Poemas neste tema
Passado e Futuro
José Castello
Flora Süssekind analisa críticos e autores
Para ela, as avaliações da produção cultural carecem de perspectiva histórica.
Nem tudo está perdido na crítica literária brasileira. Quem desejar um pouco de esperança deve ler, logo, os vigorosos ensaios da carioca Flora Süssekind, uma das mais brilhantes críticasde literatura da nova geração. Flora é uma intelectual incansável. No ano passado, publicou pela editora Sette Letras o ensaio Até Segunda Ordem Não Me Risque Nada, sobre os cadernos, os rascunhos e a poesia de Ana Cristina César.
Trabalhou também, com o rigor de sempre, na preparação da reedição das Memórias do Sobrinho de Meu Tio, de Joaquim Manuel de Macedo, editada pela Companhia das Letras, que faz parte de um amplo projeto de pesquisa sobre a época romântica brasileira. Flora retornou, também, à militância literária na imprensa, ao se tornar comentarista de livros do suplemento Idéias, do Jornal do Brasil. Concluiu, por fim, um livro de ensaios sobre o romantismo brasileiro, que tem o título provisório de Cenas de Fundação e, ainda sem editora definida, pretende publicá-lo ao longo deste ano.
as a agenda de Flora já está cheia até o final de 1996. Para começar, seu ensaio O Cinematógrafo de Letras, publicado em 1987 pela Companhia das Letras, está sendo traduzido para o inglês e tem edição programada para este ano pela Universidade de Stanford, EUA. Em abril, ela deve ser uma das conferencistas, em solenidade na Universidade de Berkeley, na alifórnia, de uma importante homenagem ao professor e crítico paulista Antonio Candido.
Como pesquisadora contratada do setor de filologia da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, Flora Süssekind está preparando, em parceria com Júlio Castañon Guimarães, a reedição dos Romances da Semana, do mesmo Macedo. Flora é, apesar de prestígio intelectual precoce e da vida acadêmica agitada, uma mulher serena e tímida, que seleciona os amigos com muito rigor e odeia o excesso de exposição. "Gosto mesmo é daquela mesa no setor de filologia na Casa de Rui, do chá de jasmim com o Júlio, de ler todos os jornais possíveis, para falar mal ou bem com três ou quatro pessoas", diz. "Não preciso de muito mais que isso."
Flora Süssekind é uma pesquisadora de posições sempre substantivas, baseadas em amplo lastro cultural e em uma preocupação extrema com o rigor. Por isso vale sempre a pena ouvi-la. Nessa entrevista, ela nos fala do jornalismo cultural brasileiro, da produção literária contemporânea e sobre o destino de nossa crítica, que ela representa com tanto vigor.
Estado - Que avaliação você faz do jornalismo cultural brasileiro de hoje?
Flora Süssekind - Não só nas seções dedicadas a livros e espetáculos, mas nos jornais brasileiros como um todo, o gênero dominante hoje é a coluna social. É um gênero modelar em todas as áreas, diferenciando-se apenas os personagens e os temas enfocados. Essa situação vem se anunciando desde o período militar, quando as colunas ganharam força como lugares em que se plantavam, anonimamente, notas e em que "informantes", como os de polícia, se tornaram muitas vezes mais importantes que os repórteres. Não é à toa que, nos anos 70, essas seções serviram, muitas vezes, de porta-vozes oficiosos para os meios militares. Sua popularização se associa, também, a uma preocupante ligação da atividade jornalística ao marketing e a um evidente empobrecimento cultural das classes médias, um público consumidor, mas não leitor, porque é incapaz de se concentrar em textos mais longos ou mais analíticos. A diagramação, por vezes, até mesmo transforma os segundos cadernos em simples extensões das colunas sociais, em geral asmesmas de jornal para jornal, e com fotos apenas ilustrativas. O mais grave é que só o que parece passível de venda imediata, de marketing, se torna noticiável. A cultura é vista como objeto de divulgação, não de reflexão. Daí não ser de estranhar a rarefação, talvez mesmo a impossibilidade, de algo sequer próximo da crítica cultural.
Estado - E o que se entende aí por cultura?
Flora - Os melhores suplementos culturais da imprensa brasileira - o Suplemento Dominical, do Jornal do Brasil, o Cultura, do Estado, nos anos 50, e o Folhetim, da Folha de S. Paulo, na virada dos anos 70 - tinham uma visão globalizante da produção cultural, procuravam colocar em relação articulistas de áreas diferentes e atividades culturais diversas. Isso é o contrário do que se vê hoje, com um dia para os discos, outro para o cinema, outro para livros, cada coisa numa prateleira própria, intransitiva. Outro dado curioso é que só o que está para ser lançado ou em cartaz pode ser tematizado. Ou então, o que acaba de morrer, fazer cem anos, ou coisa assim. Não se enxerga sequer o passado recente. Daí ser impossível comparar, detectar tendências ou reviravoltas. Tudo é ou boom ou crise. Sem perspectiva histórica não se consegue enxergar o que realmente singulariza o presente. Nesse sentido, seria fundamental reler uma seção como a Poesia Experiência, do Mário Faustino, nos anos 50. Com seu interesse simultneo em reavaliar a tradição literária e comprender a contemporaneidade, em meio a uma diagramação fantástica, fragmentária, sem hierarquizações na página, multiplicando a perspectiva de leitura.
