Poemas neste tema
Mar, Rios e Oceanos
Eugénia Tabosa
Prelúdio
A noite era quase dia
e o vento vinha do mar
Soltaram-se teus cabelos
antes mesmo de os tocar
Os olhos ainda fugiam
evitando se encontrar
E teu corpo de tão perto
não me deixava falar
Quanto tempo assim passou
até o céu se dourar...
Na areia quente e macia
Batendo quase em surdina
um só coração se ouvia
embalado pelo mar.
e o vento vinha do mar
Soltaram-se teus cabelos
antes mesmo de os tocar
Os olhos ainda fugiam
evitando se encontrar
E teu corpo de tão perto
não me deixava falar
Quanto tempo assim passou
até o céu se dourar...
Na areia quente e macia
Batendo quase em surdina
um só coração se ouvia
embalado pelo mar.
1 329
Anibal Beça
Canto II
Tudo era descoberta
no abrir dessas palavras.
E a viagem seguia
construindo-se andaime
de leve arquitetura
nas ogivas das bocas
dos dois que se encantavam
nesse jogo onomástico.
E a mulher que era voz
ainda adormecida
balbuciou nomeando
esse homem fricativo:
– amado meu amado.
Então ele se soube
de pedra amolecida
mas senhor da tarefa.
E olhou-a como nunca
olhara em sua volta:
a íris revelando
o seu contentamento
no semblante de calma
na viva descoberta
do fogo prometido.
Havia agora como
repartir as centelhas
dos olhos revirados.
Apenas construir
um solo de pegadas
no sopro de ocarina
de música tão breve,
que o passo é de nuvens.
Saber-se passageiro
ao lado da parceira
no destino de andar
de ver para fincar
as flechas andarilhas
as palavras certeiras
no chão do transitório.
Então para alargar
o chão dessa morada
e para contentar
os impulsos dos pés
a vontade liberta
de ter aonde ir
no vão dos sonhos soltos
espanando a rotina
dessas favas do tédio
só havia a distância
desse mar dos mistérios
O mar das descobertas:
Ó Thálassa, ó Thálassa!
O mar da poesia
Esse mar do impossível.
no abrir dessas palavras.
E a viagem seguia
construindo-se andaime
de leve arquitetura
nas ogivas das bocas
dos dois que se encantavam
nesse jogo onomástico.
E a mulher que era voz
ainda adormecida
balbuciou nomeando
esse homem fricativo:
– amado meu amado.
Então ele se soube
de pedra amolecida
mas senhor da tarefa.
E olhou-a como nunca
olhara em sua volta:
a íris revelando
o seu contentamento
no semblante de calma
na viva descoberta
do fogo prometido.
Havia agora como
repartir as centelhas
dos olhos revirados.
Apenas construir
um solo de pegadas
no sopro de ocarina
de música tão breve,
que o passo é de nuvens.
Saber-se passageiro
ao lado da parceira
no destino de andar
de ver para fincar
as flechas andarilhas
as palavras certeiras
no chão do transitório.
Então para alargar
o chão dessa morada
e para contentar
os impulsos dos pés
a vontade liberta
de ter aonde ir
no vão dos sonhos soltos
espanando a rotina
dessas favas do tédio
só havia a distância
desse mar dos mistérios
O mar das descobertas:
Ó Thálassa, ó Thálassa!
O mar da poesia
Esse mar do impossível.
959
Ana C. Pozza
À imensidão azul
Num instante,
Como num passe de mágica,
Estamos frente à imensidão azul do mar,
Andando juntos,
De mãos atadas,
Com intervalos de beijos selados,
Nos lábios e no coração...!
Como na magia de um belo sonho,
Torno-me inteira como tu és
E ainda continuo sendo eu
Oferecendo-lhe o meu coração...
Tu confundes o teu corpo com o meu
Num entrelace de vida e de paixão...!
Há o mar,
a areia,
os morros,
o sol...
E há
nós
dois.
Cerramos os olhos
E a chuva cai...
Pingos incessantes que nos fazem
Ser Água,
ser Desejo,
ser Amor...
