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Poemas neste tema

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Renato Rezende

Renato Rezende

[Hosana]

Meu sexo se tornou uma rosa amarela
ereta e desabrochada

o seu uma vermelha?

Podemos viver sem o corpo
apenas mente

e sua matéria rara?

Qual a distância correta?

euforia e desamparo

Amamos melhor quando amamos em Presença?

Asa-palavra

Esse é um poema fora de órbita

Stella do Patrocínio:

Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo

Eu quero sempre, em suspenso

—Poucos meses de namoro. Para mim, não era sério; nunca era. Eu gostava dela, mas... para mim era um rolo. Ela sabia que eu já havia estado com homens. Não tinha se importado. Daí ela propôs.

—Eu sou de escorpião. Não nego: tenho inveja do pau. Sempre quis ser homem. Sou feminina, me cuido, me visto. Tenho vaidade. Mas sou decidida, sei o que quero.

—Eu nunca soube o que quero. Numa noite, depois de uma festa, ela propôs. Tive medo. Achei que depois ela ia sentir nojo de mim. Perguntei.

—Claro que não sentiria. Não; pelo contrário. Meu coração bateu forte. Ele estava se oferecendo para mim. Me senti grata.

—Foi improvisado. Demorou. Foi ótimo. A gente ama quem nos dá prazer, não é mesmo? Sentimos muito amor mesmo.

—Dormimos abraçados. Ela como se fosse homem.

—Depois mandamos fazer um consolo preso num cinto. Sob medida. Perdi a vergonha, e daí? Sempre soube o que quero. Tem vez que ando com isso o dia inteiro.

—Já anos de casados. Duas filhas. Feitas com prazer, a gente varia.

—A gente vai levando. Negociando. Dando um jeito. A vida é assim.

Quem quer se casar comigo?

Deus, quer se casar comigo?

Estrela
Eu-sou
Eu-posso

Flamirromper
Florchamejar
Borboleta-girassol
Luz-delírio

Oh, Goethe!
1 001
Ademir Assunção

Ademir Assunção

JACK KEROUAC NA PRAIA BRAVA

sonhei com jack kerouac
sentado na varanda da casa
de waldemar cordeiro. eu acabara
de acordar e dei de cara
com aquele vulto imerso
na neblina. bem acima da copa
das árvores a lua cheia ardia
entre nuvens espessas, com sua
cara de gângster. eu disse: “ei, man,
onde é que vamos parar?” jack
deu uma longa tragada
no cigarro, fumaça branca na névoa
branca, e me estendeu
o copo de uísque.
continuou encarando a lua, pálido
como um fantasma. disse
que estava a bordo de um navio
mercante da marinha americana na costa
da indonésia até a semana passada.
perguntou se ainda havia hippies
nas ruas, feministas queimando sutiãs
em praça pública e negros
enforcados nos galhos de grossos carvalhos
no novo méxico. “oh, não, jack, isso
faz tanto tempo. agora eles mandam os jovens
negros pobres para a guerra no iraque.”
descemos até a mercearia da praia brava
atrás de umas latinhas de cerveja
e de uma garrafa de conhaque. no caminho
contei-lhe que leminski e itamar assumpção
estiveram nesta mesma casa no carnaval
de 1988. “oh, yeah”, disse jack. “os grandes
poetas são como as marés: engolem os
barcos dos imprudentes e lançam os destroços
na praia”. quando voltamos da mercearia,
minha filha de 16 anos lia jorge luis borges
e meu filho de 13 lia david goodis. nina
simone cantava just call me angel of the morning.
jack abriu uma lata de cerveja, bebeu
um longo gole olhando as folhas da mata
e disse a eles: “não deixem que os idiotas
calem sua voz. aquela voz que vem lá do fundo
de vocês mesmos. contem comigo
pro que der e vier”. minha filha
sussurrou no meu ouvido: “quem é esse
cara?” “jack kerouac”, eu respondi. “uau”,
ela balbuciou. meu filho levantou os olhos
do livro e gritou: “eddie acabou de acertar um
cruzado de direita na cara do leão de chácara”.
eu olhei para jack e em silêncio
fizemos um trato: “deixe-os viver. ainda é cedo
para contar-lhes sobre as mentiras do mundo”.
jack jogou pra dentro um bom gole
de conhaque e assentiu com a cabeça. a noite
estava fria. a lua continuava socando as nuvens
com sua cara de gângster mal-humorado.
1 006
Charles Bukowski

Charles Bukowski

4 Quarteirões

levei minha filha de carro até o auditório da escola
onde sua mãe deveria encontrá-la
as 5 da tarde.
eu a deixei descer do carro
e ela enfiou a cabeça pela janela
e me beijou
como sempre fazia.
ela estava com 8 anos. eu com 52.
duas mulheres gordas ficaram nos observando.
eu acenei até logo para minha filha
e enquanto ela caminhava até a entrada
uma das mulheres gordas perguntou-lhe,
"espere um minuto, quem era esse homem?"
e ela respondeu, "esse é meu pai".
então uma das gordas correu na minha direção:
"espere um minuto, pode me dar uma carona, só 4
quarteirões?"
"meu carro é muito sujo", eu disse.
"não quero me intrometer", ela disse,
entrando.
"é só seguir pela rodovia. não é longe."
segui pela rodovia.
"Marina", ela disse, "é uma menina muito boa, nós
todas gostamos de Marina."
"sim", eu disse, "ela é uma garota muito quieta e
educada."
"sim," ela respondeu, "sim, ela é."
"costumo ser muito quieto e atencioso também",
eu disse.
"bem", ela respondeu, "acho que se você não se
elogiar, então ninguém vai fazer isso, hahaha!"
"está ventando muito hoje", eu disse.
"agora", ela disse, "vá dois quarteirões para o norte, então vire
à direita."
"tudo certo", eu disse, "vou fazer."
"espero", ela disse, "que não o esteja levando para muito longe
do seu caminho. espero não estar me
intrometendo.
"a senhora conheceu a mãe de Marina?", eu perguntei.
"ah, sim", ela disse, "é uma pessoa adorável, mesmo,
uma pessoa adorável."
"tem certeza de que mais ninguém vai?" eu perguntei.
"vai o quê?", ela perguntou.
"elogiar você se você não se elogiar a si mesmo", eu
respondi.
"bem", ela disse, "são mais 3 quarteirões,
então o senhor dobra à direita."
eu subi 3 quarteirões e dobrei à
direita.
"agora", ela disse, "está vendo esse caminhão com a porta
bem aberta?"
"estou vendo", eu disse.
"é só o senhor parar bem ao lado do caminhão e eu
desço do carro."
estacionei ali e ela desceu
do carro.
"com certeza quero lhe agradecer", ela disse,
"e espero não me haver
intrometido."
"eu a vejo por aí", eu disse.
"cuide-se bem."
eu segui em frente e entrei de novo à direita
em uma rua de mão única. o oceano estava
lá. não havia nenhum veleiro
à vista. vagamente eu pensei em
peixes voadores
e os dispensei como um mito.
fiz o balão
na primeira oportunidade
e segui de volta
para Los Angeles.
1 029
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Poema Para o Engraxate

