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Poemas neste tema

Sol, amanhecer e pôr do sol

Sei Shônagon

Sei Shônagon

Da primavera, o amanhecer

(1) Da primavera, o amanhecer. É quando palmo a palmo vão se definindo as esmaecidas linhas das montanhas e no céu arroxeado tremulam delicadas nuvens.
Do verão, a noite. Em especial, os tempos de luar, mas também as trevas, de vaga-lumes entrecruzando-se em profusão. Ou então, os solitários ou mesmo em pares que seguem com brilhos fugazes. A chuva também é igualmente bela.
Do outono, o entardecer. São os momentos do arrebol da tarde em que o sol se acha prestes a tocar as colinas, quando se tornam comoventes os corvos que se apressam para os ninhos em grupos de três ou quatro, ou dois e três, e o que diríamos então, ao avistarmos os minúsculos gansos selvagens seguindo em fila, que encantadores! O sol já posto, melancólico soa o ciciar do vento e o canto dos insetos.
Do inverno, o despertar. Indescritível é com a neve caindo e nele incluo a ofuscante brancura da geada. Mesmo na ausência destas, em manhãs de um frio cortante, o apressar das pessoas em acender o fogo e o corre-corre entre os aposentos com os carvões acesos são cenas típicas desta estação. O sol já nas alturas e o frio mais ameno, não nos cativa mais que a brasa já quase tornada cinzas no braseiro portátil.
(3) Coisas que são iguais embora soem diferentes. A fala do religioso. A fala do homem, a fala da mulher. Na fala dos medíocres sempre sobram palavras. O comedimento, sim, soa elegante.
(21) Mulheres que se satisfazem com uma felicidade singela e um futuro previsível e estável são deprimentes e desprezíveis. Acho, pois, que as jovens de boas famílias deveriam prestar serviço na Corte para alargar sua visão de mundo e acumular experiências como Vice-Chefe do Setor de Atendentes da Ala Feminina do Palácio Imperial. […]
(23) Coisas que deixamos de cumprir: a prática da abstinência religiosa, preparativos para compromissos num futuro distante, Reclusão prolongada no tempo.
(24) Coisas que são desdenhadas: muros danificados, pessoas conhecidas por seu coração bom demais.
(27) Coisas passadas que nos causam saudades. Flores ressequidas de malva. Ornamentos do Dia das Meninas.
Momentos em que nos deparamos com um retalho tingido de roxo-carmesim e roxo claro avermelhado prensado entre págians de uma brochura. Ou, em tedioso dia de chuva, encontrar cartas que outrora nos comoveram.
O leque do ano que passou.
(60) Para aqueles que deixam a casa da amada antes do amanhecer, parece desnecessário ter de ajeitar devidamente todos os trajes ou de atar firmemente o cordão do chapéu laqueado. Desleixados e desalinhados em trajes palacianos ou cotidianos, haveria quem deles zombasse ou criticasse quando com eles se deparassem? [...]
(66) Quanto a temas de poemas, a Capital. A planta trepadeira kuzu. A espadana d’água. O cavalo. O granizo.
(113) Quanto ao inverno, o bem frio. Quanto ao verão, o de calor sem igual.
(134) Coisas que são desprezadas. Pessoas feias e de mau caráter. Cola de arroz cozido e apodrecida. São coisas que todas as pessoas evitam, mas nem por isso vou deixar de registrá-las. Elas existem no mundo, como ainda a remanescente tenaz de bambu do cerimonial fúnebre. Esta brochura não foi escrita para as pessoas lerem e eu me propus a nela anotar inclusive as coisas estranhas e detestadas.
(154) Por estar de luto pelo falecimento do Conselheiro-Mor [...]
Preservar com cuidado os fatos passados é um gesto elegante. As mulheres não os esquecem, o que não se observa entre os homens, e é realmente muito divertido porque eles falham até na tentativa de rememorar seus próprios poemas. [...]
(160) Coisas distantes que parecem próximas. A Terra Pura. A travessia de um barco. A relação entre um homem e uma mulher.
(171) A casa de uma dama que vive sozinha apresenta-se bastante danificada: muro de terra batida por terminar, plantas aquáticas que invadem o lago e, embora o jardim ainda não esteja totalmente coberto de artemísias, podem-se ver as ervas daninhas verdes por entre as pedrinhas – uma imagem de tanta solidão chega a comover. É tão desinteressante quando nada há para ser consertado, com o portão bem trancado e tudo na mais devida ordem que nos enfastiamos muito.
(183) Em meio a uma tarde muito quente, pensava no que fazer para amenizá-la; o leque trazia-me apenas ares mornos e eu me deliciava molhando a mão na água com gelo, quando alguém me trouxe uma carta, em papel fino do mais puro vermelho, amarrada a um galho de cravina-chinesa em plena floração carmesim. Aquilo me fez sentir o cuidado profundo e a delicadeza que por mim nutria quem me escrevia em meio a tal calor e me levou a abandonar o leque que teimava em usar mesmo sem trazer alívio.
(188) Quanto a ventos [...]
Nada há de mais admirável e comovente do que a manhã seguinte ao tufão. [...]
(215) Ao atravessar o rio sob o intenso brilho do luar, é lindo ver as gotas d’água se espalhando como cristais a se fragmentar à medida que os bois caminham.
(232) Quanto ao que cai, a neve. O granizo. A neve chuvosa é detestável, mas é encantadora a brancura que se destaca quando cai. É maravilhosa a neve sobre o telhado de casca de cipreste, sobretudo quando está para derreter um pouco. É também verdadeiramente fascinante quando a neve, ainda pouca, se acumula no telhado plano e o sombreado de seu contorno faz ver formas curvas.
A chuva fina e intermitente de outono e o granizo sobre o telhado de tábuas. Também a geada sobre o telhado de tábuas. Ou no jardim.
(241) Coisas que simplesmente passam e... passam. O barco à vela. A idade das pessoas. A primavera, o verão, o outono, o inverno.
(252) Nas faces humanas, uma parte especialmente bonita é sempre digna de apreciação e admiração, por mais que a contemplemos. As pinturas, por exemplo, não mais atraem os olhos quando vistas com frequência. As pinturas de biombos que estão sempre ao lado, também, apesar de bastante apreciáveis, não mais nos prendem os olhos. As fisionomias, por sua vez, exercem uma atração intrigante.
Mesmo os objetos frios sempre têm uma parte bonita que chama a atenção. É uma pena que, do mesmo modo, também nos chama a atenção uma parte feia.
(285) Coisas que incitam à imitação. Bocejo. Criancinhas.
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Sousândrade