Nos amamos com sofreguidão
E somos um só
Na alma,
no corpo,
no coração...
Quando eu me perco
Me encontro no teu olhar
Para logo me perder no teu tocar...!
Olhos nos olhos,
Boca com boca,
Pele com pele
Corpo no corpo!
A água do mar,
Os pingos dançando
E nós dois apaixonados a nos amar...!
Como num passe de mágica,
Estamos frente à imensidão azul do mar,
Andando juntos,
De mãos atadas,
Com intervalos de beijos selados,
Nos lábios e no coração...!
Como na magia de um belo sonho,
Torno-me inteira como tu és
E ainda continuo sendo eu
Oferecendo-lhe o meu coração...
Tu confundes o teu corpo com o meu
Num entrelace de vida e de paixão...!
Há o mar,
a areia,
os morros,
o sol...
E há
nós
dois.
Cerramos os olhos
E a chuva cai...
Pingos incessantes que nos fazem
Ser Água,
ser Desejo,
ser Amor...
Nos amamos com sofreguidão
E somos um só
Na alma,
no corpo,
no coração...
Quando eu me perco
Me encontro no teu olhar
Para logo me perder no teu tocar...!
Olhos nos olhos,
Boca com boca,
Pele com pele
Corpo no corpo!
A água do mar,
Os pingos dançando
E nós dois apaixonados a nos amar...!
1 290
Afonso Henriques Neto
Uma menina
água, tua música de pele
e cheiro fluindo de florações
impalpáveis, chuva acesa
no centro do abismo, onde flutuam
manhãs
terra, teus passos tua voz teus
ruídos de amor e um gozo
além das cordilheiras do sonho
tecendo galáxias, vertiginosa
raiz
ar, teu gesto marinho, olhos
feitos do arremesso do mar
e a centelha invisível a mover
os labirintos do vento, cósmica
serpente
fogo, teu corpo de medusas
e feridas vivas, vulcões,
planeta todo luz, talvez paixão,
pássaro tatuado nas estrelas,
coração
e cheiro fluindo de florações
impalpáveis, chuva acesa
no centro do abismo, onde flutuam
manhãs
terra, teus passos tua voz teus
ruídos de amor e um gozo
além das cordilheiras do sonho
tecendo galáxias, vertiginosa
raiz
ar, teu gesto marinho, olhos
feitos do arremesso do mar
e a centelha invisível a mover
os labirintos do vento, cósmica
serpente
fogo, teu corpo de medusas
e feridas vivas, vulcões,
planeta todo luz, talvez paixão,
pássaro tatuado nas estrelas,
coração
890
Douglas Mondo
Desejos
Senhora buscai em meu corpo teu desejo louco,
sou homem não sou santo a ti abro meu manto
e se beberes na bruma da manhã desse prazer que não é pouco,
deitarei meu corpo em teu leito te causando espanto.
Em desalento, mesmo distante do legado em jeito,
faça de meu corpo tua moradia como febre em estadia,
lânguida, em minha pele com teus delírios me deito
e de belo agrado te aninho em meu pulsante peito.
Sou teu pecado não sejas mulher ternura,
na cama tuas vontades recebo como tua melhor criatura
e pecai...muito, por prazer não perdes a candura.
Faça da carne a música como escultura bêbada
e do poema um rio solto em direção ao revolto mar,
solte o leme da escuna, naufrague nas ondas desse lindo namorar.
sou homem não sou santo a ti abro meu manto
e se beberes na bruma da manhã desse prazer que não é pouco,
deitarei meu corpo em teu leito te causando espanto.
Em desalento, mesmo distante do legado em jeito,
faça de meu corpo tua moradia como febre em estadia,
lânguida, em minha pele com teus delírios me deito
e de belo agrado te aninho em meu pulsante peito.
Sou teu pecado não sejas mulher ternura,
na cama tuas vontades recebo como tua melhor criatura
e pecai...muito, por prazer não perdes a candura.
Faça da carne a música como escultura bêbada
e do poema um rio solto em direção ao revolto mar,
solte o leme da escuna, naufrague nas ondas desse lindo namorar.
