Poemas neste tema
Passado e Futuro
Reynaldo Valinho Alvarez
Canto Em Si
1
Não busco outro caminho, cedo a calma
A angústia de lavrar no mesmo chão.
A pétrea consistência deste solo
Não dissolve meu ânimo, enlouquece
O que dentro de mim mais alto grita.
Nesta lavoura, a mão é o instrumento
Com que se abrir a terra e pene trá-la
Para entregar-lhe o amor de um a semente
Exposta ao tempo, a fungos e carunchos.
No arado não se pense, o chão se fecha
Ao fio agudo e firme, assim a enxada
Também se parte contra o solo duro
E apenas resta a ponta de meus dedos
Para feri-lo, amá-lo e fecundá-lo.
A par o som arranca ao rijo solo
E nada mais, que à concha, em cada mão,
Feita de pele, carne, nervo e sangue,
Cabe a tarefa e sol de revolvê-lo,
Suada, escalavrada, enegrecida,
Porto em que a terra é nau posta em abrigo.
A estas leiras, labrego, me transporto
A cada madrugada e delas volto
Para comer, se existe, a cada noite,
O pão que elas não deram por ser bruto
O chão e fraca a mão que dele trata,
Mas que insiste em cuidá-lo, porque o grão
E causa, muito mais que conseqüência...
2
Cansei de andar em busca do destino
E tranqüilo retraço meu caminho.
Para curar melancolias fundas,
Há sempre mais um hausto que permite
Viver um pouco mais, se é isto vida.
Ouço ainda o ruído das batalhas
Terminadas. Vencidas ou perdidas,
Foram batalhas de uma guerra santa
Em que ao nascer acaso me alistassem.
Assim posso dar fé que a morte obscura
De quantos vão ficando no caminho,
Bem mais do que parece, ofusca o brilho
Das falsas aparências de vitória
Dos que falam mais alto e se confundem.
Confundem-se os que gritam, confundindo
Os que ouvem e não sabem que os caídos
Dizem mais no silêncio em que caíram,
Dizem mais e mais fundo, enquanto a voz
Oprimida e apagada fere o nervo
Exposto a golpes sempre repetidos.
Retraço no que posso meu caminho
Aberto pela quilha entre os sargaços
Imensos deste mar, ora parado,
Ora coberto de ondas pelo vento
Que sopra não de um ponto, mas de vários,
Para provar a força, não do braço,
Mas do ânimo que imprime rumo ao barco.
Não busco outro caminho, cedo a calma
A angústia de lavrar no mesmo chão.
A pétrea consistência deste solo
Não dissolve meu ânimo, enlouquece
O que dentro de mim mais alto grita.
Nesta lavoura, a mão é o instrumento
Com que se abrir a terra e pene trá-la
Para entregar-lhe o amor de um a semente
Exposta ao tempo, a fungos e carunchos.
No arado não se pense, o chão se fecha
Ao fio agudo e firme, assim a enxada
Também se parte contra o solo duro
E apenas resta a ponta de meus dedos
Para feri-lo, amá-lo e fecundá-lo.
A par o som arranca ao rijo solo
E nada mais, que à concha, em cada mão,
Feita de pele, carne, nervo e sangue,
Cabe a tarefa e sol de revolvê-lo,
Suada, escalavrada, enegrecida,
Porto em que a terra é nau posta em abrigo.
A estas leiras, labrego, me transporto
A cada madrugada e delas volto
Para comer, se existe, a cada noite,
O pão que elas não deram por ser bruto
O chão e fraca a mão que dele trata,
Mas que insiste em cuidá-lo, porque o grão
E causa, muito mais que conseqüência...
2
Cansei de andar em busca do destino
E tranqüilo retraço meu caminho.
Para curar melancolias fundas,
Há sempre mais um hausto que permite
Viver um pouco mais, se é isto vida.
Ouço ainda o ruído das batalhas
Terminadas. Vencidas ou perdidas,
Foram batalhas de uma guerra santa
Em que ao nascer acaso me alistassem.
Assim posso dar fé que a morte obscura
De quantos vão ficando no caminho,
Bem mais do que parece, ofusca o brilho
Das falsas aparências de vitória
Dos que falam mais alto e se confundem.
Confundem-se os que gritam, confundindo
Os que ouvem e não sabem que os caídos
Dizem mais no silêncio em que caíram,
Dizem mais e mais fundo, enquanto a voz
Oprimida e apagada fere o nervo
Exposto a golpes sempre repetidos.
Retraço no que posso meu caminho
Aberto pela quilha entre os sargaços
Imensos deste mar, ora parado,
Ora coberto de ondas pelo vento
Que sopra não de um ponto, mas de vários,
Para provar a força, não do braço,
Mas do ânimo que imprime rumo ao barco.
1 069
Raniere Rodrigues dos Santos
Onde Estás?
Eu te amo,
Não sei se te amo.
Eu te desejo,
Não sei se te desejo.
Eu te conheço,
Não sei se te conheço.
Apenas sei que em algum momento
Estiveste perto de mim.
Isso demonstra o prcsente
E este talvez inexistente
Demonstra lembranças,
O passado, por sua vez, compensou,
Compensou meu coração inesquecivelmente.
Saudade, esta está
A te procurar
E vê que não há como encontrar
A não ser desencadear
E peregrinar
A procura
De onde estás.
Não sei se te amo.
Eu te desejo,
Não sei se te desejo.
Eu te conheço,
Não sei se te conheço.
Apenas sei que em algum momento
Estiveste perto de mim.
Isso demonstra o prcsente
E este talvez inexistente
Demonstra lembranças,
O passado, por sua vez, compensou,
Compensou meu coração inesquecivelmente.
Saudade, esta está
A te procurar
E vê que não há como encontrar
A não ser desencadear
E peregrinar
A procura
De onde estás.
855
Paula Nei
A Justiça
A Justiça de um povo generoso,
Pesando sobre a negra escravidão,
Esmagou-a de um modo glorioso,
Sufocando-a com a Lei da Abolição.
Esse passado tétrico, horroroso,
Da mais nefanda e torpe instituição,
Rolou no chão, no abismo pavoroso,
Assombrado com a luz da redenção.
Não mais dos homens os fatais horrores,
Não mais o vil zumbir das vergastadas,
Salpicando de sangue o chão e as flores!
Não mais escravos pelas esplanadas!
São todos livres! Não há mais senhores!
Foi-se a noite, só temos alvoradas.
Pesando sobre a negra escravidão,
Esmagou-a de um modo glorioso,
Sufocando-a com a Lei da Abolição.
Esse passado tétrico, horroroso,
Da mais nefanda e torpe instituição,
Rolou no chão, no abismo pavoroso,
Assombrado com a luz da redenção.
Não mais dos homens os fatais horrores,
Não mais o vil zumbir das vergastadas,
Salpicando de sangue o chão e as flores!
Não mais escravos pelas esplanadas!
São todos livres! Não há mais senhores!
Foi-se a noite, só temos alvoradas.
