Poemas neste tema
Animais e Natureza
António Emídio
Onírico em Verso
Olhos laser, os daquele cavalo alado
Voava alto, entre nuvens e fugia
Perdido entre vagas ou entre elas achado
Fogoso nas asas, alado de tanta ousadia!
Fugir em branco, sem ouvir ninguém,
O alado ousava, sem luz nem dia,
Corria desenfreado tudo o que sabia
O leme era o sonho num vai e vem...
A rota eram vozes do gritar de alguém
Subir a voar, procurar sem ver,
Ouvir sem querer, tantas vozes e ninguém!
Até que numa vaga se perdeu,
De tão alto que ficou,
Quando o leme se partiu e ele
logo acordou!
Voava alto, entre nuvens e fugia
Perdido entre vagas ou entre elas achado
Fogoso nas asas, alado de tanta ousadia!
Fugir em branco, sem ouvir ninguém,
O alado ousava, sem luz nem dia,
Corria desenfreado tudo o que sabia
O leme era o sonho num vai e vem...
A rota eram vozes do gritar de alguém
Subir a voar, procurar sem ver,
Ouvir sem querer, tantas vozes e ninguém!
Até que numa vaga se perdeu,
De tão alto que ficou,
Quando o leme se partiu e ele
logo acordou!
628
Augusto de Campos
Rodeio
De repente
estruge ao lado um
estrídulo tropel de cascos sobre pedras,
um
estrépito de galhos estralando,
tufa nos ares, em novelos,
uma nuvem de pó;
rompe, a súbitas, na clareira,
embolada,
uma ponta de gado e logo após,
sobre o cavalo que estaca esbarrado,
o vaqueiro,
teso nos estribos...
estruge ao lado um
estrídulo tropel de cascos sobre pedras,
um
estrépito de galhos estralando,
tufa nos ares, em novelos,
uma nuvem de pó;
rompe, a súbitas, na clareira,
embolada,
uma ponta de gado e logo após,
sobre o cavalo que estaca esbarrado,
o vaqueiro,
teso nos estribos...
1 379
Poemas Sânscritos
SOBRE AS VACAS SAGRADAS
1
Não é uma besta de carga,
não sabe a terra lavrar,
esta do templo uma vaca.
Mas temos de confessar
que é boa frita ou assada.
Não é uma besta de carga,
não sabe a terra lavrar,
esta do templo uma vaca.
Mas temos de confessar
que é boa frita ou assada.
1 000
Jonathan Griffin
COM ESTES OLHOS
Quem cruza o extremo sul da Groenlândia
a cinco mil metros visibilidade boa
vê, enchendo o norte azul, uma manada em susto
de chifres brancos detida por oceano.
Grenhas
se enrolando sobre
a
quietude deles.
Mas
quando se olha para baixo vêem-se
longas pardas
-
tentáculos do oceano
é o que parece,
penetrantes águas sem sol
entre
as frontes de prata -
agudas enseadas (um calafrio como que sobe desde
o pardo - a gente, numa nave tépida,
estremece).
Há uma esbranquiçada monótona sarna sobre as águas tristes
Presas nela
dispersas
lascas
de pureza -
Minha mãe em jovem ouviu no Spitzbergue
trovões, o
nascer de icebergues
Num relance
dos olhos e pensar
vi
o
ciclo
vi os
ventos para sempre
de sobre a
curva do mundo
trazendo nuvens para os chifres de rocha rasgarem em neve -
e para
baixo
devagar
os glaciares fluem
e estalando
caem em fiordes -
e, primeiro apertadas na massa, altivamente
as ninfas
de gelo as graves fúrias
soltam-se livres
só para
seguirem a corrente chupada
pela
seca do Equador -
as longas
garras do sol -
para
o sul
vi
o aberto
uma corrente levando
entes esquisitos - esmeraldas sobre
o
mar -
só que mais pálidas, intensidades pálidas cada uma
com
uma
fina fímbria de branco -
jóias de doce água primeva
perpétua frota.
navios
de
água
a cinco mil metros visibilidade boa
vê, enchendo o norte azul, uma manada em susto
de chifres brancos detida por oceano.
Grenhas
se enrolando sobre
a
quietude deles.
Mas
quando se olha para baixo vêem-se
longas pardas
-
tentáculos do oceano
é o que parece,
penetrantes águas sem sol
entre
as frontes de prata -
agudas enseadas (um calafrio como que sobe desde
o pardo - a gente, numa nave tépida,
estremece).
