Poemas neste tema
Memórias e Lembranças
Mailson Furtado Viana
a estante deslocou a sala
a estante deslocou a sala
pro canto
tudo de importante
lá está
de canto
os outros três
existem
__________pra gente
__________por obrigação.
talvez
pra evitar intrigas com a física
ou mesmo só pra passeio
são só vistos
pela estante
que ali não pisou
na estante
um cristo redentor
que esteve no rio e lembrou-se d’alguém
se mistura à torre eiffel
que nem sabe de onde veio
um jarro desbotado
pintado de poeira
continua na mesma pose
e logo mais são paulo
em um flash na tv
se mistura também
no porta-retratos assistimos
mas não sabemos de nada
(nosso riso anda sem graça já)
dos outros cantos
sobram pra gente
a gente lá até vive
mas da estante é mais fácil lembrar
pro canto
tudo de importante
lá está
de canto
os outros três
existem
__________pra gente
__________por obrigação.
talvez
pra evitar intrigas com a física
ou mesmo só pra passeio
são só vistos
pela estante
que ali não pisou
na estante
um cristo redentor
que esteve no rio e lembrou-se d’alguém
se mistura à torre eiffel
que nem sabe de onde veio
um jarro desbotado
pintado de poeira
continua na mesma pose
e logo mais são paulo
em um flash na tv
se mistura também
no porta-retratos assistimos
mas não sabemos de nada
(nosso riso anda sem graça já)
dos outros cantos
sobram pra gente
a gente lá até vive
mas da estante é mais fácil lembrar
663
Simone Brantes
Meus mortos
Meus mortos não estão encarapitados
no alto das árvores
não são eles que balançam
os galhos quando eu passo nos dias de calmaria
não estão debaixo da terra nem voam pálidos
sobre minha cabeça debaixo do céu azul
Aparecem nos sonhos e desaparecem
quando são cinco ou seis da manhã
meus mortos são covardes
não têm coragem
de viver
no alto das árvores
não são eles que balançam
os galhos quando eu passo nos dias de calmaria
não estão debaixo da terra nem voam pálidos
sobre minha cabeça debaixo do céu azul
Aparecem nos sonhos e desaparecem
quando são cinco ou seis da manhã
meus mortos são covardes
não têm coragem
de viver
770
Maria Lúcia Dal Farra
Herança
Para Zeba e Acê Dal Farra
Ouço ao longe o chocalho da burra-madrinha:
é o nono que se avizinha,
cometa que chega do confim das terras,
de encurvadas léguas que o retiveram.
Já se fez (como de hábito) a visita ao cemitério.
Pulou (há pouco) o muro das almas.
Saltou na noite (capote colonial ao vento)
para dentro das lendas que o povo conta
sobre secreta aparição local.
Foi tomar bênção à mãe
levar-lhe as flores que colhe
pelas picadas afora
– solta móvel onde cultiva
Rebentos íntimos da memória.
Beijo as mãos geladas da pedra em que demorou.
Não tenho medo nem frio, na ampla capa me aninhou.
Devolvo-lhe sua sanfona (saudade a mais amargada)
repara nos botões gastos – esquece que papai a herdou.
Ouço do fole remoto da noite um acorde!
É o nono-cometa que se apeia do tempo
e vem partilhar com a neta (que não conheceu)
velhas tarantelas de legadas gestas.
Ouço ao longe o chocalho da burra-madrinha:
é o nono que se avizinha,
cometa que chega do confim das terras,
de encurvadas léguas que o retiveram.
Já se fez (como de hábito) a visita ao cemitério.
Pulou (há pouco) o muro das almas.
Saltou na noite (capote colonial ao vento)
para dentro das lendas que o povo conta
sobre secreta aparição local.
Foi tomar bênção à mãe
levar-lhe as flores que colhe
pelas picadas afora
– solta móvel onde cultiva
Rebentos íntimos da memória.
Beijo as mãos geladas da pedra em que demorou.
Não tenho medo nem frio, na ampla capa me aninhou.
Devolvo-lhe sua sanfona (saudade a mais amargada)
repara nos botões gastos – esquece que papai a herdou.
Ouço do fole remoto da noite um acorde!
É o nono-cometa que se apeia do tempo
e vem partilhar com a neta (que não conheceu)
velhas tarantelas de legadas gestas.