820
Paulo Silva Ribeiro
Juras Secretas
Juras Secretas
Não te farei juras secretas,
Não lhe darei ilusões,
Não te amarei em vão,
Não te beijarei só para sentir o gosto de teus lábios,
Não debruçarei meu corpo sobre o teu, só para sentir o teu prazer,
Não serei enfim, aquele que só lhe diz sempre sim, mas
Serei aquele que te amou enfim...
Há tempos
Sou teu endereço esquecido,
Sou teu livro não mais lido,
Sou teu caderno em branco,
Sou teu espelho sem imagem,
Sou tuas lembranças apagadas,
Sou tua madrugada não desejada,
Sou afianl o que passou de passagem por ti
Nesta vida inacaba...
Não te farei juras secretas,
Não lhe darei ilusões,
Não te amarei em vão,
Não te beijarei só para sentir o gosto de teus lábios,
Não debruçarei meu corpo sobre o teu, só para sentir o teu prazer,
Não serei enfim, aquele que só lhe diz sempre sim, mas
Serei aquele que te amou enfim...
Há tempos
Sou teu endereço esquecido,
Sou teu livro não mais lido,
Sou teu caderno em branco,
Sou teu espelho sem imagem,
Sou tuas lembranças apagadas,
Sou tua madrugada não desejada,
Sou afianl o que passou de passagem por ti
Nesta vida inacaba...
1 078
Elziário Pinto
O Festim de Baltasar
Mané... Teckel... Pharés...
I
"Queimai perfumes, escravas!
Trazei-nos sândalo e flores!
Vinho! do vinho os vap!res
Levem presságios cruéis!
Por Baal! Senhores e donas,
Não morra o prazer da festa!
Por Baal! Por Baal! soe a orquestra,
Tangei, tangei, menestréis!"
As luzes tremem nas salas,
Treme o ouro e a pedraria;
Das ânforas transborda a orgia
Como as espumas do mar:
— "Por Baal! Senhores e donas,
Repete a nobre assembléia,
Ao grande rei da Caldéia!
Ao grande rei Baltasar!"
Rompe a orquestra — e as concubinas,
Com os seios nus, palpitantes,
Entoam febris descanses,
Lasciva, ideal canção;
E em volta ao seu trono de ouro
Nabonid, rei poderoso,
Sente a alma a nadar no gozo,
Em que se afoga a razão.
E ferve, referve a orgia
Ao som da orquestra estridentes
E a lua toca o ocidente,
Sobre a cidade imortal:
Talvez mande a peregrina,
Do monte Efraim pendida,
Um raio por despedida
Do Cedron sobre o cristal.
II
Manda, sim, sobre ruínas
Que aí só resta um montão
Mirando a gentil cativa,
Dileta filha de Abraão:
— "Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!
"Terra, terra bem-fadada,
Outrora — esposa de Arão,
Hoje ruínas dispersas,
Hoje o luto e a escravidão;
— Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!
"Teus filhos gemem distante,
Jamais aqui voltarão...
Murchai, gardênias do prado!
Chorai, divino Jordão:
— Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!
"Onde as endechas saudosas
Dos cantores de Sião?
Aves do céu, vossos carmes
Não solteis mais aqui, não!
— Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!
"Lírio pendido no vale
Varreu-te acaso o tufão?
Nem uma gota de orvalho!
Isaac! Davi! Salomão!
— Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!"
E pela encosta do monte
A tristezinha lá vai,
Mandando um último pranto,
Um doce, sentido ai,
De um lado à imersa Sodoma,
Do outro ao monte Sinai.
III
E cresce, recresce a orgia
Nos salões de Baltasar,
Ondas de pura harmonia,
Ânsias de puro gozar,
— Entanto a cidade dorme
Envolta no manto enorme
Da noite — sono fatal!
E aquele peito gigante
Devora sede arquejante
De vícios, — sede infernal!
Nas salas grato ruído,
Luzes, perfumes e amor;
Lá fora estranho rugido,
Surdo — ao longe — e ameaçador;
No horizonte um fumo denso
Se eleva, bem como o incenso
Nas salas e a embriaguez...
Que importa ao rei o horizonte,
Se as flores ornam-lhe a fronte,
Se o âmbar corre-lhe aos pés?!
"Ao rei! ao rei poderoso!
Ao reino que não tem fim!
Como o Eufrates caudaloso
Corra a onda do festim!"
— "Perdão: as taças, senhores,
Não podem, tão sem lavores,
À festa de um rei convir;
Temos os vasos sagrados,
São soberbos, cinzelados,
Do ouro fino de Ofir.
"Trazei-mos", já vacilante,
Diz o rei: "Viva o Senhor!"
— E ruge o vento distante,
Como um gemido de dor.
Entram luzidos criados
Trazendo os vasos sagrados
Do templo de Salomão...
— E ruge o vento mais forte,
Lançando vascas de morte
Pelos umbrais do salão.
"Transborde o néctar, amigos!
Eis os vasos de Jeová!
Nesses lavores antigos.
Vê-se a cativa Judá."
— E cresce o estranho rugido,
Surdo, rouco, indefinido...
"São os soluços do Irã!"
E ruge, ruge mais perto...
"São os ventos do deserto
Sobre as areias de Omã!"
Nas caçoulas fumegantes,
Arde o mirto e o aloés,
Ao som das notas vibrantes
Sobe, sobe a embriaguez.
— "Por Baal! Por Baal! Pelos Medos!
Quebrem-se as harpas nos dedos,
Trema o teto do salão!"
Horror! ao tinir das taças,
Núncio de eternas desgraças,
Brame na sala um tufão.
"Depressa, luzes, depressa..."
Diz o rei: "longe o terror!
Mas não, e o vaso arremessa,
Recua trêmulo... horror!
— É que, em meio à noite brusca,
Mão, que de brilhos ofusca,
Toda a sala iluminou;
Cometa, a correr ardente,
Estranha cifra candente,
Pelas paredes traçou!
IV
"Meu colar de pedrarias
Àquele que decifrar
Venham magos e adivinhos,
Depressa, Beltisasar.
Ele, o mais sábio de todos,
Pode o mistério explicar!"
E dorme a cidade lassa
Dos vícios na prostração,
E cresce, cresce o rugido
Qual ressonar de um vulcão:
Ou é tremenda borrasca,
Ou é povo em multidão.
Entre os famosos convivas
Mais um conviva aparece,
As sandálias do proscrito
Traz — quem é que o não conhece
Diante do rei se inclina,
Do rei, que ao vê-lo estremece.
"Benvindo sejas, cativo,
Daniel Beltisasar;
Se sabes ler no impossível,
Tens ali — podes falar:
Terás um manto de púrpura,
Terás meu régio colar."
De novo ante o rei se inclina
A cabeça do ancião,
Depois, elevando a fronte
Altiva, e estendendo a mão,
Busca achar na ignota cifra
A divina inspiração.
Nem do Tibre o velho roble!
Nem os cedros do ocidente
A fronte mais alto elevam
Mais nobre, mais imponente!
O gênio é como as estrelas,
Beija os pés do Onipotente.
"Rei! escuta a voz do Eterno,
Que por meus lábios te fala:
O crime mais execrando,
O teu reinado assinala:
Vê, revê tua sentença
Escrita em letras de opala.
"Não ouves bramir confuso
Como o arfar da tempestade?