Há uma esbranquiçada monótona sarna sobre as águas tristes
Presas nela
dispersas
lascas
de pureza -
Minha mãe em jovem ouviu no Spitzbergue
trovões, o
nascer de icebergues
Num relance
dos olhos e pensar
vi
o
ciclo
vi os
ventos para sempre
de sobre a
curva do mundo
trazendo nuvens para os chifres de rocha rasgarem em neve -
e para
baixo
devagar
os glaciares fluem
e estalando
caem em fiordes -
e, primeiro apertadas na massa, altivamente
as ninfas
de gelo as graves fúrias
soltam-se livres
só para
seguirem a corrente chupada
pela
seca do Equador -
as longas
garras do sol -
para
o sul
vi
o aberto
uma corrente levando
entes esquisitos - esmeraldas sobre
o
mar -
só que mais pálidas, intensidades pálidas cada uma
com
uma
fina fímbria de branco -
jóias de doce água primeva
perpétua frota.
navios
de
água
638
Friedrich Hölderlin
O Arquipélago
(estrofes iniciais)
Tornam os grous de volta a ti, e buscam curso
Para tuas margens, de volta, os navios? respiram desejados
Ares em torno da maré pacificada, e ensolara o golfinho,
Atraído da profundeza, à nova luz, seu dorso?
Floresce a Jônia? é tempo? pois sempre que é primavera,
Quando aos viventes o coração renova-se e o primeiro
Amor desperta aos humanos e de tempos áureos a lembrança,
Venho a ti e te saúdo em tua quietude, Ancião!
Sempre, Poderoso, vives ainda e repousas à sombra
De tuas montanhas, como vivias; com braços de moço abraças
Ainda tua terra amável, e a de tuas filhas, Pai!
De tuas ilhas, ainda, as floridas - nenhuma está perdida.
Creta está aí, e verdeja Salamina, crepusculada de louros,
Circunflorida de raios; à hora do nascente eleva
Delos sua cabeça inspirada, e Tenos e Quios
Têm de frutos purpúreos quanto basta; de colinas bêbadas
Jorra a bebida de Chipre, e de Caláuria tombam
Ribeirões de prata, como outrora, nas velhas águas do Pai.
Vivem ainda todas elas, as mães de heróis, as ilhas,
Florindo de ano para ano, e se por vezes, do abismo
Desvencilhada, a flama da noite, a tempestade dos ínferos
Empolgou uma das belas, e essa moribunda se afundou em útero -
Oh Divino! tu aturaste - pois à flor das escuras
Profundezas, muita coisa já te nasceu e sucumbiu.
Tornam os grous de volta a ti, e buscam curso
Para tuas margens, de volta, os navios? respiram desejados
Ares em torno da maré pacificada, e ensolara o golfinho,
Atraído da profundeza, à nova luz, seu dorso?
Floresce a Jônia? é tempo? pois sempre que é primavera,
Quando aos viventes o coração renova-se e o primeiro
Amor desperta aos humanos e de tempos áureos a lembrança,
Venho a ti e te saúdo em tua quietude, Ancião!
Sempre, Poderoso, vives ainda e repousas à sombra
De tuas montanhas, como vivias; com braços de moço abraças
Ainda tua terra amável, e a de tuas filhas, Pai!
De tuas ilhas, ainda, as floridas - nenhuma está perdida.
Creta está aí, e verdeja Salamina, crepusculada de louros,
Circunflorida de raios; à hora do nascente eleva
Delos sua cabeça inspirada, e Tenos e Quios
Têm de frutos purpúreos quanto basta; de colinas bêbadas
Jorra a bebida de Chipre, e de Caláuria tombam
Ribeirões de prata, como outrora, nas velhas águas do Pai.
Vivem ainda todas elas, as mães de heróis, as ilhas,
Florindo de ano para ano, e se por vezes, do abismo
Desvencilhada, a flama da noite, a tempestade dos ínferos
Empolgou uma das belas, e essa moribunda se afundou em útero -
Oh Divino! tu aturaste - pois à flor das escuras
Profundezas, muita coisa já te nasceu e sucumbiu.
1 279
Roy Campbell
CRIAÇÃO DO POETA
Há nas manadas um novilho torto
Que cobre as vacas e os tropéis conduz,
Até que os velhos touros ciumentos
Correm com ele dos pastos em que vivem.
E à noite, ouvindo a rumorosa selva,
Desesperado por poder ter medo,
Os magros flancos vai chicoteando
A golpes duros da pesada cauda.
Longe dos cornos que em falange guardam
As manadas dormindo, lobos vence;
A noite cai, os leopardos seguem-no,
E todo o dia as moscas o aguilhoam.
Que cobre as vacas e os tropéis conduz,
Até que os velhos touros ciumentos
Correm com ele dos pastos em que vivem.