1 097
Chico Buarque
Mar e lua
Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
e à beira-mar
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
e à beira-mar
1 990
Paul Celan
Elogio
da distância
Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.
Aqui,coração
que andou entre os homens,arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:
Mais negro no negro,estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.
Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.
Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.
Na fonte dos teus olhos
um enforcado estragula o baraço.
Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.
Aqui,coração
que andou entre os homens,arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:
Mais negro no negro,estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.
Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.
Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.
Na fonte dos teus olhos
um enforcado estragula o baraço.
1 150
José Tolentino Mendonça
Reconhecimento dos laços
aos meus pais
por todas as razões
agora as tuas mãos estranhas ao medo
procuram um brilho mais puro, o lume
agora o tempo se mede por búzios
e os nomes flutuam mais leves que
as algas
podia abrigar duas formigas
e contar-te a história do mundo
desde que foi criado
podia se deixasses
escrever aquela história
da filha louca dos Matildes
a falar horas seguidas
da lucidez assustadora
deste poema
tudo podia
já que
os anjos do vento desenham na água
o fulgor inesperado
do teu gesto
por todas as razões
agora as tuas mãos estranhas ao medo
procuram um brilho mais puro, o lume
agora o tempo se mede por búzios
e os nomes flutuam mais leves que
as algas
podia abrigar duas formigas
e contar-te a história do mundo
desde que foi criado
podia se deixasses
escrever aquela história
da filha louca dos Matildes
a falar horas seguidas
da lucidez assustadora
deste poema
tudo podia
já que
os anjos do vento desenham na água
o fulgor inesperado
do teu gesto
1 823
Luiza Neto Jorge
A porta aporta
a porta roda ao invés da lua
a porta roda bússula enterrada ao invés dos olhos
a porta geme é um cão nocturno
a porta geme extinta na trela da noite
a porta areia
a porta caruncho pária de mar
a porta maré que vem e que vai que bate e que fecha
a porta com máscara de morte
a porta sem sorte
a porta joelho na alma das portas
a porta mulher da casa de passe
a porta manchou a manhã com o grito de porta
a porta enforcada no mastro da casa
a porta por asa
a porta roda
a porta sexo a vida toda
a porta tosca da madrugada pregos são estrelas mortas
a porta pregada
a porta leilão
a porta batente a porta aranha por coração
a porta tu
a porta eu
a porta ninguém na terra pequena
a porta roda
a porta geme
a porta facho
a porta leme
de Quarta Dimensão
a porta roda bússula enterrada ao invés dos olhos
a porta geme é um cão nocturno
a porta geme extinta na trela da noite
a porta areia
a porta caruncho pária de mar
a porta maré que vem e que vai que bate e que fecha
a porta com máscara de morte
a porta sem sorte
a porta joelho na alma das portas
a porta mulher da casa de passe
a porta manchou a manhã com o grito de porta
a porta enforcada no mastro da casa
a porta por asa
a porta roda
a porta sexo a vida toda
a porta tosca da madrugada pregos são estrelas mortas
a porta pregada
a porta leilão
a porta batente a porta aranha por coração
a porta tu
a porta eu
a porta ninguém na terra pequena
a porta roda
a porta geme
a porta facho
a porta leme
de Quarta Dimensão
2 190
Amílcar Dória
The white birds
I would that we were, my beloved, white birds on the
foam of the sea!
We tire of the flame of the meteor, before it can fade
and flee;
And the flame of the blue star of twilight, hung low
on the rim of the sky,
Has awaked in our hearts, my beloved, a sadness that
may not die.
A weariness comes from those dreamers, dew-dabbled,
the lily and rose;
Ah, dream not of them, my beloved, the flame of the
meteor that goes,
Or the flame of the blue star that lingers hung low in
the fall of the dew:
For I would we were changed to white birds on the
wandering foam: I and you!
I am haunted by numberless islands, and many a
Danaan shore,
Where Time would surely forget us, and Sorrow come
near us no more;
Soon far from the rose and the lily and fret of the
flames would we be,
Were we only white birds, my beloved, buoyed out on
the foam of the sea!
foam of the sea!