Sousândrade

Canto Segundo [I

Opalescem os céus — clarões de prata —
Beatífica luz pelo ar mimoso
Dos nimbos d'alva exala-se, tão grata
Acariciando o coração gostoso!

Oh! doce enlevo! oh! bem-aventurança!
Paradíseas manhãs! riso dos céus!
Inocência do amor e da esperança
Da natureza estremecida em Deus!

Visão celeste! angélica encarnada
Co'a nitente umidez d'ombros de leite,
Onde encontra amor brando, almo deleite,
E da infância do tempo a hora foi nada!

A claridade aumenta, a onda desliza,
Cintila co'o mais puro luzimento;
De púrpura, de ouro, a c'roa se matiza
Do tropical formoso firmamento!

Qual um vaso de fina porcelana
Que de através o sol alumiasse,
Qual os relevos da pintura indiana
É o oriente do dia quando nasce.

Uma por uma todas se apagaram
As estrelas, tamanhas e tão vivas,
Qual os olhos que lânguidas cativas,
Mal nutridas de amores, abaixaram.

Aclaram-se as encostas viridantes,
A espreguiçar-se a palma soberana;
Remonta a Deus a vida, à origem d'antes,
Amiga e matinal, donde dimana.

Acorda a terra; as flores da alegria
Abrem, fazem do leito de seus ramos
Sua glória infantil; alcion em clamos
Passa cantando sobre o cedro ao dia

Lindas loas boiantes; o selvagem
Cala-se, evoca doutro tempo um sonho,
E curva a fronte... Deus, como é tristonho
Seu vulto sem porvir em pé na margem!

Talvez a amante, a filha haja descido,
Qual esse tronco, para sempre o rio —
Ele abana a cabeça co'o sombrio
Riso do íris da noite entristecido.

(...)


Publicado no livro Impressos (1868/1869). Poema integrante da série Guesa Errante.