E à noite, ouvindo a rumorosa selva,
Desesperado por poder ter medo,
Os magros flancos vai chicoteando
A golpes duros da pesada cauda.
Longe dos cornos que em falange guardam
As manadas dormindo, lobos vence;
A noite cai, os leopardos seguem-no,
E todo o dia as moscas o aguilhoam.
1 025
Mary Celeste Bueno
Primavera
A estação libidinosa,
Plena do gosto da vida,
Imprevisível, garrida,
Lânguida e leve, goza.
Plantas, animais e gente,
Cheínhos de seiva e luz,
Erguem-se falicamente,
Ao que o destino os conduz.
Tempo de dor e prazer
Dias de sol e de chuva:
Um novo ciclo amanhece...
Sob a influência da Lua
Assim como tudo, acontece
São as sementes do ser.
Plena do gosto da vida,
Imprevisível, garrida,
Lânguida e leve, goza.
Plantas, animais e gente,
Cheínhos de seiva e luz,
Erguem-se falicamente,
Ao que o destino os conduz.
Tempo de dor e prazer
Dias de sol e de chuva:
Um novo ciclo amanhece...
Sob a influência da Lua
Assim como tudo, acontece
São as sementes do ser.
354
Carlos Alberto Pessoa Rosa
Animal
seu perfume
acende todas as vielas
esquinas e avenidas
de meu instinto animal
sem camisa
deitado sobre a vida
a espera
de um incidente qualquer
convulsiono...
irresponsavelmente...
animal.
acende todas as vielas
esquinas e avenidas
de meu instinto animal
sem camisa
deitado sobre a vida
a espera
de um incidente qualquer
convulsiono...
irresponsavelmente...
animal.
902
João dos Sonhos
Ave breve dos seios
Ave breve dos seios em vôo
florindo nos galhos
que esta voz velou
Ave breve do pasmo pousado
neste sentir-te irmã terrena
beijo-te a carne como quem esquece o vôo
Ave breve do canto sorvido
neste calar-te serena
sinto-te a carne pela carne que sou
Ave breve da espessura
que um vento rasteiro
revolve e afaga.
De mim ascendem raízes
como um ramo derradeiro
num silêncio sem destroços
Ave breve que o instante esmaga
neste pregar-te de músculo e ossos.
florindo nos galhos
que esta voz velou
Ave breve do pasmo pousado
neste sentir-te irmã terrena
beijo-te a carne como quem esquece o vôo
Ave breve do canto sorvido
neste calar-te serena
sinto-te a carne pela carne que sou
Ave breve da espessura
que um vento rasteiro
revolve e afaga.
De mim ascendem raízes
como um ramo derradeiro
num silêncio sem destroços
Ave breve que o instante esmaga
neste pregar-te de músculo e ossos.
990
Luiz Cavalini Jr.
No capim
roça a barriga na grama
com graça
coça o corpo
esmaga o mato no peito
curvada na relva quente
abana os insetos impertinentes
e se entrega de quatro, aberta, alerta
moita de desejos, de clorofila, de espermas
com graça
coça o corpo
esmaga o mato no peito
curvada na relva quente
abana os insetos impertinentes
e se entrega de quatro, aberta, alerta
moita de desejos, de clorofila, de espermas
1 063
Anibal Beça
Canto I
Eu parto da palavra
ao parto dos amantes:
Bem assim frente a frente
se inauguram os sons
aos olhos da surpresa:
E viu para falar
ouviu para dizer
tanta beleza agora
se vai a solidão
na maciez da pele
na relva dos cabelos
na fenda diferente.
E ele a chamou mulher
e sentiu o seu cheiro
e porque era de espanto
foi deitar-se com ela
no verde da campina
descobrindo seus poros
com o tato da língua
numa conversa muda
mas cheia de arrepios
reinventando colinas
na planície da pele.
No lastro das carícias
pesa o rumor dos corpos
com seu barulho de água
no suor represado.
E a vida neste instante
não era a mesma vida:
um tempero de febre
ardia na mudança.
No repouso dos corpos
no embalo da fadiga
vinha a fala alumbrada
palpando a geografia
guiada nas carícias
de dedos alpinistas.
E eles se revezavam
no batismo do corpo
na ablução das salivas
purificando as partes
no sal de suas águas.
A lua em seu modelo
nessas quatro mudanças
serviu para dar nome
aos dois quartos crescentes
bandas de níveas nádegas
com suas duas curvas
claras e tão macias;
colinas e montanhas
desenham os dois seios
com a cor do alabastro,
e a relva dos pentelhos
- o manto da vagina -
raízes de alfazema;
a boca uma romã;
estrelas são os olhos;
os búzios são ouvidos,
e o nariz promontório;
a forma mais ereta
obelisco de rocha
forjado pelos ventos
o pênis de atalaia.
