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Literatura e Palavras

Matilde Campilho

Matilde Campilho

31 de Outubro

No rádio do posto de gasolina, tocou uma canção que falava de Prometeu. Do estoicismo de Prometeu. Tanto quanto sei, nas últimas aulas de história e geografia, Prometeu foi quase o deus que mais acreditou na humanidade. Quase. Há outro. Mas P, aquele malandro, roubou o fogo do chefão para levá-lo aos mortais. Por causa disso foi amarrado à uma rocha por toda eternidade. Ha lá, agora não é hora para falar de castigos, muito menos de castigos que envolvam abraços aos rochedos. Íamos ficar horas discutindo arbitragem e as diferentes tonalidades de um cartão vermelho. Quem acredita num castigo, também acredita na chegada das setenta alegrias. Alguns acham isso, outros não. Hoje não é dia pra isso. Estoicismo. Hoje é a tarde em que noventa e dois corpos foram achados no deserto. Silêncio. Entre o Nigér e a Algéria vão tantos quilômetros de distância, deus. Hoje era aniversário do Dummond. Tinha aquele poema sobre a chuva e sobre o nome que toda mulher leva cozido no veludo, principalmente eu. Tinha aquele poema sobre o bonde que não veio, aquele poema sobre o pasto inédito da natureza mítica das coisas e, mais do que tudo, aquele, o amor. Carlos, você é telúrico. A noite passando em você e os recalques se sublimando. Lá dentro um barulho inefável: rezas, vitrolas, santos que se persignam. Anúncios do melhor sabão, um barulho que ninguém sabe de que, o quê. Você é a palmeira. Você é o grito que ninguém ouviu no teatro. Hoje é o dia que o terremoto atingiu Taiwan. Seis ponto seis, sabe-se lá em que escala. Sabe-se lá quantos fogos, quantas ondas de quarenta metros, quantos alicerces dobrados como se dobram as pernas dos grilos no outono norueguês. Em português não lhe chamamos Taiwan, sempre lhe chamamos Ilha Formosa. Faz parte dos quatro tigres asiáticos e, por falar nisso, acho que é sempre tempo de falar nisso, uma vez conheci um santo que não parava de repetir o mantra: “I never saw so many tigers”. Claro que isso não aconteceu no elevador de um hotel na Flórida, mas por causa dos movimentos das placas tectônicas, o mundo cada dia se aproxima mais do mundo. Só falta o verão aproximar-se mais do verão. Diabos. Faz um frio danado outra vez. O Lou Reed morreu essa semana. Naquele último retrato em branco e negro, ele tinha o punho todo cerrado, cabelo todo desalinhado, as orelhas como sempre do tamanho de um planeta. Acho que há um time qualquer se formando para além de nós. Um time de reis e profetas de orelhas grandes jogando as bolas por cima de nossas cabeças. Laurie Anderson, a mulher de Lou, escreveu uma nota para a secção de obituários de um pequeno jornal a serviço da comunidade de East Hampton. Que outono mais bonito, foi assim que ela começou. Que outono mais bonito e tudo brilha e aquela incrível luz suave. Desculpe o meu inglês, mas “Lou was a Tai-Chi master and spent his last days here, being happy and dazzled by the beauty and power and softness of nature.” Um príncipe, foi o que ela lhe chamou, um príncipe e um boxeur. Prometeu regenerava-se durante a noite, rosto encostado na umidade do rochedo, estômago aberto pelos pássaros. É assim que um deus faz um homem, é assim que deus faz valente. Os Red Socks ganharam o campeonato. 6 a 1. Mas ainda me falta saber tanta coisa sobre o baseball. Sei de um dono de bar que está disposto a explicar tudo. Até lá guardo a imagem daquele bastão sendo lançado até a arquibancada e caindo aos pés de um homem que chorou. Sempre achei que os Red Socks eram uma espécie de Botafogo norte-americano, portanto vai alegria. A Índia está no caminho para Marte. No próximo dia 5 é lançada a nave espacial que vai abrir as hostes àquela que é a primeira missão interplanetária indiana. Eles esperam que o bicho entre arrastando fogo até o planeta vermelho lá para setembro do ano que vem. Eu espero que o bicho leve no bolso o recadinho do Ray Bradbury dobrado em quatro partes, aquela onde ele explica assim: “É bom renovar o espanto da gente, disse o filósofo. As viagens no espaço fizeram-nos a todos, de novo, crianças.” Em Maputo, como se isto no mundo fosse um castelo de cartas que afinal só quer cair na paz, aconteceu aquela que já chamam a maior manifestação não-governamental do que há memória. Na ilha formosa a temperatura agora é de, exatamente, 24 graus. O Carlos se fosse vivo fazia 111 anos. Obrigada homem, obrigada. “O amor é isto que você está vendo”.
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Marília Garcia

