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Poemas neste tema

Memórias e Lembranças

Joseph Brodsky

Joseph Brodsky

Odisseu a Telêmaco

Violante do Céu

Violante do Céu

Canção

Amante pensamento,
Núncio de amor, correio da vontade,
Emulação do vento,
Lisonja da mais triste soledade,
Ministro da lembrança,
Gosto na posse, alívio na esperança,
Já que de minhas queixas
A causa idolatrada vás seguindo,
Diz-lhe qual me deixas:
Diz-lhe que estou morta, mas sentindo,
Que pode mal tão forte
Fazer que sinta (ai triste!) a mesma morte.
Diz-lhe que é já tanto
O pesar de me ver tão dividida,
Que só me causa espanto
A sombra que me segue de üa vida
Tão morta para o gosto
Como via (ai de mi!) para o desgosto.
Diz-lhe que me mata
Quem, vendo-me morrer sem resistência,
De socorrer-me trata,
Pois para quem padece o mal de ausência
Que é só remédio entendo
Ver o que quer ou fenecer querendo.
Diz-lhe que a memória
Toma por instrumento do meu dano
A já passada glória,
Fazendo o mais suave tão tirano,
Que o bem mais estimado
Me passa o coração, porque é passado.
Diz-lhe que se sabe
O poder de üa ausência rigorosa,
Que a que começa acabe
Antes que ela me acabe poderosa,
Pois de tal modo a sinto,
Que julgo ter por eterno o mais sucinto.
Diz-lhe que se admite
Rogos de um coração que o segue amante,
Que ver-me solicite
Apesar do preciso e do distante,
E que tão cedo seja
Que toda a compaixão se torne inveja.
Diz-lhe que se acorde
De uns efeitos de amor que encarecia,
E que todos recorde,
Mas que seja um minuto cada dia,
Pois eu cada minuto
Infinitas lembranças lhe tributo.
Diz-lhe que até à morte
Assistência contínua lhe ofereces,
E que te invejo a sorte;
E enfim, se de meu mal te compadeces,
Ó pensamento amigo,
Diz-lhe tudo, ou leva-me contigo.
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Sei Shônagon

