Poemas neste tema
Recomeço e Renascimento
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ressurgiremos
Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta
Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta
Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta
Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta
Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta
Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta
Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta
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2
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Fontes
Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.
Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.
Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.
Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.
Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.
8 383
2
Sophia de Mello Breyner Andresen
Apesar Das Ruínas E da Morte
Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.
8 273
2
Lindolf Bell
Os Ciclos
I
Existe em nós
não o novo
mas o renascido.
Pesamos por isto as verdades
sobre a balança sem pêndulo.
E contra os que nos britam
com seu peso de ave
lançamos roucas interrogações
sobre a morte,
sim, sobre a morte,
Com anzóis a dragar-nos da memória.
Existe em nós
não o novo
mas o renascido.
Comportamos por isto o lastro,
o lastro de termos sido
e virmos a ser.
Sentimos os pequenos gritos
como ficam imensos
quando a noite junca as fibras
e quando no silêncio brotam devagar
os pais de outras nações.
Existe em nós
não o novo
mas o renascido.
E apesar da haste gritar
contra o caule
e ferir o grito
com tempos sem fim,
a essência persiste como essência.
Então, o amor nos justifica,
e, carga imersa, revela-se concepção.
Mas de um plano qualquer retornamos
com a solidão de todas as solidões.
Poema integrante da série Incorporação.
In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
Existe em nós
não o novo
mas o renascido.
Pesamos por isto as verdades
sobre a balança sem pêndulo.
E contra os que nos britam
com seu peso de ave
lançamos roucas interrogações
sobre a morte,
sim, sobre a morte,
Com anzóis a dragar-nos da memória.
Existe em nós
não o novo
mas o renascido.
Comportamos por isto o lastro,
o lastro de termos sido
e virmos a ser.
Sentimos os pequenos gritos
como ficam imensos
quando a noite junca as fibras
e quando no silêncio brotam devagar
os pais de outras nações.
Existe em nós
não o novo
mas o renascido.
E apesar da haste gritar
contra o caule
e ferir o grito
com tempos sem fim,
a essência persiste como essência.
Então, o amor nos justifica,
e, carga imersa, revela-se concepção.
Mas de um plano qualquer retornamos
com a solidão de todas as solidões.
Poema integrante da série Incorporação.
In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
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2
Mafalda Veiga
Charco
Se chover na madrugada em que eu procuro o meu caminho
Será vaga a nostalgia que outro charco faz viver
A canção lânguida e lenta de quem vai devagarinho
Em cada charco uma mágoa que não se pode esquecer
Tenho ideias que não tenho, sentimentos que não sinto
Sou imagem de outra imagem que se fez não sei de quê
Procurando a minha rota, descobrindo o que não minto
E o que monto atiro fora para nascer outra vez
Não sou forte nem sou pedra nem sou muro levantado
Nem sou obra que se erga pouco a pouco, tempo afora
Antes sou como uma ideia que se despe do passado
Uma planta enraizada na sina da sua hora
Se chover na madrugada em que eu procuro o meu caminho
E eu cair em cada charco mas seguir por onde vou
Deixarei de olhar no rio de todos mas tão baixinho
Porque é mais profundo o charco onde o que vejo é o que sou.
Será vaga a nostalgia que outro charco faz viver
A canção lânguida e lenta de quem vai devagarinho
Em cada charco uma mágoa que não se pode esquecer
Tenho ideias que não tenho, sentimentos que não sinto
Sou imagem de outra imagem que se fez não sei de quê
Procurando a minha rota, descobrindo o que não minto
E o que monto atiro fora para nascer outra vez
Não sou forte nem sou pedra nem sou muro levantado
Nem sou obra que se erga pouco a pouco, tempo afora
Antes sou como uma ideia que se despe do passado
Uma planta enraizada na sina da sua hora
Se chover na madrugada em que eu procuro o meu caminho
E eu cair em cada charco mas seguir por onde vou
Deixarei de olhar no rio de todos mas tão baixinho
Porque é mais profundo o charco onde o que vejo é o que sou.
1 582
2
Marguerite Duras
Ontem à noite
Ontem à noite, depois da sua partida definitiva, fui para
aquela sala do rés-do-chão que dá para o parque, fui para
ali onde fico sempre no mês de junho, esse mês que inaugura o Inverno.
Tinha varrido a casa, tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral.
Estava tudo depurado de vida, isento, vazio de sinais, e depois disse para comigo:
vou começar a escrever para me curar da mentira de um amor que acaba.
Tinha lavado as minhas coisas, quatro coisas, estava tudo limpo, o meu corpo,
o meu cabelo, a minha roupa, e também aquilo que encerrava o todo, o corpo e a roupa, estes quartos, esta casa, este parque.
E depois comecei a escrever...
aquela sala do rés-do-chão que dá para o parque, fui para
ali onde fico sempre no mês de junho, esse mês que inaugura o Inverno.
Tinha varrido a casa, tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral.