Estado - Por que os críticos literários brasileiros, hoje, evitam um confronto direto com a produção contemporânea? Não são eles, em certa medida, responsáveis pela crise do jornalismo literário e pela separação entre crítica e leitor?
Flora - É, de fato, dificílima a análise do que nos é contemporâneo. Somos todos, artistas e críticos, parte de um mesmo período de tempo, convivemos com as tensões que o compõem e respondemos a elas sem que se possa prever o que resultará dessas respostas. Um grande crítico, no entanto, se define pela capacidade de compreensão do seu tempo. Lembre-se, nesse sentido, a avaliação do surrealismo, ou do trabalho de Brecht, por Walter Benjamin. Lembre-se a importância da leitura de Antonio Candido de seus contemporâneos João Cabral, Graciliano Ramos ou do memorialismo de Pedro Nava. Ou a crítica, via carta, da poesia de Drummond por Mário de Andrade. Ou a compreensão, de cara, por Augusto de Campos, da importância de Caetano Veloso, ou por Haroldo de Campos, do trabalho de Gerald Thomas.
Estado - O refúgio na universidade não significa uma opção pela torre de marfim? Por que a dificuldade da crítica em assinar avaliações objetivas, dizer com clareza "isso é bom", ou "não é bom"?
Flora - Às vezes o diálogo com o contemporâneo não é assim tão direto. E é por meio da análise de um outro período que se fala do próprio tempo. Um pouco como fez Paulo Leminski em Catatau, ao tratar do exílio interno por meio da figura de Descartes perdido no Brasil holandês, ou Silviano Santiago no romance Em Liberdade, tematizando Cláudio Manuel da Costa e Graciliano Ramos, mas também, indiretamente, o Brasil do período da distensão política. Ou, pensando em termos de crítica literária, quando Antonio Candido escreveu sobre Sílvio Romero, por exemplo, estava também redefinindo, para sua geração, o exercício da crítica literária. Quando Luís Costa Lima estuda a "mimesis", parece repensar igualmente os critérios de avaliação estética numa cultura dependente como a latino-americana. Quando Roberto Schwarz estuda o século 19, também procura dialogar com a prosa brasileira atual e direcioná-la para um realismo crítico como o que define no final do seu segundo livro sobre Machado de Assis. Silviano Santiago, uando estuda Mário de Andrade, parece procurar definir também o próprio perfil intelectual. E Walnice Nogueira Galvão, em No Calor da Hora, empreende não só um estudo sobre Canudos, mas uma genealogia da notícia, das exclusões, do processo contraditório de construção de um acontecimento, fundamental para a discussão da escrita histórica no Brasil.
Estado - O que define a literatura brasileira dos anos 90?
Flora - Um aspecto que me parece marcar a literatura bra
Nem tudo está perdido na crítica literária brasileira. Quem desejar um pouco de esperança deve ler, logo, os vigorosos ensaios da carioca Flora Süssekind, uma das mais brilhantes críticasde literatura da nova geração. Flora é uma intelectual incansável. No ano passado, publicou pela editora Sette Letras o ensaio Até Segunda Ordem Não Me Risque Nada, sobre os cadernos, os rascunhos e a poesia de Ana Cristina César.
Trabalhou também, com o rigor de sempre, na preparação da reedição das Memórias do Sobrinho de Meu Tio, de Joaquim Manuel de Macedo, editada pela Companhia das Letras, que faz parte de um amplo projeto de pesquisa sobre a época romântica brasileira. Flora retornou, também, à militância literária na imprensa, ao se tornar comentarista de livros do suplemento Idéias, do Jornal do Brasil. Concluiu, por fim, um livro de ensaios sobre o romantismo brasileiro, que tem o título provisório de Cenas de Fundação e, ainda sem editora definida, pretende publicá-lo ao longo deste ano.
as a agenda de Flora já está cheia até o final de 1996. Para começar, seu ensaio O Cinematógrafo de Letras, publicado em 1987 pela Companhia das Letras, está sendo traduzido para o inglês e tem edição programada para este ano pela Universidade de Stanford, EUA. Em abril, ela deve ser uma das conferencistas, em solenidade na Universidade de Berkeley, na alifórnia, de uma importante homenagem ao professor e crítico paulista Antonio Candido.
