Poemas neste tema
Saudade e Ausência
Silvaney Paes
Vira-Latas
Somos de
uma antiga linhagem
De nobres e orgulhosos vira-latas,
Aos quais, nunca nada faz falta,
Sendo que carregamos na bagagem,
Apenas saudades de tantas estradas
E das boas almas que para traz foram largadas.
Mas nessa matilha existe uma alma,
De especial forma amarrada
A uma saudade de uma estrada,
Que jamais foi pisada e nem o saberá,
Pois como todo bom vira-latas,
Morre de medo de água.
E é por isso que nas noite mais claras,
Sabendo que a lua cheia é o melhor espelho,
Da dor de toda alma,
Sobe na serra mais alta e uiva,
Implorando para aquela dama celeste,
Que reflita um minuto que seja,
Uma outra serra,
Noutra terra, além mar,
Onde pode estar sua amada
Admirando a mesma solitária silhueta,
E que espera ver nela,
Ou em qualquer estrela retratada.
uma antiga linhagem
De nobres e orgulhosos vira-latas,
Aos quais, nunca nada faz falta,
Sendo que carregamos na bagagem,
Apenas saudades de tantas estradas
E das boas almas que para traz foram largadas.
Mas nessa matilha existe uma alma,
De especial forma amarrada
A uma saudade de uma estrada,
Que jamais foi pisada e nem o saberá,
Pois como todo bom vira-latas,
Morre de medo de água.
E é por isso que nas noite mais claras,
Sabendo que a lua cheia é o melhor espelho,
Da dor de toda alma,
Sobe na serra mais alta e uiva,
Implorando para aquela dama celeste,
Que reflita um minuto que seja,
Uma outra serra,
Noutra terra, além mar,
Onde pode estar sua amada
Admirando a mesma solitária silhueta,
E que espera ver nela,
Ou em qualquer estrela retratada.
980
1
Ednólia Fontenele
O Rio Deságua em Mim
O rio deságua em mim!
algum braço do Parnaíba
prende minha intenção de viver longe.
Estou aqui
mas permaneço lá,
suando com o calor
de suas tardes quentes
que se afogam nas águas do mar.
O RIO PARNAÍBA DESÁGUA EM MIM
algum braço do Parnaíba
prende minha intenção de viver longe.
Estou aqui
mas permaneço lá,
suando com o calor
de suas tardes quentes
que se afogam nas águas do mar.
O RIO PARNAÍBA DESÁGUA EM MIM
935
1
Virgílio Fernandes Almeida
A morena sestrosa e os 60 mais
Olho pela janela da sala e vejo apenas ruas completamente nevadas. Ninguém, nem uma alma viva! Apenas o frio, que ocupa cada pedaço dessa região norte da costa leste dos EUA, chamada de Nova Inglaterra. Do lado de dentro, a lembrança do calor tropical invade todos espaços da sala e do coração. O som toca incessantemente os príncipes da música brasileira: Tom Jobim, João Gilberto, Caetano e Gil. Os versos de Ary Barroso, na voz suave e no violão preciso de João Gilberto, ecoam e repicam na minha cabeça: "Brasil, terra boa e gostosa, da morena sestrosa de olhar indiferente…" Agora, quando preparo o retorno ao Brasil, depois de mais uma longa temporada no exterior, vejo as diferenças culturais entre o nosso país e os EUA pipocarem na minha cabeça.
A revista eletrônica "Slate", que chega no meu computador todo sábado de manhã pela Internet, publicou no início de dezembro uma reportagem intitulada "Os 60 mais". Para a surpresa dos leitores, não estavam ali relacionados as 60 maiores fortunas dos EUA. A lista era no entanto formada pelas 60 maiores doações feitas por pessoas à sociedade americana. Doações destinadas a propiciar avanços nas ciências, nas artes e na cultura. São doações que vão para institutos de pesquisas, universidades, hospitais, museus e bibliotecas principalmente. A lista foi encabeçada pela doação de 100 milhões de dólares, feita por um rico empresário de supermercados do estado de Utah para a criação do Instituto Skaggs (nome do empresário) de pesquisa em biologia química, com o intuito de estudar novos medicamentos. Um doador, que preferiu o anonimato, entregou a Universidade da Califórnia em Los Angeles um cheque de 45 milhões de dólares para a construção de um centro de pesquisa em genética e neurociências. Um casal de Nova York doou ao Museu Metropolitano da cidade quadros de Picasso, Modigliani, Braquer e outros no valor de 60 milhões de dólares. Embora não fazendo juz ao título de homem mais rico dos EUA, Bill Gates, presidente da Microsoft, doou 25 milhões ao Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Harvard, onde ele foi estudante no início dos anos 70.
Em 1996, as doações dos americanos perfizeram um total de 143,9 bilhões de dólares. Para se ter uma idéia do impacto que essas doações têm no avanço das ciências, da tecnologia e da medicina nos EUA, basta comparar os números acima com o total de gastos em pesquisa feitos pelo Ministério de Ciência e Tecnologia do Brasil em 1994, que foram da ordem de 900 milhões de dólares. Está claro que a sociedade americana não vê o governo como responsável por tudo! Há, por todo os EUA, um forte espírito de comunidade, que nós brasileiros cegamente teimamos em ignorar.
