Poemas neste tema
Flores e Jardins
Jorge Viegas
Tempo Adormecido
Um dia o sonho
Despertou suavemente...
Flores coloridas
Dão um brilho perfumado
Ao voo encantado dos sentidos...
Ondas sonolentas
Salpicam memórias
Pintando quadros iluminados...
Brilhos celestiais
Envolvem sensualidades
Sorvendo carinhos transparentes...
Melodias encantadas
Escorrem delicadamente
Por entre aromas apaixonados...
Abrem-se as janelas do infinito
Absorvemos o esplendor do tempo adormecido
E lentamente descobrimos o amor
Diluído na imensidão dos jardins do universo.
Despertou suavemente...
Flores coloridas
Dão um brilho perfumado
Ao voo encantado dos sentidos...
Ondas sonolentas
Salpicam memórias
Pintando quadros iluminados...
Brilhos celestiais
Envolvem sensualidades
Sorvendo carinhos transparentes...
Melodias encantadas
Escorrem delicadamente
Por entre aromas apaixonados...
Abrem-se as janelas do infinito
Absorvemos o esplendor do tempo adormecido
E lentamente descobrimos o amor
Diluído na imensidão dos jardins do universo.
1 586
1
Tasso da Silveira
Sonho Vago
Ó branca e luminosa!
Na alcova quieta e silenciosa
que a penhumbra parece transformar
Num ambiente imaginário
De cidade lacustre ou num aquário,
Teu corpo claro, fino, gransparente,
A se mover preguiçosamente
Como a ondular...
Lembra, nessa nudez que as sombras ilumina,
Sonâmbulo país de águas e brumas,
Visão de uma paisagem submarina,
Em que andas a flutuar...
Como no meio de algas e de espumas
- Uma ninfa, sereia ou estrela-do-mar.
Vendo-te assim, meio acordado,
Eu me deixo embalar
Num esquisito, incomparável gozo,
De deleites estranhos inundado.
Crendo que vou contigo a mergulhar,
Num sonho lvoluptuoso,
Por entre espaços fluidos de veludo,
-Um país de perfumes e de encanto -
Em que de um vago luar o tênue manto
Amacia tudo...
II
Quantas imaagens brancas me sugeres!
- Magnólia, flor dos Alpes, nebulosa...
- Branca lua perdida entre as mulheres!
- Garça, vela no mar, alvor de rosa!
Ao vê-lo assim, tão claro e leve, eu plenso
Que o teu corpo, a florir na luz cendrada,
Sonha, dentro da noite, o sonho imenso
Que as rosas brancas sonham na alvorada.
Na alcova quieta e silenciosa
que a penhumbra parece transformar
Num ambiente imaginário
De cidade lacustre ou num aquário,
Teu corpo claro, fino, gransparente,
A se mover preguiçosamente
Como a ondular...
Lembra, nessa nudez que as sombras ilumina,
Sonâmbulo país de águas e brumas,
Visão de uma paisagem submarina,
Em que andas a flutuar...
Como no meio de algas e de espumas
- Uma ninfa, sereia ou estrela-do-mar.
Vendo-te assim, meio acordado,
Eu me deixo embalar
Num esquisito, incomparável gozo,
De deleites estranhos inundado.
Crendo que vou contigo a mergulhar,
Num sonho lvoluptuoso,
Por entre espaços fluidos de veludo,
-Um país de perfumes e de encanto -
Em que de um vago luar o tênue manto
Amacia tudo...
II
Quantas imaagens brancas me sugeres!
- Magnólia, flor dos Alpes, nebulosa...
- Branca lua perdida entre as mulheres!
- Garça, vela no mar, alvor de rosa!
Ao vê-lo assim, tão claro e leve, eu plenso
Que o teu corpo, a florir na luz cendrada,
Sonha, dentro da noite, o sonho imenso
Que as rosas brancas sonham na alvorada.