São os Persas que se arrojam
Sobre os muros da cidade:
Perdeu-te a lascívia impura,
Rei! perdeu-te a impiedade.
"Profanastes os vasos santos
Nas torpezas de um festim,
Teus dias foram contados
Como os da bela Seboim!
Agora o brinde, senhores,
— Ao reino que não tem fim!"
V
Gesto grave, altivo, acerbo,
Assim fala o escravo hebreu,
Soletrando o ardente verbo,
Que mão de raio escreveu:
E depois — braços pendidos,
Olhos de chama incendidos,
Verberando a maldição,
Deixa a sala, onde se espalha,
Como trevosa mortalha,
O terror na escuridão.
E quando o raio primeiro
Do sol, singrando o horizonte,
Rompe o denso nevoeiro
Sobre o cabeço do monte,
Em vez da cidade altiva,
Vê — desgrenhada cativa,
A dissoluta Babel,
E além dos muros colossos,
Daquele povo os destroços
E um homem só — Daniel!
I
"Queimai perfumes, escravas!
Trazei-nos sândalo e flores!
Vinho! do vinho os vap!res
Levem presságios cruéis!
Por Baal! Senhores e donas,
Não morra o prazer da festa!
Por Baal! Por Baal! soe a orquestra,
Tangei, tangei, menestréis!"
As luzes tremem nas salas,
Treme o ouro e a pedraria;
Das ânforas transborda a orgia
Como as espumas do mar:
— "Por Baal! Senhores e donas,
Repete a nobre assembléia,
Ao grande rei da Caldéia!
Ao grande rei Baltasar!"
Rompe a orquestra — e as concubinas,
Com os seios nus, palpitantes,
Entoam febris descanses,
Lasciva, ideal canção;
E em volta ao seu trono de ouro
Nabonid, rei poderoso,
Sente a alma a nadar no gozo,
Em que se afoga a razão.
E ferve, referve a orgia
Ao som da orquestra estridentes
E a lua toca o ocidente,
Sobre a cidade imortal:
Talvez mande a peregrina,
Do monte Efraim pendida,
Um raio por despedida
Do Cedron sobre o cristal.
II
Manda, sim, sobre ruínas
Que aí só resta um montão
Mirando a gentil cativa,
Dileta filha de Abraão:
— "Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!
"Terra, terra bem-fadada,
Outrora — esposa de Arão,
Hoje ruínas dispersas,
Hoje o luto e a escravidão;
— Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!
"Teus filhos gemem distante,
Jamais aqui voltarão...
Murchai, gardênias do prado!
Chorai, divino Jordão:
— Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!
"Onde as endechas saudosas
Dos cantores de Sião?
Aves do céu, vossos carmes
Não solteis mais aqui, não!
— Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!
"Lírio pendido no vale
Varreu-te acaso o tufão?
Nem uma gota de orvalho!
Isaac! Davi! Salomão!
— Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!"
E pela encosta do monte
A tristezinha lá vai,
Mandando um último pranto,
Um doce, sentido ai,
De um lado à imersa Sodoma,
Do outro ao monte Sinai.
III
E cresce, recresce a orgia
Nos salões de Baltasar,
Ondas de pura harmonia,
Ânsias de puro gozar,
— Entanto a cidade dorme
Envolta no manto enorme
Da noite — sono fatal!
E aquele peito gigante
Devora sede arquejante
De vícios, — sede infernal!
Nas salas grato ruído,
Luzes, perfumes e amor;
Lá fora estranho rugido,
Surdo — ao longe — e ameaçador;
No horizonte um fumo denso
Se eleva, bem como o incenso
Nas salas e a embriaguez...
Que importa ao rei o horizonte,
Se as flores ornam-lhe a fronte,
Se o âmbar corre-lhe aos pés?!
"Ao rei! ao rei poderoso!
Ao reino que não tem fim!
Como o Eufrates caudaloso
Corra a onda do festim!"
— "Perdão: as taças, senhores,
Não podem, tão sem lavores,
À festa de um rei convir;
Temos os vasos sagrados,
São soberbos, cinzelados,
Do ouro fino de Ofir.
"Trazei-mos", já vacilante,
Diz o rei: "Viva o Senhor!"
— E ruge o vento distante,
Como um gemido de dor.
Entram luzidos criados
Trazendo os vasos sagrados
Do templo de Salomão...
— E ruge o vento mais forte,
Lançando vascas de morte
Pelos umbrais do salão.
"Transborde o néctar, amigos!
Eis os vasos de Jeová!
Nesses lavores antigos.
Vê-se a cativa Judá."
— E cresce o estranho rugido,
Surdo, rouco, indefinido...
"São os soluços do Irã!"
E ruge, ruge mais perto...
"São os ventos do deserto
Sobre as areias de Omã!"
Nas caçoulas fumegantes,
Arde o mirto e o aloés,
Ao som das notas vibrantes
Sobe, sobe a embriaguez.
— "Por Baal! Por Baal! Pelos Medos!
Quebrem-se as harpas nos dedos,
Trema o teto do salão!"
Horror! ao tinir das taças,
Núncio de eternas desgraças,
Brame na sala um tufão.
"Depressa, luzes, depressa..."
Diz o rei: "longe o terror!
Mas não, e o vaso arremessa,
Recua trêmulo... horror!
— É que, em meio à noite brusca,
Mão, que de brilhos ofusca,
Toda a sala iluminou;
Cometa, a correr ardente,
Estranha cifra candente,
Pelas paredes traçou!
IV
"Meu colar de pedrarias
Àquele que decifrar
Venham magos e adivinhos,
Depressa, Beltisasar.
Ele, o mais sábio de todos,
Pode o mistério explicar!"
E dorme a cidade lassa
Dos vícios na prostração,
E cresce, cresce o rugido
Qual ressonar de um vulcão:
Ou é tremenda borrasca,
Ou é povo em multidão.
Entre os famosos convivas
Mais um conviva aparece,
As sandálias do proscrito
Traz — quem é que o não conhece
Diante do rei se inclina,
Do rei, que ao vê-lo estremece.
"Benvindo sejas, cativo,
Daniel Beltisasar;
Se sabes ler no impossível,
Tens ali — podes falar:
Terás um manto de púrpura,
Terás meu régio colar."
De novo ante o rei se inclina
A cabeça do ancião,
Depois, elevando a fronte
Altiva, e estendendo a mão,
Busca achar na ignota cifra
A divina inspiração.
Nem do Tibre o velho roble!
Nem os cedros do ocidente
A fronte mais alto elevam
Mais nobre, mais imponente!
O gênio é como as estrelas,
Beija os pés do Onipotente.
"Rei! escuta a voz do Eterno,
Que por meus lábios te fala:
O crime mais execrando,
O teu reinado assinala:
Vê, revê tua sentença
Escrita em letras de opala.
"Não ouves bramir confuso
Como o arfar da tempestade?
São os Persas que se arrojam
Sobre os muros da cidade:
Perdeu-te a lascívia impura,
Rei! perdeu-te a impiedade.
"Profanastes os vasos santos
Nas torpezas de um festim,
Teus dias foram contados
Como os da bela Seboim!