704
Mailson Furtado Viana
naquele tempo
naquele tempo
a tia me disse que
na enciclopédia de tudo havia
— o mundo lá está.
o veria de perto
__________—
__________mas varjota lá não ‘tava
__________nem o açude
__________nem
__________o gol que fiz na rua
__________muito menos o pé-de-seriguela no quintal
__________ou seu antônio no balanço à calçada
a gente era tão longe
do mundo
já não sabia bem
por birra
na enciclopédia
o trouxe pra casa
e por cinco dias
na estante o guardei
a tia me disse que
na enciclopédia de tudo havia
— o mundo lá está.
o veria de perto
__________—
__________mas varjota lá não ‘tava
__________nem o açude
__________nem
__________o gol que fiz na rua
__________muito menos o pé-de-seriguela no quintal
__________ou seu antônio no balanço à calçada
a gente era tão longe
do mundo
já não sabia bem
por birra
na enciclopédia
o trouxe pra casa
e por cinco dias
na estante o guardei
687
Simone Brantes
Um acontecimento
Um acontecimento,
não fica perdido para sempre, um dia ressurge,
como esses corpos afogados que, depois de algum tempo
no fundo, reaparecem à superfície, boiando.
E então já não há mais nada a fazer, senão enterrá-lo em poema
sem reza, sem pompa, sem flores,
e, cumprida a obrigação, com este ao menos,
dormir um pouco, enquanto ainda temos
algum tempo.
não fica perdido para sempre, um dia ressurge,
como esses corpos afogados que, depois de algum tempo
no fundo, reaparecem à superfície, boiando.
E então já não há mais nada a fazer, senão enterrá-lo em poema
sem reza, sem pompa, sem flores,
e, cumprida a obrigação, com este ao menos,
dormir um pouco, enquanto ainda temos
algum tempo.
683
António Carlos Cortez
É o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho
Hoje sou eu quem como o rio transluz
Hoje sou eu quem sem primícias seca
Luiza Neto Jorge
é o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho.
pergunto pelos barcos e não me respondem. ninguém sabe
é o tempo diluído nas camas brancas dos amantes sem resposta
dos rápidos amantes que lembram duas balas no sangue arrefecido.
perguntei aos amantes pela cidade dos barcos no rio.
ninguém sabe. ninguém sabe da cidade com mar nos dedos
aquela que sobe pelo peito fácil das casas feitas do cheiro matinal
dos gritos e do amor rápido e sanguíneo e sedento. é talvez a hora
de romper por entre os barcos que estão nos portos sombrios
sombrios abutres de marinheiros sem literatura.
não me contaram dos barcos como num poema
nem de rostos varridos pelas musicas de cítaras antigas.
no Tejo escorria de vermelho-sangue um sabre só encontrei
o azul e o branco estagnados da parte velha da cidade do fado.
o rio calado e os seus barcos e tu a subires a rua nova do alecrim
pelo menos nos meus olhos era essa rua de cesário e eu a respirar
o mesmo ar de asfixia ou a tentar não naufragar nestas águas pantanosas
nestas vielas obscuras nesses barcos de madeira ao sol já corrompida
onde ainda adivinhamos o rio Tejo e as sete colinas gravados
onde o amor foi perpetrado (na memória tentacular do mar)
e era ainda o Tejo
Hoje sou eu quem sem primícias seca
Luiza Neto Jorge
é o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho.
pergunto pelos barcos e não me respondem. ninguém sabe
é o tempo diluído nas camas brancas dos amantes sem resposta
dos rápidos amantes que lembram duas balas no sangue arrefecido.
perguntei aos amantes pela cidade dos barcos no rio.
ninguém sabe. ninguém sabe da cidade com mar nos dedos
aquela que sobe pelo peito fácil das casas feitas do cheiro matinal
dos gritos e do amor rápido e sanguíneo e sedento. é talvez a hora
de romper por entre os barcos que estão nos portos sombrios
sombrios abutres de marinheiros sem literatura.
não me contaram dos barcos como num poema
nem de rostos varridos pelas musicas de cítaras antigas.
no Tejo escorria de vermelho-sangue um sabre só encontrei
o azul e o branco estagnados da parte velha da cidade do fado.