1 222
1
Manuel Botelho de Oliveira
Rosa, e Anarda
Rosa da formosura, Anarda bela
igualmente se ostenta como a rosa;
Anarda mais que as flores é formosa,
mais formosa que as flores brilha aquela.
A rosa com espinhos se desvela,
arma-se Anarda espinhos de impiedosa;
na fronte Anarda tem púrpura airosa,
a rosa é dos jardins purpúrea estrela.
Brota o carmim da rosa doce alento,
respira olor de Anarda o carmim breve,
ambas dos olhos são contentamento:
mas esta diferença Anarda teve:
que a rosa deve ao sol seu luzimento,
o sol seu luzimento a Anarda deve.
igualmente se ostenta como a rosa;
Anarda mais que as flores é formosa,
mais formosa que as flores brilha aquela.
A rosa com espinhos se desvela,
arma-se Anarda espinhos de impiedosa;
na fronte Anarda tem púrpura airosa,
a rosa é dos jardins purpúrea estrela.
Brota o carmim da rosa doce alento,
respira olor de Anarda o carmim breve,
ambas dos olhos são contentamento:
mas esta diferença Anarda teve:
que a rosa deve ao sol seu luzimento,
o sol seu luzimento a Anarda deve.
3 164
1
Luis Aranha
Haicai
Pardas gotas de mel
Voando em torno duma rosa
Abelhas
Jogaste tua ventarola para o céu
Ela ficou presa no azul
Convertida em lua.
Voando em torno duma rosa
Abelhas
Jogaste tua ventarola para o céu
Ela ficou presa no azul
Convertida em lua.
1 418
1
Luís Guimarães Júnior
A Sertaneja
Eu sou a virgem morena,
Robusta, lesta, pequena
Como a cabrita montês;
Vivo cercada de amores,
E aquele que fez as flores,
Irmã das flores me fez.
Vinde ver, ó boiadeiros,
Meus vestidos domingueiros,
Meus braços limpos e nus:
Ah! vinde ver-me enfeitada
Com minha sala engomada,
Com meus tamancos azuis.
Sertanejos, sertanejos,
Pedis debalde os meus beijos,
Em vão pedis meu amor!
Eu sou a agreste cutia,
Que se expõe à pontaria
E ri-se do caçador!
A sertaneja morena
Bonita, forte, pequena,
Não cai na armadilha, não:
A jaçanã corre e voa
Quando vê sobre a lagoa
A sombra do gavião.
Sou órfã, donzela e pobre,
Vistosa telha não cobre
O lar que herdei de meus pais:
Que importa? Vivo contente:
Ser moça, bela e inocente
É ter fortuna demais!
Quem tece e protege o ninho,
Quem defende o passarinho,
Quem das mãos espalha o bem,
Quem fez o sol e as estrelas,
Dando a virtude às donzelas,
Deu-lhes a força também.
A Virgem nunca se esquece
Da mais tosca e simples prece
Que voa ao seio de Deus;
Por cada infeliz que chora
Abre na terra uma aurora,
Crava uma estrela nos céus.
Sertanejos, sertanejos,
Podeis morrer de desejos,
Que eu não me temo de vós!
A sertaneja faceira
É mais que a paca ligeira
Mais que a andorinha veloz.
Sou viva, arisca, medrosa,
Bem como a onça raivosa
Pronta ao mais leve rumor!
No meu cabelo selvagem
Sente-se a morna bafagem
Das matas virgens em flor.
No samba quem puxa a fieira ,
Melhor, melhor que a trigueira
Maravilha dos sertões?
Que peito mais brando anseia,
Quem mais gentil sapateia,
Quem pisa mais corações?
Ai! Gentes! Ai! Boiadeiros!
Não sois decerto os primeiros
Que o meu olhar cativou:
Desta morena a doçura
É como frecha segura:
Peito que encontra — rasgou!