In: SOUSÂNDRADE. O Guesa. Londres: Cooke e Halsted, The Moorfields Press, 1888

NOTA: Poema inacabado, composto de 13 canto
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Marcus Accioly

Marcus Accioly

Predamar

Na véspera do sol
Ou antevéspera,
Deslogo quando os ventos
Soltos despertam,
O canto, céu de nuvens,
Bando de araras,
Entreabre as suas plumas
E acende as barras.

Quando a luz de verão
Do solão rubro
Na árvore do mar
Abre o seu fruto,
O canto, vela aberta
No mar de fora,
Inventa outra manhã
Dentro da aurora.

Quando o ouriço do sol
Rosa-dos-ventos
Remoinha no mar
Seus cataventos,
O canto, asa de garça,
Espuma branca,
Debruça sobre a praia
Sua varanda.

Aprendido-aprendiz
O canto escuta
A máquina do mar
Formando as lutas
As sirenes dos búzios
Os altos ventos
A voz-sempre do mar
E outros silêncios.

O canto, agulha e linha
Tecendo a rede
Com seu fio mais lógico,
Malha de peixe,
Calculando os espaços
No metro igual
Preciso e matemático
De João Cabral.

O canto, lente aquática
Que sabe as cores
Do arco-íris do sol,
Das antiflores,
Do oceano da América
E outras lembranças
Que debruçam Drummond
No mar da infância.

O canto, anzol de pesca,
Manuel Bandeira,
Arpão-fisga-espinhel,
Fruta praieira,
Flor-de-coral, cal-virgem,
Peixes marinhos,
Covos do mar, gaiolas
Sem passarinhos.

O canto, ondas diversas,
Jorge de Lima,
Piso do céu, maralto
Chovido em cima,
Vento, boca-de-barra
Que chama os rios,
Mar que devora os portos
E os seus navios

(...)


Poema integrante da série Feira de Pássaros - Canto III.

In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.140-142. (Tempoesia, 18)

NOTA: Poema composto de 3 partes, indicadas pelo sinal de parágrafo (§), todas compostas de 4 oitavas. Referência ao poema "América", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
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Álvaro Moreyra

Álvaro Moreyra

Elegia da Bruma

Réquiem do Pôr-do-Sol... A Tarde ajoelha e canta,
num mistério augural de cinza e de ouro vivo...
E o hospital, sob a Tarde, entre Árvores, levanta
o seu vulto de pedra, estranho e pensativo...

Ao incenso do Ocaso, a Paisagem parece
movimentar-se, orando, em gestos musicais...
É o silêncio que entoa harmonias de Prece
com a ignota orquestração dos mudos Vegetais...

Passos batem a estrada... E pela estrada, agora,
seguem ranchos buscando o sossego das casas...
Desaparecem... Vão... E ao misticismo da hora,
no ar silente, em quietude, andam saudades de Asas...

A escuridão aumenta... E há vozes... algazarras...
Das águas-verdes cresce um rouco cantochão...
Trilam grilos... E ao alto, as primeiras cigarras
despertam, respondendo... Aumenta a escuridão...

Súbito, em derredor, tudo se cala... E adiante,
ermo, queda o hospital como quem está ouvindo...
O Plenilúnio surge, em êxtase, distante,
branco, a Terra a abençoar... Vai subindo... subindo...

E à alva bênção da Luz, os contornos avultam
na precisão da Linha — hartos, a destacar...
Começa a Noite... E o Sono... E os Sonhos que sepultam
a Tristeza-da-Vida aos que podem sonhar...

E quando a claridade, em chapa, de repente,
cai sobre a frontaria, e a asperge, e a envolve, ondeando,
geme um órgão lá dentro, enevoado, dolente,
como se fora o Luar que estivesse tocando...

A Alma da Terra fala à vibração da Terra...
Espasmos de sofrer!... A Dor a sete tons!...
E ascende... e afunda... e ecoa... e pelos longes erra
um ritmo nebuloso, onde há sombras de sons...


Publicado no livro Legenda da luz e da vida (1911).

In: ZILBERMAN, Regina. Álvaro Moreyra. 2.ed. Porto Alegre: IEL, 1990. p.22-23. (Letras rio-grandenses
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