o equilíbrio é preservado pelas lesmas que escalam os
rochedos de Santa Mônica;
a sorte está em descer a Western Avenue
enquanto as garotas numa casa de
massagem gritam para você, “Alô, Doçura!”
o milagre é ter 5 mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos,
e o melhor de tudo isso é que você só é capaz
de amar uma delas.
a bênção é ter uma filha mais delicada
do que você, cuja risada é mais leve
que a sua.
a paz vem de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado em O Seu Apresentador
Preferido, sentindo o sol, sentindo o sólido roncar
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego.
a graça está na capacidade de gostar de rock,
música clássica, jazz...
tudo o que contenha a energia original do
gozo.
e a probabilidade que retorna
é a tristeza profunda
debaixo de você estendida sobre você
entre as paredes de guilhotina
furioso com o som do telefone
ou com os passos de alguém que passa;
mas a outra probabilidade –
a cadência animada que sempre se segue –
faz com que a garota do caixa no
supermercado se pareça com a
Marilyn
com a Jackie antes que levassem seu amante de Harvard
com a garota do ensino médio que sempre
seguíamos até em casa.
lá está a criatura que nos ajuda a acreditar
em alguma coisa além da morte:
alguém num carro que se aproxima
numa rua muito estreita,
e ele ou ela se afasta para que possamos
passar, ou o velho lutador Beau Jack[17]
engraxando sapatos
após ter queimado todo seu dinheiro
em festas
mulheres
parasitas
bufando, respirando junto ao couro,
dando um trato com a flanela
os olhos erguidos para dizer:
“mas que diabos, por um momento
tive tudo. isso compensa todo o
resto.”
às vezes sou amargo
mas no geral o sabor tem sido
doce. é apenas que tenho
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz,
“fala que me ama”, e
você não consegue.
se você me vir sorridente
em meu Fusca azul
aproveitando o sinal amarelo
dirigindo firme em direção ao sol
estarei mergulhado nos
braços de uma
vida insana
pensando em trapezistas de circo
em anões com enormes charutos
num inverno na Rússia no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polaca
numa velha garçonete que me traz uma xícara
extra de café com um sorriso
nos lábios.
o melhor de você
me agrada mais do que pode imaginar.
os outros não importam
excetuado o fato de que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos e pesadelos
e uma estrada a seguir.
a justiça está em toda parte e não descansa
e as metralhadoras e os coldres e
as cercas vão lhe dar prova
disso.
1 186
Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Noite Em Que Eu Ia Morrer

na noite em que eu ia morrer
suava na minha cama
e podia ouvir os grilos
e lá fora gatos brigavam
e eu podia sentir minha alma escorrendo através do
colchão
e antes que ela tocasse o chão me levantei de um salto
fraco de quase não poder caminhar
mas caminhei ali ao redor e acendi todas as luzes
então retornei para a cama
e novamente minha alma começou a escorrer através do colchão
e eu me levantei
antes que ela chegasse ao chão
caminhei por ali e acendi todas as luzes
e então voltei para a cama
e lá estava ela escorrendo de novo e
novamente eu de pé
acendendo todas as luzes
eu tinha uma filha de 7 anos
e a certeza de que ela não queria que eu morresse
de outro modo eu não teria me preocupado nem um
pouco
mas naquela noite inteira
ninguém telefonou
ninguém apareceu com uma cerveja
minha namorada não ligou
e eu podia ouvir os grilos e fazia
calor
e eu seguia imerso naquilo tudo
levantando e deitando
até que o primeiro raio do sol atravessou a janela
através dos arbustos
e então deitei na cama
e alma ficou onde estava
por fim aqui dentro e eu
dormi.
agora as pessoas aparecem
batendo nas portas e nas janelas
o telefone toca
o telefone toca sem parar
recebo grandes cartas no correio
cartas de ódio e cartas de amor.
tudo voltou a ser o que era antes.