Como pesquisadora contratada do setor de filologia da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, Flora Süssekind está preparando, em parceria com Júlio Castañon Guimarães, a reedição dos Romances da Semana, do mesmo Macedo. Flora é, apesar de prestígio intelectual precoce e da vida acadêmica agitada, uma mulher serena e tímida, que seleciona os amigos com muito rigor e odeia o excesso de exposição. "Gosto mesmo é daquela mesa no setor de filologia na Casa de Rui, do chá de jasmim com o Júlio, de ler todos os jornais possíveis, para falar mal ou bem com três ou quatro pessoas", diz. "Não preciso de muito mais que isso."
Flora Süssekind é uma pesquisadora de posições sempre substantivas, baseadas em amplo lastro cultural e em uma preocupação extrema com o rigor. Por isso vale sempre a pena ouvi-la. Nessa entrevista, ela nos fala do jornalismo cultural brasileiro, da produção literária contemporânea e sobre o destino de nossa crítica, que ela representa com tanto vigor.
Estado - Que avaliação você faz do jornalismo cultural brasileiro de hoje?
Flora Süssekind - Não só nas seções dedicadas a livros e espetáculos, mas nos jornais brasileiros como um todo, o gênero dominante hoje é a coluna social. É um gênero modelar em todas as áreas, diferenciando-se apenas os personagens e os temas enfocados. Essa situação vem se anunciando desde o período militar, quando as colunas ganharam força como lugares em que se plantavam, anonimamente, notas e em que "informantes", como os de polícia, se tornaram muitas vezes mais importantes que os repórteres. Não é à toa que, nos anos 70, essas seções serviram, muitas vezes, de porta-vozes oficiosos para os meios militares. Sua popularização se associa, também, a uma preocupante ligação da atividade jornalística ao marketing e a um evidente empobrecimento cultural das classes médias, um público consumidor, mas não leitor, porque é incapaz de se concentrar em textos mais longos ou mais analíticos. A diagramação, por vezes, até mesmo transforma os segundos cadernos em simples extensões das colunas sociais, em geral asmesmas de jornal para jornal, e com fotos apenas ilustrativas. O mais grave é que só o que parece passível de venda imediata, de marketing, se torna noticiável. A cultura é vista como objeto de divulgação, não de reflexão. Daí não ser de estranhar a rarefação, talvez mesmo a impossibilidade, de algo sequer próximo da crítica cultural.
Estado - E o que se entende aí por cultura?
Flora - Os melhores suplementos culturais da imprensa brasileira - o Suplemento Dominical, do Jornal do Brasil, o Cultura, do Estado, nos anos 50, e o Folhetim, da Folha de S. Paulo, na virada dos anos 70 - tinham uma visão globalizante da produção cultural, procuravam colocar em relação articulistas de áreas diferentes e atividades culturais diversas. Isso é o contrário do que se vê hoje, com um dia para os discos, outro para o cinema, outro para livros, cada coisa numa prateleira própria, intransitiva. Outro dado curioso é que só o que está para ser lançado ou em cartaz pode ser tematizado. Ou então, o que acaba de morrer, fazer cem anos, ou coisa assim. Não se enxerga sequer o passado recente. Daí ser impossível comparar, detectar tendências ou reviravoltas. Tudo é ou boom ou crise. Sem perspectiva histórica não se consegue enxergar o que realmente singulariza o presente. Nesse sentido, seria fundamental reler uma seção como a Poesia Experiência, do Mário Faustino, nos anos 50. Com seu interesse simultneo em reavaliar a tradição literária e comprender a contemporaneidade, em meio a uma diagramação fantástica, fragmentária, sem hierarquizações na página, multiplicando a perspectiva de leitura.
Estado - Por que os críticos literários brasileiros, hoje, evitam um confronto direto com a produção contemporânea? Não são eles, em certa medida, responsáveis pela crise do jornalismo literário e pela separação entre crítica e leitor?
Flora - É, de fato, dificílima a análise do que nos é contemporâneo. Somos todos, artistas e críticos, parte de um mesmo período de tempo, convivemos com as tensões que o compõem e respondemos a elas sem que se possa prever o que resultará dessas respostas. Um grande crítico, no entanto, se define pela capacidade de compreensão do seu tempo. Lembre-se, nesse sentido, a avaliação do surrealismo, ou do trabalho de Brecht, por Walter Benjamin. Lembre-se a importância da leitura de Antonio Candido de seus contemporâneos João Cabral, Graciliano Ramos ou do memorialismo de Pedro Nava. Ou a crítica, via carta, da poesia de Drummond por Mário de Andrade. Ou a compreensão, de cara, por Augusto de Campos, da importância de Caetano Veloso, ou por Haroldo de Campos, do trabalho de Gerald Thomas.
