Poemas neste tema
Solidão
Chico Buarque
Ela e sua janela
Ela e sua menina
Ela e seu tricô
Ela e sua janela, espiando
Com tanta moça aí
Na rua o seu amor
Só pode estar dançando
Da sua janela
Imagina ela
Por onde ele anda
E ela vai talvez
Sair uma vez
Na varanda
Ela e um fogareiro
Ela e seu calor
Ela e sua janela, esperando
Com tão pouco dinheiro
Será que o seu amor
Ainda está jogando
Da sua janela
Uma vaga estrela
E um pedaço de lua
E ela vai talvez
Sair outra vez
Na rua
Ela e seu castigo
Ela e seu penar
Ela e sua janela, querendo
Com tanto velho amigo
O seu amor num bar
Só pode estar bebendo
Mas outro moreno
Joga um novo aceno
E uma jura fingida
E ela vai talvez
Viver duma vez
A vida
Ela e seu tricô
Ela e sua janela, espiando
Com tanta moça aí
Na rua o seu amor
Só pode estar dançando
Da sua janela
Imagina ela
Por onde ele anda
E ela vai talvez
Sair uma vez
Na varanda
Ela e um fogareiro
Ela e seu calor
Ela e sua janela, esperando
Com tão pouco dinheiro
Será que o seu amor
Ainda está jogando
Da sua janela
Uma vaga estrela
E um pedaço de lua
E ela vai talvez
Sair outra vez
Na rua
Ela e seu castigo
Ela e seu penar
Ela e sua janela, querendo
Com tanto velho amigo
O seu amor num bar
Só pode estar bebendo
Mas outro moreno
Joga um novo aceno
E uma jura fingida
E ela vai talvez
Viver duma vez
A vida
1 746
Claudius Portugal
As Várias Faces de um Espelho
I
Alguém disse:
Ser
é ter-se tomado
II
Já faz algum tempo que não bebo
Não distribuo mais os sonhos
Hoje sinto entorpecidamente minhas dores
Não tenho mais necessidade de esconder o corpo
Para saber do corpo tive de correr estradas
e dei a juventude sem exigir amor
Dentro de todos me perdi da esperança
Um poema resplandeceu incompreensivelmente
Agora o corpo desistiu de procurar entender
Não escrevo mais palavras para ficar oculto
Nem guardo dentro do ventre algum segredo
Nenhuma cicatriz revela a lâmina e a faca
Não tenho os pesos e as medidas
Nem para quem quer que seja uma sentença
Cada momento traz o seu próprio veneno
Não inquieto mais o dia de amanhã
Não me inquieto mais com a dor de hoje
Há uma hora que as perguntas deixam de existir
Para um homem não basta o seu próprio corpo
Hoje já não há simples vítimas
Nem inocentes do sangue dos que morrem
Um poema não é remédio para acalmar o peito
Um poema não é caminho para pacificar o coração
Um poema é somente escrito de dias e noites
Um poema escreve certo por linhas tortas
Um poema escreve torto por linhas certas
Um poema escreve linhas por certo tortas
Meus pés pisam sobre o chão de um cemitério
Vim colocar flores na minha sepultura
Há um homem novo nascendo neste rosto
III
O que me destrói é minha falta
de vício
IV
Caminho entre sombras
Meus mortos dormem
no paraíso
das ilusões
— pai mãe irmãos —
O mar apaga rastros
Caminho
O destino
da estrada é seguir viagem
Quando escrevo
o caminho
sei apenas o meu próprio mal
e a cúmplice solidão
dos sentimentos
Sou um jogo
( marcado? )
Luz da saudade futuro me faz
crer
o que mais quiser ser
Sou
Alguém disse:
Ser
é ter-se tomado
II
Já faz algum tempo que não bebo
Não distribuo mais os sonhos
Hoje sinto entorpecidamente minhas dores
Não tenho mais necessidade de esconder o corpo
Para saber do corpo tive de correr estradas
e dei a juventude sem exigir amor
Dentro de todos me perdi da esperança
Um poema resplandeceu incompreensivelmente
Agora o corpo desistiu de procurar entender
Não escrevo mais palavras para ficar oculto
Nem guardo dentro do ventre algum segredo
Nenhuma cicatriz revela a lâmina e a faca
Não tenho os pesos e as medidas
Nem para quem quer que seja uma sentença
Cada momento traz o seu próprio veneno
Não inquieto mais o dia de amanhã
Não me inquieto mais com a dor de hoje
Há uma hora que as perguntas deixam de existir
Para um homem não basta o seu próprio corpo
Hoje já não há simples vítimas
Nem inocentes do sangue dos que morrem
Um poema não é remédio para acalmar o peito
Um poema não é caminho para pacificar o coração
Um poema é somente escrito de dias e noites
Um poema escreve certo por linhas tortas
Um poema escreve torto por linhas certas
Um poema escreve linhas por certo tortas
Meus pés pisam sobre o chão de um cemitério
Vim colocar flores na minha sepultura
Há um homem novo nascendo neste rosto
III
O que me destrói é minha falta
de vício
IV
Caminho entre sombras
Meus mortos dormem
no paraíso
das ilusões
— pai mãe irmãos —
O mar apaga rastros
Caminho
O destino
da estrada é seguir viagem
Quando escrevo
o caminho
sei apenas o meu próprio mal
e a cúmplice solidão
dos sentimentos
Sou um jogo
( marcado? )
Luz da saudade futuro me faz
crer
o que mais quiser ser
Sou
1 104
José Castello
Manoel de Barros busca o sentido da vida
Poeta diz ter solidão, mas acha que é opulência da alma e a traz, em sua obra, como amargor e sol
Manoel de Barros ficou perto de cinco meses com um longo questionário que lhe enviei pouco antes do carnaval deste ano. "Vou responder devagar e do meu jeito", ele me advertiu na época. Aceitei suas condições. Não imaginei, porém, que necessitasse de tanto tempo. Barros seguiu, em parte, as instruções de seus novos editores, da Record, que preferiam ver uma grande entrevista publicada no Estado apenas na época do lançamento do Livro sobre Nada. Mas não foi só essa preferência que o fez deixar o questionário de lado por um período tão longo. O poeta é um homem de hábitos lentos, que gosta de meditar muito antes de agir e não está acostumado a trair seu temperamento interiorano. Finalmente, no dia 12, ele despachou de Campo Grande, pelo correio, suas respostas a algumas perguntas que formulei. Assim começa um breve bilhete anexo: "Aí está o que pude; peço desculpas pela demora." Manoel de Barros respondeu por escrito, em organizadas folhas brancas do tipo ofício, datilografadas com esmero. Corrigiu os erros com a esferográfica, numerou metodicamente as questões e grampeou as páginas.
É um homem, sempre, cheio de cuidados. Antes de aceitar o convite da editora Record para se transferir - "proposta irrecusável por todos os motivos, até mesmo os financeiros", limita-se a dizer -, o poeta consultou José Elias Salomão, o proprietário da Civilização Brasileira. "Falei com ele e tudo bem; ficamos em paz todos", relata. A morte recente do editor Ênio Silveira, por certo, influenciou nessa decisão. Manoel de Barros se sentia tão ligado a Ênio que, enqunto ele estava vivo e mesmo com as condições precárias que a editora Civilização Brasileira atravessou na última década, não ousou mudar de casa. Os laços de amizade e a fidelidade pesaram mais que os interesses pessoais. Cada um de seus últimos livros editados por Ênio Silveira, mal ou bem (e, considerando que são livros de poemas, esses números são ótimos) vendeu, de todo modo, perto de 10 mil exemplares. "Acho que, na Record, esse número deve crescer por causa da estrutura de marketing da editora", diz. Apesar desse otimismo, Manoel de Barros continua a ser um homem basicamente melancólico e pessimista. "Acho que no futuro o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo", diz. "Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser." A seguir, as questões que ele decidiu responder.
Estado - Em que medida Mato Grosso do Sul está presente em sua poesia? Qual é sua relação com o regionalismo?
Manoel de Barros - Há sempre um lastro de ancestralidades que nos situa no espaço. Mas não importa muito onde o artista tenha nascido. O que marca um estilo literário é a maneira de mexer com as palavras. Poesia é um fenômeno de linguagem. De minha parte, confesso que fujo do regionalismo que não dê em arte, que só quer fazer registro. Não gosto de descrever lugares, bichos, coisas da natureza. Gosto de inventar. Quem descreve não é dono do assunto; quem inventa é. Não tenho compromisso com as verdades consagradas. O que desejo é me constar por meio de um trabalho estético. Se de tudo resultar um cheiro de coisa do chão, é bom. Pode até ser que seja regionalismo. Porém, há de ser mais transfigurismo pela palavra.
Estado - Você se sente isolado em Campo Grande?
Barros - Isolado não me sinto, juro. Às vezes me isolo, me tranco na minha toca para escrever, para ler, para imaginar. Parece que, no fechado, o imaginário se solta melhor. O que sinto mesmo é incompletude: essa falta de explicação para o sentido da vida. O que tenho é solidão. Mas solidão é opulência da alma. Tudo isso parece que destila amargor e sol na minha poesia.