Sei Shônagon

Da primavera, o amanhecer

(1) Da primavera, o amanhecer. É quando palmo a palmo vão se definindo as esmaecidas linhas das montanhas e no céu arroxeado tremulam delicadas nuvens.
Do verão, a noite. Em especial, os tempos de luar, mas também as trevas, de vaga-lumes entrecruzando-se em profusão. Ou então, os solitários ou mesmo em pares que seguem com brilhos fugazes. A chuva também é igualmente bela.
Do outono, o entardecer. São os momentos do arrebol da tarde em que o sol se acha prestes a tocar as colinas, quando se tornam comoventes os corvos que se apressam para os ninhos em grupos de três ou quatro, ou dois e três, e o que diríamos então, ao avistarmos os minúsculos gansos selvagens seguindo em fila, que encantadores! O sol já posto, melancólico soa o ciciar do vento e o canto dos insetos.
Do inverno, o despertar. Indescritível é com a neve caindo e nele incluo a ofuscante brancura da geada. Mesmo na ausência destas, em manhãs de um frio cortante, o apressar das pessoas em acender o fogo e o corre-corre entre os aposentos com os carvões acesos são cenas típicas desta estação. O sol já nas alturas e o frio mais ameno, não nos cativa mais que a brasa já quase tornada cinzas no braseiro portátil.
(3) Coisas que são iguais embora soem diferentes. A fala do religioso. A fala do homem, a fala da mulher. Na fala dos medíocres sempre sobram palavras. O comedimento, sim, soa elegante.
(21) Mulheres que se satisfazem com uma felicidade singela e um futuro previsível e estável são deprimentes e desprezíveis. Acho, pois, que as jovens de boas famílias deveriam prestar serviço na Corte para alargar sua visão de mundo e acumular experiências como Vice-Chefe do Setor de Atendentes da Ala Feminina do Palácio Imperial. […]
(23) Coisas que deixamos de cumprir: a prática da abstinência religiosa, preparativos para compromissos num futuro distante, Reclusão prolongada no tempo.
(24) Coisas que são desdenhadas: muros danificados, pessoas conhecidas por seu coração bom demais.
(27) Coisas passadas que nos causam saudades. Flores ressequidas de malva. Ornamentos do Dia das Meninas.
Momentos em que nos deparamos com um retalho tingido de roxo-carmesim e roxo claro avermelhado prensado entre págians de uma brochura. Ou, em tedioso dia de chuva, encontrar cartas que outrora nos comoveram.
O leque do ano que passou.
(60) Para aqueles que deixam a casa da amada antes do amanhecer, parece desnecessário ter de ajeitar devidamente todos os trajes ou de atar firmemente o cordão do chapéu laqueado. Desleixados e desalinhados em trajes palacianos ou cotidianos, haveria quem deles zombasse ou criticasse quando com eles se deparassem? [...]
(66) Quanto a temas de poemas, a Capital. A planta trepadeira kuzu. A espadana d’água. O cavalo. O granizo.
(113) Quanto ao inverno, o bem frio. Quanto ao verão, o de calor sem igual.
(134) Coisas que são desprezadas. Pessoas feias e de mau caráter. Cola de arroz cozido e apodrecida. São coisas que todas as pessoas evitam, mas nem por isso vou deixar de registrá-las. Elas existem no mundo, como ainda a remanescente tenaz de bambu do cerimonial fúnebre. Esta brochura não foi escrita para as pessoas lerem e eu me propus a nela anotar inclusive as coisas estranhas e detestadas.
(154) Por estar de luto pelo falecimento do Conselheiro-Mor [...]
Preservar com cuidado os fatos passados é um gesto elegante. As mulheres não os esquecem, o que não se observa entre os homens, e é realmente muito divertido porque eles falham até na tentativa de rememorar seus próprios poemas. [...]
(160) Coisas distantes que parecem próximas. A Terra Pura. A travessia de um barco. A relação entre um homem e uma mulher.
(171) A casa de uma dama que vive sozinha apresenta-se bastante danificada: muro de terra batida por terminar, plantas aquáticas que invadem o lago e, embora o jardim ainda não esteja totalmente coberto de artemísias, podem-se ver as ervas daninhas verdes por entre as pedrinhas – uma imagem de tanta solidão chega a comover. É tão desinteressante quando nada há para ser consertado, com o portão bem trancado e tudo na mais devida ordem que nos enfastiamos muito.
(183) Em meio a uma tarde muito quente, pensava no que fazer para amenizá-la; o leque trazia-me apenas ares mornos e eu me deliciava molhando a mão na água com gelo, quando alguém me trouxe uma carta, em papel fino do mais puro vermelho, amarrada a um galho de cravina-chinesa em plena floração carmesim. Aquilo me fez sentir o cuidado profundo e a delicadeza que por mim nutria quem me escrevia em meio a tal calor e me levou a abandonar o leque que teimava em usar mesmo sem trazer alívio.
(188) Quanto a ventos [...]
Nada há de mais admirável e comovente do que a manhã seguinte ao tufão. [...]
(215) Ao atravessar o rio sob o intenso brilho do luar, é lindo ver as gotas d’água se espalhando como cristais a se fragmentar à medida que os bois caminham.
(232) Quanto ao que cai, a neve. O granizo. A neve chuvosa é detestável, mas é encantadora a brancura que se destaca quando cai. É maravilhosa a neve sobre o telhado de casca de cipreste, sobretudo quando está para derreter um pouco. É também verdadeiramente fascinante quando a neve, ainda pouca, se acumula no telhado plano e o sombreado de seu contorno faz ver formas curvas.
A chuva fina e intermitente de outono e o granizo sobre o telhado de tábuas. Também a geada sobre o telhado de tábuas. Ou no jardim.
(241) Coisas que simplesmente passam e... passam. O barco à vela. A idade das pessoas. A primavera, o verão, o outono, o inverno.
(252) Nas faces humanas, uma parte especialmente bonita é sempre digna de apreciação e admiração, por mais que a contemplemos. As pinturas, por exemplo, não mais atraem os olhos quando vistas com frequência. As pinturas de biombos que estão sempre ao lado, também, apesar de bastante apreciáveis, não mais nos prendem os olhos. As fisionomias, por sua vez, exercem uma atração intrigante.
Mesmo os objetos frios sempre têm uma parte bonita que chama a atenção. É uma pena que, do mesmo modo, também nos chama a atenção uma parte feia.
(285) Coisas que incitam à imitação. Bocejo. Criancinhas.
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Gonzalo Rojas

Gonzalo Rojas

A lepra

Ainda lembro a minha aula de Retórica.
Cerimônia do Juízo Final. Um grande silêncio
até que o Professor irrompia: “Sentem-se”.
“Trago-lhes carne fresca”. E esvaziava um pacote
de algo mole e viscoso
envolto em jornais velhos como um peixe cru
sobre a mesa em que celebrava sua missa.

