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Poemas neste tema

Flores e Jardins

Sosigenes Costa

Sosigenes Costa

A Cabeleira da Musa

No teu cabelo há tardes outonais
amarelando o rio e os arvoredos.
Há cidades de mármores e rochedos
de açúcar-candi, bronzes e cristais.
No teu cabelo rútilo há milhões
de abelhas roxas fabricando favos
para o mel que roubam dos craveiros bravos
dos jardins levantinos de anões.
No teu cabelo há trêmulos trigais
de espigas fulvas e há gentis vinhedos
que molhas de perfume com teus dedos
com trinta anéis de pérola ovais.
No teu cabelo se abrem dos pavões
as estreladas caudas, dentre as rosas.
E brilham nela as pedras preciosas:
rubis, safiras, sárdios, cabuchões.
Nele há brondões, revérberos, fanais.
Pois isso atrai cornígeros besouros.
Por isso pombas e canários louros,
sempre de noite, feiticeira atrai.
No teu cabelo há reinos de sultões.
Teu cabelo relumbra como uns matos
cheio de olhos fosfóricos de gatos
e de escamas de fogo dos dragões.
Na tua cabeleira há catedrais.
No teu cabelo rola e ferve estranha
cascata de falerno e de champanha
por entre alabastrinos jasminais.
No teu cabelo vive uma serpente
que descasca por hora uma imponente
pele conteúdo bíblica signais.
No teu divino e esplêndido cabelo
rugem tigres de azul-celeste pêlo
e de unhas de ouro, lúcidas, fatais.
No teu cabelo. Musa Helena e saiba,
queimam-se incenso e nardo azul da Arábia
e outras sortes e espécies aromais.
No teu cabelo há um céu com muitas luas
iluminando cem mulheres nuas
que se banham num lago entre juncais.
No teu cabelo há sílfides e bruxos
dançando dentro dos jorros de repuxos
e há templos de âmbar louro e há muito mais:
Há globos de ouro e estames de açucenas
e cem faisões de prateadas penas,
- Filha do sol, princesa dos corais!
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Sei Shônagon

Sei Shônagon

16 Poemas

Ao mundo de agruras
Por que voltar novamente
Se buscando estou
O orvalho da flor de lótus
Para nele me molhar? (de 31)
Jamais reveleis
A morada passageira
Da mergulhadora
Não vos lembrou da promessa
A lasca de alga enviada? (de 80)
Desmoronaram-se
Os montes gêmeos Imose
Sobre o belo Yoshino
Rio que entre eles corria
Rio por eles soterrado. (de 80)
Montanha de neve
Que rara nos parecia
Cá neste lugar
Por todo canto repetida
Mas que ideia mais banal! (de 83)
Superfície d’água
De frágil gelo coberta
Derrete-se ao sol
Também os nós muito frouxos
Facilmente se desatam. (de 86)
Desta tal pessoa,
Se não fosse mesmo herdeira,
Como quereria
Na reunião desta noite
Ser a primeira a compor? (de 95)
Ervas-sem-orelhas
Colhidas em profusão
Que pena me deram!
Entre tantas plantas
Somente me ouvem crisântemos… (de 125)
Pela noite adentro
Falso galo a cantar
Posto em Ôsaka
— Lugar de encontros de amor —
Que tentem, não abrirão! (de 129)
Flor não apreciada
Pelo tom de sua cor
Sofro por demais
Por meu real sentimento
Ver tal incompreensão. (de 177)
Mesmo o inexprimível
Como divino sinal
Deu-me bom papel
Novo alento à eternidade
Até a idade dos grous. (de 258)
Que hospedagem é esta?
A face primaveril
Maculada está
Por sobrancelhas grosseiras
De vil salgueiro-chorão. (de 282)
Os dias de primavera
Por aqui contemplo
Tédio vagueando…
Como não os suportais
Em celestial Palácio? (de 282)
Fogo pequenino
Num dia primaveril
O feno consumiu
De seu quarto de dormir
Como nada se salvou? (de 294)
Jurai-me, querido
Perante esta divindade
De Tôtômi
Que jamais teríeis visto
A ponte de Hamana! (de 296)
Como é inevitável
O coração palpitar
Em Ôsaka!
Fácil é descobrir as águas
Das corredeiras de Hashirii. (de 297)
Jamais cogitei
Da Capital me afastar
Quem foi que vos disse
Sobre a aldeia de Ibuki?
Sobre artemísias dos montes? (de 298)
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Francis Ponge

Francis Ponge

A borboleta

Quando o açúcar elaborado nos talos surge no fundo das flores, como em xícaras mal lavadas - um grande esforço se produz no solo de onde, súbito, as borboletas alçam voo.
Porém, como cada lagarta teve a cabeça ofuscada e enegrecida, e o torso adelgaçado pela verdadeira explosão de onde as asas simétricas flamejaram,
Desde então, a borboleta errática só pousa ao acaso do percurso, ou quase isso.
Fósforo voejante, sua chama não é contagiosa. E, além do mais, ela chega muito tarde e pode apenas constatar as flores desabrochadas. Não importa: comportando-se como acendedora de lâmpadas, verifica a provisão de óleo de cada uma. Pousa no cimo das flores o farrapo atrofiado que carrega, e vinga assim sua longa humilhação amorfa de lagarta ao pé dos caules.
Minúsculo veleiro dos ares maltratado pelo vento como pétala superfetatória, ela vagabundeia pelo jardim.


(tradução: Adalberto Müller e Carlos Loria. Publicado em: Francis Ponge O PARTIDO DAS COISAS, S. Paulo, Iluminuras, 2000.)

:

Le papillon
Francis Ponge

Lorsque le sucre élaboré dans les tiges surgit au fond des fleurs, comme des tasses mal lavées, - un grand effort se produit par terre tous les Papillons tout à coup prennent leur vol.

Mais comme chaque chenille eut la tête aveuglée et laissée noire, et le torse amaigri par la véritable explosion d'où les ailes symétriques flambèrent,
Dès lors le papillon erratique ne se pose plus qu'au hasard de sa course, ou tout comme.
Allumette volante, sa flamme n'est pas contagieuse. Et d'ailleurs, il arrive trop tard et ne peut que constater les fleurs écloses. N'importe : se conduisant en lampiste, il vérifie la provision d'huile de chacune. Il pose au sommet des fleurs la guenille atrophiée qu'il emporte et venge ainsi sa longue humiliation amorphe de chenille au pied des tiges.

Minuscule voilier des airs maltraité par le vent en pétale superfétatoire, il vagabonde au jardin.

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Castro Alves

Castro Alves

Adormecida

Ses longs cheveux épars la couvrent tour entiere
La croix de son collier repose dans sa main,
Comme pour témoigner qu'elle a fait sa priere.
Et qu'elle va la faire en s'éveillant demain.
A. DE MUSSET


Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos — beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P'ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"Ó flor! — tu és a virgem das campinas!
"Virgem! — tu és a flor da minha vida!..."

São Paulo, novembro de 1868.


Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).

In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
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