Estado - As viagens marcaram sua poesia? Penso em um poeta como Vinícius de Moraes que, em cada cidade que viveu, parece ter sido um homem diferente.
Barros - Alguns anos da minha vida ambulei por lugares decadentes. Havia um certo fascínio em mim por cidades mortas, casas abandonadas, vestígios de civilizações. Um fascínio por ruínas habitadas por sapos e borboletas. Eu gostava de ver alguma germinação da inércia sobre ervinhas doentes, paredes leprentas, coissa desprezadas. As fontes de minha poesia, estou certo, vêm de errâncias desurbanas. Agora, o caso do Vinícius é outro. Ele é um poeta inumerável. Ele vem das grandes paixões, das grandes complexidades, das perplexidades humanas. Ele era 300, ele era 350, como diria o nosso Mário de Andrade. Manoel de Barros só é um bugre perturbado.
Estado - Existe essa entidade chamada poesia brasileira ou existem apenas poetas nascidos no Brasil?
Barros - Penso que existe sim uma poesia brasileira. Uma poesia que expresa a nossa alma e o nosso quintal. Porém, a linguagem, o tratamento que o poeta imprima à sua matéria pode fazer dele um poeta universal. Assim, as nossas particularidades podem ser universais por meio das palavras. Temos poetas do mundo nascidos no Brasil.
Estado - Como foi sua relação com o editor Ênio Silveira, recém- falecido?
Barros - Do Ênio fui amigo e companheiro desde o primeiro dia que conversamos. Uma das criaturas mais puras, mais honestas, mais idealistas que conheci. Um ser de escol - como se diz. Trocamos cartas por muitos anos. Trocamos amizades. Mandava a ele os meus originais e ficava quieto, esperando. De repente, me mandava as provas. Fazia questão de escrever as orelhas. Tenho cinco livros lançados por ele.
Estado - Como é hoje sua rotina de poeta?
Barros - Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo "lugar de ser inútil". Exploro há 60 anos esses mistéros. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc. Faço escavações. Entro às 7 horas, saio ao meio-dia. Anoto coisas em pequenos cadernos de rascunho. Arrumo versos, frases, desenho bonecos. Leio a Bíblia, dicionários, às vezes percorro século para descobrir o primeiro esgar de uma palavra. E gosto de ouvir e ler Vozes da Origem. Gosto de coissa que começam assim: "Antigamente, o tatu era gente e namorou a mulher de outro homem." Está no livro Vozes da Origem, da antropóloga Betty Mindlin. Essas leituras me ajudam a explorar os mistérios irracionais. Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento.
Estado - Seu último livro publicado se chama O livro das Ignorãças (Civilização Brasileira, 1983). A citação de abertura é eloqüente: "As coisas que não existem são mais bonitas." Qual é o papel da ignorância na atividade poética?
Barros - Gosto de ver o que não aparece. Um que não era o adivinha de Tebas, o Tirésias, um que era apenas o Pote-Cru, andejo de beira de rios, criado em grotas de preá, me disse um dia: "Eu tenho vaticínios de lugares." Pote-Cru, ele tinha percepções sensoriais largas, como os adivinhos, os videntes, os bruxos, os urgos, os demiurgos, os curandeiros, os magos. Essa gente toda usa muito a ignorância para nos conhecer. Como é que eles podem dizer: "Vi a tarde se encolher no olho de um pássaro?" Entretanto, se encolhe! Como é que eles podem dizer: "Os carrapichos não pregam no vento." E, entretanto, não pregam. Essas descobertas vêm da ignorância.
Estado - Você vive em uma região brasileira em que a natureza, mal ou bem, ainda resiste. Há futuro para a natureza?
Barros - No grande futuro, não sei o que seja, acho que o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo. Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser. Aquela liberdade que o homem tem de se sentir livre para o silêncio das árvores não vai ter mais. O idioma não vai servir mais para celebrar. O ser não vai mais comungar com as coisas. A imaginação não vai mais desabrochar, porque os nossos desejos e fantasias serão realizados. O mundo vai ter outro cheiro. Salvo não seja.
Manoel de Barros ficou perto de cinco meses com um longo questionário que lhe enviei pouco antes do carnaval deste ano. "Vou responder devagar e do meu jeito", ele me advertiu na época. Aceitei suas condições. Não imaginei, porém, que necessitasse de tanto tempo. Barros seguiu, em parte, as instruções de seus novos editores, da Record, que preferiam ver uma grande entrevista publicada no Estado apenas na época do lançamento do Livro sobre Nada. Mas não foi só essa preferência que o fez deixar o questionário de lado por um período tão longo. O poeta é um homem de hábitos lentos, que gosta de meditar muito antes de agir e não está acostumado a trair seu temperamento interiorano. Finalmente, no dia 12, ele despachou de Campo Grande, pelo correio, suas respostas a algumas perguntas que formulei. Assim começa um breve bilhete anexo: "Aí está o que pude; peço desculpas pela demora." Manoel de Barros respondeu por escrito, em organizadas folhas brancas do tipo ofício, datilografadas com esmero. Corrigiu os erros com a esferográfica, numerou metodicamente as questões e grampeou as páginas.
É um homem, sempre, cheio de cuidados. Antes de aceitar o convite da editora Record para se transferir - "proposta irrecusável por todos os motivos, até mesmo os financeiros", limita-se a dizer -, o poeta consultou José Elias Salomão, o proprietário da Civilização Brasileira. "Falei com ele e tudo bem; ficamos em paz todos", relata. A morte recente do editor Ênio Silveira, por certo, influenciou nessa decisão. Manoel de Barros se sentia tão ligado a Ênio que, enqunto ele estava vivo e mesmo com as condições precárias que a editora Civilização Brasileira atravessou na última década, não ousou mudar de casa. Os laços de amizade e a fidelidade pesaram mais que os interesses pessoais. Cada um de seus últimos livros editados por Ênio Silveira, mal ou bem (e, considerando que são livros de poemas, esses números são ótimos) vendeu, de todo modo, perto de 10 mil exemplares. "Acho que, na Record, esse número deve crescer por causa da estrutura de marketing da editora", diz. Apesar desse otimismo, Manoel de Barros continua a ser um homem basicamente melancólico e pessimista. "Acho que no futuro o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo", diz. "Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser." A seguir, as questões que ele decidiu responder.
Estado - Em que medida Mato Grosso do Sul está presente em sua poesia? Qual é sua relação com o regionalismo?
Manoel de Barros - Há sempre um lastro de ancestralidades que nos situa no espaço. Mas não importa muito onde o artista tenha nascido. O que marca um estilo literário é a maneira de mexer com as palavras. Poesia é um fenômeno de linguagem. De minha parte, confesso que fujo do regionalismo que não dê em arte, que só quer fazer registro. Não gosto de descrever lugares, bichos, coisas da natureza. Gosto de inventar. Quem descreve não é dono do assunto; quem inventa é. Não tenho compromisso com as verdades consagradas. O que desejo é me constar por meio de um trabalho estético. Se de tudo resultar um cheiro de coisa do chão, é bom. Pode até ser que seja regionalismo. Porém, há de ser mais transfigurismo pela palavra.
Estado - Você se sente isolado em Campo Grande?
Barros - Isolado não me sinto, juro. Às vezes me isolo, me tranco na minha toca para escrever, para ler, para imaginar. Parece que, no fechado, o imaginário se solta melhor. O que sinto mesmo é incompletude: essa falta de explicação para o sentido da vida. O que tenho é solidão. Mas solidão é opulência da alma. Tudo isso parece que destila amargor e sol na minha poesia.
Estado - As viagens marcaram sua poesia? Penso em um poeta como Vinícius de Moraes que, em cada cidade que viveu, parece ter sido um homem diferente.
Barros - Alguns anos da minha vida ambulei por lugares decadentes. Havia um certo fascínio em mim por cidades mortas, casas abandonadas, vestígios de civilizações. Um fascínio por ruínas habitadas por sapos e borboletas. Eu gostava de ver alguma germinação da inércia sobre ervinhas doentes, paredes leprentas, coissa desprezadas. As fontes de minha poesia, estou certo, vêm de errâncias desurbanas. Agora, o caso do Vinícius é outro. Ele é um poeta inumerável. Ele vem das grandes paixões, das grandes complexidades, das perplexidades humanas. Ele era 300, ele era 350, como diria o nosso Mário de Andrade. Manoel de Barros só é um bugre perturbado.
Estado - Existe essa entidade chamada poesia brasileira ou existem apenas poetas nascidos no Brasil?
Barros - Penso que existe sim uma poesia brasileira. Uma poesia que expresa a nossa alma e o nosso quintal. Porém, a linguagem, o tratamento que o poeta imprima à sua matéria pode fazer dele um poeta universal. Assim, as nossas particularidades podem ser universais por meio das palavras. Temos poetas do mundo nascidos no Brasil.
Estado - Como foi sua relação com o editor Ênio Silveira, recém- falecido?