Duas madrugadas depois, às quatro da manhã, alguém bateu à porta.
– Quem é?
– É uma piranha ruiva.
Deixei Tammie entrar. Ela se sentou e eu abri duas cervejas.
– Estou com mau hálito, dois dentes podres. Você não pode me beijar.
– Tudo bem.
Conversamos. Bem, eu ouvi. Tammie estava emboletada. Fiquei escutando e olhando para os seus longos cabelos ruivos e enquanto ela se preocupava eu seguia olhando, olhando também para aquele corpo. Era como se ele fosse saltar para fora das roupas dela, como se implorasse para sair. Ela falava e falava. Não a toquei.
Às seis horas da manhã, Tammie me deu seu endereço e número de telefone.
– Tenho que ir – ela disse.
– Acompanho você até o carro.
Era um Camaro vermelho reluzente, completamente demolido. A parte da frente estava amassada, uma das laterais trazia um furo na lataria, as janelas não tinham mais vidros. Na parte de dentro havia panos e camisas e caixas de Kleenex e jornais e caixas de leite e garrafas de Coca e fios e cordas e guardanapos de papel e revistas e copos de papel e sapatos e canudinhos coloridos. Essa enorme massa de coisas estava empilhada até a altura dos bancos e os cobria por completo. Somente o do motorista tinha uma área mais ou menos livre.
Tammie estendeu a cabeça pela janela e nos beijamos.
Então ela se afastou do meio-fio e quando alcançou a esquina já estava a setenta quilômetros por hora. Ela pisou fundo no freio, e o Camaro deu um tranco, subiu e desceu, subiu e desceu. Voltei para dentro.
Voltei para a cama e fiquei pensando naqueles cabelos. Jamais tinha conhecido uma ruiva de verdade. Era fogo puro.
Como relâmpagos celestiais, pensei.
De algum modo seu rosto já não me parecia tão duro quanto antes...
Tammie apareceu naquela noite. Parecia estar louca de anfetaminas.
– Quero um pouco de champanhe – ela disse.
– Tudo bem – eu disse.
Alcancei-lhe uma nota de vinte.
– Volto logo – ela disse, caminhando até a porta.
Então o telefone tocou. Era Lydia.
– Queria saber apenas como estavam as coisas por aí...
– Está tudo bem.
– Comigo não. Estou grávida.
– O quê?
– E não sei quem é o pai.
– Hein?
– Você conhece o Dutch, o cara que anda ali pelo bar onde estou trabalhando?
– Sim, o velho Carequinha.
– Bem, ele é um cara muito legal. Está apaixonado por mim. Sempre me leva flores e doces. Quer se casar comigo. Tem sido muito bacana. E numa noite dessas eu fui pra casa com ele. A gente transou.
– Certo.
– E tem também o Barney, ele é casado, mas gosto dele. De todos os caras no bar ele é o único que nunca tentou me cantar. Fiquei fascinada com isso. Bem, você sabe, estou tentando vender a minha casa. Então ele apareceu uma tarde dessas. Apenas apareceu. Disse que estava atrás de uma casa para um amigo. Deixei ele entrar. Bem, ele chegou na hora certa. As crianças estavam na escola, bem, deixei que ele fosse em frente... Então certa noite um cara desconhecido chegou no bar, já era tarde. Pediu que eu fosse pra casa com ele. Eu disse não. Então ele disse que só queria ficar sentado no carro comigo, conversar e tal. Eu disse tudo bem. Ficamos lá no carro e conversamos. Então fumamos um baseado. E aí ele me beijou. Se ele não tivesse me beijado não teria rolado nada. Bem, agora estou grávida e não sei de quem. Terei que esperar pra ver com quem a criança se parece.
– Tudo bem, Lydia, toda sorte do mundo pra você.
– Obrigada.
Desliguei. Um minuto se passou e o telefone voltou a tocar. Era Lydia.
– Oh – ela disse –, me pergunto como você está se virando.
– O mesmo de sempre, cavalos e trago.
– Então está tudo bem com você?
– Não exatamente.
– O que está acontecendo?
– Bem, mandei uma mulher buscar champanhe...
– Mulher?
– Bem, na verdade é uma garota...
– Uma garota?
– Dei a ela uma nota de 20 pra comprar champanhe e ela ainda não voltou. Acho que fui enganado.
– Chinaski, não quero ouvir falar das suas mulheres. Será que você consegue entender isso?
– Tudo bem.
Lydia desligou. Soou uma batida na porta. Era Tammie. Ela voltava com o champanhe e o troco.
No dia seguinte, perto do meio-dia, o telefone tocou. Era novamente Lydia.
– Bem, ela voltou com o champanhe?
– Quem?
– A sua piranha.
– Sim, ela voltou...
– Então, o que aconteceu?
– Bebemos champanhe. Era dos bons.
– E então o que aconteceu?
– Bem, você sabe, aquela coisa...
Ouvi um uivo longo e insano, como se uma loba tivesse sido baleada em meio à neve do Ártico e, sangrando, fosse abandonada para morrer sozinha...
Ela desligou.
Dormi a maior parte da tarde e, à noite, dirigi até as corridas de charretes.
Perdi 32 dólares e entrei no fusca e fiz o caminho de volta. Estacionei, caminhei até a varanda e pus a chave na fechadura. Todas as luzes estavam acesas. Olhei em volta. As gavetas estavam abertas e haviam sido viradas, as roupas de cama estavam no chão. Todos os meus livros tinham sumido da prateleira, inclusive aqueles que eu tinha escrito, vinte ou mais. E minha máquina de escrever se foi e minha torradeira se foi e meu rádio se foi e minhas telas se foram.