We tire of the flame of the meteor, before it can fade
and flee;
And the flame of the blue star of twilight, hung low
on the rim of the sky,
Has awaked in our hearts, my beloved, a sadness that
may not die.
A weariness comes from those dreamers, dew-dabbled,
the lily and rose;
Ah, dream not of them, my beloved, the flame of the
meteor that goes,
Or the flame of the blue star that lingers hung low in
the fall of the dew:
For I would we were changed to white birds on the
wandering foam: I and you!
I am haunted by numberless islands, and many a
Danaan shore,
Where Time would surely forget us, and Sorrow come
near us no more;
Soon far from the rose and the lily and fret of the
flames would we be,
Were we only white birds, my beloved, buoyed out on
the foam of the sea!
1 077
Luiza Neto Jorge
E do Espanto II
consagraram-me
ao espanto
que de minúsculo há
no mar
e ímpar sobre a pele
criança
circuncidada a fogo e morte
(no céu da boca a memória absurda
das abóbadas)
mais
que na cidade
a matriz
dos arranha-céus líquidos
muito mais
que nos cartões
as clandestinas chagas
digitais
o espanto permanece
por frestas e
por ombros
qualquer
onde e
quando
de Quarta Dimensão
ao espanto
que de minúsculo há
no mar
e ímpar sobre a pele
criança
circuncidada a fogo e morte
(no céu da boca a memória absurda
das abóbadas)
mais
que na cidade
a matriz
dos arranha-céus líquidos
muito mais
que nos cartões
as clandestinas chagas
digitais
o espanto permanece
por frestas e
por ombros
qualquer
onde e
quando
de Quarta Dimensão
1 502
Giacomo Leopardi
Infinito
Infinito
Sempre cara me foi esta colina
Erma esta sebe, que de extensa parte
Dos confins do horizonte o olhar me oculta.
Mas, se me sento a olhar, intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios e quietudes profundíssimas,
Na mente vou sonhando, de tal forma
Que quase o coração me aflige. E, ouvindo
O vento sussurrar por entre as plantas,
O silêncio infinito à sua voz
Comparo: é quando me visita o eterno
E as estações já mortas e a presente
E viva com os seus cantos. Assim, nessa
Imensidão se afoga o pensamento:
E doce é naufragar-me nesses mares.
Sempre cara me foi esta colina
Erma esta sebe, que de extensa parte
Dos confins do horizonte o olhar me oculta.
Mas, se me sento a olhar, intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios e quietudes profundíssimas,
Na mente vou sonhando, de tal forma
Que quase o coração me aflige. E, ouvindo
O vento sussurrar por entre as plantas,
O silêncio infinito à sua voz
Comparo: é quando me visita o eterno
E as estações já mortas e a presente
E viva com os seus cantos. Assim, nessa
Imensidão se afoga o pensamento:
E doce é naufragar-me nesses mares.
2 608
José Tolentino Mendonça
Compaixão
Vi pela primeira vez o mar
era muito difícil frente a mim
compreender esse território absoluto
falámos só de coisas inúteis
e o mundo inteiro se escondia
somos novos. Lemos nos olhos fechados
precauções,derrotas,recusas
quando a intimidade sugere
a maior compaixão
era muito difícil frente a mim
compreender esse território absoluto
falámos só de coisas inúteis
e o mundo inteiro se escondia
somos novos. Lemos nos olhos fechados
precauções,derrotas,recusas
quando a intimidade sugere
a maior compaixão
2 603
Luís Miguel Nava
O tímpano e a pupila
Num dos pratos o mar, no outro um rio, agora
que o tempo se desossa,
que as pedras
que piso se me enterram na memória e os caminhos
se me aguçam na alma como lâminas, o pão
molhado nas feridas,
o pão
ele próprio já também uma ferida, agora
que o tempo, que já tanto
compararam a um rio, mais
não é do que uma leve exsudação nos muros,
nas mãos, agora
que o céu se encrespa e que pedaços
de mundo arremessados
com toda a força aos olhos revolteiam
na treva antes de se extinguirem,
mais magro do que a neve
caminho, a alma aberta como uma ferida,
ao longo da memória, onde se fundem
o tímpano e a pupila.