Minha rede é perfumada,
Como a folha machucada
Da verde malva-maçã:
Nela me embalo sonhando,
E dela salto cantando,
Quando vem rindo a manhã.
Sonho com jambos e rosas,
Com as madrugadas formosas
Deste formoso sertão:
Meu sonho é como a canoa,
Que voa, que voa e voa
Nas águas do ribeirão.
Trago no seio guardado
O rosário abençoado
Que minha mãe me deixou:
Ai! Gentes! Ai! Pastorinhas!
Se estão alvas as continhas
Foi que meu pranto as lavou.
Quem é mais feliz na terra?
Quem mais delícias encerra,
Quem mais feitiços contém?
Vem moreno boiadeiro,
Desafiar meu pandeiro
Com tua guitarra, — vem!
Raiou domingo! Que festa!
Que barulho na floresta!
Quanto rumor no sertão!
Que céu! que matas cheirosas
Quanto perfume nas rosas,
E quantas rosas no chão!
Vinde ouvir-me na guitarra:
Não há nas brenhas cigarra
Que me acompanhe, — não há!
Trazei, trazei, boiadeiros,
As violas, os pandeiros,
Os búzios, o maracá!
Eu sou a virgem morena,
Robusta, lesta, pequena
Como a cabrita montês:
Vivo cercada de amores,
E aquele que fez as flores,
Irmã das flores me fez.
Robusta, lesta, pequena
Como a cabrita montês;
Vivo cercada de amores,
E aquele que fez as flores,
Irmã das flores me fez.
Vinde ver, ó boiadeiros,
Meus vestidos domingueiros,
Meus braços limpos e nus:
Ah! vinde ver-me enfeitada
Com minha sala engomada,
Com meus tamancos azuis.
Sertanejos, sertanejos,
Pedis debalde os meus beijos,
Em vão pedis meu amor!
Eu sou a agreste cutia,
Que se expõe à pontaria
E ri-se do caçador!
A sertaneja morena
Bonita, forte, pequena,
Não cai na armadilha, não:
A jaçanã corre e voa
Quando vê sobre a lagoa
A sombra do gavião.
Sou órfã, donzela e pobre,
Vistosa telha não cobre
O lar que herdei de meus pais:
Que importa? Vivo contente:
Ser moça, bela e inocente
É ter fortuna demais!
Quem tece e protege o ninho,
Quem defende o passarinho,
Quem das mãos espalha o bem,
Quem fez o sol e as estrelas,
Dando a virtude às donzelas,
Deu-lhes a força também.
A Virgem nunca se esquece
Da mais tosca e simples prece
Que voa ao seio de Deus;
Por cada infeliz que chora
Abre na terra uma aurora,
Crava uma estrela nos céus.
Sertanejos, sertanejos,
Podeis morrer de desejos,
Que eu não me temo de vós!
A sertaneja faceira
É mais que a paca ligeira
Mais que a andorinha veloz.
Sou viva, arisca, medrosa,
Bem como a onça raivosa
Pronta ao mais leve rumor!
No meu cabelo selvagem
Sente-se a morna bafagem
Das matas virgens em flor.
No samba quem puxa a fieira ,
Melhor, melhor que a trigueira
Maravilha dos sertões?
Que peito mais brando anseia,
Quem mais gentil sapateia,
Quem pisa mais corações?
Ai! Gentes! Ai! Boiadeiros!
Não sois decerto os primeiros
Que o meu olhar cativou:
Desta morena a doçura
É como frecha segura:
Peito que encontra — rasgou!
Minha rede é perfumada,
Como a folha machucada
Da verde malva-maçã:
Nela me embalo sonhando,
E dela salto cantando,
Quando vem rindo a manhã.
Sonho com jambos e rosas,
Com as madrugadas formosas
Deste formoso sertão:
Meu sonho é como a canoa,
Que voa, que voa e voa
Nas águas do ribeirão.
