Poemas neste tema
Angústia
Angela Santos
Vozes
Dos
confins se ergue a voz
ouvidos e mente
cerrei ao apelo
Ergue –se um grito
no fundo de mim…
que verdade fala,
onde está o tempo
que a vai cumprir?
confins se ergue a voz
ouvidos e mente
cerrei ao apelo
Ergue –se um grito
no fundo de mim…
que verdade fala,
onde está o tempo
que a vai cumprir?
1 202
Ana Cristina Cesar
Psicografia
Também eu
saio á revelia
E procuro uma síntese nas demoras
Cato obsessões com fria têmpera e digo
Do coração: não soube e digo
Da palavra: não digo(não posso ainda acreditar
Na vida) e demito o verso como quem acena
E vivo como quem despede a raiva de Ter visto.
saio á revelia
E procuro uma síntese nas demoras
Cato obsessões com fria têmpera e digo
Do coração: não soube e digo
Da palavra: não digo(não posso ainda acreditar
Na vida) e demito o verso como quem acena
E vivo como quem despede a raiva de Ter visto.
3 612
Almandrade
II
O tema ronda
a lógica
invade
a língua
disparidades
não faz
insiste
inquebrável
ao menos
não diz
a razão
é um pensamento
sem saída.
a lógica
invade
a língua
disparidades
não faz
insiste
inquebrável
ao menos
não diz
a razão
é um pensamento
sem saída.
1 035
Lívia Araújo
Senta e Espera
A angústia
em repouso
Do meu ardor o ensejo
É quando em ti o olhar pouso
Eu não mais fujo, eu só te vejo.
Alegre ou triste, tens nos olhos um segredo
Que engana a todos e me engana
Quando me negas um beijo.
É então que me alimentas a chama.
Com loucura de quem ama,
Corro, canso, caio, arquejo
Eu me equivoco, não me chamas
Mas é a ti que desejo.
em repouso
Do meu ardor o ensejo
É quando em ti o olhar pouso
Eu não mais fujo, eu só te vejo.
Alegre ou triste, tens nos olhos um segredo
Que engana a todos e me engana
Quando me negas um beijo.
É então que me alimentas a chama.
Com loucura de quem ama,
Corro, canso, caio, arquejo
Eu me equivoco, não me chamas
Mas é a ti que desejo.
828
Zazé
Dias
Há dias que chegam
Branco, claros,
Envoltos em luz de esperança
Por uma paz que não tenho.
Canto solitário do meu olhar
Que abarca o rio, a serra, o mar.
Ah, que força é esta que me move?
Donde vem?
Branco, claros,
Envoltos em luz de esperança
Por uma paz que não tenho.
Canto solitário do meu olhar
Que abarca o rio, a serra, o mar.
Ah, que força é esta que me move?
Donde vem?
781
Susana Pestana
Espaços
As minhas
lágrimas partiram-se
No entendimento da vida.
Quebrou-se a inocência na minha alma.
Hoje vivo na angústia de ter o conhecimento
De nunca me ter sentido amada.
Estou mergulhada na fúria
De perceber o absurdo do desespero
Destes temporais da vida.
Subo suavemente esquecida
nas escadas amanhecidas
Sem sentir os instalados na minha vida.
lágrimas partiram-se
No entendimento da vida.
Quebrou-se a inocência na minha alma.
Hoje vivo na angústia de ter o conhecimento
De nunca me ter sentido amada.
Estou mergulhada na fúria
De perceber o absurdo do desespero
Destes temporais da vida.
Subo suavemente esquecida
nas escadas amanhecidas
Sem sentir os instalados na minha vida.
945
Luiz Felipe Coelho
No princípio, era o verbo
Ando,
mesmo sem saber as respostas,
nem ao menos as perguntas,
tropeçando,
quando triste,
em vermelhos céus do fim da tarde,
esquecendo,
quando a chuva vem me acordar,
da alegria de um novo dia...
Meus sentimentos reclamam comigo
Como é desastrado! - furiosos,
varro os cacos e saio,
assobiando para disfarçar.
mesmo sem saber as respostas,
nem ao menos as perguntas,
tropeçando,
quando triste,
em vermelhos céus do fim da tarde,
esquecendo,
quando a chuva vem me acordar,
da alegria de um novo dia...