Lydia, pensei.
Tudo o que ela havia me deixado era a tevê, porque sabia que eu não assistia.
Fui até o lado de fora e lá estava o carro de Lydia, mas ela não.
– Lydia – eu disse. – Ei, baby!
Subi e desci a rua e então avistei seus pés, os dois, despontando atrás de uma árvore junto ao muro de um prédio. Aproximei-me da árvore e disse:
– Escute, que diabos há com você?
Lydia não esboçou reação. Ela carregava duas sacolas cheias com os meus livros e uma pasta com as minhas telas.
– Escute, você precisa me devolver meus livros e minhas telas. Tudo isso me pertence.
Lydia saiu detrás da árvore berrando. Ela pegou as telas de pintura e começou a rasgá-las. Jogou os pedaços para cima e, ao caírem no chão, ela os pisoteou. Estava usando suas botas de vaqueira.
Então pegou meus livros da sacola e começou a jogá-los longe, no meio da rua, no gramado, por toda parte.
– Aqui estão suas pinturas! Aqui estão seus livros! E NÃO ME FALE DAS SUAS MULHERES! NÃO ME FALE DAS SUAS MULHERES!
Então Lydia correu até o meu pátio com um livro na mão, meu último lançamento, Obras escolhidas de Henry Chinaski. Ela gritava:
– Então você quer seus livros de volta? Quer a porra dos seus livros de volta? Aqui estão seus malditos livros! E NÃO ME FALE DAS SUAS MULHERES!
Ela começou a quebrar os vidros da minha porta da frente. Pegou o Obras escolhidas de Henry Chinaski e foi quebrando vidro após vidro, gritando:
– Quer seus livros de volta? Aqui estão seus malditos livros! E NÃO ME FALE DAS SUAS MULHERES! NÃO QUERO OUVIR NADA SOBRE AS SUAS MULHERES!
Fiquei ali parado, enquanto ela gritava e quebrava os vidros.
Onde estava a polícia?, pensei. Onde?
Então Lydia atravessou o pátio, dobrou rapidamente à esquerda ao passar pela lata de lixo e seguiu pela calçada até o prédio ao lado. Atrás de um pequeno arbusto estavam a máquina de escrever, o rádio e a torradeira.
Lydia apanhou a máquina e correu até o meio da rua com ela. Era uma máquina comum e antiga, bastante pesada. Lydia a ergueu com as duas mãos por sobre a cabeça e a jogou de encontro ao pavimento. O cilindro e diversas outras partes voaram longe. Ela voltou a erguer a máquina sobre a cabeça e gritou:
– NÃO ME FALE DAS SUAS MULHERES! – e jogou-a mais uma vez no chão.
Depois disso, Lydia saltou para dentro do carro e se foi.
Quinze segundos mais tarde a polícia apareceu.
– É um fusca laranja. Chama-se a Coisa, parece um tanque. Não me lembro do número da placa, mas as letras são NVA, como NÉVOA, anotou?
– Endereço?
Passei-lhes o endereço...
Evidentemente que eles a trouxeram de volta. Podia ouvi-la urrando no banco de trás, enquanto o carro se aproximava.
– AFASTE-SE! – disse um dos policiais ao sair. Acompanhou-me até minha casa. Entrou e pisou sobre um dos vidros quebrados. Por alguma razão ele direcionou sua lanterna para o teto e para as cornijas.
– O senhor quer dar queixa? – o policial me perguntou.
– Não. Ela tem filhos. Não quero que ela fique sem eles. O ex-marido está tentando ficar com a guarda das crianças. Mas, por favor, diga a ela que as pessoas não podem andar por aí fazendo esse tipo de coisa.
– Ok – ele disse –, agora assine aqui.
Escreveu à mão num pequeno caderno pautado. Dizia que eu, Henry Chinaski, não daria queixa contra Lydia Vance.
Assinei e ele se foi.
Passei a chave no que me restara de porta e fui para a cama e tentei dormir.
Mais ou menos uma hora depois, o telefone tocou. Era Lydia. Ela já estava em casa.
– SEU Filho da puta, SE VOCÊ VOLTAR A FALAR DAS SUAS MULHERES DE NOVO PRA MIM EU VOU ATÉ AÍ E QUEBRO TUDO DE NOVO!
Ela desligou.
Duas noites mais tarde, fui até a casa de Tammie em Rustic Court. Bati. As luzes estavam acesas. Parecia vazia. Olhei na sua caixa de correio. Havia cartas ali dentro. Escrevi um bilhete: “Tammie, tenho telefonado para você. Vim até aqui e você não estava. Está tudo bem com você? Me liga... Hank.”
Voltei no dia seguinte às onze da manhã. Seu carro não estava ali na frente. Meu bilhete continuava enfiado na porta. Mesmo assim toquei a campainha. As cartas continuavam na caixa de correio. Deixei um bilhete ali: “Tammie, onde diabos você está? Entre em contato comigo... Hank.”
Dei uma volta pela vizinhança em busca daquele Camaro vermelho todo detonado.
Retornei naquela noite. Chovia. Meus bilhetes estavam molhados. Havia mais cartas na caixa. Deixei-lhe um dos meus livros de poesia, com uma dedicatória. Então voltei para meu fusca. Tinha uma cruz de malta pendurada no meu retrovisor. Arranquei a cruz, voltei à casa dela e a amarrei ao redor da maçaneta.
Não sabia onde morava nenhuma de suas amigas, onde sua mãe morava, onde seus amantes moravam.
Voltei pra casa e escrevi alguns poemas de amor.
– Mulheres
1 633
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Poema Para a Velha Dente-Podre