Trago no seio guardado
O rosário abençoado
Que minha mãe me deixou:
Ai! Gentes! Ai! Pastorinhas!
Se estão alvas as continhas
Foi que meu pranto as lavou.
Quem é mais feliz na terra?
Quem mais delícias encerra,
Quem mais feitiços contém?
Vem moreno boiadeiro,
Desafiar meu pandeiro
Com tua guitarra, — vem!
Raiou domingo! Que festa!
Que barulho na floresta!
Quanto rumor no sertão!
Que céu! que matas cheirosas
Quanto perfume nas rosas,
E quantas rosas no chão!
Vinde ouvir-me na guitarra:
Não há nas brenhas cigarra
Que me acompanhe, — não há!
Trazei, trazei, boiadeiros,
As violas, os pandeiros,
Os búzios, o maracá!
Eu sou a virgem morena,
Robusta, lesta, pequena
Como a cabrita montês:
Vivo cercada de amores,
E aquele que fez as flores,
Irmã das flores me fez.
1 951
1
H. Masuda Goga
Primavera
Um bem-te-vi na árvore,
canta e canta sem descanso:
outro canto ao longe.
Por sobre o gramado,
as borboletas em bando,
um caixão chegando...
Inúmeras flores
nos túmulos de finados
— na alma só saudade...
canta e canta sem descanso:
outro canto ao longe.
Por sobre o gramado,
as borboletas em bando,
um caixão chegando...
Inúmeras flores
nos túmulos de finados
— na alma só saudade...
1 028
1
Guimarães Passos
Pubescência
Ei-la! Chega ao jardim, que estava triste,
Porque a sua alegria ausente estava,
E ela, que em vê-lo dantes se alegrava,
Agora a toda a tentação resiste.
Seria outra alma, pensa, que a animava ?
Por que um desejo que a persegue insiste?
Qualquer cousa que ignora, mas que existe,
Pulsa-lhe ao coração que não pulsava.
Triste cismando segue, e em frente à fonte:
— Um sátiro, de cuja boca escorre
Um fino fio dágua transparente,
Ri-se dos cornos que lhe vê na fronte,
Os lábios cola aos dele, e porque morre
De sede, bebe alucinadamente...
Porque a sua alegria ausente estava,
E ela, que em vê-lo dantes se alegrava,
Agora a toda a tentação resiste.
Seria outra alma, pensa, que a animava ?
Por que um desejo que a persegue insiste?
Qualquer cousa que ignora, mas que existe,
Pulsa-lhe ao coração que não pulsava.
Triste cismando segue, e em frente à fonte:
— Um sátiro, de cuja boca escorre
Um fino fio dágua transparente,
Ri-se dos cornos que lhe vê na fronte,
Os lábios cola aos dele, e porque morre
De sede, bebe alucinadamente...
850
1
Dora Ferreira da Silva
Valsas de Esquina de Mignone
Só um pássaro
e seu peso de orvalho tocando
o chão como se foram teclas.
Passa onde a graça
ilumina a cidade de ferro
subitamente atenta a essa beleza.
Nos jardins teimam rosas
delicadamente.
Violetas africanas
salpicam de ouro
muros escuros
e as princesas purpúreas
espiam dos balcões verdes
nas paredes florescidas:
dançam pétalas
dança a vida
nos jardins contentes
não termina a partitura
que se repete
sempre.
e seu peso de orvalho tocando
o chão como se foram teclas.
Passa onde a graça
ilumina a cidade de ferro
subitamente atenta a essa beleza.
Nos jardins teimam rosas
delicadamente.
Violetas africanas
salpicam de ouro
muros escuros
e as princesas purpúreas
espiam dos balcões verdes
nas paredes florescidas:
dançam pétalas
dança a vida
nos jardins contentes
não termina a partitura
que se repete
sempre.
1 524
1
Cleonice Rainho
A Borboleta Azul
Nosso jardim é uma festa
de borboletas:
pequenas e grandes,
listradas,
amarelas e pretas
e uma pintadinha
que é uma graça.