Meus sentimentos reclamam comigo
Como é desastrado! - furiosos,
varro os cacos e saio,
assobiando para disfarçar.
910
Alexandre Turri
Talvez a Morte
Eu
olhei em tua face...
você a desviou de meu alcance
Virou sem dizer uma palavra
foi pra longe de mim.
Ainda lembro dos seus olhos
olhos que machucam sem dizer uma palavra
expressões que arrancam lágrimas.
Lágrimas derrubadas por um amor não vivido,
amor não correspondido.
Se soubesse por onde andei até chegar aqui...
mas duvido que vá se importar
pois sou apenas um passatempo,
a minha angústia lhe faz feliz
minhas lágrimas matam tua estranha sede
e meu eterno amor serve para sua pura diversão.
Não imagino porque faz isso comigo
talvez tenha um anjo mau querendo brincar com minha vida
ou talvez seja um destino mau traçado.
Mas de uma coisa estou certo...
...a brincadeira acabou.
Não irei mais atrás de você...acabou,
cansei de sofrer, cansei de ir atrás de meus sonhos...
...na verdade...
....CANSEI DE VIVER.
Não vejo mais o porque disso...
tudo que amava era você
Era a única razão da minha vida
Eu te apaguei de meus pensamentos.
Agora a vida não tem o mesmo sentido de antes...
....Qual a ÚNICA coisa que me resta...?
olhei em tua face...
você a desviou de meu alcance
Virou sem dizer uma palavra
foi pra longe de mim.
Ainda lembro dos seus olhos
olhos que machucam sem dizer uma palavra
expressões que arrancam lágrimas.
Lágrimas derrubadas por um amor não vivido,
amor não correspondido.
Se soubesse por onde andei até chegar aqui...
mas duvido que vá se importar
pois sou apenas um passatempo,
a minha angústia lhe faz feliz
minhas lágrimas matam tua estranha sede
e meu eterno amor serve para sua pura diversão.
Não imagino porque faz isso comigo
talvez tenha um anjo mau querendo brincar com minha vida
ou talvez seja um destino mau traçado.
Mas de uma coisa estou certo...
...a brincadeira acabou.
Não irei mais atrás de você...acabou,
cansei de sofrer, cansei de ir atrás de meus sonhos...
...na verdade...
....CANSEI DE VIVER.
Não vejo mais o porque disso...
tudo que amava era você
Era a única razão da minha vida
Eu te apaguei de meus pensamentos.
Agora a vida não tem o mesmo sentido de antes...
....Qual a ÚNICA coisa que me resta...?
820
Reinaldo Ferreira
No amplo e ermo degredo
No amplo e ermo degredo
Da Noite enorme incriada,
Acesso ao átrio do medo,
Reverso a negro do Nada.
Erra uma asa, partida,
Dum qualquer pássaro morto,
Que só porque erra tem vida
No mar do nada sem porto.
É quando passa e projecta
Na Sombra sombra erradia
Que nasce a mãe dum poeta
E se concebe a poesia.
Da Noite enorme incriada,
Acesso ao átrio do medo,
Reverso a negro do Nada.
Erra uma asa, partida,
Dum qualquer pássaro morto,
Que só porque erra tem vida
No mar do nada sem porto.
É quando passa e projecta
Na Sombra sombra erradia
Que nasce a mãe dum poeta
E se concebe a poesia.
1 931
Reinaldo Ferreira
Que estranha, a nossa verdade
Que estranha, a nossa verdade!
Às vezes, partida a meio,
Minha ilusória unidade,
Pensando, sinto, pensei-o.
Mas quando penso o que penso
Estou-o pensando também.
Na vertigem, não me venço
E recuo e vou além
Daquilo pra que há defesa.
Feliz quem pode parar
Onde a certeza é certeza
E pensar é só pensar!
Às vezes, partida a meio,
Minha ilusória unidade,
Pensando, sinto, pensei-o.
Mas quando penso o que penso
Estou-o pensando também.