conheço uma mulher
que segue comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que finalmente se encaixam
numa espécie de ordem.
ela se dedica à questão
de modo matemático
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive perto do mar
põe açúcar para as formigas lá fora
e acredita
definitivamente
num mundo melhor.
seu cabelo é branco
raramente o penteia
seus dentes são podres
e ela veste macacões frouxos
e amorfos sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
ao longo de muitos anos ela me irritou
com o que eu considerava suas
excentricidades:
como mergulhar conchas na água
(para que ao regar as plantas elas
recebessem cálcio).
mas finalmente quando penso na sua
vida
e a comparo a outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer outra pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela enfrentou alguns momentos terríveis,
momentos em que talvez eu devesse tê-la
ajudado mais
porque era a mãe da minha única
filha
e uma vez fôramos grandes amantes,
mas ela havia superado essas dificuldades
como eu disse
das pessoas que conheço ela foi a que machucou
menos gente,
e se você olhar para isso pelo que isso significa,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.
Frances, este poema é pra
você.

Encontrava Sara a cada três ou quatro dias, na casa dela ou na minha. Dormíamos juntos, mas não transávamos. Chegávamos perto, mas nunca às vias de fato. Os preceitos de Drayer Baba eram inabaláveis.
Decidimos passar os feriados de final de ano juntos aqui em casa, o Natal e o Ano-Novo.
Sara chegou por volta do meio-dia, no dia 24, em sua Kombi. Fiquei olhando-a estacionar, depois saí em seu encontro. Trazia várias ripas de madeira amarradas sobre o teto da Kombi. Era meu presente de Natal: ela faria uma cama para mim. Minha cama era uma piada: um simples box de mola com o interior saltando para fora do colchão. Sara também trouxe um peru orgânico, mais os acompanhamentos. Eu tinha ficado de pagar essas compras mais o vinho branco. Além disso, havia umas lembrancinhas que iríamos trocar.
Carregamos as ripas de madeira e o peru e as outras coisas. Coloquei o box, o colchão e a guarda da cama do lado de fora e coloquei um cartaz: “Grátis”. A guarda foi primeiro, o box em seguida, e finalmente alguém levou o colchão. Era uma vizinhança pobre.
Eu tinha visto a cama de Sara na casa dela, dormira nela, e tinha gostado. Nunca tinha gostado dos colchões comuns, ao menos dos que eu podia comprar. Eu havia passado mais da metade da minha vida em camas que serviriam melhor a alguém que tivesse o corpo na forma de uma minhoca.
Sara havia construído a própria cama e ela iria construir outra igual para mim. Uma plataforma sólida de madeira, suportada por sete pés quádruplos (o sétimo colocado diretamente no meio), coberta por uma camada de espuma firme de dez centímetros. Sara tinha umas boas ideias. Eu segurava as tábuas, e Sara assentava os pregos. Era boa com o martelo. Pesava apenas 52 quilos, mas mandava ver nos pregos. A cama ficaria ótima.
Não levou muito para que Sara terminasse.
Então testamos a cama – não sexualmente – sob o sorriso auspicioso de Drayer Baba.
Saímos de carro em busca de uma árvore de Natal. Não estava muito a fim de encontrá-la (o Natal sempre havia sido uma época infeliz na minha infância), e, quando vimos todos os canteiros vazios, não ter uma árvore não foi algo que me incomodou. Enquanto voltávamos, Sara ficou triste. Mas depois de entrarmos e de alguns copos de vinho ela recuperou a alegria e começou a pendurar os arranjos de natal, lampadinhas, purpurina, por toda parte, inclusive nos meus cabelos.
Tinha lido em algum lugar que mais pessoas cometiam suicídio no Natal e na noite do Ano-Novo do que em qualquer outra época. Aparentemente, este feriado nada tinha a ver com o Nascimento de Cristo.
As músicas no rádio eram de dar engulhos no estomago e na tevê a coisa era ainda pior, então desligamos tudo e ela ligou para a mãe no Maine. Falei com a mamãe também, e ela não era das piores.
– No começo – disse Sara –, pensei em ajeitar as coisas entre você e mamãe, mas ela é mais velha do que você.
– Esqueça.
– Ela tem ótimas pernas.
– Esqueça.
– Você tem preconceito contra pessoas mais velhas?
– Sim, contra todos os velhos exceto eu.
– Você age como se fosse uma estrela de cinema. Você sempre teve mulheres 20 ou 30 anos mais novas que você?
– Não quando estava na casa dos vinte.
– Tudo bem. Você já teve alguma mulher que fosse mais velha que você, quero dizer, chegou a viver com ela?
– Claro, quando eu tinha 25 vivi com uma mulher de 35.
– E como foi?
– Uma desgraça. Eu me apaixonei por ela.
– E isso é uma desgraça?
– Ela me fez ir pra faculdade.
– E isso é uma desgraça?
– Não era o tipo de faculdade que você está pensando. Ela era a faculdade, e eu o jovem estudante.
– O que aconteceu com ela?
– Acabei tendo que enterrá-la.
– Com as devidas honras? Você a matou?
– O trago a matou.
– Feliz Natal.
– Claro. Me fale de você.
– Passo.
– Muitas histórias?
– Muitas, e ao mesmo tempo tão poucas.
Trinta ou quarenta minutos depois alguém bateu à porta. Sara se levantou e foi abrir. Um símbolo sexual entrou. Na véspera de Natal. Não sabia quem ela era. Usava uma roupa preta e seus peitos enormes pareciam prestes a saltar para fora do vestido. Aquilo era magnífico. Nunca tinha visto peitos como aqueles, expostos dessa maneira, a não ser em filmes.
– Oi, Hank!
Ela me conhecia.
– Sou Edie. Você me conheceu na casa do Bobby numa noite dessas.
– Sério?
– Estava bêbado demais pra lembrar?
– Olá, Edie. Esta é Sara.
– Estou atrás do Bobby. Pensei que ele pudesse estar por aqui.
– Sente-se e beba alguma coisa.
Edie se sentou numa cadeira à minha direita, bem próxima a mim. Devia ter uns 25. Acendeu um cigarro e tomou um gole de sua bebida. Cada vez que ela se inclinava para frente sobre a mesinha de centro eu tinha certeza de que aconteceria, que os peitos saltariam para fora. E eu tinha medo do que faria caso isso acontecesse. Simplesmente não conseguia entender nada. Nunca tinha sido um homem ligado em peitos, sempre fui chegado em pernas. Mas Edie sabia mesmo explorar o que possuía. Eu estava com medo e olhava de canto para seus peitos sem saber se queria que eles saltassem para fora ou que ficassem onde estavam.
– Você conheceu o Manny – ela me disse – lá na casa do Bobby?
– Claro.
– Tive que lhe dar um pé na bunda. O cara era muito ciumento. Chegou a contratar um detetive particular pra me seguir! Imagine só! O cara é um retardado de merda!
– Claro.
– Odeio homens que ficam mendigando atenção. Odeio gente mesquinha!
– É difícil encontrar um homem bom nos dias de hoje – eu disse. – É uma canção. Dos tempos da Segunda Guerra. Também tinha uma outra: “Não sente debaixo de uma macieira com outra pessoa que não seja eu”.
– Hank, você está gaguejando... – disse Sara.
– Tome outro drinque, Edie – eu disse, servindo-lhe mais uma dose.