Mas a azul, azulzinha,
a preferida,
é como se fosse
minha filhinha:
vi-a nascer da lagarta,
virou crisálida,
depois borboleta.
Quando voou
pela primeira vez
bati palmas: Vivô!!!
Voa e volta leve,
azul, azulzinha
e pousa num cacho
de rosas brancas
sua casinha.
Às vezes se ajeita,
mansinha,
tomando a forma
de um coração.
Seu corpo sedoso,
macio,
parece vestido
com pano do céu.
de borboletas:
pequenas e grandes,
listradas,
amarelas e pretas
e uma pintadinha
que é uma graça.
Mas a azul, azulzinha,
a preferida,
é como se fosse
minha filhinha:
vi-a nascer da lagarta,
virou crisálida,
depois borboleta.
Quando voou
pela primeira vez
bati palmas: Vivô!!!
Voa e volta leve,
azul, azulzinha
e pousa num cacho
de rosas brancas
sua casinha.
Às vezes se ajeita,
mansinha,
tomando a forma
de um coração.
Seu corpo sedoso,
macio,
parece vestido
com pano do céu.
3 032
1
Castro Alves
A Cestinha de Costura
Para o livrinho de D. BRASÍLIA VIEIRA
NÃO QUERO panteons não quero mármores
Não sonho a Eternidade fria, escura...
Minha glória ideal é o quente abrigo
De uma pequena cesta de costura.
À sombra dos terraços florescentes
Entorna a violeta a essência pura:
Flores dalma recendem mais fragrância
Numa pequena cesta de costura.
Batida pelos corvos da procela,
A pomba a era tímida procura:
Pousa minh’alma foragida as asas
Nesta pequena cesta de costura.
Astros que amais a espuma das cascatas!...
Orvalhos que adorais do lírio a alvura!
Dizei se há menos lânguidos arminhos
Nesta pequena cesta de costura.
Nesse ninho de fitas e de rendas...
No perfume sutil da formosura...
Vão meus versos viver de aroma e risos
Entre as flores da cesta de costura.
E quando descuidada mergulhares
Esta mão pequenina, santa e pura,
Possam eles beijar teus níveos dedos
Escondidos na cesta de costura.
NÃO QUERO panteons não quero mármores
Não sonho a Eternidade fria, escura...
Minha glória ideal é o quente abrigo
De uma pequena cesta de costura.
À sombra dos terraços florescentes
Entorna a violeta a essência pura:
Flores dalma recendem mais fragrância
Numa pequena cesta de costura.
Batida pelos corvos da procela,
A pomba a era tímida procura:
Pousa minh’alma foragida as asas
Nesta pequena cesta de costura.
Astros que amais a espuma das cascatas!...
Orvalhos que adorais do lírio a alvura!
Dizei se há menos lânguidos arminhos
Nesta pequena cesta de costura.
Nesse ninho de fitas e de rendas...
No perfume sutil da formosura...
Vão meus versos viver de aroma e risos
Entre as flores da cesta de costura.
E quando descuidada mergulhares
Esta mão pequenina, santa e pura,
Possam eles beijar teus níveos dedos
Escondidos na cesta de costura.
2 364
1
Antonieta Raucci
Haicai
Pássaros cantam
Ressoam dentro do peito
Te espero
Perfume e voz
Flores e folhas voam
Tronco despido
Ressoam dentro do peito
Te espero
Perfume e voz
Flores e folhas voam
Tronco despido
1 079
1
Amândio César
Flor
Eu te sei pura, casta e meiga!
Eu te sei toda feita de pureza,
Branca como o leite fresco
Que se põe na mesa.
Eu te sei toda feita de castidade,
Num vago receio, perfume de alecrim,
Que se percebe quando não há claridade.
Eu te sei, terna e meiga,
Como as flores silvestres, naturais,
Que nascem nas margens duma veiga.