Barros - Do Ênio fui amigo e companheiro desde o primeiro dia que conversamos. Uma das criaturas mais puras, mais honestas, mais idealistas que conheci. Um ser de escol - como se diz. Trocamos cartas por muitos anos. Trocamos amizades. Mandava a ele os meus originais e ficava quieto, esperando. De repente, me mandava as provas. Fazia questão de escrever as orelhas. Tenho cinco livros lançados por ele.
Estado - Como é hoje sua rotina de poeta?
Barros - Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo "lugar de ser inútil". Exploro há 60 anos esses mistéros. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc. Faço escavações. Entro às 7 horas, saio ao meio-dia. Anoto coisas em pequenos cadernos de rascunho. Arrumo versos, frases, desenho bonecos. Leio a Bíblia, dicionários, às vezes percorro século para descobrir o primeiro esgar de uma palavra. E gosto de ouvir e ler Vozes da Origem. Gosto de coissa que começam assim: "Antigamente, o tatu era gente e namorou a mulher de outro homem." Está no livro Vozes da Origem, da antropóloga Betty Mindlin. Essas leituras me ajudam a explorar os mistérios irracionais. Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento.
Estado - Seu último livro publicado se chama O livro das Ignorãças (Civilização Brasileira, 1983). A citação de abertura é eloqüente: "As coisas que não existem são mais bonitas." Qual é o papel da ignorância na atividade poética?
Barros - Gosto de ver o que não aparece. Um que não era o adivinha de Tebas, o Tirésias, um que era apenas o Pote-Cru, andejo de beira de rios, criado em grotas de preá, me disse um dia: "Eu tenho vaticínios de lugares." Pote-Cru, ele tinha percepções sensoriais largas, como os adivinhos, os videntes, os bruxos, os urgos, os demiurgos, os curandeiros, os magos. Essa gente toda usa muito a ignorância para nos conhecer. Como é que eles podem dizer: "Vi a tarde se encolher no olho de um pássaro?" Entretanto, se encolhe! Como é que eles podem dizer: "Os carrapichos não pregam no vento." E, entretanto, não pregam. Essas descobertas vêm da ignorância.
Estado - Você vive em uma região brasileira em que a natureza, mal ou bem, ainda resiste. Há futuro para a natureza?
Barros - No grande futuro, não sei o que seja, acho que o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo. Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser. Aquela liberdade que o homem tem de se sentir livre para o silêncio das árvores não vai ter mais. O idioma não vai servir mais para celebrar. O ser não vai mais comungar com as coisas. A imaginação não vai mais desabrochar, porque os nossos desejos e fantasias serão realizados. O mundo vai ter outro cheiro. Salvo não seja.
1 933
Carlos Nóbrega
Em Riste
de que um obelisco
acusa o céu?
ele mesmo tão inpuro
entre potência e solidão
acusa o céu?
ele mesmo tão inpuro
entre potência e solidão
913
Carlinhos Brown
Mares de ti
Só pra curtir
Com ti contente ficar
Cavo caldo de cana
No Canal de Panamá
Se tropeçar meus pés cansados
Nos mares de ti
Cuidar de mim cuidar de ti
As fases e frases
Desfazem nos jeans
Porque que é só você quem sabe
Aonde surfir
O mais bonito do magnífico
Se teu sorriso esculpir
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
Não sei pisar no breque
Tomo charrete
Pro lares rubis
Pensando nisso
Pensando em ti
Senti felicidade sem fim
Se for passar preciso sarar
É quase inútil
Ficar de ir
Ficar de vir
Ficar feliz isso sim
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
Me abraça bem
Já me sinto bem
Vim chorar
Como guitarra grunge
Como escaramouche
Amor talhador
Com ti contente ficar
Cavo caldo de cana
No Canal de Panamá
Se tropeçar meus pés cansados
Nos mares de ti
Cuidar de mim cuidar de ti
As fases e frases
Desfazem nos jeans
Porque que é só você quem sabe
Aonde surfir
O mais bonito do magnífico
Se teu sorriso esculpir
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
Não sei pisar no breque
Tomo charrete
Pro lares rubis
Pensando nisso
Pensando em ti
Senti felicidade sem fim
Se for passar preciso sarar
É quase inútil
Ficar de ir
Ficar de vir
Ficar feliz isso sim
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão
Me abraça bem
Já me sinto bem
Vim chorar
Como guitarra grunge
Como escaramouche
Amor talhador
1 458
Carlinhos Brown
Argila
Vinha rindo e circulando
Sobre tudo o cobertor do teu olhar
Varreu meus zolhos
E do teu olho joio
Uma gota de orvalho
Que era vidro se quedou
Vivendo um despedace
E o coração coador
Sorriu
Vexado de amargor e se pintou
Com a lama da lagoa pra à toa correr
Se for feito de argila
Seis enfeites te darei
Flores não andam em dúzia
Só foi uma que roubei
Sorriu
Vexado de amargor e se pintou
Com a lama da lagoa coa
Voa
Ê zuzuê ê zum zum zum ê zuzuê e zum
ê zuzuê ê zum zum zum ê zuzuê e zum
Solidão anda de muda
Sei pra sempre te amarei
Procurei por essas curvas
Quem no Tororó deixei
Sobre tudo o cobertor do teu olhar
Varreu meus zolhos
E do teu olho joio
Uma gota de orvalho
Que era vidro se quedou
Vivendo um despedace
E o coração coador
Sorriu
Vexado de amargor e se pintou
Com a lama da lagoa pra à toa correr
Se for feito de argila
Seis enfeites te darei
Flores não andam em dúzia
Só foi uma que roubei
Sorriu
Vexado de amargor e se pintou
Com a lama da lagoa coa
Voa
Ê zuzuê ê zum zum zum ê zuzuê e zum
ê zuzuê ê zum zum zum ê zuzuê e zum
Solidão anda de muda
Sei pra sempre te amarei
Procurei por essas curvas
Quem no Tororó deixei
1 411
Carlos Nóbrega
Um Gato
meio de louça
meio de sombra
imóveis sobre
si mesmo
o objeto de carne
e espera
espera que a tarde
se vá
de seus olhos
de tédio e sono
meio de sombra
imóveis sobre
si mesmo
o objeto de carne
e espera
espera que a tarde
se vá
de seus olhos
de tédio e sono
880
Carla Bianca
Alheio
Sofro,
por não ter
o que é teu.
O corpo,
boca,
pernas,
e dorso.
Contemplo o alheio,
sou do outro
e assim
faço-me companhia.
por não ter
o que é teu.
O corpo,
boca,
pernas,
e dorso.
Contemplo o alheio,
sou do outro
e assim
faço-me companhia.
946
Dílson Catarino
Poema Imortal
Minha vida nada possui de vazio
Conheço o silêncio da solidão
O indestrutível silêncio do exílio.
Meus olhos cruzam campinas silentes
O belo encrostando-se
nas imagens que criei
lúcidas
jamais mortas ou recortadas
límpidas
Sinto que fluem para a verdade.
As imagens contempladas dos gestos
constroem prazeres
Não espero nada
que ainda volte de um poço sem fundo.
Quero respirar a poesia sem outra dor
Sem visões de falsa paz.
Mesmo que o tédio amargure séculos
Viverei o reverso libertado da morte
sem nada deixar sofrer.
Conheço o silêncio da solidão
O indestrutível silêncio do exílio.
Meus olhos cruzam campinas silentes
O belo encrostando-se
nas imagens que criei
lúcidas
jamais mortas ou recortadas
límpidas
Sinto que fluem para a verdade.
As imagens contempladas dos gestos
constroem prazeres
Não espero nada
que ainda volte de um poço sem fundo.
Quero respirar a poesia sem outra dor
Sem visões de falsa paz.
Mesmo que o tédio amargure séculos
Viverei o reverso libertado da morte
sem nada deixar sofrer.
1 105
Afonso Cautela
Ponto Final
Não, não estou doente,
não preciso de escolta,
os rins funcionam, felizmente,
ou por morrer também se paga multa?
Não preciso de nada,
estou em ordem,
despeçam-se de mim à bofetada
e passem muito bem.
Deixem-me dormir que tenho fome
e sede e sono,
o meu corpo bebe e come
dor e abandono.
Já tenho fato,
metam-no na caixa,
não esqueçam de pôr luto
e nos sapatos, graixa.
não preciso de escolta,
os rins funcionam, felizmente,
ou por morrer também se paga multa?
Não preciso de nada,
estou em ordem,
despeçam-se de mim à bofetada
e passem muito bem.
Deixem-me dormir que tenho fome
e sede e sono,
o meu corpo bebe e come
dor e abandono.
Já tenho fato,
metam-no na caixa,
não esqueçam de pôr luto
e nos sapatos, graixa.
802
Dílson Catarino
Passado Quebrado
Não há muros intransponíveis
Não há linhas sempre retas
Nem há o dia certo
É melhor deixar tudo pra depois
E nada dizer a eles.
Peixes não adoram deuses
Talvez por isso sejam tão serenos
E tudo passa por eles
Como se nada fosse.