o rio calado e os seus barcos e tu a subires a rua nova do alecrim
pelo menos nos meus olhos era essa rua de cesário e eu a respirar
o mesmo ar de asfixia ou a tentar não naufragar nestas águas pantanosas
nestas vielas obscuras nesses barcos de madeira ao sol já corrompida
onde ainda adivinhamos o rio Tejo e as sete colinas gravados
onde o amor foi perpetrado (na memória tentacular do mar)
e era ainda o Tejo
706
António Carlos Cortez
S. PEDRO DE ALCÂNTARA, MIRADOURO / MEMÓRIA DO VERÃO
Como cinzento-rosa a cidade
na cor mental surge noutra idade
Outra cor suspende o fim da tarde
Há um negrume do rio que nos alcança
O barco ao longe cruza o exíguo porto
e bairros pobres circundam este lodo
Imaginas terramotos tempos de nojo
... Neste jardim caindo sobre colinas
pára na memória uma onda de lama
(Lisboa... o casario velho de alfama
imagens do gume do amor derrama)
Cidade: corpo artérias expostas ao sol posto
(uma luz negra eclipsa a luz de agosto)
na cor mental surge noutra idade
Outra cor suspende o fim da tarde
Há um negrume do rio que nos alcança
O barco ao longe cruza o exíguo porto
e bairros pobres circundam este lodo
Imaginas terramotos tempos de nojo
... Neste jardim caindo sobre colinas
pára na memória uma onda de lama
(Lisboa... o casario velho de alfama
imagens do gume do amor derrama)
Cidade: corpo artérias expostas ao sol posto
(uma luz negra eclipsa a luz de agosto)
685
Paulo Teixeira
A segunda Pessoa
To count the loves one has grown out of
W. H. Auden
Tu reincides sem nome na lembrança,
presença não conhecida mas desejada
além do véu das estações e dos anos,
distante como dia de sol na bruma,
guardam-te em vão silêncios e demoras;
ao papel vens como lição não decorada,
perdido em missas vazias e solenes,
tu, forma de despedaçamento no meu corpo,
tu, dilaceração sem marca sobre a pele.
A espera queimou já meio caminho
desta vida e para o ar que respiro
não há mão incensaria, estrelas
em vigília na funda noite das galáxias,
sóis negros e prestas nebulosas
que correm para o avesso de Deus.
Lâmpadas e a lua foram guardas destas noites,
sem enlevo e sem futuro, exaladas por uma alma
presa na armação dos últimos laços.
Um desejo pode ser agora o pavor de um anseio
teu tumultuando o sangue em trânsito
pelas moradas do corpo quando esse adejo,
sei, as deixa suspensas na varanda dos sentidos.
Inquiro essa vontade que fez de ti um ser
inacessível a todos os vaticínios, invalidado
em nome e corpo, esboroando-se entre os dedos
como estátua mensurável outrora num desejo
e cinzelada de um sopro contra a luz.
W. H. Auden
Tu reincides sem nome na lembrança,
presença não conhecida mas desejada
além do véu das estações e dos anos,
distante como dia de sol na bruma,
guardam-te em vão silêncios e demoras;
ao papel vens como lição não decorada,
perdido em missas vazias e solenes,
tu, forma de despedaçamento no meu corpo,
tu, dilaceração sem marca sobre a pele.
A espera queimou já meio caminho
desta vida e para o ar que respiro
não há mão incensaria, estrelas
em vigília na funda noite das galáxias,
sóis negros e prestas nebulosas
que correm para o avesso de Deus.
Lâmpadas e a lua foram guardas destas noites,
sem enlevo e sem futuro, exaladas por uma alma
presa na armação dos últimos laços.
Um desejo pode ser agora o pavor de um anseio
teu tumultuando o sangue em trânsito
pelas moradas do corpo quando esse adejo,
sei, as deixa suspensas na varanda dos sentidos.
Inquiro essa vontade que fez de ti um ser
inacessível a todos os vaticínios, invalidado
em nome e corpo, esboroando-se entre os dedos
como estátua mensurável outrora num desejo
e cinzelada de um sopro contra a luz.