Eu te sei — isso tudo — para mim! ...
Eu te sei toda feita de pureza,
Branca como o leite fresco
Que se põe na mesa.
Eu te sei toda feita de castidade,
Num vago receio, perfume de alecrim,
Que se percebe quando não há claridade.
Eu te sei, terna e meiga,
Como as flores silvestres, naturais,
Que nascem nas margens duma veiga.
Eu te sei — isso tudo — para mim! ...
1 145
1
Augusto de Campos
Cabeças-de-frade
...sócios incomparáveis neste habitat,
que as próprias orquídeas evitam,
os cabeças-de-frade,
deselegantes e monstruosos
melocactos de forma elipsoidal,
acanalada, de gomos espinescentes,
convergindo-lhes no vértice superior
formado por uma flor única,
intensamente rubra.
Aparecem, de modo inexplicável,
sobre a pedra nua,
dando, realmente, no tamanho,
na conformação, no
modo por que se espalham,
a imagem singular de
cabeças decepadas e sanguinolentas,
jogadas por ali, a esmo,
numa desordem trágica.
que as próprias orquídeas evitam,
os cabeças-de-frade,
deselegantes e monstruosos
melocactos de forma elipsoidal,
acanalada, de gomos espinescentes,
convergindo-lhes no vértice superior
formado por uma flor única,
intensamente rubra.
Aparecem, de modo inexplicável,
sobre a pedra nua,
dando, realmente, no tamanho,
na conformação, no
modo por que se espalham,
a imagem singular de
cabeças decepadas e sanguinolentas,
jogadas por ali, a esmo,
numa desordem trágica.
1 154
1
Li Po
BEBENDO AO LUAR
Bebendo vinho entre as flores
Só me senti.
Lua tão solitária,
Eu bebo a ti!
Esta ao lado é minha sombra,
Faz três contigo.
Porque hás-de ser tão distante?
Dança com ela e comigo.
Como nuvens dançaremos
A sombra e eu.
Eterno é o gozo, se atendes
O canto meu.
E unidos nesta embriaguez
(Mas sós de dia)
Estaremos juntos os três
Na Láctea Via.
Só me senti.
Lua tão solitária,
Eu bebo a ti!
Esta ao lado é minha sombra,
Faz três contigo.
Porque hás-de ser tão distante?
Dança com ela e comigo.
Como nuvens dançaremos
A sombra e eu.
Eterno é o gozo, se atendes
O canto meu.
E unidos nesta embriaguez
(Mas sós de dia)
Estaremos juntos os três
Na Láctea Via.
1 206
1
Douglas Mondo
Mulher das águas
És mulher das águas,
quando recebes em teu corpo a espuma
como bruma e beijas sábia ventura.
Tão doce tua voz como mel,
quando acalentas o rouxinol cansado
e embriagas de amor o querubim no céu.
No campo desabrocha o suave lírio,
quando tuas mãos tocam o vento
e no etéreo molduras um mosaico delírio.
Teus afagos são gemidos como músicas lascivas,
quando entorpecem as almas dos poetas loucos
e calam a noite de inveja das estrelas em orgia.
Cai a última pétala em tua túnica suave graça,
quando brilham os olhos da esmeralda e da pérola
e silencia quem passa e nunca vira mulher tão bela.
És mulher tão linda e sábia,
quando a manhã faz da sabedoria um sorriso dela
e da poesia um desejo lânguido nesse dia.
quando recebes em teu corpo a espuma
como bruma e beijas sábia ventura.
Tão doce tua voz como mel,
quando acalentas o rouxinol cansado
e embriagas de amor o querubim no céu.
No campo desabrocha o suave lírio,
quando tuas mãos tocam o vento
e no etéreo molduras um mosaico delírio.
Teus afagos são gemidos como músicas lascivas,
quando entorpecem as almas dos poetas loucos
e calam a noite de inveja das estrelas em orgia.