Nomes adocicados
alfenim de momentos
rebuçados na língua
e o tempo derretendo
no espaço dos sentidos
nas bocas de um só gozo.
ao parto dos amantes:
Bem assim frente a frente
se inauguram os sons
aos olhos da surpresa:
E viu para falar
ouviu para dizer
tanta beleza agora
se vai a solidão
na maciez da pele
na relva dos cabelos
na fenda diferente.
E ele a chamou mulher
e sentiu o seu cheiro
e porque era de espanto
foi deitar-se com ela
no verde da campina
descobrindo seus poros
com o tato da língua
numa conversa muda
mas cheia de arrepios
reinventando colinas
na planície da pele.
No lastro das carícias
pesa o rumor dos corpos
com seu barulho de água
no suor represado.
E a vida neste instante
não era a mesma vida:
um tempero de febre
ardia na mudança.
No repouso dos corpos
no embalo da fadiga
vinha a fala alumbrada
palpando a geografia
guiada nas carícias
de dedos alpinistas.
E eles se revezavam
no batismo do corpo
na ablução das salivas
purificando as partes
no sal de suas águas.
A lua em seu modelo
nessas quatro mudanças
serviu para dar nome
aos dois quartos crescentes
bandas de níveas nádegas
com suas duas curvas
claras e tão macias;
colinas e montanhas
desenham os dois seios
com a cor do alabastro,
e a relva dos pentelhos
- o manto da vagina -
raízes de alfazema;
a boca uma romã;
estrelas são os olhos;
os búzios são ouvidos,
e o nariz promontório;
a forma mais ereta
obelisco de rocha
forjado pelos ventos
o pênis de atalaia.
Nomes adocicados
alfenim de momentos
rebuçados na língua
e o tempo derretendo
no espaço dos sentidos
nas bocas de um só gozo.
1 023
José Honório
Eu e Juliana
No tempo em que fui menino
não tinha televisão
por isso meu passatempo
era bodoque e pião
tomar banho lá no riacho
e pegar "aduvinhão".
No entanto eu fui crescendo
e já estando um rapaz
ajudava o velho Pedro
a cuidar dos animais
e também da plantação
lá do sítio de meus pais.
E nesse tempo eu ainda
sem ter mulher conhecido
de vez em quando eu sentia
algo em mim endurecido
quando chegava na mente
um pensamento atrevido.
Porém só fui descobrir
o prazer que ele traz
ao conhecer Juliana
(era bonita demais)
era mesma uma poltranca
que não esqueço jamais.
É dela que passo agora
a descrever o roteiro
e também do nosso caso
que é todo verdadeiro
muitas vezes repetido
no nordeste brasileiro.
No jardim da mocidade
o mundo tem mais olor
os dias são mais festivos
a noite tem mais primor
a mente é cheia de sonhos
e o peito cheio de amor.
Juliana foi a tara
que eu tive na adolescência
com ela foi que vivi
a primeira experiência
numa tarde de janeiro
na solidão da querência.
Momentos inesquecíveis
com Juliana eu passei
passeando pelos campos
de fazenda onde morei
e desses nossos passeios
eu jamais esquecerei.
Mesmo ficando caduco
agindo como criança
na minha senilidade
(que se não morrer, me alcança)
eu sei que Juliana vai
estar em minha lembrança.
Ela sempre me levava
pros passeios matinais
pelos rios, pelos campos,
por dentro dos matagais
e desses dias tão bons
sinto saudade demais.
E em nossas cavalgadas
vendo aguçado o sentido
fazia versos pra ela
cantando no seu ouvido
tendo o sol por testemunha
de nosso amor proibido.
Uma vez aconselhado
pelo "nego" Nicanor
levei Juliana pro mato
por entre ânsia e pavor
comecei a lhe alisar
mesmo com certo temor.
E ela naquele instante
pareceu compreender
aquilo que eu queria
pois ficou a se mexer
ficando assim, mais arisca
aumentando o meu querer.
Pus as mãos em suas ancas
e engatei na traseira
ela ficava impassível
satisfeita, prazenteira
saciando meus instintos
na bestial brincadeira.
Depois disso muitas vezes
levei pra junto do rio
aonde tinha um barranco
e então nesse baixio
eu pegava a Juliana
quando ela estava no cio.
Foi tão grande a atração
que por ela eu sentia
que me tornei um escravo
daquela égua vadia
cada vez mais penetrando
na sua ardente enchovia.