676
António Carlos Cortez
Um barco no rio
Rompem barcos
em Lisboa
na barra e
entram devagar
na lâmina da página
comigo a olhar
a ossatura do poema
a escrever-se no seu
máximo equilíbrio
Um barco no rio
foi o título
que dei ao livro
onde falei desse animal
mnemónico que traz
à superfície os meus olhos
a esse animal do sul
em aresta viva dedico
afinal desde que escrevo
a viva memória do que lembro
em Lisboa
na barra e
entram devagar
na lâmina da página
comigo a olhar
a ossatura do poema
a escrever-se no seu
máximo equilíbrio
Um barco no rio
foi o título
que dei ao livro
onde falei desse animal
mnemónico que traz
à superfície os meus olhos
a esse animal do sul
em aresta viva dedico
afinal desde que escrevo
a viva memória do que lembro
787
Paulo Teixeira
Autobiografia cautelar
1
Como se escreve a vida com pronomes trocados,
se tudo nela se recusa a ser uma história
urdida em encontros e aventuras,
país como Helvécia onde nada acontece,
a peça sem mudança de cena onde,
antes de se dar por isso, cai o pano
que o espectador, entre o cínico e o cénico,
duvida alguma vez ter sido içado.
2
Escrever a vida: tarefa odorífera
como a do homem que desenterra cadáveres
e os expõe para dissecação na mesa fria,
fétida cloaca onde não houve Brama
mais que o bramir das ondas,
nem aura que por ti subisse, helicoidal,
dias como serpentinas, céus como ovos de Páscoa,
transubstanciação em pleno dia,
fortuna em descendência colateral,
causas como Bilbau e Belfast,
violação e rapto para uma ilha deserta,
clímaces de ondas electromagnéticas
num qualquer hemisfério cerebral,
hipérbole (fora do poema),
nada que te olhe da altura de dois andares
na hierarquia dos teus dias;
só este sabor biliar que ascende à boca
de uma ferida ulcerada
no eixo transverso da alma.
3
Autobiografia do que se perdeu
como bagagem abandonada no passeio
e só a custo resgatas do oblívio;
bocados de canções que algum dia
te prenderam a uma coisa terrena;
o nome de duas ou três cidades
onde terias ficado um dia mais;
rostos que contigo se cruzaram
— puro assomo de beleza na noite —
sem deixarem sequer o leve tambor
dos seus dedos nas espáduas;
amigos em conversa com suas certezas
à mesa da solidão jornaleira;
amigos: perdidos em morte, indiferença,
cabalas de quem julgou que a poesia
podia ser a feira que lhes faz falta.
4
Autobiografia? Só a do efémero
ou do entardecer que dura
como único deslumbramento, fiel a ti
como gravata colorida, pura cenografia
sem palavras, carta do país das Hespérides
onde nunca ninguém foi nem espera de ti resposta.
Como se escreve a vida com pronomes trocados,
se tudo nela se recusa a ser uma história
urdida em encontros e aventuras,
país como Helvécia onde nada acontece,
a peça sem mudança de cena onde,
antes de se dar por isso, cai o pano
que o espectador, entre o cínico e o cénico,
duvida alguma vez ter sido içado.
2
Escrever a vida: tarefa odorífera
como a do homem que desenterra cadáveres
e os expõe para dissecação na mesa fria,
fétida cloaca onde não houve Brama
mais que o bramir das ondas,
nem aura que por ti subisse, helicoidal,
dias como serpentinas, céus como ovos de Páscoa,
transubstanciação em pleno dia,
fortuna em descendência colateral,
causas como Bilbau e Belfast,
violação e rapto para uma ilha deserta,
clímaces de ondas electromagnéticas
num qualquer hemisfério cerebral,
hipérbole (fora do poema),
nada que te olhe da altura de dois andares
na hierarquia dos teus dias;
só este sabor biliar que ascende à boca
de uma ferida ulcerada
no eixo transverso da alma.
3
Autobiografia do que se perdeu
como bagagem abandonada no passeio
e só a custo resgatas do oblívio;
bocados de canções que algum dia
te prenderam a uma coisa terrena;
o nome de duas ou três cidades
onde terias ficado um dia mais;
rostos que contigo se cruzaram
— puro assomo de beleza na noite —
sem deixarem sequer o leve tambor
dos seus dedos nas espáduas;
amigos em conversa com suas certezas
à mesa da solidão jornaleira;
amigos: perdidos em morte, indiferença,
cabalas de quem julgou que a poesia
podia ser a feira que lhes faz falta.
4
Autobiografia? Só a do efémero
ou do entardecer que dura
como único deslumbramento, fiel a ti
como gravata colorida, pura cenografia
sem palavras, carta do país das Hespérides
onde nunca ninguém foi nem espera de ti resposta.