Mas por que tantas doações? Seria apenas generosidade? Claro que não! As razões são várias. Vão desde o caráter filantrópico, até as motivações de natureza moral, religiosa e histórica da sociedade americana. Por exemplo, a revista "Slate" espera que a publicação anual da lista dos "60 mais" acirre o espiríto competitivo entre os ricos americanos, para ver quem vai doar mais no próximo ano. Mas antes de tudo, as doações estão ligadas também à visão e ao pragmatismo do americano. Ou seja, investir naquilo que trará benefícios para a sociedade americana a longo prazo. E os investimentos nas ciências, nas artes, na literatura e na cultura em geral são favas contadas. São indispensáveis para qualquer país que busca uma qualidade de vida e um futuro brilhante para sua população.
A revista eletrônica "Slate", que chega no meu computador todo sábado de manhã pela Internet, publicou no início de dezembro uma reportagem intitulada "Os 60 mais". Para a surpresa dos leitores, não estavam ali relacionados as 60 maiores fortunas dos EUA. A lista era no entanto formada pelas 60 maiores doações feitas por pessoas à sociedade americana. Doações destinadas a propiciar avanços nas ciências, nas artes e na cultura. São doações que vão para institutos de pesquisas, universidades, hospitais, museus e bibliotecas principalmente. A lista foi encabeçada pela doação de 100 milhões de dólares, feita por um rico empresário de supermercados do estado de Utah para a criação do Instituto Skaggs (nome do empresário) de pesquisa em biologia química, com o intuito de estudar novos medicamentos. Um doador, que preferiu o anonimato, entregou a Universidade da Califórnia em Los Angeles um cheque de 45 milhões de dólares para a construção de um centro de pesquisa em genética e neurociências. Um casal de Nova York doou ao Museu Metropolitano da cidade quadros de Picasso, Modigliani, Braquer e outros no valor de 60 milhões de dólares. Embora não fazendo juz ao título de homem mais rico dos EUA, Bill Gates, presidente da Microsoft, doou 25 milhões ao Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Harvard, onde ele foi estudante no início dos anos 70.
Em 1996, as doações dos americanos perfizeram um total de 143,9 bilhões de dólares. Para se ter uma idéia do impacto que essas doações têm no avanço das ciências, da tecnologia e da medicina nos EUA, basta comparar os números acima com o total de gastos em pesquisa feitos pelo Ministério de Ciência e Tecnologia do Brasil em 1994, que foram da ordem de 900 milhões de dólares. Está claro que a sociedade americana não vê o governo como responsável por tudo! Há, por todo os EUA, um forte espírito de comunidade, que nós brasileiros cegamente teimamos em ignorar.
Mas por que tantas doações? Seria apenas generosidade? Claro que não! As razões são várias. Vão desde o caráter filantrópico, até as motivações de natureza moral, religiosa e histórica da sociedade americana. Por exemplo, a revista "Slate" espera que a publicação anual da lista dos "60 mais" acirre o espiríto competitivo entre os ricos americanos, para ver quem vai doar mais no próximo ano. Mas antes de tudo, as doações estão ligadas também à visão e ao pragmatismo do americano. Ou seja, investir naquilo que trará benefícios para a sociedade americana a longo prazo. E os investimentos nas ciências, nas artes, na literatura e na cultura em geral são favas contadas. São indispensáveis para qualquer país que busca uma qualidade de vida e um futuro brilhante para sua população.
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Adelmar Tavares
Francisco, Meu Pai
Como que o vejo... O chapelão caído
Sobre a cabeça branca de algodão...
Buscando o campo, — o dia mal nascido,
Voltando à casa, o dia em escuridão.
Lavrador, fez da terra o ideal querido.
"Meu filho, a terra é que nos dá o pão",
Dizia-me. E cavava comovido,
A várzea aberta para a plantação...
Mas um dia, eu, pequeno, vi, cavando,
Sete palmos de campo, soluçando,
Uns homens rudes... Tempo que já vai!
"Francisco, adeus"! Diziam repetindo.
Meu pai desceu de branco... Ia dormindo
Fechou-se a terra... E não vi mais meu pai!
Sobre a cabeça branca de algodão...
Buscando o campo, — o dia mal nascido,
Voltando à casa, o dia em escuridão.
Lavrador, fez da terra o ideal querido.
"Meu filho, a terra é que nos dá o pão",
Dizia-me. E cavava comovido,
A várzea aberta para a plantação...
Mas um dia, eu, pequeno, vi, cavando,
Sete palmos de campo, soluçando,
Uns homens rudes... Tempo que já vai!
"Francisco, adeus"! Diziam repetindo.
Meu pai desceu de branco... Ia dormindo
Fechou-se a terra... E não vi mais meu pai!
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Ana Maria Ramiro
Esperanças
A ânsia do ser humano
consiste em poder calar
do coração, as mágoas vividas
as traições, os desamores, as feridas
que por toda a vida, ano após ano,
insistem em latejar.
E a cada novo ciclo
Mais se aprende, à novas cores:
Renovam-se as esperanças,
Esvaem-se as lembranças,
Conquistam-se novos amores.