Nem o canto das sereias
que dizem ser sedutor
me faria desprezar
o prazer e o calor
que Juliana me dava
quando lhe fazia amor.
Foram dezenas de vezes
de conjugação carnal
pois tarei em Juliana
mas eu achava normal
Juliana era uma... égua
que não tinha outra igual.
Não queria nem saber
de almoçar e de jantar
só pensava em Juliana
ia pra todo lugar
que vida boa era aquela
como gosto de lembrar.
E nas horas vespertinas
quando o sol desvanescia
pegava sela e arreios
com Juliana eu saía
só voltava quando a noite
os campos verdes cobria.
O meu pai desconfiou
desse meu procedimento
e num dia de domingo
seguir-me teve o intento
e o fez bem sorrateiro
a tudo ficando atento.
E em flagrante delito
por meu pai fui apanhado
e levei um grande pito
que fiquei acabrunhado
mas o que houve depois
foi o golpe mais pesado.
Meu pai não se conformando
com a minha perversão
vendeu então minha égua
foi grande a decepção
ficou por mais de um mês
tristonho meu coração.
Não tendo mais Juliana
eu não quis substitutas
e passei a paquerar
as mais trigueiras matutas
me saciando nas zonas
com devassas prostitutas.
Mas ainda não achei
nenhuma mulher mundana
que seja bastante escrota
experiente e sacana
pra meu causar os prazeres
que tive com Juliana.
Este caso aqui contado
é um fato bem real
que inda hoje acontece
dentro do meio rural
e passa despercebido
do povo da capital.
Agradeço a todos que
me comprar um exemplar
pois comprando este folheto
ao autor vai ajudar
prestigiando o trabalho
do artista popular.
não tinha televisão
por isso meu passatempo
era bodoque e pião
tomar banho lá no riacho
e pegar "aduvinhão".
No entanto eu fui crescendo
e já estando um rapaz
ajudava o velho Pedro
a cuidar dos animais
e também da plantação
lá do sítio de meus pais.
E nesse tempo eu ainda
sem ter mulher conhecido
de vez em quando eu sentia
algo em mim endurecido
quando chegava na mente
um pensamento atrevido.
Porém só fui descobrir
o prazer que ele traz
ao conhecer Juliana
(era bonita demais)
era mesma uma poltranca
que não esqueço jamais.
É dela que passo agora
a descrever o roteiro
e também do nosso caso
que é todo verdadeiro
muitas vezes repetido
no nordeste brasileiro.
No jardim da mocidade
o mundo tem mais olor
os dias são mais festivos
a noite tem mais primor
a mente é cheia de sonhos
e o peito cheio de amor.
Juliana foi a tara
que eu tive na adolescência
com ela foi que vivi
a primeira experiência
numa tarde de janeiro
na solidão da querência.
Momentos inesquecíveis
com Juliana eu passei
passeando pelos campos
de fazenda onde morei
e desses nossos passeios
eu jamais esquecerei.
Mesmo ficando caduco
agindo como criança
na minha senilidade
(que se não morrer, me alcança)
eu sei que Juliana vai
estar em minha lembrança.
Ela sempre me levava
pros passeios matinais
pelos rios, pelos campos,
por dentro dos matagais
e desses dias tão bons
sinto saudade demais.
E em nossas cavalgadas
vendo aguçado o sentido
fazia versos pra ela
cantando no seu ouvido
tendo o sol por testemunha
de nosso amor proibido.
Uma vez aconselhado
pelo "nego" Nicanor
levei Juliana pro mato
por entre ânsia e pavor
comecei a lhe alisar
mesmo com certo temor.
E ela naquele instante
pareceu compreender
aquilo que eu queria
pois ficou a se mexer
ficando assim, mais arisca
aumentando o meu querer.
Pus as mãos em suas ancas
e engatei na traseira
ela ficava impassível
satisfeita, prazenteira
saciando meus instintos
na bestial brincadeira.
Depois disso muitas vezes
levei pra junto do rio
aonde tinha um barranco
e então nesse baixio
eu pegava a Juliana
quando ela estava no cio.
Foi tão grande a atração
que por ela eu sentia
que me tornei um escravo
daquela égua vadia
cada vez mais penetrando
na sua ardente enchovia.
Nem o canto das sereias
que dizem ser sedutor
me faria desprezar
o prazer e o calor
que Juliana me dava
quando lhe fazia amor.
Foram dezenas de vezes
de conjugação carnal
pois tarei em Juliana
mas eu achava normal
Juliana era uma... égua
que não tinha outra igual.