Agora o brinde, senhores,
— Ao reino que não tem fim!"
V
Gesto grave, altivo, acerbo,
Assim fala o escravo hebreu,
Soletrando o ardente verbo,
Que mão de raio escreveu:
E depois — braços pendidos,
Olhos de chama incendidos,
Verberando a maldição,
Deixa a sala, onde se espalha,
Como trevosa mortalha,
O terror na escuridão.
E quando o raio primeiro
Do sol, singrando o horizonte,
Rompe o denso nevoeiro
Sobre o cabeço do monte,
Em vez da cidade altiva,
Vê — desgrenhada cativa,
A dissoluta Babel,
E além dos muros colossos,
Daquele povo os destroços
E um homem só — Daniel!
1 021
Paulo F. Cunha
Ora Danem-se
Que importa que me digam
liso , pobre , feio ou chato
se sei que sou , talvez
o contrário de tudo
e dono de mim mesmo ?
Que me importa que se vão
pessoas , coisas e cargos
se eu ( e meus olhos ) ficamos ?
Os outros , ora os outros
são apenas cegos falantes
e eu não sou guia de cegos
pois com eles - meu defeito ? -
não tenho a menor paciência ,
nem necessito dos seus olhos ,
pois só vejo com os meus
e com os de quem vale a pena.
O mundo é maior que isso
e ( principalmente ) o futuro também.
as coisas pequenas passam .
As em verdade grandes
que os cegos e parados não vêm ,
ficam , ou melhor , frutificam.
Quero comer agora estes frutos
para não sentirsaudades mais tarde
liso , pobre , feio ou chato
se sei que sou , talvez
o contrário de tudo
e dono de mim mesmo ?
Que me importa que se vão
pessoas , coisas e cargos
se eu ( e meus olhos ) ficamos ?
Os outros , ora os outros
são apenas cegos falantes
e eu não sou guia de cegos
pois com eles - meu defeito ? -
não tenho a menor paciência ,
nem necessito dos seus olhos ,
pois só vejo com os meus
e com os de quem vale a pena.
O mundo é maior que isso
e ( principalmente ) o futuro também.
as coisas pequenas passam .
As em verdade grandes
que os cegos e parados não vêm ,
ficam , ou melhor , frutificam.
Quero comer agora estes frutos
para não sentirsaudades mais tarde
871
Paulo Henrique Góes Souza
Reminiscência
Um dia, o vento não soprará
E tu chegarás das cinzas,
Tal como Fênix
Saindo do álbum de retratos
Onde moras,
Que se foi há tempo
Nas chamas da ilusão...
Um dia, quando tu fizeres parte de mim,
E eu puder te tocar,
E fazer de ti minha mulher,
Serei eu o homem
Mais feliz de toda a corte,
Acho mesmo que de todo o mundo,
Pois voltarei ao tempo
Onde o passado será o presente,
E colherei o lírio que não te dei
E o beijo que não te roubei!...
Temo acordar de repente
E perceber em que século estou
E o olhar para as muralhas do tempo,
Aprisionando-me ao limite da memória
Onde a plena percepção chega apenas
Em forma de intuição
Nas brechas profundamente marcadas
Em minha alma...
Padeço
Pela mera possibilidade do fechamento desta fenda,
Agoira cavada por mim,
Neste instante de consciência,
Pois, se assim o for,
Perder-me-ei no amor reminiscente,
E o brilho dos teus olhos não se fará presente
Aos meus,
E tudo emudecerá,
Pois não mais ouvirei tua voz...
E tu chegarás das cinzas,
Tal como Fênix
Saindo do álbum de retratos
Onde moras,
Que se foi há tempo
Nas chamas da ilusão...
Um dia, quando tu fizeres parte de mim,
E eu puder te tocar,
E fazer de ti minha mulher,
Serei eu o homem
Mais feliz de toda a corte,
Acho mesmo que de todo o mundo,
Pois voltarei ao tempo
Onde o passado será o presente,
E colherei o lírio que não te dei
E o beijo que não te roubei!...
Temo acordar de repente
E perceber em que século estou
E o olhar para as muralhas do tempo,
Aprisionando-me ao limite da memória
Onde a plena percepção chega apenas
Em forma de intuição
Nas brechas profundamente marcadas
Em minha alma...
Padeço
Pela mera possibilidade do fechamento desta fenda,
Agoira cavada por mim,
Neste instante de consciência,
Pois, se assim o for,
Perder-me-ei no amor reminiscente,
E o brilho dos teus olhos não se fará presente
Aos meus,
E tudo emudecerá,
Pois não mais ouvirei tua voz...
910
Joaquim Namorado
Poeta
A poesia é uma máquina
de produzir entusiasmo
e é preciso que os versos sejam verdadeiros
na vida dos poetas
como a tua mão erguida
sobre os anos futuros
quando o próprio bronze das estátuas se cobrir
do verdete do esquecimento
e das urtigas
entre as ruínas de um passado morto
e as pequenas plaquetes dos sentimentos pobres
dos líricos delírios
das doidas metáforas sem sentido
louvadas pela crítica
só tiverem o arqueológico encanto
de um cabelo de Ofélia. ..
Então
os teus versos estarão na primeira fila dos pioneiros
cobertos de cicatrizes
porque fizeram todo o caminho do tempo
multiplicados por milhões de vozes
pela alta potência dos alto-falantes
como uma bandeira erguida
sobre os anos futuros.
de produzir entusiasmo
e é preciso que os versos sejam verdadeiros
na vida dos poetas
como a tua mão erguida
sobre os anos futuros
quando o próprio bronze das estátuas se cobrir
do verdete do esquecimento
e das urtigas
entre as ruínas de um passado morto
e as pequenas plaquetes dos sentimentos pobres
dos líricos delírios
das doidas metáforas sem sentido
louvadas pela crítica
só tiverem o arqueológico encanto
de um cabelo de Ofélia. ..
Então
os teus versos estarão na primeira fila dos pioneiros
cobertos de cicatrizes
porque fizeram todo o caminho do tempo
multiplicados por milhões de vozes
pela alta potência dos alto-falantes
como uma bandeira erguida
sobre os anos futuros.