Estava tudo depurado de vida, isento, vazio de sinais, e depois disse para comigo:
vou começar a escrever para me curar da mentira de um amor que acaba.
Tinha lavado as minhas coisas, quatro coisas, estava tudo limpo, o meu corpo,
o meu cabelo, a minha roupa, e também aquilo que encerrava o todo, o corpo e a roupa, estes quartos, esta casa, este parque.
E depois comecei a escrever...
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2
Vladimir Maiakovski
DEDUÇÃO
Não acabarão com o amor, nem as rusgas, nem a distância.
Está provado, pensado, verificado.
Aqui levanto solene minha estrofe de mil dedos e faço o juramento:
Amo firme, fiel e verdadeiramente. (1922)
* = Antiga praça de Moscou, atual Praça Púchkin. A Propósito Disto *
A Fé Distendei vossa espera o quanto quiserdes - tão clara, duma clareza tão alucinante é minha visão que, dir-se-ia, bastava o tempo de liquidar esta rima, para, grimpando ao longo do verso, entrar numa vida maravilhosa.
Eu não preciso indagar o que e como.
Vejo-o, nítido, até os último detalhes, no ar, camada sobre camada, como pedra sobre pedra.
Vejo erguer-se, fulgurando no pináculo dos séculos, isento de podridões ou poeiras, o laboratório das ressurreições humanas.
Eis o calmo químico, a vasta fronte franzida em meio à experiência .
Num livro, "Toda a terra" procura ele um nome.
"O Século Vinte...vejamos, a quem ressuscitar?
A Maiacóvski talvez...
Não, busquemos matéria mais interessante!
Não era bastante belo esse poeta Será então minha vez de gritar daqui mesmo, desta página de hoje:
"Pára, não folheies mais! É a mim que deves ressuscitar!"
A Esperança Injeta sangue no meu coração, enche-me até o bordo das veias! Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre , sobre a terra não vivi o meu'bocado de amor.
Eu era gigante de porte, mas para que este tamanho?
Para tal trabalho basta uma polegada. Com um toco de pena, eu rabiscava papel, num canto do quarto, encolhido, como um par de óculos dobrado dentro do estojo. Mas tudo que quiserdes eu farei de graça: esfregar, lavar, escovar, flanar, montar guarda. Posso, se vos agradar, servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastante porteiros?
Eu era um tipo alegre, mas que fazer da alegria, quando a dor é um rio sem vau? Em nossos dias, se os dentes vos mostrarem não é senão para vos morder ou dilacerar.
O que quer que aconteça, aflições, pesar... Chamai-me!
Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas, hipérboles e alegorias, malabares dar-vos-ei em versos.
Eu amei...mas é melhor não mexer nisso. Te sentes mal? Tanto pior... Gosta-se, afinal, da própria dor. Vejamos... Amo também os bichos - vós os criais, em vossos parques? Pois, tomai-me para guarda dos bichos. Gosto deles. Basta-me ver um desses cães vadios, como aquele de junto à padaria, um verdadeiro vira-lata! e no entanto, por ele, arrancaria meu próprio fígado: Toma, querido, sem cerimônia, come!
Está provado, pensado, verificado.
Aqui levanto solene minha estrofe de mil dedos e faço o juramento:
Amo firme, fiel e verdadeiramente. (1922)
* = Antiga praça de Moscou, atual Praça Púchkin. A Propósito Disto *
A Fé Distendei vossa espera o quanto quiserdes - tão clara, duma clareza tão alucinante é minha visão que, dir-se-ia, bastava o tempo de liquidar esta rima, para, grimpando ao longo do verso, entrar numa vida maravilhosa.
Eu não preciso indagar o que e como.
Vejo-o, nítido, até os último detalhes, no ar, camada sobre camada, como pedra sobre pedra.
Vejo erguer-se, fulgurando no pináculo dos séculos, isento de podridões ou poeiras, o laboratório das ressurreições humanas.
Eis o calmo químico, a vasta fronte franzida em meio à experiência .
Num livro, "Toda a terra" procura ele um nome.
"O Século Vinte...vejamos, a quem ressuscitar?
A Maiacóvski talvez...
Não, busquemos matéria mais interessante!
Não era bastante belo esse poeta Será então minha vez de gritar daqui mesmo, desta página de hoje:
"Pára, não folheies mais! É a mim que deves ressuscitar!"
A Esperança Injeta sangue no meu coração, enche-me até o bordo das veias! Mete-me no crânio pensamentos!
Não vivi até o fim o meu bocado terrestre , sobre a terra não vivi o meu'bocado de amor.
Eu era gigante de porte, mas para que este tamanho?
Para tal trabalho basta uma polegada. Com um toco de pena, eu rabiscava papel, num canto do quarto, encolhido, como um par de óculos dobrado dentro do estojo. Mas tudo que quiserdes eu farei de graça: esfregar, lavar, escovar, flanar, montar guarda. Posso, se vos agradar, servir-vos de porteiro.