Não queria nem saber
de almoçar e de jantar
só pensava em Juliana
ia pra todo lugar
que vida boa era aquela
como gosto de lembrar.
E nas horas vespertinas
quando o sol desvanescia
pegava sela e arreios
com Juliana eu saía
só voltava quando a noite
os campos verdes cobria.
O meu pai desconfiou
desse meu procedimento
e num dia de domingo
seguir-me teve o intento
e o fez bem sorrateiro
a tudo ficando atento.
E em flagrante delito
por meu pai fui apanhado
e levei um grande pito
que fiquei acabrunhado
mas o que houve depois
foi o golpe mais pesado.
Meu pai não se conformando
com a minha perversão
vendeu então minha égua
foi grande a decepção
ficou por mais de um mês
tristonho meu coração.
Não tendo mais Juliana
eu não quis substitutas
e passei a paquerar
as mais trigueiras matutas
me saciando nas zonas
com devassas prostitutas.
Mas ainda não achei
nenhuma mulher mundana
que seja bastante escrota
experiente e sacana
pra meu causar os prazeres
que tive com Juliana.
Este caso aqui contado
é um fato bem real
que inda hoje acontece
dentro do meio rural
e passa despercebido
do povo da capital.
Agradeço a todos que
me comprar um exemplar
pois comprando este folheto
ao autor vai ajudar
prestigiando o trabalho
do artista popular.
1 210
Hilda Hilst
Araras versáteis
Araras versáteis. Prato de anêmonas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii...
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii...
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.
2 808
Leonardo Fróes
O apanhador no campo
Fruta e mulher no mesmo pé de caqui
no qual espantando os passarinhos eu trepo
para apanhar como um garoto a fruta
e apreciar, comendo-a lá no alto, a mulher
que ficou lá embaixo me esperando subir
e agora vejo se mexendo entre as folhas,
com seus olhos de mel, seus ombros secos,
enquanto me contorciono todo subindo
entre línguas de sol, roçar de galhos,
para alcançar e arremessar para ela,
no ponto mais extremo, o caqui mais doce.
no qual espantando os passarinhos eu trepo
para apanhar como um garoto a fruta
e apreciar, comendo-a lá no alto, a mulher
que ficou lá embaixo me esperando subir
e agora vejo se mexendo entre as folhas,
com seus olhos de mel, seus ombros secos,
enquanto me contorciono todo subindo
entre línguas de sol, roçar de galhos,
para alcançar e arremessar para ela,
no ponto mais extremo, o caqui mais doce.
1 361
Vicente Franz Cecim
Permissão para salgar o mármore
Porque se erguem da terra
e em toda a terra
ainda não se ouve o rumor negro da colheita,
é que esperam a tua sombra no crepúsculo
quando já passaste na manhã
a paciente,
a pedra
e a impaciente semente
Estás passando na amizade das coisas pelas coisas,
estás seguindo
e a luz é terrível
Paisagens
onde a infância doou seu fruto às Sombras
Serás azul
só na noite
em que partirem as tuas crinas
e o sol que semeamos ao redor da tua fronte,
com pensamentos de terra,
para dar ao ar
idéias
e os seus movimentos de nuvens
que às vezes formam a Lenta: A cabeça de um cavalo
Não há beijo
que console quem vê estrelas cadentes
Não há sede que apague esses fogos sobre nós
Aquilo
te deu mãos para cobrires teus olhos,
mas porque não são tuas mãos,
pára e colhe sem mágoa as lágrimas e a nossa água
Teus passos ainda são a fonte
Tu sempre estarás aqui,
pois em ti
se ergue o monte
Para que talhar nos lábios o espírito das ruínas?
As mãos são formas perdidas
e toda pedra torturada encontrada no caminho
já é a imagem de um deus
e em toda a terra
ainda não se ouve o rumor negro da colheita,
é que esperam a tua sombra no crepúsculo
quando já passaste na manhã
a paciente,
a pedra
e a impaciente semente
Estás passando na amizade das coisas pelas coisas,
estás seguindo
e a luz é terrível
Paisagens
onde a infância doou seu fruto às Sombras
Serás azul
só na noite
em que partirem as tuas crinas
e o sol que semeamos ao redor da tua fronte,
com pensamentos de terra,
para dar ao ar
idéias
e os seus movimentos de nuvens
que às vezes formam a Lenta: A cabeça de um cavalo
Não há beijo
que console quem vê estrelas cadentes
Não há sede que apague esses fogos sobre nós
Aquilo
te deu mãos para cobrires teus olhos,
mas porque não são tuas mãos,
pára e colhe sem mágoa as lágrimas e a nossa água
Teus passos ainda são a fonte
Tu sempre estarás aqui,
pois em ti
se ergue o monte
Para que talhar nos lábios o espírito das ruínas?