que o tempo se desossa,
que as pedras
que piso se me enterram na memória e os caminhos
se me aguçam na alma como lâminas, o pão
molhado nas feridas,
o pão
ele próprio já também uma ferida, agora
que o tempo, que já tanto
compararam a um rio, mais
não é do que uma leve exsudação nos muros,
nas mãos, agora
que o céu se encrespa e que pedaços
de mundo arremessados
com toda a força aos olhos revolteiam
na treva antes de se extinguirem,
mais magro do que a neve
caminho, a alma aberta como uma ferida,
ao longo da memória, onde se fundem
o tímpano e a pupila.
1 809
José Afonso
Os bravos
Eu fui à terra do bravo
Bravo meu bem
Para ver se embravecia
Cada vez fiquei mais manso
Bravo meu bem
Para a tua companhia
Eu fui à terra do bravo
Bravo meu bem
Com o meu vestido vermelho
O que eu vi de lá mais bravo
Bravo meu bem
Foi um mansinho coelho
As ondas do mar são brancas
Bravo meu bem
E no meio amarelas
Coitadinho de quem nasce
Bravo meu bem
Pra morrer no meio delas
Bravo meu bem
Para ver se embravecia
Cada vez fiquei mais manso
Bravo meu bem
Para a tua companhia
Eu fui à terra do bravo
Bravo meu bem
Com o meu vestido vermelho
O que eu vi de lá mais bravo
Bravo meu bem
Foi um mansinho coelho
As ondas do mar são brancas
Bravo meu bem
E no meio amarelas
Coitadinho de quem nasce
Bravo meu bem
Pra morrer no meio delas
3 022
Almeida Garrett
Barca bela
Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?
Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!
Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!
Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador.
Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador!
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?
Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!
Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!
Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador.
Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador!
2 483
João Maimona
As Muralhas da Noite
A mão ia para as costas da madrugada.
As mulheres estendiam as janelas da alegria
nos ouvidos onde não se apagavam as alegrias.
Entre os dentes do mar acendiam-se braços.
Os dias namoravam sob a barca do espelho.
Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia.
E da chuva de barcos chegavam colchões,
camas, cadeiras, manadas de estradas perdidas
onde cantavam soldados de capacetes
por pintar no coração da meia-noite.
Eram os barcos que guardavam as muralhas
da noite que a mão ouvia nas costas
da madrugada entre os dentes do mar.
As mulheres estendiam as janelas da alegria
nos ouvidos onde não se apagavam as alegrias.
Entre os dentes do mar acendiam-se braços.
Os dias namoravam sob a barca do espelho.
Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia.
E da chuva de barcos chegavam colchões,
camas, cadeiras, manadas de estradas perdidas
onde cantavam soldados de capacetes
por pintar no coração da meia-noite.
Eram os barcos que guardavam as muralhas
da noite que a mão ouvia nas costas
da madrugada entre os dentes do mar.
1 246
João Maimona
Prostitutas Misérias entre Mar e Janelas
Prostitutas Misérias entre Mar e Janelas
no quadragésimo aniversário
da explosão de Hiroshima
1. Nascemos quase pelas horas quase
iluminadas pelas cortinas que
ocultam a ausência humana. E
falecemos entre as sombras da
presença humana. A palavra sentida
há de calar a dor. Devíamos ter dito
duas vezes a oração bordada - a
estreita oração que nos ensinou a
bíblia de pedra. Da palavra sentida
há de nascer o amor. As avenidas
cantam e dizem lagartos para
escurecer as noites que nos vêm da
madrugada. Na palavra sentida há de
crescer a flor. Os leões inventam
microfones que em duas línguas
dizem tudo em duas palavras para os
ouvidos de dois mundos que se
ajoelham em dois caminhos. Temos
de conhecer o mar. Temos de dançar
ao pé das janelas. E crepúsculo
estará na neve do crepúsculo que há
de vir congregado em pedras do
crepúsculo.