Na vertigem, não me venço
E recuo e vou além
Daquilo pra que há defesa.
Feliz quem pode parar
Onde a certeza é certeza
E pensar é só pensar!
1 985
Reinaldo Ferreira
Porque a não tenho? Tão doce
Porque a não tenho? Tão doce
E tão ao pé de acabar!
Largando, como se fosse
Um barco novo a chegar!
Quisera-a, para brinquedo
Da minha vã meninice.
Nem brincaria, com medo
Que ela, de frágil, partisse.
Bastava só que ficasse
Mito a roçar-se no Fim
E o seu sorriso acalmasse
A angústia dentro de mim.
E tão ao pé de acabar!
Largando, como se fosse
Um barco novo a chegar!
Quisera-a, para brinquedo
Da minha vã meninice.
Nem brincaria, com medo
Que ela, de frágil, partisse.
Bastava só que ficasse
Mito a roçar-se no Fim
E o seu sorriso acalmasse
A angústia dentro de mim.
2 011
Reinaldo Ferreira
Onde, aguardando, esperasse
Onde, aguardando, esperasse,
Onde, cantando, me ouvisse,
Onde, podendo, bastasse,
Onde, vivendo, existisse.
Onde o intuito trouxesse
O corpo de se cumprir
E eu todo sempre me desse,
Aí seria também
De exílio a minha atitude.
O que é longe é sempre o Bem,
Por mais que a alma se mude.
Onde, cantando, me ouvisse,
Onde, podendo, bastasse,
Onde, vivendo, existisse.
Onde o intuito trouxesse
O corpo de se cumprir
E eu todo sempre me desse,
Aí seria também
De exílio a minha atitude.
O que é longe é sempre o Bem,
Por mais que a alma se mude.
1 747
Moranno Portela
Homem Moderno
Teus olhos míopes
ouvem a notícia do mundo;
teus ouvidos moucos
vêem o oco do mundo;
teu olfato cúpido
devora as fezes do mundo;
teu parvo paladar
aspira a essência do nada
e reténs, em tuas mãos vazias,
essa pacífica e tenebrosa
ilusão de realidade.
ouvem a notícia do mundo;
teus ouvidos moucos
vêem o oco do mundo;
teu olfato cúpido
devora as fezes do mundo;
teu parvo paladar
aspira a essência do nada
e reténs, em tuas mãos vazias,
essa pacífica e tenebrosa
ilusão de realidade.
807
Rogério Bessa
Do Canto V:
Viagem Dentro e ao Redor de um Canteiro/
Seus Pronomes Relativos ou Passeio no Quintal:
Antilhas
tem de seu a vegetal baga,
de gente, essa servilidade
e em todas as prestanças úteis,
o querer-ser e ser o que é.
em forma de glândula e pêlo,
a angústia sai pelas folhas
e a tristeza de coisa estampa
a palidez de suas flores.
na maturidade, enrubece
a agridoce ovóide baga,
na substância de polpa aquosa;
tenção de não-servir contente.
Seus Pronomes Relativos ou Passeio no Quintal:
Antilhas
tem de seu a vegetal baga,
de gente, essa servilidade
e em todas as prestanças úteis,
o querer-ser e ser o que é.
em forma de glândula e pêlo,
a angústia sai pelas folhas
e a tristeza de coisa estampa
a palidez de suas flores.
na maturidade, enrubece
a agridoce ovóide baga,
na substância de polpa aquosa;
tenção de não-servir contente.
828
Nelson Motta
Noite Interna
ao longo da longa noite
luzem luas, lumem luzes
que no entanto não clareiam
minha busca da manhã.
faltam forças
frágil fraquejo e por fim
fujo da faceminha que me fita:
feroz figura, feia criatura,
fruta fenecida a me fitar no espelho.
luzem luas, lumem luzes
que no entanto não clareiam
minha busca da manhã.
faltam forças
frágil fraquejo e por fim
fujo da faceminha que me fita:
feroz figura, feia criatura,
fruta fenecida a me fitar no espelho.
1 200
Iranildo Sampaio
Elogio da Pressa
Lanço o meu desafio.