Há, entre vós, bastante porteiros?
Eu era um tipo alegre, mas que fazer da alegria, quando a dor é um rio sem vau? Em nossos dias, se os dentes vos mostrarem não é senão para vos morder ou dilacerar.
O que quer que aconteça, aflições, pesar... Chamai-me!
Um sujeito engraçado pode ser útil.
Eu vos proporei charadas, hipérboles e alegorias, malabares dar-vos-ei em versos.
Eu amei...mas é melhor não mexer nisso. Te sentes mal? Tanto pior... Gosta-se, afinal, da própria dor. Vejamos... Amo também os bichos - vós os criais, em vossos parques? Pois, tomai-me para guarda dos bichos. Gosto deles. Basta-me ver um desses cães vadios, como aquele de junto à padaria, um verdadeiro vira-lata! e no entanto, por ele, arrancaria meu próprio fígado: Toma, querido, sem cerimônia, come!
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2
Antero de Quental
Maria
Tenho cantado esperancas...
Tenho falado damores...
Das saudades e dos sonhos
Com que embalo as minhas dores...
Entre os ventos suspirando
Vagas, tenues harmonias,
Tendes visto como correm
Minhas doidas fantasias.
E eu cuidei que era poesia
Todo esse louco sonhar...
Cuidei saber o que e vida
So porque sei delirar...
So porque a noite, dormindo
Ao seio duma visao,
Encontrava algum alivio,
Meu dorido coracao,
Cuidei ser amor aquilo
E ser aquilo viver...
Oh! que sonhos que se abracam
Quando se quer esquecer !
Eram fantasmas que a noite
Trouxe, e o dia ja levou...
A luz d?estranha alvorada
Hoje minha alma acordou !
Esquecei aqueles cantos...
So agora sei falar !
Perdoa-me esses delirios...
So agora soube amar !
Tenho falado damores...
Das saudades e dos sonhos
Com que embalo as minhas dores...
Entre os ventos suspirando
Vagas, tenues harmonias,
Tendes visto como correm
Minhas doidas fantasias.
E eu cuidei que era poesia
Todo esse louco sonhar...
Cuidei saber o que e vida
So porque sei delirar...
So porque a noite, dormindo
Ao seio duma visao,
Encontrava algum alivio,
Meu dorido coracao,
Cuidei ser amor aquilo
E ser aquilo viver...
Oh! que sonhos que se abracam
Quando se quer esquecer !
Eram fantasmas que a noite
Trouxe, e o dia ja levou...
A luz d?estranha alvorada
Hoje minha alma acordou !
Esquecei aqueles cantos...
So agora sei falar !
Perdoa-me esses delirios...
So agora soube amar !
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2
Helena Amin
Manhã
Estais de volta!
Espirais de luz...
Múltiplas faces!
Cala em mim
a corrosão do desencanto.
Dá-me o direito
de tê-la assim:
desejada e liberta
— infinitamente! —
Espirais de luz...
Múltiplas faces!
Cala em mim
a corrosão do desencanto.
Dá-me o direito
de tê-la assim:
desejada e liberta
— infinitamente! —
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2
Emílio Moura
Poema
Renasces em ti mesma e por ti mesma.
Movimentas o sonho, a poesia e as aventuras imprevisíveis.
O imponderável é a tua matéria.
A poesia só me visita para que te realizes,
para que eu te sinta e te compreenda.
Que caminhos te prendem,
que ignotas rotas te iluminam?
Uma rosa se forma entre o teu sorriso e a aurora.
De repente,
tudo se torna tão irreal
que te sinto visível.
Movimentas o sonho, a poesia e as aventuras imprevisíveis.
O imponderável é a tua matéria.
A poesia só me visita para que te realizes,
para que eu te sinta e te compreenda.
Que caminhos te prendem,
que ignotas rotas te iluminam?
Uma rosa se forma entre o teu sorriso e a aurora.
De repente,
tudo se torna tão irreal
que te sinto visível.
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2
Castro Alves
A Volta da Primavera
Aime, et tu renaítras; fais-toi fleur pour éclore,
Après avoir souffert, il faut souffrir encore;
Il faut aimer sans cesse, après avoir aimé.
A. DE MUSSET
AI! Não maldigas minha fronte pálida,
E o peito gasto ao referver de amores.
Vegetam louros — na caveira esquálida
E a sepultura se reveste em flores.
Bem sei que um dia o vendaval da sorte
Do mar lançou-me na gelada areia.
Serei... que importa? o D. Juan da morte
Dá-me o teu seio — e tu serás Haidéia!
Pousa esta mão — nos meus cabelos úmidos!...
Ensina à brisa ondulações suaves!
Dá-me um abrigo nos teus seios túmidos!
Fala!... que eu ouço o pipilar das aves!
Já viste às vezes, quando o sol de maio
Inunda o vale, o matagal e a veiga?
Murmura a relva: "Que suave raio!"