2. O velho continente acordou e
deixou de sonhar com as estátuas de
cinza. A América se levantou e se
contorce de recessão espacial nos
pastos que enchem os peitos do gado
com o qual havemos de alimentar os
silêncios da África. As Américas
colecionam lembranças da
escravatura. E África coleciona
lábios para beijar folhas e árvores
perdidas no deserto por habitar. Aqui
os dias caem no chão e ninguém os
quer contar. Mas de noite cantamos
os dias que se abrem. Estendidos no
chão. Espiados pela mão que para a
noite vai. A carne, a flor, o sal, o
sangue e a água se misturam para
soprar felicidade ao mar e às
janelas. Temos de conhecer o mar.
Temos de dançar ao pé das janelas.
E o crepúsculo estará na neve do
crepúsculo que há de vir congregado
em pedras de crepúsculo.
no quadragésimo aniversário
da explosão de Hiroshima
1. Nascemos quase pelas horas quase
iluminadas pelas cortinas que
ocultam a ausência humana. E
falecemos entre as sombras da
presença humana. A palavra sentida
há de calar a dor. Devíamos ter dito
duas vezes a oração bordada - a
estreita oração que nos ensinou a
bíblia de pedra. Da palavra sentida
há de nascer o amor. As avenidas
cantam e dizem lagartos para
escurecer as noites que nos vêm da
madrugada. Na palavra sentida há de
crescer a flor. Os leões inventam
microfones que em duas línguas
dizem tudo em duas palavras para os
ouvidos de dois mundos que se
ajoelham em dois caminhos. Temos
de conhecer o mar. Temos de dançar
ao pé das janelas. E crepúsculo
estará na neve do crepúsculo que há
de vir congregado em pedras do
crepúsculo.
2. O velho continente acordou e
deixou de sonhar com as estátuas de
cinza. A América se levantou e se
contorce de recessão espacial nos
pastos que enchem os peitos do gado
com o qual havemos de alimentar os
silêncios da África. As Américas
colecionam lembranças da
escravatura. E África coleciona
lábios para beijar folhas e árvores
perdidas no deserto por habitar. Aqui
os dias caem no chão e ninguém os
quer contar. Mas de noite cantamos
os dias que se abrem. Estendidos no
chão. Espiados pela mão que para a
noite vai. A carne, a flor, o sal, o
sangue e a água se misturam para
soprar felicidade ao mar e às
janelas. Temos de conhecer o mar.
Temos de dançar ao pé das janelas.
E o crepúsculo estará na neve do
crepúsculo que há de vir congregado
em pedras de crepúsculo.
1 092
Alfred de Musset
Venise
Venise
Dans Venise la rouge,
Pas un bateau qui bouge,
Pas un pêcheur dans leau,
Pas un falot.
Seul, assis à la grève,
Le grand lion soulève,
Sur lhorizon serein,
Son pied dairain.
Autour de lui, par groupes,
Navires et chaloupes,
Pareils à des hérons
Couchés en ronds,
Dorment sur leau qui fume,
Et croisent dans la brume,
En légers tourbillons,
Leurs pavillons.
La lune qui sefface
Couvre son front qui passe
Dun nuage étoilé
Demi-voilé.
Ainsi, la dame abbesse
De Sainte-Croix rabaisse
Sa cape aux larges plis
Sur son surplis.
Et les palais antiques,
Et les graves portiques,
Et les blancs escaliers
Des chevaliers,
Et les ponts, et les rues,
Et les mornes statues,
Et le golfe mouvant
Qui tremble au vent,
Tout se tait, fors les gardes
Aux longues hallebardes,
Qui veillent aux créneaux
Des arsenaux.
- Ah ! maintenant plus dune
Attend, au clair de lune,
Quelque jeune muguet,
Loreille au guet.
Pour le bal quon prépare,
Plus dune qui se pare,
Met devant son miroir
Le masque noir.
Sur sa couche embaumée,
La Vanina pâmée
Presse encor son amant,
En sendormant;
Et Narcisa, la folle,
Au fond de sa gondole,
Soublie en un festin
Jusquau matin.
Et qui, dans lItalie,
Na son grain de folie ?