“Capítulo Primeiro”. “O estilo do homem
corresponde a um defeito em sua língua”. E mostrava
uma língua comida por moscas de ataúde
para ilustrar sua tese com a luz do exemplo.
“Olhem: a língua inglesa não é a língua espanhola”.
“Aqui tenho a língua de Cervantes. Sua forma
de espada não coincide com o eco do paladar”. O Professor falava
de condições, traços, influências,
metáforas, estrofes. E cada afirmação
era provada pela Crítica.

Ora, os pontos de vista da Crítica
– pobres vasilhas vazias –
eram toda essa carne palpitante
saqueada dos mais diferentes cemitérios:
línguas, dentes, narizes, pulmões, ventres, mãos,
que um dia foram órgãos dos grandes autores,
hoje, tumores malignos servidos em bandejas
por professores-asnos a discípulos-asnos
dentro de uma sala-esgoto.

Garotos e garotas extasiados
copiavam em “papéis” todas as proporções
de uma obra-prima: as leis da lírica,
da épica e do dramática, causas e conseqüências,
a decadência, o desenvolver
das literaturas.

Ante tal entusiasmo,
o cheiro dos restos dos grandes autores
mesclava-se ao cheiro desses belos defuntos
sentados na cadeira do seu próprio excremento,
e a corrente de ar era uma imundície só,
enquanto a admiração chegava ao descomedido
quando esse Professor: “Se aprenderem – dizia-nos –
os requisitos da criação,
serão fortes rivais de Goethe. E superiores.”
E encerrava sua aula.
Guardava todos os despojos nojentos
em seu pacote e, com a cabeça erguida,
coroado com louros pelo bom êxito,
virava-nos as costas como um Deus do Olimpo
que regressa à sua concha.

Ainda recordo minha aula de Retórica
em que a vida e a beleza
eram um prato de carne podre.
Tive que cortar a língua na raiz
para livrar-me da lepra.


(tradução de Fabiano Calixto, publicada originalmente no primeiro número impresso da Modo de Usar & Co., novembro de 2007.)


:


LA LEPRA: Todavía recuerdo mi clase de Retórica. / Ceremonia del Juicio Final. Un gran silencio / hasta que el Profesor irrumpía: “Sentaos”. / “Os traigo carne fresca”. Y vaciaba un paquete / de algo blando y viscoso / envuelto en diarios viejos como un pescado crudo, / sobre la mesa en que él oficiaba su misa. // “Capítulo Primero”. / “El estilo del hombre / corresponde a un defecto de su lengua”. Y mostraba / una lengua comida por moscas de ataúd / para ilustrar su tesis con la luz del ejemplo. // “Mirad: la lengua inglesa no es la lengua española” / “Aquí tengo la lengua de Cervantes. Su forma / de espada no coincide con el hueco del paladar”. El Profesor hablaba / de condiciones, rasgos, influencias, / metáforas, estrofas. Y cada afirmación / era probada por la Crítica // Ahora bien, los puntos de vistas de la Crítica / – pobres cuencas vacías – / eran toda esa carne palpitante / saqueada a los distintos cementerios: / lenguas, dientes, narices, pulmones, vientres, manos / que un día fueron órganos de los grandes autores, / hoy tumores malignos servidos en bandejas / por profesores-asnos a discípulos-asnos / adentro de una sala-alcantarilla. // Donceles y doncellas extasiados / copiaban en “papeles” todas las proporciones / de una obra maestra: las leyes de la lírica / la épica u dramática, causas y consecuencias, / la decadencia, el desarrollo / de las literaturas. // Ante tal entusiasmo, / el olor de los restos de los grandes autores / se mezclaba al olor de esos bellos difuntos / sentados en la silla de su propio excremento, / y una sola corriente de inmundicia era el aire, / mientras la admiración llegaba a al desenfreno / cuando ese Profesor: “Si aprendéis – nos decía – / los requisitos de la creación, / seréis fieros rivales de Goethe, y superiores.” // Y cerraba su clase. / Guardaba todos los despojos nauseabundos / en su paquete, y con la frente en alto, / coronado en laurel por su buen éxito / nos volvía la espalda como un Dios del Olimpo / que regresa a su concha. // Todavía recuerdo mi clase de Retórica / en que la vida y la belleza / eran un plato de carne podrida. // Yo tuve que cortarme la lengua en la raíz / para librarme de la lepra.


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