Responde o ramo: "Como a luz é meiga!"
E, ao doce influxo do clarão do dia,
O junco exausto, que cedera à enchente,
Levanta a fronte da lagoa fria...
Mergulha a fronte na lagoa ardente ...
Se a natureza apaixonada acorda
Ao quente afago do celeste amante,
Diz!... Quando em fogo o teu olhar transborda,
Não vês minhalma reviver ovante?
É que teu riso me penetra nalma —
Como a harmonia de uma orquestra santa —
É que teu riso tanta dor acalma...
Tanta descrença!... Tanta angústia!... Tanta!
Que eu digo ao ver tua celeste fronte,
"O céu consola toda dor que existe.
Deus fez a neve — para o negro monte!
Deus fez a virgem — para o bardo triste!"
Après avoir souffert, il faut souffrir encore;
Il faut aimer sans cesse, après avoir aimé.
A. DE MUSSET
AI! Não maldigas minha fronte pálida,
E o peito gasto ao referver de amores.
Vegetam louros — na caveira esquálida
E a sepultura se reveste em flores.
Bem sei que um dia o vendaval da sorte
Do mar lançou-me na gelada areia.
Serei... que importa? o D. Juan da morte
Dá-me o teu seio — e tu serás Haidéia!
Pousa esta mão — nos meus cabelos úmidos!...
Ensina à brisa ondulações suaves!
Dá-me um abrigo nos teus seios túmidos!
Fala!... que eu ouço o pipilar das aves!
Já viste às vezes, quando o sol de maio
Inunda o vale, o matagal e a veiga?
Murmura a relva: "Que suave raio!"
Responde o ramo: "Como a luz é meiga!"
E, ao doce influxo do clarão do dia,
O junco exausto, que cedera à enchente,
Levanta a fronte da lagoa fria...
Mergulha a fronte na lagoa ardente ...
Se a natureza apaixonada acorda
Ao quente afago do celeste amante,
Diz!... Quando em fogo o teu olhar transborda,
Não vês minhalma reviver ovante?
É que teu riso me penetra nalma —
Como a harmonia de uma orquestra santa —
É que teu riso tanta dor acalma...
Tanta descrença!... Tanta angústia!... Tanta!
Que eu digo ao ver tua celeste fronte,
"O céu consola toda dor que existe.
Deus fez a neve — para o negro monte!
Deus fez a virgem — para o bardo triste!"
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2
Sylvia Plath
Lady Lazarus
Lady Lazarus
I have done it again.
One year in every ten
I manage it
A sort of walking miracle, my skin
Bright as a Nazi lampshade,
My right foot
A paperweight,
My featureless, fine
Jew linen.
Peel off the napkin
O my enemy.
Do I terrify?
The nose, the eye pits, the full set of teeth?
The sour breath
Will vanish in a day.
Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on me
And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.
This is Number Three.
What a trash
To annihilate each decade.
What a million filaments.
The Peanut-crunching crowd
Shoves in to see
Them unwrap me hand in foot
The big strip tease.
Gentleman , ladies
These are my hands
My knees.
I may be skin and bone,
Nevertheless, I am the same, identical woman.
The first time it happened I was ten.
It was an accident.
The second time I meant
To last it out and not come back at all.
I rocked shut
As a seashell.
They had to call and call
And pick the worms off me like sticky pearls.
Dying
Is an art, like everything else.
I do it exceptionally well.
I do it so it feels like hell.
I do it so it feels real.
I guess you could say Ive a call.
Its easy enough to do it in a cell.
Its easy enough to do it and stay put.
Its the theatrical
Comeback in broad day
To the same place, the same face, the same brute
Amused shout:
A miracle!
That knocks me out.
There is a charge
For the eyeing my scars, there is a charge
For the hearing of my heart
It really goes.
And there is a charge, a very large charge
For a word or a touch
Or a bit of blood
Or a piece of my hair on my clothes.
So, so, Herr Doktor.
So, Herr Enemy.
I am your opus,
I am your valuable,
The pure gold baby
That melts to a shriek.
I turn and burn.
Do not think I underestimate your great concern.
Ash, ash
You poke and stir.
Flesh, bone, there is nothing there
A cake of soap,
A wedding ring,
A gold filling.
Herr God, Herr Lucifer
Beware
Beware.
Out of the ash
I rise with my red hair
And I eat men like air.
I have done it again.
One year in every ten
I manage it
A sort of walking miracle, my skin
Bright as a Nazi lampshade,
My right foot
A paperweight,
My featureless, fine
Jew linen.
Peel off the napkin
O my enemy.
Do I terrify?
The nose, the eye pits, the full set of teeth?
The sour breath
Will vanish in a day.
Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on me
And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.
This is Number Three.
What a trash
To annihilate each decade.
What a million filaments.
The Peanut-crunching crowd
Shoves in to see
Them unwrap me hand in foot
The big strip tease.
Gentleman , ladies
These are my hands
My knees.