646
António Carlos Cortez
A sombra
a sombra (o tigre de blake) a lira breve
a sombra horizonte da música
o revolver das mãos por dentro da pele
a voz na envolvente superfície do instante
a sombra no limite é o corpo a palavra
isto é o mármore da memória a fala
a cadeia de saliva em espessa floração
a sinuosa areia do deserto o sentido
perseguido na linha de sombra
a linha invisível a invasão antiga
a fonte grega a alegria súbita do êxtase
o poema é o rosto de alguém connosco
habitante como nós da imensa solidão
da sombra levada ao limite do signo
isto é do tecido rítmico
a sombra horizonte da música
o revolver das mãos por dentro da pele
a voz na envolvente superfície do instante
a sombra no limite é o corpo a palavra
isto é o mármore da memória a fala
a cadeia de saliva em espessa floração
a sinuosa areia do deserto o sentido
perseguido na linha de sombra
a linha invisível a invasão antiga
a fonte grega a alegria súbita do êxtase
o poema é o rosto de alguém connosco
habitante como nós da imensa solidão
da sombra levada ao limite do signo
isto é do tecido rítmico
792
António Carlos Cortez
Poética
Como pedra lançada ao mar da infância quando a mãe abria a porta de casa e trazia o vento e o gelo Mar agitado nos seus círculos pétreos Quem dera eu encontrasse a repercussão das formas antigas e perfeitas até ao ponto em que das margens avistasse o epicentro da dor e da alegria.
606
Hélia Correia
23.
A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.
1 210
Golgona Anghel
Antigamente os bisontes eram gente
Antigamente os bisontes eram gente
e namoravam as raparigas
mais bonitas da aldeia.
Os judeus tinham cauda e
os homens menstruavam duas vezes por mês.
Ninguém se queixava de nada.
Tudo tinha o seu lugar.
Líamos Tolstoi num Skoda,
Hölderlin num Trabant descapotável,
Joyce num Aston Martin,
Camões num UMM.
As grandes emoções
vinham de palavras longas:
australopitecos, jerusalamaleques,
extremaunçãoparaumapernadepau, etc.
Isto explica tanta coisa,
mas não vem nos livros de história.
A história faz apenas ecoar o passado.
Como um búzio.
O passado é o lugar onde os nossos ex
se juntam aos mamutes, à Céline Dion
e ao Windows XP.
e namoravam as raparigas
mais bonitas da aldeia.
Os judeus tinham cauda e
os homens menstruavam duas vezes por mês.
Ninguém se queixava de nada.
Tudo tinha o seu lugar.
Líamos Tolstoi num Skoda,
Hölderlin num Trabant descapotável,
Joyce num Aston Martin,
Camões num UMM.
As grandes emoções
vinham de palavras longas:
australopitecos, jerusalamaleques,
extremaunçãoparaumapernadepau, etc.
Isto explica tanta coisa,
mas não vem nos livros de história.
A história faz apenas ecoar o passado.
Como um búzio.
O passado é o lugar onde os nossos ex
se juntam aos mamutes, à Céline Dion
e ao Windows XP.
1 042
Luís Quintais
Ave
Uma ave agonizante
entrou-te no quarto,
apenas uma sombra
que se enlaça
noutra:
assim definiste
a memória,
a cidade
que se mineraliza
quando
rodeias
essa sombra-ave
com os dedos
apavorados.
entrou-te no quarto,
apenas uma sombra
que se enlaça
noutra:
assim definiste
a memória,
a cidade
que se mineraliza
quando
rodeias
essa sombra-ave
com os dedos
apavorados.
838
Golgona Anghel
Conheci o Sandy na esquina do talho
Conheci o Sandy na esquina do talho,
no Largo do Calvário,
Tinha o carro mal estacionado.
Estivemos depois juntos na China,
Durante a invasão japonesa;
e em França, no despontar da Segunda Guerra Mundial
No Vietname, habitámos a mesma galeria escura.
Passávamos a vida a classificar ruídos e
a medir com os pés
o crescimento do arroz.
Quando Boccacio desvia no Decameron
os sintomas da peste,
nós estávamos em Veneza a queimar em grandes piras
os tártaros abatidos pela doença.
Às vezes ouvem-se cães a ladrar,
às vezes é tarde e o tempo se torna circular,
a felicidade deixa então de fazer parte
do nosso sistema solar.
Mas o Sandy está calmo e ponderado.
Se não tivesse problemas de asma,
fumaria cachimbo.