Estado - O refúgio na universidade não significa uma opção pela torre de marfim? Por que a dificuldade da crítica em assinar avaliações objetivas, dizer com clareza "isso é bom", ou "não é bom"?
Flora - Às vezes o diálogo com o contemporâneo não é assim tão direto. E é por meio da análise de um outro período que se fala do próprio tempo. Um pouco como fez Paulo Leminski em Catatau, ao tratar do exílio interno por meio da figura de Descartes perdido no Brasil holandês, ou Silviano Santiago no romance Em Liberdade, tematizando Cláudio Manuel da Costa e Graciliano Ramos, mas também, indiretamente, o Brasil do período da distensão política. Ou, pensando em termos de crítica literária, quando Antonio Candido escreveu sobre Sílvio Romero, por exemplo, estava também redefinindo, para sua geração, o exercício da crítica literária. Quando Luís Costa Lima estuda a "mimesis", parece repensar igualmente os critérios de avaliação estética numa cultura dependente como a latino-americana. Quando Roberto Schwarz estuda o século 19, também procura dialogar com a prosa brasileira atual e direcioná-la para um realismo crítico como o que define no final do seu segundo livro sobre Machado de Assis. Silviano Santiago, uando estuda Mário de Andrade, parece procurar definir também o próprio perfil intelectual. E Walnice Nogueira Galvão, em No Calor da Hora, empreende não só um estudo sobre Canudos, mas uma genealogia da notícia, das exclusões, do processo contraditório de construção de um acontecimento, fundamental para a discussão da escrita histórica no Brasil.
Estado - O que define a literatura brasileira dos anos 90?
Flora - Um aspecto que me parece marcar a literatura bra
1 521
Carlos Nóbrega
Os relógios
1 galo que é feito de sol
canta sua canção de sangue
canta com sua voz de sonho,
com seu olho de cor e sal
para as sombras que estão por vir
canta sua canção de sangue
canta com sua voz de sonho,
com seu olho de cor e sal
para as sombras que estão por vir
941
Beatriz Alcântara
Réveillon
A noite feita de copos
encontrou-a virgem pura
distribuindo uvas
gritando imprudente:
— Feliz Ano Novo!
Depois desejou uma nuvem
caminhou na esteira da lua
ouviu o canto da pedra
bebeu o hálito do orvalho
chorou o anil do branco
e ao desprender-se da janela
contraiu núpcias com o ano que findou.
encontrou-a virgem pura
distribuindo uvas
gritando imprudente:
— Feliz Ano Novo!
Depois desejou uma nuvem
caminhou na esteira da lua
ouviu o canto da pedra
bebeu o hálito do orvalho
chorou o anil do branco
e ao desprender-se da janela
contraiu núpcias com o ano que findou.
981
Américo Pellegrini Filho
Haicai
Tão grande árvore
da semente pequenininha
— uma árvore!
Início do ano
futuro que chegou.
Preparado estou?
da semente pequenininha
— uma árvore!
Início do ano
futuro que chegou.
Preparado estou?
1 310
António Arnaut
Os Títulos
Rei de Portugal e dos Algarves
e o resto que o mar te deu.
Agora tens o aquém
Porque o além se perdeu.
Agora tens o que é teu!
e o resto que o mar te deu.
Agora tens o aquém
Porque o além se perdeu.
Agora tens o que é teu!
1 291
Anderson Braga Horta
Poeminha Súbito
Mas que sabemos nós de toda essência?
Do beijo que se foi fica um perfume;
do que não foi, também.
O beijo estava em nós antes do beijo!
Somos o que já éramos? Terrível
o futuro.
Do beijo que se foi fica um perfume;
do que não foi, também.
O beijo estava em nós antes do beijo!
Somos o que já éramos? Terrível
o futuro.
1 268
Antonio Roberval Miketen
For Simone
These hands of yours,
tiny little hands,
seaweeds in the silence,
bathed in light:
to what encounter,
tell me, daughter of mine,
to what fate
the fountain leads them?
tiny little hands,
seaweeds in the silence,
bathed in light:
to what encounter,
tell me, daughter of mine,
to what fate
the fountain leads them?
970
Antonio Roberval Miketen
A Simone
Essas mãos que tens,
pequeninas mãos,
algas no silêncio,
lavadas de luz:
para que encontro,
diz-me, filha minha,
para que destino,
a fonte as conduz?
pequeninas mãos,
algas no silêncio,
lavadas de luz:
para que encontro,
diz-me, filha minha,
para que destino,
a fonte as conduz?