2 009
Menezes y Morais
Balada dos Mortos na Parede etc
teus mortos
estão nas paredes
nos álbuns
memórias
dramas
te espiamudos
denunciam calados
o crime q comeste
teus mortos
não perdoaram
eles vivem
todo dia
quando reparas
nos álbuns
paredes
memórias
dramas
é inútil tentar/remover os mortos/
dessas paragens
eles estão em ti
te acompanham
procriam na sala
quarto lembranças
convive com os mortos
é mais seguro do q conviver com os
vivos
a vida é túmulo em via
estão nas paredes
nos álbuns
memórias
dramas
te espiamudos
denunciam calados
o crime q comeste
teus mortos
não perdoaram
eles vivem
todo dia
quando reparas
nos álbuns
paredes
memórias
dramas
é inútil tentar/remover os mortos/
dessas paragens
eles estão em ti
te acompanham
procriam na sala
quarto lembranças
convive com os mortos
é mais seguro do q conviver com os
vivos
a vida é túmulo em via
926
Gerardo Mello Mourão
Olho com olho
Olho com olho
tua pupila dura
sobre
a beleza feroz de tua boca
acompanhou meu canto — e não sei
se pouco a pouco ou de repente
começaram a nascer em tua pele
umas flores azuis — e brotaram
em teu rosto e invadiram
tua cabeça e cobriam
teus olhos e teus lábios e cresciam
em tufos nas orelhas e se abriam sobre
as narinas e a nuca e o seio e as pernas
e formavam uma
touceira de madressilvas onde
eram antes os ásperos pentelhos
e os beija-flores e as abelhas acendiam
a tesoura de suas asas fulgurantes
e sorviam o mel em teu semblante
rosa — margarida — violeta
e eu disse em vão teu nome — pois
as corolas cambiavam de cor à minha voz
Açucena e Magnólia
e às vezes
te desabrochavam da cútis
milhões de miosótis multicores — e outras —
eras toda um girassol de ouro — pois
de tua pele estão nascendo flores — de tuas
virilhas o antúrio vive — e um dia
de teu hálito à tua voz
se irão compondo nos lábios os gerânios
rosas-moiras e grinaldas.
de lavanda silvestre — e ao teu aroma
brotarão de meus dedos e de meu umbigo
e do sexo farejante
narinas insaciadas
Pois começaram a me nascer narizes
por todo o corpo e me passeias
os pulmões
e aspiro
e inspiro
tua presença odorífera — e a doçura
do orvalho orvalha
agora as violetas onde
fora a dura pupila de ouro
Também contemplo as tuas dimensões
pois ás vezes também me nascem, Godo,
dois miserandos olhos sobre a nuca
e quando
pergunto o meu futuro responde o meu passado
e quando
contemplo o meu passado vejo o meu futuro — e assim
caminho e sou
eu mesmo a minha própria órbita
mísero misérrimo vazio
e cheio de misericórdia
misericordioso pranto cerca os horizontes
e arrastando-me na areia
arrasto um Deus pelos cabelos e interpelo
Apolo, Apolo mostra
ao cego iluminado onde
o passado começa e o futuro termina
pois
o mísero poeta prisioneiro
nem de seu passado nem de seu futuro se liberta
e em vão
vê o cesto das horas
encher-se em vão da água de seus dias
Uma noite a rapariga de Serajevo apontou-me os Balkãs
e por vinte dinars começou a ler a minha mão
esquerda ao pé
de um poste sob a lua
de repente calou-se e passou a ler em silencio
— ou rezava talvez —
e começou a chorar — e as lágrimas
caíam de seus olhos ciganos
e o pranto vinha de longínquos países
e ela banhava com ele a minha mão Perplexa
e beijava e enxugava em seus cabelos
e eu não sei de outra palavra senão
a que naufragou em sua pupila e se despedaçou
em seu soluço quando
o cálamo vivo de seu dedo se erguia
do mapa de minha palma e apontava no ar
não sei se as serras dos Balkãs
não sei se as serras da Lua
não sei se os montes de Vênus
ou. as estrelas
de Capricórnio
E assim, amor,
em teus olhos transidos tenho lido
a estrofe e a catástrofe
de minha peripécia:
velhas terras me envenenam os pés
sobre o fio dos passos me devolvo
del mezzo del cammin e não me perco
na selva escura onde, Ariadne,
o chão musgoso guarda
a memória sábia do caminho
me Venerem quarente
per talos et paludes:
pela planta dos pés me envenenaram
esses doces venenos e rorejo
dos poros o suor deste mel — e das pupilas
oh dulce lacrymarum donum in quo salus
salus mundi salutat — pois Apolo
Apolo pai, Apolo filho, Apolo pneuma
caminha só entre as estrelas
nos outubros salubres do país.
tua pupila dura
sobre
a beleza feroz de tua boca
acompanhou meu canto — e não sei
se pouco a pouco ou de repente
começaram a nascer em tua pele
umas flores azuis — e brotaram
em teu rosto e invadiram
tua cabeça e cobriam
teus olhos e teus lábios e cresciam
em tufos nas orelhas e se abriam sobre
as narinas e a nuca e o seio e as pernas
e formavam uma
touceira de madressilvas onde
eram antes os ásperos pentelhos
e os beija-flores e as abelhas acendiam
a tesoura de suas asas fulgurantes
e sorviam o mel em teu semblante
rosa — margarida — violeta
e eu disse em vão teu nome — pois
as corolas cambiavam de cor à minha voz
Açucena e Magnólia
e às vezes
te desabrochavam da cútis
milhões de miosótis multicores — e outras —
eras toda um girassol de ouro — pois
de tua pele estão nascendo flores — de tuas
virilhas o antúrio vive — e um dia
de teu hálito à tua voz
se irão compondo nos lábios os gerânios
rosas-moiras e grinaldas.
de lavanda silvestre — e ao teu aroma
brotarão de meus dedos e de meu umbigo
e do sexo farejante
narinas insaciadas
Pois começaram a me nascer narizes
por todo o corpo e me passeias
os pulmões
e aspiro
e inspiro
tua presença odorífera — e a doçura
do orvalho orvalha
agora as violetas onde
fora a dura pupila de ouro
Também contemplo as tuas dimensões
pois ás vezes também me nascem, Godo,
dois miserandos olhos sobre a nuca
e quando
pergunto o meu futuro responde o meu passado
e quando
contemplo o meu passado vejo o meu futuro — e assim
caminho e sou
eu mesmo a minha própria órbita
mísero misérrimo vazio
e cheio de misericórdia
misericordioso pranto cerca os horizontes
e arrastando-me na areia
arrasto um Deus pelos cabelos e interpelo
Apolo, Apolo mostra
ao cego iluminado onde
o passado começa e o futuro termina
pois
o mísero poeta prisioneiro
nem de seu passado nem de seu futuro se liberta
e em vão
vê o cesto das horas
encher-se em vão da água de seus dias
Uma noite a rapariga de Serajevo apontou-me os Balkãs
e por vinte dinars começou a ler a minha mão
esquerda ao pé
de um poste sob a lua
de repente calou-se e passou a ler em silencio
— ou rezava talvez —
e começou a chorar — e as lágrimas
caíam de seus olhos ciganos
e o pranto vinha de longínquos países
e ela banhava com ele a minha mão Perplexa
e beijava e enxugava em seus cabelos
e eu não sei de outra palavra senão
a que naufragou em sua pupila e se despedaçou
em seu soluço quando
o cálamo vivo de seu dedo se erguia
do mapa de minha palma e apontava no ar
não sei se as serras dos Balkãs
não sei se as serras da Lua
não sei se os montes de Vênus
ou. as estrelas
de Capricórnio
E assim, amor,
em teus olhos transidos tenho lido
a estrofe e a catástrofe
de minha peripécia:
velhas terras me envenenam os pés
sobre o fio dos passos me devolvo
del mezzo del cammin e não me perco
na selva escura onde, Ariadne,
o chão musgoso guarda
a memória sábia do caminho
me Venerem quarente
per talos et paludes:
pela planta dos pés me envenenaram
esses doces venenos e rorejo
dos poros o suor deste mel — e das pupilas
oh dulce lacrymarum donum in quo salus
salus mundi salutat — pois Apolo
Apolo pai, Apolo filho, Apolo pneuma
caminha só entre as estrelas
nos outubros salubres do país.
