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Liberdade

Maria do Carmo Lobato

Maria do Carmo Lobato

Condição de mulher

Fala baixo, podem escutar,
Geme e xinga baixinho,
Pra não acordar o vizinho.
Cuidado, a cama está rangendo.
E deste jeito, gemendo,
Vai correr amanhã o boato
Que tu praticaste um ato
Eivado de desacato
À moralidade e ao Direito,
Aos bons costumes e ao respeito.

E a vizinha, com inveja
Da tua simples liberdade
Que ela não consegue ter,
Vai espalhar no condomínio
Que és um ser sem domínio,
Predestinada a morrer,
Que és uma gata perdida,
Por certo ganhas a vida,
Vendendo aos homens prazer,

Não vai ela entender nunca,
No vai e vem da sua vida.
Que a sua vida não é vida,
É obrigação de ser
Qualificada de esposa,
E neste estado ela não ousa
Amar e sentir prazer,
Pois, pela Religião,
Prazer é coisa do Cão,
É coisa pra não se ter,
Prazer é pecado mortal,
O prazer fere a moral,
E as virtudes do "Alto Ser".

A pobre vizinha escuta
Todos os dias no rádio
Que sentir prazer é pra puta,
Que esposa é mulher "séria"
É a féria com que sustenta
Sua vida e de seus rebentos,
Por certo não advém
de estar à disposição
De um homem que a sustém.

O sistema incutiu nela
Que a que está à disposição
De um só pelo seu tostão
Tem o "status" de esposa,
Não se iguala à mariposa,
Que troca o parceiro João
Pelo José ou o Romão,
Desde que lhe pague o pão.

Aprende, vizinha amiga,
Que a tua condição é a mesma,
Tendo até mais privilégio
A outra que está na zona,
Pois esta não tem quem tome
Dela satisfação,
Trabalha o dia que quer,
Ela é bem mais mulher
Na sua situação,
Que uma "esposa" qualquer
Debaixo de repressão.

Mulher companheira, amiga,
O que é o Casamento,
Se não ver teu sentimento
Menosprezado até o ponto
De transformá-lo em documento
Com efeito de sacramento?
Atenta pra encenação
desta imbecil instituição,
Que te põe na posição
De prostituta em ação,
Porém, como já falamos,
Em condições bem piores
Por não teres opção
De entregar teu sentimento
Pra quem ditar teu coração.

Este é o jogo do Sistema
No papel que dá à mulher,
Ou ela é Puta de Arena
Ou Puta de um só José.

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Gomes de Sousa

Gomes de Sousa

Henrique Dias

Do Norte a gentil sultana
Cedeu, pela prima vez,
Sua cerviz soberana
Ao férreo jugo holandês.
Ai! pobre da malfadada,
Tão cruamente algemada,
Ao cepo do servilismo
Que triste que foi-lhe a sinal
Nem uma luz a ilumina
Nas profundezas do abismos

Seus lindos rios saudosos
Seus frescos, flóreos palmares,
Seus passarinhos formosos
De harmonia enchendo os ares,
Suas campinas de flores,
Seus matizes, seus verdores
Vão ser bens dum outro dono!
E tu, sultana do Norte,
Pelos caprichos da sorte,
Vais dormir de escrava o sono!

Nem mais a lua te banha
Com seus arroios de prata,
Quando da etérea montanha
Nos lagos teus se retrata;
Que se expira a liberdade
No seio de uma cidade
Tu aí também expira,
Como da moça, os encantos
Vão morrer nos frios prantos,
Nos tristes ais que suspira.

Porém não! Ao longe soa
O grito horrendo da guerra,
E ao som, que ao longe reboa,
O fero holandês se aterra!
Erguem-se as vastas bandeiras,
Marcham avante as fileiras,
Que em seu socorro Já vêm;
Pois que do Norte a sultana
Sua cerviz soberana
Nunca curvou a ninguém.

Ao retroar das metralhas,
Da guerra ao tufão que soa,
Como o gênio das batalhas,
Henrique Dias lá voa!
Da larga mão bronzeada
Vai pendente a nua espada,
— Raio que os mandões fulmina!
E cada golpe que vibra
Faz quebrar fibra por fibra
Dos mandões a raça indiana.

Preto, mais nobre que um nobre,
Ou nobre como um Bragança,
Sob a epiderme de cobre
Uma alma de ouro descansa
E, se as coroas coubessem
Àqueles que se expusessem
Da sua pátria em defesa,
Seria o rei mais perfeito...
Se é que a púrpura — do peito
Não faz murchar a nobreza ...

Matando a todos de inveja
Com sua nobre altivez,
Temeu-o então na peleja
O fero povo holandês.
E tu, valente soldado,
Corajoso e denodado
Despedes golpes de morte;
Por teu denodo guerreiro
Livraste do cativeiro
A linda filha do Norte.

Então a gentil cativa
Sua beleza assumiu,
E erguendo a cerviz altiva
Ao seu guerreiro sorriu:
Assim a virgem formosa
Expõe as faces de rosa
Aos beijos do amante seu,
Tão satisfeita e contente
Do rico e lindo presente
Que pela festa lhe deu.

Feliz quem leva da espada
Em prol de sua nação!
Ou quem, vendo-a escravizada,
Expira, como Catão!
Catão! Ainda parece
Que o Capitólio estremece
À voz do grande Romano!
Catão! Com quanta saudade
Viu calcada a liberdade,
Aos pés do César tirano!

Foi assim Henrique Dias,
Valente como ninguém!
De sua nobre ousadia
Deu-lhe o Brasil parabém.
Oh! Bayard da liberdade,
Teu nome famoso há de
Afrontar do tempo a ação;
E a par dos nobres guerreiros
E dos heróis brasileiros
Terás a tua oblação.

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