Uma tarde, numa esplanada
Com vista para o passado que não passa,
no Jardim do Príncipe Real para ser mais exacto –
disse mantenham-se vivos,
façam isso por Michael Jackson.
no Largo do Calvário,
Tinha o carro mal estacionado.
Estivemos depois juntos na China,
Durante a invasão japonesa;
e em França, no despontar da Segunda Guerra Mundial
No Vietname, habitámos a mesma galeria escura.
Passávamos a vida a classificar ruídos e
a medir com os pés
o crescimento do arroz.
Quando Boccacio desvia no Decameron
os sintomas da peste,
nós estávamos em Veneza a queimar em grandes piras
os tártaros abatidos pela doença.
Às vezes ouvem-se cães a ladrar,
às vezes é tarde e o tempo se torna circular,
a felicidade deixa então de fazer parte
do nosso sistema solar.
Mas o Sandy está calmo e ponderado.
Se não tivesse problemas de asma,
fumaria cachimbo.
Uma tarde, numa esplanada
Com vista para o passado que não passa,
no Jardim do Príncipe Real para ser mais exacto –
disse mantenham-se vivos,
façam isso por Michael Jackson.
870
Golgona Anghel
Quando a paixão recuperar a vista
Quando a paixão recuperar a vista
o antigo caminho dos lobos,
a coruja e os seus monólogos,
partículas de sal,
ínfimos movimentos de sombras,
afastarão para sempre os nossos corpos.
Com ou sem licença para fazer obras,
o horizonte montará o seu palco de fim de contas.
Esta comédia de vésperas
que o cansaço tem mal encenado.
A vida será uma soma de mensagens erradas e
de músicas que não conseguimos ouvir até ao fim.
Lembrar-me-ás uma loja de souvenirs
com barcos engarrafados e colares de conchas.
Berloques e berlindes, lápis do México 86, porta-chaves da expo 98.
Enfim, demasiada poeira para tão curto caminho.
Entretanto, está sol e, olha,
parece que as cegonhas adiaram o voo para o sul.
Um pouco como eu, esquecem de ir embora.
As coisas solidificam para não mudarem de lugar.
o antigo caminho dos lobos,
a coruja e os seus monólogos,
partículas de sal,
ínfimos movimentos de sombras,
afastarão para sempre os nossos corpos.
Com ou sem licença para fazer obras,
o horizonte montará o seu palco de fim de contas.
Esta comédia de vésperas
que o cansaço tem mal encenado.
A vida será uma soma de mensagens erradas e
de músicas que não conseguimos ouvir até ao fim.
Lembrar-me-ás uma loja de souvenirs
com barcos engarrafados e colares de conchas.
Berloques e berlindes, lápis do México 86, porta-chaves da expo 98.
Enfim, demasiada poeira para tão curto caminho.
Entretanto, está sol e, olha,
parece que as cegonhas adiaram o voo para o sul.
Um pouco como eu, esquecem de ir embora.
As coisas solidificam para não mudarem de lugar.
961
Luís Quintais
O estrépito
I
O estrépito que o passado faz.
As palavras gritadas.
A terrível máquina de dizer
e calar.
Tudo gira no nada
e no nada se compraz.
Uma fúria ergue-se
no plasma.
Uma cidade é destruída.
Escuta os muros
que se abatem.
Desenha árvores,
o rápido deslizar de nuvens,
o desenho que a mão faz
quando teme agarrar o sentido,
e o sentido é escuro, escuro.
II
O dia acaba, e com ele
a incerta medida dos teus erros.
Uma lâmina de vento
inicia-se no escuro.
A noite apaga o teu zelo.
O vestígio do ontem
cruza o sítio da memória,
somente atenuado
por outras presenças.
III
O rio escurecia
e depois aclarava e depois escurecia.
As árvores gravitavam nas margens
da tua memória,
faziam correr estilos de morte e promessa.
As personagens do inscrevível
seriam afinal mais monstruosas
do que se suspeitara,
e os insectos emudeciam
enquanto o outono regurgitava as suas vítimas.
E tu, tu? E tu fazias abolir
o sentido para fazer eclodir de novo
o novo sentido. E tu procuravas entre despojos
um aro de bicicleta partido,
um casaco com bolsos que dessem para o improvável,
um qualquer outro achado preso à cega geometria
e à circunstância do procurar.
IV
Atravessas a ponte, lês o jornal, alheias-te
do rio, mas o rio sitia-te
com a sua música de eleição,
a que julgaste escutar,
apesar dos sinais de morte
te encadearem
com a sua luz extrema.