Marília Garcia

ESTRELAS DESCEM À TERRA

começo do começo,
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje

assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.

há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.

então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.

talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.

talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.

imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.

se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
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Hélia Correia

Hélia Correia

Esmola

I
Lançai‑me
uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi‑a
de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés
do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo‑a
murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre.

II

Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.
Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema

III


Pequenas, misteriosas criaturas
que não nascem do mundo natural,
que são obra dos homens,
sendo os homens a obra delas,
vejo‑as
hoje mais do que escorraçadas:
submetidas.
Elas que eram solenes e risonhas,
tanto mais necessárias quanto inúteis,
e tanto mais inúteis quanto pura
exaltação do texto, essas palavras
rolam humildemente pelo chão.
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo a fome.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Como Uma Flor Na Chuva

cortei a unha do dedo médio
da mão
direita
realmente curta
e comecei a correr o dedo ao longo de sua buceta
enquanto ela se sentava muito ereta na cama
espalhando uma loção por seus braços
face
e seios
depois do banho.
então acendeu um cigarro:
“não deixe que isso o desanime”,
e seguiu fumando e esfregando a
loção.
continuei tocando sua buceta.
“quer uma maçã?”, perguntei.
“claro”, ela disse, “tem uma aí?”
mas eu lhe dei outra coisa...
ela começou a se contorcer
e depois rolou para um lado,
ela estava ficando molhada e aberta
como uma flor na chuva.
então ela se voltou sobre a barriga
e seu cu maravilhoso
olhou para mim
e eu passei minha mão por baixo e
cheguei outra vez na buceta.
ela se espichou e agarrou meu
pau, virando-se e se contorcendo toda,
penetrei-a
meu rosto mergulhando na massa
de cabelos ruivos que se alastrava feito enchente
de sua cabeça
e meu pau intumescido adentrou
o milagre.
mais tarde tiramos sarro da loção
e do cigarro e da maçã.
depois eu saí para comprar um pouco de frango
e camarão e batatas fritas e pão doce
e purê de batatas e molho e
salada de repolho, e nós comemos. ela me disse
quão bem ela se sentia e eu lhe disse
o quão bem eu me sentia e nós comemos
o frango e o camarão e as batatas fritas e o pão doce
e o purê de batatas e o molho e
também a salada de repolho.