Sou como o pássaro que fica de vigília no pomar
esperando que o fruto amadureça.
Hoje é dia de paz.
Acomodo-me na minha rouquidão e me calo de vez.
O anjo que me guarda não conhece este exílio
onde apodreço sozinho.
Sustento esta bengala.
Lá fora, a tarde protesta contra a minha trajetória
e muda de percurso.
Sufoco os efeitos de minha solidão e continuo alheio
aos meus propósitos.
Não sei recomeçar.
Melhor é ficar dentro do búzio e esperar que o
silêncio reabra novamente suas velhas cortinas.
Reduzo as minhas intenções a um quadro novo
e esbarro no irreal.
Cada instante é uma reta ligando a minha angústia
ao olho do universo.
Tudo me parece relativo.
A vida foge ao controle de minhas decisões
e me deixa perplexo.
Meus caminhos são amplos.
Apalpo a hora vagarosa em sua órbita em torno
do incriado.
Vivo o segredo dos ausentes sem teto.
Estou no centro geométrico de todas as idéias
e não sei o que penso.
Por enquanto, apenas a verdade me aproxima do que sou
e deste tema resumido.
Sou como o pássaro que fica de vigília no pomar
esperando que o fruto amadureça.
Hoje é dia de paz.
Acomodo-me na minha rouquidão e me calo de vez.
O anjo que me guarda não conhece este exílio
onde apodreço sozinho.
Sustento esta bengala.
Lá fora, a tarde protesta contra a minha trajetória
e muda de percurso.
Sufoco os efeitos de minha solidão e continuo alheio
aos meus propósitos.
Não sei recomeçar.
Melhor é ficar dentro do búzio e esperar que o
silêncio reabra novamente suas velhas cortinas.
Reduzo as minhas intenções a um quadro novo
e esbarro no irreal.
Cada instante é uma reta ligando a minha angústia
ao olho do universo.
Tudo me parece relativo.
A vida foge ao controle de minhas decisões
e me deixa perplexo.
Meus caminhos são amplos.
Apalpo a hora vagarosa em sua órbita em torno
do incriado.
Vivo o segredo dos ausentes sem teto.
Estou no centro geométrico de todas as idéias
e não sei o que penso.
Por enquanto, apenas a verdade me aproxima do que sou
e deste tema resumido.
779
José Paulo Moreira da Fonseca
Paisagem Noturna
Era uma hora isenta de toda a melancolia,
uma certeza ainda mais densa
contra a qual nada havia a fazer.
Já o ouro se fôra,
restava aquele azul de vidro que acende as constelações
e o céu pareceu-me a pupila de um rei
morrendo, e a sombra iluminava as coisas
de um lívido rigor.
Senti-me aflito
como o homem a quem revelassem um segredo extremo
que a própria memória temeria não esquecer.
uma certeza ainda mais densa
contra a qual nada havia a fazer.
Já o ouro se fôra,
restava aquele azul de vidro que acende as constelações
e o céu pareceu-me a pupila de um rei
morrendo, e a sombra iluminava as coisas
de um lívido rigor.
Senti-me aflito
como o homem a quem revelassem um segredo extremo
que a própria memória temeria não esquecer.
1 047
Danilo Melo
Náuseas
Saltitante entre as marquises
O desespero revelado de cada dia
Aqui jaz a substância humana
Armazenada em programas de computador
E a carne meus amigos,
A carne finge que é bela.
Crônicas do massacre urbano e livre
O amor enlatado e vendido com etiquetas de 1a qualidade
Aqui descreve-se a moral do ocidente escrita em boas maneiras.
Promíscua continua a poesia procurando a existência
Deserto é o coração, o homem permanece cheio
Todo o cosmo ri de mim quando faço poemas
minha linguagem é de um mundo atrasado
Preocupado eternamente com a morte, em vez da vida.
Sente-se fome de si, e náusea.
O desespero revelado de cada dia
Aqui jaz a substância humana
Armazenada em programas de computador
E a carne meus amigos,
A carne finge que é bela.