1 210
Marcelo Mello Valença
Angústia, aprendi desde cedo
Angústia, aprendi desde cedo
a conviver com ela ao meu lado.
É o conviver com meu medo...
Pesadelo que vivo acordado
Angústia? É o esperar pelo amanhã,
futuro incerto, destino sonhado
É o agarrar-se a esperança vã
e ver a vida correr qual seixo rolado...
a conviver com ela ao meu lado.
É o conviver com meu medo...
Pesadelo que vivo acordado
Angústia? É o esperar pelo amanhã,
futuro incerto, destino sonhado
É o agarrar-se a esperança vã
e ver a vida correr qual seixo rolado...
923
Mário Donizete Massari
brasil
Seu nome era Raimundo
mas como é de praxe
apelidaram-no de mundo
Mas acharam tão
vasto, que resolveram
chamá-lo de
brasil
Ele tinha uma infância comum
num contexto relativo
Vivia às expensas dos outros
vez ou outra se nutria,
mas almejava um promissor
futuro.
Queria ser grande logo,
para desenvolver suas idéias,
já que possuía um potencial
significativo.
Corria atrás de bola
e sonhava conquistar o mundo
sendo um grande jogador
de futebol.
Enfim, teve brasil
uma infância comum,
num contexto relativo.
Perdi-os nos caminhos da vida
mas espero ainda revê-lo grande,
no futuro.
mas como é de praxe
apelidaram-no de mundo
Mas acharam tão
vasto, que resolveram
chamá-lo de
brasil
Ele tinha uma infância comum
num contexto relativo
Vivia às expensas dos outros
vez ou outra se nutria,
mas almejava um promissor
futuro.
Queria ser grande logo,
para desenvolver suas idéias,
já que possuía um potencial
significativo.
Corria atrás de bola
e sonhava conquistar o mundo
sendo um grande jogador
de futebol.
Enfim, teve brasil
uma infância comum,
num contexto relativo.
Perdi-os nos caminhos da vida
mas espero ainda revê-lo grande,
no futuro.
588
Maurício Batarce
Passos Temporais
A verdadeira vida vivida
Deve ser regada de mundo.
Os sonhos devem buscar
As grandes distâncias
E os olhos devem estar ligados
À verdade.
Na verdadeira vida vivida
Tudo funciona em harmonia.
A procura de nossas origens
Faz parte dela
E o passado serve como ponte
Para o que somos.
A verdadeira vida vivida
Nos transmite a voz da maturidade,
Demonstrando nosso presente a cada instante.
Nessa verdade, quando menos se espera,
O tempo já se foi.
O homem que é preso ao relógio
Leva rasteiras em sua verdadeira vida vivida.
Cada passo do ponteiro
É uma eternidade a menos
E o começo de uma nova eternidade.
Na verdadeira vida vivida
Escutamos o caminhar para o futuro
E aos poucos chegamos ao infinito.
As verdadeiras vidas vividas
Nada mais são do que
Verdadeiros passos temporais...
Deve ser regada de mundo.
Os sonhos devem buscar
As grandes distâncias
E os olhos devem estar ligados
À verdade.
Na verdadeira vida vivida
Tudo funciona em harmonia.
A procura de nossas origens
Faz parte dela
E o passado serve como ponte
Para o que somos.
A verdadeira vida vivida
Nos transmite a voz da maturidade,
Demonstrando nosso presente a cada instante.
Nessa verdade, quando menos se espera,
O tempo já se foi.
O homem que é preso ao relógio
Leva rasteiras em sua verdadeira vida vivida.
Cada passo do ponteiro
É uma eternidade a menos
E o começo de uma nova eternidade.
Na verdadeira vida vivida
Escutamos o caminhar para o futuro
E aos poucos chegamos ao infinito.
As verdadeiras vidas vividas
Nada mais são do que
Verdadeiros passos temporais...
794
Luis Germano Graal
Se de Repente
Se de repente
Subitamente
A qualquer instante
A qualquer momento
De repente e não mais que de repente
A gente
Ressuscitar
Se tudo o que aconteceu
Foi
Pantonima
Truque
Magia
Função de circo?
Se das cinzas
Se dos restos incendiados
Desta nave
Renascer
Aquela ave
Que antigamente renascia?
Se a gente parar de fazer perguntas
E procurar respostas?
Se as palavras
Pularem dos livros e das petições
Deixando todas as páginas
Em branco?
Se as folhas de papel
Retornarem
Às árvores originais?
Se as árvores originas
Voltarem
Aos elementos que foram antes?
Se o próprio antes retornar
Voltar
Ao que tinha sido ainda antes?
Subitamente
A qualquer instante
A qualquer momento
De repente e não mais que de repente
A gente
Ressuscitar
Se tudo o que aconteceu
Foi
Pantonima
Truque
Magia
Função de circo?
Se das cinzas
Se dos restos incendiados
Desta nave
Renascer
Aquela ave
Que antigamente renascia?
Se a gente parar de fazer perguntas
E procurar respostas?
Se as palavras
Pularem dos livros e das petições
Deixando todas as páginas
Em branco?
Se as folhas de papel
Retornarem
Às árvores originais?
Se as árvores originas
Voltarem
Aos elementos que foram antes?
Se o próprio antes retornar
Voltar
Ao que tinha sido ainda antes?
850
Lucídio Freitas
Perscrutadoramente
Perscrutadoramente os olhos ponho
No que fui, no que sou, no que hei de ser,
E alucinado dentro do meu sonho
Sinto a inutilidade do nascer.
Minha origem componho e recomponho,
Venho do berço ao túmulo... viver
Um instante só, e após, ermo e tristonho,
Sob o ventre da terra apodrecer.
Homem — parcela humilde, humilde e obscura,
Que anda perdida e desapercebida
Buscando os vermes de uma sepultura —
O que foste? o que és? para onde vais?
Esta angústia maldita da tua vida
Foi a maldita angústia dos teus Pais!
No que fui, no que sou, no que hei de ser,
E alucinado dentro do meu sonho
Sinto a inutilidade do nascer.
Minha origem componho e recomponho,
Venho do berço ao túmulo... viver
Um instante só, e após, ermo e tristonho,
Sob o ventre da terra apodrecer.
Homem — parcela humilde, humilde e obscura,
Que anda perdida e desapercebida
Buscando os vermes de uma sepultura —
O que foste? o que és? para onde vais?
Esta angústia maldita da tua vida
Foi a maldita angústia dos teus Pais!
1 465
Leda Costa Lima
Nuvens do Passado
Nuvens do passado,
negras, nebulosas,
de fatos marcantes
— já semi-esquecidos,
por que relembrar?
Contidas em caixa,
o tempo-borracha,
às vezes apaga,
lançando bem fundo,
dentro de um porão.
A caixa é escura:
— é o inconsciente,
parede invisível...
Confirmado, Freud?
Nuvens cor-de-rosa,
de sonhos dourados,
já concretizados,
de amores vividos
no nosso passado
ou vivenciados
no nosso presente,
convém relembrar!