Dirigi de volta para casa. O apartamento estava do mesmo jeito de sempre – garrafas e lixo por toda parte. Precisava dar uma arrumada nas coisas. Se alguém o visse nesse estado facilmente me daria voz de prisão.
Escutei uma batida. Abri a porta. Era Tammie.
– Oi – ela disse.
– Olá.
– Você devia estar numa pressa desgraçada quando saiu. Todas as portas ficaram abertas. A porta dos fundos estava escancarada. Escute, promete que não conta pra ninguém se eu contar uma coisa pra você?
– Tudo bem.
– Arlene entrou e usou seu telefone, um interurbano.
– Tudo bem.
– Tentei deter ela, mas não consegui. Ela estava entupida de boletas.
– Tudo bem.
– Por onde você andava?
– Galveston.
– Por que você saiu assim desse jeito? Você é maluco.
– Vou precisar viajar de novo no sábado.
– Sábado? Que dia é hoje?
– Quinta-feira.
– Pra onde você vai agora?
– Nova York.
– Pra fazer o quê?
– Uma leitura. Mandaram as passagens duas semanas atrás. E eu fico com um percentual da bilheteria.
– Ah, me leve com você! Deixo a Dancy com a Mãe. Quero muito ir!
– Não tenho como bancar você. Isso acabaria com o meu cachê. Nos últimos tempos fiz umas despesas pesadas.
– Vai ser muito legal! Será bom demais. Não vou sair nem um minuto do seu lado. Senti tanto a sua falta.
– Não tem como, Tammie.
Ela foi até o refrigerador e apanhou uma cerveja.
– Você não dá a mínima pra mim. Todos esses poemas de amor, tudo papo furado.
– Quando eu os escrevi não era papo furado.
O telefone tocou. Era meu editor.
– Por onde você tem andado?
– Galveston. Fazendo uma pesquisa.
– Ouvi dizer que você fará uma leitura em Nova York no sábado.
– Sim, Tammie quer ir junto, minha namorada.
– Você vai levá-la junto?
– Não, não tenho como bancar.
– Quanto sairia isso?
– Por 316 dólares ida e volta.
– Você quer mesmo que ela vá?
– Sim, acho que seria uma boa.
– Tudo bem, vá em frente. Mando um cheque pra você pelo correio.
– Está falando sério?
– Sim.
– Não sei o que dizer...
– Não esquenta. Apenas lembre do Dylan Thomas.
– Eles não vão me matar.
Nos despedimos. Tammie sugava sua cerveja.
– Tudo bem – eu lhe disse –, você tem dois ou três dias pra fazer as malas.
– Está falando sério? Quer dizer que eu vou junto?
– Sim, meu editor pagará sua passagem.
Tammie deu um salto e se agarrou em mim. Me beijou, agarrou minhas bolas, se pendurou no meu pau.
– Você é o filho da puta mais legal do mundo!
Nova York. Tirando Dallas, Houston, Charleston e Atlanta, era o pior lugar em que eu já tinha estado. Tammie se grudou em mim e meu pau levantou. Joanna Dover não tinha levado tudo...
Sairíamos de Los Angeles naquele sábado no voo das três e meia. Às duas horas bati à porta de Tammie. Ela não estava lá. Voltei para minha casa e me sentei para esperar. O telefone tocou. Era Tammie.
– Veja – eu disse –, temos que ir. Há pessoas me esperando lá no Kennedy. Onde você está?
– Preciso de seis dólares aqui na farmácia. É pra comprar uns Quaaludes.[16]
– Onde você está?
– Logo abaixo do cruzamento da Western com Santa Monica Boulevard, cerca de uma quadra. É uma farmácia Coruja, não tem como errar.
Desliguei, entrei no fusca e fui até lá. Estacionei uma quadra abaixo da Western com Santa Monica, saí e dei uma olhada em volta. Não havia farmácia alguma.
Voltei para o fusca e dirigi pelas redondezas, procurando o Camaro vermelho dela. Então o avistei, cinco quadras abaixo. Estacionei e entrei no lugar. Tammie estava sentada numa cadeira. Dancy correu e para me fazer careta.
– Não podemos levar a criança.
– Eu sei. Vamos deixar ela na minha mãe, no meio do caminho.
– Na sua mãe? Mas são cinco quilômetros pro lado contrário.
– Fica no caminho do aeroporto.
– Não, fica pro outro lado.
– Você tem os seis contos?
Dei o dinheiro para Tammie.
– Encontro você na sua casa. Suas malas estão prontas?
– Sim, estou pronto.
Dirigi de volta e esperei. Então as ouvi chegar.
– Mamãe! – Dancy gritou. – Quero meus brinquedinhos!
As duas subiram a escada. Esperei que elas descessem. Nada. Subi. Tammie havia feito a mala, mas estava ajoelhada, abrindo e fechando o zíper de sua bagagem.