I may be skin and bone,
Nevertheless, I am the same, identical woman.
The first time it happened I was ten.
It was an accident.
The second time I meant
To last it out and not come back at all.
I rocked shut
As a seashell.
They had to call and call
And pick the worms off me like sticky pearls.
Dying
Is an art, like everything else.
I do it exceptionally well.
I do it so it feels like hell.
I do it so it feels real.
I guess you could say Ive a call.
Its easy enough to do it in a cell.
Its easy enough to do it and stay put.
Its the theatrical
Comeback in broad day
To the same place, the same face, the same brute
Amused shout:
A miracle!
That knocks me out.
There is a charge
For the eyeing my scars, there is a charge
For the hearing of my heart
It really goes.
And there is a charge, a very large charge
For a word or a touch
Or a bit of blood
Or a piece of my hair on my clothes.
So, so, Herr Doktor.
So, Herr Enemy.
I am your opus,
I am your valuable,
The pure gold baby
That melts to a shriek.
I turn and burn.
Do not think I underestimate your great concern.
Ash, ash
You poke and stir.
Flesh, bone, there is nothing there
A cake of soap,
A wedding ring,
A gold filling.
Herr God, Herr Lucifer
Beware
Beware.
Out of the ash
I rise with my red hair
And I eat men like air.
1 672
2
António Carlos Cortez
Poesia
Quando não esperas nada
não esperas nada
Quando não esperas nada
tudo acontece
Quando não esperas nada
o nada é certo
Quando não esperas nada
das leis do verso
Quando não esperas nada
porque esperavas?
Quando não esperas nada
lembras fantasmas
Quando não esperas nada
o som concreto
do poema cresce e tu recebes
lição de um nada em tudo
e recomeças
não esperas nada
Quando não esperas nada
tudo acontece
Quando não esperas nada
o nada é certo
Quando não esperas nada
das leis do verso
Quando não esperas nada
porque esperavas?
Quando não esperas nada
lembras fantasmas
Quando não esperas nada
o som concreto
do poema cresce e tu recebes
lição de um nada em tudo
e recomeças
1 478
1
Charles Bukowski
Brilho Roxo
vejo os sapatos
de salto alto e uma rosa branca murcha
que jaz no bar
como um punho
cerrado.
uísque faz o coração bater mais depressa
mas com certeza não ajuda a
mente e não é engraçado como você pode sentir dor
só com o mortífero rumor da
existência?
vejo essa
dançarina de striptease correndo ao longo do balcão
do bar
rebolando aquilo que ela acha
mágico
com todas aquelas caras encarando
por cima dos drinques
caros demais.
e eu? aqui? porra nenhuma,
realmente, não ligava para
ela mas amo a pulsação da
música alta e chapada tamborilando
no brilho roxo, qualquer
coisa sobre isso tudo: dificilmente
me senti melhor alguma vez.
eu a olho, a boneca
roxa tão
triste tão barata tão
triste, você nunca iria querer ir
para a cama com ela ou mesmo escutar sua
conversa, no entanto naquele lugar bêbado
você iria
gostar de passar seu coração para ela
e dizer
toque-o
mas depois
devolva-o.
ela dança tão vigorosamente agora no
brilho roxo,
o roxo mexe comigo de modo estranho:
houve uma noite
30 anos atrás
eu estava bêbado, é verdade, e havia
um Cristo roxo em uma caixa de vidro
do lado de fora de uma igrejinha e eu
arrebentei o vidro, eu quebrei
o vidro, e aí alcancei e toquei
Cristo mas
Ele era apenas um boneco e eu escutei as
sirenes em seguida e comecei
a correr.
bem, minha mente nunca mais foi €a mesma
desde então e bater à máquina ajuda mas você não pode
bater à máquina o tempo todo, assim a dançarina de striptease agora
parte o que sobrou do meu coração e eu
não sei por que mas começo a dar dinheiro
para todo mundo no bar, dou uma nota de cinco para esse
cara, uma de dez para aquele, acho que talvez possa
despertá-los para a sabedoria
disso tudo
mas eles nem sequer dizem
"obrigado", acham que sou apenas um
louco.
o gerente chega e diz
que estou expulso dali, passo-lhe uma nota de
vinte, ele a
pega.
dois amigos
estavam sentados em uma mesa
dos fundos, eles me ajudam a levantar e sair do
bar.
acho a situação muito
engraçada mas eles estão
furiosos:
cadê o seu carro?
cadê a porra do seu
carro?
eu digo, eu
sei lá.
que merda, eles
dizem e
me deixam sentado sozinho
nos degraus de
um prédio
de apartamentos.
acendo e fumo um cigarro.
depois me levanto e começo a longa
caminhada, uma caminhada que sei
que levará pelo menos umas duas
horas
até eu achar meu carro (experiência anterior)
mas eu sei que ao
encontrá-lo o turbilhão de
felicidade será
tudo de que preciso
e serei capaz de
recomeçar
a minha vida
mais uma vez.