803
André Ricardo Aguiar
Futuro
hão de vir
os indenominados
em uma seta ina-
cabada
Narciso será julgado
com mais freqüência
com asas fartas de temor
a cadência virá primeiro
os passos raros no coração
ninguém sabe este tempo
o sonhar do pêndulo
os indenominados
em uma seta ina-
cabada
Narciso será julgado
com mais freqüência
com asas fartas de temor
a cadência virá primeiro
os passos raros no coração
ninguém sabe este tempo
o sonhar do pêndulo
915
Augusto de Campos
Canudos-Iduméia
"Je tapporte lenfant dune nuit dIdumé." Mallarmé
Era uma evocação.
Como se a terra se ataviasse em dados trechos
para idênticos dramas,
tinha-se, ali, o que quer que era
recordando um recanto de Iduméia,
na paragem lendária que perlonga as
ribas meridionais do Asfaltite,
esterilizada para todo o sempre
Era uma evocação.
Como se a terra se ataviasse em dados trechos
para idênticos dramas,
tinha-se, ali, o que quer que era
recordando um recanto de Iduméia,
na paragem lendária que perlonga as
ribas meridionais do Asfaltite,
esterilizada para todo o sempre
1 158
Anna Akhmatova
Sombra
Que sabe
certa mulher
Sobre a hora a morte?
O.Mandelstam
Sempre mais
elegante, mais rosada, mais alta que todas,
Para que vens ao de cima do fundo dos anos tombados
E a memória rapace diante de mim faz tremular
O teu perfil transparente por trás dos vidros do coche?
Como se discutia nessa altura - tu, anjo ou pássaro!
Uma pequena palha te chamou o poeta.
Para todos por igual através das negras pestanas
Dos olhos em abismo fluía a terna luz.
Oh sombra! Perdoa-me mas o tempo claro,
Flaubert, a insónia e os lilases tardios
De ti - bela de 1913 -
E do teu dia indiferente e sem nuvens
Me fizeram lembrar... Mas tais recordações
A mim não me ficam bem. Oh sombra!
9 de Agosto de 1940. De noite.
certa mulher
Sobre a hora a morte?
O.Mandelstam
Sempre mais
elegante, mais rosada, mais alta que todas,
Para que vens ao de cima do fundo dos anos tombados
E a memória rapace diante de mim faz tremular
O teu perfil transparente por trás dos vidros do coche?
Como se discutia nessa altura - tu, anjo ou pássaro!
Uma pequena palha te chamou o poeta.
Para todos por igual através das negras pestanas
Dos olhos em abismo fluía a terna luz.
Oh sombra! Perdoa-me mas o tempo claro,
Flaubert, a insónia e os lilases tardios
De ti - bela de 1913 -
E do teu dia indiferente e sem nuvens
Me fizeram lembrar... Mas tais recordações
A mim não me ficam bem. Oh sombra!
9 de Agosto de 1940. De noite.
2 475
Luís Miguel Nava
Um Prego
Cravava cuidadosamente um prego na parede, quando pressentiu que, como água dum cano que se rompesse, o futuro poderia jorrar de súbito na cal, uma substância na aparência cristalina mas em cujo seio as formas do presente se diluiriam todas, como se, com os seus contornos, igualmente se perdesse o seu sentido, e um sol se deslocasse, por pouco que fosse, do presente para o futuro, se esvaziasse então no céu, deixando atrás de si uma cicatriz imensa.
1 752
João Marcio Furtado Costa
Num Segundo, O Milênio
Num Segundo, O Milênio
(05/93)
Ao fim daquele segundo, nada se resolveu no mundo.
Por mais importante que fosse, daquele segundo, o fruto,
Seu maior feito, seu intuito, foi de encerrar o minuto.
Mas, também, o minuto, nada mudou de concreto, pois,
Por mais que fosse certo, por mais tempo que desse ao agora,
Nada mais de útil fizera, do que a troca da hora.
E a hora foi embora, radiante de alegria,
Na dicotomia da noite, terminara mais um dia.
Não fora um dia qualquer, aquele 31 de dezembro.
Nem maior, nem menor, nem mais claro ou mais escuro.
Tampouco foi mais puro. Porém, e sem engano,
Ao seu final foi-se o ano, e deu as caras, o futuro.
Foi-se o segundo, o minuto. Foi-se a hora e, junto, o ano,
E o tempo, que é cigano, resolveu baixar o pano,
E encerrar, de vez, o século.
Foste o vigésimo e terminaste. Nada em ti foi respeitado.
Aquele segundo arrogante, agindo qual meliante,
Roubou de ti o legado.
Ficou a melancolia. Alvíssaras ao novo século.
A vida ficou vazia. Alvíssaras ao vinte e um.
De mil passarás e a dois mil não chegarás!
Um por todos e todos por um.
De dois mil passarás e a três mil, quem saberá?
Chegaremos a lugar algum?
O tempo avança: Segundo, hora, milênio...