– Escute – eu disse –, vou levar o resto das suas coisas para o carro.
Ela levava consigo duas sacolas de compras de papelão, cheias, e três vestidos em cabides. Tudo isso além da mala.
Peguei as sacolas e os vestidos e coloquei no fusca. Quando voltei, ela ainda abria e fechava o zíper.
– Vamos, Tammie.
– Só mais um minuto.
Lá estava ela ajoelhada, pra lá e pra cá com o zíper, sem parar. Ela sequer olhava para dentro da mala. Ficava apenas abrindo e fechando o zíper.
– Mamãe – disse Dancy –, quero os meus brinquedinhos.
– Vamos, Tammie, vamos duma vez.
– Ah, tudo bem.
Apanhei a mala com o zíper e elas me seguiram para fora.
Segui seu Camaro demolido até a casa de sua mãe. Entramos. Tammie ficou em frente à cômoda da mãe e começou a abrir e fechar as gavetas. Cada vez que ela abria uma das gavetas, metia a mão lá dentro e fazia a maior bagunça. Então ela fechava a gaveta com uma pancada e partia para a próxima. Em sequência.
– Tammie, o avião já vai partir.
– Que nada, temos muito tempo. Odeio ficar fazendo hora em aeroportos.
– O que você pretende fazer com a Dancy?
– Vou deixar ela aqui até que a Mãe chegue do trabalho.
Dancy começou a urrar. Finalmente ela descobrira, e começou a urrar, e as lágrimas corriam, e então ela parou, cerrou o punho e gritou:
– QUERO OS MEUS BRINQUEDINHOS!
– Escute, Tammie, vou esperar no carro.
Saí e esperei. Depois de cinco minutos voltei a entrar na casa. Tammie continuava abrindo e fechando gavetas.
– Por favor, Tammie, temos que ir.
– Tudo bem.
Ela se voltou para Dancy.
– Escute só, você vai ficar aqui até a vovó chegar em casa. Mantenha a porta fechada e não deixe ninguém que não seja a vovó entrar!
Dancy voltou a urrar. E então gritou:
– EU ODEIO VOCÊ!
Tammie me seguiu e entramos no fusca. Dei a partida. Ela abriu a porta e se foi.
– TENHO QUE PEGAR UMA COISA NO MEU CARRO!
Tammie correu até o Camaro.
– Ah, merda, eu tranquei a porta e não tenho a chave! Você tem um arame?
– Não – gritei –, não tenho um arame!
– Já volto!
Tammie voltou correndo para dentro do apartamento da mãe. Escutei a porta se abrir. Dancy urrou e gritou. Então escutei a batida da porta e Tammie voltou com o arame. Ela foi até o Camaro e arrombou a porta.
Fui até seu carro. Tammie havia se inclinado sobre o banco de trás e cavoucava aquela inacreditável bagunça – roupas, sacos de papel, copos de papel, garrafas de cerveja, caixas vazias –, tudo empilhado ali. Então ela encontrou o que procurava: a câmara, uma Polaroid que eu havia lhe dado de aniversário.
– Você me ama de verdade, não é?
– Sim.
– Quando chegarmos a Nova York eu vou trepar com você como nenhuma outra mulher já trepou!
– Está falando sério?
– Sim.
Ela se agarrou no meu pau e colou em mim.
Minha primeira e única ruiva. Eu tinha sorte...
Corremos pela longa rampa. Eu carregava os vestidos e as sacolas dela.
Na escada rolante, Tammie avistou a máquina que vendia seguros de voo.
– Por favor – eu disse –, faltam cinco minutos pra decolagem.
– Quero que Dancy seja beneficiada.
– Tudo bem.
– Você tem cinquenta centavos?
Dei-lhe duas moedas. Ela as inseriu e um cartão foi cuspido pela máquina.
– Você tem uma caneta?
Tammie preencheu o cartão e depois havia um envelope. Ela colocou o cartão ali dentro e tentou enfiá-los na abertura da máquina.
– Essa porra não está entrando!
– Nós vamos perder o voo.
Ela continuava tentando enfiar o envelope na abertura. Não estava conseguindo.
Ficou ali plantada, tentando enfiar o envelope naquela abertura. A essas alturas o envelope já estava completamente dobrado no meio e as pontas estavam todas amassadas.
– Estou ficando louco – eu disse a ela. – Não suporto mais.
Tentou enfiar mais algumas vezes. Não teve jeito. Olhou para mim.
– Certo, vamos lá, então.
Subimos pela escada rolante com os vestidos e as sacolas.
Encontramos o portão de embarque. Tínhamos dois bancos no fundo do avião. Embarcamos.
– Viu só – ela disse –, não falei que a gente tinha tempo de sobra?