de salto alto e uma rosa branca murcha
que jaz no bar
como um punho
cerrado.
uísque faz o coração bater mais depressa
mas com certeza não ajuda a
mente e não é engraçado como você pode sentir dor
só com o mortífero rumor da
existência?
vejo essa
dançarina de striptease correndo ao longo do balcão
do bar
rebolando aquilo que ela acha
mágico
com todas aquelas caras encarando
por cima dos drinques
caros demais.
e eu? aqui? porra nenhuma,
realmente, não ligava para
ela mas amo a pulsação da
música alta e chapada tamborilando
no brilho roxo, qualquer
coisa sobre isso tudo: dificilmente
me senti melhor alguma vez.
eu a olho, a boneca
roxa tão
triste tão barata tão
triste, você nunca iria querer ir
para a cama com ela ou mesmo escutar sua
conversa, no entanto naquele lugar bêbado
você iria
gostar de passar seu coração para ela
e dizer
toque-o
mas depois
devolva-o.
ela dança tão vigorosamente agora no
brilho roxo,
o roxo mexe comigo de modo estranho:
houve uma noite
30 anos atrás
eu estava bêbado, é verdade, e havia
um Cristo roxo em uma caixa de vidro
do lado de fora de uma igrejinha e eu
arrebentei o vidro, eu quebrei
o vidro, e aí alcancei e toquei
Cristo mas
Ele era apenas um boneco e eu escutei as
sirenes em seguida e comecei
a correr.
bem, minha mente nunca mais foi €a mesma
desde então e bater à máquina ajuda mas você não pode
bater à máquina o tempo todo, assim a dançarina de striptease agora
parte o que sobrou do meu coração e eu
não sei por que mas começo a dar dinheiro
para todo mundo no bar, dou uma nota de cinco para esse
cara, uma de dez para aquele, acho que talvez possa
despertá-los para a sabedoria
disso tudo
mas eles nem sequer dizem
"obrigado", acham que sou apenas um
louco.
o gerente chega e diz
que estou expulso dali, passo-lhe uma nota de
vinte, ele a
pega.
dois amigos
estavam sentados em uma mesa
dos fundos, eles me ajudam a levantar e sair do
bar.
acho a situação muito
engraçada mas eles estão
furiosos:
cadê o seu carro?
cadê a porra do seu
carro?
eu digo, eu
sei lá.
que merda, eles
dizem e
me deixam sentado sozinho
nos degraus de
um prédio
de apartamentos.
acendo e fumo um cigarro.
depois me levanto e começo a longa
caminhada, uma caminhada que sei
que levará pelo menos umas duas
horas
até eu achar meu carro (experiência anterior)
mas eu sei que ao
encontrá-lo o turbilhão de
felicidade será
tudo de que preciso
e serei capaz de
recomeçar
a minha vida
mais uma vez.
668
1
Pablo Neruda
Sempre
Ao contrário de ti
não tenho ciúmes.
Vem com um homem
às costas,
vem com cem homens nos teus cabelos,
vem com mil homens entre os seios e os pés,
vem como um rio
cheio de afogados
que encontra o mar furioso,
a espuma eterna, o tempo.
Trá-los todos
até onde te espero:
estaremos sempre sozinhos,
estaremos sempre tu e eu
sozinhos na terra
para começar a vida.
não tenho ciúmes.
Vem com um homem
às costas,
vem com cem homens nos teus cabelos,
vem com mil homens entre os seios e os pés,
vem como um rio
cheio de afogados
que encontra o mar furioso,
a espuma eterna, o tempo.
Trá-los todos
até onde te espero:
estaremos sempre sozinhos,
estaremos sempre tu e eu
sozinhos na terra
para começar a vida.
1 534
1
Pablo Neruda
A Lâmpada Marinha
Portugal,
volta ao mar, a teus navios,
Portugal, volta ao homem, ao marinheiro,
à tua terra volta, à tua fragrância,
à tua razão livre no vento,
de novo
à luz matutina
do cravo e a espuma.
Mostra-nos teu tesouro,
teus homens, tuas mulheres.
Não escondas mais teu rosto
de embarcação valente
posta nas avançadas do oceano.
Portugal, navegante,
descobridor de ilhas,
inventor de pimentas,
descobre o novo homem,
as ilhas assombradas,
descobre o arquipélago no tempo.
A súbita
aparição
do pão
sobre a mesa,
a aurora,
descobre-a,
descobridor de auroras.
Como é isto?
Como podes negar-te
ao céu da luz, tu, que mostraste
caminhos aos cegos?
Tu, doce e férreo e velho,
estreito e largo pai
do horizonte, como
podes trancar a porta
aos novos cachos
e ao vento com estrelas do Oriente?
Proa da Europa, busca
na corrente
as ondas ancestrais,
a marítima barba
de Camões.