Confirmado, gente?
Nuvens tão douradas,
sonhos aguardados,
que ainda estão por vir
no nosso porvir,
convém esperar
e sempre a sonhar!
Confirmado, amor?
negras, nebulosas,
de fatos marcantes
— já semi-esquecidos,
por que relembrar?
Contidas em caixa,
o tempo-borracha,
às vezes apaga,
lançando bem fundo,
dentro de um porão.
A caixa é escura:
— é o inconsciente,
parede invisível...
Confirmado, Freud?
Nuvens cor-de-rosa,
de sonhos dourados,
já concretizados,
de amores vividos
no nosso passado
ou vivenciados
no nosso presente,
convém relembrar!
Confirmado, gente?
Nuvens tão douradas,
sonhos aguardados,
que ainda estão por vir
no nosso porvir,
convém esperar
e sempre a sonhar!
Confirmado, amor?
921
João Marcio Furtado Costa
Dois mil e BUM
Dois mil e BUM
(12/96)
Ao fim daquele segundo, nada se resolveu no mundo.
Por mais importante que fosse, daquele segundo, o fruto,
Seu maior feito, seu intuito, foi de encerrar o minuto.
Mas, também, o minuto, nada mudou de concreto, pois,
Por mais que fosse certo, por mais tempo que desse ao agora,
Nada mais de útil fizera, do que a troca da hora.
E a hora foi embora, radiante de alegria,
Na dicotomia da noite, terminara mais um dia.
Não fora um dia qualquer, aquele 31 de dezembro.
Nem maior, nem menor, nem mais claro ou mais escuro.
Tampouco foi mais puro. Porém, e sem engano,
Ao seu final foi-se o ano, e deu as caras, o futuro.
Foi-se o segundo, o minuto. Foi-se a hora e, junto, o ano,
E o tempo, que é cigano, resolveu baixar o pano,
E encerrar, de vez, o século.
Foste o vigésimo e terminaste. Nada em ti foi respeitado.
Aquele segundo arrogante, agindo qual meliante,
Roubou de ti o legado.
Sei que foi fatalidade, mas perdeste a identidade,
Em dois dígitos já não cabes mais. És a mazela,
Que nos computadores, gerou calamidade provocando dores,
Que ninguém duvide, universais.
Ficou a melancolia. Alvíssaras ao novo século.
A vida ficou vazia. Alvíssaras ao vinte e um.
Disseram que de mil tu passarias,
E que a dois mil não chegarias,
Mesmo se um por todos e todos por um.
Já houve quem pensasse, antever o apocalipse,
Consequência derradeira de um eclipse,
Ou suicídio coletivo, numa guerra mundial.
Porém, ninguém, por mais que fosse visionário,
Pensaria ser possível, resultar tal corolário,
Nem Nostradamus vislumbrou final igual.
Acabar-se na clandestinidade, morto-vivo, que infelicidade
nos bancos de dados institucionais.
(12/96)
Ao fim daquele segundo, nada se resolveu no mundo.
Por mais importante que fosse, daquele segundo, o fruto,
Seu maior feito, seu intuito, foi de encerrar o minuto.
Mas, também, o minuto, nada mudou de concreto, pois,
Por mais que fosse certo, por mais tempo que desse ao agora,
Nada mais de útil fizera, do que a troca da hora.
E a hora foi embora, radiante de alegria,
Na dicotomia da noite, terminara mais um dia.
Não fora um dia qualquer, aquele 31 de dezembro.
Nem maior, nem menor, nem mais claro ou mais escuro.
Tampouco foi mais puro. Porém, e sem engano,
Ao seu final foi-se o ano, e deu as caras, o futuro.
Foi-se o segundo, o minuto. Foi-se a hora e, junto, o ano,
E o tempo, que é cigano, resolveu baixar o pano,
E encerrar, de vez, o século.
Foste o vigésimo e terminaste. Nada em ti foi respeitado.
Aquele segundo arrogante, agindo qual meliante,
Roubou de ti o legado.
Sei que foi fatalidade, mas perdeste a identidade,
Em dois dígitos já não cabes mais. És a mazela,
Que nos computadores, gerou calamidade provocando dores,
Que ninguém duvide, universais.
Ficou a melancolia. Alvíssaras ao novo século.
A vida ficou vazia. Alvíssaras ao vinte e um.
Disseram que de mil tu passarias,
E que a dois mil não chegarias,
Mesmo se um por todos e todos por um.
Já houve quem pensasse, antever o apocalipse,
Consequência derradeira de um eclipse,
Ou suicídio coletivo, numa guerra mundial.
Porém, ninguém, por mais que fosse visionário,
Pensaria ser possível, resultar tal corolário,
Nem Nostradamus vislumbrou final igual.
Acabar-se na clandestinidade, morto-vivo, que infelicidade
nos bancos de dados institucionais.
746
João Marcio Furtado Costa
O Tempo e a Vida
O Tempo e a Vida
(04/96)
Da vida vivida, a medida é o estado de energia,
e o limite é o próprio tempo: remédio e dimensão.
Passado, presente e futuro, fases da cronologia,
resultante da vivência, da razão e emoção.
Não se vive do passado, o passado, já passou,
não se muda ou se arrepende, se aprende e a bola rola.
Se o presente está errado, se ele é o fardo que restou,
então se muda, se corrige ou se joga a vida fora.
A vida se apresenta e vivo hoje, e vivendo eu faço a hora.
O sonho, eu sonho agora e realizo no amanhã.
O passado foi embora, é uma novela que acabou.
Se o tempo não parou, não sou eu quem vai parar,
comete suicídio, quem vive de passa-tempo,
desperdiçar o momento, é a vida, que se quer matar.
(04/96)
Da vida vivida, a medida é o estado de energia,
e o limite é o próprio tempo: remédio e dimensão.
Passado, presente e futuro, fases da cronologia,
resultante da vivência, da razão e emoção.
Não se vive do passado, o passado, já passou,
não se muda ou se arrepende, se aprende e a bola rola.
Se o presente está errado, se ele é o fardo que restou,
então se muda, se corrige ou se joga a vida fora.
A vida se apresenta e vivo hoje, e vivendo eu faço a hora.
O sonho, eu sonho agora e realizo no amanhã.
O passado foi embora, é uma novela que acabou.
Se o tempo não parou, não sou eu quem vai parar,
comete suicídio, quem vive de passa-tempo,
desperdiçar o momento, é a vida, que se quer matar.
880
João Carlos Teixeira Gomes
Ante o Mar
Ávido de sol poente,
me planto na extensão do rude cais
a ver o mar que sonha à minha frente
— tão longo como é longo o nunca mais.
As ondas me propõem ecos de um tempo
em que me desavim nas travessias,
porque nauta já fui, ao léu dos ventos,
premido entre tufões e calmarias.
E assim também me lanço pela vida
num jogo de fortunas alternadas,
buscando a dúbia rota presumida
entre as coisas presentes e passadas.
me planto na extensão do rude cais
a ver o mar que sonha à minha frente
— tão longo como é longo o nunca mais.
