
Breve
o laço vermelho
dado no cabelo.
Breve
a flor que abriu
e o sol mudou.
Breve
tanto sonho findo
que a vida pisou.
1 724
1
Raimundo Bento Sotero
O Sem-Terra do amor
Quase posseiro do teu coração,
Assim como um Sem-Terra resoluto,
Que se arrancha num sítio devoluto
E, depois, requer junto à União,
Pelo processo de Usucapião,
O direito de posse e usufruto;
Também o requeri e ainda luto
Nos tribunais do Amor em petição!
Entretanto, não fui bem sucedido,
Pois o meu rogo foi indeferido
Sob falsa alegação de invasor.
Mesmo expulso das terras do teu peito,
Prossigo em luta pelo meu direito
De entrar na posse do teu vago amor.
Assim como um Sem-Terra resoluto,
Que se arrancha num sítio devoluto
E, depois, requer junto à União,
Pelo processo de Usucapião,
O direito de posse e usufruto;
Também o requeri e ainda luto
Nos tribunais do Amor em petição!
Entretanto, não fui bem sucedido,
Pois o meu rogo foi indeferido
Sob falsa alegação de invasor.
Mesmo expulso das terras do teu peito,
Prossigo em luta pelo meu direito
De entrar na posse do teu vago amor.
983
1
Ronaldo Cunha Lima
Imortal
Pode até meu amor já ter morrido.
Podes dizer que teu amor morreu.
Só não pode morrer, nem faz sentido,
aquele amor que nosso amor viveu.
Podes dizer que teu amor morreu.
Só não pode morrer, nem faz sentido,
aquele amor que nosso amor viveu.
1 699
1
Frederico Valério
Confesso
Confesso que te amei, confesso
Não coro de o dizer, não coro
Pareço outra mulher, pareço
Mas lá chorar por ti, não choro
Fugir do amor tem seu preço
E a noite em claro atravesso
Longe do meu travesseiro
Começo a ver que não esqueço
Mas lá perdão não te peço
Sem que me peças primeiro
De rastos a teus pés
Perdida te adorei
Até que me encontrei
Perdida
Agora já não és
Na vida o meu senhor
Mas foste o meu amor
Na vida
Não penses mais em mim, não penses
Não estou nem pra te ouvir por carta
Convences as mulheres, convences
Estou farta de o saber, estou farta
Não escrevas mais nem me incenses
Quero que tu me diferences
Dessas que a vida te deu
A mim já não me pertences
Mas lá vencer-me não vences
Porque vencida estou eu
De rastos a teus pés
Perdida te adorei
Até que me encontrei
Perdida
Agora já não és
Na vida o meu senhor
Mas foste o meu amor
Na vida.
Não coro de o dizer, não coro
Pareço outra mulher, pareço
Mas lá chorar por ti, não choro
Fugir do amor tem seu preço
E a noite em claro atravesso
Longe do meu travesseiro
Começo a ver que não esqueço
Mas lá perdão não te peço
Sem que me peças primeiro
De rastos a teus pés
Perdida te adorei
Até que me encontrei
Perdida
Agora já não és
Na vida o meu senhor
Mas foste o meu amor
Na vida
Não penses mais em mim, não penses
Não estou nem pra te ouvir por carta
Convences as mulheres, convences
Estou farta de o saber, estou farta
Não escrevas mais nem me incenses
Quero que tu me diferences
Dessas que a vida te deu
A mim já não me pertences
Mas lá vencer-me não vences
Porque vencida estou eu
De rastos a teus pés
Perdida te adorei
Até que me encontrei
Perdida
Agora já não és
Na vida o meu senhor
Mas foste o meu amor
Na vida.
1 016
1
Fernando Pessoa
Ah, como o sono é a verdade, e a única
Ah, como o sono é a verdade, e a única
Hora suave é a de adormecer!
Amor ideal, tens chagas sob a túnica.
Sperança, és a ilusão a apodrecer.
Os deuses vão-se como forasteiros.
Como uma feira acaba a tradição.
Somos todos palhaços estrangeiros.
A nossa vida é palco e confusão.
Ah, dormir tudo! Pôr um sono à roda
Do esforço inútil e da sorte incerta!
Que a morte virtual da vida toda
Seja, sons, a janela que, entreaberta,
Só um crepúsculo do mundo deixe
Chegar à sonolência que se sente;
E a alma se desfaça como um peixe
Atado pelos dedos de um demente...
Hora suave é a de adormecer!
Amor ideal, tens chagas sob a túnica.
Sperança, és a ilusão a apodrecer.
Os deuses vão-se como forasteiros.
Como uma feira acaba a tradição.
Somos todos palhaços estrangeiros.
A nossa vida é palco e confusão.
Ah, dormir tudo! Pôr um sono à roda
Do esforço inútil e da sorte incerta!