Rompe
as teias de aranha
que cobrem teu fragrante arvoredo,
e então
a nós os filhos de teus filhos,
aqueles para os quais
descobriste a areia
até então obscura
da geografia deslumbrante,
mostra-nos que podes
atravessar de novo
o novo mar escuro
e descobrir o homem que nasceu
nas ilhas maiores da terra.
Navega, Portugal, a hora
chegou, levanta
tua estatura de proa
e entre as ilhas e os homens volta
a ser caminho.
Nesta idade conjuga
tua luz, volta a ser lâmpada:
aprenderás de novo a ser estrela.
volta ao mar, a teus navios,
Portugal, volta ao homem, ao marinheiro,
à tua terra volta, à tua fragrância,
à tua razão livre no vento,
de novo
à luz matutina
do cravo e a espuma.
Mostra-nos teu tesouro,
teus homens, tuas mulheres.
Não escondas mais teu rosto
de embarcação valente
posta nas avançadas do oceano.
Portugal, navegante,
descobridor de ilhas,
inventor de pimentas,
descobre o novo homem,
as ilhas assombradas,
descobre o arquipélago no tempo.
A súbita
aparição
do pão
sobre a mesa,
a aurora,
descobre-a,
descobridor de auroras.
Como é isto?
Como podes negar-te
ao céu da luz, tu, que mostraste
caminhos aos cegos?
Tu, doce e férreo e velho,
estreito e largo pai
do horizonte, como
podes trancar a porta
aos novos cachos
e ao vento com estrelas do Oriente?
Proa da Europa, busca
na corrente
as ondas ancestrais,
a marítima barba
de Camões.
Rompe
as teias de aranha
que cobrem teu fragrante arvoredo,
e então
a nós os filhos de teus filhos,
aqueles para os quais
descobriste a areia
até então obscura
da geografia deslumbrante,
mostra-nos que podes
atravessar de novo
o novo mar escuro
e descobrir o homem que nasceu
nas ilhas maiores da terra.
Navega, Portugal, a hora
chegou, levanta
tua estatura de proa
e entre as ilhas e os homens volta
a ser caminho.
Nesta idade conjuga
tua luz, volta a ser lâmpada:
aprenderás de novo a ser estrela.
2 201
1
Stela do Patrocínio
Eu sobrevivi do nada
Eu sobrevivi do nada, do nada
Eu não existia
Não tinha existência
Não tinha uma matéria
Comecei a existir com quinhentos milhões
e quinhentos mil anos
Logo de uma vez, já velha
Eu não nasci criança, nasci já velha
Depois é que eu virei criança
...
Eu não existia
Não tinha existência
Não tinha uma matéria
Comecei a existir com quinhentos milhões
e quinhentos mil anos
Logo de uma vez, já velha
Eu não nasci criança, nasci já velha
Depois é que eu virei criança
...
1 245
1
Adélia Prado
O Que Pode Ser Dito
Quase indizível o experimento histórico,
porque o mês é setembro,
o ano, o de 2011
e às três da manhã me percebo acordada
me equilibrando à beira de um buraco
de que só agora meço o fundo e escuto
a radiação contínua de uma dor
por anos de distração ignorada.
Quem pode me consolar
a não ser Vós, face desfigurada de solidão e tormento?
Que fiz eu, desatenta a vida inteira?
Com que ocupava as horas
quando, à minha frente, muda
levantáveis os olhos para mim
esperando mais que migalhas?
Chorem comigo, céus,
para que o desvão transborde.
Me socorre, pai, mãe, me socorre,
irmãos meus, ancestrais, pecadores todos.
Quem viu o que vejo
venha me socorrer.
Sempre quis ver Jesus
e Ele esteve comigo o tempo todo.
Só era preciso um olhar,
um olhar atento meu.
Era só ficar junto e de modo perfeito
tudo estaria bem, de modo miraculoso.
Ó Vós que me fizestes,
bendigo-Vos pela cruz
da qual ainda viva me desprendes.
Eu não preciso mais acreditar.
Na minha carne eu sei que sois o amor
e é dele que renasço
e posso voltar a dormir.
porque o mês é setembro,
o ano, o de 2011
e às três da manhã me percebo acordada
me equilibrando à beira de um buraco
de que só agora meço o fundo e escuto
a radiação contínua de uma dor
por anos de distração ignorada.
Quem pode me consolar
a não ser Vós, face desfigurada de solidão e tormento?
Que fiz eu, desatenta a vida inteira?
Com que ocupava as horas
quando, à minha frente, muda
levantáveis os olhos para mim
esperando mais que migalhas?
Chorem comigo, céus,
para que o desvão transborde.
Me socorre, pai, mãe, me socorre,
irmãos meus, ancestrais, pecadores todos.
Quem viu o que vejo
venha me socorrer.
Sempre quis ver Jesus
e Ele esteve comigo o tempo todo.
Só era preciso um olhar,
um olhar atento meu.