Terás tu ainda a certeza do começo
movendo-se no écran
do primitivo medo
de que não há limite,
fuga, consolo.
V
Animal afeiçoado à metamorfose e à fuga,
o rio muda de cor
e tu anotas o denso espelho
e imaginas a métrica
que o levará à foz.
O rio é o teu deserto
e a palavra
apenas palavra
com que o descreves
a tenda onde o provisório
vem habitar.
O estrépito que o passado faz.
As palavras gritadas.
A terrível máquina de dizer
e calar.
Tudo gira no nada
e no nada se compraz.
Uma fúria ergue-se
no plasma.
Uma cidade é destruída.
Escuta os muros
que se abatem.
Desenha árvores,
o rápido deslizar de nuvens,
o desenho que a mão faz
quando teme agarrar o sentido,
e o sentido é escuro, escuro.
II
O dia acaba, e com ele
a incerta medida dos teus erros.
Uma lâmina de vento
inicia-se no escuro.
A noite apaga o teu zelo.
O vestígio do ontem
cruza o sítio da memória,
somente atenuado
por outras presenças.
III
O rio escurecia
e depois aclarava e depois escurecia.
As árvores gravitavam nas margens
da tua memória,
faziam correr estilos de morte e promessa.
As personagens do inscrevível
seriam afinal mais monstruosas
do que se suspeitara,
e os insectos emudeciam
enquanto o outono regurgitava as suas vítimas.
E tu, tu? E tu fazias abolir
o sentido para fazer eclodir de novo
o novo sentido. E tu procuravas entre despojos
um aro de bicicleta partido,
um casaco com bolsos que dessem para o improvável,
um qualquer outro achado preso à cega geometria
e à circunstância do procurar.
IV
Atravessas a ponte, lês o jornal, alheias-te
do rio, mas o rio sitia-te
com a sua música de eleição,
a que julgaste escutar,
apesar dos sinais de morte
te encadearem
com a sua luz extrema.
Terás tu ainda a certeza do começo
movendo-se no écran
do primitivo medo
de que não há limite,
fuga, consolo.
V
Animal afeiçoado à metamorfose e à fuga,
o rio muda de cor
e tu anotas o denso espelho
e imaginas a métrica
que o levará à foz.
O rio é o teu deserto
e a palavra
apenas palavra
com que o descreves
a tenda onde o provisório
vem habitar.
784
Luís Quintais
Passos
Escutaste os passos
no quarto
semi-escurecido
pela tua derrota?
Não eram teus,
mas do que amaste:
os passos
do que esqueces.
no quarto
semi-escurecido
pela tua derrota?
Não eram teus,
mas do que amaste:
os passos
do que esqueces.
799
Nelly Sachs
Os Desaparecidos
a terra não os engoliu, foi o ar?
como a areia eles são numerosos, mas não em areia
se tornaram, sim em nada, em bandos
estão esquecidos. aos montes e de mãos dadas,
como os minutos, mais do que nós,
mas sem lembrança. não inventariados,
impossíveis de ler no pó, sim desaparecidos
estão os seus nomes, colheres e solas.
não nos dão pena. ninguém se pode
lembrar deles: nasceram,
fugiram, morreram? ninguém os achou
menos. sem falha
é o mundo, mas unido
por aquilo que ele não abriga,
pelos desaparecidos. estão por toda a parte.
sem os ausentes nada existiria.
sem os fugitivos nada era firme.
sem os imensuráveis nada mensurável.
sem os esquecidos nada seguro.
os desaparecidos são justos.
assim nos desvanecemos também.
como a areia eles são numerosos, mas não em areia
se tornaram, sim em nada, em bandos
estão esquecidos. aos montes e de mãos dadas,
como os minutos, mais do que nós,
mas sem lembrança. não inventariados,
impossíveis de ler no pó, sim desaparecidos
estão os seus nomes, colheres e solas.
não nos dão pena. ninguém se pode
lembrar deles: nasceram,
fugiram, morreram? ninguém os achou
menos. sem falha
é o mundo, mas unido
por aquilo que ele não abriga,
pelos desaparecidos. estão por toda a parte.
sem os ausentes nada existiria.
sem os fugitivos nada era firme.
sem os imensuráveis nada mensurável.
sem os esquecidos nada seguro.
os desaparecidos são justos.
assim nos desvanecemos também.