Que a morte virtual da vida toda
Seja, sons, a janela que, entreaberta,
Só um crepúsculo do mundo deixe
Chegar à sonolência que se sente;
E a alma se desfaça como um peixe
Atado pelos dedos de um demente...
4 931
1
Fernando Pessoa
Ah, sempre no curso leve do tempo pesado
Ah, sempre no curso leve do tempo pesado
A mesma forma de viver!
O mesmo modo inútil de estar enganado
Por crer ou por descrer!
Sempre, na fuga ligeira da hora que morre,
A mesma desilusão
Do mesmo olhar lançado do alto da torre
Sobre o plaino vão!
Saudade, esperança – muda o nome, fica
Só a alma vã
Na pobreza de hoje a consciência de ser rica
Ontem ou amanhã.
Sempre, sempre, no lapso indeciso e constante
Do tempo sem fim
O mesmo momento voltando improfícuo e distante
Do que quero em mim!
Sempre, ou no dia ou na noite, sempre – seja
Diverso – o mesmo olhar de desilusão
Lançado do alto da torre da ruína da igreja
Sobre o plaino vão!
01/01/1921
A mesma forma de viver!
O mesmo modo inútil de estar enganado
Por crer ou por descrer!
Sempre, na fuga ligeira da hora que morre,
A mesma desilusão
Do mesmo olhar lançado do alto da torre
Sobre o plaino vão!
Saudade, esperança – muda o nome, fica
Só a alma vã
Na pobreza de hoje a consciência de ser rica
Ontem ou amanhã.
Sempre, sempre, no lapso indeciso e constante
Do tempo sem fim
O mesmo momento voltando improfícuo e distante
Do que quero em mim!
Sempre, ou no dia ou na noite, sempre – seja
Diverso – o mesmo olhar de desilusão
Lançado do alto da torre da ruína da igreja
Sobre o plaino vão!
01/01/1921
4 547
1
Fernando Pessoa
O grande sol na eira
O grande sol na eira
Talvez seja o remédio...
Não quero quem me queira,
Amarem-me faz tédio.
Baste-me o beijo intacto
Que a luz dá a luzir
E o amor alheio e abstracto
De campos a florir.
O resto é gente e alma:
Complica, fala, vê.
Tira-me o sonho e a calma
E nunca é o que é.
21/08/1930
Talvez seja o remédio...
Não quero quem me queira,
Amarem-me faz tédio.
Baste-me o beijo intacto
Que a luz dá a luzir
E o amor alheio e abstracto
De campos a florir.
O resto é gente e alma:
Complica, fala, vê.
Tira-me o sonho e a calma
E nunca é o que é.
21/08/1930
4 489
1
Fernando Pessoa
Ouço sem ver, e assim, entre o arvoredo,
Ouço sem ver, e assim, entre o arvoredo,
Vejo ninfas e faunos entremear
As árvores que fazem sombra ou medo
E os ramos que sussurram de eu olhar.
Mas que foi que passou? Ninguém o sabe.
Desperto, e ouço bater o coração –
Aquele coração em que não cabe
O que fica da perda da ilusão.
Eu quem sou, que não sou meu coração?
24/09/1932
Vejo ninfas e faunos entremear
As árvores que fazem sombra ou medo
E os ramos que sussurram de eu olhar.
Mas que foi que passou? Ninguém o sabe.
Desperto, e ouço bater o coração –
Aquele coração em que não cabe
O que fica da perda da ilusão.
Eu quem sou, que não sou meu coração?
24/09/1932
4 495
1
Fernando Pessoa
Não venhas sentar-te à minha frente, nem a meu lado;
Não venhas sentar-te à minha frente, nem a meu lado;
Não venhas falar, nem sorrir.
Estou cansado de tudo, estou cansado
E quero só dormir.
Dormir até acordado, sonhando
Ou até sem sonhar,
Mas envolto num vago abandono brando
A não ter que pensar.
Nunca soube querer, nunca soube sentir, até
Pensar não foi certo em mim.
Deitei fora entre ortigas o que era a minha fé,
Escrevi numa página em branco, «Fim».
As princesas incógnitas ficaram desconhecidas,
Os tronos prometidos não tiveram carpinteiro
Acumulei em mim um milhão difuso de vidas,
Mas nunca encontrei parceiro.
Por isso, se vieres, não te sentes a meu lado, nem fales,
Só quero dormir, uma morte que seja
Uma coisa que me não rale nem com que tu te rales –
Que ninguém deseja nem não deseja.
Pus o meu Deus no prego. Embrulhei em papel pardo
As esperanças e ambições que tive,
E hoje sou apenas um suicídio tardo,
Um desejo de dormir que ainda vive.
Mas dormir a valer, sem dignificação nenhuma,
Como um barco abandonado,
Que naufraga sozinho entre as trevas e a bruma
Sem se lhe saber o passado.
E o comandante do navio que segue deveras
Entrevê na distância do mar
O fim do último representante das galeras,
Que não sabia nadar.