Cai a última pétala em tua túnica suave graça,
quando brilham os olhos da esmeralda e da pérola
e silencia quem passa e nunca vira mulher tão bela.
És mulher tão linda e sábia,
quando a manhã faz da sabedoria um sorriso dela
e da poesia um desejo lânguido nesse dia.
1 103
1
Daniel Faria
Sabes, leitor
Sabes, leitor,que estamos ambos na mesma página
e aproveito o facto de teres chegado agora
para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
a magnólia cresce na terra que pisas-podes pensar
que te digo alguma coisa não necessária,mas podia ter-te dito acredita,
que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos.Ou melhor,
que a magnólia-e essa é verdade-cresce sempre
apesar de nós.
esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
a flor que se abrir é já um pouco de ti.E a flor que te estendo,
mesmo que a recuses
nunca a poderei conhecer,nem jamais,por muito que a ame,
a colherei
a magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
e eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.
de Dos Líquidos (2000)
e aproveito o facto de teres chegado agora
para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
a magnólia cresce na terra que pisas-podes pensar
que te digo alguma coisa não necessária,mas podia ter-te dito acredita,
que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos.Ou melhor,
que a magnólia-e essa é verdade-cresce sempre
apesar de nós.
esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
a flor que se abrir é já um pouco de ti.E a flor que te estendo,
mesmo que a recuses
nunca a poderei conhecer,nem jamais,por muito que a ame,
a colherei
a magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
e eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.
de Dos Líquidos (2000)
2 112
1
Gonzaga Leão
Soneto à Rosa Acontecida
Ela nasceu de abismo e foi rosa
ante o luar - lírio no céu se abrindo
leitoso e virgem, as sombras deglutindo;
lírio que a noite clara e imaginosa
criou para realce dela, a rosa:
chaga de luz e sangue ( a estou sentindo
ferir as minhas mãos, a alma ferindo...)
que vem a madrugada silenciosa-
mente solver, e vem ditando rotas
de paisagens pretéritas e ignotas
por que meus olhos tristes e magoados
todos os dias sofrem e adoecem.
Rosa por que jardins mortos florescem,
cambiantes de luz, ressuscitados.
ante o luar - lírio no céu se abrindo
leitoso e virgem, as sombras deglutindo;
lírio que a noite clara e imaginosa
criou para realce dela, a rosa:
chaga de luz e sangue ( a estou sentindo
ferir as minhas mãos, a alma ferindo...)
que vem a madrugada silenciosa-
mente solver, e vem ditando rotas
de paisagens pretéritas e ignotas
por que meus olhos tristes e magoados
todos os dias sofrem e adoecem.
Rosa por que jardins mortos florescem,
cambiantes de luz, ressuscitados.
1 253
1
Amélia Rodrigues
A Minha Rosa
Passeando em meu jardim,
Encontrei uma rosa ...
Ela vinha, sem muito jeito
Machucando-se em seus próprios espinhos
E exalando um cheiro de luar!
Procurei dentre as suas pétalas
O testemunho da sua sinceridade.
E respirei o perfume cálido
A extravazar a alma da sua beleza.
Cativou-me o seu sorriso melancólico,
A sua tristeza inerte e absorta...
E aproximei-me mais e mais da sua consciência...
Quando nos tornamos uma
Fiquei sabendo quem era a minha rosa.
A minha rosa, essa rosa triste
Que coloriu os meus pensamentos...
A minha rosa que, em definitivo,
Arrastou minha vida para o seu destino...
A minha rosa, essa rosa triste
Era o Adeus! ...
A minha última cartada.
Encontrei uma rosa ...
Ela vinha, sem muito jeito
Machucando-se em seus próprios espinhos
E exalando um cheiro de luar!
Procurei dentre as suas pétalas
O testemunho da sua sinceridade.
E respirei o perfume cálido
A extravazar a alma da sua beleza.