Ontem, as folhas de outono
Hoje, o sol de verão,
e meu coração embarcação,
também mudou de rumo.
Segue a brisa sem destino
Vagando, procurando um caminho,
persegue o futuro.
Ansiando lá no fundo
Por terra firme, ancoradouro
E porto seguro.
consiste em poder calar
do coração, as mágoas vividas
as traições, os desamores, as feridas
que por toda a vida, ano após ano,
insistem em latejar.
E a cada novo ciclo
Mais se aprende, à novas cores:
Renovam-se as esperanças,
Esvaem-se as lembranças,
Conquistam-se novos amores.
Ontem, as folhas de outono
Hoje, o sol de verão,
e meu coração embarcação,
também mudou de rumo.
Segue a brisa sem destino
Vagando, procurando um caminho,
persegue o futuro.
Ansiando lá no fundo
Por terra firme, ancoradouro
E porto seguro.
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1
Wanda Cristina
Poema para a Morte
Não adianta, Morte,
encheres a varanda de vazios,
dessarumares o cheiro de terra molhada
que vem dos sonhos das Cristinas.
Não adianta, mesmo
mudares os meus versos,
soprando ventos frios
no meu peito.
Eu sei que os 18 anos
que Tereza deixou
esperaram os meus
que já não são.
Mas, mesmo assim,
não adianta encheres de procura
tudo que encontramos,
na busca de Tereza.
Não adianta, Morte,
labirintares a nossa espera,
porque amanhã, quando Tereza voltar,
rindo o seu riso, os nossos risos,
tu serás, apenas, uma lembrança
da brincadeira de Tereza.
encheres a varanda de vazios,
dessarumares o cheiro de terra molhada
que vem dos sonhos das Cristinas.
Não adianta, mesmo
mudares os meus versos,
soprando ventos frios
no meu peito.
Eu sei que os 18 anos
que Tereza deixou
esperaram os meus
que já não são.
Mas, mesmo assim,
não adianta encheres de procura
tudo que encontramos,
na busca de Tereza.
Não adianta, Morte,
labirintares a nossa espera,
porque amanhã, quando Tereza voltar,
rindo o seu riso, os nossos risos,
tu serás, apenas, uma lembrança
da brincadeira de Tereza.
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1
Renato Russo
Acrilic on canvas
- É saudade então.
E mais uma vez
De você fiz o desenho mais perfeito que se fez:
Os traços copiei do que não aconteceu.
As cores que escolhi, entre as tintas que inventei,
Misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos
De um dia sermos três.
Trabalhei você em luz e sombra
Era sempre:
- Não foi por mal. Eu juro que nunca
Quis deixar você tão triste.
Sempre as mesmas desculpas
E desculpas nem sempre são sinceras -
Quase nunca são
Preparei a minha tela
Com pedaços de lençóis
Que não chegamos a sujar.
A armação fiz com madeira
Da janela do seu quarto.
Do portão da sua casa
Fiz paleta e cavalete
E com as lágrimas que não brincaram com você
Destilei óleo de linhaça
E da sua cama arranquei pedaços
Que talhei em estiletes
De tamanhos diferentes
E fiz então
Pincéis com seus cabelos.
Fiz carvão do batom que roubei de você
E com ele marquei dois pontos de fuga
E rabisquei meu horizonte.
Era sempre:
- Não foi por mal. Eu juro que não foi por mal.
Eu não queria machucar você: prometo que isso nunca vai
Acontecer mais uma vez.
E era sempre, sempre o mesmo novamente -
A mesma traição.
Às vezes é difícil esquecer:
- Sinto muito, ela não mora mais aqui.
Mas então porque eu finjo que acredito no que invento ?
Nada disso aconteceu assim - não foi desse jeito.
Ninguém sofreu: é só você que provoca essa saudade vazia
Tentando pintar essas flores com o nome
De "amor-perfeito" e "não-te-esqueças-de-mim".
E mais uma vez
De você fiz o desenho mais perfeito que se fez:
Os traços copiei do que não aconteceu.
As cores que escolhi, entre as tintas que inventei,
Misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos
De um dia sermos três.
Trabalhei você em luz e sombra
Era sempre:
- Não foi por mal. Eu juro que nunca
Quis deixar você tão triste.
Sempre as mesmas desculpas
E desculpas nem sempre são sinceras -
Quase nunca são
Preparei a minha tela
Com pedaços de lençóis
Que não chegamos a sujar.
A armação fiz com madeira
Da janela do seu quarto.
Do portão da sua casa
Fiz paleta e cavalete
E com as lágrimas que não brincaram com você
Destilei óleo de linhaça
E da sua cama arranquei pedaços
Que talhei em estiletes
De tamanhos diferentes
E fiz então
Pincéis com seus cabelos.
Fiz carvão do batom que roubei de você
E com ele marquei dois pontos de fuga
E rabisquei meu horizonte.
Era sempre:
- Não foi por mal. Eu juro que não foi por mal.
Eu não queria machucar você: prometo que isso nunca vai
Acontecer mais uma vez.
E era sempre, sempre o mesmo novamente -
A mesma traição.
Às vezes é difícil esquecer:
- Sinto muito, ela não mora mais aqui.
Mas então porque eu finjo que acredito no que invento ?