Crônicas do massacre urbano e livre
O amor enlatado e vendido com etiquetas de 1a qualidade
Aqui descreve-se a moral do ocidente escrita em boas maneiras.
Promíscua continua a poesia procurando a existência
Deserto é o coração, o homem permanece cheio
Todo o cosmo ri de mim quando faço poemas
minha linguagem é de um mundo atrasado
Preocupado eternamente com a morte, em vez da vida.
Sente-se fome de si, e náusea.
421
Francisco Tribuzi
Sina
A gente grita, corre, sufoca e morre.
A gente canta, encanta, explode e pára.
A gente avança, recua, esbarra na rua.
A gente ama, trai, reclama e cai.
A gente come, some, chora a fome.
A gente ganha, sonha, acorda, esvai.
A gente cala, fala, escala e crê.
A gente reza, preza, é preso. E a fé?
A gente é medo doente da própria gente.
A gente canta, encanta, explode e pára.
A gente avança, recua, esbarra na rua.
A gente ama, trai, reclama e cai.
A gente come, some, chora a fome.
A gente ganha, sonha, acorda, esvai.
A gente cala, fala, escala e crê.
A gente reza, preza, é preso. E a fé?
A gente é medo doente da própria gente.
933
Cid Teixeira de Abreu
Soneto de Amor
o meu amor é só. como as gaivotas,
criei-o na aurora dos rochedos,
acima da impotência dos enredos,
na trilha insondável de outras rotas.
meu amor é meu ser e meus segredos,
a virtude trincada de revoltas.
se não há o querer de eras remotas,
ausência também há de velhos medos...
e cibório de nervos e memória
tensa, coberta de sangue — oh granito!
dólmans brancos nas páginas da história.
o meu amor... quem sabe compreendê-lo,
se a própria alma, na angústia do infinito,
é chama e cinza, é ternura e gelo?!...
criei-o na aurora dos rochedos,
acima da impotência dos enredos,
na trilha insondável de outras rotas.
meu amor é meu ser e meus segredos,
a virtude trincada de revoltas.
se não há o querer de eras remotas,
ausência também há de velhos medos...
e cibório de nervos e memória
tensa, coberta de sangue — oh granito!
dólmans brancos nas páginas da história.
o meu amor... quem sabe compreendê-lo,
se a própria alma, na angústia do infinito,
é chama e cinza, é ternura e gelo?!...
1 082
Carlyle Martins
Tapera
É quase ruína em meio à selva espessa e bruta,
Dentro da solidão, sem amparo e sem dono,
A tapera que, no ermo, unicamente escuta,
O vento a perpassar, na indolência do outono.
Noite morta. Em redor, o matagal se enluta.
Há um sombrio torpor de tristeza e abandono,
Como se a alma da terra, após contínua luta,
No silêncio dormisse um prolongado sono.
Passam, no alto, a cantar, aves de mau agouro...
Tudo quieto. Há uni mistério, uma angústia infinita,
No véu da escuridão, que no espaço se eleva.
Não brilham no céu plúmbeo e triste os astros de ouro!
E ela, na solitude em que a saudade habita,
É um es erro ue assombra o próprio horror da treva.
Dentro da solidão, sem amparo e sem dono,
A tapera que, no ermo, unicamente escuta,
O vento a perpassar, na indolência do outono.
Noite morta. Em redor, o matagal se enluta.
Há um sombrio torpor de tristeza e abandono,
Como se a alma da terra, após contínua luta,
No silêncio dormisse um prolongado sono.
Passam, no alto, a cantar, aves de mau agouro...
Tudo quieto. Há uni mistério, uma angústia infinita,
No véu da escuridão, que no espaço se eleva.
Não brilham no céu plúmbeo e triste os astros de ouro!
E ela, na solitude em que a saudade habita,
É um es erro ue assombra o próprio horror da treva.
902
César William
Labirinto
Libertei-me da muralha,
Agora sou escravo das profecias.
Estou nutrindo-me de migalha
Em cada canto das periferias.
Agora sou hálito infame
No cume da cumplicidade.
Entre mil doenças... "Derrame"...
A centelha da humanidade.