28/08/1927
Não venhas falar, nem sorrir.
Estou cansado de tudo, estou cansado
E quero só dormir.
Dormir até acordado, sonhando
Ou até sem sonhar,
Mas envolto num vago abandono brando
A não ter que pensar.
Nunca soube querer, nunca soube sentir, até
Pensar não foi certo em mim.
Deitei fora entre ortigas o que era a minha fé,
Escrevi numa página em branco, «Fim».
As princesas incógnitas ficaram desconhecidas,
Os tronos prometidos não tiveram carpinteiro
Acumulei em mim um milhão difuso de vidas,
Mas nunca encontrei parceiro.
Por isso, se vieres, não te sentes a meu lado, nem fales,
Só quero dormir, uma morte que seja
Uma coisa que me não rale nem com que tu te rales –
Que ninguém deseja nem não deseja.
Pus o meu Deus no prego. Embrulhei em papel pardo
As esperanças e ambições que tive,
E hoje sou apenas um suicídio tardo,
Um desejo de dormir que ainda vive.
Mas dormir a valer, sem dignificação nenhuma,
Como um barco abandonado,
Que naufraga sozinho entre as trevas e a bruma
Sem se lhe saber o passado.
E o comandante do navio que segue deveras
Entrevê na distância do mar
O fim do último representante das galeras,
Que não sabia nadar.
28/08/1927
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Fernando Pessoa
Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,
Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,
O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.
Já que o não sou por tempo,
Seja eu jovem por erro.
Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva
É verdadeira. Aceito,
Cerro olhos: é bastante.
Que mais quero?
12/11/1930
O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.
Já que o não sou por tempo,
Seja eu jovem por erro.
Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva
É verdadeira. Aceito,
Cerro olhos: é bastante.
Que mais quero?
12/11/1930
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1
Fernando Pessoa
Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...
Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...
02/10/1933
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...
Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...
02/10/1933
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1
Fernando Pessoa
Na quinta entre ciprestes
Na quinta entre ciprestes
Secaram todas as fontes,
As rosas brancas agrestes
Trazidas do fim dos montes
Vós mas tirastes, que as destes...
No rio ao pé de salgueiros
Passaram as águas em vão,
Com tristezas de estrangeiros
Passaram pelos salgueiros
As ondas, sem ter razão.
Secaram todas as fontes,
As rosas brancas agrestes
Trazidas do fim dos montes
Vós mas tirastes, que as destes...
No rio ao pé de salgueiros
Passaram as águas em vão,
Com tristezas de estrangeiros
Passaram pelos salgueiros
As ondas, sem ter razão.
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1
Fernando Pessoa
Olha, Daisy, quando eu morrer tu hás-de
SONETO JÁ ANTIGO
Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás-de
dizer aos meus amigos aí de Londres,
embora não o sintas, que tu escondes
a grande dor da minha morte. Irás de
Londres pra Iorque, onde nasceste (dizes...
que eu nada que tu digas acredito),
contar àquele pobre rapazito
que me deu tantas horas tão felizes,
Embora não o saibas, que morri...
mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
nada se importará... Depois vai dar
a notícia a essa estranha Cecily
que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!
(publicado na Contemporânea, nº 6, Dezembro de 1922)
Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás-de
dizer aos meus amigos aí de Londres,
embora não o sintas, que tu escondes
a grande dor da minha morte. Irás de
Londres pra Iorque, onde nasceste (dizes...
que eu nada que tu digas acredito),
contar àquele pobre rapazito
que me deu tantas horas tão felizes,
Embora não o saibas, que morri...
mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
nada se importará... Depois vai dar
a notícia a essa estranha Cecily
que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!
(publicado na Contemporânea, nº 6, Dezembro de 1922)
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1
Amália Bautista
Pecados capitais
Cada vez que tive vontade e pude
entreguei-me à gula e à luxúria.
Com a preguiça vivo amancebada.
Só fui seduzida pela avareza
como meio para outros desvios.
Sempre me mostrei irada e soberba,
orgulhosa, arbitrária e teimosa.
Talvez por isso não sentisse inveja.
Tão segura de mim, tão inflexível,
não podia invejar nada nem ninguém.
Hoje, contudo, derrotada e só,
sem esperança e vencida, tão inútil,
sinto inveja de mim quando me amavas.
entreguei-me à gula e à luxúria.
Com a preguiça vivo amancebada.
Só fui seduzida pela avareza
como meio para outros desvios.
Sempre me mostrei irada e soberba,
orgulhosa, arbitrária e teimosa.
Talvez por isso não sentisse inveja.
Tão segura de mim, tão inflexível,
não podia invejar nada nem ninguém.
Hoje, contudo, derrotada e só,
sem esperança e vencida, tão inútil,
sinto inveja de mim quando me amavas.
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Rui Costa
Breve
Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me "bom dia" mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem, há uma semana, há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me "bom dia" mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem, há uma semana, há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti.
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