Nada disso aconteceu assim - não foi desse jeito.
Ninguém sofreu: é só você que provoca essa saudade vazia
Tentando pintar essas flores com o nome
De "amor-perfeito" e "não-te-esqueças-de-mim".
1 619
1
Pedro Kilkerry
Cérbero
É, não vens mais aqui... Pois eu te espero,
Gele-me o frio inverno, o sol adusto
Dê-me a feição de um tronco, a rir, vetusto
- Meu amor a ulular... E é o teu Cérbero!
É, não vens mais aqui... E eu mais te quero,
Vago o vergel, todo o pomar venusto
E a cada fruto de ouro estendo o busto,
Estendo os braços, e o teu seio espero.
Mas como pesa esta lembrança... a volta
Da aléia em flor que em vão, toda transponho,
E onde te foste, e a cabeleira solta!
Vais corações rompendo em toda a parte!
Virás, um dia... E à porta do meu Sonho
Já Cérbero morreu, para agarrar-te.
Gele-me o frio inverno, o sol adusto
Dê-me a feição de um tronco, a rir, vetusto
- Meu amor a ulular... E é o teu Cérbero!
É, não vens mais aqui... E eu mais te quero,
Vago o vergel, todo o pomar venusto
E a cada fruto de ouro estendo o busto,
Estendo os braços, e o teu seio espero.
Mas como pesa esta lembrança... a volta
Da aléia em flor que em vão, toda transponho,
E onde te foste, e a cabeleira solta!
Vais corações rompendo em toda a parte!
Virás, um dia... E à porta do meu Sonho
Já Cérbero morreu, para agarrar-te.
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Roberto Pontes
Os Ausentes
Ao Frei Tito
Os ausentes necessitam sempre
bilhetes, cartas e coisas
vezes pequenas lembranças
uma gravata, um poema, um postal.
Os ausentes são tão necessitados
que ninguém os lembra
nem só por saudade ou falta.
Os ausentes têm mãos invisíveis
e figura tão diáfana
que os versos para eles
já nascem feitos poemas.
Os ausentes por qualquer acaso
jamais fogem ao nosso convívio
ainda que a distância seja tanta.
Dos ausentes fica sempre um sorriso
como as pinturas recheias
de surpresa, reencontro e irreal.
( In: Dossier Tito. Lyon- França: Anistia Internacional s.d.;
traduzido para o Francês sob o título Les Absents,
pelos monges do Convento de La Tourette, versão
incluída no livro Verbo Encarnado de RP)
Os ausentes necessitam sempre
bilhetes, cartas e coisas
vezes pequenas lembranças
uma gravata, um poema, um postal.
Os ausentes são tão necessitados
que ninguém os lembra
nem só por saudade ou falta.
Os ausentes têm mãos invisíveis
e figura tão diáfana
que os versos para eles
já nascem feitos poemas.
Os ausentes por qualquer acaso
jamais fogem ao nosso convívio
ainda que a distância seja tanta.
Dos ausentes fica sempre um sorriso
como as pinturas recheias
de surpresa, reencontro e irreal.
( In: Dossier Tito. Lyon- França: Anistia Internacional s.d.;
traduzido para o Francês sob o título Les Absents,
pelos monges do Convento de La Tourette, versão
incluída no livro Verbo Encarnado de RP)
1 186
1
Sinésio Cabral
Mamãe
É quase noite, Não encontro abrigo.
O mundo ri de meu penar sincero.
O sofrimento sempre traz consigo
travo, amargador, mas não me desespero.
Olhar sereno, meu caminho sigo,
a conduzir, nem sempre como quero
este viver de sonhos, que bendigo,
num mundo feito de sabor austero.
O mundo é falho. A humanidade, ingrata.
Tem a mulher caprichos bem diversos.
Até num riso, às vezes, nos maltrata.
Entre nós dois, Mamãe, o amor não finda.
Teu coração não cabe nestes versos.
Minha saudade é bem maior ainda...
O mundo ri de meu penar sincero.
O sofrimento sempre traz consigo
travo, amargador, mas não me desespero.
Olhar sereno, meu caminho sigo,
a conduzir, nem sempre como quero
este viver de sonhos, que bendigo,
num mundo feito de sabor austero.
O mundo é falho. A humanidade, ingrata.
Tem a mulher caprichos bem diversos.
Até num riso, às vezes, nos maltrata.
Entre nós dois, Mamãe, o amor não finda.
Teu coração não cabe nestes versos.
Minha saudade é bem maior ainda...