Olhei para o meu relógio. O avião começou a se mover...
Estávamos voando havia vinte minutos quando ela tirou um espelhinho da bolsa e começou a se maquiar, principalmente os olhos. Passava uma escovinha neles, concentrando-se, em especial, nos cílios. Ao fazer isso, ela arregalava bem os olhos, a boca entreaberta. Só de assisti-la, comecei a ter uma ereção.
Sua boca era tão carnuda e gostosa e aberta e ela ficava ajeitando os cílios. Pedi dois drinques.
Tammie parava para beber, e então continuava.
Um jovem numa poltrona à nossa direita começou a se tocar. Tammie continuava com os olhos fixos no espelhinho, mantendo a boca aberta. Parecia capaz de pagar um boquete dos bons com aquela boca.
Continuou naquela função por uma hora. Então deixou o espelho e a escovinha de lado, encostou-se no meu ombro e dormiu.
Havia uma mulher na poltrona à nossa esquerda. Estava na metade dos quarenta. Tammie dormia colada em mim.
A mulher me olhou.
– Quantos anos ela tem? – ela me perguntou.
De repente tudo ficou muito silencioso naquele avião. Todos ao redor escutavam.
– 23.
– Ela parece ter dezessete.
– Ela tem 23.
– Ela passou duas horas se maquiando e agora vai dormir.
– Foi mais ou menos uma hora.
– O senhor está indo para Nova York?
– Sim.
– É sua filha?
– Não, não sou pai nem avô dela. Não temos nenhum grau de parentesco. Ela é minha namorada e estamos indo pra Nova York. – Pude ver a manchete em seus olhos:
MONSTRO DO LESTE DE HOLLYWOOD DOPA GAROTA DE DEZESSETE ANOS, LEVA-A PARA NOVA YORK ONDE ELE A ABUSA SEXUALMENTE, VENDENDO DEPOIS SEU CORPO A INÚMEROS VAGABUNDOS.
A senhora inquisidora desistiu. Inclinou sua poltrona e fechou os olhos. Sua cabeça se inclinou na minha direção. Estava quase sobre meu colo. Segurando Tammie, fiquei olhando para aquela cabeça. Me perguntava se ela se importaria se eu lhe desse um beijo inesperado e louco. Tive outra ereção.
Estávamos prontos para aterrissar. Tammie parecia desacordada. Isso me deixou preocupado. Afivelei seu cinto.
– Tammie, estamos em Nova York! Já vamos pousar! Tammie, acorde!
Nenhuma resposta.
Overdose?
Tomei seu pulso. Não consegui sentir nada.
Olhei para os seus peitos enormes. Buscava algum sinal de que estivesse respirando. Eles não se moviam. Me levantei e fui ao encontro de uma aeromoça.
– Por favor, senhor, volte ao seu lugar. Estamos em procedimento de pouso.
– Escute, estou preocupado. Minha namorada não está acordando.
– O senhor acha que ela morreu? – sussurrou.
– Não sei – respondi também num sussurro.
– Tudo bem, senhor. Assim que nos aterrissarmos eu volto aqui.
O avião começou a descer. Fui até o banheiro e umedeci umas toalhas de papel. Retornei, sentei-me ao lado de Tammie e esfreguei sua face com os papéis. Toda aquela maquiagem, perdida. Tammie não respondeu.
– Acorde, sua puta!
Passei as toalhas por seus peitos. Nada. Nenhum movimento. Desisti.
Agora precisava despachar seu corpo de volta. Precisaria explicar o ocorrido à sua mãe. A velha iria me odiar.
Aterrissamos. As pessoas se levantaram e formaram uma fila, esperando para sair. Fiquei ali sentado. Chacoalhava Tammie, beliscava-a.
– É Nova York, Ruiva. A maçã podre. Vamos lá. Chega dessa palhaçada.
A aeromoça voltou e balançou Tammie.
– Querida, qual é o problema?
Tammie começou a responder. Ela se mexeu. Então seus olhos se abriram. Era tudo uma questão de ser chamada por uma voz diferente. Ninguém responde a uma voz conhecida. Vozes conhecidas se tornam parte da pessoa, como uma unha.
Tammie pegou seu espelhinho e começou a ajeitar o cabelo. A aeromoça lhe dava uns tapinhas no ombro. Me levantei e tirei os vestidos do compartimento superior. As sacolas também estavam ali. Tammie continuou a se olhar, não parava de ajeitar os cabelos.
– Tammie, estamos em Nova York. Vamos descer.
Ela se moveu depressa. Eu levava as duas sacolas e os vestidos. Ela saiu pela porta rebolando bem a bunda. Fui atrás dela.
– Mulheres
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