Continuo perdido
À procura de outra "muralha"
Agora sou parto ferido
Nutrindo-me de nova migalha...
De nada adiantaram as leituras
Se agora sou somente vestígio
em um ermo de mil amarguras
Não sei mais o que fazer (perdi o prestígio)
Sou agora o único sobrevivente
Deste labirinto medonho.
Preciso de um verso urgente
Para findar este sonho...
Agora sou escravo das profecias.
Estou nutrindo-me de migalha
Em cada canto das periferias.
Agora sou hálito infame
No cume da cumplicidade.
Entre mil doenças... "Derrame"...
A centelha da humanidade.
Continuo perdido
À procura de outra "muralha"
Agora sou parto ferido
Nutrindo-me de nova migalha...
De nada adiantaram as leituras
Se agora sou somente vestígio
em um ermo de mil amarguras
Não sei mais o que fazer (perdi o prestígio)
Sou agora o único sobrevivente
Deste labirinto medonho.
Preciso de um verso urgente
Para findar este sonho...
779
Cruz Filho
Sugestão de Beethoven
Noite. Ermo... Um luar de abril quase morto na bruma.
Silêncio. Ar medieval de algum convento em ruína...
Num piano, cujo som do jazigo te exuma,
Beethoven chora e geme, em lúgubre surdina...
Há um êxtase em redor. Dorme o arvoredo. Alguma
Cousa indizível paira entre o alvor da neblina,
E a alma da solidão, que um mistério perfuma,
Enche a terra em torpor de uma angústia divina...
E, à música de dor, que na bruma se espalha,
Surgem alvas visões... Há um rumor de mortalha...
Deslizam, sob o luar, Desdêmona e Cordélia...
E, na sombra, a espreitar a ampla noite, que o pasma
Passa do pobre Hanleto o dorido fantasma,
A arrastar, pela cinta, o cadáver de Ofélia...
Silêncio. Ar medieval de algum convento em ruína...
Num piano, cujo som do jazigo te exuma,
Beethoven chora e geme, em lúgubre surdina...
Há um êxtase em redor. Dorme o arvoredo. Alguma
Cousa indizível paira entre o alvor da neblina,
E a alma da solidão, que um mistério perfuma,
Enche a terra em torpor de uma angústia divina...
E, à música de dor, que na bruma se espalha,
Surgem alvas visões... Há um rumor de mortalha...
Deslizam, sob o luar, Desdêmona e Cordélia...
E, na sombra, a espreitar a ampla noite, que o pasma
Passa do pobre Hanleto o dorido fantasma,
A arrastar, pela cinta, o cadáver de Ofélia...
948
Alcides Freitas
Hamlet
Não sei que estranha dor meu peito dilacera,
Que esquisito negror meu espírito ensombra!
Tenho sorrisos de anjo e arreganhes de fera,
Sinto chamas de inferno e frescuras de alfombra!
Sou malvado e sou bom! Minhalma ora é sincera,
ora de ser traidora ela própria se assombra!
Que clamores de inverno e paz de primavera!...
Escarneço da morte e temo a minha sombra!
Nervo a nervo, a vibrar, misteriosa e vaga,
Anda-me o corpo todo a nevrose de um tédio,
Que dos pés à cabeça atrozmente me alaga...
Onde um recurso ao mal que me banha e transborda?
Minha dor é sem fim! Eu só tenho um remédio:
o suicídio — uma bala... um punhal... uma corda!...
Que esquisito negror meu espírito ensombra!
Tenho sorrisos de anjo e arreganhes de fera,
Sinto chamas de inferno e frescuras de alfombra!
Sou malvado e sou bom! Minhalma ora é sincera,
ora de ser traidora ela própria se assombra!
Que clamores de inverno e paz de primavera!...
Escarneço da morte e temo a minha sombra!
Nervo a nervo, a vibrar, misteriosa e vaga,
Anda-me o corpo todo a nevrose de um tédio,
Que dos pés à cabeça atrozmente me alaga...
Onde um recurso ao mal que me banha e transborda?
Minha dor é sem fim! Eu só tenho um remédio:
o suicídio — uma bala... um punhal... uma corda!...
848