936
1
Renato Russo
O Livro Dos Dias
Ausente o encanto
Percebo o mecanismo indiferente
Que teima em resgatar sem confiança
A essência do delito então sagrado
Meu coração não quer deixar meu corpo descansar
E teu desejo inverso é velho amigo
Já que o tenho sempre ao meu lado
Hoje então aceitas pelo nome
O que perfeito entregas mas é tarde
Só daria certo aos dois que tentam
Se ainda embriagado pela fome
Exatos teu perdão e tua idade
O indulto a ti tomaste como bênção
Não esconda tristeza de mim
Todos se afastam quando o mundo está errado
Quando o que temos é um catálogo de erros
Quando precisamos de carinho, força e cuidado
Este é o livro das flores
Este é o livro do destino
Este é o livro de nossos dias
Este é o dia de nossos amores
Percebo o mecanismo indiferente
Que teima em resgatar sem confiança
A essência do delito então sagrado
Meu coração não quer deixar meu corpo descansar
E teu desejo inverso é velho amigo
Já que o tenho sempre ao meu lado
Hoje então aceitas pelo nome
O que perfeito entregas mas é tarde
Só daria certo aos dois que tentam
Se ainda embriagado pela fome
Exatos teu perdão e tua idade
O indulto a ti tomaste como bênção
Não esconda tristeza de mim
Todos se afastam quando o mundo está errado
Quando o que temos é um catálogo de erros
Quando precisamos de carinho, força e cuidado
Este é o livro das flores
Este é o livro do destino
Este é o livro de nossos dias
Este é o dia de nossos amores
1 222
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Mirella Márcia
Primeiro Soneto
(À lembrança de Carlos Eduardo)
Meu amor que ainda não me viu
É um lago profundo onde eu vejo
Um mago que espelha em seu perfil
As águas que refletem meu desejo.
Meu amor que tanto eu procurei
Me procura hoje em seu delírio
E sábio de rotas que eu não sei
Ignora todo o meu martírio.
Meu amor que me pesquisa há tanto
Irá cansar-se e aforgar-se em pranto
Pois não suporta mais andar a esmo
E na própria lágrima com espanto
Vai encontrar as fontes do seu canto
Desligado de mim, fato em si mesmo.
Meu amor que ainda não me viu
É um lago profundo onde eu vejo
Um mago que espelha em seu perfil
As águas que refletem meu desejo.
Meu amor que tanto eu procurei
Me procura hoje em seu delírio
E sábio de rotas que eu não sei
Ignora todo o meu martírio.
Meu amor que me pesquisa há tanto
Irá cansar-se e aforgar-se em pranto
Pois não suporta mais andar a esmo
E na própria lágrima com espanto
Vai encontrar as fontes do seu canto
Desligado de mim, fato em si mesmo.
926
1
Natalício Barroso
Mais um Poema de Amor para a Mulher Novamente Amada
A mulher amada tinha cabelos longos que desciam pela vertente dos ombros;
escorriam rápidos a tortuosos até a ponta dos seios
e se espalhavam ao redor da ansiedade.
Estes eram os cabelos da mulher amada.
Eles ficavam volumosos, quando se enchiam de amor,
e caíam como uma ducha sobre os corpos cansados.
Mas onde está a mulher amada?
Para onde a levaram? E porque a esconderam de mim?
Eu a tinha visto com os seios nuns
e os olhos tão ferozes quanto os de uma loba no cio.
As unhas eram longas, como se ela quisesse dilacerar alguém,
mas o púbis, deliciosamente acarinhado, se umedecia de
compaixão.
Mas para onde levaram a mulher amada?
Para que tipo de vida, mais apaixonante do que a minha, a levaram?
E porque a levaram?
As minhas horas estão vazias
como as noites solitárias num quarto de dormir.
Elas parecem as mesmas
mas o homem não é mais o mesmo.
Ele é apenas a janela do quarto aberta
para um pátio onde a lua brilha para seus olhos fechados.
Nada mais.
escorriam rápidos a tortuosos até a ponta dos seios
e se espalhavam ao redor da ansiedade.
Estes eram os cabelos da mulher amada.
Eles ficavam volumosos, quando se enchiam de amor,
e caíam como uma ducha sobre os corpos cansados.
Mas onde está a mulher amada?
Para onde a levaram? E porque a esconderam de mim?
Eu a tinha visto com os seios nuns
e os olhos tão ferozes quanto os de uma loba no cio.
As unhas eram longas, como se ela quisesse dilacerar alguém,
mas o púbis, deliciosamente acarinhado, se umedecia de
compaixão.
Mas para onde levaram a mulher amada?
Para que tipo de vida, mais apaixonante do que a minha, a levaram?
E porque a levaram?
As minhas horas estão vazias
como as noites solitárias num quarto de dormir.
Elas parecem as mesmas
mas o homem não é mais o mesmo.
Ele é apenas a janela do quarto aberta
para um pátio onde a lua brilha para seus olhos fechados.
Nada mais.
1 679
1
Maria Manuela Margarido
Memória da Ilha do Príncipe
Mãe, tu pegavas charroco
nas águas das ribeiras
a caminho da praia.
Teus cabelos eram lembas-lembas,
agora distantes e saudosas,
mas teu rosto escuro
desce sobre mim.
Teu rosto, liliácea
irrompendo entre o cacau,
perfumando com a sua sombra
o instante em que te descubro
no fundo das bocas graves.
Tua mão cor-de-laranja
oscila no céu de zinco
e fixa a saudade
com uns grandes olhos taciturnos.
(No sonho do Pico as mangas percorrem a órbita lenta
das orações dos ocãs e todas as feiticeiras desertam
a caminho do mal, entre a doçura das palmas).
Na varanda de marapião
os veios da madeira guardam
a marca dos teus pés leves
e lentos e suaves e próximos.