As mãos são formas perdidas
e toda pedra torturada encontrada no caminho
já é a imagem de um deus
1 053
Natália Correia
Violentámos a natureza
Violentámos a natureza quando matámos as nossas feras
Os homens copiavam os anjos;
Os anjos copiavam os homens;
Ambos copiavam a inocência;
A inocência copiava as feras.
As feras devoraram os homens;
Os anjos devoraram as feras.
A inocência vestiu-se de roxo
Pelo luto das futuras eras.
de Dimensão Encontrada(1957)
Os homens copiavam os anjos;
Os anjos copiavam os homens;
Ambos copiavam a inocência;
A inocência copiava as feras.
As feras devoraram os homens;
Os anjos devoraram as feras.
A inocência vestiu-se de roxo
Pelo luto das futuras eras.
de Dimensão Encontrada(1957)
2 575
William Carlos Williams
The Red Wheelbarrow
The Red Wheelbarrow
so much depends
upon
a red wheel
barrow
glazed with rain
water
beside the white
chickens.
so much depends
upon
a red wheel
barrow
glazed with rain
water
beside the white
chickens.
912
Amílcar Dória
The white birds
I would that we were, my beloved, white birds on the
foam of the sea!
We tire of the flame of the meteor, before it can fade
and flee;
And the flame of the blue star of twilight, hung low
on the rim of the sky,
Has awaked in our hearts, my beloved, a sadness that
may not die.
A weariness comes from those dreamers, dew-dabbled,
the lily and rose;
Ah, dream not of them, my beloved, the flame of the
meteor that goes,
Or the flame of the blue star that lingers hung low in
the fall of the dew:
For I would we were changed to white birds on the
wandering foam: I and you!
I am haunted by numberless islands, and many a
Danaan shore,
Where Time would surely forget us, and Sorrow come
near us no more;
Soon far from the rose and the lily and fret of the
flames would we be,
Were we only white birds, my beloved, buoyed out on
the foam of the sea!
foam of the sea!
We tire of the flame of the meteor, before it can fade
and flee;
And the flame of the blue star of twilight, hung low
on the rim of the sky,
Has awaked in our hearts, my beloved, a sadness that
may not die.
A weariness comes from those dreamers, dew-dabbled,
the lily and rose;
Ah, dream not of them, my beloved, the flame of the
meteor that goes,
Or the flame of the blue star that lingers hung low in
the fall of the dew:
For I would we were changed to white birds on the
wandering foam: I and you!
I am haunted by numberless islands, and many a
Danaan shore,
Where Time would surely forget us, and Sorrow come
near us no more;
Soon far from the rose and the lily and fret of the
flames would we be,
Were we only white birds, my beloved, buoyed out on
the foam of the sea!
1 077
Daniel Faria
Calculo uma doença difícil e definitiva
Calculo uma doença difícil e definitiva
Um sono que não se apaga no sono,ou melhor
Um verso parado no meio de um poema.
Imagino o poeta sem dormir e parado como um verso
No meio do poema.Imagino o poema sem dormir.
Tenta explicá-lo,compará-lo a Noé na arca
Saudoso de colocar de novo os pés descalços sobre a terra.
Penso que os animais saem de dentro das palavras
E vêm ter comigo
Que querem ter um nome como no princípio
Que querem beber.
Tu não sabes como te chamas,não sabes o nome das plantas
Esqueceste o nome dos teus irmãos
E nem mesmo a tua mãe te traz uma palavra á boca.
faço a inclinação de quem encosta o rosto ao focinho dos bichos
Com saudades do calor de uma voz que chama.
Nem mesmo eu sei dizer que terra firma lhes peço
Que alicerces fundos cavam quando pousam
As patas muito mansas sobre mim.
de Dos Líquidos (2000)
Um sono que não se apaga no sono,ou melhor
Um verso parado no meio de um poema.
Imagino o poeta sem dormir e parado como um verso
No meio do poema.Imagino o poema sem dormir.
Tenta explicá-lo,compará-lo a Noé na arca
Saudoso de colocar de novo os pés descalços sobre a terra.
Penso que os animais saem de dentro das palavras
E vêm ter comigo
Que querem ter um nome como no princípio
Que querem beber.
Tu não sabes como te chamas,não sabes o nome das plantas
Esqueceste o nome dos teus irmãos
E nem mesmo a tua mãe te traz uma palavra á boca.
faço a inclinação de quem encosta o rosto ao focinho dos bichos
Com saudades do calor de uma voz que chama.