Muros altos, linhas tortas
Como saber o que fazer?
Durante tanto tempo sem nada entender
Acordando somente com a noite
Sem coragem de se olhar ao espelho
Sem coragem de crescer
Somente olhar à lua
Sentado à mesa de um bar
A caminhar pela escuridão
Querendo ser assim por toda a vida.
Em mim, tudo mudou,
e ninguém me avisou
Ainda procuro meus óculos quebrados
pra enxergar melhor o passado
que também se quebrou.
Ainda sinto meus longos cabelos
Cortados como minha liberdade
Podados como minha ingenuidade.
Não há linhas sempre retas
Nem há o dia certo
É melhor deixar tudo pra depois
E nada dizer a eles.
Peixes não adoram deuses
Talvez por isso sejam tão serenos
E tudo passa por eles
Como se nada fosse.
Muros altos, linhas tortas
Como saber o que fazer?
Durante tanto tempo sem nada entender
Acordando somente com a noite
Sem coragem de se olhar ao espelho
Sem coragem de crescer
Somente olhar à lua
Sentado à mesa de um bar
A caminhar pela escuridão
Querendo ser assim por toda a vida.
Em mim, tudo mudou,
e ninguém me avisou
Ainda procuro meus óculos quebrados
pra enxergar melhor o passado
que também se quebrou.
Ainda sinto meus longos cabelos
Cortados como minha liberdade
Podados como minha ingenuidade.
738
Dílson Catarino
Sombra Calada
Por que ser eu, se posso ser o silêncio
da nuvem que não chora?
Meu rosto levita indiferente
pelos séculos de pedra.
Procuro a praia de areias brancas
e encontro a inconsistência do lodaçal
Ah! A adolescência inexata já morreu
deixando os lábios secos
os companheiros sem rumo
o mundo sem amar.
Meus olhos miram a vaguidade, lentamente,
tristes e sós,
mas nada vêem além da janela
enquanto as borboletas amarelas
tingem o anil do infinito.
Não sou o sonho sustentado
nem o riso invisível.
Sou s sombra calada
o silêncio aceso
debruçado no deserto de cimento.
da nuvem que não chora?
Meu rosto levita indiferente
pelos séculos de pedra.
Procuro a praia de areias brancas
e encontro a inconsistência do lodaçal
Ah! A adolescência inexata já morreu
deixando os lábios secos
os companheiros sem rumo
o mundo sem amar.
Meus olhos miram a vaguidade, lentamente,
tristes e sós,
mas nada vêem além da janela
enquanto as borboletas amarelas
tingem o anil do infinito.
Não sou o sonho sustentado
nem o riso invisível.
Sou s sombra calada
o silêncio aceso
debruçado no deserto de cimento.
799
Castro Alves
Fragmento
HÁ FLORES tristes, que nascendo à noite
Só têm o açoite
Do cruento sul
E sem que um raio lhes alente a seiva,
Rolam na leiva
De seu vil paul.
Eu sou como elas. A vagar sozinho
Sigo um caminho
De ervaçais e pó
A luz de esprança bruxuleia a custo
Tremo de susto,
De morrer tão só.
Só têm o açoite
Do cruento sul
E sem que um raio lhes alente a seiva,
Rolam na leiva
De seu vil paul.
Eu sou como elas. A vagar sozinho
Sigo um caminho
De ervaçais e pó
A luz de esprança bruxuleia a custo
Tremo de susto,
De morrer tão só.
4 220
Castro Alves
No Monte
"PAREI... Volvi em torno os olhos assombrados...
Ninguém! A solidão pejava os descampados...
Restava inda um segundo... um só pra me salvar;
Então reuni as forças, ao céu ergui o olhar...
E do peito arranquei um pavoroso grito,
Que foi bater em cheio às portas do infinito!
Ninguém! Ninguém me acode... Ai! só de monte em monte
Meu grito ouvi morrer na extrema do horizonte!...
Depois a solidão ainda mais calada
Na mortalha envolveu a serra descampada!...
"Ai! que pode fazer a rola triste
Se o gavião nas garras a espedaça?
Ai! que faz o cabrito do deserto,
Quando a jibóia no potente aperto
Em roscas férreas o seu corpo enlaça?
"Fazem como eu?... Resistem, batem, lutam,
E finalmente expiram de tortura.
Ou, se escapam trementes, arquejantes,
Vão, lambendo as feridas gotejantes,
Morrer à sombra da floresta escura! ...
"E agora está concluída
Minha história desgraçada.
Quando caí — era virgem!
Quando ergui-me — desonrada!"
Ninguém! A solidão pejava os descampados...
Restava inda um segundo... um só pra me salvar;
Então reuni as forças, ao céu ergui o olhar...
E do peito arranquei um pavoroso grito,
Que foi bater em cheio às portas do infinito!
Ninguém! Ninguém me acode... Ai! só de monte em monte
Meu grito ouvi morrer na extrema do horizonte!...
Depois a solidão ainda mais calada
Na mortalha envolveu a serra descampada!...
"Ai! que pode fazer a rola triste
Se o gavião nas garras a espedaça?
Ai! que faz o cabrito do deserto,
Quando a jibóia no potente aperto
Em roscas férreas o seu corpo enlaça?
"Fazem como eu?... Resistem, batem, lutam,
E finalmente expiram de tortura.
Ou, se escapam trementes, arquejantes,
Vão, lambendo as feridas gotejantes,
Morrer à sombra da floresta escura! ...
"E agora está concluída
Minha história desgraçada.
Quando caí — era virgem!
Quando ergui-me — desonrada!"
2 189
Castro Alves
O HÓSPEDE
Choro por ver que os dias passam breves
E te esqueces de mim quando tu fores;
Como as brisas que passam doudas, leves,
E não tornam atrás a ver as flores.
Teófilo Braga
Onde vais, estrangeiro! Por que deixas
O solitário albergue do deserto?
O que buscas além dos horizontes?
Por que transpor o píncaro dos montes,
Quando podes achar o amor tão perto?...
"Pálido moço! Um dia tu chegaste
De outros climas, de terras bem distantes...
Era noite!... A tormenta além rugia...
Nos abetos da serra a ventania
Tinha gemidos longos, delirantes.
"Uma buzina restrugiu no vale
Junto aos barrancos onde geme o rio...
De teu cavalo o galopar soava,
E teu cão ululando replicava
Aos surdos roncos do trovão bravio.
"Entraste! A loura chama do brasido
Lambia um velho cedro crepitante,
Eras tão triste ao lume da fogueira...
Que eu derramei a lágrima primeira
Quando enxuguei teu manto gotejante!
"Onde vais, estrangeiro? Por que deixas
Esta infeliz, misérrima cabana?
Inda as aves te afagam do arvoredo...
Se quiseres... as flores do silvedo
Verás inda nas tranças da serrana.
"Queres voltar a este país maldito
Onde a alegria e o riso te deixaram?
Eu não sei tua história... mas que importa?...
... Bóia em teus olhos a esperança morta
Que as mulheres de lá te apunhalaram.
"Não partas, não! Aqui todos te querem!
Minhas aves amigas te conhecem.
Quando à tardinha volves da colina
Sem receio da longa carabina
De lajedo em lajedo as corças descem!
"Teu cavalo nitrindo na savana
Lambe as úmidas gramas em meus dedos,
Quando a fanfarra tocas na montanha,
A matilha dos ecos te acompanha
Ladrando pela ponta dos penedos.
"Onde vais, belo moço? Se partires
Quem será teu amigo, irmão e pajem?
E quando a negra insônia te devora,
Quem, na guitarra que suspira e chora,
Há de cantar-te seu amor selvagem?
"A choça do desterro é nua e fria!
O caminho do exílio é só de abrolhos!
Que família melhor que meus desvelos?...
Que tenda mais sutil que meus cabelos
Estrelados no pranto de teus olhos? ...
"Estranho moço! Eu vejo em tua fronte
Esta amargura atroz que não tem cura.
Acaso fulge ao sol de outros países,
Por entre as balças de cheirosos lises,
A esposa que tua alma assim procura?
"Talvez tenhas além servos e amantes,
Um palácio em lugar de uma choupana,
E aqui só tens uma guitarra e um beijo,
E o fogo ardente de ideal desejo
Nos seios virgens da infeliz serranal. . ."
—————
No entanto Ele partiu!... Seu vulto ao longe
Escondeu-se onde a vista não alcança...
... Mas não penseis que o triste forasteiro
Foi procurar nos lares do estrangeiro
O fantasma sequer de uma esperança!...
E te esqueces de mim quando tu fores;
Como as brisas que passam doudas, leves,
E não tornam atrás a ver as flores.
Teófilo Braga
Onde vais, estrangeiro! Por que deixas
O solitário albergue do deserto?
O que buscas além dos horizontes?
Por que transpor o píncaro dos montes,
Quando podes achar o amor tão perto?...
"Pálido moço! Um dia tu chegaste
De outros climas, de terras bem distantes...
Era noite!... A tormenta além rugia...
Nos abetos da serra a ventania
Tinha gemidos longos, delirantes.
