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Poemas neste tema

Infância

Desconhecido

Desconhecido

Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.
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Mário de Sá-Carneiro

Mário de Sá-Carneiro

Caranquejola

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira ...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor—
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?...
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom edrédon, bom fogo —
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza....

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co’a breca! Levem-me prà enfermaria!—
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará.
Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranqüilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora, no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras...
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.
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Ferréz

Ferréz

Eu Queria Ter e Ser

Eu queria ter tipo um campo pra jogar com todos os meus amigos.

Eu queria ter tipo uma vida menos corrida.

Eu queria ter uma vida menos confusa.

Eu queria acordar vendo uma cachoeira, todo dia.

Eu queria poder tomar banho nela quando quisesse.

Eu queria poder parar de procurar o amor.

Eu queria poder dormir abraçadinho com alguém.

Eu queria poder morar dentro daquela musica do John Lennon.

Eu queria poder abrir a janela e olhar grandes montanhas forradas de verde.

Eu queria poder dizer que sou feliz.

Eu queria poder dar aula numa escolinha no interior, pra um monte de criança inocente.

Eu queria ter tipo uma mensagem que fizesse as pessoas desistirem de carrões, de grandes sonhos de consumo.

Eu queria ter tipo o poder de convencer que as pequenas coisas são as mais gostosas.

Eu queria ser tipo mais compreensivo.

Eu queria ser tipo mais amigo.

Eu queria ser tipo um morador de uma casinha dentro de um cenário qualquer.

Eu queria ser tipo um menino brincando de Falcon novamente.

Eu queria acordar só mais um dia vendo meu pai e minha mãe juntos.

Eu queria poder dizer a eles que estou indo bem na escola da vida.

Eu queria ter participado mais da vida familiar.

Eu queria ter podido dar mais condições a eles.

Eu queria poder trocar o que conquistei por um único olhar daquela menina.

Eu queria que minhas poesias a conquistassem.

Eu queria que pessoas como o Renato e o Cazuza tivessem tido o que tanto cantavam, o amor.

Eu queria ter conhecido o Plínio Marcos, o João Antônio, o Raul Seixas e o Chico Science.

Eu queria estar escrevendo o que eu queria ter um dia.

Eu queria ter nascido num cenário do Star Wars.

Eu queria ter conhecido a Emilia e o Visconde.

Eu queria ter um poço de pesca pra mim e pros meus amigos.

Eu queria ter tipo um máquina do tempo, para poupar tanto sofrimento.

Eu queria ter uma cabana, com gelo no teto e arvores em volta.

Eu queria nem saber o que é dinheiro.

Eu queria ser tipo um cara conquistador.

Eu queria ter a certeza que conquistadores são felizes.

Eu queria saber cantar.

Eu queria ser tipo um viajante.

Eu queria acordar com um grande café da manhã na minha cama.

Eu queria registrar aquele sorriso naquele dia para sempre.

Eu queria poder saber o que será do meu povo amanhã.

Eu queria poder saber porque ela não conseguiu ficar ao meu lado.

Eu queria saber a fórmula de um grande sucesso.

Eu queria saber porque a fórmula do fracasso é agradar todo mundo.

Eu queria ter um robozinho daqueles de plástico que minha mãe me dava em datas especiais.

Eu queria ver meu pai chegando e fingir que estava dormindo novamente.

Eu queria saber dizer mais coisas agradáveis.

Eu queria que todos comemorassem o Natal de verdade.

Eu queria um dia poder voar como um pássaro.

Eu queria ser tipo uma frota contra o mal.

Eu queria saber o que é o mal.

Eu queria ser tipo um cara em que as idéias valessem algo.

Eu queria ser tipo um cara que deixou algo pra alguém.

Eu queria poder mostrar aquele momento em que o menino dividiu com todo mundo o pão velho que comia numa viela.

Eu queria poder entender como os engravatados podem comer numa mesa onde o almoço é mais caro que o salário da maioria dos brasileiros e mesmo assim dormem tranqüilos.

Eu queria ser tipo um cara ingênuo, a ponto de acreditar em Papai Noel, duendes e na polícia.

Eu queria ser tipo um cara sem insônia, sem gastrite, sem dores tão fortes na alma.

Eu acho que ainda queria ser só um desenhista.

Eu acho que ainda queria ser só alguém num mundo legal.

Eu acho que ainda queria ser aquele menino que não via as coisas como elas eram.

Eu acho que ainda queria ser aquele chato que sempre levantava a mão primeiro na hora das perguntas.

Eu acho que ainda queria ser mais um da turma.

Eu acho que ainda queria brincar de banca de gibis com minha irmã.

Eu acho que ainda queria ser aquele menino que andava de banca em banca procurando aventuras em quadrinhos.

Eu acho que ainda queria ter a esperança boba de achar que poderia fazer a diferença nessa bagunça de mundo.

Eu acho que vou dormir.

Eu também acho que amanhã bem cedo vou procurar realizar pelo menos algo disso tudo, e você o que acha?


Publicada na revista Caros amigos, São Paulo, n. 58, jan. 2002
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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Evocação do Recife

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritssatd dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois —
Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância

A Rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de Dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincené na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras, mexericos, namoros, risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:

Coelho sai!
Não sai!

A distância as vozes macias das meninas politonavam:

Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão
(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)

De repente
nos longes da noite
um sino

Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era São José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva se ser menino porque não podia ir ver o fogo

Rua da União...
Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
... onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
... onde se ia pescar escondido
Capiberibe
— Capibaribe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento

Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redomoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
Cavalhadas

Eu me deitei no colo da menina e ela começou a passar a mão nos meus cabelos

Capiberibe
— Capibaribe

Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avó morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô

Rio, 1925
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Clarice Lispector

Clarice Lispector

Tentação

Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva. Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos. Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo. Lá vinha ele trotando, à frente da sua dona, arrastando o seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro. A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam. Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo. Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos. Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos. No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes do Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam. Mas ambos eram comprometidos. Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada. A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina. Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás. ("Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998)

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