– Os homens não passam de uns merdas! – continuou. – Entrei num bar dia desses. Estava com quatro caras, amigos do peito. Sentamos por ali, virando umas canecas de chope, estávamos rindo, sabe, curtindo o momento, não estávamos incomodando ninguém. Então me veio a ideia de jogar uma partidinha de bilhar. Gosto de jogar bilhar. Acho que quando uma mulher joga bilhar ela mostra se tem classe ou não.
– Não sei jogar bilhar – eu disse. – Sempre rasgo o feltro, e nem preciso ter classe.
– Seja o que for, fui até a mesa e lá estava um cara jogando bilhar sozinho. Cheguei nele e disse: “Escute, você já está nessa mesa há um tempão. Eu e meus amigos queremos jogar um pouquinho. Você se importa de liberar a mesa por um momento?” Ele se virou e olhou pra mim. Ficou ali parado. Por fim, fez uma cara enjoada e disse: “Tudo bem”.
Edie se animou e se mexia toda ao falar. Eu só espiando aquelas maravilhas.
– Voltei atrás dos meus amigos. “Conseguimos a mesa.” Finalmente o cara estava apenas com uma bola na mesa. Foi quando chegou um amigo dele e disse: “Ei, Ernie, soube que você vai sair da mesa”. E vocês sabem o que ele disse para o outro? Disse: “Sim, vou deixar a mesa nas mãos daquela piranha!” Escutei aquilo e vi tudo ficar VERMELHO! O cara já se inclinava sobre a mesa pra bater na última bola. Apanhei um taco e enquanto ele estava naquela posição acertei sua cabeça com toda a força que pude. O cara caiu sobre a mesa como se estivesse morto. Era conhecido no bar, e então os seus amigos, em grupo, correram na minha direção, mas, ao mesmo tempo, os meus parceiros também se aproximaram. Rapaz, que quebra-pau! Garrafas espatifando, espelhos quebrados... Não sei como saímos de lá, mas saímos. Ei, você tem erva aí?
– Sim, mas não sei fechar muito bem.
– Deixa que eu cuido disso.
Edie fechou um baseado fininho, obra de mestre. Deu um pega, tragando-o com um chiado, e então passou para mim.
– Então, na noite seguinte, eu voltei lá sozinha. O dono, que atendia no bar, me reconheceu. Seu nome é Claude. “Claude”, eu lhe disse, “sinto muito por ontem à noite, mas o cara na mesa era um otário de merda. Ele me chamou de piranha.”
Servi mais uma rodada. Mais alguns minutos e seus seios estariam à mostra.
– O dono disse: “Tudo bem, esqueça”. Ele parecia um cara legal. “O que você gosta de beber?”, ele me perguntou. Fiquei ali pelo bar, tomei duas ou três bebidas de graça, e então ele disse: “Sabe, estou pensando em trocar de garçonete”.
Edie deu um pega no baseado e continuou.
– Ele me falou dos problemas com a outra garçonete. “Ela atrai os homens até, mas causa muita confusão. Joga um cara contra o outro. Está sempre debaixo dos holofotes. Então descobri que ela estava fazendo uma graninha por fora. Usava o MEU bar pra faturar com sua buceta!”
– Sério? – perguntou Sara.
– Foi o que ele disse. De todo modo, me ofereceu a vaga de garçonete. E ele disse: “Nada de querer faturar um extra!” Disse pra ele parar com essa bobagem, eu não era dessa laia. Pensei, então, que talvez pudesse guardar algum dinheiro e ir pra UCLA, para me formar em química e estudar francês, que foi o que sempre planejei. Então ele disse: “Venha até aqui, quero lhe mostrar onde estocamos as mercadorias e tenho inclusive um uniforme que quero que você experimente. Nunca foi usado e acho que é do seu tamanho.” Então fui com ele até esse quartinho escuro e ele tentou me agarrar. Dei um empurrão nele. Então ele disse: “Me dá só um beijinho”. “Vai se foder!”, eu disse. Ele era gordo e careca e baixinho e usava dentadura e tinha verrugas pretas nas bochechas, com pelos saindo delas. Ele me prensou e agarrou a minha bunda com uma das mãos e com a outra um dos meus peitos, tentando me dar um beijo. Empurrei ele outra vez. “Eu sou casado”, ele disse, “amo a minha mulher, não se preocupe!” Voltou a me prensar e eu lhe dei um joelhaço você-sabe-onde. Acho que ele não tinha nada por ali, não chegou nem a se encolher. “Eu lhe dou dinheiro”, ele disse, “vou ser legal com você!” Disse pra ele enfiar o dinheiro no cu. E assim perdi mais um emprego.
– É uma história triste – eu disse.
– Escute – disse Edie –, tenho que ir. Feliz Natal. Obrigada pelas bebidas.
Ela se levantou e a acompanhei até a porta, abrindo-a. Ela saiu e atravessou o pátio. Voltei e me sentei.
– Seu filho da puta – disse Sara.
– O que foi?
– Se eu não estivesse aqui você teria trepado com ela.
– Eu mal conheço essa mulher.
– Aqueles peitos! Você estava petrificado! Você não tinha coragem nem de olhar pra ela!
– O que será que ela fazia por aí, vagando na véspera de Natal?
– Por que você não vai lá e pergunta pra ela?
– Ela disse que estava atrás do Bobby.
– Se eu não estivesse aqui você teria trepado com ela.
– Não sei. Não tenho como saber...
Então Sara se levantou e começou a gritar. E começou a soluçar e foi para o quarto. Me servi mais um drinque. As lampadinhas nas paredes não paravam de piscar.
Sara preparava o recheio do peru, e eu fiquei na cozinha com ela, conversando. Tomávamos um vinho branco.
O telefone tocou. Fui atender. Era Debra.
– Queria apenas desejar pra você um feliz Natal, seu macarrão molhado.
– Obrigado, Debra. E um bom Papai Noel pra você
Conversamos um pouco, depois voltei e me sentei.
– Quem era?
– Debra.
– Como ela está?
– Bem, eu acho.
– O que ela queria?
– Desejar feliz Natal.
– Você vai gostar desse peru orgânico, e o recheio também é bom. As pessoas comem veneno, veneno puro. A América é um dos poucos países onde o câncer de colón é predominante.
– Pois é, meu cu coça um monte, mas são só as minhas hemorroidas. Operei uma vez. Antes de operar eles enfiam essa cobra no seu intestino, com uma luzinha na ponta e eles olham dentro de você, pra ver se encontram algum câncer. Essa cobra é muito cumprida. Eles apenas pegam e enfiam a coisa dentro de você!
O telefone voltou a tocar. Fui lá atender. Era Cassie.
– Como vai você?
– Sara e eu estamos preparando um peru.
– Sinto sua falta.
– Feliz Natal pra você também. Como vai o trabalho?
– Tudo bem. Estou de folga até o dia 2 de janeiro.
– Feliz Ano-Novo, Cassie!
– Que diabos há com você?
– Estou um pouco aéreo. Não estou acostumado a beber vinho branco a essa hora.
– Me liga qualquer hora dessas.
– Claro.
Retornei à cozinha.
– Era a Cassie. As pessoas ligam no Natal. Talvez Drayer Baba ligue.
– Não vai ligar.
– Por quê?
– Nunca falou em voz alta. Nunca falou e também nunca tocou em dinheiro.
– Mas que beleza. Deixa eu provar um pouco desse recheio.
– Ok.
– Vamos ver... Nada mal!
O telefone tocou mais uma vez. Era assim que o negócio funcionava. Uma vez que começasse a tocar, não parava mais. Fui até o quarto e atendi.
– Alô – eu disse. – Quem está falando?
– Seu filho da puta. Não sabe quem é?
– Não, não sei mesmo.
Era uma mulher bêbada.
– Adivinha.
– Espera. Já sei! É Iris!
– Sim, Iris. E estou grávida!
– Sabe quem é o pai?
– Que diferença isso faz?
– É, acho que você está certa. Como estão as coisas em Vancouver?
– Tudo bem. Tchau.
– Tchau.
Voltei mais uma vez para a cozinha.