"Uma buzina restrugiu no vale
Junto aos barrancos onde geme o rio...
De teu cavalo o galopar soava,
E teu cão ululando replicava
Aos surdos roncos do trovão bravio.
"Entraste! A loura chama do brasido
Lambia um velho cedro crepitante,
Eras tão triste ao lume da fogueira...
Que eu derramei a lágrima primeira
Quando enxuguei teu manto gotejante!
"Onde vais, estrangeiro? Por que deixas
Esta infeliz, misérrima cabana?
Inda as aves te afagam do arvoredo...
Se quiseres... as flores do silvedo
Verás inda nas tranças da serrana.
"Queres voltar a este país maldito
Onde a alegria e o riso te deixaram?
Eu não sei tua história... mas que importa?...
... Bóia em teus olhos a esperança morta
Que as mulheres de lá te apunhalaram.
"Não partas, não! Aqui todos te querem!
Minhas aves amigas te conhecem.
Quando à tardinha volves da colina
Sem receio da longa carabina
De lajedo em lajedo as corças descem!
"Teu cavalo nitrindo na savana
Lambe as úmidas gramas em meus dedos,
Quando a fanfarra tocas na montanha,
A matilha dos ecos te acompanha
Ladrando pela ponta dos penedos.
"Onde vais, belo moço? Se partires
Quem será teu amigo, irmão e pajem?
E quando a negra insônia te devora,
Quem, na guitarra que suspira e chora,
Há de cantar-te seu amor selvagem?
"A choça do desterro é nua e fria!
O caminho do exílio é só de abrolhos!
Que família melhor que meus desvelos?...
Que tenda mais sutil que meus cabelos
Estrelados no pranto de teus olhos? ...
"Estranho moço! Eu vejo em tua fronte
Esta amargura atroz que não tem cura.
Acaso fulge ao sol de outros países,
Por entre as balças de cheirosos lises,
A esposa que tua alma assim procura?
"Talvez tenhas além servos e amantes,
Um palácio em lugar de uma choupana,
E aqui só tens uma guitarra e um beijo,
E o fogo ardente de ideal desejo
Nos seios virgens da infeliz serranal. . ."
—————
No entanto Ele partiu!... Seu vulto ao longe
Escondeu-se onde a vista não alcança...
... Mas não penseis que o triste forasteiro
Foi procurar nos lares do estrangeiro
O fantasma sequer de uma esperança!...
1 928
Bento Prado Júnior
Sou monge perdido
Eu venho de longe,
não sei donde vim...
Sou monge perdido
das praias sem fim...
Não tenho sandálias,
perdi meu bordão...
Ao longo da estrada,
a quanto me apego,
apego-me em vão;
tropeço nas pedras
e caio no chão...
Sou monge perdido
das praias sem fim...
Não tenho sandálias,
perdi meu bordão...
De nada me lembro
do muito que vi...
Sou monge perdido
das praias sem fim...
Caminhos malditos
marcaram-me os pés,
as urzes da estrada
feriram-me as mãos...
Os pés sempre prontos,
embora a sangrar,
palmilham o chão;
as mãos sempre abertas,
afeitas a dar,
semeiam o perdão...
As novas que trago,
são novas do Rei...
Não digo mentiras,
só digo o que sei...
Está tudo escrito,
à guisa de lei,
no cerne, na carne,
no firme, no vivo
do meu coração...
As novas que trago,
mensagem de amor,
nascidas comigo,
eu sei-as de cor...
Sou monge perdido
das praias sem fim.
não sei donde vim...
Sou monge perdido
das praias sem fim...
Não tenho sandálias,
perdi meu bordão...
Ao longo da estrada,
a quanto me apego,
apego-me em vão;
tropeço nas pedras
e caio no chão...
Sou monge perdido
das praias sem fim...
Não tenho sandálias,
perdi meu bordão...
De nada me lembro
do muito que vi...
Sou monge perdido
das praias sem fim...
Caminhos malditos
marcaram-me os pés,
as urzes da estrada
feriram-me as mãos...
Os pés sempre prontos,
embora a sangrar,
palmilham o chão;
as mãos sempre abertas,
afeitas a dar,
semeiam o perdão...
As novas que trago,
são novas do Rei...
Não digo mentiras,
só digo o que sei...
Está tudo escrito,
à guisa de lei,
no cerne, na carne,
no firme, no vivo
do meu coração...
As novas que trago,
mensagem de amor,
nascidas comigo,
eu sei-as de cor...
Sou monge perdido
das praias sem fim.
1 295
Carlos Augusto Corrêa
Elegia Sem Posse
mesmo solto na altura dos bêbados
tenha o gosto e a certeza do pó
que trago no chão de cada dia
onde no sonho me desgarro
querendo a noite maior
atravesso sem redenção
o rio que transporta
à noite da eternidade:
ó gueto, raiz que não furo
e quase lhe alcanço a entrada
mas minha imagem dilui-se
em meu sonho embriagado
quando em peso a noite desaba
entre o vinho e esse tráfego
na calçada que não agride
lambendo a borra nos lábios
e mastigando o lamento
por essa investia em vão —
não estou de posse da carne
estou repleto do que falta.
tenha o gosto e a certeza do pó
que trago no chão de cada dia
onde no sonho me desgarro
querendo a noite maior
atravesso sem redenção
o rio que transporta
à noite da eternidade:
ó gueto, raiz que não furo
e quase lhe alcanço a entrada
mas minha imagem dilui-se
em meu sonho embriagado
quando em peso a noite desaba
entre o vinho e esse tráfego
na calçada que não agride
lambendo a borra nos lábios
e mastigando o lamento
por essa investia em vão —
não estou de posse da carne
estou repleto do que falta.
995
Marcelo Batalha
Dedicação
Fico em casa, aguardo um telefonema
Um cinema, restaurante, saidinha.
Sendo a minha esperança derradeira,
Fico à beira do abismo da vontade.
Como um frade, celibato dedicado,
Mal pensado, por alguém que nem conheço.
Deus, mereço essa mulher tão sonhada ?
Mas que nada ! Nunca olhou para mim...
Vago, enfim, com a fome do carinho
No meu ninho, recolhido e insaciável
E, o que é provável, à espera de ninguém
O meu bem não tem nome, fico à míngua.
Minha língua se transforma em muita tinta :
No que pinta à mente, boto forma e cor.
E o amor que novamente respiro, e onde navego,
Deixa-me cego aos desígnios da razão.
Uma paixão me arrasa, me inspira ;
É minha lira, o poema revelado.
Coitado de quem nunca a descobriu !
Jamais sentiu seu coração em brasa...
Um cinema, restaurante, saidinha.
Sendo a minha esperança derradeira,
Fico à beira do abismo da vontade.
Como um frade, celibato dedicado,
Mal pensado, por alguém que nem conheço.
Deus, mereço essa mulher tão sonhada ?
Mas que nada ! Nunca olhou para mim...
Vago, enfim, com a fome do carinho
No meu ninho, recolhido e insaciável
E, o que é provável, à espera de ninguém
O meu bem não tem nome, fico à míngua.
Minha língua se transforma em muita tinta :
No que pinta à mente, boto forma e cor.
E o amor que novamente respiro, e onde navego,
Deixa-me cego aos desígnios da razão.
Uma paixão me arrasa, me inspira ;
É minha lira, o poema revelado.
Coitado de quem nunca a descobriu !
Jamais sentiu seu coração em brasa...
891
Bruno Araújo de Melo
A Tentativa dos Sonâmbulos
Hoje eu quero sair
E conversar com muita gente;
E ver o por-do-sol;
E crer no sol queimando lentamente.
Todo o tempo do mundo
Para mim que estou tão só
Refazer as pinturas
Nesses quadros
Que criei
Enquanto sonhava;
Ainda quero ver
Pessoas rindo sem pensar
Que há tanta lágrima
No fim de tudo.
E quero ver também
O mundo todo se alegrar
Ao perceber que as coisas
Tem um jeito próprio.
E não precisa ser perfeito
O nosso álbum de retratos;
Sempre há momentos ruins...
Um dia iremos nos lembrar
Sem julgamento algum, de tudo.
Sabendo que o que fizemos,
Foi uma tentativa
De fazer a vida
Mais feliz.
E conversar com muita gente;
E ver o por-do-sol;
E crer no sol queimando lentamente.
Todo o tempo do mundo
Para mim que estou tão só
Refazer as pinturas
Nesses quadros
Que criei
Enquanto sonhava;
Ainda quero ver
Pessoas rindo sem pensar
Que há tanta lágrima
No fim de tudo.
E quero ver também
O mundo todo se alegrar
Ao perceber que as coisas
Tem um jeito próprio.
E não precisa ser perfeito
O nosso álbum de retratos;
Sempre há momentos ruins...
Um dia iremos nos lembrar
Sem julgamento algum, de tudo.
Sabendo que o que fizemos,
Foi uma tentativa
De fazer a vida
Mais feliz.