O mundo cansa: Urânio, ouro, oxigênio...
Elemento ou tempo? Tempo ou elemento?
O que mais importa no momento?
O que poderá nos salvar?
(05/93)
Ao fim daquele segundo, nada se resolveu no mundo.
Por mais importante que fosse, daquele segundo, o fruto,
Seu maior feito, seu intuito, foi de encerrar o minuto.
Mas, também, o minuto, nada mudou de concreto, pois,
Por mais que fosse certo, por mais tempo que desse ao agora,
Nada mais de útil fizera, do que a troca da hora.
E a hora foi embora, radiante de alegria,
Na dicotomia da noite, terminara mais um dia.
Não fora um dia qualquer, aquele 31 de dezembro.
Nem maior, nem menor, nem mais claro ou mais escuro.
Tampouco foi mais puro. Porém, e sem engano,
Ao seu final foi-se o ano, e deu as caras, o futuro.
Foi-se o segundo, o minuto. Foi-se a hora e, junto, o ano,
E o tempo, que é cigano, resolveu baixar o pano,
E encerrar, de vez, o século.
Foste o vigésimo e terminaste. Nada em ti foi respeitado.
Aquele segundo arrogante, agindo qual meliante,
Roubou de ti o legado.
Ficou a melancolia. Alvíssaras ao novo século.
A vida ficou vazia. Alvíssaras ao vinte e um.
De mil passarás e a dois mil não chegarás!
Um por todos e todos por um.
De dois mil passarás e a três mil, quem saberá?
Chegaremos a lugar algum?
O tempo avança: Segundo, hora, milênio...
O mundo cansa: Urânio, ouro, oxigênio...
Elemento ou tempo? Tempo ou elemento?
O que mais importa no momento?
O que poderá nos salvar?
754
Gilson Nascimento
Terceiro soneto aos invernos de outrora
Caminho que se perde no distante
Passado que eu supus haver morrido
Mas que surge, eu o sinto nesse instante
Dos pingos dessa chuva ressurgido
Cantar de chuva me comove, sim
Porque mergulha nalma sem demora
É cantiga - saudade, não tem fim
É sempre um despertar do meu outrora
Eu te bendigo, chuva boa, amiga
Minha emoção me roga que te diga
Um presente trouxeste – o meu passado
E ao te sentir de leve o abrandar
Vejo o HOJE de mim se aproximar
E do meu lume o sonho é apagado
Passado que eu supus haver morrido
Mas que surge, eu o sinto nesse instante
Dos pingos dessa chuva ressurgido
Cantar de chuva me comove, sim
Porque mergulha nalma sem demora
É cantiga - saudade, não tem fim
É sempre um despertar do meu outrora
Eu te bendigo, chuva boa, amiga
Minha emoção me roga que te diga
Um presente trouxeste – o meu passado
E ao te sentir de leve o abrandar
Vejo o HOJE de mim se aproximar
E do meu lume o sonho é apagado
877
Carlos Figueiredo
Chega a ser confortável a vida daqueles habitantes
Chega a ser confortável a vida daqueles habitantes
que vivem ao longo da Estrada de Ferro Transvesuviana,
que leva às ruínas de Pompéia e que contemplam
do alpendre, nas janelas, entre as venezianas
a cratera
no vértice rombo da montanha hiante.
O que nos resta é menos.
A esperança da dúvida.
Jamais saberemos por que o que existe existe.
A História é prima da histería.
Nota do poema "Chega a ser confortável ..."
Sétimo verso : "Rombo". Vale registrar, cf Silveira Bueno in " Grande Dicionário Etimológico e Prodódico da Língua Portuguesa", Vol. 7 2a. Tiragem, Ed. Saraiva, 1968, P.3751, o seguinte:
"Entre os mágicos da antiguidade, o rombo era um fuso de bronze, com que faziam encantamentos, prediziam o futuro, etc... O Gr. Rhombas da raiz rhombein, fazer gritar".
que vivem ao longo da Estrada de Ferro Transvesuviana,
que leva às ruínas de Pompéia e que contemplam
do alpendre, nas janelas, entre as venezianas
a cratera
no vértice rombo da montanha hiante.
O que nos resta é menos.
A esperança da dúvida.
Jamais saberemos por que o que existe existe.
A História é prima da histería.
Nota do poema "Chega a ser confortável ..."
Sétimo verso : "Rombo". Vale registrar, cf Silveira Bueno in " Grande Dicionário Etimológico e Prodódico da Língua Portuguesa", Vol. 7 2a. Tiragem, Ed. Saraiva, 1968, P.3751, o seguinte:
"Entre os mágicos da antiguidade, o rombo era um fuso de bronze, com que faziam encantamentos, prediziam o futuro, etc... O Gr. Rhombas da raiz rhombein, fazer gritar".