Qui ne garde aux amours
Ses plus beaux jours ?
Laissons la vieille horloge,
Au palais du vieux doge,
Lui compter de ses nuits
Les longs ennuis.
Comptons plutôt, ma belle,
Sur ta bouche rebelle
Tant de baisers donnés...
Ou pardonnés.
Comptons plutôt tes charmes,
Comptons les douces larmes,
Quà nos yeux a coûté
La volupté !
Dans Venise la rouge,
Pas un bateau qui bouge,
Pas un pêcheur dans leau,
Pas un falot.
Seul, assis à la grève,
Le grand lion soulève,
Sur lhorizon serein,
Son pied dairain.
Autour de lui, par groupes,
Navires et chaloupes,
Pareils à des hérons
Couchés en ronds,
Dorment sur leau qui fume,
Et croisent dans la brume,
En légers tourbillons,
Leurs pavillons.
La lune qui sefface
Couvre son front qui passe
Dun nuage étoilé
Demi-voilé.
Ainsi, la dame abbesse
De Sainte-Croix rabaisse
Sa cape aux larges plis
Sur son surplis.
Et les palais antiques,
Et les graves portiques,
Et les blancs escaliers
Des chevaliers,
Et les ponts, et les rues,
Et les mornes statues,
Et le golfe mouvant
Qui tremble au vent,
Tout se tait, fors les gardes
Aux longues hallebardes,
Qui veillent aux créneaux
Des arsenaux.
- Ah ! maintenant plus dune
Attend, au clair de lune,
Quelque jeune muguet,
Loreille au guet.
Pour le bal quon prépare,
Plus dune qui se pare,
Met devant son miroir
Le masque noir.
Sur sa couche embaumée,
La Vanina pâmée
Presse encor son amant,
En sendormant;
Et Narcisa, la folle,
Au fond de sa gondole,
Soublie en un festin
Jusquau matin.
Et qui, dans lItalie,
Na son grain de folie ?
Qui ne garde aux amours
Ses plus beaux jours ?
Laissons la vieille horloge,
Au palais du vieux doge,
Lui compter de ses nuits
Les longs ennuis.
Comptons plutôt, ma belle,
Sur ta bouche rebelle
Tant de baisers donnés...
Ou pardonnés.
Comptons plutôt tes charmes,
Comptons les douces larmes,
Quà nos yeux a coûté
La volupté !
1 818
Ruy Cinatti
Entrei pelo mar
Entrei pelo mar mulher
açodado, a colher algas
Esqueci-me do meu mister
embalado pelas ondas.
O mar homem não se esquece
embalado pelas ondas.
açodado, a colher algas
Esqueci-me do meu mister
embalado pelas ondas.
O mar homem não se esquece
embalado pelas ondas.
2 439
Gonzaga Leão
Soneto de Mar e vôo quase pássaro
Possuis provavelmente repetido
da ave o vôo nas mãos e nos cabelos;
nos teus lábios maduros e vermelhos
há certamente um pássaro ferido
que se refaz, de vôo prometido;
são de asas silenciosas teus artelhos:
e há também um mar que em teus joelhos
repousa, um mar na cor do teu vestido
transparente, finíssimo, de gaze,
quase desfeito ao vento, voando quase:
um mar pousado em ti, calado e breve.
Digo eu que sei que me perdi no mar
que em ti descansa e que aprendi a voar
sem consequências com teu corpo leve.
da ave o vôo nas mãos e nos cabelos;
nos teus lábios maduros e vermelhos
há certamente um pássaro ferido
que se refaz, de vôo prometido;
são de asas silenciosas teus artelhos:
e há também um mar que em teus joelhos
repousa, um mar na cor do teu vestido
transparente, finíssimo, de gaze,
quase desfeito ao vento, voando quase:
um mar pousado em ti, calado e breve.
Digo eu que sei que me perdi no mar
que em ti descansa e que aprendi a voar
sem consequências com teu corpo leve.
1 222
Carlos Falck
Bilhete à Ilha
Mudarei meu silêncio em ventania
E meu andar para o norte em ir ao cais;
Não me perguntarei se vou ou vais
ao mesmo ponto que antes nos unia.