E ambas nos lançamos
nas grandes flores de ébano
que crescem na água cálida
das vozes clarividentes.
nas águas das ribeiras
a caminho da praia.
Teus cabelos eram lembas-lembas,
agora distantes e saudosas,
mas teu rosto escuro
desce sobre mim.
Teu rosto, liliácea
irrompendo entre o cacau,
perfumando com a sua sombra
o instante em que te descubro
no fundo das bocas graves.
Tua mão cor-de-laranja
oscila no céu de zinco
e fixa a saudade
com uns grandes olhos taciturnos.
(No sonho do Pico as mangas percorrem a órbita lenta
das orações dos ocãs e todas as feiticeiras desertam
a caminho do mal, entre a doçura das palmas).
Na varanda de marapião
os veios da madeira guardam
a marca dos teus pés leves
e lentos e suaves e próximos.
E ambas nos lançamos
nas grandes flores de ébano
que crescem na água cálida
das vozes clarividentes.
3 773
1
Otacílio de Azevedo
Morria o Sol no Ocaso
Morria o sol no ocaso e o olhar de minha amada
qual rubro sol distante, a rutilar, morria...
Gemia o seu soluço errando pela estrada
e errando pela estrada eu, mísero, gemia!
Perdia o sol tombando, a clara luz doirada
e o vulto dela, ao longe, aos poucos, se perdia.
Fugia o meu olhar no curso da jornada
e o seu magoado olhar tristíssimo fugia...
O sol tombou no poente em nuvens de oiro e arminha,
e Cleonice, chorando, à curva do meu caminho,
entre as sombras da noite, exânime tombou...
Entanto, o mesmo sol que desmaiara outrora,
vem todas as manhãs ao despontar da aurora,
só ela, nunca mais, oh! nunca mais voltou!
qual rubro sol distante, a rutilar, morria...
Gemia o seu soluço errando pela estrada
e errando pela estrada eu, mísero, gemia!
Perdia o sol tombando, a clara luz doirada
e o vulto dela, ao longe, aos poucos, se perdia.
Fugia o meu olhar no curso da jornada
e o seu magoado olhar tristíssimo fugia...
O sol tombou no poente em nuvens de oiro e arminha,
e Cleonice, chorando, à curva do meu caminho,
entre as sombras da noite, exânime tombou...
Entanto, o mesmo sol que desmaiara outrora,
vem todas as manhãs ao despontar da aurora,
só ela, nunca mais, oh! nunca mais voltou!
1 246
1
Mario Ribeiro Martins
Despedida
Os anos são passados que chegamos,
no templo do saber, cultura humana.
E no momento em que nos retiramos,
saudosos vamos desta caravana.
Na cidade ou sertão para onde vamos,
morando num palácio ou na choupana,
jamais esqueceremos quem amamos,
na escola do saber, tão soberana.
Depois de conquistarmos a vitória,
no templo do saber, com tanta glória,
é chegado o momento de partir...
E, ficarão aqui eternamente,
em nosso coração, principalmente,
SAUDADES DESTE TRISTE DESPEDIR.
no templo do saber, cultura humana.
E no momento em que nos retiramos,
saudosos vamos desta caravana.
Na cidade ou sertão para onde vamos,
morando num palácio ou na choupana,
jamais esqueceremos quem amamos,
na escola do saber, tão soberana.
Depois de conquistarmos a vitória,
no templo do saber, com tanta glória,
é chegado o momento de partir...
E, ficarão aqui eternamente,
em nosso coração, principalmente,
SAUDADES DESTE TRISTE DESPEDIR.
976
1
José Joaquim Medeiros e Albuquerque
Soneto Decadente
Morria rubro o sol e mansa, mansamente...
sombras baixando em flocos, lentas, pelo espaço...
Um morrer pungitivo e calmo de inocente:
doces, as ilusões fanadas no regaço.
Passa um cicio leve e suave... Num traço,
ave rápida passa súbita e tremente...
A tristeza, que vem, cinge como um baraço
a garganta: o soluço estaca ali fremente...
Lembranças de pesar... Navio que na curva
do mar, de água pesada e funda e escura e turva,
some-se de vagar das ondas ao rumor...
Ó crepúsculos sós! os exilados sentem
a angústia sem igual de amantes que pressentem
o derradeiro adeus do derradeiro amor!
sombras baixando em flocos, lentas, pelo espaço...
Um morrer pungitivo e calmo de inocente:
doces, as ilusões fanadas no regaço.
Passa um cicio leve e suave... Num traço,
ave rápida passa súbita e tremente...
A tristeza, que vem, cinge como um baraço
a garganta: o soluço estaca ali fremente...
Lembranças de pesar... Navio que na curva
do mar, de água pesada e funda e escura e turva,
some-se de vagar das ondas ao rumor...
Ó crepúsculos sós! os exilados sentem
a angústia sem igual de amantes que pressentem
o derradeiro adeus do derradeiro amor!
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Mário Dionísio
Elegia ao Companheiro Morto
Meu companheiro morreu às cinco da manhã
Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã
Ah antes fosse noite noite apenas noite
sem a promessa da manhã
Ah antes fosse noite noite noite apenas noite
e não houvesse em tudo a promessa da manhã
Deitado para sempre às cinco da manhã
Agora que sabia olhar os homens com força
e ver nas sombras que até aí não via a promessa risonha da manhã
Mas quem se vai interessar amigos quem
por quem só tem o sonho da manhã?