854
Batista de Lima
Só
O que faz mais dura a solidão
é tirar de mim o que me falta
O que faz doer a solidão
é sua sede
é ter que arrancar
destas entranhas
um oceano de pedridade
de quem freqüentou a escola das facas
onde o que corta não é o gume
mas a falta da lâmina
O que fere não é a dor
é sua ausência assassina
pendurada nos cabides da alma
O que dói na solidão
é ter que amar
e amar é perder uma banda
é extrair um bonde de um homem
é extrair um bosque de uma mulher
O que mais fere na solidão
é sua inscrição cravada em brasa
no braço inútil do verso
uma família em torno da mesa
comendo pratos de silêncio
O que mais dói na solidão
é perder de mim
os outros que carrego
o segundo contra o primeiro
o terceiro que instiga
o quarto que dorme
o quinto que inicia
uma infinidade de outros
O que dói na solidão
é essa batalha que não acaba mais
entre guerreiros invisíveis
enquanto um boi passeia nas nuvens
e uma bicicleta muge
já que os verdes anos foram nulos
para quem nasceu maduro
para quem perdeu o ciso
na primeira dentição
e o cordão umbilical
nos bicos de um galo cego
Ia prás bandas da Cipaúba
Quanto dói
ver a velha mangueira se desfazendo
velha velha mangueira
por quanto tempo roerei
teus nós
por quanto tempo aguardarei
a manga que os passarinhos
bicam
no último dos galhos
O que dói na solidão
é o vira-lata sozinho
revirando o deserto
da cidade esquecida nas ruas
é ter um pai com muitas capas
todas com seus mistérios
se desfazendo em barro
por um caminho que mespera
O que mais dói na solidão
é ter na mão uma chave
que nada abre
que nada abre
O que mais dói na solidão
é não se poderem conter
os fantasmas que teimam
em saltar das sombras
de cada canto
São essas cobras
passeando em nossa cabeça
serpentário infindável
Difícil conviver
com a inesgotável solidão
mais difícil mesmo
é compor o verso
sem a vaca no divã
triste luna
rodonoite
áspera/mente
Só mesmo a roda grande
sescondendo em menor roda
Só mesmo a bicicleta
pendurada no trem noturno
Só mesmo a melancia
no rio em cheia
boiando
E os carneiros na mesa grande boiando
os teus olhos boiando na bandeja
os teus seios boiando no cuscus
os teus sais boiando nas iguarias
os teus ais boiando na
rememóría
O que mais dói
não é tua ausência
mas tua presença
estando longe
Lembra-te pois do açude
onde as águas ainda nos guardam
e os peixes nos carpem
em lágrimas de cumplicidade
Lembra-te da porta marcada
pelos mistérios de estar fechada
da casa retendo a mesa onde
saboreávamos os silêncios familiares
e escrevíamos a história da solidão
no livro branco do cotidiádo
A solidão mora lá e é manca
e usa bengala preta
e óculos no nariz
e se veste de uma veste que nunca muda
e tem na mão fechada a chave da
nossa libertação
Solidão solidão
meu coração é uma cidade
entre muralhas
esperando tuas chaves
Solidão solidão
certa vez em Mombaça
pedia esmolas pra São Sebastião
e desenhei teu corpo num surrão de mangas
e em bandas de coité de brejo
Desenhei teu corpo
num portão de vidro
éramos dois
que não eram dois
Éramos dois e só um sol
a claridade e seu dorso
a clara idade e sua dor
Solidão solidão
estamos em pleno mar e não
há mar nenhum
Estamos em pleno sono
e não há qualquer sonho
só minha mão como um rosto
cortando em muitos
o luar de agosto
O que dói na solidão é ter
Ter é estar preso
pesar pesadamente fixo
Não ter
é poder voar
Leve
levo-me às alturas
lavo-me candura
com o vôo esculpido
no azul azul
o azul está no prato
servido e sorvido
seres vivos
estamos nele
e ele em nós
pasto de pasto
repasto
solitariamente circular
rodando em torno da roda
A solidão eixa e deseixa
em roda
quanto mais vemos
menos vivemos
coração coração
Tenho ossos e mais ossos
a rodear
Que tenho feito senão rodear
nunca quebrei o fêmur do que está posto
nem a tíbia das situações sem jeito
Rodear é fugir
Solidade
quando chegamos ao trem
não havia trilho
No açude não havia água
só a dor do pesca/dor
dois meninos
engolindo uma duna
e uma duna engolindo um astro
uma foto de uma foto partida
onde o instante enterrou-se
A solidão é uma foto em que
se retorce
um inconformado instante
Solidão é desencontrar-se nos própios passos
nos próprios ossos
perder o azul do firmamento
deixar de extrair gerânios
das pedras e de suas raízes
deixar de pentear os raios do sol
desarredondar a lua em luares
atravessados
Uma casa é uma caixa
de apenas portas
e abertas todas
uma casa é um avesso
um delírio espesso
vasto berro de barro
vagido e gozo
vôo espargido
de sonho e suspiro
Minha solidão é nódoa grudada
no ombro esquerdo do corpo
onde jaz a mala
das minhas desventuras
Minha mãe é a terra
e cumpro seu estatuto
em retomar ao seu ventre
meus filhos todos me seguirão
vastíssimos sonhos
de/verão
Tarde tarde
a solidão me salga as horas
a mulher que retém o homem
suas asas e águas
rio seco
areia de leito
íngua cortada
ferida tratada a urina
caborge
no meu pescoço levo teu pescoço
teus passos laçados
teu poder de vôo
teu grito guardado
Solidão é Laura de costas
Laura láurea loura
minha querida Laura
chorarei lágrimas douradas
quando tua nudez
se esculpir no relâmpago
Querida Laura
recupera aquele instante
em que nossos dedos se
tocaram
e nos perdemos
Recupera o instante anterior ao toque
quando a correnteza era mais forte em mim
o despencar mais vertical
retendo aqui esse abismo
que me engole
Recupera teu pai
e a cuia
que enchamos de esperanças
antes do leite
Recupera tua mãe
e a chuva fina
no telhado
Recupera as águas
que nos levaram
e lavaram
nossos sais
o céu azul
o curto mundo
onde só o coração era vasto
Recupera as curvas
dos caminhos
Recupera o fogo de
monturo em nós
Se não me queimo
não posso iluminar
se não te firo
não extraio de ti o coração
"rosa vermelha
do meu bem querer"
Na noite tarde
o que resta é meu corpo lá
e eu daqui
olhando sua/minha posição fetal
e essa augústia de perdê-lo de vista
Não sei quando perderei
essa dor
de perder a casca
a casa do ser não importa tanto
se tantas se erguem
Só o ser é uno
solitariamente nu
e eu molusco
a vida inteira tenho construído essa casca
que me expele e me retém
escravo da construção
construir é viver
terminar a casa é terminar-me
é expulsar-me da casca construída
é tirar de mim o que me falta
O que faz doer a solidão
é sua sede
é ter que arrancar
destas entranhas
um oceano de pedridade
de quem freqüentou a escola das facas
onde o que corta não é o gume
mas a falta da lâmina
O que fere não é a dor
é sua ausência assassina
pendurada nos cabides da alma
O que dói na solidão
é ter que amar
e amar é perder uma banda
é extrair um bonde de um homem
é extrair um bosque de uma mulher
O que mais fere na solidão
é sua inscrição cravada em brasa
no braço inútil do verso
uma família em torno da mesa
comendo pratos de silêncio
O que mais dói na solidão
é perder de mim
os outros que carrego
o segundo contra o primeiro
o terceiro que instiga
o quarto que dorme
o quinto que inicia
uma infinidade de outros
O que dói na solidão
é essa batalha que não acaba mais
entre guerreiros invisíveis
enquanto um boi passeia nas nuvens
e uma bicicleta muge
já que os verdes anos foram nulos
para quem nasceu maduro
para quem perdeu o ciso
na primeira dentição
e o cordão umbilical
nos bicos de um galo cego
Ia prás bandas da Cipaúba
Quanto dói
ver a velha mangueira se desfazendo
velha velha mangueira
por quanto tempo roerei
teus nós
por quanto tempo aguardarei
a manga que os passarinhos
bicam
no último dos galhos
O que dói na solidão
é o vira-lata sozinho
revirando o deserto
da cidade esquecida nas ruas
é ter um pai com muitas capas
todas com seus mistérios
se desfazendo em barro
por um caminho que mespera
O que mais dói na solidão
é ter na mão uma chave
que nada abre
que nada abre
O que mais dói na solidão
é não se poderem conter
os fantasmas que teimam
em saltar das sombras
de cada canto
São essas cobras
passeando em nossa cabeça
serpentário infindável
Difícil conviver
com a inesgotável solidão
mais difícil mesmo
é compor o verso
sem a vaca no divã
triste luna
rodonoite
áspera/mente
Só mesmo a roda grande
sescondendo em menor roda
Só mesmo a bicicleta
pendurada no trem noturno
Só mesmo a melancia