– Era aquela canadense, dançarina do ventre – eu disse a Sara.
– Como ela está?
– Empanturrada pela alegria natalina.
Sara colocou o peru no forno e fomos para a sala. Ficamos falando bobagem por algum tempo. O telefone tocou outra vez.
– Alô – eu disse.
– Você é Henry Chinaski? – A voz era de um jovem.
– Sim.
– Você é mesmo Henry Chinaski, o escritor?
– Sim.
– De verdade?
– Claro.
– Bem, nós somos uma galera de Bel Air e nós realmente achamos do caralho o que você escreve, cara! Gostamos tanto da porra dos seus textos que queremos recompensá-lo, cara!
– É mesmo?
– Sim, vamos pintar aí com umas cevas e tal.
– Enfie a cerveja no cu.
– O quê?
– Eu disse: “Enfie a cerveja no cu!”
Desliguei.
– Quem era? – perguntou Sara.
– Acabo de perder três ou quatro leitores em Bel Air. Mas valeu a pena.
O peru ficou pronto e eu o tirei do forno, coloquei-o numa travessa, tirei a máquina de escrever e todos os meus papéis de cima da mesa da cozinha, e ajeitei o peru ali. Comecei a destrinchá-lo enquanto Sara trazia os vegetais. Sentamos. Enchi meu prato, Sara, o dela. Era uma visão bonita.
– Espero que aquela peituda não resolva voltar – disse Sara. Parecia bastante incomodada diante da possibilidade.
– Se ela aparecer, ofereço um pedaço.
– O quê?
Apontei para o peru.
– Eu disse que “se ela aparecer, ofereço um pedaço”. Espere pra ver se não faço isso.
Sara gritou. Ficou de pé. Tremia. Correu até o quarto. Olhei para meu peru. Não conseguiria comê-lo. Mais uma vez, apertara o botão errado. Fui até a sala com meu drinque e me sentei. Esperei 15 minutos e então coloquei o peru e os vegetais na geladeira.
Sara voltou para a sua casa no dia seguinte, e eu fiz um sanduíche de peru frio por volta das três. Por volta das cinco, houve uma pancada terrível na porta. Abri. Eram Tammie e Arlene. Estavam totalmente emboletadas. Entraram e começaram a aloprar, as duas falando ao mesmo tempo.
– Tem alguma coisa pra beber?
– Caralho, Hank, tem alguma porra pra beber?
– Como foi a merda do seu Natal?
– É. Como foi a merda do seu Natal, cara?
– Tem cerveja e vinho na frigidaire – eu lhes disse.
(É fácil reconhecer um coroa: ele chama geladeira de frigidaire.)
Entraram dançando na cozinha e abriram a frigidaire.
– Ei, tem um peru aqui!
– Estamos com fome, Hank! Podemos comer um pouco de peru?
– Claro.
Tammie voltou com uma coxa e deu uma mordida.
– Ei, que peru horrível! Precisa temperar!
Arlene voltou com fatias de carne nas mãos.
– É, precisa pôr tempero. Está totalmente insosso! Você tem temperos?
– No armário – eu disse.
Voltaram aos pulos para a cozinha e começaram a pôr os temperos.
– Aí! Bem melhor!
– É, agora tem gosto de alguma coisa!
– Peru orgânico, que bela merda!
– Merda pura!
– Quero mais um pedaço!
– Eu também. Mas tem que temperar.
Tammie voltou e se sentou. Ela recém terminara a coxa. Então pegou o osso, partiu-o ao meio, e começou a mastigá-lo. Fiquei pasmo. Ela estava comendo o osso da coxa, cuspindo umas lasquinhas no tapete.
– Ei, você está comendo o osso!
– Sim, é uma delícia!
Tammie voltou correndo à cozinha para pegar mais.
Logo as duas apareceram, cada uma com uma garrafa de cerveja.
– Obrigada, Hank.
– É, obrigada, cara.
Elas sentaram, mamando as cervejas.
– Bem – disse Tammie –, está na nossa hora.
– É, vamos estuprar alguns garotinhos do ensino médio!
– É isso aí!
As duas se levantaram num salto e saíram porta afora. Fui até a cozinha e olhei dentro da geladeira. O peru parecia ter sido atacado por um tigre – a carcaça havia sido simplesmente dilacerada. Chegava a ser obsceno.
Sara apareceu na noite seguinte.
– Que tal o peru? – ela perguntou.
– Bom.
Ela foi até a cozinha e abriu a porta da geladeira. Gritou. Então voltou correndo.
– Meu deus, o que aconteceu?
– Tammie e Arlene deram uma passada aqui. Acho que não comiam há uma semana.
– Ai, que nojo. É de partir o coração!
– Me desculpe. Eu devia ter impedido as duas. Estavam emboletadas.
– Bem, só resta uma coisa a fazer.
– O quê?
– Posso fazer um ensopado de peru. Vou comprar alguns vegetais.
– Tudo bem.
Dei-lhe uma nota de vinte.
Sara preparou a sopa naquela noite. Estava deliciosa. Ao ir embora pela manhã, deixou-me as instruções sobre como aquecê-la.
Tammie bateu à porta por volta das quatro horas. Deixei-a entrar e ela foi direto até a cozinha. A porta da geladeira se abriu.
– Olha só, sopa, então?
– Sim.
– Está boa?
– Sim.
– Você se importa se eu tomar um pouquinho?
– Não.
Pude ouvi-la levar a sopa ao fogão. Depois o som de uma colherada.
– Deus! Esse negócio não tem gosto de nada! Precisa de tempero!
Escutei-a mexer nos temperos. Então ela voltou a experimentar.
– Ah, outra coisa! Mas ainda é pouco! Sou de origem italiana, você sabe. Agora... Sim... Está bem melhor! Agora é só deixar esquentar. Posso tomar uma cerveja?
– Tudo bem.
Voltou com uma garrafa e se sentou.
– Sentiu minha falta? – perguntou.
– Você nunca saberá.
– Acho que vou recuperar meu emprego no Play Pen.
– Ótimo.
– Lá rola umas boas gorjetas. Um cara aí me dava cinco dólares de gorjeta por noite. Estava apaixonado por mim. Mas nunca me convidou pra sair. Ficava apenas me olhando com uns olhos cheios de ternura. Era um tipo estranho. Era cirurgião retal e às vezes se masturbava me vendo caminhar de um lado pro outro. Dava pra sentir o cheiro de porra, sabe.
– Bem, você deixou o cara nesse estado...
– Acho que a sopa está pronta. Quer um pouco?
– Não, obrigado.
Tammie entrou na cozinha e dava para ouvi-la servindo a sopa no prato. Ficou lá por um longo tempo. Então retornou.
– Tem como me emprestar cinco paus até sexta-feira?
– Não.
– Então dois paus.
– Não.
– Então me descola um dólar mesmo.
Dei a Tammie um punhado de moedas. Totalizavam um dólar e 37 centavos.
– Obrigada – ela disse.
– Tudo bem.
Depois disso, ela se foi.
Sara apareceu na noite seguinte. Raramente vinha assim tão seguido, devia ter algo a ver com o feriado de final de ano, todo mundo se sente perdido, meio louco, assustado. O vinho branco estava preparado e servi dois copos.
– Como vão as coisas na Pousada? – perguntei.
– Ter um negócio é uma merda. Mal dá pra pagar as despesas.
– Onde estão os hóspedes?
– Estão todos fora da cidade; foram todos pra algum lugar.
– Todos os nossos esquemas têm seus furos.
– Nem todos. Algumas pessoas simplesmente não erram nunca, seguem sempre em frente.
– Verdade.
– E a sopa?
– Quase no fim.
– Gostou?
– Não cheguei a tomar muito.
Sara foi até a cozinha e abriu a porta da geladeira.
– O que aconteceu com a sopa? Está com uma cara estranha.
Escutei o som que ela fez ao prová-la. E então como correu até a pia e cuspiu o que estava na boca.
–Jesus, a sopa está envenenada! O que aconteceu? Tammie e Arlene voltaram para tomar a sopa também?
– Só a Tammie.
Sara não gritou. Apenas virou o que sobrara da sopa na pia e acionou o triturador de lixo. Podia escutar seus soluços mal disfarçados. Aquele pobre peru orgânico tinha passado um Natal dos diabos.
– Mulheres
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Charles Bukowski