Era só ficar junto e de modo perfeito
tudo estaria bem, de modo miraculoso.
Ó Vós que me fizestes,
bendigo-Vos pela cruz
da qual ainda viva me desprendes.
Eu não preciso mais acreditar.
Na minha carne eu sei que sois o amor
e é dele que renasço
e posso voltar a dormir.
1 487
1
Carlos Drummond de Andrade
Áporo
Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha.
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha.
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.
1 768
1
Ruy Belo
À chegada dos dias grandes
Da luva lentamente aliviada
a minha mão procura a primavera
Nas pétalas não poisa já geada
e o dia é já maior que ontem era
Não temo mesmo aquilo que temera
se antes viesse: chuva ou trovoada
é este o Deus que o meu peito venera
Sinto-me ser eu que não era nada
A primavera é o meu país
Saio à rua sento-me no chão
e abro os braços e deito raiz
E dá flores até a minha mão
Sei que foi isto que sem querer quis
e reconheço a minha condição.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 172 | Editorial Presença Lda., 1984
a minha mão procura a primavera
Nas pétalas não poisa já geada
e o dia é já maior que ontem era
Não temo mesmo aquilo que temera
se antes viesse: chuva ou trovoada
é este o Deus que o meu peito venera
Sinto-me ser eu que não era nada
A primavera é o meu país
Saio à rua sento-me no chão
e abro os braços e deito raiz
E dá flores até a minha mão
Sei que foi isto que sem querer quis
e reconheço a minha condição.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 172 | Editorial Presença Lda., 1984
2 157
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Maria Natália Teotónio Pereira
Aquela que tanto amou
O sol e o vento da canção
Agora jaz no silêncio terrestre
Oculta na ressurreição
Porque em seu viver nascia
Porque estando era procura
Sua imagem permanece
Não passada mas futura
Sempre que rio e confio
E passo além do meu pranto
A sua presença irrompe
Erguida em nós como canto
Aquela que agora jaz
Como semente no chão
Ergue no vento seu riso
Transpõe a destruição
O sol e o vento da canção
Agora jaz no silêncio terrestre
Oculta na ressurreição
Porque em seu viver nascia
Porque estando era procura
Sua imagem permanece
Não passada mas futura
Sempre que rio e confio
E passo além do meu pranto
A sua presença irrompe
Erguida em nós como canto
Aquela que agora jaz
Como semente no chão
Ergue no vento seu riso
Transpõe a destruição
2 220
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ítaca
Quando as luzes da noite se reflectirem imóveis nas águas verdes de Brindisi
Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras passos remos e guindastes
A alegria estará em ti acesa como um fruto
Irás à proa entre os negrumes da noite
Sem nenhum vento sem nenhuma brisa só um sussurrar de búzio no silêncio
Mas pelo súbito balanço pressentirás os cabos
Quando o barco rolar na escuridão fechada
Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar
Porque esta é a vigília de um segundo nascimento
O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial
Emergirás confirmada e reunida
Espantada e jovem como as estátuas arcaicas
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto
Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras passos remos e guindastes
A alegria estará em ti acesa como um fruto
Irás à proa entre os negrumes da noite
Sem nenhum vento sem nenhuma brisa só um sussurrar de búzio no silêncio
Mas pelo súbito balanço pressentirás os cabos
Quando o barco rolar na escuridão fechada
Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar
Porque esta é a vigília de um segundo nascimento
O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial
Emergirás confirmada e reunida
Espantada e jovem como as estátuas arcaicas
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto
3 523
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Acaia
Aqui despi meu vestido de exílio
E sacudi de meus passos a poeira do desencontro
E sacudi de meus passos a poeira do desencontro
2 656
1
Ruy Belo
Segunda infância
À tua palavra me acolho lá onde
o dia começa e o corpo nos renasce
Regresso recém-nascido ao teu regaço
minha mais funda infância meu paul
Voltam de novo as folhas para as árvores
e nunca as lágrimas deixaram os olhos
Nem houve céus forrados sobre as horas
nem míseras ideias de cotim
despovoaram alegres tardes de pássaros
O sol continua a ser o único
acontecimento importante da rua
Eu passo mas não peço às árvores
coração para além dos frutos
Tu és ainda o maior dos mares
e embrulho-me na voz com que desdobras
o inumerável número dos dias
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 29 | Editorial Presença Lda., 1984
o dia começa e o corpo nos renasce
Regresso recém-nascido ao teu regaço
minha mais funda infância meu paul
Voltam de novo as folhas para as árvores
e nunca as lágrimas deixaram os olhos
Nem houve céus forrados sobre as horas
nem míseras ideias de cotim
despovoaram alegres tardes de pássaros
O sol continua a ser o único
acontecimento importante da rua
Eu passo mas não peço às árvores
coração para além dos frutos
Tu és ainda o maior dos mares
e embrulho-me na voz com que desdobras
o inumerável número dos dias
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 29 | Editorial Presença Lda., 1984
1 717
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