no rio em cheia
boiando
E os carneiros na mesa grande boiando
os teus olhos boiando na bandeja
os teus seios boiando no cuscus
os teus sais boiando nas iguarias
os teus ais boiando na
rememóría
O que mais dói
não é tua ausência
mas tua presença
estando longe
Lembra-te pois do açude
onde as águas ainda nos guardam
e os peixes nos carpem
em lágrimas de cumplicidade
Lembra-te da porta marcada
pelos mistérios de estar fechada
da casa retendo a mesa onde
saboreávamos os silêncios familiares
e escrevíamos a história da solidão
no livro branco do cotidiádo
A solidão mora lá e é manca
e usa bengala preta
e óculos no nariz
e se veste de uma veste que nunca muda
e tem na mão fechada a chave da
nossa libertação
Solidão solidão
meu coração é uma cidade
entre muralhas
esperando tuas chaves
Solidão solidão
certa vez em Mombaça
pedia esmolas pra São Sebastião
e desenhei teu corpo num surrão de mangas
e em bandas de coité de brejo
Desenhei teu corpo
num portão de vidro
éramos dois
que não eram dois
Éramos dois e só um sol
a claridade e seu dorso
a clara idade e sua dor
Solidão solidão
estamos em pleno mar e não
há mar nenhum
Estamos em pleno sono
e não há qualquer sonho
só minha mão como um rosto
cortando em muitos
o luar de agosto
O que dói na solidão é ter
Ter é estar preso
pesar pesadamente fixo
Não ter
é poder voar
Leve
levo-me às alturas
lavo-me candura
com o vôo esculpido
no azul azul
o azul está no prato
servido e sorvido
seres vivos
estamos nele
e ele em nós
pasto de pasto
repasto
solitariamente circular
rodando em torno da roda
A solidão eixa e deseixa
em roda
quanto mais vemos
menos vivemos
coração coração
Tenho ossos e mais ossos
a rodear
Que tenho feito senão rodear
nunca quebrei o fêmur do que está posto
nem a tíbia das situações sem jeito
Rodear é fugir
Solidade
quando chegamos ao trem
não havia trilho
No açude não havia água
só a dor do pesca/dor
dois meninos
engolindo uma duna
e uma duna engolindo um astro
uma foto de uma foto partida
onde o instante enterrou-se
A solidão é uma foto em que
se retorce
um inconformado instante
Solidão é desencontrar-se nos própios passos
nos próprios ossos
perder o azul do firmamento
deixar de extrair gerânios
das pedras e de suas raízes
deixar de pentear os raios do sol
desarredondar a lua em luares
atravessados
Uma casa é uma caixa
de apenas portas
e abertas todas
uma casa é um avesso
um delírio espesso
vasto berro de barro
vagido e gozo
vôo espargido
de sonho e suspiro
Minha solidão é nódoa grudada
no ombro esquerdo do corpo
onde jaz a mala
das minhas desventuras
Minha mãe é a terra
e cumpro seu estatuto
em retomar ao seu ventre
meus filhos todos me seguirão
vastíssimos sonhos
de/verão
Tarde tarde
a solidão me salga as horas
a mulher que retém o homem
suas asas e águas
rio seco
areia de leito
íngua cortada
ferida tratada a urina
caborge
no meu pescoço levo teu pescoço
teus passos laçados
teu poder de vôo
teu grito guardado
Solidão é Laura de costas
Laura láurea loura
minha querida Laura
chorarei lágrimas douradas
quando tua nudez
se esculpir no relâmpago
Querida Laura
recupera aquele instante
em que nossos dedos se
tocaram
e nos perdemos
Recupera o instante anterior ao toque
quando a correnteza era mais forte em mim
o despencar mais vertical
retendo aqui esse abismo
que me engole
Recupera teu pai
e a cuia
que enchamos de esperanças
antes do leite
Recupera tua mãe
e a chuva fina
no telhado
Recupera as águas
que nos levaram
e lavaram
nossos sais
o céu azul
o curto mundo
onde só o coração era vasto
Recupera as curvas
dos caminhos
Recupera o fogo de
monturo em nós
Se não me queimo
não posso iluminar
se não te firo
não extraio de ti o coração
"rosa vermelha
do meu bem querer"
Na noite tarde
o que resta é meu corpo lá
e eu daqui
olhando sua/minha posição fetal
e essa augústia de perdê-lo de vista
Não sei quando perderei
essa dor
de perder a casca
a casa do ser não importa tanto
se tantas se erguem
Só o ser é uno
solitariamente nu
e eu molusco
a vida inteira tenho construído essa casca
que me expele e me retém
escravo da construção
construir é viver
terminar a casa é terminar-me
é expulsar-me da casca construída
1 041
Artur Eduardo Benevides
Dos Caminhos e Descaminhos da Solidão
I
A solidão
é um grito selvagem
na infinita viagem
de nossa expectação.
Insulana e tirana
fere-nos com o sílex de sua maldição.
Ou dança às vezes crucial pavana
tornando mais escura a nossa habitação.
Ela vem de repente
com seu olhar parado, de serpente.
E nos põe em seus nichos
a ensinar-nos, com longos cochichos,
seu ofício final de penitente.
II
A solidão
é bailarina imóvel em cima de um tablado.
É o noivo enjeitado
que volta sozinho, em meio à multidão.
E semelha, às vezes, um velho trem parado.
Ou um rosto no espelho, aprisionado,
a ouvir, ao longe, o latido de um cão.
III
Oh, a disciplina dos que vivem sós
e dos que voam às cegas, como os noitibós!
E todos os poemas nascem dessa fonte.
Todos os nossos passos cruzarão sua ponte.
E como não temos para quem gritar
somos veleiros perdidos em seu mar.
IV
Já fui mais sozinho
do que os retratos de velhos casarões
onde se guarda, qual rubro vinho,
a soma imperial das solidões.
A solidão dos avós.
A solidão dos rondós.
A solidão da tia solteirona
adormecendo aos poucos, na poltrona.
Ou a solidão do negro acorrentado
por haver olhado a moça, no rio, desnuda.
A solidão graúda
dos que envelhecem em paz e castidade.
Ou planejam o amor, mas sem maldade,
e são logo feridos e esquecidos.
V
Ó solidão do desamor!
Solidão do Cristo no Tabor!
Solidão
dos que perderam as chuvas e a sazão!
E há um jogo de surpresas
quais passos pelas devesas
cheias de assombração.
Mastigamos, contudo, esse amargo pão
e há no corredor
do mundo interior
inexorável inavegação.
VI
Alma sozinha e perdida,
a solidão corre a toda a brida
para nada.
Mesmo assim, nasce a madrugada
sobre as casas vazias
e as penedias.
E tudo, em nós, verão ou primavera,
é uma vasta espera.
VII
Ai, solidão: a morte no último vagão.
Um longo e irrespondido olhar
ou um entreparar
de vento em nosso vão lamento.
Ela em nós se debruça
e soluça
enquanto uma seresta se afasta
qual canção azul e sempre casta
que jamais esquecemos
e em nós sofremos
igual à lembrança da infância perdida.
Ou da vida.
VIII
Triste é o nosso sorrir.
Às vezes, chegar é o mesmo que partir.
Somos uma longa viagem
em que vamos perdendo rumo e paisagem.
E no silêncio final dos caminhos
estaremos sozinhos.
Por isso, em minha alma indormida
o sonho é como o apito de despedida
de um navio tragado em rodopio.
IX
Ônix da ausência
a solidão é a consciência
do pélago nas almas mais sofridas.
Chuva molhando o rosto dos suicidas
é uma loba uivando sob o frio,
ou o cinzento do estio.
É o canto da araponga ao meio-dia.
O sol da noite. A dor da poesia.
O medo de alguém na multidão.
Um ser a fugir da escuridão.
E vem de Alba-Longa, talvez. Ou de Castela.
Ou do sertão, na Cantiga do Vilela.
Ou das longínquas ilhas
além dos horizontes das Antilhas.
Mas estando tão longe fica em nós tão perto
que sentimos seu abismo abrir-se num deserto.
X
Oh, a solidão dos espelhos
e do mugir dos bois na madrugada!
Ó solidão — batentes de uma escada
em que dormitam sete escaravelhos.
E há uma flauta triste no final de tudo.
Uma súplica em dor num espírito mudo.
Ou o grito inesperado. O final da lida.
O inalcançado amor. A alma já perdida
de um bêbado num bar. Ou de alguém a buscar
as cousas que deveriam estar e nunca estão.
E um punhal invisível se ergue: a solidão.
A solidão de Édipo e Narciso.
A solidão que chega sem aviso
ferindo os seios de luar da Amada.
E treme na balada
que em nós, qual soluço, sossegou.
Ou é um grou
voando ao solstício
sobre a boca fatal de um precipício.
E tudo parece o sono da verdade
qual cavalo cego em meio à tempestade.
Ainda assim, tentamos atravessar os nossos rios
vendo, nas lanternas, o lento apagar-se dos últimos pavios.
A solidão
é um grito selvagem
na infinita viagem
de nossa expectação.
Insulana e tirana
fere-nos com o sílex de sua maldição.
Ou dança às vezes crucial pavana
tornando mais escura a nossa habitação.
