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Poemas neste tema

Flores e Jardins

Luís Gama

Luís Gama

Junto à Estátua

(No Jardim Botânico da Cidade de S. Paulo)

Já a saudosa Aurora destoucava
Os seus cabelos de ouro delicados,
E as boninas nos campos esmaltados
De cristalino orvalho borrifava.
CAMÕES - Soneto

Em plácida manhã serena e pura,
Sentado à borda de espaçoso lago;
O corpo recostado em frio marmor,
Tórridos membros sobre a terra quedos.

Qual túmido Tritão de amor vencido,
Transpondo as serras, iracundos mares,
D'Aurora o berço perscrutando ousado,
Dolorosos suspiros exalava
Meu frágil peito, da natura escravo,
Já nas fúlgidas portas do Oriente,
Trajando púrpura, majestoso assoma
Luzeiro ardente, que expandindo os raios,
Deslumbra os olhos, e a razão sucumbe,
E, com furtiva luz, pálidas fogem
Notívagas esferas cintilantes.

(...)

Longe do mundo, das escravas turbas,
Que o ouro compra de avarentos Cresos,
A minh'alma aos delírios se entregava,
À sombra de ilusões — de aéreos sonhos.

Formosa virgem de nevado colo,
De garços olhos, de cabelos louros;
Sanguíneos lábios, elegante porte,
Mimoso rosto de Ericina bela,
Curvando o seio de alabastro fino,
Mimosa imprime nos meus lábios negros
Gostoso beijo de volúpia ardente! —
Vencido de prazer, nadando em gozos,
Já temeroso pé movendo incerto,
Vôo com ela às regiões etéreas
Nas tênues asas de ternura infinda.
....................................

Rasgando o véu das ilusões mentidas,
Que est'alma frágil seduzir puderam,
Imóvel terra, cambiantes flores,

Viram meus olhos no romper da Aurora;
E d'entre os braços, que cerrados tinha,
Gelada estátua de grosseiro mármore!...

Cândidas boninas
E purpúreas rosas,
Violetas roxas
Do luar saudosas;

Verdejantes murtas,
Redolentes cravos,
Lindas papoulas
Da donzela escravos,

Ao soprar da brisa,
Em balanço undoso,
O mortal encantam
Num sonhar gostoso.

Mas fugindo as nuvens
— Que a ilusão fulgura,
Só vagueia à sombra
Da infernal ventura.


Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).

In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.21-22. (Últimas gerações, 4
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Eduardo Guimaraens

Eduardo Guimaraens

Às vezes, quando vou por altas horas, quando

Às vezes, quando vou por altas horas, quando
fujo através da noite, a este amor que reveste
de um tênue véu de névoa a face do meu sonho,
de lábios infantis que, uma e outra vez, murmuram
uma queixa, como a de alguém que se maltrata,
um murmúrio, afinal, que só tu poderias
compreender, fico a olhar os jardins solitários
que ornam a calma azul por onde vou passando.

E às vezes, paro e sonho à frente de um cipreste;
outras, invejo o ardor de um canteiro tristonho
alvos lírios claustrais que aromam e fulguram,
como fantásticos turíbulos de prata.
Outras, quando anda a lua entre as ruas sombrias
e as flores tomam o ar de votos funerários,
cada aléia é como um regato cintilando,
onde um Ofélia, de alva e imponderável veste
loira e fria, tombou, morta de amor e sonho.

Junto às grades hostis que os jardins enclausuram
e que, ao fulgor da luz, são de ouro, bronze ou prata,
descanso, muita vez, as mãos longas e frias.
E enquanto a lua evoca extáticos cenários
de paisagens do polo e torna em verde brando
todo o azul que lhe nimba a tristeza celeste,
das grades através, como através de um sonho
de prisioneiro, a cujo olhar se transfiguram
as visões do exterior, tenho a visão exata
da noite que convida às grandes nostalgias.

Eu sou o doce irmão dos jardins solitários,
que lhes conhece a dor, que os vê da sombra, olhando
pelo ermo e triste e verde olhar de algum cipreste...
Uns são feitos de tudo, enfim, que há no meu sonho.
E é por isso, talvez, que ora ardem e fulguram,
ora são tristes como esses vitrais de prata
onde Cristo ergue a Deus as mãos longas e frias.
Eu sou o doce irmão dos jardins solitários,
desses jardins que exalto, amo e celebro, quando
por horas mortas vou, do amor que me reveste
de amargura, fugindo, ao longo do meu sonho.

E, ao longo do meu sonho, os jardins se enclausuram
de lágrimas! (Ah! sobre essas grades de prata
quando virás pousar as mãos longas e frias?
Quando abrirás, sorrindo, os jardins solitários,
tu que hás de amar-me um dia e que eu espero? Quando?


Publicado no livro A divina quimera (1916).

In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944
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Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

To Helen [Sarah Helen Whitman

I saw thee once— once only — years ago:
I must not say how many — but not many.
It was a July midnight; and from out
A full-orbed moon, that, like thine own soul, soaring,
Sought a precipitate pathway up through heaven,
There fell a silvery-silken veil of light,
With quietude, and sultriness, and slumber,
Upon the upturned faces of a thousand
Roses that grew in an enchanted garden,
Where no wind dared to stir, unless on tiptoe —
Fell on the upturn'd faces of these roses
That gave out, in return for the love-light,
Their odorous souls in an ecstatic death —
Fell on the upturn'd faces of these roses
That smiled and died in this parterre, enchanted
By thee, and by the poetry of thy presence.

Clad all in white, upon a violet bank
I saw thee half reclining; while the moon
Fell on the upturn'd faces of the roses,
And on thine own, upturn'd— alas, in sorrow!

Was it not Fate, that, on this July midnight—
Was it not Fate, (whose name is also Sorrow,)
That bade me pause before that garden-gate,
To breathe the incense of those slumbering roses?
No footstep stirred: the hated world an slept,
Save only thee and me. (Oh, Heaven!— oh, God!
How my heart beats in coupling those two words!)
Save only thee and me. I paused— I looked—
And in an instant all things disappeared.
(Ah, bear in mind this garden was enchanted!)

The pearly lustre of the moon went out:
The mossy banks and the meandering paths,
The happy flowers and the repining trees,
Were seen no more: the very roses' odors
Died in the arms of the adoring airs.
All— all expired save thee— save less than thou:
Save only the divine light in thine eyes—
Save but the soul in thine uplifted eyes.
I saw but them— they were the world to me!
I saw but them— saw only them for hours,
Saw only them until the moon went down.
What wild heart-histories seemed to he enwritten

Upon those crystalline, celestial spheres!
How dark a woe, yet how sublime a hope!
How silently serene a sea of pride!
How daring an ambition; yet how deep—
How fathomless a capacity for love!

But now, at length, dear Dian sank from sight,
Into a western couch of thunder-cloud;
And thou, a ghost, amid the entombing trees
Didst glide away. Only thine eyes remained;
They would not go— they never yet have gone;
Lighting my lonely pathway home that night,
They have not left me (as my hopes have) since;
They follow me— they lead me through the years.
They are my ministers — yet I their slave.
Their office is to illumine and enkindle —
My duty, to be saved by their bright light,
And purified in their electric fire,
And sanctified in their elysian fire.
They fill my soul with Beauty (which is Hope),
And are far up in Heaven — the stars I kneel to
In the sad, silent watches of my night;
While even in the meridian glare of day
I see them still — two sweetly scintillant
Venuses, unextinguished by the sun!


1850

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