Apenas caminharei e nesse andar
descobrirei se me segues ou te sigo.
Não me importo lembrar (se não te digo)
o que lembro se avisto cais ou mar.
Pois vou ao porto como se não fosse.
Desligado do sonho e dos sentidos
descubro que não tenho mais amigos
e que o verde do mar jamais foi doce.
E mais descobrirei quando bem frio,
meu corpo navegar no mar vazio.
E meu andar para o norte em ir ao cais;
Não me perguntarei se vou ou vais
ao mesmo ponto que antes nos unia.
Apenas caminharei e nesse andar
descobrirei se me segues ou te sigo.
Não me importo lembrar (se não te digo)
o que lembro se avisto cais ou mar.
Pois vou ao porto como se não fosse.
Desligado do sonho e dos sentidos
descubro que não tenho mais amigos
e que o verde do mar jamais foi doce.
E mais descobrirei quando bem frio,
meu corpo navegar no mar vazio.
912
Alexandre S. Santos
Vê
Vê, lá longe, no horizonte?
Costumo, lá, deitar meus sentimentos;
recosto no mais alto monte
a fronte envolta por escarlates momentos.
Lá longe, no horizonte.
Vê aqueles galhos verdes na herdade?
Sob eles brincam minhas fantasias;
ornadas de risos, de lágrimas - saudade
do que não houve e do porvir - de alegrias.
Naqueles galhos verdes na herdade.
Vê aquela penugem a bailar no vento?
Deposito nela a esperança do encontrar
nas vindouras dobras do tempo
o amor, como onda que chega do mar.
Naquela penugem a bailar no vento.
Vê, essa lua, prenhe de lume?
Aguarda nossos sonhos num enlace,
feito ninho onde se aprume:
onde pouse a penugem e morra o impasse.
Sob a lua prenhe de lume.
Costumo, lá, deitar meus sentimentos;
recosto no mais alto monte
a fronte envolta por escarlates momentos.
Lá longe, no horizonte.
Vê aqueles galhos verdes na herdade?
Sob eles brincam minhas fantasias;
ornadas de risos, de lágrimas - saudade
do que não houve e do porvir - de alegrias.
Naqueles galhos verdes na herdade.
Vê aquela penugem a bailar no vento?
Deposito nela a esperança do encontrar
nas vindouras dobras do tempo
o amor, como onda que chega do mar.
Naquela penugem a bailar no vento.
Vê, essa lua, prenhe de lume?
Aguarda nossos sonhos num enlace,
feito ninho onde se aprume:
onde pouse a penugem e morra o impasse.
Sob a lua prenhe de lume.
951
Adriana Sampaio
Ponto de Mutação
Ponto de Mutação
Hoje choveu, e o dia estava lindo
Na estrada verde lhe vi
E você estava ali
Meu menino grande...
Os dois entregues
Igualmente humanos
E a nossa humanidade nos fez sublimes
A sua doçura lhe fez príncipe
O meu amor lhe enterneceu
E pude ver que a beleza
Que encontro nos seus olhos
Vem da expressividade imensa
Que de você transborda
Você foi o mar, onde mergulhei
E as suas águas calmas e quentes
Me inundaram de paixão
Assim, depois desse dia chuvoso e lindo
Alguma mágica se derramou sobre nós
E nas palavras que me restaram
Não coube a imensidão
De tanto mar.
Hoje choveu, e o dia estava lindo
Na estrada verde lhe vi
E você estava ali
Meu menino grande...
Os dois entregues
Igualmente humanos
E a nossa humanidade nos fez sublimes
A sua doçura lhe fez príncipe
O meu amor lhe enterneceu
E pude ver que a beleza
Que encontro nos seus olhos
Vem da expressividade imensa
Que de você transborda
Você foi o mar, onde mergulhei
E as suas águas calmas e quentes
Me inundaram de paixão
Assim, depois desse dia chuvoso e lindo
Alguma mágica se derramou sobre nós
E nas palavras que me restaram
Não coube a imensidão
De tanto mar.
938