Ela vem de repente
com seu olhar parado, de serpente.
E nos põe em seus nichos
a ensinar-nos, com longos cochichos,
seu ofício final de penitente.
II
A solidão
é bailarina imóvel em cima de um tablado.
É o noivo enjeitado
que volta sozinho, em meio à multidão.
E semelha, às vezes, um velho trem parado.
Ou um rosto no espelho, aprisionado,
a ouvir, ao longe, o latido de um cão.
III
Oh, a disciplina dos que vivem sós
e dos que voam às cegas, como os noitibós!
E todos os poemas nascem dessa fonte.
Todos os nossos passos cruzarão sua ponte.
E como não temos para quem gritar
somos veleiros perdidos em seu mar.
IV
Já fui mais sozinho
do que os retratos de velhos casarões
onde se guarda, qual rubro vinho,
a soma imperial das solidões.
A solidão dos avós.
A solidão dos rondós.
A solidão da tia solteirona
adormecendo aos poucos, na poltrona.
Ou a solidão do negro acorrentado
por haver olhado a moça, no rio, desnuda.
A solidão graúda
dos que envelhecem em paz e castidade.
Ou planejam o amor, mas sem maldade,
e são logo feridos e esquecidos.
V
Ó solidão do desamor!
Solidão do Cristo no Tabor!
Solidão
dos que perderam as chuvas e a sazão!
E há um jogo de surpresas
quais passos pelas devesas
cheias de assombração.
Mastigamos, contudo, esse amargo pão
e há no corredor
do mundo interior
inexorável inavegação.
VI
Alma sozinha e perdida,
a solidão corre a toda a brida
para nada.
Mesmo assim, nasce a madrugada
sobre as casas vazias
e as penedias.
E tudo, em nós, verão ou primavera,
é uma vasta espera.
VII
Ai, solidão: a morte no último vagão.
Um longo e irrespondido olhar
ou um entreparar
de vento em nosso vão lamento.
Ela em nós se debruça
e soluça
enquanto uma seresta se afasta
qual canção azul e sempre casta
que jamais esquecemos
e em nós sofremos
igual à lembrança da infância perdida.
Ou da vida.
VIII
Triste é o nosso sorrir.
Às vezes, chegar é o mesmo que partir.
Somos uma longa viagem
em que vamos perdendo rumo e paisagem.
E no silêncio final dos caminhos
estaremos sozinhos.
Por isso, em minha alma indormida
o sonho é como o apito de despedida
de um navio tragado em rodopio.
IX
Ônix da ausência
a solidão é a consciência
do pélago nas almas mais sofridas.
Chuva molhando o rosto dos suicidas
é uma loba uivando sob o frio,
ou o cinzento do estio.
É o canto da araponga ao meio-dia.
O sol da noite. A dor da poesia.
O medo de alguém na multidão.
Um ser a fugir da escuridão.
E vem de Alba-Longa, talvez. Ou de Castela.
Ou do sertão, na Cantiga do Vilela.
Ou das longínquas ilhas
além dos horizontes das Antilhas.
Mas estando tão longe fica em nós tão perto
que sentimos seu abismo abrir-se num deserto.
X
Oh, a solidão dos espelhos
e do mugir dos bois na madrugada!
Ó solidão — batentes de uma escada
em que dormitam sete escaravelhos.
E há uma flauta triste no final de tudo.
Uma súplica em dor num espírito mudo.
Ou o grito inesperado. O final da lida.
O inalcançado amor. A alma já perdida
de um bêbado num bar. Ou de alguém a buscar
as cousas que deveriam estar e nunca estão.
E um punhal invisível se ergue: a solidão.
A solidão de Édipo e Narciso.
A solidão que chega sem aviso
ferindo os seios de luar da Amada.
E treme na balada
que em nós, qual soluço, sossegou.
Ou é um grou
voando ao solstício
sobre a boca fatal de um precipício.
E tudo parece o sono da verdade
qual cavalo cego em meio à tempestade.
Ainda assim, tentamos atravessar os nossos rios
vendo, nas lanternas, o lento apagar-se dos últimos pavios.
1 540
Antunes da Silva
Quem Vem La?
- Quem vem lá
que me chama?
O velho bufão
com faces de lama,
ou maltês perdido
sem casa nem cama?
- Quem vem lá
que me grita?
O ronco do grifo
que assusta e crocita,
ou a terra que geme,
minha irmã aflita?
- Quem vem lá
que me espanta?
A noite a nascer
que já se levanta,
ou eco de búzio
na minha garganta?
- Quem vem lá
que se esconde?
Larápio de jóias
disfarçado em conde,
ou rancho coral
ouvindo-se aonde?
que me chama?
O velho bufão
com faces de lama,
ou maltês perdido
sem casa nem cama?
- Quem vem lá
que me grita?
O ronco do grifo
que assusta e crocita,
ou a terra que geme,
minha irmã aflita?
- Quem vem lá
que me espanta?
A noite a nascer
que já se levanta,
ou eco de búzio
na minha garganta?
- Quem vem lá
que se esconde?
Larápio de jóias
disfarçado em conde,
ou rancho coral
ouvindo-se aonde?
que me chama?
O velho bufão
com faces de lama,
ou maltês perdido
sem casa nem cama?
- Quem vem lá
que me grita?
O ronco do grifo
que assusta e crocita,
ou a terra que geme,
minha irmã aflita?
- Quem vem lá
que me espanta?
A noite a nascer
que já se levanta,
ou eco de búzio
na minha garganta?
- Quem vem lá
que se esconde?
Larápio de jóias
disfarçado em conde,
ou rancho coral
ouvindo-se aonde?
que me chama?
O velho bufão
com faces de lama,
ou maltês perdido
sem casa nem cama?
- Quem vem lá
que me grita?
O ronco do grifo
que assusta e crocita,
ou a terra que geme,
minha irmã aflita?
- Quem vem lá
que me espanta?
A noite a nascer
que já se levanta,
ou eco de búzio
na minha garganta?
- Quem vem lá
que se esconde?
Larápio de jóias
disfarçado em conde,
ou rancho coral
ouvindo-se aonde?
1 118
Artur Eduardo Benevides
Numa Sexta-Feira de Junho
Saudades. Todas tuas. Quão sozinho!
Quão cheio de esperanças me perdi!
Ao ver-te em plenitude te sofri,
Sentindo-te mais forte do que o vinho.
Saudades. E não vens. Mas adivinho
Como estejas agora por aí.
E juro que ao olhar-te me senti
Como quem nuvens colhe num caminho.
És o sol que me guia ou que me aquece.
És a valsa distante, da quermesse.
És o trigo do sonho a florescer.
Penso em teu rosto fino e delicado
E mesmo ao ver-me assim, tão desolado,
Já quase morto estando, vou viver!
Quão cheio de esperanças me perdi!
Ao ver-te em plenitude te sofri,
Sentindo-te mais forte do que o vinho.
Saudades. E não vens. Mas adivinho
Como estejas agora por aí.
E juro que ao olhar-te me senti
Como quem nuvens colhe num caminho.
És o sol que me guia ou que me aquece.
És a valsa distante, da quermesse.
És o trigo do sonho a florescer.
Penso em teu rosto fino e delicado
E mesmo ao ver-me assim, tão desolado,
Já quase morto estando, vou viver!
1 251
Araripe Coutinho
Face Morta
Trazes nas mãos o verso adormecido
que ao poente desce murmurante
trazes também a procissão dos atos
no amarelo ácido dos instantes
Quando circundam frestas e anseios
no peito pardo da mulher calada
águias e feras, vultos permanentes,
insistem em despertar a madrugada
Enquanto a vida acarícia a morte
vertidas lágrimas cristalizam a noite
espaços vagos por perdido amante
nutrem de solidão a cavalgada
E nos segredos dos cofres dos amores
a noite enclausura suas vítimas
no coito da manhã assassinada
Amores intermináveis vão rolando
na areia namorada da saudade
e beijos tombam em hálitos venenosos
beijando a face do horizonte amado
E o verso despe-se às escâncaras
mesmo existindo sentimentos amordaçados
e caem pétalas das orquídeas vespertinas
enquanto em silêncio fecham pálpebras
no útero da manhã que ainda dorme.
que ao poente desce murmurante
trazes também a procissão dos atos
no amarelo ácido dos instantes
Quando circundam frestas e anseios
no peito pardo da mulher calada
águias e feras, vultos permanentes,
insistem em despertar a madrugada
Enquanto a vida acarícia a morte
vertidas lágrimas cristalizam a noite
espaços vagos por perdido amante
nutrem de solidão a cavalgada
E nos segredos dos cofres dos amores
a noite enclausura suas vítimas
no coito da manhã assassinada
Amores intermináveis vão rolando
na areia namorada da saudade
e beijos tombam em hálitos venenosos
beijando a face do horizonte amado
E o verso despe-se às escâncaras
mesmo existindo sentimentos amordaçados
e caem pétalas das orquídeas vespertinas
enquanto em silêncio fecham pálpebras
no útero da manhã que ainda dorme.
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