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Marina:

majestosa, mágica
infinita
minha garotinha é o
sol
sobre o tapete –
porta afora
apanhando uma
flor, rá!,
um velho,
cansado de guerra
emerge de sua
cadeira
e ela me olha
mas vê apenas
amor,
rá!, e eu me torno
rápido com o mundo
e amo de imediato
assim como eu havia sido criado
para fazer.

O bebê engatinhava, descobrindo o mundo. Marina dormia na cama com a gente à noite. Lá estava Marina, Fay, o gato e eu. O gato também dormia na cama. Veja só, pensei, tenho três bocas dependendo de mim. Que estranho. Eu ficava ali sentado, vendo os três dormirem.
Então, por duas noites seguidas, ao chegar em casa ao amanhecer, ainda madrugada, Fay estava por ali, sentada, lendo os classificados.
– Todos esses quartos são o olho da cara – ela disse.
– Claro – eu disse.
Na noite seguinte, enquanto ela lia o jornal, eu lhe perguntei:
– Você está se mudando?
– Sim.
– Tudo bem. Eu ajudo você a encontrar um lugar amanhã. Damos uma volta por aí.
Concordei em lhe pagar uma soma cada mês. Ela disse:
– Tudo bem.
Fay ficou com a garota. Eu com o gato.
Encontramos um lugar que ficava a oito ou dez quadras. Ajudei-a na mudança, disse adeus à menina e dirigi de volta pra casa.
Eu aparecia para ver Marina duas ou três ou quatro vezes por semana. Sabia que enquanto pudesse ver a garota eu estaria bem.
Fay continuava se vestindo de preto em protesto contra a guerra. Participava de manifestações locais pela paz, encontros de amor livre, ia a leituras de poesia, oficinas, reuniões do partido comunista, e ficava sentada num café hippie. Levava a menina consigo. Se ela não saía, ficava em casa, sentada numa cadeira, fumando cigarro atrás de cigarro e lendo. Usava buttons de protesto em sua blusa preta. Mas normalmente ela estava na rua com a menina quando eu ia lá visitá-la.
Um dia, afinal, consegui pegá-las em casa. Fay comia sementes de girassol com iogurte. Ela assava o próprio pão, mas não era lá muito comestível.
– Conheci Andy, um cara que é motorista de caminhão – ela me disse. – Ele pinta nas horas vagas. Aí está um dos quadros. – Fay apontou para a parede.
Eu brincava com a garota. Olhei para a pintura. Não disse nada.
– Ele tem um pau enorme – disse Fay. – Ele esteve aqui noite dessas e me perguntou, “Como você quer que eu coma você com o meu pauzão?” e eu lhe disse que “preferia ser comida com amor!”.
– Ele fala como um desses caras que conhecem a vida – eu disse a ela.
Brinquei com a menina por mais um tempo, então parti. Eu tinha uma prova de método se aproximando.
Logo depois disso, recebi uma carta de Fay. Ela e a criança estavam vivendo numa comunidade hippie no Novo México. Era um lugar legal, ela disse. Marina poderia respirar ar puro por lá. Mandou junto um pequeno desenho que a menina havia feito para mim.
– Cartas na rua
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Charles Bukowski

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Um Para o Engraxate

o equilíbrio está nas lesmas escalando as
falésias de Santa Monica;
a sorte está em descer a Western Avenue
e acontecer que uma das garotas de uma casa
de massagem grite pra você “Alô, Doçura!”
o milagre está em ter cinco mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos de idade,
e o bom de tudo é que você só é capaz
de amar uma delas.
o dom está em ter uma filha mais delicada
do que você é, cuja risada é mais bela
do que a sua.
a placidez está em ser capaz de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado no Apresentador que Mais Ama
Você, sentindo o sol, sentindo o sólido ronco
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego
e deixa os mortos putos da cara.
a graça está em ser capaz de gostar de rock,
música sinfônica, jazz...
tudo que contenha o júbilo da energia
original.
e a matemática que retorna
é o profundo baixo-astral sob
você estendido sobre você
entre as paredes de guilhotina –
furioso com o som do telefone
ou com os passos de qualquer um passando;
e a outra matemática:
a iminente animação que se segue
fazendo com que os caras sentados nos bancos
junto aos carrinhos de taco
pareçam gurus
fazendo com que a garota do caixa no
supermercado pareça
Marilyn
ou Zsa Zsa
ou Jackie antes de pegarem seu amante de Harvard
ou a garota do ensino médio que
todos nós garotos seguíamos até em casa.
e a pureza que ajuda você a crer
em algo além da morte
é Sandy Hawley montando
cinco vencedores no Hollywood Park, cavalos fora de forma,
nenhum deles favorito,
ou alguém num carro que se aproxima de você
numa rua estreita demais,
e ele ou ela desvia de lado pra deixar você
passar, ou o velho lutador Beau Jack
engraxando sapatos
após ter torrado seu pé-de-meia todo
com festas
com mulheres
com parasitas,
cantarolando, soprando no couro,
mandando ver com o trapo,
olhando pra cima e dizendo:
“Que diabo, por um momento
eu tive tudo. uma coisa ganha da
outra”.
por vezes me mostro muito amargo
mas o gosto tem sido com frequência
doce, é só que tive
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz
“fala que me ama”
e você não consegue dizer.
se você chegar a me ver sorrindo em
meu Fusca azul
cruzando um sinal amarelo
dirigindo direto rumo ao sol
sem óculos escuros
estarei apenas trancado na
tarde de uma
vida louca
pensando em trapezistas de circo
em anões com charutos enormes
num inverno russo no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polonesa
ou numa velha garçonete me trazendo uma xícara
extra de café e parecendo rir de mim
enquanto me serve.
do melhor de você
eu gosto mais do que você imagina.
os outros não contam
exceto que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos bons e ruins
e um caminho para seguir.
o equilíbrio está em toda parte e está funcionando
e as metralhadoras e as rãs
e as sebes podem lhe contar
isso.
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