751
Luís António Cajazeira Ramos
Soneto Contemporâneo
Aos coeternos.
Penetra surdamente no reino das palavras,
que outro valor mais alto se alevanta.
Drummond/Camões
Que vem a ser fazer poesia de seu tempo?
Eu faço a do momento, a poesia de hoje.
Eu faço sempre hoje, pois meu tempo é hoje.
Toda a poesia é hoje, pois hoje é seu tempo.
Hoje é sempre o momento de fazer poesia.
Choveu hoje? faz sol hoje? que dia é hoje?
Meteorologia e calendário não, hoje.
Hoje não! Hoje é dia de fazer poesia.
De hoje que Camões é de hoje também!
Carlos Drummond de Andrade é de hoje também.
Todos são de hoje, destacados do tempo.
Não me venham com necessidade de ser
linguagem nova, tudo novo, tudo a ser,
pois na poesia estou destacado do tempo.
Penetra surdamente no reino das palavras,
que outro valor mais alto se alevanta.
Drummond/Camões
Que vem a ser fazer poesia de seu tempo?
Eu faço a do momento, a poesia de hoje.
Eu faço sempre hoje, pois meu tempo é hoje.
Toda a poesia é hoje, pois hoje é seu tempo.
Hoje é sempre o momento de fazer poesia.
Choveu hoje? faz sol hoje? que dia é hoje?
Meteorologia e calendário não, hoje.
Hoje não! Hoje é dia de fazer poesia.
De hoje que Camões é de hoje também!
Carlos Drummond de Andrade é de hoje também.
Todos são de hoje, destacados do tempo.
Não me venham com necessidade de ser
linguagem nova, tudo novo, tudo a ser,
pois na poesia estou destacado do tempo.
2 204
Cirstina Areias
Dispersão
Je me sens eparpillée travers les siècles...
Eu me sinto espalhada pelos séculos...
Há pedaços de mim na Grécia Antiga,
Há pedaços de mim na imensidão,
Meteoros de mim me ultrapassam,
Estou além e estou aquém
Sem rumo eu sou.
Não é meu o meu sonho, minha tristeza,
O meu verso cativo,
Alguém levou
O poeta de ontem e de sempre
Violou minha alma,
Me roubou.
Não pertence a mim o sentimento
A palavra me escapa,
O sangue esvai
Eu não vivo,
Eu existo nas estrelas
Dos que foram, dos que estão,
Dos que virão.
Demócritos, Pessoas, Sades,
Não nascidos,
Carrascos meus, ladrões
Nesta enlouquecida festa
Eu me entrego
Vadia, sem pudor
Pelas bocas ancestrais dos que hão de vir...
Não sou eu e não há Tempo e não há lei
Eu me empresto,
Eu me dou,
Eu me concedo...
Eu me deixo perdida em suas mãos,
Eu me deito amorosa entre seus versos!
E, por mais que eu me busque, que eu me olhe,
É poeira o que eu vejo, é dispersão...
Eu me sinto espalhada pelos séculos...
Há pedaços de mim na Grécia Antiga,
Há pedaços de mim na imensidão,
Meteoros de mim me ultrapassam,
Estou além e estou aquém
Sem rumo eu sou.
Não é meu o meu sonho, minha tristeza,
O meu verso cativo,
Alguém levou
O poeta de ontem e de sempre
Violou minha alma,
Me roubou.
Não pertence a mim o sentimento
A palavra me escapa,
O sangue esvai
Eu não vivo,
Eu existo nas estrelas
Dos que foram, dos que estão,
Dos que virão.
Demócritos, Pessoas, Sades,
Não nascidos,
Carrascos meus, ladrões
Nesta enlouquecida festa
Eu me entrego
Vadia, sem pudor
Pelas bocas ancestrais dos que hão de vir...
Não sou eu e não há Tempo e não há lei
Eu me empresto,
Eu me dou,
Eu me concedo...
Eu me deixo perdida em suas mãos,
Eu me deito amorosa entre seus versos!
E, por mais que eu me busque, que eu me olhe,
É poeira o que eu vejo, é dispersão...
858
Jaumir Valença da Silveira
Matinal
Madrugada dada
ao firmamento.
O sol
vem trazido ao vento,
rosando o céu
e o roseiral.
Um tom maior
se eleva.
E leva, no colo,
o sonho dormido.
Manhã de novo,
o dia vem vindo.
Passa
o passaredo.
E o meu enredo
é passar
o passado
entre os dedos.
Dura a aurora
duradoura.
Doura
meu olhar.
Lacrimeja
o que a alma almeja.
Pois seja
o que Deus
desejar,
se é verdade
que Deus
deseja.
E apesar
de pesar
tanto a vida,
o meu canto
hoje eu vim
pra cantar.
ao firmamento.