Nem mesmo eu sei dizer que terra firma lhes peço
Que alicerces fundos cavam quando pousam
As patas muito mansas sobre mim.
de Dos Líquidos (2000)
1 601
Gilson Nascimento
A morte do escorrego
Do Escorrego a bica se finou
Como cantava! Agora emudeceu
Foi o homem, bem sei, que a magoou
Insensível e forte, ele a venceu
Perdida a sombra leve do arvoredo
Os pássaros, tristonhos, debandaram
A secura e o sol lhes deram medo
Bateram asas, longe, além, pousaram
Do bambusal se foi o sombrear
Da água não ouço o forte marulhar
Na paisagem há dor, há solidão
Na serra amiga os olhos meus pousando
Antevejo-lhe o verde estertorando
A implorar a nossa proteção
Como cantava! Agora emudeceu
Foi o homem, bem sei, que a magoou
Insensível e forte, ele a venceu
Perdida a sombra leve do arvoredo
Os pássaros, tristonhos, debandaram
A secura e o sol lhes deram medo
Bateram asas, longe, além, pousaram
Do bambusal se foi o sombrear
Da água não ouço o forte marulhar
Na paisagem há dor, há solidão
Na serra amiga os olhos meus pousando
Antevejo-lhe o verde estertorando
A implorar a nossa proteção
989
Jorge Lescano
Haicai
no calor da sesta
imóvel, o gato vigia
o vôo da vespa
chuva torrencial
sob a laje de concreto
um casal de pardais
imóvel, o gato vigia
o vôo da vespa
chuva torrencial
sob a laje de concreto
um casal de pardais
1 108
Avelino de Sousa
Queimadas
Sobre a planície rubra que arde qual paiol,
quanto o suão levanta do chão a palha seca,
a fornalha litúrgica e redonda do sol
esbraceja faúlhas, redemoinha, impreca.
Consome-se o restolho em estalos e sonidos
e a núvem de fumo sutrai-nos a lonjura;
as bocas inflamadas e os olhos incendidos
perdem-se secas, cegos, na héctica planura.
E após o apocalipse em escala diminuta,
quando tudo termina e o estrondear se cala,
resta a terra queimada, negra, rasa, bruta,
fundindo-se na sombra que desde o céu resvala.
Na planura sem fim que o acaso coroa
só uma aragem sopra, só o vento se inflama;
e eis que uma cigarra seu febril canto entoa:
remanescente luz ardendo sem ter chama.
quanto o suão levanta do chão a palha seca,
a fornalha litúrgica e redonda do sol
esbraceja faúlhas, redemoinha, impreca.
Consome-se o restolho em estalos e sonidos
e a núvem de fumo sutrai-nos a lonjura;
as bocas inflamadas e os olhos incendidos
perdem-se secas, cegos, na héctica planura.
E após o apocalipse em escala diminuta,
quando tudo termina e o estrondear se cala,
resta a terra queimada, negra, rasa, bruta,
fundindo-se na sombra que desde o céu resvala.
Na planura sem fim que o acaso coroa
só uma aragem sopra, só o vento se inflama;
e eis que uma cigarra seu febril canto entoa:
remanescente luz ardendo sem ter chama.
925
Alexandre S. Santos
Uma Alternativa
Deixar frouxos os arreios;
atentar para o instinto;
não depender de esteios;
tornar o medo extinto;
voar por vias invisíveis,
em travessia por mar,
sobre ondas aprazíveis,
espelhos turvos de luar;
Gozar o olor da mata,
e na pele o verde rocio
dos galhos altos, acrobata,
mergulhado em branco cicio;
orbitar com os cometas,
no negro sorriso de Deus;
Fruir o maná de rubras tetas,
de ti Natura, filhos teus;
No colo do afeto sentido
recostar os lábios soantes,
fazer do sopro emitido
o diálogo entre amantes;
e, desta anarquia natural
o fim - quem sabe?- do mal,
do velho conceito de certo,
um mundo são descoberto.
atentar para o instinto;
não depender de esteios;
tornar o medo extinto;
voar por vias invisíveis,
em travessia por mar,
sobre ondas aprazíveis,
espelhos turvos de luar;
Gozar o olor da mata,
e na pele o verde rocio
dos galhos altos, acrobata,
mergulhado em branco cicio;
orbitar com os cometas,
no negro sorriso de Deus;
Fruir o maná de rubras tetas,
de ti Natura, filhos teus;
No colo do afeto sentido
recostar os lábios soantes,
fazer do sopro emitido
o diálogo entre amantes;
e, desta anarquia natural
o fim - quem sabe?- do mal,
do velho conceito de certo,
um mundo são descoberto.
907