459
Giorgos Seferis
VI
O jardim com suas fontes na chuva
verás somente da janela baixa
de trás da vidraça embaçada. Teu quarto
será iluminado apenas pela chama da lareira
e por vezes, nos relâmpagos distantes aparecerão
as rugas de tua fronte, meu velho Amigo.
O jardim com as fontes que eram em tua mão
o ritmo de outra vida, fora dos mármores
quebrados e das colunas trágicas
e uma dança em meio aos oleandros
próximo às novas pedreiras,
um vidro opaco o terá cortado de tuas horas.
Não respirarás; a terra e a seiva das árvores
rebentarão da tua memória para bater
nessa vidraça onde bate a chuva
do mundo lá fora.
verás somente da janela baixa
de trás da vidraça embaçada. Teu quarto
será iluminado apenas pela chama da lareira
e por vezes, nos relâmpagos distantes aparecerão
as rugas de tua fronte, meu velho Amigo.
O jardim com as fontes que eram em tua mão
o ritmo de outra vida, fora dos mármores
quebrados e das colunas trágicas
e uma dança em meio aos oleandros
próximo às novas pedreiras,
um vidro opaco o terá cortado de tuas horas.
Não respirarás; a terra e a seiva das árvores
rebentarão da tua memória para bater
nessa vidraça onde bate a chuva
do mundo lá fora.
779
Armando Silva Carvalho
34
com mãos, olfacto, dentes, boca
que procuro o cheiro dos animais à mesa,
da roupa amarrotada duma antiga
posse viva e de criança,
da comida espessa na sua longa espera,
a mais reconfortante,
o rumor entontecido dos pássaros,
os amigos seguros, a ternura dos tios, a pancada cega,
sempre repetida,
e pelo amor da mãe desmoronada.
que procuro o cheiro dos animais à mesa,
da roupa amarrotada duma antiga
posse viva e de criança,
da comida espessa na sua longa espera,
a mais reconfortante,
o rumor entontecido dos pássaros,
os amigos seguros, a ternura dos tios, a pancada cega,
sempre repetida,
e pelo amor da mãe desmoronada.
1 169
Nelly Sachs
NESTA AMETISTA
Nesta ametista
estão sedimentadas as eras da noite
e uma prístina inteligência de luz
inflamou a amargura
ainda líquida
e chorou
Tua morte resplandece ainda
dura violeta
estão sedimentadas as eras da noite
e uma prístina inteligência de luz
inflamou a amargura
ainda líquida
e chorou
Tua morte resplandece ainda
dura violeta
783
Erik Axel Karlfeldt
ADEUS
Por que te ergues tão de súbito à minha frente,
ó bela imagem empalidecida?
Queres com um aceno trazer-me o consolo
na profundeza do outono
em que me enterrei e me perdi?
Uma vida humana separa
o ser e o ter sido.
Vim a saber que estavas mal
e corri à tua cabeceira,
mas recuei diante de tua palidez.
Estavas deitada, vestida para a viagem
e me saudaste alegremente: “Vês, inda estou viva;
chega-te para mim, não tenhas medo”.
Calmamente nos contemplamos e então me puxaste
a cabeça de encontro a teu regaço
e me deste o único beijo que trocamos,
rápido e ardente de febre.
Eu olhava a cruel primavera
que sorria à tua janela.
Alegre, como num dia habitual,
me deste o teu adeus,
e me disseste que sabias
que em breve morrerias.
E à medida que chegava a primavera
tua vida se fundia como a neve.
ó bela imagem empalidecida?
Queres com um aceno trazer-me o consolo
na profundeza do outono
em que me enterrei e me perdi?
Uma vida humana separa
o ser e o ter sido.
Vim a saber que estavas mal
e corri à tua cabeceira,
mas recuei diante de tua palidez.
Estavas deitada, vestida para a viagem
e me saudaste alegremente: “Vês, inda estou viva;
chega-te para mim, não tenhas medo”.
Calmamente nos contemplamos e então me puxaste
a cabeça de encontro a teu regaço
e me deste o único beijo que trocamos,
rápido e ardente de febre.
Eu olhava a cruel primavera
que sorria à tua janela.
Alegre, como num dia habitual,
me deste o teu adeus,
e me disseste que sabias
que em breve morrerias.
E à medida que chegava a primavera
tua vida se fundia como a neve.
823