E uma vez de noite ao fim da noite mesmo ao cabo da noite
meu companheiro ficou deitado para sempre
e com a boca cerrada para sempre
e com os olhos fechados para sempre
e com as mãos cruzadas para sempre
imóvel e calado para sempre
E era quase manhã E era quase amanhã
Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã
Ah antes fosse noite noite apenas noite
sem a promessa da manhã
Ah antes fosse noite noite noite apenas noite
e não houvesse em tudo a promessa da manhã
Deitado para sempre às cinco da manhã
Agora que sabia olhar os homens com força
e ver nas sombras que até aí não via a promessa risonha da manhã
Mas quem se vai interessar amigos quem
por quem só tem o sonho da manhã?
E uma vez de noite ao fim da noite mesmo ao cabo da noite
meu companheiro ficou deitado para sempre
e com a boca cerrada para sempre
e com os olhos fechados para sempre
e com as mãos cruzadas para sempre
imóvel e calado para sempre
E era quase manhã E era quase amanhã
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Augusto Meyer
Canção do Negrinho do Pastoreio
Negrinho do Pastoreiro,
Venho acender a velinha
que palpita em teu louvor.
A luz da vela me mostre
o caminho do meu amor.
A luz da vela me mostre
onde está Nosso Senhor.
Eu quero ver outra luz
clarão santo, clarão grande
como a verdade e o caminho
na falação de Jesus.
Negrinho do Pastoreiro
diz que Você acha tudo
se a gente acender um lume
de velinha em seu louvor.
Vou levando esta luzinha
treme, treme, protegida
contra o vento, contra a noite. . .
É uma esperança queimando
na palma da minha mão.
Que não se apague este lume!
Há sempre um novo clarão.
Quem espera acha o caminho
pela voz do coração.
Eu quero achar-me, Negrinho!
(Diz que Você acha tudo).
Ando tão longe, perdido...
Eu quero achar-me, Negrinho:
a luz da vela me mostre
o caminho do meu amor.
Negrinho, Você que achou
pela mão da sua Madrinha
os trinta tordilhos negros
e varou a noite toda
de vela acesa na mão,
(piava a coruja rouca
no arrepio da escuridão,
manhãzinha, a estrela dalva
na luz do galo cantava,
mas quando a vela pingava,
cada pingo era um clarão).
Negrinho, Você que achou,
me leve à estrada batida
que vai dar no coração.
(Ah! os caminhos da vida
ninguém sabe onde é que estão!)
Negrinho, Você que foi
amarrado num palanque,
rebenqueado a sangue
pelo rebenque do seu patrão,
e depois foi enterrado
na cova de um formigueiro
pra ser comido inteirinho
sem a luz da extrema-unção,
se levantou saradinho,
se levantou inteirinho.
Seu riso ficou mais branco
de enxergar Nossa Senhora
com seu Filho pela mão.
Negrinho santo, Negrinho,
Negrinho do Pastoreio,
Você me ensine o caminho,
pra chegar à devoção,
pra sangrar na cruz bendita
pelo cravos da Paixão.
Negrinho santo, Negrinho,
Quero aprender a não ser!
Quero ser como a semente
Na falação de Jesus,
semente que só vivia
e dava fruto enterrada,
apodrecendo no chão.
Venho acender a velinha
que palpita em teu louvor.
A luz da vela me mostre
o caminho do meu amor.
A luz da vela me mostre
onde está Nosso Senhor.
Eu quero ver outra luz
clarão santo, clarão grande
como a verdade e o caminho
na falação de Jesus.
Negrinho do Pastoreiro
diz que Você acha tudo
se a gente acender um lume
de velinha em seu louvor.
Vou levando esta luzinha
treme, treme, protegida
contra o vento, contra a noite. . .
É uma esperança queimando
na palma da minha mão.
Que não se apague este lume!
Há sempre um novo clarão.
Quem espera acha o caminho
pela voz do coração.
Eu quero achar-me, Negrinho!
(Diz que Você acha tudo).
Ando tão longe, perdido...
Eu quero achar-me, Negrinho:
a luz da vela me mostre
o caminho do meu amor.
Negrinho, Você que achou
pela mão da sua Madrinha
os trinta tordilhos negros
e varou a noite toda
de vela acesa na mão,
(piava a coruja rouca
no arrepio da escuridão,
manhãzinha, a estrela dalva
na luz do galo cantava,
mas quando a vela pingava,
cada pingo era um clarão).
Negrinho, Você que achou,
me leve à estrada batida
que vai dar no coração.
(Ah! os caminhos da vida
ninguém sabe onde é que estão!)
Negrinho, Você que foi
amarrado num palanque,
rebenqueado a sangue
pelo rebenque do seu patrão,
e depois foi enterrado
na cova de um formigueiro
pra ser comido inteirinho
sem a luz da extrema-unção,
se levantou saradinho,
se levantou inteirinho.
Seu riso ficou mais branco
de enxergar Nossa Senhora
com seu Filho pela mão.