Cativou-me o seu sorriso melancólico,
A sua tristeza inerte e absorta...
E aproximei-me mais e mais da sua consciência...
Quando nos tornamos uma
Fiquei sabendo quem era a minha rosa.
A minha rosa, essa rosa triste
Que coloriu os meus pensamentos...
A minha rosa que, em definitivo,
Arrastou minha vida para o seu destino...
A minha rosa, essa rosa triste
Era o Adeus! ...
A minha última cartada.
2 130
1
Bocage
Se é doce
Se é doce no recente, ameno Estio
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias, e os verdores,
Mole, e queixoso, deslizar-se o rio:
Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os voláteis Amadores,
Seus versos modulando, e seus ardores
De entre os aromas de pomar sombrio:
Se é doce mares, céus ver anilados
Pela Quadra gentil, de Amor querida,
Que esperta os corações, floreia os prados:
Mais doce é ver-te, de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados
Morte, morte de amor, melhor que a vida.
Ver toucar-se a manhã de etéreas flores,
E, lambendo as areias, e os verdores,
Mole, e queixoso, deslizar-se o rio:
Se é doce no inocente desafio
Ouvirem-se os voláteis Amadores,
Seus versos modulando, e seus ardores
De entre os aromas de pomar sombrio:
Se é doce mares, céus ver anilados
Pela Quadra gentil, de Amor querida,
Que esperta os corações, floreia os prados:
Mais doce é ver-te, de meus ais vencida,
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados
Morte, morte de amor, melhor que a vida.
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Fernando Pessoa
Dai-me rosas e lírios,
Dai-me rosas e lírios,
Dai-me flores, muitas flores
Quaisquer flores, logo que sejam muitas...
Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas
Em me dardes muitas flores,
Nem isso... Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço
Que me deis flores...
Sejam essas as flores que me deis...
Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio,
Sob o céu cheio de sol!
A minha agonia da realidade lúcida!
Desejo de chorar absolutamente como uma criança
Com a cabeça encostada aos braços cruzados em cima da mesa,
E a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço,
Estando eu a chorar naquela posição.
O homem que apara o lápis à janela do escritório
Chama pela minha atenção com as mãos do seu gesto banal.
Haver lápis e aparar lápis e gente que os apara à janela, é tão estranho!
É tão fantástico que estas coisas sejam reais!
Olho para ele até esquecer o sol e o céu.
E a realidade do mundo faz-me dor de cabeça.
A flor caída no chão.
A flor murcha (rosa branca amarelecendo)
Caída no chão...
Qual é o sentido da vida?
Dai-me flores, muitas flores
Quaisquer flores, logo que sejam muitas...
Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas
Em me dardes muitas flores,
Nem isso... Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço
Que me deis flores...
Sejam essas as flores que me deis...
Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio,
Sob o céu cheio de sol!
A minha agonia da realidade lúcida!
Desejo de chorar absolutamente como uma criança
Com a cabeça encostada aos braços cruzados em cima da mesa,
E a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço,
Estando eu a chorar naquela posição.
O homem que apara o lápis à janela do escritório
Chama pela minha atenção com as mãos do seu gesto banal.
Haver lápis e aparar lápis e gente que os apara à janela, é tão estranho!
É tão fantástico que estas coisas sejam reais!
Olho para ele até esquecer o sol e o céu.
E a realidade do mundo faz-me dor de cabeça.
A flor caída no chão.
A flor murcha (rosa branca amarelecendo)
Caída no chão...
Qual é o sentido da vida?
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Fernando Pessoa
29 - Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem paro mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os meus pés –
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem paro mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os meus pés –
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...
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Fernando Pessoa
Vai alta no céu a lua da Primavera
Vai alta no céu a lua da Primavera.
Penso em ti e dentro de mim estou completo.
Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz.
Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.
06/07/1914
Penso em ti e dentro de mim estou completo.
Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz.
Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.
06/07/1914
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