As ondas me propõem ecos de um tempo
em que me desavim nas travessias,
porque nauta já fui, ao léu dos ventos,
premido entre tufões e calmarias.
E assim também me lanço pela vida
num jogo de fortunas alternadas,
buscando a dúbia rota presumida
entre as coisas presentes e passadas.
1 115
Helena Parente Cunha
Quem
quem me habita provisória
nesta paisagem súbita
onde sou?
quem chora pranto antigo
nos meus olhos contemporâneos
desta viagem?
quem fui quando passei
aqui tão longe
de onde sou agora?
nesta paisagem súbita
onde sou?
quem chora pranto antigo
nos meus olhos contemporâneos
desta viagem?
quem fui quando passei
aqui tão longe
de onde sou agora?
1 079
Urhacy Faustino
Inversão de valores
Na minha infância
não conheci moeda,
senão o celeiro cheio
e as vacas gordas.
Precisava de roupa
trocava algodão por fazenda.
Carecia de aliança
trocava o trigo pelo ouro.
E éramos felizes!
Meus irmãos iludiram meus pais
com a visão dos novos tempos
e modernizaram tudo.
Saíram das tetas das vacas
direto para as teclas dos computadores:
não conseguiram ordenhar as máquinas.
Hoje trocamos dívidas.
não conheci moeda,
senão o celeiro cheio
e as vacas gordas.
Precisava de roupa
trocava algodão por fazenda.
Carecia de aliança
trocava o trigo pelo ouro.
E éramos felizes!
Meus irmãos iludiram meus pais
com a visão dos novos tempos
e modernizaram tudo.
Saíram das tetas das vacas
direto para as teclas dos computadores:
não conseguiram ordenhar as máquinas.
Hoje trocamos dívidas.
836
Fernanda Benevides
Rememorando
Revejo saudosa
um ontem bonito,
repleto de sonhos, quimeras, fantasias.
Revejo as manhãs primaveris
em que o sol me despertava
e da cama saltava cheia de viço.
Revejo as tardes crepusculares
em que o coração disparava
ao vislumbrar a lua que surgia;
em que meus olhos acendiam
ante o olhar das estrelas...
Revejo aquelas noites tumultuosas
em que rompia as amarras
e corria, ofegante, ao teu encalço.
Ah! Sentia-me um pássaro!
Rememorando um doce passado,
diluído, transformado,
revejo retalhos bonitos
dos quais não posso olvidar
e chego mesmo a suspirar...
um ontem bonito,
repleto de sonhos, quimeras, fantasias.
Revejo as manhãs primaveris
em que o sol me despertava
e da cama saltava cheia de viço.
Revejo as tardes crepusculares
em que o coração disparava
ao vislumbrar a lua que surgia;
em que meus olhos acendiam
ante o olhar das estrelas...
Revejo aquelas noites tumultuosas
em que rompia as amarras
e corria, ofegante, ao teu encalço.
Ah! Sentia-me um pássaro!
Rememorando um doce passado,
diluído, transformado,
revejo retalhos bonitos
dos quais não posso olvidar
e chego mesmo a suspirar...
812
Elielson Rodrigues
Clâmide Sepulcral
Não te atreles ao passado,
Ilumina teu céptico futuro,
e caminha ao meu lado,
sucumbindo em lugar seguro.
Dentre a bruma que cobre teu túmulo,
vi voar um anjo que me disse o quanto,
aquele lugar é santo,
queimando o velário que te torna nulo.
O Areópago me condena
à vida cenobial...
que outra gangrena,
me vestiria a clâmide sepulcral?
Ilumina teu céptico futuro,
e caminha ao meu lado,
sucumbindo em lugar seguro.
Dentre a bruma que cobre teu túmulo,
vi voar um anjo que me disse o quanto,
aquele lugar é santo,
queimando o velário que te torna nulo.
O Areópago me condena
à vida cenobial...
que outra gangrena,
me vestiria a clâmide sepulcral?
882
Cláudio Aguiar
Três Sonetos Metafísicos
A José Bonifácio Câmara
I
Por que gostamos tanto do passado?
A interrogante leva-me a pensar
no segredo que fica em si guardado,
que não sei se algum dia vou achar.
Perdido na palavra ou termo dado,
sempre o presente vive a deslizar
em busca do impossível já pensado
ou do que não se pode desvendar:
os três instantes num sopro da vida,
que poderia até vê-la esquecida,
no que será ou já foi existente.
O melhor é não mais perder o tempo,
ainda que eu resuma num momento
o passado e o futuro no presente.
II
Quanto mistério tem a flor guardado,
pois, desde sempre, desafia a mente
dos que desejam descobrir o dado
oculto no desvão duma semente.
E como o pólen nela está cravado,
dele o áspide mau tira somente
o venenoso, enquanto o mel levado
por uma abelha logo se pressente.
Quem tudo sabe pouco talvez veja.
Quem nada sabe afronta sua verdade
ou seu direito de bem percebê-la.
Que o mistério segredo sempre seja
para que nunca o mal vença a bondade,
impondo a morte à vida sem querê-la.
III
Algo há nas flores que acalentam feras,
chamando abelhas vivas do sereno
para as tocarem, há perdidas eras,
nunca alterando forma nem aceno.
É preciso viver as primaveras
para sentir o gestual e ameno,
esforço feito, sol florindo esperas,
elaborando o bom mel e o veneno.
Há nelas algo que esconde o mistério,
fazendo com que a abelha encontre o mel
no mesmo pólen que o áspide tira
o veneno letal, momento sério,
grito de morte, do holocausto ao fel,
que cega os olhos, apagando a pira.
I
Por que gostamos tanto do passado?
A interrogante leva-me a pensar
no segredo que fica em si guardado,
que não sei se algum dia vou achar.
Perdido na palavra ou termo dado,
sempre o presente vive a deslizar
em busca do impossível já pensado
ou do que não se pode desvendar:
os três instantes num sopro da vida,
que poderia até vê-la esquecida,
no que será ou já foi existente.
O melhor é não mais perder o tempo,
ainda que eu resuma num momento
o passado e o futuro no presente.
II
Quanto mistério tem a flor guardado,
pois, desde sempre, desafia a mente
dos que desejam descobrir o dado
oculto no desvão duma semente.
E como o pólen nela está cravado,
dele o áspide mau tira somente
o venenoso, enquanto o mel levado
por uma abelha logo se pressente.
Quem tudo sabe pouco talvez veja.
Quem nada sabe afronta sua verdade
ou seu direito de bem percebê-la.
Que o mistério segredo sempre seja
para que nunca o mal vença a bondade,
impondo a morte à vida sem querê-la.
III
Algo há nas flores que acalentam feras,
chamando abelhas vivas do sereno
para as tocarem, há perdidas eras,
nunca alterando forma nem aceno.
É preciso viver as primaveras
para sentir o gestual e ameno,
esforço feito, sol florindo esperas,
elaborando o bom mel e o veneno.
Há nelas algo que esconde o mistério,
fazendo com que a abelha encontre o mel
no mesmo pólen que o áspide tira
o veneno letal, momento sério,
grito de morte, do holocausto ao fel,
que cega os olhos, apagando a pira.
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