Negrinho santo, Negrinho,
Negrinho do Pastoreio,
Você me ensine o caminho,
pra chegar à devoção,
pra sangrar na cruz bendita
pelo cravos da Paixão.
Negrinho santo, Negrinho,
Quero aprender a não ser!
Quero ser como a semente
Na falação de Jesus,
semente que só vivia
e dava fruto enterrada,
apodrecendo no chão.
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Alphonsus de Guimaraens Filho
Quando eu Disser Adeus
Quando eu disser adeus, amor, não diga
adeus também, mas sim um "até breve";
para que aquele que se afasta leve
uma esperança ao mesno fadiga
da grande, inconsolável despedida...
Quando eu disser adeus, amor, segrede
um " até mais" que ainda ilumine a vida
que no arquejo final vacila e cede.
Quando eu disser adeus, quando eu disser
adeus, mas um adeus já derradeiro,
que a sua voz me possa convencer
de que apenas eu parti primeiro,
que em breve irá, que nunca outra mulher
amou de amor mais puro e verdadeiro.
adeus também, mas sim um "até breve";
para que aquele que se afasta leve
uma esperança ao mesno fadiga
da grande, inconsolável despedida...
Quando eu disser adeus, amor, segrede
um " até mais" que ainda ilumine a vida
que no arquejo final vacila e cede.
Quando eu disser adeus, quando eu disser
adeus, mas um adeus já derradeiro,
que a sua voz me possa convencer
de que apenas eu parti primeiro,
que em breve irá, que nunca outra mulher
amou de amor mais puro e verdadeiro.
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Mário Dionísio
Memória dum Pintor Desconhecido
Os presos contam os dias
eu as horas
nesta prisão maior onde um olhar ficou boiando
e uma voz um som de passos perseguidos
na sombra perseguindo a segurança
fugidia
Na cidade que amo e a sós comigo
é talvez só futuro ou já saudade
com alma bem nascida entre o fragor de máquinas, cimento e energia
atômica indefeso entre irmãos de cárcere demando
a voz que foge os irmãos que não vejo
o brando olhar que guarda o meu desejo
e só consigo
ver o gomoso arrastar das horas e das horas
tantas horas
à baioneta marcadas por uma sentinela
aos quatro cantos da janela
gradeada
do dia-
a-dia onde não há
mais nada
Que nada são os dias e os anos
para um tão grande amor que vou pintando
com o próprio sangue os meus e teus enganos
que há de nascer que há de florir que há de
e há de e há de
quando?
eu as horas
nesta prisão maior onde um olhar ficou boiando
e uma voz um som de passos perseguidos
na sombra perseguindo a segurança
fugidia
Na cidade que amo e a sós comigo
é talvez só futuro ou já saudade
com alma bem nascida entre o fragor de máquinas, cimento e energia
atômica indefeso entre irmãos de cárcere demando
a voz que foge os irmãos que não vejo
o brando olhar que guarda o meu desejo
e só consigo
ver o gomoso arrastar das horas e das horas
tantas horas
à baioneta marcadas por uma sentinela
aos quatro cantos da janela
gradeada
do dia-
a-dia onde não há
mais nada
Que nada são os dias e os anos
para um tão grande amor que vou pintando
com o próprio sangue os meus e teus enganos
que há de nascer que há de florir que há de
e há de e há de
quando?
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José Chagas
O Apito do Passado
O Mearim derrama na distância
uma água que em sonhos nos invade,
como fio invisível que se lance a
separar em duas a cidade.
E essa água vem banhar sem que se canse a
vida inteira que no rio nade,
porquanto água de amor que lava infância
lava também velhice e mocidade.
Mearim — rio velho e rio novo,
alegria e aflição de um mesmo povo —
um mar se afoga nos mistérios teus.
Mas preservas em ti, para Pedreiras,
vibrando no ar, o apito das primeiras
lanchas que nos deixaram seu adeus.
uma água que em sonhos nos invade,
como fio invisível que se lance a
separar em duas a cidade.
E essa água vem banhar sem que se canse a
vida inteira que no rio nade,
porquanto água de amor que lava infância
lava também velhice e mocidade.
Mearim — rio velho e rio novo,
alegria e aflição de um mesmo povo —
um mar se afoga nos mistérios teus.
Mas preservas em ti, para Pedreiras,
vibrando no ar, o apito das primeiras
lanchas que nos deixaram seu adeus.
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Luís Marcelino
Sol Português
Tardes frias
Noites quentes
Ondas do mar turbulentas
Tantos dias
Sempre ausentes
Histórias de vida cinzentas
Luzes caladas
Estrelas sem vida
Num acordar tempestade
Bocas beijadas
Noite perdida
Neste mar sem idade
Os ventos do norte
Voaram p’ra sul
E eu aqui já nascido
Pintei a minha sorte
No ouro sobre azul
Deste mundo fingido.
Noites quentes
Ondas do mar turbulentas
Tantos dias
Sempre ausentes
Histórias de vida cinzentas
Luzes caladas
Estrelas sem vida
Num acordar tempestade
Bocas beijadas
Noite perdida
Neste mar sem idade
Os ventos do norte
Voaram p’ra sul
E eu aqui já nascido
Pintei a minha sorte
No ouro sobre azul
Deste mundo fingido.
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