40 Anos Atrás Naquele Quarto de Hotel

na Union Avenue, 3 da manhã, Jane e eu estávamos
bebendo vinho barato desde o meio-dia e eu andava de pés descalços
pelos tapetes, recolhendo cacos de vidro
(à luz do dia você conseguia vê-los embaixo da pele,
protuberâncias azuis abrindo caminho rumo ao coração) e eu andava usando
meus calções rasgados, colhões feiosos balançando pra fora, minha retorcida e
rasgada camisa de baixo pontilhada por buracos de cigarro de diversos
tamanhos. parei diante de Jane, que estava sentada em sua cadeira
bêbada.
então gritei para ela:
“SOU UM GÊNIO E NINGUÉM SABE DISSO FORA
EU!”
ela sacudiu a cabeça, riu com escárnio e balbuciou por entre os
lábios:
“caralho! você é um idiota
de merda!”
eu andei à espreita pelo piso, dessa vez recolhendo um
fragmento de vidro bem maior do que o normal, e estiquei a mão
e o arranquei: um adorável e grande naco em forma de lança, pingando
com o meu sangue, eu o arremessei no espaço, me virei e fuzilei Jane
com os olhos:
“você não sabe nada, sua
puta!”
“VÁ SE FODER!”, ela
gritou.
então o telefone tocou e eu atendi e
gritei: “SOU UM GÊNIO E NINGUÉM SABE DISSO FORA
EU!”
era o recepcionista: “Sr. Chinaski, eu lhe adverti
diversas vezes, o senhor não está deixando nossos
hóspedes dormirem...”
“HÓSPEDES?”, eu ri, “VOCÊ QUER DIZER ESSES BEBUNS
DE MERDA?”
então Jane apareceu e agarrou o telefone e
gritou: “EU SOU UM MALDITO GÊNIO TAMBÉM E SOU A
ÚNICA PUTA QUE SABE DISSO!”
e ela desligou.
então fui até a porta e
prendi a corrente.
então Jane e eu empurramos o sofá na
frente da porta
desligamos as luzes
e ficamos sentados na cama
esperando por eles,
tínhamos pleno conhecimento da
localização da cadeia
de bebuns: North Avenue
21 – um endereço que soava tão
pomposo.
nós tínhamos, cada um, uma cadeira ao
lado da cama,
e cada cadeira continha cinzeiro,
cigarros e
vinho.
eles vieram com muito
ruído:
“esta é a porta
certa?”
“é”, ele disse,
“413”.
um deles bateu com
a ponta de seu
cassetete:
“DEPARTAMENTO DE POLÍCIA DE L.A.!
ABRAM AÍ!”
nós não
abrimos aí.
então ambos bateram com
seus cassetetes:
“ABRAM! ABRAM
AÍ!”
agora todos os hóspedes estavam
acordados com certeza.
“vamos lá, abram”, um deles
falou com mais calma, “nós só queremos
conversar um pouco, nada mais...”
“nada mais”, disse o outro,
“a gente pode até tomar uma bebidinha
com vocês...”
30-40 anos atrás
North Avenue 21 era um lugar terrível,
40 ou 50 homens dormiam no mesmo piso
e havia um banheiro no qual ninguém ousava
excretar.
“sabemos que vocês são gente boa, nós só
queremos conhecer vocês...”,
um deles disse.
“é”, disse o outro.
então os ouvimos
sussurrando.
não os ouvimos indo
embora.
não tínhamos certeza quanto à
partida dos dois.
“puta que o pariu”, Jane perguntou,
“você acha que eles
foram embora?”
“shhhh...”,
eu chiei.
ficamos ali sentados no escuro
bebericando nosso
vinho.
não havia nada a fazer
exceto observar dois letreiros de neon
através da janela ao
leste
um ficava perto da biblioteca
e dizia
em vermelho:
JESUS SALVA.
o outro letreiro era mais
interessante:
era um enorme pássaro vermelho
que batia suas asas
sete vezes
e então um letreiro se acendia
abaixo
anunciando
SIGNAL GASOLINE.
era uma vida tão boa
quanto conseguíamos
bancar.
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