O sol
vem trazido ao vento,
rosando o céu
e o roseiral.
Um tom maior
se eleva.
E leva, no colo,
o sonho dormido.
Manhã de novo,
o dia vem vindo.
Passa
o passaredo.
E o meu enredo
é passar
o passado
entre os dedos.
Dura a aurora
duradoura.
Doura
meu olhar.
Lacrimeja
o que a alma almeja.
Pois seja
o que Deus
desejar,
se é verdade
que Deus
deseja.
E apesar
de pesar
tanto a vida,
o meu canto
hoje eu vim
pra cantar.
1 073
Fernando Pessoa
Começa, no ar da antemanhã,
Começa, no ar da antemanhã,
A haver o que vai ser o dia.
É uma sombra entre as sombras vã.
Mais tarde, quanto é a manhã
Agora é nada, noite fria.
É nada, mas é diferente
Da sombra em que a noite está;
E há nela já a nostalgia
Não do passado, mas do dia
Que é afinal o que será.
12/09/1934
A haver o que vai ser o dia.
É uma sombra entre as sombras vã.
Mais tarde, quanto é a manhã
Agora é nada, noite fria.
É nada, mas é diferente
Da sombra em que a noite está;
E há nela já a nostalgia
Não do passado, mas do dia
Que é afinal o que será.
12/09/1934
3 708
Fernando Pessoa
Se há arte ou ciência para ler a sina
Se há arte ou ciência para ler a sina
A que em nós o Destino faz de nós,
Dá-me que eu a não saiba e que, indivina,
Me corra a vida vagamente e a sós.
Que quero eu do futuro que não tenho?
Que me pesa hoje, ou alegra, o que serei?
Sei, por lembrar, de que passado venho,
E, onde hoje estou, incertamente sei.
O mais, o que o futuro me dará,
Deixo a quem dê e à forma como o der.
Basta a sombra que esta árvore me dá
E a sensação de nada mais querer.
13/09/1934
A que em nós o Destino faz de nós,
Dá-me que eu a não saiba e que, indivina,
Me corra a vida vagamente e a sós.
Que quero eu do futuro que não tenho?
Que me pesa hoje, ou alegra, o que serei?
Sei, por lembrar, de que passado venho,
E, onde hoje estou, incertamente sei.
O mais, o que o futuro me dará,
Deixo a quem dê e à forma como o der.
Basta a sombra que esta árvore me dá
E a sensação de nada mais querer.
13/09/1934
4 114
Fernando Pessoa
Nada. Passaram nuvens e eu fiquei...
Nada. Passaram nuvens e eu fiquei...
No ar limpo não há rasto.
Surgiu a lua de onde já não sei,
Num claro luar vasto.
Todo o espaço da noite fica cheio
De um peso sossegado...
Onde porei o meu futuro, e o enleio
Que o liga ao meu passado?
25/10/1933
No ar limpo não há rasto.
Surgiu a lua de onde já não sei,
Num claro luar vasto.
Todo o espaço da noite fica cheio
De um peso sossegado...
Onde porei o meu futuro, e o enleio
Que o liga ao meu passado?
25/10/1933
4 074
Fernando Pessoa
O que eu fui o que é?
O que eu fui o que é?
Relembro vagamente
O vago não sei quê
Que passei e se sente.
Se o tempo é longe ou perto
Em que isso se passou,
Não sei dizer ao certo.
Que nem sei o que sou.
Sei só que me hoje agrada
Rever essa visão
Sei que não vejo nada
Senão o coração.
05/02/1928
Relembro vagamente
O vago não sei quê
Que passei e se sente.
Se o tempo é longe ou perto
Em que isso se passou,
Não sei dizer ao certo.
Que nem sei o que sou.
Sei só que me hoje agrada
Rever essa visão
Sei que não vejo nada
Senão o coração.
05/02/1928
4 207
Fernando Pessoa
IRONIA
Faz um a casa onde outro pôs a pedra.
O galego Colón, de Pontevedra,
Seguiu-nos para onde nós não fomos.
Não vimos da nossa árvore esses pomos.
Um império ganhou para Castela,
Para si glória merecida – aquela
De um grande longe aos mares conquistado.
Mas não ganhou o tê-lo começado.
(integrado no conjunto de poemas Mar Português e publicado na revista Contemporânea, nº 4, vol. II, 1922).
O galego Colón, de Pontevedra,
Seguiu-nos para onde nós não fomos.
Não vimos da nossa árvore esses pomos.
Um império ganhou para Castela,
Para si glória merecida – aquela
De um grande longe aos mares conquistado.
Mas não ganhou o tê-lo começado.
(integrado no conjunto de poemas Mar Português e publicado na revista Contemporânea, nº 4, vol. II, 1922).
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